quinta-feira, novembro 30, 2006

as liberdades e suas representações

Andava eu um dia destes à procura na internet de imagens plásticas sobre a temática ligada à revolução quando descobri, numa página do Museu virtual do patriarcado de Lisboa, uma fotografia com uma escultura do séc. XVIII da Escola de Machado de Castro representando a liberdade. Roliça e formosa, embora emocionalmente pouco densa, a liberdade portuguesa faz-se representar com um ramo de flores numa mão, abrindo-nos a outra para mostar que nada aí trás escondido que seja instrumento perturbador da ordem. Tendo uma pomba a coroá-la nada nela remte para a invocação de um estado de violência. Uma escultura bucólica, pese embora o movimento inquieto das pregas da sua túnica junto aos joelhos.

E olhei depois para a Liberdade que conheço quase de cor da iconografia da Revolução Francesa. Uma liberdade pintada por Delacroix, uma liberdade tão intensamente absorvida na sua paixão de conduzir os homens, com uma bandeira na mão e uma arma na outra, que nem nota, ou se importa sequer, com o facto de o seu peito se ter desnudado.
Com o cabelo desgrenhado, ela constata, sem reacção, olhando por cima do ombro, como a multidão a está a seguir. A seus pés jazem corpos e a seu lado um jovem rapaz em delírio bélico, caminha empunhando duas armas, uma que parece ter acabado de disparar para o ar, ou ir fazê-lo a qualque momento, e outra cujo peso faz descair o braço em direcção ao chão.
Para onde está a liberdade a caminhar?

A paixão pela compaixão (revolução 4)

Então a paixão pela compaixão é histórica? Aprende-se?
Pensava-se antes: É natural a miséria. É assim, sempre haverá ricos e pobres.
Começou a pensar-se depois: A miséria não é natural e tem que ser suprimida.
Mas a repugnância inata, como foi inoculada?

« A história diz-nos que de modo nenhum é coisa natural que o espectáculo da miséria mova os homens à piedade; mesmo durante os longos séculos em que uma religião cristã compassiva determinava os padrões de moral da civilização do Ocidente, a compaixão operava fora do domínio político e frequentemente fora da hierarquia estabelecida da Igreja. Contudo, trata-se aqui de homens do século XVIII, quando esta indiferença antiquada estava prestes a desaparecer e quando, segundo as palavras de Rosseau, “uma repugnância inata pelo sofrimento do próximo” se tornou comum em certos estratos da sociedade europeia e precisamente entre os que fizeram a Revolução Francesa. Desde então, a paixão pela compaixão habitou e guiou os melhores homens de todas as revoluções, e a única revolução em que a compaixão não desempenhou qualquer papel na motivação dos actores foi a Revolução Americana.” , Hannah Arendt, p. 86.

E porque não esta compaixão na América? Porque lá todos os tios são ricos, ou não tão miseráveis?

quarta-feira, novembro 29, 2006

Revolução (ainda) 3


« Foi a necessidade, as carências urgentes do povo, que soltaram o terror e conduziram a Revolução à sua ruína fatal. Robespierre, no fundo, sabia bastante bem o que tinha acontecido, embora o tivesse formulado (no seu último discurso) em forma de profecia:”Iremos perecer porque, na história da humanidade, deixámos escapar o momento de fundar a liberdade”. Não foi a conspiração de reis e de tiranos, mas sim a conspiração mais poderosa de necessidade e da pobreza (…).
A transformação dos Direitos do Homem nos Direitos do Sans-Culottes foi a reviravolta, não apenas da Revolução Francesa, mas de todas as revoluções que se lhe viriam a seguir.” Hannah Arendt p.73

A revolução terá então sido tomada não pela intenção de alcançar a liberdade, mas de dar resposta à necessidade que, por sua vez, submerge a própria liberdade. Torna-se uma ditadura. Sim. Mas a força da necessidade não é só um ímpeto, uma ideia, ela materializa-se na fome, na miséria e na morte de seres humanos. Se calhar esses estados de carência seriam mais depressa suprimidos se o caminho fosse o da liberdade, o de deixar vir esse tempo, mas a carência toma conta desse tempo, é urgente. Quem tem fome e pode berrar, vai-se calar e deixar-se morrer à espera de que a sua necessidade se subalternize em relação a uma valor mais alto? Como racionalizar uma necessidade?

A reposta aparece dada por Arendt quando ela diz, criticando, que um erro de Karl Marx, foi o de ter afirmado que essa necessidade era uma consequência social (da violência da classe dirigente e exploradora que açambarca os recursos dos necessitados) e não uma necessidade entendida como um estado de carência, um fenómeno natural. Isto é, que transformou a “questão social numa força política”. Tenho dificuldade em compreender. Porque para mim a questão social e política nunca foram categorias que pensasse como sendo de esferas diferentes, porque esse foi sempre o meu modelo de reflexão, e não sei, sequer, se é possível ultrapassá-lo. E também tenho dificuldade em compreender como entender um fenómeno social, como a miséria, e não lhe dar uma resposta política, mas procurar sim uma resposta para um fenómeno natural.
O que é isto de ser um fenómeno natural? Uma força contra a qual não podemos agir? O quê? Como assim?

terça-feira, novembro 28, 2006

Foi assaltada por uma suspeita. Coisa mísera. Mas...as palavras do papa Bento XVI serão de santo ou serão uma senha?

Os meios e os fins na educação superior

Ontem, depois do cansaço de escutar até horas tardias o programa “Prós e Contras” subordinado ao tema do financiamento do Ensino superior (mas que ideia pôr o programa a terminar tão tarde...) só consegui alinhar dois pensamentos: como é que um dos melhores Ministros que a República tem tido embarcou na falácia da misericórdia e na da falsa generalização logo que iniciou o seu discurso? Que não haja Ministro e Secretário de o Estado que não o faça, já é de lamentar, mas que o Ministro Mariano Gago embarque nesse já insustentável chavão do governo de Sócrates que serve como legitimação de qualquer política, para não dizer que é a própria política (o défice, sabe…, e o país…, e vocês não querem deixar de fazer sacrifícios pela nação enquanto todos os outros fazem…, não é?). Mas alguém ainda acha que isto é argumento? E serve para tudo? Querem enganar quem? Claro que queremos fazer sacríficos por Portugal se percebermos que esse sacrifício não sacrifica a própria concepção que temos de uma política futura para Portugal. Então é agora o governo que tem o monopólio das ideias boas para Portugal, não?
Ao menos, na inusitada intervenção do prof. Moniz Pereira de forma sacudida disse-se as verdades que o Ministro no seu discurso redondo não tinha a coragem de dizer na cara dos senhores reitores: - Há que abanar o sistema e a única ideia que tivemos para o fazer é cortar nos financiamentos para ver se da crise nasce uma gestão mais rigorosa.

Mas o que tem esta preocupação com a racionalidade dos meios, pertinente, a ver com os fins que se querem para a educação em Portugal?
O que me leva à segunda coisa em que pensei. O prof. Adriano Moreira e o prof. Nóvoa, este em menor grau, fizeram as perguntas certas da noite e que o Sr. Ministro não respondeu (ressalvo que respondeu bem a outras como a que dizia respeito aos critérios de selecção das universidades para parceria com o MIT), afinal qual é o paradigma de ensino/socialização para o qual nos estamos a preparar? Onde estão as políticas concretas que ditarão o caminho da nação no que à formação superior diz respeito?

E mal esteve este Ministro, como o estão todos, os que sustentam a posição de Portugal como uma nação periférica, porque para isso terão que justificar onde está, e porque o é, o centro. Que eu saiba não há uma nenhuma marca geodésica, ou metafísica, que nos obrigue a situar na periferia do que quer que seja.
O Amadeu enviou-me este post, a pretexto da morte de Cesariny, do blogue ana de amsterdam. Gostei muito.

segunda-feira, novembro 27, 2006

Hannah Arendt (Interview à New York 1973)

Discursa sobre a importância da Constituição para os americanos, que fundaram a sua nação na comunhão pela lei, pela palavra, também sobre o determinismo histórico, a acção humana colectiva que reside no contágio, e de como é possivel que pareça que o passado não se poderia ter passado de outro modo, acabando também a falar sobre a sua recusa de ser identificada como uma liberal.
"Je pense ce que je peux et ce que me convient"."Le fait de penser était lui même une enterprise très dangereuse, mais ne pas penser était encore plus dangereuse"

E a guerra no Iraque custa aos americanos...

Andava à procura de uma informação na internet e descobri esta página do National Priorities Project, que tem um relógio/contador que regista ao milésimo de segundo o que se está a gastar com a guerra no Iraque. Confesso que é difícil desviar os olhos e dixar de ser submetida a uma sensação de entorpecimento pela estupefacção. Tolda-se o raciocínio com a velocidade dos números a passarem no visor. Mas a página, bem construída, faz assentar os pés na terra. Que desperdício.
The War in Iraq Costs
$345,687,722,634 (há um segundo atrás).

Critérios de definição de Democracia - Ainda a propósito do ranking internacional para países democráticos

Como se procede na apresentação e na análise de critérios? A acção é precedida de necessária indicação de critérios, fundamentados, para justificarem a mesma. Seja no caso em que se cria uma lista classificativa, seja quando se propõe acções globais de divulgação/imposição da democracia, ou no mero enunciar de um programa para o sistema educativo. Pergunta-se: Quais são os critérios definidos? E porquê estes?
"There is no consensus on how to measure democracy,
definitions of democracy are contested and there is an
ongoing lively debate on the subject
. The issue is not
only of academic interest. For example, although democracy-
promotion is high on the list of American
foreign-policy priorities, there is no consensus within
the American government on what constitutes a democracy.
As one observer recently put it, “the world’s
only superpower is rhetorically and militarily promoting
a political system that remains undefined—and it
is staking its credibility and treasure on that pursuit

(Horowitz, 2006, p 114).

(...)
Even if a consensus on precise definitions
has proved elusive, most observers today would
agree that, at a minimum, the fundamental features of a
democracy include government based on majority rule
and the consent of the governed, the existence of free
and fair elections, the protection of minorities and respect
for basic human rights. Democracy presupposes
equality before the law, due process and political pluralism.

At present, the best-known measure is produced
by the US-based Freedom House organisation.
The average of its indexes, on a 1 to 7 scale, of political
freedom (based on 10 indicators) and of civil liberties
(based on 15 indicators) is often taken to be a measure
of democracy.

(...)

Freedom House criteria for an electoral democracy include:
1. A competitive, multiparty political system.
2. Universal adult suffrage.
3. Regularly contested elections conducted on the basis
of secret ballots, reasonable ballot security and the
absence of massive voter fraud.
4. Signifi cant public access of major political parties to
the electorate through the media and through generally
open campaigning.

The Economist Intelligence Unit’s democracy index
is based on fi ve categories:

1. Electoral process and pluralism;
2. Civil liberties;
3. T
he functioning of government;
4. Political participation;

5.and political culture.

The condition of having free and fair
competitive elections, and satisfying related aspects of
political freedom, is clearly the basic requirement of all
defi nitions.

At the same time, even our thicker, more inclusive
and wider measure of democracy does not include
other aspects—which some authors argue are also crucial
components of democracy—such as levels of economic
and social wellbeing. Thus our index respects the
dominant tradition that holds that a variety of social
and economic outcomes can be consistent with political
democracy.

The Economist Intelligence Unit’s index provides a
snapshot of the current state of democracy worldwide
for 165 independent states and two territories. This covers
almost the entire population of the world and the
vast majority of the world’s 192 independent states (27
micro-states are excluded)."

In Economist Intelligence Unit.

Deambulações

No caminho para a Gulbenkian, o programa consistia em ir ver a exposição de Amadeo Sousa Cardoso e na volta passar pela feira do livro que eles estão a organizar, ficámos a saber que Mário Cesariny tinha morrido. Foi pelo facto de na rádio se estar a falar nele utilizando verbos no passado. Sem que nenhum de nós tivesse uma especial ligação afectiva, estética ou intelectual com o Cezariny autor, ficámos contristados.

Na Gulbenkian extasiamo-nos com a escultura em livros que o CAM expõe no seu Hall. É uma experiência verdadeiramente incrível passarmos no meio dos livros que, reflectidos num espelho, se multiplicam por milhares num poço a que não se vê o fundo. Borges, Escher, o poço da Quinta da Regaleira e espaço de diversões num só lugar. Fabuloso.

A exposição foi vista no meio de centenas de visitantes com uma criança a perguntar quantos quadros faltavam ver para irmos embora. Pouco cómodo, mas ainda assim a proporcionar vislumbres de uma obra de excepção.

À noite, saltitando entre a entrevista à Ministra da Educação e à que era feita a Nogueira Pinto, acabei por ficar a ouvir a última, porque o tom monocórdico, a ausência de um projecto educativo com conteúdo e que eu considere relevante acabou por me fazer desinteressar de todo de ouvir a primeira. E, pelo contrário, o modo, o tom e o conteúdo do que anunciava a segunda me seduziu. Defendeu-se com a apresentação de prova feita. É assim mesmo, as mulheres têm uma tendência social de evitarem a auto-promoção. Ficam sempre a perder na vida pública por isso.

sábado, novembro 25, 2006

Portugal e a Revolução. A Francesa 2


E bom, balanço-me para a resposta. Tantos dias a adiar.

O povo estava informado, as classes dirigentes estavam vigilantes, e no entanto a Revolução, como os franceses a estava a viver, não parece seduzir os portugueses. Nem o povo, nem a burguesia ou a aristocracia parecem sentir necessidade de reagir contra a coroa. Porquê? Será que o sentimento que animou os revolucionários franceses no início, e os americanos também, e que era o de restaurarem uma ordem perdida contra o despotismo das autoridades, não fazia sentido na conjuntura portuguesa?
Sabe-se, é verdade, da existência de conflitos com os senhorios, mas, como explica Nuno Gonçalo Monteiro, esses movimentos, muitos deles orquestrados pelos notáveis da terra “Recorriam escassamente à violência, confinando-se geralmente à resistência passiva ou, quando bem apoiados, ao litigio judicial, escudado numa atitude quase unânime da colectividade local.”, História de Portugal, p. 362. Eram conflitos circunscritos às comarcas. E sobretudo, a Norte do país. O Sul, menos povoado e com outro tipo de divisão da propriedade, nem desses conflitos parece dar-se conta.

Será que os homens que estariam em condições de procurar restaurar essa ordem antiga, perdida ou sonhada num tempo que já tinha sido, estavam, em Portugal, agora, em 1789, suficientemente satisfeitos com o esforço empreendido logo no início do reinado de D. Maria, 1777-1816, com a reacção contra o governo e a pessoa de Marquês de Pombal?

Vou efabular, mas se tivesse o rei D. José I morrido mais tarde e Pombal continuasse as suas violentas e autoritárias reformas políticas, a história da revolução francesa em Portugal não teria outro sentido?

Portugal, no tempo de D. Maria I, terá então procedido exactamente com o intuito revolucionário, no que ao termo se poderia conotar originalmente como o de traduzir uma intenção de restaurar uma ordem perdida. O que veio a acontecer com a reacção anti pombalina conhecida como “a viradeira”. A reabilitação de nobres caídos anteriormente em desgraça e o afastamento de governantes, de entre os quais destaca-se o próprio Marquês de Pombal, terão descansado os ímpetos revolucionários que, em Portugal, não se transformaram em agentes e agenciados da própria necessidade histórica revolucionária que conduziu os franceses?
Explicaria Hannah Arendt, parece-me, que em Portugal, por circunstâncias diversas, das quais eu destaquei de forma simplista a que me parece primordial, os homens de setecentos não se submeterem ao rumo dos acontecimentos, procuraram manter a revolução no domínio da satisfação dos interesses e necessidades decorrentes ainda de uma circunscrita acção humana.

A necessidade dos oprimidos portugueses não pareceu coincidir com a necessidade histórica de tudo mudar para criar algo de novo. Escaparam ao terror da revolução francesa, ou perderam a oportunidade de criar uma nova prática política, como na revolução americana?

Seja como for, a nossa revolução não se tornou revolucionária. Não escapou da vontade dos seus operadores.

Satisfeitinhos com o pouco, ou reconhecidos que era o máximo possível nas circunstâncias possíveis, ou ignorantes acerca das forças com que estava a operar, sendo que a história não lhes quis ditar ali um destino da nova revolução?

Uma questão de perspectiva para uma sociedade justa



Eu ontem, na cidade de Lisboa, só tive que me preocupar em não me molhar nas correrias que fazia entre o carro e os edifícios para onde tinha que ir. Não tinha sequer que me incomodar com a força da tempestade. E a quem me dirigia “Isto hoje é que está um tempo…” conseguia responder altaneira“ É tempo para este tempo...”.
Hoje, no Ribatejo, as pessoas que se encontravam saudavam-se alegremente e perguntavam-se ansiosas: “Então, ontem, como é que te viste?”.

Isto remete-me para a questão da regulação de interesses. Como saber de interesses que não são os nossos e respeitá-los, ou delimitá-los, no quadro de uma legislação boa? Ou de um pensamento solidário, ou mesmo de uma acção justa? Terão os legisladores que ser todas as pessoas ao mesmo tempo, estar em todos os lugares simultaneamente e de tudo saber? Não, porque não têm uma carácter/natureza divina.
Então como legislar justamente para todos, se só conhecemos realmente os nossos próprios interesses? Não pergunto pela legitimidade. Que até a poderá ter se essa pessoa se elegeu por força do voto democrático. Pergunto pela possibilidade de se legislar justamente.

O consenso alargado de Habermas e o princípio do “véu da ignorância” de Rawls procuram responder a esta questão da possibilidade, ou não, da existência de uma lei justa feita por um punhado de pessoas para uma imensidão de outras.

Mas será que é assim que se procede, que os legisladores são, ou será que era assim que se deverá proceder, que os legisladores deveriam ser?
E o que fazemos com legisladores injustos? E como sabemos se são injustos já que só poderemos estar, por nossa vez, a defender os nossos interesses e a confundir a injustiça praticada com equidade da lei aplicada a todos? Se formos muitos a ´reclamar pela injustiça, teremos mais razão? E se for só um, mas mais esclarecido quanto aos critérios e métodos? O que fazer?
"O 'mistério' do 25 de Novembro de 1975" por José manuel Barroso

sexta-feira, novembro 24, 2006

Dia de chuva 2

15

"Se nas palavras vou um pouco sempre
adiantado, como uma quimera
daquelas bem reais que têm bico
e corpo de lagarto? e rosto humano? é que também não vivo neste instante
mas noutro, inteiramente coincidente.
Jamais aceitarei que o mundo seja
vago manto enrugado de montanhas,
Alguns bichos na água, outros em terra, outros voando em fútil incerteza.
Se me prendo ao teu rumor ausente
não é que me consuma numa imagem
ou deseje real o imaginado;
é por outro real em ti presente."

António Franco Alexandre, Duende, Assírio e Alvim, 2002, Lisboa, p.23.

Dia de chuva

Hoje foi um dia de chapéus-de-chuva de varetas partidas e abandonados por todo o lado em Lisboa. Nunca tal vi. O dia dos chapéus mortos.

E eu aqui a fingir que não tenho uma pergunta por responder.

Ou a fingir que no dia de hoje o que há de imagem a realçar tem a ver com as dezenas de chapéus-de-chuva que vi abandonados.

"(...)
Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
(...)"

Fernando Pessoa

quinta-feira, novembro 23, 2006

o ensino e a investigação, desta feita o ensino Superior

O artigo de Paquete de Oliveira
O inferior ensino superior

O blogue de JV Costa com um link para o relatório da Rede Europeia para a Garantia da Qualidade do Ensino Supeior (ENQA).

quarta-feira, novembro 22, 2006

Revolução francesa e Portugal 1

Bonito sarilho. Não que não tivesse pensado na resposta. Mas não me apetece nada discorrer sobre este assunto. Poderia deixar a pergunta de um post anterior suspensa. Na realidade ando a adiar. Mas não consigo avançar na questão do que é a Revolução, por isso lá vou ter que pensar numa solução para esta questão que agora me persegue. Solução insatisfatória, pois que tanto sei eu que possa fechar de alguma forma esta questão de saber porque razão a Revolução francesa que rastilhou muitas sociedades europeias, não teve repercussão imediata na nossa? Não quero fechá-la, procuro saber.


A Gazeta de Lisboa” edita a última notícia sobre os acontecimentos revolucionários em França a 5 de Setembro de 1789. A partir desta data só volta a fazer referência à França no dia 15 de Dezembro de 1789 e com uma notícia, ocorrida e datada de 24 de Novembro, acerca de uma discussão tida na “Academia Real das Ciências” de Paris sobre … astronomia.
Quer dizer, no dia 5 de Setembro ainda há a oportunidade do correspondente em França ver publicado um longo extracto da sua carta escrita em 11 de Agosto, relativa ao que se passou na “Assembleia Nacional Francesa”. No artigo impresso pode-se ler:
A 5 d` Agosto teve principio a sessão da Assemblea Nacional pela leitura do processo Verbal da Sessão do dia precedente: sessão, que será sempre assinalada nos Annaes da França

E a sessão de 4 de Agosto ficaria nos Anais de França, porquê? Porque nesse dia se discutiu “(…) a questão dos direitos do Homem e do Cidadão.”, conforme noticiou a gazeta publicada a 3 de Setembro em Lisboa.

Mas a partir de 5 de Setembro de 1789 estabelece-se o silêncio, em edições impressas com autorização real, sobre os acontecimentos revolucionários em curso. Auto-censura por parte do editor, com temor de uma suspensão da licença de imprimir (privilégio régio)?
Na realidade eu não encontrei provas de que o redactor ou o correspondente da “Gazeta de Lisboa” tivessem sofrido quaisquer pressões oficiais registadas. Não encontrei parágrafos, textos ou ideias censuradas nos manuscritos. Onde procurei, não encontei sinal de censura directa e explicita.

Sabe-se que em Portugal se discutiu a questão dos direitos do homem e do cidadão, mas não se encontra uma publicação com a Declaração propriamente dita. Como é que os leitores saberão então do que se está a escrever, quando se escreve no jornal oficial que há uma discussão relacionada com os direitos na Assembleia Nacional? Onde é que os portugueses tinham ido buscar essa informação?
A sociedade está consciente das ideias e dos actos revolucionárias franceses, porque, como nos diz Tengarrinha no seu livro História da Imprensa Portuguesa, editado pela Caminho e esgotadíssimo há anos:
”No púlpito, frades e padres trovejavam contra os novos ideais subversivos; no seio das famílias nobres ou abastadas reinava o terror contra os ímpios assassinos de Luís XVI. No entanto, sub-repticiamente, insidiosamente, nos botequins, cafés, bilhares, às esquinas onde apareciam pasquins alusivos aos acontecimentos de França, as ideias revolucionárias eram discutidas com voz prudente, mas cada vez mais amplificada.” pp.78-79
Então se eram os "pasquins", folhas volantes ou outras edições proibidas que entravam e circulavam ilegalmente em Portugal a informarem o povo, porque não juntou este a sua acção à acção revolucionária dos outros povos? Afinal estava informado sobre o que se passava.

terça-feira, novembro 21, 2006

Sinal dos tempos

Hoje apresentava aos meus alunos a lista classificativa relativa ao grau e à natureza da democracia no mundo, e perguntava-lhes como interpretavam o facto de a Inglaterra e os Estados Unidos, países matriciais no que à implementação e divulgação das democracias parlamentares diz respeito, estarem a ocupar dos últimos lugares em comparação com os outros países ocidentais.
Nenhum dos meus alunos evocou o papel das medidas de segurança adoptadas internamente como factor de restrição das liberdades civis. Para todos eles, sem excepção, a segurança era o valor supremo sobre o da própria liberdade.
O grupo é pequeno e vale o que vale como amostra, mas é curiosa a inversão de prioridades nos últimos anos. Pessoas menos politizadas, não se estando a fazer uma boa enculturação desses valores ditos superiores em política, ou mudança de paradigma valorativo no mundo ocidental que não sente uma ameaça directa às liberdades, mas sim, e antes de mais, à sua própria existência física?

Darfur. Aí vamos nós outra vez.

Save Darfur ainda e uma vez mais.

segunda-feira, novembro 20, 2006

Democracia,decisão, discussão

Entre continuar a minha série de apontamentos sobre o tema da revolução, via livro de Arendt, e escrever sobre a importância das palavras em democracia, prefiro seguir esta última via agora. Só por causa da inquietante ausência que sinto de palavras e do ensino do governo da cidade pela discussão nos discursos dos governantes do nosso país. Há uma ausência de palavras.

Eu sabia, quando muitas pessoas repetiam à saciedade os defeitos de um governante como o eng. Guterres que proponha para tudo a busca de um consenso social, que o reverso desta acção iria trazer tantos desapontamentos quantos os que então se descobriam num governante com dificuldades de decisão. Entre o voluntarismo dos que sabem decidir, e a aquietação dos que sabem ouvir e deliberar com o máximo comum de interesses, não há meia escolha no espectro dos políticos?

Escolhi um texto de Péricles. Não porque Péricles seja um intocável governante, numa intocável sociedade democrática. Nem um, nem a outra, o eram, de um ponto de vista da discussão teórica e também de um ponto de vista de um recto exercício do poder. Mas porque estando esse governante no contexto que permitiu institucionalizar o uso que se dava então a uma palavra que se fazia nova realidade política, a democracia, de algum modo a pode apresentar mais próxima para descrever a democracia como ela é, e para a compreensão do uso que dela se faz hoje.

“O regime político que nós seguimos não inveja as leis do nosso vizinho (…). O seu nome é democracia, pelo facto de a direcção do Estado não se limitar a poucos, mas se estender à maioria. (…) e por nós julgamos as questões públicas, ou pelo menos, estudamo-las convenientemente, não por pensarmos que as palavras prejudicam a acção, mas sim que é mais nocivo não ensinar primeiro pela discussão, antes de chegar o tempo de actuar. Diferentemente dos outros, temos ainda a norma de ousar o máximo mas reflectir profundamente sobre a empresa a que nos votamos. Enquanto que aos outros a ignorância traz a coragem, e o cálculo acarreta a hesitação.”

Tradução de Maria Helena Rocha Pereira, Hélade, ed. Asa, 1963, pp.288-289.