quarta-feira, dezembro 06, 2006

Não se devem legitimar acções de guerra preventivas

Fosse este um laboratório político e eu diria que a administração Bush conseguiu com este senhor Gates dar uma lição de humildade democrática, retrato do bom funcionamento de um sistema que se auto-repara constantemente. Mas o Iraque, e o mundo, não é um laboratório para a teoria política, e por isso as mortes, a desordem e a destruição das instituições iraquianas, constituem motivo para declarar que se cometeu um crime contra a humanidade conduzido pela administração Bush, e que nem este digno exemplo de democracia americana pode fazer esquecer.
Espero que o unilateralismo das decisões e acções dos primeiros tempos da administração americana sejam devidamente sancionadas por quem de direito: a tida então no princípio da guerra como a supérflua ONU e a juridicamente risível, à altura, Carta das Nações Unidas.
Quem está a perder a Guerra é a América, não as Nações Unidas.
"4) Os membros deverão abster-se nas suas relações internacionais de recorrer à ameaça ou ao uso da força, quer que seja contra a integridade territorial ou a independência política de um Estado, quer seja de qualquer outro modo incompatível com os objectivos das Nações Unidas;

5) Os membros da Organização dar-lhe-ão toda a assistência em qualquer acção que ela empreender em conformidade com a presente Carta e se absterão de dar assistência a qualquer Estado contra o qual ela agir de modo preventivo ou coercitivo;"

Revolução e pobreza 5

Em 1776 os tios da América não eram todos ricos. Existia um grupo de trabalhadores que nem miseráveis se poderiam considerar, visto que nem a liberdade para o poderem ser tinham então. Eram os escravos. Arendt interroga-se como foi possível numa terra em que verdadeiramente não havia hordas de pobres, como na Europa, mas tinha um sistema social assente na infame escravatura, não ter havido também uma revolução da “necessidade”, como iria acontecer em França, mas sim uma revolução da “liberdade”. Chega à conclusão que a escravatura não tinha visibilidade como situação social a reparar. Como se de uma não realidade, logo invisível, se tratasse. Enquanto que a invisibilidade para a pobreza estava a ser lentamente ultrapassada no velho mundo, pelo esforço colectivo dos pobres em se manifestarem, e, sobretudo, pela descoberta feita por parte de alguns teóricos da importância social e política de se considerar a pobreza como um resultado social e político passível de ser mudado, criando assim a obrigatoriedade de ver esse estado de miséria como algo não natural, que começava a tornar impossível aos governantes não repararem nas situações deploráveis em que milhares de seres humanos subsistiam. Este factor, “o da revolta da barriga”, o da submissão da liberdade à satisfação da necessidade, e um outro, o factor herança histórica, que potenciava a falta de preparação prática para o exercício das suas ideias, teriam estado na origem das causas que explicam experiências revolucionárias tão distintas.
Enquanto na América o povo já formava assembleias de cidade, mesmo quando sob o domínio da coroa inglesa, assembleias onde aprendiam a desenvolver o gosto pela discussão, pela deliberação e a fazer uma escolha de decisões, formando assim os seus futuros representantes na arte do negócio público, onde os mais notáveis sobressairiam no exercício argumentativo (porque herdeiros de uma história que privilegiava agora a acção governativa de uma monarquia limitada), em França, as ideias sobre a sociedade e a política nunca tinham sido experimentadas (eram herdeiros de uma concepção absolutista de governo, o regime precedente era o de uma monarquia absoluta), não surgiam de uma prática e não eram sujeitas a debates, não se procurava negociá-las em público com todos os interessados (para Arendt a Assembleia Francesa não consistiu no laboratório necessário para a democracia, porque os valores ali evocados não eram o de privilegiar a discussão e a deliberação popular, mas valores que procuram recuperar, imitando-os, os valores republicanos romanos, cujas instituições políticas eram tão admiradas pelos homens de letras de setecentos). (pp. 141 a 172)
Arendt explica a revolução americana como o tempo em que se procurou fundar um corpo político que garantisse haver espaço para a paixão da liberdade pela liberdade (p.153), onde não houve a necessidade de confundir libertação com liberdade, em que a revolução se tornasse ela própria não um meio mas um fim em si mesma.
A revolução francesa, e as revoluções que lhe seguiriam o modelo, assumir-se-iam como lutas pela libertação.
A revolução americana assumir-se-ia como o método de estabelecimento da liberdade pela instauração de um governo constitucional (com uma acção limitada pela lei).
Mas permanecem duas questões em aberto. 1. Não tendo sido a revolução na América assolada pela miséria dos seus cidadãos e dominada pela paixão dos pobres no início, poderão as suas instituições resistir agora à paixão duma sociedade virada sobretudo para os valores da produção e para o consumo? Arendt diz-nos que a este respeito existem tantos sinais de esperança como de receio. p. 169.
2. E como se instituiu o poder e a autoridade num regime que estava a criar-se de novo? Onde se foi buscar esse poder e autoridade, a que modelo?

terça-feira, dezembro 05, 2006

Hannah Arendt (Interview 1964_1)

“In other words: Though we don't know who killed Litvinenko, we have learned that London is a more exciting place than we thought it was. We have learned that the complex plots of Dostoevsky novels merely reflect Russian reality. And we have learned that the old KGB lives on in new guises.”

Anne Applebaum, “A familiar Mystery”, no “Washington Post
Li e fiquei a pensar.
"Sem justiça" de José leite Pereira no "Jornal de Notícias"

E a segunda parte de um artigo aqui já referido:

"Ainda o 25 de Novembro e o PCP" de José Manuel Barroso no "Diário de Notícias"

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Hannah Arendt (Interview 1964_1)

Tinha projectado terminar hoje a leitura do livro de Hannah Arendt que me tem dado o pretexto de reflectir sobre a questão da revolução, mas não o consigo fazer agora.

Ora decidi passar o video onde a autora exprime a sua ideia de que não é uma filósofa, que não pertence ao círculo dos filósofos, afirmação que é citada à saciedade por quem a conhece.Reparo que depois de dizer que a sua actividade se prende com as questões da teoria política, Arendt diz-nos que não se sente filósofa e que crê que não seria recebida no círculo dos filósofos. E porque não? Porque tal actividade era entendida como sendo de homem. Ah... E acrescenta ela: "je ne m`estime pas philosophe". E depois começa a filosofar.

domingo, dezembro 03, 2006

Discursos sobre a educação: analogia

Na aldeia na Beira, ou mesmo na aldeia do Ribatejo, havia sempre noites de incontornável mal-estar. Ir para a cama nas noites frias em que os meus pais se lembravam de ir visitar os seus pais, equivalia a um exercício de estoicismo. Entrava-se quase sempre numa cama de lençois de linho tão gelados e ásperos que fazíamos várias tentativas antes de finalmente nos conseguirmos cobrir com eles. Tínhamos depois um monte de cobertores pesadíssimos em cima que nos oprimiam o peito e não nos permitiam uma respiração serena. Não nos mexíamos nem um bocadinho, na esperança do lugar onde nos enrolávamos sobre nós próprios aquecer rapidamente e dar-nos o conforto almejado, para além de que aventurar um pé para além do território já decalcado, era como caminhar na neve. O cheiro a humidade da roupa que estava emalada hà muito antes de ser ali usada naquele inverno, o peso daquelas mantas feitas em casa, o frio das habitações que nos obrigava a manter o nariz dentro da roupa, tudo isso nos causava confrangimento e suspiravámos, discretamente então, pelas nossas camas da cidade, enquanto, tremendo, aguardávamos o sono que nos levaria dali para fora até à chegada de uma manhã mais clara e de uma cama finalmente confortável.

O terror de esquerda e o terror de direita, igualmente odiosos

Da forma deselegante, porque aérea, no meu post anterior não indiquei o nome do blogue do prof. Nogueira Pinto e outros, porque obviamente não me lembrava qual era o título atribuído.
Hoje, com acesso mais rápido à Internet, posso indicar o endereço para a ligação, é o “Futuro Presente”, http://www.ofuturopresente.blogspot.com/.

Não posso fazer um link porque algo aconteceu à configuração da página onde escrevo os meus textos, e desapareceu-me a barra de ferramentos que me permitia, entre outras coisas, fazer "ligações".

Bom, o post que me criou séria resistência intelectual, e que depois de alguma hesitação inicial me levou a decidir escrever sobre o que não concordava de todo, intitula-se “sobre o 25 de Novembro: 1. o Thermidor francês”.

Não concordo com o último dos seguintes parágrafos: “(…)Os processos de terror de "esquerda" têm sempre uma curiosa marca que os torna mais odiosos: é justificarem-se, permanentemente, pela "virtude", pelo "bem", pelo "mundo melhor". Líderes cínicos ou pelo menos tão maquiavélicos como todos - soltam os seus cães, polícia política, "milícias", povo, camponeses - aterrorizam, prendem, massacram, sempre com um discurso "justificativo".

O "terror" das "direitas" - que também não falta - não tem este lado "ideológico-religioso"; desde os tempos da inquisição, cujos oficiais tratavam mal os corpos para salvar as almas. E os Inquisidores tinham a atenuante de acreditar que era mesmo assim... Modernamente dão-se razões de "bem público", mas não se faz em grandes apologias. Há pelo menos pudor. (…)”

Os discursos de justificação encontram-se sempre nos processos de terror, à esquerda como à direita. Não reconheço em nenhum líder de direita um grau menor quanto à aplicação do terror em nome de uma ideologia justificadora (e não me parece apenas a assumpção de uma estratégia lúcida de manutenção do poder pelo poder). Quando o terror de direita cai sobre o mundo, talvez não procure elaborar um discurso que denote uma clara tentativa de vir substituir o discurso clássico da redenção pela religião, ou pelo poder tradicional, porque na realidade está em muitos casos convencida de poder falar em nome dessa religião ou desse poder tradicional em crise ou em perigo.

Quer a direita quer a esquerda tendem a querer a tal ordem nova, uns, à esquerda, procurando um discurso que dizem querer ser um discurso novo para um homem novo, outros, à direita, com um discurso que dizem reparador daquela ordem perfeita que de algum modo terá sido posta em causa na sociedade e que necessita urgentemente de ser restituída. A nenhuns interessa o presente, e a todos o terror serve para promover a sua ideia de sociedade futura.
Justificando-se com a necessidade de recuperar valores perdidos, a direita justifica o uso do terror provocado em seu nome, tanto quanto a esquerda o faz. Só que pensa que não está a utilizar palavras novas, ou a introduzir valores novos, quando repete palavras ou valores antigos, como, por exemplo quando a direita alemã evocou, ou evoca, palavras como “Deutschland über alles, über alles in der Welt”.

Não precisa a direita de utilizar conceitos humanistas, de legitimar a sua acção pela busca de um admirável mundo bom, para justificar o seu terror, porque geralmente esse discurso do mundo bom já tinha sido proferido num tempo anterior na história que ela julga agora, apenas, vir recuperar/resgatar ao tempo que passou, evocando palavras antigas como se essas palavras significassem o mesmo que então.

Já o post “O 1º DE DEZEMBRO” me merece todo o aplauso. Não sei mesmo como é que a esquerda portuguesa, e alguma direita mais economicista, deixa por reflectir esta questão primordial da nossa nacionalidade. É como se houvesse uma qualquer vergonha da esquerda em falar em pátria, e em valores universais que gerações de portugueses ajudaram a criar e a divulgar pelo mundo como os de liberdade, independência, auto-determinação. E tem toda a razão o professor quando reflecte sobre a importância incontornável do discurso ideológico para a acção política no mundo.

sábado, dezembro 02, 2006

O livro de Arendt ficou em Lisboa. Podia continuar a discutir o tema da revolução a partir de um ideia defendida pelo prof. Jaime Nogueira Pinto no seu blogue e com a qual não sei se concordo - qualquer coisa que tem a ver com um modelo de acção da esquerda que a faz justificar o terror provocado pelas suas acções como se pela defesa de princípios humanitários. Mas com a lentidão no acesso à internet deste computador, quando descobrisse o referido post no referido blogue (cujo nome não recordo agora) já teriam passado horas.

Trouxe para ler a biografia de D. Manuel II de Maria Cândida Proença editado pelo Círculo de Leitores. O interesse pela pessoa é, sobretudo, o interesse das circunstâncias que contextualizaram a existência do nosso último rei.
Tenho pela monarquia uma rejeição instintiva, só depois essa rejeição é conceptualizada. Nessa rejeição não se entretece nenhum laivo de consideração pelos regicídios. Nem por aquele que a minha república começou por praticar. Não é só uma rejeição pequeno-burguesa pela violência. Ou de perturbação doméstica que uma mãe de família poderá sentir em face da desordem social que desses fenómenos sempre resulta. É por defender que há no assassínio de uma pessoa, de um representante político que seja, mesmo se de um tirano, o que até nem era o caso, de todo, o sinal de uma falta inicial que nenhuma teoria ou acção do acto heróico da libertação poderá justificar. É um acto inscrito num princípio de acção que denota ambições que desconsideram o indivíduo. Prenúncio de uma vontade desmesurada de impôr pela força outro regime, de se impor. Até à tirania da sua boa vontade. E não, não me parece que essa falta seja equivalente à que decorre das mortes num campo de batalha.

Em 1640 não precisámos de matar Filipe III.

No meu imaginário há os reis com estrutura existencial, D. Afonso Henriques e D. Dinis, por motivos de imaginário, e todos os outros têm o estatuo de personagens de ficção.
Um jornalista perguntava-se o que estaria o Papa a pensar quando rezava virado para Meca. Não sei muito de teologia, mas rezar não servirá para ajudar precisamente a suspender o pensamento, para descansar quaisquer dores provocadas pela força de vontade ou da extrema consciência, ou de uma sensibilidade afectada por uma dor tal que excede a sua plasticidade?
O que eu muito gostaria de ter ouvido foi a discussão, pública ou íntima, que terá levado à adopção de certas palavras e acções na visita à Turquia. Partindo do pressuposto que mais do que intuição ou revelação, nelas houve dedução. Aí é que o pensamento merecia ser
examinado, e os argumentos mereciam ser seguidos.
Recordo o filme de Manoel de Oliveira sobre a disputa retórica de Padre António Vieira no Vaticano. Hoje a academia portuguesa ignora as regras de orientação da actividade da disputa pública de um tema. A defesa e a refutação de teses é uma técnica que se ensina e que se aprende. Tanto pior para todos nós se aí só se conseguir ver um uso tecnicista, manipulador, do discurso. Ficamos sem defesas para avaliar os discursos falaciosos dos que detêm o poder de nos governar.

quinta-feira, novembro 30, 2006

as liberdades e suas representações

Andava eu um dia destes à procura na internet de imagens plásticas sobre a temática ligada à revolução quando descobri, numa página do Museu virtual do patriarcado de Lisboa, uma fotografia com uma escultura do séc. XVIII da Escola de Machado de Castro representando a liberdade. Roliça e formosa, embora emocionalmente pouco densa, a liberdade portuguesa faz-se representar com um ramo de flores numa mão, abrindo-nos a outra para mostar que nada aí trás escondido que seja instrumento perturbador da ordem. Tendo uma pomba a coroá-la nada nela remte para a invocação de um estado de violência. Uma escultura bucólica, pese embora o movimento inquieto das pregas da sua túnica junto aos joelhos.

E olhei depois para a Liberdade que conheço quase de cor da iconografia da Revolução Francesa. Uma liberdade pintada por Delacroix, uma liberdade tão intensamente absorvida na sua paixão de conduzir os homens, com uma bandeira na mão e uma arma na outra, que nem nota, ou se importa sequer, com o facto de o seu peito se ter desnudado.
Com o cabelo desgrenhado, ela constata, sem reacção, olhando por cima do ombro, como a multidão a está a seguir. A seus pés jazem corpos e a seu lado um jovem rapaz em delírio bélico, caminha empunhando duas armas, uma que parece ter acabado de disparar para o ar, ou ir fazê-lo a qualque momento, e outra cujo peso faz descair o braço em direcção ao chão.
Para onde está a liberdade a caminhar?

A paixão pela compaixão (revolução 4)

Então a paixão pela compaixão é histórica? Aprende-se?
Pensava-se antes: É natural a miséria. É assim, sempre haverá ricos e pobres.
Começou a pensar-se depois: A miséria não é natural e tem que ser suprimida.
Mas a repugnância inata, como foi inoculada?

« A história diz-nos que de modo nenhum é coisa natural que o espectáculo da miséria mova os homens à piedade; mesmo durante os longos séculos em que uma religião cristã compassiva determinava os padrões de moral da civilização do Ocidente, a compaixão operava fora do domínio político e frequentemente fora da hierarquia estabelecida da Igreja. Contudo, trata-se aqui de homens do século XVIII, quando esta indiferença antiquada estava prestes a desaparecer e quando, segundo as palavras de Rosseau, “uma repugnância inata pelo sofrimento do próximo” se tornou comum em certos estratos da sociedade europeia e precisamente entre os que fizeram a Revolução Francesa. Desde então, a paixão pela compaixão habitou e guiou os melhores homens de todas as revoluções, e a única revolução em que a compaixão não desempenhou qualquer papel na motivação dos actores foi a Revolução Americana.” , Hannah Arendt, p. 86.

E porque não esta compaixão na América? Porque lá todos os tios são ricos, ou não tão miseráveis?

quarta-feira, novembro 29, 2006

Revolução (ainda) 3


« Foi a necessidade, as carências urgentes do povo, que soltaram o terror e conduziram a Revolução à sua ruína fatal. Robespierre, no fundo, sabia bastante bem o que tinha acontecido, embora o tivesse formulado (no seu último discurso) em forma de profecia:”Iremos perecer porque, na história da humanidade, deixámos escapar o momento de fundar a liberdade”. Não foi a conspiração de reis e de tiranos, mas sim a conspiração mais poderosa de necessidade e da pobreza (…).
A transformação dos Direitos do Homem nos Direitos do Sans-Culottes foi a reviravolta, não apenas da Revolução Francesa, mas de todas as revoluções que se lhe viriam a seguir.” Hannah Arendt p.73

A revolução terá então sido tomada não pela intenção de alcançar a liberdade, mas de dar resposta à necessidade que, por sua vez, submerge a própria liberdade. Torna-se uma ditadura. Sim. Mas a força da necessidade não é só um ímpeto, uma ideia, ela materializa-se na fome, na miséria e na morte de seres humanos. Se calhar esses estados de carência seriam mais depressa suprimidos se o caminho fosse o da liberdade, o de deixar vir esse tempo, mas a carência toma conta desse tempo, é urgente. Quem tem fome e pode berrar, vai-se calar e deixar-se morrer à espera de que a sua necessidade se subalternize em relação a uma valor mais alto? Como racionalizar uma necessidade?

A reposta aparece dada por Arendt quando ela diz, criticando, que um erro de Karl Marx, foi o de ter afirmado que essa necessidade era uma consequência social (da violência da classe dirigente e exploradora que açambarca os recursos dos necessitados) e não uma necessidade entendida como um estado de carência, um fenómeno natural. Isto é, que transformou a “questão social numa força política”. Tenho dificuldade em compreender. Porque para mim a questão social e política nunca foram categorias que pensasse como sendo de esferas diferentes, porque esse foi sempre o meu modelo de reflexão, e não sei, sequer, se é possível ultrapassá-lo. E também tenho dificuldade em compreender como entender um fenómeno social, como a miséria, e não lhe dar uma resposta política, mas procurar sim uma resposta para um fenómeno natural.
O que é isto de ser um fenómeno natural? Uma força contra a qual não podemos agir? O quê? Como assim?

terça-feira, novembro 28, 2006

Foi assaltada por uma suspeita. Coisa mísera. Mas...as palavras do papa Bento XVI serão de santo ou serão uma senha?

Os meios e os fins na educação superior

Ontem, depois do cansaço de escutar até horas tardias o programa “Prós e Contras” subordinado ao tema do financiamento do Ensino superior (mas que ideia pôr o programa a terminar tão tarde...) só consegui alinhar dois pensamentos: como é que um dos melhores Ministros que a República tem tido embarcou na falácia da misericórdia e na da falsa generalização logo que iniciou o seu discurso? Que não haja Ministro e Secretário de o Estado que não o faça, já é de lamentar, mas que o Ministro Mariano Gago embarque nesse já insustentável chavão do governo de Sócrates que serve como legitimação de qualquer política, para não dizer que é a própria política (o défice, sabe…, e o país…, e vocês não querem deixar de fazer sacrifícios pela nação enquanto todos os outros fazem…, não é?). Mas alguém ainda acha que isto é argumento? E serve para tudo? Querem enganar quem? Claro que queremos fazer sacríficos por Portugal se percebermos que esse sacrifício não sacrifica a própria concepção que temos de uma política futura para Portugal. Então é agora o governo que tem o monopólio das ideias boas para Portugal, não?
Ao menos, na inusitada intervenção do prof. Moniz Pereira de forma sacudida disse-se as verdades que o Ministro no seu discurso redondo não tinha a coragem de dizer na cara dos senhores reitores: - Há que abanar o sistema e a única ideia que tivemos para o fazer é cortar nos financiamentos para ver se da crise nasce uma gestão mais rigorosa.

Mas o que tem esta preocupação com a racionalidade dos meios, pertinente, a ver com os fins que se querem para a educação em Portugal?
O que me leva à segunda coisa em que pensei. O prof. Adriano Moreira e o prof. Nóvoa, este em menor grau, fizeram as perguntas certas da noite e que o Sr. Ministro não respondeu (ressalvo que respondeu bem a outras como a que dizia respeito aos critérios de selecção das universidades para parceria com o MIT), afinal qual é o paradigma de ensino/socialização para o qual nos estamos a preparar? Onde estão as políticas concretas que ditarão o caminho da nação no que à formação superior diz respeito?

E mal esteve este Ministro, como o estão todos, os que sustentam a posição de Portugal como uma nação periférica, porque para isso terão que justificar onde está, e porque o é, o centro. Que eu saiba não há uma nenhuma marca geodésica, ou metafísica, que nos obrigue a situar na periferia do que quer que seja.
O Amadeu enviou-me este post, a pretexto da morte de Cesariny, do blogue ana de amsterdam. Gostei muito.

segunda-feira, novembro 27, 2006

Hannah Arendt (Interview à New York 1973)

Discursa sobre a importância da Constituição para os americanos, que fundaram a sua nação na comunhão pela lei, pela palavra, também sobre o determinismo histórico, a acção humana colectiva que reside no contágio, e de como é possivel que pareça que o passado não se poderia ter passado de outro modo, acabando também a falar sobre a sua recusa de ser identificada como uma liberal.
"Je pense ce que je peux et ce que me convient"."Le fait de penser était lui même une enterprise très dangereuse, mais ne pas penser était encore plus dangereuse"

E a guerra no Iraque custa aos americanos...

Andava à procura de uma informação na internet e descobri esta página do National Priorities Project, que tem um relógio/contador que regista ao milésimo de segundo o que se está a gastar com a guerra no Iraque. Confesso que é difícil desviar os olhos e dixar de ser submetida a uma sensação de entorpecimento pela estupefacção. Tolda-se o raciocínio com a velocidade dos números a passarem no visor. Mas a página, bem construída, faz assentar os pés na terra. Que desperdício.
The War in Iraq Costs
$345,687,722,634 (há um segundo atrás).

Critérios de definição de Democracia - Ainda a propósito do ranking internacional para países democráticos

Como se procede na apresentação e na análise de critérios? A acção é precedida de necessária indicação de critérios, fundamentados, para justificarem a mesma. Seja no caso em que se cria uma lista classificativa, seja quando se propõe acções globais de divulgação/imposição da democracia, ou no mero enunciar de um programa para o sistema educativo. Pergunta-se: Quais são os critérios definidos? E porquê estes?
"There is no consensus on how to measure democracy,
definitions of democracy are contested and there is an
ongoing lively debate on the subject
. The issue is not
only of academic interest. For example, although democracy-
promotion is high on the list of American
foreign-policy priorities, there is no consensus within
the American government on what constitutes a democracy.
As one observer recently put it, “the world’s
only superpower is rhetorically and militarily promoting
a political system that remains undefined—and it
is staking its credibility and treasure on that pursuit

(Horowitz, 2006, p 114).

(...)
Even if a consensus on precise definitions
has proved elusive, most observers today would
agree that, at a minimum, the fundamental features of a
democracy include government based on majority rule
and the consent of the governed, the existence of free
and fair elections, the protection of minorities and respect
for basic human rights. Democracy presupposes
equality before the law, due process and political pluralism.

At present, the best-known measure is produced
by the US-based Freedom House organisation.
The average of its indexes, on a 1 to 7 scale, of political
freedom (based on 10 indicators) and of civil liberties
(based on 15 indicators) is often taken to be a measure
of democracy.

(...)

Freedom House criteria for an electoral democracy include:
1. A competitive, multiparty political system.
2. Universal adult suffrage.
3. Regularly contested elections conducted on the basis
of secret ballots, reasonable ballot security and the
absence of massive voter fraud.
4. Signifi cant public access of major political parties to
the electorate through the media and through generally
open campaigning.

The Economist Intelligence Unit’s democracy index
is based on fi ve categories:

1. Electoral process and pluralism;
2. Civil liberties;
3. T
he functioning of government;
4. Political participation;

5.and political culture.

The condition of having free and fair
competitive elections, and satisfying related aspects of
political freedom, is clearly the basic requirement of all
defi nitions.

At the same time, even our thicker, more inclusive
and wider measure of democracy does not include
other aspects—which some authors argue are also crucial
components of democracy—such as levels of economic
and social wellbeing. Thus our index respects the
dominant tradition that holds that a variety of social
and economic outcomes can be consistent with political
democracy.

The Economist Intelligence Unit’s index provides a
snapshot of the current state of democracy worldwide
for 165 independent states and two territories. This covers
almost the entire population of the world and the
vast majority of the world’s 192 independent states (27
micro-states are excluded)."

In Economist Intelligence Unit.

Deambulações

No caminho para a Gulbenkian, o programa consistia em ir ver a exposição de Amadeo Sousa Cardoso e na volta passar pela feira do livro que eles estão a organizar, ficámos a saber que Mário Cesariny tinha morrido. Foi pelo facto de na rádio se estar a falar nele utilizando verbos no passado. Sem que nenhum de nós tivesse uma especial ligação afectiva, estética ou intelectual com o Cezariny autor, ficámos contristados.

Na Gulbenkian extasiamo-nos com a escultura em livros que o CAM expõe no seu Hall. É uma experiência verdadeiramente incrível passarmos no meio dos livros que, reflectidos num espelho, se multiplicam por milhares num poço a que não se vê o fundo. Borges, Escher, o poço da Quinta da Regaleira e espaço de diversões num só lugar. Fabuloso.

A exposição foi vista no meio de centenas de visitantes com uma criança a perguntar quantos quadros faltavam ver para irmos embora. Pouco cómodo, mas ainda assim a proporcionar vislumbres de uma obra de excepção.

À noite, saltitando entre a entrevista à Ministra da Educação e à que era feita a Nogueira Pinto, acabei por ficar a ouvir a última, porque o tom monocórdico, a ausência de um projecto educativo com conteúdo e que eu considere relevante acabou por me fazer desinteressar de todo de ouvir a primeira. E, pelo contrário, o modo, o tom e o conteúdo do que anunciava a segunda me seduziu. Defendeu-se com a apresentação de prova feita. É assim mesmo, as mulheres têm uma tendência social de evitarem a auto-promoção. Ficam sempre a perder na vida pública por isso.