segunda-feira, outubro 16, 2006

Coisas que eu ouvi 4 - prof. Alvarez

Relativamente às campanhas políticas, à criação de candidatos pelos media e sua sustentação política através dos mesmos, Alvarez faz uma distinção entre as campanhas de José Sócrates, Merkel e Prodi, e as de Zapatero e Blair, dizendo as primeiras como sendo mais políticas que mediáticas e as dos segundos mais mediáticas que políticas. O que permite àqueles governantes europeus, na perpectiva do orador, dar prosseguimento às suas políticas, executando os seus programas sem que isso os deixe submetidos à imagem que os media deles passam, e sem que as sondagens os afectem tãoprofundamente quanto os que governam para a sua imagem, a imaginada, junto do eleitorado.
É curioso como esta análise do professor espanhol contraria de certa forma a ideia que os comentadores nacionais têm de que o Primeiro-ministro Sócrates e o seu governo sabem muito bem vender uma certa imagem enquanto políticos reformadores.

Coisas que eu ouvi 3- Prof. Alvarez

Ainda procurei contrapor às teses do prof. Alvarez com exemplos de jornalistas e de uma certa imprensa que reage contra a conversão da política aos interesses mediáticos altamente financiados, prosseguindo na sua tarefa de informar com rigor e espírito crítico. Mas o professor calou-me ao informar-me acerca da percentagem em termos de audiência desses programas e do número de vendas desses jornais. Perguntou: "E como resolvem os Diários esses problemas?" Respondeu: "Aliando-se a grandes grupos económicos."
A relação dinheiro, política e media é um tema incontornável, desde que a imprensa surgiu, claro, mas mais ainda hoje em dia, certo. No entanto, há esferas de resistência.

Coisas que eu ouvi 2 - José Timóteo Alvarez

Karl Rove , o director da campanha de Bush, o seu “spin doctor”, conseguiu ganhar 9,5 milhões de votos para o seu candidato de entre os 12 milhões de primeiros votantes. Sabendo-se da autoridade que o primeiro voto tem na determinação das intenções futuras de votação, Rove “deu” aos conservadores uma bela base de sustentação das suas políticas.
Karl Rove construiu a sua campanha com base em quatro ideias: 1. "As pessoas não ouvem o que se lhes diz"; 2. "As que ouvem não entendem"; 3. "As que entendem não têm interesse"; 4 "As que têm interesse esquecem-se".
Não ouvem, não entendem, não têm interesse e esquecem-se, então o que se dá às pessoas? Campanhas de política espectáculo.

Dizia ele que o paradigma de conceito mudou nesta última década por influência dos meios de comunicação que estariam a abandonar a sua função instrumental, de mediação das mensagens entre governantes e cidadãos e destes para os políticos, para se tornarem dominadores na forma e no tipo de selecção de conteúdo, obrigando os actores políticos e sociais a seguirem na sua acção comunicativa o formato por estes impostos. Deu como exemplo o preço das campanhas políticas que, com a generalização da TV já nos anos 80, se têm vindo a tornar incomportáveis para os partidos políticos, ficando por esclarecer a questão de “onde é que se vai buscar o dinheiro para pagar as campanhas?” Quem é que financia as campanhas políticas dos nossos candidatos a governantes?
Neste sentido, a confusão entre a política e os negócios torna-se a marca do poder que temos. Passa-se a ter mais uma definição de Estado, paralela à de muitos outros: o Estado contemporâneo tende a ser um Estado Virtual em que o poder se dilui. O Estado dos que funcionam segundo o sistema que envolve a troca e a venda de mercadoria ideológica organizanda entre os meios de comunicação, os políticos e os financeiros.

Será na tríade política, dinheiro e media que teremos então que buscar indícios da nova forma de poder travestida no mundo, sendo que todo o poder que se converta a uma só ideologia (no caso à dos poderes económicos) se transforma numa tirania.

domingo, outubro 15, 2006

Coisas que eu ouvi 1 - Lakoff e um “think tank” para a esquerda


Georges Lakoff no lançamento de um dos seus últimos livros terá discursado sobre a necessidade dos liberais americanos concentrarem os seus recursos económicos na criação de grupos que se dediquem à análise e produção de ideias novas em política (“think tanks”) à semelhança do que é já tradição para os conservadores. Para Lakafoff a esquerda estaria a perder no campo da interpretação da realidade política (incapaz de produzir novas metáforas representativas), tanto quanto na capacidade de criar argumentos para propor novas visões políticas do mundo.

Não sabia que Lakoff era um liberal. Nem sabia que ele se preocupava com a produção de novas ideias liberais para analisar a realidade. Também não tinha a percepção tão aguda de que fossem os conservadores a potenciarem com as suas contribuições financeiras os maiores, melhores e mais efectivos grupos de estudo na área da política. Sempre julguei que isso era indiferente e que, de um ponto de vista da investigação, seria mesmo necessário ultrapassar a necessidade pessoal de identificação ideológica por parte dos que se dedicavam ao trabalho de análise política nacional e internacional.
O livro Think Tank Traditions, Policy Research and the Politics of Ideas não me tinha aliás preparado para outra visão. Sendo no entanto um livro exaustivo sobre a identificação dessas instituições no mundo.

Perguntei ao meu interlocutor se acaso Lakoff não teria interpretado a ausência de um discurso de esquerda no facto de essa esquerda ter tido Marx como o grande dínamo ideológico, sob a energia do qual dezenas de governos pareceram pôr-se em movimento, deixando exauridos todos os outros ideólogos de esquerda que não cabiam no sistema do comunista astro rei, e que não tinham tido a hipótese de se manifestar, pelo efeito do argumento de autoridade que, neste campo, lhes retirava a palavra e submetia a vontade. Mas, segundo julgo ter compreendido, a interpretação de Lakoff prendia-se mais com o tipo de opção financeira, distinta entre si, dos conservadores e liberais, sendo que os primeiros tendem a concentrar esforços na criação desses centros de investigação, e a dispersar menos o dinheiro em miríades de outras causas causas sociais.


Quem me contava este e outros episódios era o professor Tito Cardoso e Cunha. Fora meu professor no curso de mestrado em Ciências da Comunicação na Universidade Nova e agora, no jantar que reuniu a maioria dos oradores das III Jornadas de Comunicação e Política, organizadas pelo prof. João carlos Correia da Universidade da Beira Interior, eu tinha a sorte de o ter sentado à minha frente. O tom pausado, baixo e comedido do professor fá-lo um orador mais atractivo numa conversa com um grupo pequeno de interlocutores, que se calam reflectidamente para o ouvir.

Covilhã

A montanha estava soberba nos dias quentes e limpos. No seu sopé, ela impôs-se-nos, obrigando-nos a levantar os olhos para a contemplarmos.

quarta-feira, outubro 11, 2006

MIT

O MIT chegou. Só posso ficar satisfeita. E no entanto não posso deixar de pensar no artigo de Paulo Ferreira que em tempos o "Bloguítica" assinalou, não porque Ferreira acertasse totalmente na previsão, felizmente, mas pelo que se pressente de mal-entendidos na origem do processo, e pelo que sabemos revelar sobre um comportamento endémico nas academias.

liberdade de expressão também é assassinada no Iraque

Depois de ler ontem a notícia do assassínio de Anna Politkovskaya na página do Committee to Protect Journalists fui ler a notícia dos jornalistas mortos no Iraque. Foram assassinados 8o jornalistas desde o início do conflito em 2003, e estão dados como raptados 41.
Um jornalista não é mais importante que qualquer outra pessoa. Mas a sua função em política é das mais importantes no sentido em que se apresenta como o agente que pode manifestar o uso da liberdade de expressão. A sua morte não é só o da sua pessoa, é a morte da prática da liberdade de expressão na sociedade que o mata.

terça-feira, outubro 10, 2006

Tentativa de resposta

Aceitará o meu leitor Marco Aurélio que eu argumente num sentido ligeiramente diferente relativamente à questão EUA/Coreia do Norte?

Ontem estive a ver o programa "60 minutos" que em Portugal passa na Sic Notícias. Parte do programa era a apresentação de uma entrevista ao jornalista Bob Woodward, na qual ele comentava as descrições e opiniões expressas no seu livro "State of Denial". Com um ar sóbrio e procurando fundamentar as suas conclusões, descrevendo situações, diálogos, relatando mesmo estados de espírito, o jornalista reconstitui as acções que levaram, no pós 11 de Setembro, à calamitosa decisão de invadir o Iraque por parte dos Estados Unidos da América.

Ficamos a saber como o Vice-presidente Dick Cheney pressionou Bush até à exaustão, e como este se deixou convencer, defendendo-se com a ideia de que a intervenção dos EUA (leia-se a sua intervenção pessoal) relevava de um designío divino de imposição de paz no mundo. É assustador. Tanto pelos motivos que esconde para justificar a legitimidade da sua escolha, sendo que estes não são passíveis de ser fiscalizados ou possam ser comentados, porque são da esfera da crença pessoal, não partilhável, o que torna o caso ainda mais assustador, mas sobretudo pelos motivos que evocou para defender essa intervenção. E estes são passíveis de ser fiscalizados. São mentiras. São factos que podem ser apresentados para contrapor às suas posições.

Mas, ao contrário de muitos líderes mundiais, Bush vive numa democracia dinâmica, com uma imprensa que está a acordar da sua vertigem patrioteira e a voltar a cumprir o seu papel que é o de informar e de publicar opiniões diferentes sobre o mesmo assunto para permitir aos leitores um maior leque de influências. O mesmo não se pode dizer de outras partes do mundo.

Por outro lado, o mal da administração Bush no Iraque (e dos milhares de iraquinanos mortos e feridos em consequência dessa intervenção militar) é o bem das Nações Unidas que vai reforçando nos últimos meses o seu papel como organização orientada, sobretudo, para a manutenção do estado de Paz no mundo. Sem o desaire do Iraque, talvez o Irão e a Coreia do Norte não tivessem sentido que era oportuno iniciarem ou desenvolverem os seus programas nucleares, talvez, mas também não teríamos os Estados Unidos tão afinados em prosseguirem esforços de resolução de conflitos por via diplomática em colaboração com a China ou com o Líbano, como por exemplo temos vindo a acontecer nos últimos tempos. Deixou o presidente americano de se sentir o "iluminado" que pode avançar sozinho pela pradaria a combater os maus e passou a ter que contar com a influência de Instituições que estavam cá antes de ele chegar à política, e hão-de cá ficar depois de ele desaparecer da esfera da acção política. Para desgraça de muitos, o homem teve que aprender isso pela experiência.

Os pupilos do Sr. Estaline

Andei distraída com o jogo de domínio de mestres estrategos da Coreia do Norte e a tentar perceber como iria reagir a China que foi posta entre a espada e a parede no que à sua política de apoio sustentado à Coreia do Norte diz respeito. E o meu meio sorriso pelo discurso cauteloso do governo chinês relativamente a uma acção concertada com outras nações contra o regime de Pyongyang é mais de desânimo do que de contentamento pela previsibilidade. Por isso deixei passar a notícia do assassínio da jornalista russa Ann Politkovskaya.
Teresa de Sousa no seu artigo hoje do "Público" tem toda a razão quando alerta para o perigo de descuidarmos na vigilância das acções do governo russo, de subestirmarmos as acções de um governo autoritário, já que se revela pouco respeitador dos tratados internacionais no que a questões dos direitos humanos diz respeito, e sem que a que comunidade internacional esteja a fiscalizar convenientemente o que se passa com a intervenção russa na Tchechénia.

segunda-feira, outubro 09, 2006

Falar de dinheiro

Porque é preciso falar de dinheiro, de como ganhá-lo, mas sobretudo como planear as finanças e investir, para saber gastá-lo, é que eu penso que o artigo de Helena Garrido hoje no "diário de Notícias" é fundamental.
Nos programas americanos de grande audiência, e que passam em Portugal como o "dr. Phil" ou "Oprah", já vi dedicarem ao tema da planificação económica das famílias quase uma hora inteira. Daquela maneira prática americana, embora muito superficial e com o recurso narrativo do tipo "agora nós vamos resolver-lhe o seu problema desde já, é só começar a ler este livro", a vida económica das famílias que pedem ajuda é escrutinada e depois é-lhes sugerido um plano estrito para as ajudar a saldar as divídas em que estão submersas.
Todos sabem da importância social que representa o endividamento das famílias e por isso procuram mudar atitudes, influenciar positivamente um comportamento mais racional com o consumo.
A taxa de divórcios a aumentar, o baixar das possibilidades de pagar uma boa educação aos filhos, o prenúncio de uma velhice com dificuldades financeiras, são problemas reais com que as pessoas lidam. É preciso estimulá-las a defenderem-se de uma instituição agressiva e que induz ao consumo como é a banca, fornecendo um modelo de vida mais estimulante do que viver acima das reais possibilidades económicas da sua família.
É bom que em Portugal se fale destas questões o mais pragmaticamente possível. Se fale de como distribuir dinheiro, de como pagar divídas, ajudando as pessoas a livrarem-se desse peso que carregam até à próxima geração.
É triste porque o dinheiro chegou tarde e já não é muito, e é bom gastá-lo, mas é preciso dizer o que os nossos antepassados sabiam, viver de aparências destrói o próprio indivíduo pelo esforço sem sentido em que está envolvido.
Seria bom também que o mercado de aluguer de habitação se equilibrasse finalmente, porque até agora os senhorios estão em pânico com o aumento desproporcionado do IMI e há uma grande maioria que prefere não adoptar a nova lei das rendas, para já, o que deixa muitas famílias sem opções a não ser a de comprar casa ou alugar por preço exorbitante.

nos meus programas de televisão - ontem

Ontem, antes de ver o último episódio do "Sexo e a Cidade" de que gostei mais ou menos, mais pelas personagens, pelo guarda-roupa e por uma ou outra emoção, menos pelo desfecho em passo acelerado de quem quer terminar e é assim e agora, ainda consegui ver um bom bocado da entrevista de Maria João Avillez. Concordei em absoluto com a definição que o director do "Correio da manhã", João Marcelino, deu do semanário "Sol": "Começa-se como com o Expresso, passa-se pelo Público e pelo Correio da Manhã e termina-se no 24 Horas". Mas enquanto percebi a pertinência da presença de João Marcelino e de José Manuel Fernandes, director do "Público", não percebi a presença de Proença de Carvalho num programa em que se discutia os meios de comunicação em geral e a imprensa em particular no actual contexto cultural e tecnológico. Só se o conhecido advogado estava lá para dar o contributo de um leigo sobre o assunto. O que, convenhamos, é uma justificação muito coxa.
Não há especialistas académicos em jornalismo que servissem de maior e melhor contrapeso explicativo à prática dos directores presentes?

o discurso do Procurador

Quando os Presidentes da República falam de ética, dão um discurso bonito, podem estar a indicar vias de acção, mas podem fazer pouco para desenvolver realmente a consciência moral social. Quando um Procurador-Geral da República fala de ética, dá um discurso bonito, está a indicar vias de acção e pode fazer muito para desenvolver a consciência moral social.

Mesmo sabendo que a justiça não é a mesma coisa que a lei, como terá aprendido com Kohlberg, Pinto Monteiro reconhece que sem a lei e o recto cumprimento da mesma, a justiça mais dificilmente será alcançável, pois mais dificilmente se passará aos outros estádios do desenvolvimento moral da sociedade, que são superiores ao que é caracterizado pelo recto cumprimento da lei.
Será um caso de estudo saber o que irá ele fazer tendo à partida um discurso filosoficamente bem fundamentado e moralmente ambicioso, como é este seu.

A Coreia do Norte ou o pupilo Chinês

A China ajudou a criar e a alimentar essa máquina militar Norte-Coreana, apoiando há décadas, com dinheiro, alimentos, conhecimento e homens, a sua política agressiva. Será interessante ver agora como irá reagir à fuga do seu pupilo para a boca de cena, lugar que a China quer ocupar na região, para já não falar num palco mais alargado que tenha o mundo por dimensão. Assim, ou se cola às políticas de sanção e proibição em nome do uso da força com os restantes países, e torna-se mais uma voz em consonância, mas perde protagonismo, ou se continua a colar ao regime de Kim Il Sung, mas correndo o risco de ver escapar a criatura ao poder do criador e ficar com uma grande tragédia nas mãos.

De qualquer modo, o envolvimento da China será de seguir com a máxima atenção tendo em linha de conta as debilidades militares internacionais, com forças espalhadas já pelo mundo, e as debilidades políticas de intervenção do Japão que tem uma história recente por resolver ainda com muitos países da região e da Coreia do Sul que não tem o poder que gostaria. Será no governo Chinês que se terá que confiar para ajudar a controlar o problema e no quadro dos seus poderes e deveres como membro do Conselho de Segurança da ONU.

sábado, outubro 07, 2006

Prémio Nobel

“Ele é um supervisor competente e exemplar, encoraja muito a comunicação, está sempre disponível para o diálogo e o objectivo dele é estar o máximo de tempo com a sua equipa.” Está a falar de quem este aluno de doutoramento? Do prémio Nobel da medicina deste ano, Craig Mello. Isto pode-se ler no semanário “Expresso” de hoje.

“Há universidades que estão a receber centenas de alunos sem o 12º ano, ou mesmo sem o 9º ano. A possibilidade foi aberta pela autonomia dada pelo Governo, em nome da igualdade de oportunidades na educação.” Isto pode-se ler no semanário "Sol" de hoje.
Estão a falar de quem? Dos alunos portugueses, a quem os Governos portugueses têm vindo desde há décadas a alienar na sua capacidade de trabalho e de evolução ao unificarem e desnivelarem o ensino a parâmetros de insuficiência contínua, em nome da igualdade. Isto não é igualdade, é mediocridade. É sabotar a capacidade de trabalho, de exigência e de capacidade dos alunos, passando-lhe a mensagem de que “deixem lá, no fim entra toda a gente para a universidade”. E enganam-nos, porque a desigualdade se acentua. Os ricos, ou os mais informados, vão estudar para o estrangeiro e cá ficam os que se licenciam para assegurar os vencimentos de professores, para depois engrossarem a bicha do desemprego.

Portugal um país de oportunidades: na cabeça de alguns

Eu gostaria de saber se a Presidente da Câmara de Vila de Reis não corou sequer quando disse relativamente aos brasileiros que estão abandonar a vila:”Se eles não querem ficar ou não se adaptaram, o problema é deles. São todos adultos, para saberem o que querem.” Esta senhora que foi ao Brasil aliciar cidadãos para virem habitar no seu concelho, não deverá ser acusada de incitamento ilícito à emigração, por ter tido a impertinência de promover o que nem ela nem ninguém do seu concelho estava em condições de providenciar aos brasileiros que procuravam uma vida melhor no nosso país?
E já agora, viajou a título individual ou a expensas do erário público quando decidiu pôr em marcha este projecto de repovoação?
Estes políticos espaventados dão cabo da classe. Não pela ideia em si, que tem algum mérito, não pela vontade, que implica um desejo, mas pela incapacidade de prever as dificuldades, pela ligeireza com que se desmarcam das suas próprias acções. Tudo colado a cuspo nas nossas vidas públicas, sem consciência, nem responsabilidade. A eterna fuga para a frente dos nossos poderes.

sexta-feira, outubro 06, 2006

Porque não falam as portuguesas?


Ontem ouvi o discurso do nosso Presidente da República na Antena 1. Vinha no carro, o sol a bater no vidro, meio amodorrada. O discurso era bonito, correcto. Não empolgava, mas a normalidade, nos discursos como na História, não costumam empolgar. E a data, excepto para os defensores da República para Olivença já, para os monárquicos, para os filósofos que discutem a passagem da ética republicana à ética deliberativa em democracia, ou para os realizadores de eventos que discutem a importância de uma varanda relativamente a uma praça e vice-versa, é de normalidade. Os defensores da causa Olivença têm razão, a diplomacia portuguesa à época andou mal ao não reivindicar o território. Mas não sei se em termos de direito internacional o caso não terá já prescrito, não havendo qualquer hipótese de reclamação. Quem deve ficar feliz é o director do semanário “Sol” que de quando em vez lá descobre meia dúzia de portugueses que gostariam, tanto quanto ele, de ter por dieta principal uns carapaus com molho à espanhola, e que tem ali em Olivença uma antecâmara de acesso ao imaginado paraíso. Como eu e as minhas amigas dizíamos na adolescência, sem pensarmos muito no dramatismo da expressão, “isso só sobre o meu cadáver”.

Estava tudo a correr muito bem. Não havia muito povo, mas o povo também tem que passear, limpar as casas, dormir até mais tarde. Enfim, as coisas que o povo faz quando não anda preocupado com revoluções (sorte a do Eng.º Sócrates). Havia música e, presumo, porque só ouvi, não vi, devia haver flores. Mas de repente a jornalista da Antena 1, terminado o discurso presidencial, resolveu saber a opinião dos que estavam à volta. Falou um senhor, depois a jornalista queria que uma senhora falasse e…está bem está…a jornalista explicava-nos: “Geralmente as senhoras recusam-se sempre a falar”. Eu encolhia-me conforme a repórter nos ía indicando as senhoras que se recusavam a falar, e eram muitas. E ela lá se virou para mais um senhor que, esses, parecem que têm sempre qualquer coisa para dizer.

Razão tem a professora João Silveirinha que investiga o modo como os géneros se manifestam de forma distinta na esfera pública em geral e na política em particular. E eu, que até sou muito reticente, não posso deixar de pensar que a recusa em falar por parte das mulheres portuguesas precisa de ser explicado.

quinta-feira, outubro 05, 2006

os bisnetos da República

Num dia em que se passa o tempo todo com vontade de ir por aí por uma estrada fora de mãos nos bolsos a dar pontapés numa pedra, que atenção dar à mensagem presidencial?

quarta-feira, outubro 04, 2006

E depois da pausa...as eleições brasileiras como os investigadores as vêem

Lula da Silva não quis deixar de ser presidente mesmo naquelas alturas em que necessariamente tinha que se tornar candidato à presidência, por via das regras e dos ciclos da democracia que obrigam cada governante a apresentar-se a eleições. Escudou-se numa pose de Estado que julgou ser suficiente para justificar a sua ausência dos debates públicos, separando-se dos outros concorrentes ao lugar. Escrutinado pelas urnas, mas também por grupos académicos que estudam a actuação comunicacional dos políticos em geral, e dos candidatos a eleições em particular, o discurso de Lula não está a convencer e vai ter que mudar.

Repare-se neste trabalho de uma equipa de investigadores brasileiros sobre as eleições presidenciais no Brasil. Os brasileiros têm uma escola de análise da comunicação política, de influência americana nos métodos utilizados, verdadeiramente interessante. Quando vêm fazer conferências a Portugal conseguem sempre surpreender-nos com o trabalho de investigação empírico que habilitadamente reunem e apresentam. A tradição nesta área é muito consistente.
Veja-se por exemplo a análise de um anúncio televisivo da campanha de Lula de 2002, quando foi eleito presidente pela primeira vez, conduzida por Sérgio Roberto Trein, arquivado e apresentado pelo Laboratório de comunicação on-line.

Em Portugal só se pensa sobre Comunicação Política (ou em Comunicação e Política, o que é diferente, mesmo assim), há muito pouco tempo, sendo esse campo ocupado pelas agências de comunicação que desenvolvem a sua prática de assessoria aos candidatos ou aos governantes na área da comunicação política. A monitorização da quantidade e qualidade das notícias políticas, o estudo das imagens e dos discursos, a reflexão sobre a influência das agendas políticas sobre as mediáticas, assim bem como a inversa, ainda está numa fase incipiente, sendo normalmente encarada pela nossa academia clássica como uma excrescência da Ciência política e/ou das Ciências da Comunicação. Falta andar esse caminho.

Pausa para pensar em prioridades


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terça-feira, outubro 03, 2006

Ideologia

Por motivos que se prendem com o meu trabalho, fui reler o capítulo “Empirirical methods” do livro de John Fiske, Introduction to Communication Studies. Está traduzido em português, mas quando eu o encomendei não sabia, daí que as minhas citações digam respeito ao original em inglês.

O capítulo seguinte ao que me levou a consultar o livro intitula-se “Ideology and meaning”, li-o pensando em como esta questão das ideologias que nas décadas de sessenta e setenta interessou tantos investigadores, para depois, de certa forma se diluir noutros problemas, ressurge agora como objecto a ser reavaliado no que a um uso operacional da análise da acção política diz respeito, tal como Onésimo Teotónio Almeida defendeu no seu artigo “Ideologia, revisitação de um conceito”, publicado na revista Comunicação e Política nº21-22. Escreveu ele: “(…) um conceito tão usado e debatido como é este de ideologia está longe de ser unívoco, é geralmente vago e frequentemente confuso e contraditório e, na expressão de Michael Oakeshott, continua a ser usado numa “anarquia de diferenças linguísticas”, a ponto de o considerar worthless, isto é, sem qualquer valor. No entanto (...), e porque o seu uso é imparável, gostaria de sugerir (...) um uso operacional consistente e coerentemente articulado com outros termos, como os de mundividência, valor e ética.” (p. 74).

Mas se consultarmos o Dicionário de Política de Bobbio, Matteuci e Pasquino, escrito em 1983, podemos ler como Mário Stoppino, seguindo a linha de N. Bobbio propõe uma excelente definição de ideologia, quer quanto ao seu significado fraco “um conjunto de ideias e de valores respeitantes à ordem pública e tendo como função orientar os comportamentos políticos colectivos”, quer quanto ao seu significado forte que “tem origem no conceito de Ideologia de Marx, entendido como falsa consciência das relações de domínio entre as classes (…) é um conceito negativo que denota precisamente o carácter mistificante de falsa consciência de uma crença política.” (2004, p.564).

Normalmente usamos ideologia no seu significado fraco. Ideologia como representando o conjunto de ideias ou valores defendidos por determinada pessoa ou institucionalização, a fim de justificar a sua acção.
A concepção de ideologia no seu significado forte está associada às análises marxistas da sociedade e à sua convicção de que todo o sistema de crenças ilusórias mantido pela classe dominante (económica, social e política) é usado para dominar a classe trabalhadora. Esta concepção está na base de uma determinada explicação da história e da política, que, em termos práticos, se materializou em governos de orientação marxista, com fortes pulsões totalitárias, e levou muitos teóricos a afastarem-se deste discurso. Mas não deixa de ser um campo de análise em aberto e a discussão.

Fiske, em 1982, e na esteira do trabalho de Raymond Williams, apresentou e desenvolveu o uso que se fez das três definições de ideologia ao longo dos séculos. A ideologia como: 1. Um sistema de crenças que caracteriza um grupo ou classe particular; 2. Um sistema de crenças ilusórias – falsas ideias ou falsa consciência – passível de ser contrastado com o conhecimento verdadeiro ou científico; 3. Processo geral de produção de significado e de ideias.

Fiske estava interessado em esclarecer de que forma a ideologia se insinuava através das imagens, dos signos. Não se deteve a discutir a natureza filosófica das definições, nem comentou a terminação marxista para o conceito ideologia.
A leitura que lhe interessou fazer de ideologia é a que deriva da definição nº 3.

Seguindo a intuição de Roland Barthes sobre o tema, Fiske acabará por afirmar em todos os actos de comunicação se manifesta um processo ideológico de significação. A ideologia decorre normalmente do uso, escolha, de determinados signos por comparação com outros. Isto é, atribuir significado a algo ou alguém, é um processo relacionado com o tipo de valores e mitos da comunidade em que se é socializado, e isso é sempre da ordem da ideologia. Toda a relação entre os signos (e as suas conotações culturais) e os falantes que os usam é uma relação ideológica.
Naturalmente, não conseguimos escapar a este procedimento: ao usar signos (palavras, imagens, etc.) estamos a manter viva a ideologia, mas somos também formados por essa ideologia, por esses valores que partilhamos num determinado tempo e espaço, pela ideologia dominante.

Porém, sendo que todas as pessoas de uma mesma cultura são determinadas no seu comportamento pela mesma ideologia dominante no seu tempo, isso não implica uniformidade no comportamento. Na realidade há reacções constantes, individuais ou de grupo, à ideologia dominante. Há oposição. O que representa uma abertura para que outras ideologias venham a desenvolver-se no futuro. Ex. Ideologia dominante do interesse no progresso científico e técnico, por oposição aos que defendem valores culturais não científicos ou até mesmo anti- científicos.

Os estudos nesta área poderão tornar visíveis os processos de doutrinação presentes no processo de comunicação. Em todos os processos de comunicação. (Fiske, pp. 144-155).
O que leva os indivíduos a aceitarem, manterem, ou pelo contrário, a oporem-se, rompendo e, em certos casos, a criar nova ideologias, é todo um outro conjunto de questões.

segunda-feira, outubro 02, 2006

Poder ideológico


Norberto Bobbio identifica o poder numa acepção tripartida quanto à sua origem e natureza: o poder político, o poder económico e o poder ideológico

Por poder entende-se uma relação de domínio estabelecida entre dois ou mais sujeitos. X será subalterno em relação a Y, se X reconhecer livremente, se for coagido a reconhece-lo ou for persuadido a reconhecer, que Y pode alterar o seu comportamento.
Norberto Bobbio define assim o poder como “a capacidade que um sujeito tem de influenciar, condicionar, determinar o comportamento de um outro sujeito.” (Bobbio, 1999: p.216).
O poder dos meios de comunicação seria então o poder ideológico que “se vale da posse de certas formas de saber inacessíveis aos demais, de doutrinas, de conhecimentos, até mesmo apenas de informações, ou então de códigos de conduta, para exercer uma influência sobre o comportamento de outrem e induzir os componentes do grupo a agir de um determinado modo e não de outro.”(Bobbio, 1999: p.221).

domingo, outubro 01, 2006

World Press Photo

Naquele ano decidi comprar o livro de fotografias do World Press Photo. Era o ano em que tinha nascido o meu filho e eu queria que um dia ele soubesse que nesse ano, ele, sobretudo ele, mas também mais uns milhares de coisas gloriosas se tinham acrescentado ao mundo. Cometi dois erros: O ano a que o livro de fotojornalismo reporta não coincide com o ano da edição, são, claro, fotografias tiradas no ano anterior, seleccionadas e publicadas em livro no ano seguinte, e pensei, levianamente, que os acontecimentos que se somaram à história da existência na terra desse ano eram todos passíveis de ser enquadrados por uma qualquer explicação inteligível, a permitirem uma leitura do tipo "sim há coisas terríveis a passarem-se no mundo, mas depois tudo se resolve e há a possibilidade de um final feliz". Não eram histórias com final feliz. Nem eram gloriosas. De todo. Revelavam vidas sujeitas quase todas elas a uma dor e a uma violência tão dolorosa e violenta que eu fechei o livro e nunca mais o abri.

Hoje na exposição do CCB voltei a sentir essa sensação que uma onda de sangue provoca quando invade a nossa cabeça, faz zunir os ouvidos, seca a nossa boca e nos atordoa. O tempo todo como que pegados pelos ombros e pendurados na parede. E ficamos a saber que sabemos, e que vimos.

Pedro Correia, foi o grande vencedor português de 2005 com uma fotografia tirada no funeral do agente da PSP Paulo Alves.

sábado, setembro 30, 2006

Durão Barroso no Sudão por Darfur

Tenho pelos políticos, e o nosso Presidente da União Europeia não é excepção, sentimentos contraditórios. É por isso que me escudo nas ideologias para os interpretar, afastando deles o que deles é mais humano e ambíguo, vendo-os como representantes de ideias e executores de uma tradição democrática de governar as coisas da cidade. Procuro não me agradar de nenhum no exercício dos seus cargos públicos, tal como procuro não ter aversão continuada, faço com que os seus discursos e os seus trabalhos sejam contextualizados, entendidos como servidores da nação, sem ignorar a importância da personalidade própria no processo, claro. É a solução que encontrei para não desesperar de neles ter, ou não, votado, e de não me deixar cair na conversa de que “eles são todos iguais”.
Não me vejo num comício a gritar por nenhum indivíduo, mas isso não é propriamente uma atitude cínica. E uma reserva. Essa reserva, porém, não me impede de aplaudir as acções que julgo dignas de o serem. Aplaudo, de pé, a decisão de Durão Barroso de ir ao Sudão. Não quero saber se podia ser mais cedo, não quero saber que a sua acção tem a aprovação tácita das Nações Unidas como a instigá-lo. Não quero saber de intrigas institucionais. Quero só aplaudir de pé e acreditar na boa-fé do Presidente da Europa. Pelos habitantes de Darfur, sobretudo, mas também por nós europeus.

Pas-de-deux

Hoje é que é o dia do pas-de-deux da Belém. Que delícia. Felicidades.

quinta-feira, setembro 28, 2006

O império português




Na "mailing list" da Livraria Cultura vinha a indicação de que já tinha sido traduzido no Brasil, pela Companhia das Letras, o livro de Kenneth Maxwell subordinado ao título O Império Derrotado, Revolução e Democracia em Portugal.
O império derrotado?! Estranhei. Fui ver a tradução que em Portugal se adoptara e verifiquei que o tradutor da Presença escolhera para título da mesma obra: A Construção da Democracia em Portugal. Na realidade mais próximo de uma tradução à letra, já que Maxweel dera como título ao seu livro The Making of Portuguese Democracy.

O tradutor brasileiro ainda acha que destacar a ideia da derrota do império português faz mais sentido do que destacar a criação da democracia. Será porque a ideia de derrotar o o império, ou o discurso imperial, continua a ter algum significado no discurso político no Brasil? Haverá ainda essa inquietação no Brasil relativamente à matriz de construção da identidade nacional?
A não ser que o tradutor se esforce por representar em título o espírito da obra, e considere que em democracia não pode haver impérios, porque esta os derrota sempre. É uma ideia poética, para além de ser objecto de estudo da Ciência Política e da Teoria Política. Faz sentido. No sentido clássico de império, claro. Em que por império se entende uma unidade política formada por um conjunto de territórios, nações ou populações sob o governo de uma só autoridade.
Mas fará sentido no futuro pensar em democracia e em derrota de impérios? A concepção que temos de Estado-nação está a modificar-se nas últimas décadas, e nem sequer estou a discutir a ideia imperialista que alguma nação possa manifestar.
Relativamente ao título do livro publicado no Brasil, então, para sermos exactos, teríamos que dizer: Portugal, o império que se extinguiu a si mesmo em nome da democracia. Porque até provas em contrário foram os filhos da nação imperial que terminaram com o seu império.
Quanto à melhor capa, para mim não há dúvidas. O prémio vai para a editora Companhia das Letras.

Com música a desnorte

Andava eu anteontem à procura de “links” sobre shostakovich e descobri este blogue, o desnorte. Pensei: “Fantástico. Quem vai adorar esta referência é a Belém”. Mas é claro que a Belém já sabia disso, ou não fosse ela uma verdadeira melómana. Aqui fica a minha menção também.

quarta-feira, setembro 27, 2006

Entre a minha vida pessoal e profissional (exemplo: eia, eia, já recebi a carta da FCT a oficializar a aprovação da minha candidatura a um novo projecto pós-doc.), a apreciação da hora que dediquei a ouvir os esclarecimentos do Primeiro-ministro ao parlamento (ao país), o meu constrangimento psicológico com o estado físico das pessoas que encontro aqui no meu bairro quando ando a pé, e que descubro espantada serem em grande número vítimas de Acidentes Vasculares Cerebrais, e nas quais nunca tinha reparado antes, e as solicitações que determinados temas mundiais como o das privações e da violência continuada em Darfur, como noutras zonas do globo, têm sobre mim, onde ficará a verdade da minha tentativa de racionalizar a existência?

Entre o que eu quero escrever, o que posso, o que não posso deixar de escrever, onde está a verdade?

Como equilibrar a minha tendência panfletária, que me faz pender às vezes para o lado mais populista das questões, e a minha profunda vontade de objectivar e de conhecer fundadamente a realidade em apreço? Como evitar dizer que o Primeiro-ministro teve o tom e o conteúdo certo no parlamento, dificultando, às vezes caricaturalmente, as intervenções da oposição, sem que isso me impeça de criticar as políticas que os seus ministros da Saúde e da Educação, sob seu consentimento, têm conduzido em alguns aspectos pontuais? Como ignorar que por mais projectos de investigação que veja ser financiados me sinto tão confundida como no primeiro ano em que entrei para a universidade? Como esquecer a fome e a violência sobre os que não conheço, e a doença e a morte dos que caminham a meu lado, sem saber o que lhes hei-de fazer?
Filho, meu filho.

terça-feira, setembro 26, 2006

Sim, mas há excepções. Como é que elas acontecem?

"Num regime que domina pelo medo, a convicção individual das pessoas deixa rapidamente de estar em causa."

Artigo de Luís M. Faria sobre o compositor russo Shostakovitch na "revista actual" do jornal "Expresso" do último sábado

Políticos e blogosfera - artigo de Rachman 2

Isto não é uma explicação.

Passo a explicar, optei por fazer uma "colagem" integral do artigo de Rachman porque o achei integralmente interessante, e porque ele tem as ligações a blogues de figuras como H. Clinton, Jospin ou M. AhmadiNejad, entre outras.

Os políticos e a blogosfera - artigo de Rachman

"Apostles of the blogosphere"
By Gideon Rachman
Published: September 25 2006 19:31, FT. com (Financial Times)

A few weeks ago I mentioned to a friend, who works in the “new media”, that I was to start a blog for FT.com. He was not impressed. “Blogging is over,” he informed me coldly.
I shrugged off the rebuke. After all blogs – personal online journals – are proliferating. According to Technorati, a firm that monitors such things, more than 50m blogs had been created by last month – and the number is doubling every six months.
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My doubts returned, however, when I saw an ominous message on the website of Britain’s main opposition party: “Conservative Party enters the blogosphere”. It announced that David Cameron, Tory leader, had started a blog. When the world’s least fashionable political party discovers a social trend, it is surely a sign that it is peaking.
Mr Cameron is far from alone. Over the summer a strange array of politicians started blogging. They included Hillary Clinton, who hopes to be the next president of America; Lionel Jospin, who hopes to be the next president of France; and Mahmoud Ahmadi-Nejad, who is already president of Iran.
Political advisers around the world are clearly giving the same advice to their bosses. Blogging is meant to let politicians communicate directly with voters in a folksy style. In practice it makes aspiring statesmen sound like Mr Pooter, the character from Victorian fiction whose Diary of a Nobody was famous for its banality.
Mr Cameron’s entries from his recent visit to India have cheery little headlines, such as: “Going green in a Delhi tuk-tuk”. The Tory leader is shown around by a tour guide who is “a real character”; he sees the Delhi metro and pronounces it “amazing”. This kind of deadly dull stuff crosses the political divide. David Miliband, Britain’s clean-cut environment minister, got blogging earlier this year – claiming that this might help bridge “the growing and potentially dangerous gap between politicians and the public”. One of his most recent entries has the scintillating headline: “Three cheers for Brighton library”.
Mrs Clinton and Mr Jospin are saved from Pooterisms by their inability even to attempt chatty informality. By contrast, Mr Ahmadi-Nejad’s first blog was full of strange personal details. He notes, for example, that he did very well in his university entrance exams, in spite of suffering from a nosebleed. But after a promising debut in August, he has fallen silent – perhaps distracted by other tasks, such as governing the country and building a nuclear bomb.
Ferenc Gyurcsany , prime minister of Hungary, is more conscientious. He posts new comments on his blog most days – sometimes twice a day. He also has a dangerous frankness, making him a natural for the blogosphere. In a recent speech – now posted on his blog – he confessed to lying constantly to get elected; a revelation that prompted riots in Budapest.
Mr Gyurcsany’s blog is apparently a good read – if you have mastered Hungarian. But it is not clear that it has worked to his political advantage. In fact – for all the interest that consultants are showing in blogging – there is only one politician’s blog that has clearly had a real impact.
In France, Segolene Royal, who is likely to win the French Socialist party nomination to stand for the presidency next year, has been running a website and blog that has generated lots of interest and new support. Ms Royal puts essays on topics such as unemployment or immigration on her site and invites readers to post responses. She claims that she will then incorporate the best ideas into her platform for the presidency. It may be a gimmick, but it has helped her appear modern and in touch with the people – qualities in short supply in French politics.
The Royal experiment will certainly be watched with great interest by other politicians. But so far it seems to be a one-off.
That will hardly surprise the apostles of the blogosphere, however. They have always argued that blogging is politically significant, precisely because it is not a tool of the elite. Bloggers are, as a book on the phenomenon, An Army of Davids by Glenn Reynolds, puts it, holding the Goliaths of the media and the political world to account.
In the US, bloggers are claimed to have played a key role in forcing the resignation of Trent Lott as Senate majority leader in 2002, after he made comments that seemed to express nostalgia for the South in the days of segregation. It is argued that blogs kept the issue alive when the mainstream media was prepared to let it drop. The blogosphere is also said to have been crucial in mobilising support for Ned Lamont, an anti-war candidate, who defeated Senator Joe Lieberman in Connecticut’s Democratic primary in August.
In reality, it is hard to measure the precise impact of bloggers on such events. But the idea of an insurgent grass-roots movement, energised by folk tapping away at their computers, appeals to the romantic, anti-elitist strain in US politics. Many politicians in America and elsewhere clearly feel the need to pay their respects to the blogosphere – if only as a precaution.
It is not self-evident, however, that the blogosphere’s influence on politics is all for the good
. A political consultant once complained that his bosses’ reliance on focus groups handed power to people who were prepared to sit around for hours talking about politics with strangers, in return for a free sandwich. Similarly if politics is increasingly shaped by the blogosphere, it will mean more power and influence for a sub-section of the population willing to waste hours trawling through dross on the internet.
Blogging as a medium has virtues: speed, spontaneity, interactivity and the vast array of information and expertise that millions of bloggers can bring together. But it also has its vices. The archetypal political blog favours instant response over reflection; commentary over original research; and stream-of-consciousness over structure.
Was that last judgment fair? Does it really follow logically from the rest of the argument? I am not sure and I have no time to think about it further. I have to get back to my blog."

segunda-feira, setembro 25, 2006

Giordano Bruno


Campo de Fiori, Roma. Há dois anos, vi que aos pés da estátua imensa de Giordano Bruno havia muitos e variados ramos de flores frescas, lindas.

Bruno era um filósofo. Ao contrário de Galileu, não tinha provado nada, nem pela matemática, nem pela experiência empírica, acerca da sua ideia de infinito e acerca da teoria heliocêntrica do cosmos que Copérnico apresentara.
Sob tortura não abjurou.

Não sei porque estou a escrever sobre isso hoje.

"...it`s funny, how things go."

domingo, setembro 24, 2006

grupos de reflexão e influência

Pierre-Emmanuel Moog, Les clubs de réflexion et d`influence, 2006/2007, Paris, L`Expansion, 2006.

Um livro prático que apresenta uma lista dos “Think-tank” franceses, com os contactos e identificação, ao mesmo tempo que delineia em traços breves a sua história. Com este guia ficamos a saber a quantidade e as características destes “clubes de reflexão”, nomeadamente o tipo de financiamento que os mantém, os temas sobre os quais reflectem, as suas publicações, a organização que escolhem para se estruturarem e as condições em que aceitam os seus membros.

O autor aceita a definição de “Think-tank”, expressão original de uma realidade americana, como sendo a que descreve a existência de um “centro de pesquisa independente que produz um tipo de trabalho de investigação com o intuito de modificar a política”. Centros que se querem financeiramente independentes quer da universidade quer dos governos, com estruturas não lucrativas, que tomam por objecto de investigação o estudo de políticas públicas, tendo como membros pessoas independentes em relação aos poderes públicos e com formações multidisciplinares.
Nos Estados Unidos há grupos que funcionam com um orçamento suficiente para lhes permitir contratar pesquisadores que trabalham exclusivamente em investigação, em França há apenas um pequeno grupo de instituições que consegue ter um corpo próprio de investigadores de forma permanente.
Estes grupos de reflexão e influência manifestam-se com estruturas e formas bem diferentes entre si, sendo no entanto que todos visam influenciar os decisores políticos. O impacto desta influência é dificilmente mensurável, porém é registado como um sinal de sucesso da capacidade de influir, o facto da imprensa fazer eco do seu comunicado, notificando e premiando assim a difusão pretendida. Ainda que haja outros grupos franceses que tenham dito que “preferem que um relatório de duas páginas chegue a um ministro a que um artigo vir a ser publicado num determinado jornal”.
Como refere o autor, estes grupos não têm um poder real e muitas das vezes não têm constituintes reais, eles reunem-se tendo como ideia elaborar recomendações contextuais e não a de produzirem um saber teórico.
Mas…, interroga-se Moog, “porque há tantos relatórios , notas de reflexão e tão poucas alterações?” (p.55).

Às questões de Moog terão que se acrescentar as de Helena Garrido que, no seu artigo de sexta--feira passada, se interogava por que razão os indivíduos presentes na organização e constituição do grupo “Compromisso Portugal”, por exemplo, não começam por alterar as práticas que apontam como necessárias a serem modificadas pelo governo, no seu próprio círculo de influência e competência profissional. A ler.
Em Portugal não temos nenhum "grupo de reflexão e influência" com um corpo de investigadores próprio e que se dedique integralmente à reflexão sobre as políticas públicas. Não temos grupos de produção com reflexão própria.
Mas temos grupos que se querem de influência (fundações, ou organizações como o "Compromisso Portugal"). Estes produzem reflexão contando com um corpo difuso de intervenientes que "benevolamente" se constituem para apresentar as suas conclusões e propostas em fórum, de forma dispersa (definição de benévolo na p. 37).
Em rigor não temos em Portugal nenhum "think-tank" clássico.

sábado, setembro 23, 2006

Visconti

Os filmes de Visconti. Dentro dos filmes de Visconti. A música dos filmes de Visconti.
Take 1.

ou era isto ou era um poema ou era uma fotografia

Museu Militar

Hoje, enquanto visitávamos o Museu Militar, senti que Visconti podia ter passado por ali. Não na ausência de informação em língua inglesa ou francesa que ajudasse os frustrados turistas estrangeiros que, em maioria em relação aos portugueses, por ali circundam. Não pela deficiente, quase lúgubre, iluminação de algumas salas. Não pelos desadequados expositores de amostra do espólio. Não pela falta de informação didáctica apelativa para crianças e jovens. Não pela falta de dramatismo com que são retratados os episódios da nossa história político-militar. Não pela ausência de música. Mas pela cenografia do edifício ele mesmo. Por aquelas salas tão ostensivas, mas espectacularmente adornadas. Pela beleza de alguns dos artefactos expostos. Pelo fio das espadas.

Uma instituição com tantos recursos humanos deixa assim, sem imaginação nem glória, passar os dias sobre a memória?

sexta-feira, setembro 22, 2006

comunicação política

No JN de hoje Nuno Rogeiro escreveu sobre a importância do estudo da linguagem em política, reiterando a ideia de que "as palavras não são inocentes". Um artigo didáctico.

Vou deixar aqui algumas ligações à "Rede" sobre os nomes de autores por ele referidos.

Robert Hariman

Murray Edelman
http://www.amazon.com/exec/obidos/search-handle-url/index=books&field-author-exact=Murray%20Edelman&rank=-relevance,+availability,-daterank/002-3506302-5470457

Não identifiquei nenhum E. Lakoff. Mas nesta área temos dois autores com apelido Lakoff, sendo o primeiro mundialmente reconhecido:

Chilton

Georg LaKoff (link ao seu blogue)
e
Robin Lakoff

Derian
http://www.watsoninstitute.org/contacts_detail.cfm?id=24


Shapiro

Lasswell

Bentham

John Rupert Firth

Apter


Dorsey

Roig ( será uma referência a Artur Andrés Roig, o filósofo argentino?)

Não consegui saber quem era e o que escrevia M. Golg Bliss.

quinta-feira, setembro 21, 2006

O que eu ouvi na rádio ou na televisão que me fez ficar a pensar:


Televisão, RTP 1, programa “prós e contras” da passada segunda-feira. Falava-se sobre o estado da educação. Dizia uma senhora professora, Presidente do Conselho Executivo de uma escola: “As creches já não aceitam uma criança logo que ela tem uma pontinha de febre, por isso as mães (professoras da dita escola) têm que faltar muito”.
Nem sinto vontade de comentar. Isto e outras coisas que por lá se disse. Mas vou esforçar-me: Na cabeça desta senhora Presidente, uma criança com uma pontinha de febre (isto não existe, ou se tem febre ou não, logo ou se está doente ou não) não tem nada que ficar no aconchego do lar com a sua mamã ou papá, preferencialmente, a cuidar dela. Não, é ir para a escola que é assim que se faz em Estados em que os indivíduos estão submetidos aos interesses da administração central.

TSF, ontem ao fim da tarde. Falava o Vice-presidente da Câmara de Oliveira de Azeméis a comentar o anunciado encerramento para o dia seguinte (hoje) de escolas por parte de pais que protestam dessa forma contra a falta de auxiliares nas escolas dos filhos. Que sim senhora, que era verdade que havia falta de auxiliares, mas que os pais têm que compreender que o país não está em condições económicas de dar resposta a estas questões. Realmente há que saber que muitas das escolas públicas só conseguem dinheiro para que se compre material escolar e outro, como o papel higiénico, por exemplo, porque os pais dão um dinheiro extra por mês para satisfazer essas necessidades. As pessoas dão o que podem. Os amigos que me contaram isto contribuiam todos os meses com 20 Euros para a escola que a sua filha frequentava. Logo, o ensino público não é inteiramente gratuito e o ensino público está mal financiado e/ou mal gerido. As câmaras que vejam bem onde andam a gastar o dinheiro e quais as prioridades. O Ministério que não ande doido à procira de contenção de despesas que passe a ficar como o cão que persegue a própria cauda.


Antena 1, hoje de manhã: Nicolau Santos comentava a proposta do documento proposto pelo Think Tank Compromisso Portugal” sobre o tema da Segurança Social, criticando a defesa que António Carrapatoso fazia da ideia de passar a haver uma conta individual, gerida por entidades privadas ou públicas, onde cada trabalhador poria o seu dinheiro a capitalizar para a sua reforma. Aquele seria só o seu dinheiro. Como Nicolau Santos referiu e muito bem, isso iria destruir uma ideia social base para a coesão de um grupo alargado que é o da solidariedade inter-geracional, sendo que a longo prazo os mais pobres iriam ficar ainda mais pobres (os seus descontos iriam ser proporcionalmente muito inferiores o que lhes daria a perspectiva de acabarem na velhice com muito pouco). Ora é na contenção de um tecto a aplicar às reformas, a partir de uma determinada quantia não se pagaria reformas exorbitantes, que pode passar a solução, sendo que estas pessoas, pelo seu próprio percurso económico/profissional, teriam sempre a hipótese de aplicar as suas poupanças em fundos de investimento para a reforma, algo que os trabalhadores com salários mais baixos obviamente não conseguem ao longo de uma vida de descontos.

Sendo eu o mais possível a favor da responsabilização dos indivíduos, não concordo de maneira nenhuma que se deixe fora da esfera dos deveres do Estado as suas responsabilidades sociais com os mais desfavorecidos, e que isso seja feito sem o sentido de solidariedade social que tem formado as sociedades europeias nas últimas décadas. Não são só questões económicas, são questões que se prendem com o tipo de socialização que queremos promover. Se o sistema falir em termos económicos terá que se proceder a um reajustamento das contas, a uma nova ordem de destribuição, mas não a uma fuga das responsabilidades colectivas.
É isto que eu acho que o Ministério da Educação, que está a querer fazer coisas, e a querer resolver pragmaticamente alguns problemas estruturais, se está a esquecer. É que a escola que propuser agora forma a sociedade que vamos ter. Pouco mais terá tanta influência neste momento. Esqueça-se disso e quando as contas estiverem todas certinhas ainda andaremos à procura de quem são e porque o são as nossas crianças e jovens como são.

O homem anda a fazer de propósito...só pode.

Com discursos destes o que é que ganha a política? Já para não falar no mundo? Ninguém lhe exige, aos gritos histéricos nas ruas, que ele peça desculpa? Ah, é verdade, o discurso de vítimas é para outros.

Há Presidentes que se atraem na asneira, e Chávez anda a provocá-las.

quarta-feira, setembro 20, 2006

Os rapazinhos e a escola


Hoje apetece-me escrever sobre as histórias fabulosas do “Menino Nicolau" de Goscinny e com ilustrações de Sempé, para aproveitar e falar sobre os que falam de educação? Ou falar do livro de Fukuyama sobre a construção de Estados, para falar sobre o nosso Estado? Hum… e o vencedor é: “O menino Nicolau”!

Ainda não estou completamente convencida de que não devia falar da importância social de proferirmos ideias "proibidas". Eu posso dizer o quê? Quando? E Porquê? Respondo primeiro perante quem? Perante a minha consciência ou perante os meus parceiros sociais, mesmo os que eu amo, mesmo a quem eu devo obediência? Perante a intuição ou perante a convenção? Digo alguma coisa de novo ou repito o que já li, escutei ou vi? E em quantas vezes me enganei, me confundi e disse asneiras sem balbuciar? Quais são as minhas certezas? E as minhas dúvidas? Quando falo não abro caminho para que outrem fale também, me responda pelo menos? E isso não é já uma provocação ao diálogo? Adiante.

O tempo da infância não pode tudo, é o tempo precisamente da aprendizagem de que não se pode tudo, mas, para os mais sonhadores, aqueles para quem a disciplina chega de forma tangencial porque não a provocam, logo não a enfrentam inequivocamente, há todo um espaço, de auto-sugestão, de uma liberdade infinita. Julgo que para estes chega a ser surpreendente descobrirem um dia que cresceram e que são pais, e que agora há na sua esfera de gravidade um outro ser a procurar tudo de novo, tudo para si, tudo da primeira vez. E o sonhador ou se torna um moralista desgraçado que prega o que não fez, por desistência da vontade de resistir e de ser difícil ou porque não estava ali, ou se torna espectador dessa natureza e observa-a a seguir o seu curso, planando sobre a existência, escutando.

Porque é que as pessoas que nunca foram professores do secundário ou do ensino básico, que nunca tiveram que andar seis anos a estudar, com vários concursos públicos pelo meio, só para iniciar a carreira, só, falam dos professores como se tudo soubessem destes? Porquê encher a boca com os mestrados que os professores no estrangeiro têm (onde é que isto fica?), como se não soubéssemos que esses graus não se comparam ainda em termos de exigência com os nossos trabalhos? Porque é que quem sempre leccionou no superior e levou anos e mais anos a fazer em doce remanso um doutoramento, debita sobre o que falta aos outros professores em Portugal? Algum professor, sem ser os do ensino não universitário, deixou de cumprir escrupulosamente os critérios de admissão pública ao ensino, providenciados pelo Estado? Conhecem algum professor, fora das universidades, que estivesse a dar aulas porque, com toda a legitimidade, mas uma legitimidade mais que subjectiva, alguém o convidou? Porque é que de repente o estado se vira contra os seus professores na voz de alguns ex-ministros, ministros e afins? O estado do ensino deve-se exclusivamente à política da educação e social escolhida para Portugal e nunca aos seus agentes. Quem é que tem dúvidas?

Não falei ainda do livro “o menino Nicolau”. As histórias, só ligeiramente datadas, porque na realidade algumas coisas mudaram nas estruturas familiares e na escola, contam-nos a vida do menino Nicolau com a sua família e amigos. Era um tempo em que não existiam pedagogos e pediatras, nem a ansiedade de pais a ouvirem pedagogos e pediatras sobre tudo e mais alguma coisa, era o tempo de brincar na rua com os amigos e de ir para a escola sozinho. O tempo em que os pais, ou o estado, não tinham que obrigatoriamente preencher as horas de brincar dos miúdos com actividades pedagógicas, para que os papás possam produzir muitos produtos para o país ser rico. Ou o que quer que seja que se quer rico. Como são histórias pequenas cabem bem na hora de ir deitar. Esses rapazes são os nossos rapazes, sempre a resolverem com os punhos o que não conseguem através do discurso. O humor é superior. Compreendo o desespero do Clotário quando diz aos seus amigos, que "pintaram a manta" na festa dos seus anos: “Ele explicou-nos que queria conduzir uma locomotiva quando fosse grande, mas depois da festa de ontem ele não iria crescer mais porque o papá dele lhe tinha dito que não ia haver mais aniversários”. (p. 84).

um pirata português em Washington

Um dia destes vamos dar-vos um grande abraço de celebração por um sonho português em terra americana. "Windfall" para o "Piratz Tavern", mano!

terça-feira, setembro 19, 2006

Uma mudança não uma cruzada

Uma interpretação mais relacionada com os possíveis interesses e perspectivas da igreja por JOHN L. ALLEN Jr., in "The New York Times" relativamente ao discurso do papa.

"carta sobre a tolerância"


Muitas pessoas estão a confundir a intervenção do papa Bento XVI na Universidade de Ratisbona com se de um tocar de sinos a rebate para reunir a congregação cristã se tratasse. Eu continuo a julgar que antes de mais o papa está a fazer uso da sua capacidade de raciocinar e de usar argumentos para falar para a humanidade, em nome da capacidade de cada um poder utilizar a sua razão, desenvolver o seu espírito crítico e manifestar-se livremente. Isto não é uma prerrogativa do ocidente, são faculdades comuns a todos os seres humanos que devem poder discutir em público as suas ideias e crenças.

Mais do que uma defesa dos valores ocidentais, o papa está a defender os valores universais da pessoa humana. Temos tendência a esquecer que os radicais islâmicos não nos fazem mal a nós ocidentais em primeiro lugar, fazem-no ao seu próprio povo que está constrangido a moldar o seu comportamento de acordo com os ditames de suas excelentíssimas individualidades supremas. Quantas pessoas moderadas se sentem forçadas ao silêncio, porque senão serão perseguidas, presas ou mortas? Quantas pessoas que não crêem o podem afirmar sem incorrer em penas de morte? Quanta liberdade existe para o povo muçulmano pensar e agir para além da que os seus líderes religiosos/políticos lhes ditam? Isto é viver sob ditadura, e, a esquerda que não se engane, não é passível de ser contextualizada na esfera do respeito pela diferença cultural de cada povo. Isso é entregá-los a forças violentas que não os atendem ou prezam em nome de uma vontade de poder abusivo.

Não se trata de um discurso que contraponha o mérito dos cristãos (até porque a história ensinou-nos bem, onde e como tão mal se empregou esse mérito) ao desmérito dos muçulmanos, a direita que não se engane. É um discurso que anuncia a possibilidade de cada um interpretar as crenças num quadro alargado de reflexão e uso da vontade autónoma. O mundo muçulmano está a guardar por um John Locke que escreva a sua “Carta sobre a tolerância”, e nós não devemos ignorá-lo em nome de uma ideia de que não nos devemos imiscuir nos seus assuntos internos. Claro que não devemos, mas daí a calarmo-nos cobardemente com medo dos urros da populaça há uma diferença enorme para o animal que pensa. O papa não temeu nem se acobardou. Falou pelos intelectuais do mundo inteiro, sobretudo pelos que não podem exprimir o que pensam.

Eu penso nas muitas crianças e nas mulheres muçulmanas que continuadamente são reféns da violência, penso sobretudo nas crianças afegãs que ontem foram vítimas de uma maliciosa criatura que não suportou vê-las felizes a receber pequenas lembranças. O ódio pelo ocidente é grande, mas o sentimento do ocidente por eles não deve ser o de uma indiferença maior, em nome dos que lutam pela liberdade.
“... não cabe ao magistrado civil o cuidado das almas, nem tampouco a quaisquer outros homens. Isto não lhe foi outorgado por Deus; porque não parece que Deus jamais tenha delegado autoridade a um homem sobre outro para induzir outros homens a aceitar sua religião. Nem tal poder deve ser revestido no magistrado pelos homens, porque até agora nenhum homem menosprezou o zelo de sua salvação eterna a fim de abraçar em seu coração o culto ou fé prescritos por outrem, príncipe ou súdito. Mesmo se alguém quisesse, não poderia jamais crer por imposição de outrem. (...)
Em segundo lugar, o cuidado das almas não pode pertencer ao magistrado civil, porque seu poder consiste totalmente em coerção. Mas a religião verdadeira e salvadora consiste na persuasão interior do espírito, sem o que nada tem qualquer valor para Deus, pois é a natureza do entendimento humano, que não pode ser obrigado por nenhuma força externa. Confisque os bens dos homens, aprisione e torture seu corpo; tais castigos serão em vão, se se esperar que eles o façam mudar seus julgamentos internos acerca das coisas”.
John Locke

segunda-feira, setembro 18, 2006

O papa com os intelectuais árabes. Eu com o papa: pela liberdade de pensar e de interrogar.

“A Revelação vinda com o Islão criou um quadro que se torna tanto mais rígido quanto se considera ameaçado. Ora, este quadro pode perdurar mais dez séculos. Esta é a razão pela qual a quase totalidade dos países muçulmanos que quer mostrar ao mundo um rosto “moderno” vive sob regimes quase ditatoriais, Síria, Irão, Iraque, líbia, Argélia, Sudão, Indonésia, ou então sob monarquias autoritárias, Jordânia, Marrocos, Arábia Saudita….

Esta é igualmente a razão pela qual o estatuto de intelectual árabe é um dos mais frágeis, não tendo teoricamente um intelectual nenhuma razão de existir num meio no qual o Corão tudo explicou e no qual os únicos comentários que ainda resta fazer são do âmbito das autoridades religiosas”.
Gerald Massadié, História Geral de Deus, Edições Europa América, Lisboa, 2001, p.434

Quem dizia que a ONU tinha morrido? Quem?

President relenting on value of U.N.
By Joseph Curl
THE WASHINGTON TIMES September 18, 2006
President Bush, who once said the United Nations was teetering on the brink of irrelevancy and demanded it show some backbone, has increasingly turned to the organization for international problem-solving, even as most Americans think the body has outlived its usefulness. On issues from North Korea to Iran to Sudan, the president, who arrives in New York today to attend the U.N. General Assembly's annual meeting, has deferred to the United Nations to drive action. Critics say Mr. Bush has been forced to become more multilateral after bucking the world body by invading Iraq, but administration officials assert that the United Nations remains a useful tool to spur foreign leaders to step in on major issues. "This business about 'Our relationship is so bad' and 'We can't get anything done,' when you look at it, we actually have a fairly smart record of achievement," one senior administration official told The Washington Times last week. "We've gotten resolutions on some pretty serious issues where nobody thought we could get them." But it remains the enforcement of those resolutions that so frustrated Mr. Bush in 2002, when the U.S. led a coalition of nations to oust Iraqi dictator Saddam Hussein. Four years ago, he asked, "Will the United Nations serve the purpose of its founding, or will it be irrelevant?" Mr. Bush continues to have doubts about the organization. On Friday, he said, "I think a lot of Americans are frustrated with the United Nations, to be frank with you." He cited inaction over Sudan, where genocide has left an estimated half-million people dead. "The problem is that the United Nations hasn't acted. And so I can understand why those who are concerned about Darfur are frustrated. I am." He is not alone. A poll released last week shows nearly three-quarters of Americans think the United Nations is no longer effective and would support cutting U.S. contributions to it. In fact, 57 percent of those surveyed by the Hudson Institute said they agreed that "if the U.N. cannot be reformed and made more effective, it should be scrapped." The United States will spend more than $1 billion this year on international organizations, much of it through the United Nations. Some lawmakers on Capitol Hill have sought to tie continued U.S. contributions to the implementation of reform at the world body, but the White House has fought most measures. Still, since his assessment that the United Nations was becoming irrelevant, the president has sought to employ the body when faced with criticism that he is intent on running roughshod over world consensus. Internationally, this approach has been seen as hypocritical, as when U.N. Deputy Secretary-General Mark Malloch Brown said in June that the Bush administration is engaged in "stealth diplomacy" by working with the organization on a number of issues, but blasting it publicly. The White House official last week sought to downplay the president's earlier criticism, saying he was merely warning the United Nations over a simple concept. Former House Speaker Newt Gingrich said the United Nations continues to be the model of inaction, failing to follow through on its resolutions. For example, he cited North Korea's test-firing of missiles on July 4 as proof that the body is all talk. "The entire 'civilized world' declared in midsummer that it would be 'unacceptable' for North Korea to fire missiles," he said. "They deliberately fired seven missiles on our national holiday as a way of showing how much total contempt they had for us." The organization has proven itself ineffectual time and again, said Mr. Gingrich, citing the corrupt Iraqi oil-for-food program, continued kleptocracy, and the decision to put the world's worst offenders on its Human Rights Council. "I think we should be actively trying to create alternative institutions that matter," he said. "I think we should take virtually nothing to the Security Council."

Entre a apanha das uvas e o lavar dos cestos

A vinha é pequena mas dá trabalho. Coisa pouca, de castas misturadas, para consumo familiar. Os meus amigos entendidos enrugam-se todos.
Fazer vinho é um hino de louvor à ideia de imortalidade do meu pai que envelheceu em seis meses o que a vida não conseguira fazer envelhecer em 75 anos.

Deixámos de discutir as nossas diferenças ideológicas no dia em que começamos a discutir a necessidade de aplicação de químicos nos pomares e a poda das árvores. Eu chamava para minha defesa os autores que eram contra as podas, e evocava o grau de dividendos que no futuro a agricultura biológica daria, dando exemplos práticos. O meu pai chamava os velhotes da aldeia que me ouviam entre um sorriso distraído e outro condescendente para concluírem: “Ò filha, isso são tudo lérias de quem nunca plantou coisa nenhuma. Não é possível haver agricultura biológica tal como nos querem fazer crer. A bicharada dá cabo de tudo.”
Entre a experiência dos antigos e o meu saber livresco o meu pai não tem hesitado. Eu por mim continuo a ler Gonçalo Ribeiro Teles e a deixar aberto o capítulo sobre “como se deve podar” do livro que este escreveu há muitos anos com Francisco Caldeira Cabral A Árvore em Portugal, reeditado pela Assírio & Alvim em 1999.
Não consegui comprar o “Expresso” ou o “Sol”. Em Rio Maior, às 10:30m, o primeiro já tinha esgotado e o segundo ainda não tinha aparecido. Depois de almoço já o segundo tinha desaparecido. Ou os meus concidadãos andam a ler muitos jornais ou a distribuição nas cidades pequenas não é grande coisa.

Tal como já ouvi dizer ao especialista João Canavilhas sobre blogues: “O que me preocupa não é que apareçam muitos, porque nunca são de mais, o que deve ser investigada é a razão porque eles desaparecem.”, eu digo o mesmo para os jornais. Saúdo o seu aparecimento e lamento quando algum desaparece.

quinta-feira, setembro 14, 2006

pensamento e acção política: acerca da biografia de Mao

Enredada em auto contradições.
Acabei de ler a biografia de Mao. Atentamente segui as indicações bibliográficas, as fontes, os nomes das pessoas entrevistadas. Não posso deixar de pensar como me é mais fácil defender Heidegger ou Gräss como autores, apesar dos seus actos políticos, do que defender Mao. Poderei dizer, para me desculpar, que os primeiros com as suas opções deploráveis não foram decisivamente causa de morte e infortúnio de tantos milhares de seres humanos. Mas incomoda-me, de qualquer modo, que tenha para com aqueles intelectuais um tipo de respeito para com a sua obra que não tenho para com a de Mao. Vamos lá a ver, não que eu me recuse a ler os seus escritos. A falta de interesse que revelei até agora não significa rejeitar essa leitura. Mas recuso-me a pensar que um homem que praticou o poder como ele o entendeu, e como de uma forma geral a revolução assente em pressupostos sociais marxistas o entendeu, possa ter um pensamento que evolua acima dessa contingência histórica que representou o seu governo.

Tal como não aceito o estafado aforismo atribuído a um general romano sobre os portugueses, qualquer coisa que tem a ver com o facto de que os “portugueses não se sabem governar, nem se deixam governar”, como se, na realidade, nos interessasse muito aquilo que um ocupante da nossa terra tem para dizer acerca dos povos que quer dominar…também passo a não aceitar o aforismo de Mao de que “Se vires um homem com fome não lhe dês um peixe, ensina-o a pescar.” Como se interessasse muito o que diz um homem que deixou morrer de fome milhares dos seus compatriotas e que nem a pescar os ensinou.

O mais que fica é o comum na história das relações que se tecem no poder, para manter o poder. Da incompetência dos líderes ou dos seus conselheiros, sejam eles de ditaduras ou governem em democracia. Pese embora os erros de uns e outros não terem o mesmo preço a nível pessoal em ditadura ou em Democracia. Nixon que o diga.
É interessante ver como os autores interpretam o papel de George Marshall no desfecho, a favor de Mao, da guerra civil chinesa, e do papel de Nixon e Kissinger na entrada da China na ONU em 1971. Interessante também a relação entendida como de atracção/repulsa de Mao por Estaline, e do confronto motivado pela vontade de hegemonia do poder comunista no mundo entre Mao e Kruschev. Relações de interesse.

Tudo o mais é avassalador. A ideologia de uma engenharia social que trata o indivíduo, a família, o grupo, os valores culturais e religiosos tradicionais, como meros elementos ao serviço de uma ideia de estado absolutamente adversa à liberdade, à responsabilização, à crítica e ao respeito pela vontade da pessoa e centrada no culto de personalidade de um líder.

A figura é odiosa, mas julgo que os autores poderiam distanciar-se dessa aversão e justificarem pelas palavras de outrem a caracterização da figura, com testemunhos ou registos, ao invés de consecutivamente utilizarem um discurso próprio valorativo que, a mim, me incomoda. Eu advogava um maior distanciamento.

Mas, fora a questão emocional relativamente à figura, há umas questões que o livro não resolve: explica porque é que Mao não recuperou à Inglaterra o território de Hong-Kong, mas não explica qual o interesse em não ter recuperado Macau tirando-o do governo de Portugal. Ambos os territórios eram governados por potências coloniais, inclusive Portugal perdeu os seus territórios na Índia em 1961, então porque deixar Macau em mãos portuguesas? Os autores não avançam com explicações para este caso.
Algo que também fica por esclarecer é a importância do que os autores consideram ser o maior partido maoísta no ocidente: o de Portugal.
No final não há indicação a nenhuma consulta de arquivo português. Seria importante sabermos como se processava a ajuda da China ao partido, sendo que esta devia ser substancial tendo por comparação as ajudas que eram dadas a outros partidos e apoiantes pelo mundo inteiro. O que fizeram os membros portugueses com esse dinheiro? E qual a sua importância na função de divulgadores do pensamento maoísta no mundo?

A inteligência na Rede

Ontem, enquanto pesquisava na Rede, encontrei duas coisas que me espantaram particularmente: a página do “opinion source” e a página que diz respeito à agenda de actividades da Universidade de Londres (London School of Economics and Political Science). Os motivos são os mesmos: ambos os sítios providenciam um acesso ao conhecimento, à informação e uma variedade na escolha de temas, verdadeiramente assombrosos.
Sendo que na página do “opinion source” temos entrada em artigos que nos podem ser enviados na forma de “newsletters”, com origem em várias partes do mundo e tendo por fonte a imprensa e blogues. Atente-se no artigo "Hysteria, hypocrisy and immigrant hordes", de Gideon Rachman, publicado no "Financial Times", no que à região Europa diz respeito.
É claro que os critérios de selecção pertencem à fundação que edita o “site”, mas não deixam de ser muito interessantes, ainda que nos possamos perguntar porquê estes e não outros? Como em quase tudo na vida.

Os salários dos professores e a OCDE

Raposa Velha do Fliscorno faz uma análise do relatório da OCDE e das consequentes conclusões por parte do nosso Ministério da Educação no que aos salários dos professores diz respeito, deixando um bela questão aos nossos jornalistas.