terça-feira, dezembro 12, 2006
Primos?
Há no filme Coffee and Cigaretts duas histórias interessantes. Gosto muito da história contada em "Champagne", que é perfeita, e gosto da história de "Cousins?" que é sarcástica quanto baste com o fenómeno social dos amigos de ocasiões. Esta história versa sobre um encontro num café entre dois homens que nunca se viram antes, sendo que um deles, Alfred Molina, actor, mostra-se entusiasmado com a relação de parentesco que descobriu ter com o outro, também ele actor e de nome Steve Coogan. Este, pelo contrário, vê a simpatia e o empenho do outro em estabelecer uma relação de proximidade como sendo um comportamento desagradável e perturbador da imagem que tem de si. Mostra-se altivo, indiferente, procura inequivocamente não voltar a encontrar mais o sujeito que ali se diz seu primo e que, de forma percepcionada como inoportuna, avança com projectos para trabalharem juntos num filme. Quando finalmente Molina se apercebe, os sinais são inequívocos, do enfado do seu primo Coogan, toca o seu telemóvel. Molina saúda em voz alta, de forma descontraída e informal, o conhecido realizador Spike Jonze. Koogan endireita-se e percebe agora que aquele súbito primo talvez tenha algum interesse. É a vez de Molina perguntar: Primos, nós?
- Say isn`t true - Taylor Mead
_ Say what isn`t true? - Billy Rice
- Never, never, never mind. - Taylor Mead
Coffe and Cigarettes
"champagne"
_ Say what isn`t true? - Billy Rice
- Never, never, never mind. - Taylor Mead
Coffe and Cigarettes
"champagne"
segunda-feira, dezembro 11, 2006
Missing

Directed by
Costa-Gavras
Produced by
Edward LewisMildred Lewis
Written by
Donald StewartCosta-GavrasThomas Hauser (book)
Starring
Jack LemmonSissy SpacekMelanie MayronJohn SheaJanice Rule
Release date(s)
February 12, 1982
Running time
122 min
Language
English/Spanish
in wikipedia
domingo, dezembro 10, 2006
Pinochet. Com que paz vão os vivos ficar?
Ponho-me a imaginar aqueles pais que têm ainda os seus filhos dados como desaparecidos no Chile. E os filhos que foram afastados dos seus pais e que nunca mais souberam como os encontrarem. Nos amantes e nos amigos que não sabem da pessoa amada que um dia foi levada e nunca mais deu sinal de si. E penso, com horror, que ver morrer este homem deve ser como ver morrer um carcereiro que leva consigo a chave que permitia a hipótese, frágil e remota, mas ainda assim uma hipótese de entreabrir a porta do conhecimento que desse para um lugar onde se descobrisse o corpo da pessoa procurada. Agora que o ditador morreu, que conciliação interior se encontrará no não saber cada vez mais espesso que paira sobre esses lugares onde se encontra o ausente? Quem conseguirá dormir em paz?
Educação
Tinha pensado em procurar não escrever mais nada sobre o estado actual da educação. Porque me sentia demasiado envolvida, demasiado interessada, demasiado comprometida e receava que os meus interesses se sobrepusessem à minha objectividade. De mim para mim. E mesmo que procurasse distinguir algumas coisas boas das pouco que tenho encontrado na que imaginamos ser a actual actuação da equipa ministerial, relativamente à exigência de avaliação, que, ver-se-á, será outra fraude, mas está bem, tudo o resto me revolve a mente ao ponto de eu saber que se continua a comprometer o ensino de uma maneira que os portugueses nem sabem o quão grave é, iludidos que bastará pôr na linha os madraços que por ali andam a ser pagos pelo erário público, sufocando-os a todos com uma espiral de deveres milimétricos controlados pelo poder central, para que as coisas mudem. Não vão mudar, mas vai haver ginástica numérica suficiente para termos números com algum sucesso (os alunos do secundário não precisam de o terminar, porque se tiverem mais de 23 anos há uma universidade ali de braços abertos), os que não terminaram o básico, porquê agora não irem para o secundário, vão ver que não lhe fez falta nenhuma não terem passado pelos anos de ensino anteriores, inscrevam-se, façam número). Ah, e tudo isto em nome da qualidade. Não é por estratégia financeira, não senhora.
E depois falam de autonomia, senhor!, de autonomia mas só económica, que tudo o resto é para manter de rédea curta não lhes dê para ensinarem o que não se prevê.
E depois falam de autonomia, senhor!, de autonomia mas só económica, que tudo o resto é para manter de rédea curta não lhes dê para ensinarem o que não se prevê.
Mas eis que o poeta escreve. Ou escreveu o professor universitário, não sei. Ou os dois, enfim.
“Algumas palavras” por Joaquim Manuel Magalhães
“(…) O ensino secundário português começou a ser estragado por Veiga Simão. Culminou com Roberto Carneiro e os seus esquecimentos bem calculados do ensino público. (..)
A prioridade do ensino deixou de ser transmitir saberes. Hoje culmina em planificações de um pouco de vazio no máximo tempo possível. Ouvindo-se a palavra planificar, imediatamente sabemos que as chamadas pedagogias e didácticas passaram a ter o domínio sobre os conteúdos de cada disciplina e gerou-se uma complicação de saberes sem saberes, que consiste na aplicação de umas grelhas às quais se junta um cuspo de meditações bacocas nunca se percebe bem sobre o quê. Um professor de biologia tem de saber biologia? Não. Tem de saber planear umas aulas que se encaixem num programa oficial que enumera o que da biologia basta saber. Houve uma conjura que não foi só desta situação a que se chama ministra; resultou de vários anos de fermentações bem calculadas de que ela se apoderou.
(…) Não foi por acaso que ninguém se preocupou com os conteúdos dos saberes. Apenas se ouvia um zumbir ou silvar (por entre torvos cálculos) umas vagas conjuras que pouco se entendiam. (...)
Será ministério o que podemos chamar ao mero cruzamento (basta que somem as disciplinas controladas por esta espécie de repelência) de panóplias estratégicas? (…)
Da filosofia à educação visual, da língua estrangeira à química, de todos a cada um, pergunte-se: têm vontade de sempre ler e estudar o que lêem? Têm dinheiro para isso? Têm tempo vosso para poder dar um lato conseguimento aos vossos alunos? É da educação o vosso ministério?”
“Algumas palavras” por Joaquim Manuel Magalhães
“(…) O ensino secundário português começou a ser estragado por Veiga Simão. Culminou com Roberto Carneiro e os seus esquecimentos bem calculados do ensino público. (..)
A prioridade do ensino deixou de ser transmitir saberes. Hoje culmina em planificações de um pouco de vazio no máximo tempo possível. Ouvindo-se a palavra planificar, imediatamente sabemos que as chamadas pedagogias e didácticas passaram a ter o domínio sobre os conteúdos de cada disciplina e gerou-se uma complicação de saberes sem saberes, que consiste na aplicação de umas grelhas às quais se junta um cuspo de meditações bacocas nunca se percebe bem sobre o quê. Um professor de biologia tem de saber biologia? Não. Tem de saber planear umas aulas que se encaixem num programa oficial que enumera o que da biologia basta saber. Houve uma conjura que não foi só desta situação a que se chama ministra; resultou de vários anos de fermentações bem calculadas de que ela se apoderou.
(…) Não foi por acaso que ninguém se preocupou com os conteúdos dos saberes. Apenas se ouvia um zumbir ou silvar (por entre torvos cálculos) umas vagas conjuras que pouco se entendiam. (...)
Será ministério o que podemos chamar ao mero cruzamento (basta que somem as disciplinas controladas por esta espécie de repelência) de panóplias estratégicas? (…)
Da filosofia à educação visual, da língua estrangeira à química, de todos a cada um, pergunte-se: têm vontade de sempre ler e estudar o que lêem? Têm dinheiro para isso? Têm tempo vosso para poder dar um lato conseguimento aos vossos alunos? É da educação o vosso ministério?”
in "Expresso", Revista Actual, de 8 de dezembro, p.54.
Tantos livros polémicos! Sob a forma de memórias, diários, biografias, ei-los. É um tempo irrequieto. E eu acho que assim é que temos um mercado editorial divertido. Para além de um país divertido.
É muito melhor do que ter comentadores desportivos a rirem-se muito entre si, a fazerem caixinha de comadres alcoviteiras, quando, como há uns anos, afirmavam brejeiros que certo dirigente desportivo andava então remoçado. Que vi e ouvi eu, e fiquei sem palavras perante tal despropósito a meio de um comentário desportivo. Pelos vistos quem não ficou sem palavras foi a moça. Espero que continue a ganhar dinheiro e a animar a malta. O mesmo desejo a todos os outros autores, claro.
É muito melhor do que ter comentadores desportivos a rirem-se muito entre si, a fazerem caixinha de comadres alcoviteiras, quando, como há uns anos, afirmavam brejeiros que certo dirigente desportivo andava então remoçado. Que vi e ouvi eu, e fiquei sem palavras perante tal despropósito a meio de um comentário desportivo. Pelos vistos quem não ficou sem palavras foi a moça. Espero que continue a ganhar dinheiro e a animar a malta. O mesmo desejo a todos os outros autores, claro.
sexta-feira, dezembro 08, 2006
António Cartaxo e Dr. Alfaia
Há pessoas que admiramos sem conhecer, e que nos dão ainda o bónus de nos fazer pensar em outras que conhecíamos e admirámos.
Eu adoro ouvir aqueles minutinhos em que António Cartaxo, na Antena 1, nos conta histórias sobre um compositor ou sobre uma música, quase sempre de música clássica. Um divulgador dos mais admiráveis de Portugal.
Naquele tempo íamos todas as semanas, num dia à noite, de autocarro até casa da Beatriz, ao Lumiar, para ouvirmos as escolhas musicais que o Dr. Alfaia seleccionava para nós. Depois, no seu jeito reservado dissertava um pouco sobre o que estávamos a ouvir. Não sei como se encetaram as negociações com o bando de adolescentes que éramos então, para que esse fenómeno acontecesse, nem quanto tempo durou a paciência de ambas as partes para se entenderem. Mas sei que ele era um verdadeiro conhecedor, que procurava que conhecêssemos e amássemos tanto a música quanto ele, que manuseava os seus discos com infinito cuidado e que foi nas mãos dele que vi o primeiro CD, num dia em que o rodeámos surpreendidas e olhando encantadas para aquele novo produto técnico.
No sofá da sala empoleirávamo-nos todas, no limite do conforto. A Beatriz, que nos recebia, a Elsa, a Lina, a Helena, a Cláudia e eu. Às vezes obrigávamo-nos a trocar de lugar, porque a risota não controlada por qualquer parvoíce dita baixinho pela vizinha do lado, perturbava a audição do conjunto. sentado numa poltrona à parte, o pai de Beatriz fechava os olhos e concentrava-se na música, sem reparar nas cotoveladas, nos pequenos empurrões, ou nos suspiros e nos bocejos das noites mais difíceis. Às vezes uma de nós pegava num dos muitos livros que havia lá em casa e ponha-se a ler silenciosamente, sobrepondo na sua mente as palavras do livro sobre as de uma música que corria em fundo, e depois passava o livro a todas as amigas se por acaso queriam que elas lessem algum parágrafo, partilhassem uma ideia. Lembro-me de um em particular: A Verdadeira História dos Contos de Fadas. Divertíamo-nos então a dissecar os contos que tínhamos adorado e nos quais quase todas acreditávamos ainda não há muito tempo. Nos momentos mais perturbadores o Dr. Alfaia levantava a cabeça e olhávamo-nos, sem reprovação, mas com intenção.
De entre as meninas havia aquelas que tinham conhecimentos avançados de música, para além obviamente da Beatriz, que era a verdadeira conhecedora de música clássica do grupo, a Cláudia e a Lina, por exemplo, tinham grandes noções de música, embora de registo POP. Eu? Eu era mais dança. Toda a música se dividia (divide?) entre a que se pode dançar e a que não se pode. Como para mim quase toda a música se pode dançar, eu gostava de quase toda a música. Uma desgraça, diriam a Lina e a Cláudia. Uma desgraça será.
Mas o Dr. Alfaia acabou por descobri a minha paixão pelo segundo andamento do primeiro concerto para violino e orquestra de Bach. E, sem dizer nada, ponho-o a tocar, repetidamente. A paixão que me ficou por Bach morará sempre associada à memória do Dr. Alfaia, que veio a falecer poucos anos depois. Morará também associada à minha amiga Beatriz, e às infindáveis horas de alegria que comunguei na sua casa.
Eu adoro ouvir aqueles minutinhos em que António Cartaxo, na Antena 1, nos conta histórias sobre um compositor ou sobre uma música, quase sempre de música clássica. Um divulgador dos mais admiráveis de Portugal.
Naquele tempo íamos todas as semanas, num dia à noite, de autocarro até casa da Beatriz, ao Lumiar, para ouvirmos as escolhas musicais que o Dr. Alfaia seleccionava para nós. Depois, no seu jeito reservado dissertava um pouco sobre o que estávamos a ouvir. Não sei como se encetaram as negociações com o bando de adolescentes que éramos então, para que esse fenómeno acontecesse, nem quanto tempo durou a paciência de ambas as partes para se entenderem. Mas sei que ele era um verdadeiro conhecedor, que procurava que conhecêssemos e amássemos tanto a música quanto ele, que manuseava os seus discos com infinito cuidado e que foi nas mãos dele que vi o primeiro CD, num dia em que o rodeámos surpreendidas e olhando encantadas para aquele novo produto técnico.
No sofá da sala empoleirávamo-nos todas, no limite do conforto. A Beatriz, que nos recebia, a Elsa, a Lina, a Helena, a Cláudia e eu. Às vezes obrigávamo-nos a trocar de lugar, porque a risota não controlada por qualquer parvoíce dita baixinho pela vizinha do lado, perturbava a audição do conjunto. sentado numa poltrona à parte, o pai de Beatriz fechava os olhos e concentrava-se na música, sem reparar nas cotoveladas, nos pequenos empurrões, ou nos suspiros e nos bocejos das noites mais difíceis. Às vezes uma de nós pegava num dos muitos livros que havia lá em casa e ponha-se a ler silenciosamente, sobrepondo na sua mente as palavras do livro sobre as de uma música que corria em fundo, e depois passava o livro a todas as amigas se por acaso queriam que elas lessem algum parágrafo, partilhassem uma ideia. Lembro-me de um em particular: A Verdadeira História dos Contos de Fadas. Divertíamo-nos então a dissecar os contos que tínhamos adorado e nos quais quase todas acreditávamos ainda não há muito tempo. Nos momentos mais perturbadores o Dr. Alfaia levantava a cabeça e olhávamo-nos, sem reprovação, mas com intenção.
De entre as meninas havia aquelas que tinham conhecimentos avançados de música, para além obviamente da Beatriz, que era a verdadeira conhecedora de música clássica do grupo, a Cláudia e a Lina, por exemplo, tinham grandes noções de música, embora de registo POP. Eu? Eu era mais dança. Toda a música se dividia (divide?) entre a que se pode dançar e a que não se pode. Como para mim quase toda a música se pode dançar, eu gostava de quase toda a música. Uma desgraça, diriam a Lina e a Cláudia. Uma desgraça será.
Mas o Dr. Alfaia acabou por descobri a minha paixão pelo segundo andamento do primeiro concerto para violino e orquestra de Bach. E, sem dizer nada, ponho-o a tocar, repetidamente. A paixão que me ficou por Bach morará sempre associada à memória do Dr. Alfaia, que veio a falecer poucos anos depois. Morará também associada à minha amiga Beatriz, e às infindáveis horas de alegria que comunguei na sua casa.
quinta-feira, dezembro 07, 2006
A verdade
Goodness Gracious! The Truth!
By Maureen Dowd
A verdade.
Os jornalistas americanos são fabulosos quando desarmam as nossas construções filosóficas continentais com expressões deste teor. E no entanto, ainda que não o possamos dizer sem saber bem como o fazemos e com que fundamento, o que continua a ser objecto de investigação da filosofia, a verdade realmente existe, pode ser enunciada e nós temos competência para o reconhecer quando ela acontece. Neste caso comentado por Dowd, finalmente os americanos viram-se respeitados pelos seus políticos que lhes disseram a verdade. Os políticos não criaram essa verdade, neste ponto, foram empurrados por ela e admitiram-na.
A verdade não se reduz à objectividade. Esta pode ser uma das condições, mas por si não satisfaz completamente.
A verdade.
Os jornalistas americanos são fabulosos quando desarmam as nossas construções filosóficas continentais com expressões deste teor. E no entanto, ainda que não o possamos dizer sem saber bem como o fazemos e com que fundamento, o que continua a ser objecto de investigação da filosofia, a verdade realmente existe, pode ser enunciada e nós temos competência para o reconhecer quando ela acontece. Neste caso comentado por Dowd, finalmente os americanos viram-se respeitados pelos seus políticos que lhes disseram a verdade. Os políticos não criaram essa verdade, neste ponto, foram empurrados por ela e admitiram-na.
A verdade não se reduz à objectividade. Esta pode ser uma das condições, mas por si não satisfaz completamente.
“A objectividade jornalística é bem de ver, navega entre a ilusão de uma sacralização dos factos, que levaria a crer na eliminação do jornalista como sujeito, e o risco de uma interpretação que os abstraísse ou os limitasse.” Daniel Cornu (1994), Jornalismo e Verdade, trad. D. Carvalho, Lisboa, Inst. Piaget, 1999, p. 327.
“Dowd asserts that in Iraq, the Bush administration has gone from democracy promotion to conflagration avoidance. The case was made yesterday when Robert Gates was unanimously endorsed as the new defense secretary even as he showered the Senate confirmation panel with cold candor. He warned that America’s occupation of Iraq could lead to a Baghdad as hostile as Tehran and set off a regional conflagration if not skillfully resolved in the near future. Dowd concludes that while Mr. Gates’ forthrightness provided a welcome contrast from the bellicose jingoism of the last few years, only time will show if Bush will give his new defense chief the independence he needs to effect meaningful policy changes.”, in
“Dowd asserts that in Iraq, the Bush administration has gone from democracy promotion to conflagration avoidance. The case was made yesterday when Robert Gates was unanimously endorsed as the new defense secretary even as he showered the Senate confirmation panel with cold candor. He warned that America’s occupation of Iraq could lead to a Baghdad as hostile as Tehran and set off a regional conflagration if not skillfully resolved in the near future. Dowd concludes that while Mr. Gates’ forthrightness provided a welcome contrast from the bellicose jingoism of the last few years, only time will show if Bush will give his new defense chief the independence he needs to effect meaningful policy changes.”, in
quarta-feira, dezembro 06, 2006
Não se devem legitimar acções de guerra preventivas
Fosse este um laboratório político e eu diria que a administração Bush conseguiu com este senhor Gates dar uma lição de humildade democrática, retrato do bom funcionamento de um sistema que se auto-repara constantemente. Mas o Iraque, e o mundo, não é um laboratório para a teoria política, e por isso as mortes, a desordem e a destruição das instituições iraquianas, constituem motivo para declarar que se cometeu um crime contra a humanidade conduzido pela administração Bush, e que nem este digno exemplo de democracia americana pode fazer esquecer.
Espero que o unilateralismo das decisões e acções dos primeiros tempos da administração americana sejam devidamente sancionadas por quem de direito: a tida então no princípio da guerra como a supérflua ONU e a juridicamente risível, à altura, Carta das Nações Unidas.
Quem está a perder a Guerra é a América, não as Nações Unidas.
"4) Os membros deverão abster-se nas suas relações internacionais de recorrer à ameaça ou ao uso da força, quer que seja contra a integridade territorial ou a independência política de um Estado, quer seja de qualquer outro modo incompatível com os objectivos das Nações Unidas;
5) Os membros da Organização dar-lhe-ão toda a assistência em qualquer acção que ela empreender em conformidade com a presente Carta e se absterão de dar assistência a qualquer Estado contra o qual ela agir de modo preventivo ou coercitivo;"
Revolução e pobreza 5
Em 1776 os tios da América não eram todos ricos. Existia um grupo de trabalhadores que nem miseráveis se poderiam considerar, visto que nem a liberdade para o poderem ser tinham então. Eram os escravos. Arendt interroga-se como foi possível numa terra em que verdadeiramente não havia hordas de pobres, como na Europa, mas tinha um sistema social assente na infame escravatura, não ter havido também uma revolução da “necessidade”, como iria acontecer em França, mas sim uma revolução da “liberdade”. Chega à conclusão que a escravatura não tinha visibilidade como situação social a reparar. Como se de uma não realidade, logo invisível, se tratasse. Enquanto que a invisibilidade para a pobreza estava a ser lentamente ultrapassada no velho mundo, pelo esforço colectivo dos pobres em se manifestarem, e, sobretudo, pela descoberta feita por parte de alguns teóricos da importância social e política de se considerar a pobreza como um resultado social e político passível de ser mudado, criando assim a obrigatoriedade de ver esse estado de miséria como algo não natural, que começava a tornar impossível aos governantes não repararem nas situações deploráveis em que milhares de seres humanos subsistiam. Este factor, “o da revolta da barriga”, o da submissão da liberdade à satisfação da necessidade, e um outro, o factor herança histórica, que potenciava a falta de preparação prática para o exercício das suas ideias, teriam estado na origem das causas que explicam experiências revolucionárias tão distintas.
Enquanto na América o povo já formava assembleias de cidade, mesmo quando sob o domínio da coroa inglesa, assembleias onde aprendiam a desenvolver o gosto pela discussão, pela deliberação e a fazer uma escolha de decisões, formando assim os seus futuros representantes na arte do negócio público, onde os mais notáveis sobressairiam no exercício argumentativo (porque herdeiros de uma história que privilegiava agora a acção governativa de uma monarquia limitada), em França, as ideias sobre a sociedade e a política nunca tinham sido experimentadas (eram herdeiros de uma concepção absolutista de governo, o regime precedente era o de uma monarquia absoluta), não surgiam de uma prática e não eram sujeitas a debates, não se procurava negociá-las em público com todos os interessados (para Arendt a Assembleia Francesa não consistiu no laboratório necessário para a democracia, porque os valores ali evocados não eram o de privilegiar a discussão e a deliberação popular, mas valores que procuram recuperar, imitando-os, os valores republicanos romanos, cujas instituições políticas eram tão admiradas pelos homens de letras de setecentos). (pp. 141 a 172)
Arendt explica a revolução americana como o tempo em que se procurou fundar um corpo político que garantisse haver espaço para a paixão da liberdade pela liberdade (p.153), onde não houve a necessidade de confundir libertação com liberdade, em que a revolução se tornasse ela própria não um meio mas um fim em si mesma.
Arendt explica a revolução americana como o tempo em que se procurou fundar um corpo político que garantisse haver espaço para a paixão da liberdade pela liberdade (p.153), onde não houve a necessidade de confundir libertação com liberdade, em que a revolução se tornasse ela própria não um meio mas um fim em si mesma.
A revolução francesa, e as revoluções que lhe seguiriam o modelo, assumir-se-iam como lutas pela libertação.
A revolução americana assumir-se-ia como o método de estabelecimento da liberdade pela instauração de um governo constitucional (com uma acção limitada pela lei).
Mas permanecem duas questões em aberto. 1. Não tendo sido a revolução na América assolada pela miséria dos seus cidadãos e dominada pela paixão dos pobres no início, poderão as suas instituições resistir agora à paixão duma sociedade virada sobretudo para os valores da produção e para o consumo? Arendt diz-nos que a este respeito existem tantos sinais de esperança como de receio. p. 169.
2. E como se instituiu o poder e a autoridade num regime que estava a criar-se de novo? Onde se foi buscar esse poder e autoridade, a que modelo?
terça-feira, dezembro 05, 2006
“In other words: Though we don't know who killed Litvinenko, we have learned that London is a more exciting place than we thought it was. We have learned that the complex plots of Dostoevsky novels merely reflect Russian reality. And we have learned that the old KGB lives on in new guises.”
Anne Applebaum, “A familiar Mystery”, no “Washington Post”
Anne Applebaum, “A familiar Mystery”, no “Washington Post”
Li e fiquei a pensar.
"Sem justiça" de José leite Pereira no "Jornal de Notícias"
E a segunda parte de um artigo aqui já referido:
"Ainda o 25 de Novembro e o PCP" de José Manuel Barroso no "Diário de Notícias"
"Sem justiça" de José leite Pereira no "Jornal de Notícias"
E a segunda parte de um artigo aqui já referido:
"Ainda o 25 de Novembro e o PCP" de José Manuel Barroso no "Diário de Notícias"
segunda-feira, dezembro 04, 2006
Hannah Arendt (Interview 1964_1)
Tinha projectado terminar hoje a leitura do livro de Hannah Arendt que me tem dado o pretexto de reflectir sobre a questão da revolução, mas não o consigo fazer agora.
Ora decidi passar o video onde a autora exprime a sua ideia de que não é uma filósofa, que não pertence ao círculo dos filósofos, afirmação que é citada à saciedade por quem a conhece.Reparo que depois de dizer que a sua actividade se prende com as questões da teoria política, Arendt diz-nos que não se sente filósofa e que crê que não seria recebida no círculo dos filósofos. E porque não? Porque tal actividade era entendida como sendo de homem. Ah... E acrescenta ela: "je ne m`estime pas philosophe". E depois começa a filosofar.
domingo, dezembro 03, 2006
Discursos sobre a educação: analogia
Na aldeia na Beira, ou mesmo na aldeia do Ribatejo, havia sempre noites de incontornável mal-estar. Ir para a cama nas noites frias em que os meus pais se lembravam de ir visitar os seus pais, equivalia a um exercício de estoicismo. Entrava-se quase sempre numa cama de lençois de linho tão gelados e ásperos que fazíamos várias tentativas antes de finalmente nos conseguirmos cobrir com eles. Tínhamos depois um monte de cobertores pesadíssimos em cima que nos oprimiam o peito e não nos permitiam uma respiração serena. Não nos mexíamos nem um bocadinho, na esperança do lugar onde nos enrolávamos sobre nós próprios aquecer rapidamente e dar-nos o conforto almejado, para além de que aventurar um pé para além do território já decalcado, era como caminhar na neve. O cheiro a humidade da roupa que estava emalada hà muito antes de ser ali usada naquele inverno, o peso daquelas mantas feitas em casa, o frio das habitações que nos obrigava a manter o nariz dentro da roupa, tudo isso nos causava confrangimento e suspiravámos, discretamente então, pelas nossas camas da cidade, enquanto, tremendo, aguardávamos o sono que nos levaria dali para fora até à chegada de uma manhã mais clara e de uma cama finalmente confortável.
O terror de esquerda e o terror de direita, igualmente odiosos
Da forma deselegante, porque aérea, no meu post anterior não indiquei o nome do blogue do prof. Nogueira Pinto e outros, porque obviamente não me lembrava qual era o título atribuído.
Hoje, com acesso mais rápido à Internet, posso indicar o endereço para a ligação, é o “Futuro Presente”, http://www.ofuturopresente.blogspot.com/.
Não posso fazer um link porque algo aconteceu à configuração da página onde escrevo os meus textos, e desapareceu-me a barra de ferramentos que me permitia, entre outras coisas, fazer "ligações".
Bom, o post que me criou séria resistência intelectual, e que depois de alguma hesitação inicial me levou a decidir escrever sobre o que não concordava de todo, intitula-se “sobre o 25 de Novembro: 1. o Thermidor francês”.
Não concordo com o último dos seguintes parágrafos: “(…)Os processos de terror de "esquerda" têm sempre uma curiosa marca que os torna mais odiosos: é justificarem-se, permanentemente, pela "virtude", pelo "bem", pelo "mundo melhor". Líderes cínicos ou pelo menos tão maquiavélicos como todos - soltam os seus cães, polícia política, "milícias", povo, camponeses - aterrorizam, prendem, massacram, sempre com um discurso "justificativo".
O "terror" das "direitas" - que também não falta - não tem este lado "ideológico-religioso"; desde os tempos da inquisição, cujos oficiais tratavam mal os corpos para salvar as almas. E os Inquisidores tinham a atenuante de acreditar que era mesmo assim... Modernamente dão-se razões de "bem público", mas não se faz em grandes apologias. Há pelo menos pudor. (…)”
Os discursos de justificação encontram-se sempre nos processos de terror, à esquerda como à direita. Não reconheço em nenhum líder de direita um grau menor quanto à aplicação do terror em nome de uma ideologia justificadora (e não me parece apenas a assumpção de uma estratégia lúcida de manutenção do poder pelo poder). Quando o terror de direita cai sobre o mundo, talvez não procure elaborar um discurso que denote uma clara tentativa de vir substituir o discurso clássico da redenção pela religião, ou pelo poder tradicional, porque na realidade está em muitos casos convencida de poder falar em nome dessa religião ou desse poder tradicional em crise ou em perigo.
Quer a direita quer a esquerda tendem a querer a tal ordem nova, uns, à esquerda, procurando um discurso que dizem querer ser um discurso novo para um homem novo, outros, à direita, com um discurso que dizem reparador daquela ordem perfeita que de algum modo terá sido posta em causa na sociedade e que necessita urgentemente de ser restituída. A nenhuns interessa o presente, e a todos o terror serve para promover a sua ideia de sociedade futura.
Justificando-se com a necessidade de recuperar valores perdidos, a direita justifica o uso do terror provocado em seu nome, tanto quanto a esquerda o faz. Só que pensa que não está a utilizar palavras novas, ou a introduzir valores novos, quando repete palavras ou valores antigos, como, por exemplo quando a direita alemã evocou, ou evoca, palavras como “Deutschland über alles, über alles in der Welt”.
Não precisa a direita de utilizar conceitos humanistas, de legitimar a sua acção pela busca de um admirável mundo bom, para justificar o seu terror, porque geralmente esse discurso do mundo bom já tinha sido proferido num tempo anterior na história que ela julga agora, apenas, vir recuperar/resgatar ao tempo que passou, evocando palavras antigas como se essas palavras significassem o mesmo que então.
Já o post “O 1º DE DEZEMBRO” me merece todo o aplauso. Não sei mesmo como é que a esquerda portuguesa, e alguma direita mais economicista, deixa por reflectir esta questão primordial da nossa nacionalidade. É como se houvesse uma qualquer vergonha da esquerda em falar em pátria, e em valores universais que gerações de portugueses ajudaram a criar e a divulgar pelo mundo como os de liberdade, independência, auto-determinação. E tem toda a razão o professor quando reflecte sobre a importância incontornável do discurso ideológico para a acção política no mundo.
Hoje, com acesso mais rápido à Internet, posso indicar o endereço para a ligação, é o “Futuro Presente”, http://www.ofuturopresente.blogspot.com/.
Não posso fazer um link porque algo aconteceu à configuração da página onde escrevo os meus textos, e desapareceu-me a barra de ferramentos que me permitia, entre outras coisas, fazer "ligações".
Bom, o post que me criou séria resistência intelectual, e que depois de alguma hesitação inicial me levou a decidir escrever sobre o que não concordava de todo, intitula-se “sobre o 25 de Novembro: 1. o Thermidor francês”.
Não concordo com o último dos seguintes parágrafos: “(…)Os processos de terror de "esquerda" têm sempre uma curiosa marca que os torna mais odiosos: é justificarem-se, permanentemente, pela "virtude", pelo "bem", pelo "mundo melhor". Líderes cínicos ou pelo menos tão maquiavélicos como todos - soltam os seus cães, polícia política, "milícias", povo, camponeses - aterrorizam, prendem, massacram, sempre com um discurso "justificativo".
O "terror" das "direitas" - que também não falta - não tem este lado "ideológico-religioso"; desde os tempos da inquisição, cujos oficiais tratavam mal os corpos para salvar as almas. E os Inquisidores tinham a atenuante de acreditar que era mesmo assim... Modernamente dão-se razões de "bem público", mas não se faz em grandes apologias. Há pelo menos pudor. (…)”
Os discursos de justificação encontram-se sempre nos processos de terror, à esquerda como à direita. Não reconheço em nenhum líder de direita um grau menor quanto à aplicação do terror em nome de uma ideologia justificadora (e não me parece apenas a assumpção de uma estratégia lúcida de manutenção do poder pelo poder). Quando o terror de direita cai sobre o mundo, talvez não procure elaborar um discurso que denote uma clara tentativa de vir substituir o discurso clássico da redenção pela religião, ou pelo poder tradicional, porque na realidade está em muitos casos convencida de poder falar em nome dessa religião ou desse poder tradicional em crise ou em perigo.
Quer a direita quer a esquerda tendem a querer a tal ordem nova, uns, à esquerda, procurando um discurso que dizem querer ser um discurso novo para um homem novo, outros, à direita, com um discurso que dizem reparador daquela ordem perfeita que de algum modo terá sido posta em causa na sociedade e que necessita urgentemente de ser restituída. A nenhuns interessa o presente, e a todos o terror serve para promover a sua ideia de sociedade futura.
Justificando-se com a necessidade de recuperar valores perdidos, a direita justifica o uso do terror provocado em seu nome, tanto quanto a esquerda o faz. Só que pensa que não está a utilizar palavras novas, ou a introduzir valores novos, quando repete palavras ou valores antigos, como, por exemplo quando a direita alemã evocou, ou evoca, palavras como “Deutschland über alles, über alles in der Welt”.
Não precisa a direita de utilizar conceitos humanistas, de legitimar a sua acção pela busca de um admirável mundo bom, para justificar o seu terror, porque geralmente esse discurso do mundo bom já tinha sido proferido num tempo anterior na história que ela julga agora, apenas, vir recuperar/resgatar ao tempo que passou, evocando palavras antigas como se essas palavras significassem o mesmo que então.
Já o post “O 1º DE DEZEMBRO” me merece todo o aplauso. Não sei mesmo como é que a esquerda portuguesa, e alguma direita mais economicista, deixa por reflectir esta questão primordial da nossa nacionalidade. É como se houvesse uma qualquer vergonha da esquerda em falar em pátria, e em valores universais que gerações de portugueses ajudaram a criar e a divulgar pelo mundo como os de liberdade, independência, auto-determinação. E tem toda a razão o professor quando reflecte sobre a importância incontornável do discurso ideológico para a acção política no mundo.
sábado, dezembro 02, 2006
O livro de Arendt ficou em Lisboa. Podia continuar a discutir o tema da revolução a partir de um ideia defendida pelo prof. Jaime Nogueira Pinto no seu blogue e com a qual não sei se concordo - qualquer coisa que tem a ver com um modelo de acção da esquerda que a faz justificar o terror provocado pelas suas acções como se pela defesa de princípios humanitários. Mas com a lentidão no acesso à internet deste computador, quando descobrisse o referido post no referido blogue (cujo nome não recordo agora) já teriam passado horas.
Trouxe para ler a biografia de D. Manuel II de Maria Cândida Proença editado pelo Círculo de Leitores. O interesse pela pessoa é, sobretudo, o interesse das circunstâncias que contextualizaram a existência do nosso último rei.
Tenho pela monarquia uma rejeição instintiva, só depois essa rejeição é conceptualizada. Nessa rejeição não se entretece nenhum laivo de consideração pelos regicídios. Nem por aquele que a minha república começou por praticar. Não é só uma rejeição pequeno-burguesa pela violência. Ou de perturbação doméstica que uma mãe de família poderá sentir em face da desordem social que desses fenómenos sempre resulta. É por defender que há no assassínio de uma pessoa, de um representante político que seja, mesmo se de um tirano, o que até nem era o caso, de todo, o sinal de uma falta inicial que nenhuma teoria ou acção do acto heróico da libertação poderá justificar. É um acto inscrito num princípio de acção que denota ambições que desconsideram o indivíduo. Prenúncio de uma vontade desmesurada de impôr pela força outro regime, de se impor. Até à tirania da sua boa vontade. E não, não me parece que essa falta seja equivalente à que decorre das mortes num campo de batalha.
Em 1640 não precisámos de matar Filipe III.
No meu imaginário há os reis com estrutura existencial, D. Afonso Henriques e D. Dinis, por motivos de imaginário, e todos os outros têm o estatuo de personagens de ficção.
Trouxe para ler a biografia de D. Manuel II de Maria Cândida Proença editado pelo Círculo de Leitores. O interesse pela pessoa é, sobretudo, o interesse das circunstâncias que contextualizaram a existência do nosso último rei.
Tenho pela monarquia uma rejeição instintiva, só depois essa rejeição é conceptualizada. Nessa rejeição não se entretece nenhum laivo de consideração pelos regicídios. Nem por aquele que a minha república começou por praticar. Não é só uma rejeição pequeno-burguesa pela violência. Ou de perturbação doméstica que uma mãe de família poderá sentir em face da desordem social que desses fenómenos sempre resulta. É por defender que há no assassínio de uma pessoa, de um representante político que seja, mesmo se de um tirano, o que até nem era o caso, de todo, o sinal de uma falta inicial que nenhuma teoria ou acção do acto heróico da libertação poderá justificar. É um acto inscrito num princípio de acção que denota ambições que desconsideram o indivíduo. Prenúncio de uma vontade desmesurada de impôr pela força outro regime, de se impor. Até à tirania da sua boa vontade. E não, não me parece que essa falta seja equivalente à que decorre das mortes num campo de batalha.
Em 1640 não precisámos de matar Filipe III.
No meu imaginário há os reis com estrutura existencial, D. Afonso Henriques e D. Dinis, por motivos de imaginário, e todos os outros têm o estatuo de personagens de ficção.
Um jornalista perguntava-se o que estaria o Papa a pensar quando rezava virado para Meca. Não sei muito de teologia, mas rezar não servirá para ajudar precisamente a suspender o pensamento, para descansar quaisquer dores provocadas pela força de vontade ou da extrema consciência, ou de uma sensibilidade afectada por uma dor tal que excede a sua plasticidade?
O que eu muito gostaria de ter ouvido foi a discussão, pública ou íntima, que terá levado à adopção de certas palavras e acções na visita à Turquia. Partindo do pressuposto que mais do que intuição ou revelação, nelas houve dedução. Aí é que o pensamento merecia ser
examinado, e os argumentos mereciam ser seguidos.
Recordo o filme de Manoel de Oliveira sobre a disputa retórica de Padre António Vieira no Vaticano. Hoje a academia portuguesa ignora as regras de orientação da actividade da disputa pública de um tema. A defesa e a refutação de teses é uma técnica que se ensina e que se aprende. Tanto pior para todos nós se aí só se conseguir ver um uso tecnicista, manipulador, do discurso. Ficamos sem defesas para avaliar os discursos falaciosos dos que detêm o poder de nos governar.
O que eu muito gostaria de ter ouvido foi a discussão, pública ou íntima, que terá levado à adopção de certas palavras e acções na visita à Turquia. Partindo do pressuposto que mais do que intuição ou revelação, nelas houve dedução. Aí é que o pensamento merecia ser
examinado, e os argumentos mereciam ser seguidos.
Recordo o filme de Manoel de Oliveira sobre a disputa retórica de Padre António Vieira no Vaticano. Hoje a academia portuguesa ignora as regras de orientação da actividade da disputa pública de um tema. A defesa e a refutação de teses é uma técnica que se ensina e que se aprende. Tanto pior para todos nós se aí só se conseguir ver um uso tecnicista, manipulador, do discurso. Ficamos sem defesas para avaliar os discursos falaciosos dos que detêm o poder de nos governar.
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