terça-feira, outubro 17, 2006

Fazer ou não fazer greve, eis a questão.


Incomoda-me tomar atitudes políticas quando sinto que há atitudes pessoais a resolver relativamente a essas políticas. Igualmente me desagrada tomar atitudes que se prendem com a minha vida profissional quando sinto que estou a deixar interferir emoções que se prendem com a minha vida pessoal. Há quem diga que estas distinções são puras abstracções. Não são. É difícil equilibrá-las mas elas existem e podem ser actualizadas na nossa prática. É o que impede que confundamos os nossos deveres com as nossas dores ou prazeres pessoais. Sei de pessoas que fazem análise da sua vida pessoal com os seus alunos, clientes, utentes ou colegas de trabalho nas horas de trabalho. Também sei de pessoas que de si nada dizem, nem dos livros que preferem nem das escolhas sobre assuntos públicos que propõem, de um acontecimento vivido que ajude ilustrar as suas explicações científicas ou de uma manifestação de gosto. É uma questão de balanço.

Fazer greve ou apoiar uma greve é uma questão profissional. Racionalidade das causas ou racionalidade dos interesses ? Será porque convictos da injustiça da causa para todos e contra o poder, ou do ataque aos nossos interesses particulares?
Ou porque não? Ou porque não pode deixar de ser, para que alguém escute a voz?

segunda-feira, outubro 16, 2006

Coisas que eu ouvi 4 - prof. Alvarez

Relativamente às campanhas políticas, à criação de candidatos pelos media e sua sustentação política através dos mesmos, Alvarez faz uma distinção entre as campanhas de José Sócrates, Merkel e Prodi, e as de Zapatero e Blair, dizendo as primeiras como sendo mais políticas que mediáticas e as dos segundos mais mediáticas que políticas. O que permite àqueles governantes europeus, na perpectiva do orador, dar prosseguimento às suas políticas, executando os seus programas sem que isso os deixe submetidos à imagem que os media deles passam, e sem que as sondagens os afectem tãoprofundamente quanto os que governam para a sua imagem, a imaginada, junto do eleitorado.
É curioso como esta análise do professor espanhol contraria de certa forma a ideia que os comentadores nacionais têm de que o Primeiro-ministro Sócrates e o seu governo sabem muito bem vender uma certa imagem enquanto políticos reformadores.

Coisas que eu ouvi 3- Prof. Alvarez

Ainda procurei contrapor às teses do prof. Alvarez com exemplos de jornalistas e de uma certa imprensa que reage contra a conversão da política aos interesses mediáticos altamente financiados, prosseguindo na sua tarefa de informar com rigor e espírito crítico. Mas o professor calou-me ao informar-me acerca da percentagem em termos de audiência desses programas e do número de vendas desses jornais. Perguntou: "E como resolvem os Diários esses problemas?" Respondeu: "Aliando-se a grandes grupos económicos."
A relação dinheiro, política e media é um tema incontornável, desde que a imprensa surgiu, claro, mas mais ainda hoje em dia, certo. No entanto, há esferas de resistência.

Coisas que eu ouvi 2 - José Timóteo Alvarez

Karl Rove , o director da campanha de Bush, o seu “spin doctor”, conseguiu ganhar 9,5 milhões de votos para o seu candidato de entre os 12 milhões de primeiros votantes. Sabendo-se da autoridade que o primeiro voto tem na determinação das intenções futuras de votação, Rove “deu” aos conservadores uma bela base de sustentação das suas políticas.
Karl Rove construiu a sua campanha com base em quatro ideias: 1. "As pessoas não ouvem o que se lhes diz"; 2. "As que ouvem não entendem"; 3. "As que entendem não têm interesse"; 4 "As que têm interesse esquecem-se".
Não ouvem, não entendem, não têm interesse e esquecem-se, então o que se dá às pessoas? Campanhas de política espectáculo.

Dizia ele que o paradigma de conceito mudou nesta última década por influência dos meios de comunicação que estariam a abandonar a sua função instrumental, de mediação das mensagens entre governantes e cidadãos e destes para os políticos, para se tornarem dominadores na forma e no tipo de selecção de conteúdo, obrigando os actores políticos e sociais a seguirem na sua acção comunicativa o formato por estes impostos. Deu como exemplo o preço das campanhas políticas que, com a generalização da TV já nos anos 80, se têm vindo a tornar incomportáveis para os partidos políticos, ficando por esclarecer a questão de “onde é que se vai buscar o dinheiro para pagar as campanhas?” Quem é que financia as campanhas políticas dos nossos candidatos a governantes?
Neste sentido, a confusão entre a política e os negócios torna-se a marca do poder que temos. Passa-se a ter mais uma definição de Estado, paralela à de muitos outros: o Estado contemporâneo tende a ser um Estado Virtual em que o poder se dilui. O Estado dos que funcionam segundo o sistema que envolve a troca e a venda de mercadoria ideológica organizanda entre os meios de comunicação, os políticos e os financeiros.

Será na tríade política, dinheiro e media que teremos então que buscar indícios da nova forma de poder travestida no mundo, sendo que todo o poder que se converta a uma só ideologia (no caso à dos poderes económicos) se transforma numa tirania.

domingo, outubro 15, 2006

Coisas que eu ouvi 1 - Lakoff e um “think tank” para a esquerda


Georges Lakoff no lançamento de um dos seus últimos livros terá discursado sobre a necessidade dos liberais americanos concentrarem os seus recursos económicos na criação de grupos que se dediquem à análise e produção de ideias novas em política (“think tanks”) à semelhança do que é já tradição para os conservadores. Para Lakafoff a esquerda estaria a perder no campo da interpretação da realidade política (incapaz de produzir novas metáforas representativas), tanto quanto na capacidade de criar argumentos para propor novas visões políticas do mundo.

Não sabia que Lakoff era um liberal. Nem sabia que ele se preocupava com a produção de novas ideias liberais para analisar a realidade. Também não tinha a percepção tão aguda de que fossem os conservadores a potenciarem com as suas contribuições financeiras os maiores, melhores e mais efectivos grupos de estudo na área da política. Sempre julguei que isso era indiferente e que, de um ponto de vista da investigação, seria mesmo necessário ultrapassar a necessidade pessoal de identificação ideológica por parte dos que se dedicavam ao trabalho de análise política nacional e internacional.
O livro Think Tank Traditions, Policy Research and the Politics of Ideas não me tinha aliás preparado para outra visão. Sendo no entanto um livro exaustivo sobre a identificação dessas instituições no mundo.

Perguntei ao meu interlocutor se acaso Lakoff não teria interpretado a ausência de um discurso de esquerda no facto de essa esquerda ter tido Marx como o grande dínamo ideológico, sob a energia do qual dezenas de governos pareceram pôr-se em movimento, deixando exauridos todos os outros ideólogos de esquerda que não cabiam no sistema do comunista astro rei, e que não tinham tido a hipótese de se manifestar, pelo efeito do argumento de autoridade que, neste campo, lhes retirava a palavra e submetia a vontade. Mas, segundo julgo ter compreendido, a interpretação de Lakoff prendia-se mais com o tipo de opção financeira, distinta entre si, dos conservadores e liberais, sendo que os primeiros tendem a concentrar esforços na criação desses centros de investigação, e a dispersar menos o dinheiro em miríades de outras causas causas sociais.


Quem me contava este e outros episódios era o professor Tito Cardoso e Cunha. Fora meu professor no curso de mestrado em Ciências da Comunicação na Universidade Nova e agora, no jantar que reuniu a maioria dos oradores das III Jornadas de Comunicação e Política, organizadas pelo prof. João carlos Correia da Universidade da Beira Interior, eu tinha a sorte de o ter sentado à minha frente. O tom pausado, baixo e comedido do professor fá-lo um orador mais atractivo numa conversa com um grupo pequeno de interlocutores, que se calam reflectidamente para o ouvir.

Covilhã

A montanha estava soberba nos dias quentes e limpos. No seu sopé, ela impôs-se-nos, obrigando-nos a levantar os olhos para a contemplarmos.

quarta-feira, outubro 11, 2006

MIT

O MIT chegou. Só posso ficar satisfeita. E no entanto não posso deixar de pensar no artigo de Paulo Ferreira que em tempos o "Bloguítica" assinalou, não porque Ferreira acertasse totalmente na previsão, felizmente, mas pelo que se pressente de mal-entendidos na origem do processo, e pelo que sabemos revelar sobre um comportamento endémico nas academias.

liberdade de expressão também é assassinada no Iraque

Depois de ler ontem a notícia do assassínio de Anna Politkovskaya na página do Committee to Protect Journalists fui ler a notícia dos jornalistas mortos no Iraque. Foram assassinados 8o jornalistas desde o início do conflito em 2003, e estão dados como raptados 41.
Um jornalista não é mais importante que qualquer outra pessoa. Mas a sua função em política é das mais importantes no sentido em que se apresenta como o agente que pode manifestar o uso da liberdade de expressão. A sua morte não é só o da sua pessoa, é a morte da prática da liberdade de expressão na sociedade que o mata.

terça-feira, outubro 10, 2006

Tentativa de resposta

Aceitará o meu leitor Marco Aurélio que eu argumente num sentido ligeiramente diferente relativamente à questão EUA/Coreia do Norte?

Ontem estive a ver o programa "60 minutos" que em Portugal passa na Sic Notícias. Parte do programa era a apresentação de uma entrevista ao jornalista Bob Woodward, na qual ele comentava as descrições e opiniões expressas no seu livro "State of Denial". Com um ar sóbrio e procurando fundamentar as suas conclusões, descrevendo situações, diálogos, relatando mesmo estados de espírito, o jornalista reconstitui as acções que levaram, no pós 11 de Setembro, à calamitosa decisão de invadir o Iraque por parte dos Estados Unidos da América.

Ficamos a saber como o Vice-presidente Dick Cheney pressionou Bush até à exaustão, e como este se deixou convencer, defendendo-se com a ideia de que a intervenção dos EUA (leia-se a sua intervenção pessoal) relevava de um designío divino de imposição de paz no mundo. É assustador. Tanto pelos motivos que esconde para justificar a legitimidade da sua escolha, sendo que estes não são passíveis de ser fiscalizados ou possam ser comentados, porque são da esfera da crença pessoal, não partilhável, o que torna o caso ainda mais assustador, mas sobretudo pelos motivos que evocou para defender essa intervenção. E estes são passíveis de ser fiscalizados. São mentiras. São factos que podem ser apresentados para contrapor às suas posições.

Mas, ao contrário de muitos líderes mundiais, Bush vive numa democracia dinâmica, com uma imprensa que está a acordar da sua vertigem patrioteira e a voltar a cumprir o seu papel que é o de informar e de publicar opiniões diferentes sobre o mesmo assunto para permitir aos leitores um maior leque de influências. O mesmo não se pode dizer de outras partes do mundo.

Por outro lado, o mal da administração Bush no Iraque (e dos milhares de iraquinanos mortos e feridos em consequência dessa intervenção militar) é o bem das Nações Unidas que vai reforçando nos últimos meses o seu papel como organização orientada, sobretudo, para a manutenção do estado de Paz no mundo. Sem o desaire do Iraque, talvez o Irão e a Coreia do Norte não tivessem sentido que era oportuno iniciarem ou desenvolverem os seus programas nucleares, talvez, mas também não teríamos os Estados Unidos tão afinados em prosseguirem esforços de resolução de conflitos por via diplomática em colaboração com a China ou com o Líbano, como por exemplo temos vindo a acontecer nos últimos tempos. Deixou o presidente americano de se sentir o "iluminado" que pode avançar sozinho pela pradaria a combater os maus e passou a ter que contar com a influência de Instituições que estavam cá antes de ele chegar à política, e hão-de cá ficar depois de ele desaparecer da esfera da acção política. Para desgraça de muitos, o homem teve que aprender isso pela experiência.

Os pupilos do Sr. Estaline

Andei distraída com o jogo de domínio de mestres estrategos da Coreia do Norte e a tentar perceber como iria reagir a China que foi posta entre a espada e a parede no que à sua política de apoio sustentado à Coreia do Norte diz respeito. E o meu meio sorriso pelo discurso cauteloso do governo chinês relativamente a uma acção concertada com outras nações contra o regime de Pyongyang é mais de desânimo do que de contentamento pela previsibilidade. Por isso deixei passar a notícia do assassínio da jornalista russa Ann Politkovskaya.
Teresa de Sousa no seu artigo hoje do "Público" tem toda a razão quando alerta para o perigo de descuidarmos na vigilância das acções do governo russo, de subestirmarmos as acções de um governo autoritário, já que se revela pouco respeitador dos tratados internacionais no que a questões dos direitos humanos diz respeito, e sem que a que comunidade internacional esteja a fiscalizar convenientemente o que se passa com a intervenção russa na Tchechénia.

segunda-feira, outubro 09, 2006

Falar de dinheiro

Porque é preciso falar de dinheiro, de como ganhá-lo, mas sobretudo como planear as finanças e investir, para saber gastá-lo, é que eu penso que o artigo de Helena Garrido hoje no "diário de Notícias" é fundamental.
Nos programas americanos de grande audiência, e que passam em Portugal como o "dr. Phil" ou "Oprah", já vi dedicarem ao tema da planificação económica das famílias quase uma hora inteira. Daquela maneira prática americana, embora muito superficial e com o recurso narrativo do tipo "agora nós vamos resolver-lhe o seu problema desde já, é só começar a ler este livro", a vida económica das famílias que pedem ajuda é escrutinada e depois é-lhes sugerido um plano estrito para as ajudar a saldar as divídas em que estão submersas.
Todos sabem da importância social que representa o endividamento das famílias e por isso procuram mudar atitudes, influenciar positivamente um comportamento mais racional com o consumo.
A taxa de divórcios a aumentar, o baixar das possibilidades de pagar uma boa educação aos filhos, o prenúncio de uma velhice com dificuldades financeiras, são problemas reais com que as pessoas lidam. É preciso estimulá-las a defenderem-se de uma instituição agressiva e que induz ao consumo como é a banca, fornecendo um modelo de vida mais estimulante do que viver acima das reais possibilidades económicas da sua família.
É bom que em Portugal se fale destas questões o mais pragmaticamente possível. Se fale de como distribuir dinheiro, de como pagar divídas, ajudando as pessoas a livrarem-se desse peso que carregam até à próxima geração.
É triste porque o dinheiro chegou tarde e já não é muito, e é bom gastá-lo, mas é preciso dizer o que os nossos antepassados sabiam, viver de aparências destrói o próprio indivíduo pelo esforço sem sentido em que está envolvido.
Seria bom também que o mercado de aluguer de habitação se equilibrasse finalmente, porque até agora os senhorios estão em pânico com o aumento desproporcionado do IMI e há uma grande maioria que prefere não adoptar a nova lei das rendas, para já, o que deixa muitas famílias sem opções a não ser a de comprar casa ou alugar por preço exorbitante.

nos meus programas de televisão - ontem

Ontem, antes de ver o último episódio do "Sexo e a Cidade" de que gostei mais ou menos, mais pelas personagens, pelo guarda-roupa e por uma ou outra emoção, menos pelo desfecho em passo acelerado de quem quer terminar e é assim e agora, ainda consegui ver um bom bocado da entrevista de Maria João Avillez. Concordei em absoluto com a definição que o director do "Correio da manhã", João Marcelino, deu do semanário "Sol": "Começa-se como com o Expresso, passa-se pelo Público e pelo Correio da Manhã e termina-se no 24 Horas". Mas enquanto percebi a pertinência da presença de João Marcelino e de José Manuel Fernandes, director do "Público", não percebi a presença de Proença de Carvalho num programa em que se discutia os meios de comunicação em geral e a imprensa em particular no actual contexto cultural e tecnológico. Só se o conhecido advogado estava lá para dar o contributo de um leigo sobre o assunto. O que, convenhamos, é uma justificação muito coxa.
Não há especialistas académicos em jornalismo que servissem de maior e melhor contrapeso explicativo à prática dos directores presentes?

o discurso do Procurador

Quando os Presidentes da República falam de ética, dão um discurso bonito, podem estar a indicar vias de acção, mas podem fazer pouco para desenvolver realmente a consciência moral social. Quando um Procurador-Geral da República fala de ética, dá um discurso bonito, está a indicar vias de acção e pode fazer muito para desenvolver a consciência moral social.

Mesmo sabendo que a justiça não é a mesma coisa que a lei, como terá aprendido com Kohlberg, Pinto Monteiro reconhece que sem a lei e o recto cumprimento da mesma, a justiça mais dificilmente será alcançável, pois mais dificilmente se passará aos outros estádios do desenvolvimento moral da sociedade, que são superiores ao que é caracterizado pelo recto cumprimento da lei.
Será um caso de estudo saber o que irá ele fazer tendo à partida um discurso filosoficamente bem fundamentado e moralmente ambicioso, como é este seu.

A Coreia do Norte ou o pupilo Chinês

A China ajudou a criar e a alimentar essa máquina militar Norte-Coreana, apoiando há décadas, com dinheiro, alimentos, conhecimento e homens, a sua política agressiva. Será interessante ver agora como irá reagir à fuga do seu pupilo para a boca de cena, lugar que a China quer ocupar na região, para já não falar num palco mais alargado que tenha o mundo por dimensão. Assim, ou se cola às políticas de sanção e proibição em nome do uso da força com os restantes países, e torna-se mais uma voz em consonância, mas perde protagonismo, ou se continua a colar ao regime de Kim Il Sung, mas correndo o risco de ver escapar a criatura ao poder do criador e ficar com uma grande tragédia nas mãos.

De qualquer modo, o envolvimento da China será de seguir com a máxima atenção tendo em linha de conta as debilidades militares internacionais, com forças espalhadas já pelo mundo, e as debilidades políticas de intervenção do Japão que tem uma história recente por resolver ainda com muitos países da região e da Coreia do Sul que não tem o poder que gostaria. Será no governo Chinês que se terá que confiar para ajudar a controlar o problema e no quadro dos seus poderes e deveres como membro do Conselho de Segurança da ONU.

sábado, outubro 07, 2006

Prémio Nobel

“Ele é um supervisor competente e exemplar, encoraja muito a comunicação, está sempre disponível para o diálogo e o objectivo dele é estar o máximo de tempo com a sua equipa.” Está a falar de quem este aluno de doutoramento? Do prémio Nobel da medicina deste ano, Craig Mello. Isto pode-se ler no semanário “Expresso” de hoje.

“Há universidades que estão a receber centenas de alunos sem o 12º ano, ou mesmo sem o 9º ano. A possibilidade foi aberta pela autonomia dada pelo Governo, em nome da igualdade de oportunidades na educação.” Isto pode-se ler no semanário "Sol" de hoje.
Estão a falar de quem? Dos alunos portugueses, a quem os Governos portugueses têm vindo desde há décadas a alienar na sua capacidade de trabalho e de evolução ao unificarem e desnivelarem o ensino a parâmetros de insuficiência contínua, em nome da igualdade. Isto não é igualdade, é mediocridade. É sabotar a capacidade de trabalho, de exigência e de capacidade dos alunos, passando-lhe a mensagem de que “deixem lá, no fim entra toda a gente para a universidade”. E enganam-nos, porque a desigualdade se acentua. Os ricos, ou os mais informados, vão estudar para o estrangeiro e cá ficam os que se licenciam para assegurar os vencimentos de professores, para depois engrossarem a bicha do desemprego.

Portugal um país de oportunidades: na cabeça de alguns

Eu gostaria de saber se a Presidente da Câmara de Vila de Reis não corou sequer quando disse relativamente aos brasileiros que estão abandonar a vila:”Se eles não querem ficar ou não se adaptaram, o problema é deles. São todos adultos, para saberem o que querem.” Esta senhora que foi ao Brasil aliciar cidadãos para virem habitar no seu concelho, não deverá ser acusada de incitamento ilícito à emigração, por ter tido a impertinência de promover o que nem ela nem ninguém do seu concelho estava em condições de providenciar aos brasileiros que procuravam uma vida melhor no nosso país?
E já agora, viajou a título individual ou a expensas do erário público quando decidiu pôr em marcha este projecto de repovoação?
Estes políticos espaventados dão cabo da classe. Não pela ideia em si, que tem algum mérito, não pela vontade, que implica um desejo, mas pela incapacidade de prever as dificuldades, pela ligeireza com que se desmarcam das suas próprias acções. Tudo colado a cuspo nas nossas vidas públicas, sem consciência, nem responsabilidade. A eterna fuga para a frente dos nossos poderes.

sexta-feira, outubro 06, 2006

Porque não falam as portuguesas?


Ontem ouvi o discurso do nosso Presidente da República na Antena 1. Vinha no carro, o sol a bater no vidro, meio amodorrada. O discurso era bonito, correcto. Não empolgava, mas a normalidade, nos discursos como na História, não costumam empolgar. E a data, excepto para os defensores da República para Olivença já, para os monárquicos, para os filósofos que discutem a passagem da ética republicana à ética deliberativa em democracia, ou para os realizadores de eventos que discutem a importância de uma varanda relativamente a uma praça e vice-versa, é de normalidade. Os defensores da causa Olivença têm razão, a diplomacia portuguesa à época andou mal ao não reivindicar o território. Mas não sei se em termos de direito internacional o caso não terá já prescrito, não havendo qualquer hipótese de reclamação. Quem deve ficar feliz é o director do semanário “Sol” que de quando em vez lá descobre meia dúzia de portugueses que gostariam, tanto quanto ele, de ter por dieta principal uns carapaus com molho à espanhola, e que tem ali em Olivença uma antecâmara de acesso ao imaginado paraíso. Como eu e as minhas amigas dizíamos na adolescência, sem pensarmos muito no dramatismo da expressão, “isso só sobre o meu cadáver”.

Estava tudo a correr muito bem. Não havia muito povo, mas o povo também tem que passear, limpar as casas, dormir até mais tarde. Enfim, as coisas que o povo faz quando não anda preocupado com revoluções (sorte a do Eng.º Sócrates). Havia música e, presumo, porque só ouvi, não vi, devia haver flores. Mas de repente a jornalista da Antena 1, terminado o discurso presidencial, resolveu saber a opinião dos que estavam à volta. Falou um senhor, depois a jornalista queria que uma senhora falasse e…está bem está…a jornalista explicava-nos: “Geralmente as senhoras recusam-se sempre a falar”. Eu encolhia-me conforme a repórter nos ía indicando as senhoras que se recusavam a falar, e eram muitas. E ela lá se virou para mais um senhor que, esses, parecem que têm sempre qualquer coisa para dizer.

Razão tem a professora João Silveirinha que investiga o modo como os géneros se manifestam de forma distinta na esfera pública em geral e na política em particular. E eu, que até sou muito reticente, não posso deixar de pensar que a recusa em falar por parte das mulheres portuguesas precisa de ser explicado.

quinta-feira, outubro 05, 2006

os bisnetos da República

Num dia em que se passa o tempo todo com vontade de ir por aí por uma estrada fora de mãos nos bolsos a dar pontapés numa pedra, que atenção dar à mensagem presidencial?

quarta-feira, outubro 04, 2006

E depois da pausa...as eleições brasileiras como os investigadores as vêem

Lula da Silva não quis deixar de ser presidente mesmo naquelas alturas em que necessariamente tinha que se tornar candidato à presidência, por via das regras e dos ciclos da democracia que obrigam cada governante a apresentar-se a eleições. Escudou-se numa pose de Estado que julgou ser suficiente para justificar a sua ausência dos debates públicos, separando-se dos outros concorrentes ao lugar. Escrutinado pelas urnas, mas também por grupos académicos que estudam a actuação comunicacional dos políticos em geral, e dos candidatos a eleições em particular, o discurso de Lula não está a convencer e vai ter que mudar.

Repare-se neste trabalho de uma equipa de investigadores brasileiros sobre as eleições presidenciais no Brasil. Os brasileiros têm uma escola de análise da comunicação política, de influência americana nos métodos utilizados, verdadeiramente interessante. Quando vêm fazer conferências a Portugal conseguem sempre surpreender-nos com o trabalho de investigação empírico que habilitadamente reunem e apresentam. A tradição nesta área é muito consistente.
Veja-se por exemplo a análise de um anúncio televisivo da campanha de Lula de 2002, quando foi eleito presidente pela primeira vez, conduzida por Sérgio Roberto Trein, arquivado e apresentado pelo Laboratório de comunicação on-line.

Em Portugal só se pensa sobre Comunicação Política (ou em Comunicação e Política, o que é diferente, mesmo assim), há muito pouco tempo, sendo esse campo ocupado pelas agências de comunicação que desenvolvem a sua prática de assessoria aos candidatos ou aos governantes na área da comunicação política. A monitorização da quantidade e qualidade das notícias políticas, o estudo das imagens e dos discursos, a reflexão sobre a influência das agendas políticas sobre as mediáticas, assim bem como a inversa, ainda está numa fase incipiente, sendo normalmente encarada pela nossa academia clássica como uma excrescência da Ciência política e/ou das Ciências da Comunicação. Falta andar esse caminho.

Pausa para pensar em prioridades


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