segunda-feira, novembro 13, 2006

Sobre a revolução 1


Imaginemos então que o grau de saturação do estado político vigente num qualquer país contemporâneo faria convergir para forças que procurassem não o aperfeiçoamento da democracia (pela aplicação de reformas) mas a sua destruição e substituição por um outro tipo de regime. Que o mal-estar crescente com um governo não se satisfazia com a ideia de uma possível e processualmente cíclica mudança de titulares no governo da “cidade”, a prazo, e reclamava violentamente a mudança total do sistema, um novo modelo de acção política. O que impede os povos e as pessoas de se encaminharem mais frequentemente para este tipo de solução radical? As instituições? A cultura cívica? A socialização política?
Se pensarmos na democracia contemporânea, no esforço imenso da sua manutenção, percebemos que há um trabalho diário de pensadores e de activistas dos direitos civis e políticos que estão permanentemente a fazer circular as ideias de exaltação e de defesa dos valores de uma sociedade democrática. É o reforço constante de uma ideia de regime que tem dado bons resultados práticos, sendo que esses bons resultados práticos servem de prova do interesse e da credibilidade do regime, fazendo aumentar o número dos que aderem aos princípios democráticos. O círculo alimenta-se a si próprio enquanto satisfazer os que chegam de novo a si e/ou enquanto a socialização da maioria dos cidadãos continuar a ser seduzida/convencida para a defesa dos valores da democracia. Não se pode dormir nesta parada, porque não há estados de coisas em sociedade que sejam definitivos. Daí a importância dada pelos Estados às sua crises internas e à dos outros.
É certo que a classe trabalhadora (o proletariado mundial) quer viver bem. O melhor possível no quadro democraticamente possível de redistribuição de bens numa economia capitalista. Quando surgem conflitos laborais ou sociais graves, a democracia tende a aglutiná-los e a procurar uma solução, mesmo que esta se encontre na substituição dos titulares do poder executivo e legislativo, prevista e requerida para a manutenção da própria democracia. Mas então e a revolução? Ainda faz sentido acalentar esperanças num “novo amanhã?”

Hannah Arendt tem um livro escrito precisamente Sobre a Revolução. Vou ficar a lê-lo aqui por estes dias. A propósito, a minha antiga instituição de acolhimento vai organizar um congresso para celebrar o centenário do nascimento da filósofa.

Diz-nos Arendt : “(…) só podemos falar de revolução quando ocorre mudança no sentido de um novo começo, onde a violência é empregada para constituir uma forma de governo completamente diferente, para conseguir a formação de um novo corpo político onde a libertação da opressão visa, pelo menos, a constituição da liberdade. E o facto é que apesar da história ter sempre conhecido aqueles que, como Alcibíades, queriam o poder para si próprios ou os que, como Catalina, eram rerum novarum cupidi, famintos de coisas novas, o espírito revolucionário dos últimos séculos, isto é, a ânsia de libertar e de construir uma nova casa onde a liberdade possa demorar, não tem precedentes nem semelhança em toda a história anterior.” p. 40.

Essa ânsia de libertar e de construir uma nova casa, pacificou-se? Reorientou-se para outro tipo de ansiedades sociais? É um acontecimento político do passado? Ou está camuflada, pronta a manifestar-se violentamente?
Mas ela própria nos diz que a ânsia de libertação e a ânsia de liberdade não são bem a mesma coisa. O movimento que induz o primeiro não declara por si próprio o segundo. Quantos servos da libertação nunca foram livres?

E "Antony and the Johnsons" aqui tão perto.

Muito obrigada ao Rui Ribeiro do Som Activo. Muito obrigada.

domingo, novembro 12, 2006

sexta-feira à noite. E no sábado, Braga ali tão longe.

O Amadeu pôs esta música a tocar. O carro avançava devagarinho, muito devagarinho. Quando chegámos ào nosso lugar, ele não desligou o motor e não se mexeu do seu lugar.

No dia seguinte de manhã este disco já me iluminava. Ouvi-o e ouvi-o . Sem palavras.

Não conhecia nada. Queria saber tudo sobre Antony and the Johnsons. O Amadeu disse-me que no sábado ele ía estar em Braga. Que terminava aí a apresentação do seu trabalho pela Europa.

sexta-feira, novembro 10, 2006

Há lugar na democracia para partidos fora do espectro da social-democracia, sem se cair em anacronismo?


Leio na introdução à parte 8 do livro História Crítica da Filosofia Moral e Política de Alain Caillé e outros, o seguinte: “Como acontece muitas vezes (como sempre?), o movimento das ideias terá precedido o da realidade política e económica.”, p.721

Já disto tendo consciência há muito (e sublinhando o como sempre, com um tom de excepção quando, por acaso, o pensamento e acção estão incarnados, por força da sua autoridade, no mesmo Homem que os pode actualizar a cada momento da história comum - como faz o tirano ou o autoritário iluminado), pergunto-me: Que ideias políticas tivemos nós à disposição que precederam, e circunscrevem agora, a acção política? Que argumentos foram produzidos (conceito marxista à falta de outro) no século XX que influenciam agora a prática política neste início do século XXI?

Respondem os autores: “Depois da experiência da crítica teórica do racionalismo das Luzes conduzida pelas filosofias do século XIX, depois experiência da crítica real realizada pelos totalitarismos e pelo antiparlamentarismo do século XX, o momento é de reconciliação definitiva com a democracia e de refundar solidamente, no plano teórico, o seu ideal, aceitando completamente o liberalismo político, mas também, em grande parte, o liberalismo económico atenuado. Em todos os casos, o que acontece é um regresso às fontes, ao pensamento de finais do séc., XVIII enriquecido pelo conhecimento do percurso realizado desde então. No que diz respeito a Rawls e Habermas, é essencialmente um regresso a Kant, no caso francês, é um regresso aos direitos do homem. Mas é um regresso que deixa por solucionar a questão do estatuto da razão calculadora e do utilitarismo.”, p.722

Quem são então os pensadores influentes na vida política que experimentarmos, e que servem de critério à acção dos governantes, dão sentido às críticas dos governados e dão perspectiva aos comentadores (mesmo de computador, como eu) de política mundial? O americano John Rawls, e o europeu, alemão, Jürgen Habermas (os autores do livro, franceses, agrupam os pensadores políticos franceses como tendo um papel de destaque neste debate internacional. Faço-lhes esse favor e digo que sim, que há um conjunto de autores franceses que ao tomarem como objecto de reflexão a problemática dos direitos humanos também estão a influir na contextualização da prática mundial de política).

O pensamento político é então moldado principalmente por Rawls e Habermas. E pela sua obra compreendemos como estão interessados em aprofundar os processos de legitimação e de participação cívica da democracia. Não em proporem a sua destruição ou substituição por qualquer outro tipo de regime.
Eu conheço relativamente bem a obra de Habermas. Menos bem a obra de Rawls. Admiro profundamente os seus esforços teóricos. Partilho algumas das conclusões de Habermas sobre o nosso processo de socialização, que ele defende assentar na nossa competência comunicativa, derivando do estudo deste fenómeno um conjunto de princípios que fundamentam procedimentos prático/políticos. Posso discutir a importância da sua herança marxista na sua teoria, e que nunca foi a sua convicção na solução marxista para a política ou para a economia. Mas reconheço que nem ele, nem Rawls, nos prepararam para o tipo de questões que um pensamento desenvolvido à volta do conceito e da potência de uma razão calculadora, como parece ser a de todos os políticos que defendem os interesses do seu Estado contra a de qualquer outro que interfira com a obtenção/reconhecimento desses proveitos. Veja-se o que acontece com o pensamento dos chamados a defender as posições do realismo político americano (mais evidente como modelo mas não menos disseminado nas consciências de outros pensadores e governantes no mundo).

Assim, se por um lado a teoria tem vindo a reforçar as teias que tecem as democracias liberais, não deixando espaço de legitimação para que nestas se desenvolvam partidos com possibilidade de governarem, fora do espectro da social-democracia, por outro lado, há nas franjas do pensamento e da acção, espaço suficiente para surgirem reacções, para evoluírem e manifestarem-se em partidos, ou grupos de pressão, que influam sobre a acção política de forma mais violenta contra os direitos delineados pelas democracias, procurando a dissidência por oposição ao consenso, reiterando a defesa de uma razão egoísta, ditatorial, em nome de uma nova ordem social, não democrática. O balanço faz-se ainda a favor da democracia, mas ela terá que encontrar dentro dela processos que permitam a manifestação de ressentimentos, de críticas profundas, de tentativas de destruição. Porque o que hoje é visto como uma anomalia no comportamento social pode relamente tornar-se ideologia dominante. Como evitar? Com as ideias da reforma da democracia ou com um tornar aos modelos do passado anti-democrático, com paramentos novos? Com que partidos/governantes? E quando estivermos saturados, fazemos o quê?

Desapontamento

Aponto neste meu caderninho: quem gosta de estudar o passado, mas pensa a sociedade como uma realização de uma ideia no futuro, nunca compreenderá o presente. Como eu. É um simulacro. Mas também quem aplica a sua razão a desenvencilhar-se no presente, sem perspectiva passada e sem projecção no futuro, é o quê?

quarta-feira, novembro 08, 2006

Reforma 2

“Reformista é, pelo contrário, o movimento que visa a melhorar e a aperfeiçoar, talvez até radicalmente, mas nunca a destruir, o ordenamento existente, pois considera valores absolutos da civilização os princípios em que ele se baseia, mesmo que sejam numerosas e ásperas as críticas que, em situações particulares, se possa dirigir ao modo concreto como tais princípios se traduzem na prática. É por isso que em seu seio predominam naturalmente os defensores da via gradual e pacífica, uma vez que a violência poderia certamente comprometer os valores fundamentais; mas não falta, aliás, quem, em certas contingências históricas, invoque o uso da violência, quer para impedir que tais valores se desenvolvam plenamente, quer para obstar a que sejam sufocados.”, p. 1077.


“Os reformistas pensam (…) que é seu dever concorrer para a eficiência económica do sistema, porque só uma produção em constante aumento cria os meios necessários para a melhoria incessante do nível de vida das massas, condição indispensável, por sua vez, para que o povo possa participar efectivamente na vida democrática e se possa chegar pela democracia, caso não surjam dificuldades inerentes à própria natureza humana, ao único socialismo com sentido, ao realizado pelas massas e para as massas, ou seja, à socialização das liberdades e do auto governo, há muito privilégio de poucos.” P. 1078

“(…) a sua (de P. Leroux) originalidade e grandeza estão em ter sustentado com firmeza que a função, e portanto o limite, da intervenção estatal na economia e na vida social em geral é a de garantir a todos a participação efectiva nas liberdades, pois a única igualdade que realmente conta e tem sentido é a igualdade na liberdade”. pp.1078-1079
(…)

D. Settembrini

Vivemos então os tempos de um socialismo liberal em Portugal. Com que convicção?
E se não o reformismo, então o quê? Se não isto, então o quê?
Settembrini só enuncia como soluções teórico ou práticas ao estado de coisas das democracias liberais, as que são oferecidas pelo reformismo, pelo anarquismo e pelo marxismo. Quer dizer que o reformismo engloba ideologicamente os partidos sociais-democratas, de entre os quais os partidos socialistas liberais. Os partidos que visam melhorar a ordem democrática existente sem destruir os valores, as instituições e os processos que a materializam. Com que convicção, volto-me a perguntar? E só há, no espectro das ideologias e dos comportamentos políticos por elas afectados, os que defendem esta ordem tal como ela existe, os que a querem ver revista, os que a querem destruir e os que a querem ultrapassar?

Pena de morte

Pois...pois...

"Pena de morte: uma herança silenciada", Vicente Jorge Silva. Jornalista.

terça-feira, novembro 07, 2006

Movimento revolucionário


“Chamaríamos então revolucionário aquele movimento que, independentemente dos meios invocados ou usados, predominantemente pacíficos, violentos ou mistos, visa a um tipo de ordenamento social, talvez não claramente especificado em sua articulação concreta, mas declaradamente antitético em todos os campo – económico, político, cultural e civil – em relação ao ordenamento capitalista democrático. E é precisamente em razão da oposição radical entre cidade do futuro e cidade do presente que predomina em tal movimento a tendência a julgar indispensável, mesmo que se creia doloroso, o recurso à violência. (…)
A sociedade que têm em vista nem é mais verdadeiramente democrática e liberal, nem o é em mais alto grau que a presente; é anárquica, isto é, baseada no total autogoverno dos indivíduos. Sobre o que isto possa significar e sobre como chegar lá, se de golpe, mediante a palingenesia apocalíptica da revolução, como sustentam os verdadeiros e autênticos anarquistas, ou através de um período transitório de ditadura do proletariado, como pensam, em vez disso, os socialistas de estampa blanquista ou marxista, os revolucionários podem discordar duramente entre si; mas o que os caracteriza em relação aos reformistas de qualquer tendência é a convicção de que o ponto de chegada será, sem sombra de comparação, melhor que a democracia e a liberdade “burguesas”, que podem, portanto, ser e são bastante sacrificadas. (…)
(…) Os revolucionários começam por desprezar o liberalismo, a democracia, e o capitalismo, por estarem sempre unidos a profundas injustiças e misérias. Mas, até aqui, nada os distingue ainda dos reformistas. Quando surge porém, a possibilidade de solução, pelo menos em parte, para tais misérias e injustiças, enquanto o reformista põe mãos à obra, convencido de que, no mais (o socialismo) está, de alguma maneira, o menos (as reformas), o revolucionário, em vez disso, se desespera, temendo que diminua assim a força do descontentamento de que é mister tirar partido para estabelecer um mundo melhor, diante do qual empalidecem, a seus olhos, todos os melhoramentos que se possam alcançar no âmbito da democracia, com a prática sindical e política. Para eles, o menos impede o caminho do mais.” pp. 1076 a 1078.
Domenico Stembrini, in Dicionário de Política 2 vol.


Qual é a matriz ideológica de todos os nossos governantes? E da nossa sociedade? Que tipo de socialização política foi a nossa? E como racionalizamos hoje a nossa política?

As perguntas fazem sentido, julgo, sabendo nós que o nosso modelo de implantação da democracia nasceu de uma revolução e não de uma reforma do sistema. Mesmo sem ser uma revolução declaradamente marxista, o seu cariz é de fundo marxista. Há que pensar pois, como é que este tipo de integração do cidadão na sociedade afecta a nossa perspectiva/acção política hoje em dia.
Como fomos racionalizando então a política, como começamos a pensar hoje em termos de reformas e não de revolução? Penso que a conhecida expressão de Mário Soares quando chegou ao governo, de que havia que “meter o socialismo na gaveta”, foi o sinal de mudança na política partidária, e também nos espíritos da maioria dos seus eleitores. Leia-se esse enunciado como: “Há que meter o socialismo de matriz marxista na gaveta”.
O partido trabalhista inglês, por exemplo, não teve esta influência marxista, daí que haja quem olhe para Blair como uma “anomalia da esquerda”, quando na realidade a esquerda inglesa trabalhista não tem equivalência ideológica com a base que sustentou ideologicamente a maioria dos partidos de esquerda do continente.
O partido socialista português também encontrou a sua via sem precisar da alavanca marxista, mas este constituiu o seu primeiro ambiente ideológico, e isso é indelével. Como aliás o foi para grande maioria dos dirigentes deste país, muitos de partidos ditos de direita. Não há qualquer motivo para esta mudança ser encarada como uma perturbação social ou política, são mudanças de paradigmas ideológicos que acontecem normalmente, mas eles precisam de ser assumidos, compreendidos e explicados.
E o que querem os portugueses? Continuar a viver cada vez melhor, reformando o que está mal, ou uma revolução, para alterar radicalmente o estado de coisas? E não, os resultados das eleições não permitem responder a esta questão. Este é um estudo para a sociologia, para se investigar que impulsos políticos profundos estão registados no comportamento público dos portugueses e dos seus políticos. QUANDO NOS CONHECERMOS MELHOR. E isto também de um ponto de vista filosófico.

segunda-feira, novembro 06, 2006

reforma 1

Agora fala-se tanto de reformas. O que se entende por tal?
Numa primeira leitura, a da Wikipedia, temos a seguinte definição: "A reform movement is a kind of social movement that aims to make gradual change, or change in certain aspects of the society rather than rapid or fundamental changes. Reformists' ideas are often grounded in liberalism. It is distinguished from more radical social movements such as revolutionary movements or transformational movements. Reactionary movements, which can arise against any of these, attempt to put things back the way they were before whatever successes of the new movement(s), or prevent any such successes in the first place".
Nesta primeira leitura ficamos a saber que o movimento de reforma é um movimento social. Isto é, que o poder reformista tem que ganhar o apoio social se quer que a reforma se torne um facto na sociedade a reformar. O poder político terá que identificar os aspectos a reformar, esclarecer quantos aos objectivos, e promover junto da sociedade os métodos necessários para essa reforma. Tudo isto de forma gradual. Gradual é o termo a sublinhar. A adesão dos cidadãos também é um termo a não descurar nesta definição. E isto para que possamos distinguir uma reforma de um movimento radical de mudança, a revolução.
Sendo que as ideias reformistas terão então como base ideológica, ou filosófica, se preferirmos, o liberalismo. Em Portugal a nossa história liberal teve um tempo curto mas profundo. Deixou raízes? Ou seremos nós mais filhos da revolução, mesmo quando falamos de reformas? Serão os partidos, e os governantes das reformas, políticos e governantes com espírito liberal de precursores de reformas, ou com espírito revolucionário, tanto à direita como à esquerda? Evoca-se o termo reforma, a sonhar-se com uma revolução? Então não a encapotem. Pois está a desvirtuar-se o termo reforma que enche a nossa boca na política nacional.

sábado, novembro 04, 2006

As nossas fundações/associações

Ao ler "Havia outro motivo para o doutor Alfredo da Cunha preferir o manicómio do Conde Ferreira. Ele funcionava também como casa de correcção, e os intuitos do Conde, um brasileiro bem sucedido nos negócios talvez de laranja, tinham sido largamente ultrapassados. Destinado a albergar e tratar de doidos pobres, o hospital tinha-se adaptado a outro género de assistência. (...)."p.189, no livro de Agustina, Doidos e Amantes, editado por Guimarães, fiquei a pensar como o país reconhece pouco as instituições fundadas por doações privadas.
Geralmente extasiamo-nos com as grandes doações dos estrangeiros nos seus países ou no nosso, e damos pouca conta à solidariedade, menos espectacular, dos nossos concidadãos que se manifesta, quantas das vezes, nas pequenas localidades.
Atente-se no que aconteceu à maternidade de Elvas e à Fundação Materno Infantil Mariana Martins. Quais acordos quais o quê com as fundações particulares, atirem-se às malvas os compromissos com a sociedade civil e imponha-se iluminadamente do topo para as bases os pareceres tecnocráticos. Fundações pobres, dependentes dos dinheiros do Estado, as nossas. Sem poder negocial. Mas sem que isso tire o mérito de quem fez do seu pecúlio pessoal, dinheiro público.
O que aconteceu em Elvas é uma vergonha para o nosso Estado. E sim, eu conheço o parecer científico e económico. Mas sendo que a decisão política deve ser fundamentada, não deve ser cega, surda e muda aos interesses da comunidade que serve no presente.

sexta-feira, novembro 03, 2006

A lei do aborto e a minha posição

Eu hoje preferia estar aqui a escrever sobre a ideia final com que fiquei do livro de Fukuyama já aqui profusamente citado (a propósito, tem o blogue Vestigia Lectiones um bom post sobre a questão das citações: 65. Da citação ), ou sobre o livro de Bessa-Luís, Doidos e Amantes que a minha amiga Ayetsa carinhosamente me ofereceu, com um autografo da autora, pouco antes de regressar à Venezuela, o qual estou a acabar de ler. Ou ainda, de forma mais concertada, devia escrever sobre algumas políticas públicas que julgo cobertas por um nevoeiro de onde não vislumbro sequer o esboço do espectro de um Dom Sebastião. Então no ensino…o sistema científico propriamente dito (já evito falar na questão do estatuto do professor) está a ficar pantanoso, a sorver os fracos recursos científicos e disciplinares, em nome de uma fuga desvairada da equipa ministerial em relação às más classificações de Portugal no concerto Europeu no que à Instrução diz respeito.
Apetecia-me também falar das ideias de Gonçalo Ribeiro Teles, que mais uma vez ensina aos citadinos (que são já agora todos os portugueses) coisas essenciais sobre as culturas e a terra.
Não quero, sobretudo, falar do aborto. Porque me apetecia mais falar da necessidade imperiosa de “partos humanizados”. Sobre o congresso sobre a “Humanização do Nascimento” organizado pela HumPar, e sobre a urgência de em Portugal se começar a exigir mudanças de atitudes das nossas equipas médicas que fazem (tantas vezes tão maus) acompanhamento às parturientes. Ou sobre a dor de casais que tanto gostariam de ter um filho e não conseguem engravidar.
Não devia falar de aborto. Porque socialmente preferia que ninguém tivesse que optar por o fazer. Esse sim seria sinal de evolução e progresso. A lei do aborto representa o falhanço social no que a uma concepção da vida sexual e reprodutiva diz respeito, remendado pela jurisprudência. Gostaria que todas as pessoas estivessem bem informadas, bem acompanhadas, bem conscientes sobre a vida sexual. Que todas soubessem usar anticoncepcionais nas alturas certas, ou que, mesmo se por acaso, cada gravidez, quando acontecesse, fosse uma alegria e um desejo responsável por uma criança. Que as pessoas fossem mais perfeitas, enfim. Mas não são. Não somos. E o peso da morte e do desamparo de muitas mulheres, aliado à questão filosófica e científica sobre a origem do que se pode entender como o começo da vida humana, que não sendo definitiva é suficientemente esclarecedora, é demasiado perturbante e demasiado importante para que eu me silencie neste espaço.
Votei “Sim” da primeira vez. Vou votar “sim”desta vez. Não porque esteja convencida da civilidade da lei (onde pode haver civilidade no sofrimento induzido?), ou de que ela remediará o aborto clandestino na sua totalidade, pois a vergonha e a vontade de manter o segredo levará muitas mulheres a continuarem a recorrer a esses serviços, mas porque reconheço a bondade da lei na procura pública de acompanhar uma pessoa desfavorecida, num momento de grande fragilidade emocional e física, procurando evitar-lhe um mal maior.
Não vou votar convencida de uma grande vitória do progresso se a minha posição ganhar. Acho até que ninguém ganha se o “sim” ganhar, porque ganha-se o quê? Lágrimas agora legitimadas pela lei? Mas voto porque sinto que muitas mulheres perdem ainda mais se o “não” ganhar. Eu vou votar sim.

quinta-feira, novembro 02, 2006

Sim, a perfeição existe.

Luchino Visconti, Thomas Mann, Gustav Mahler e Dirk Bogarde.

Ouvir, e ver, uma amostra, aqui.

quarta-feira, novembro 01, 2006

Realismo político/idealismo político 2


Kunsthistorisches Museu, Viena.
O problema das “citações” é que servem para
ilustrar mais o pensamento de quem escolheu e citou uma frase do que seguramente ilustram o pensamento do autor citado. Quando escolhi o último período da p. 122 do livro de Fukuyama estava a sublinhar o meu próprio pensamento expresso nas palavras de outrem. Ora Fukuyama não estava a concluir que a “legitimidade das acções de uma democracia não se funda, afinal, na correcção dos procedimentos democráticos, mas sim nos direitos e normas prévios, provenientes de um domínio moral superior ao da ordem legal”. Estava sim a concluir que os europeus pensam assim. E não estava sequer a dizer com isso que os europeus pensam bem. Porque mais à frente conclui “uma grande parte das leis da Europa, quer nacionais quer internacionais, consiste em algo semelhante a listas de desejos de políticas sociais completamente insusceptíveis de aplicação. Os europeus justificam este tipo de leis afirmando que são expressões de objectivos sociais; os americanos respondem, correctamente na minha opinião, que tais aspirações insusceptíveis de aplicação enfraquecem o próprio Estado de direito.”, p. 123.

Sublinhei a primeira destas citações porque eu, eu, penso assim. E penso que os europeus pensam bem. Mas penso assim porquê? Porque sou europeia? E porque pensam os europeus assim? E que europeus? Em nome de que princípios? Com que fundamentação argumentativa/filosófica? Um dia procurarei aqui enunciar umas respostas possíveis a estas questões.

Mas continua Fukuyama:
Robert Kagan colocou a questão da seguinte forma. Os europeus são aqueles que realmente crêem viver no fim da História , isto é, num mundo em grande parte pacífico que pode ser cada vez mais governado pela lei, por normas e por acordos internacionais. Neste mundo, a política do poder e a clássica realpolitik tornaram-se obsoletas. Os americanos, pelo contrário, pensam estar ainda a viver na História, e precisam de utilizar os meios do poder político tradicional para lidar com ameaças do Iraque, da al-Qaeda, da Coreia do Norte e de outras forças malignas. Segundo Kagan, os europeus têm em parte razão: criaram de facto um mundo de fim-da-História para si mesmos dentro da EU, onde a soberania deu lugar a uma organização supranacional. O que não compreendem, no entanto, é que a paz e a segurança do seu sonho europeu é em última instância assegurada pelo poder militar americano.”, p. 124.

Podem Fukuyama e Kagan afirmar que o “sonho” europeu é suportado pela máquina de guerra americana? Em que acontecimentos, do pós guerra, se baseiam para o declararem? Fukuyama evoca o falhanço da intervenção das forças de manutenção da paz europeias no Kosovo. E que terá sido a “cavalaria” americana a ajudar as forças militares europeias que estavam sem capacidade de acção e sem capacidade de resolver o conflito às portas da Europa. Certo. Mas nos conflitos internacionais recentes, não terá sido a diplomacia europeia a ajudar a cavalaria americana que se encontrava, por si ou por interposto aliado (como no Líbano o exército de Israel contra as forças do Hezbollah) sem capacidade de acção? Então parece que o equilíbrio entre o estrepitar dos canhões e o tempo da palavra à paz é um equilíbrio que não é fácil de manter em política contemporânea. E se é certo que a Europa precisa de começar a assegurar os seus ideais com o recurso à força legitimada, também é certo que os EUA precisam de moderar a sua força de braços com a força da inteligência negocial. Porque se a Europa vive o seu sonho de fim-da-história, os americanos vivem o seu sonho de império económico/ideológico, assegurados pela almofada Europa, que é uma alternativa ideológica para o mundo dos excluídos que não se sentem tão afrontados por ela e têm a esperança de nela virem a morar ou de nela se tornarem. A Europa como mediadora entre o espírito dos que se julgam os herdeiros da terra e, lutam por esse estatuto, e os deserdados? Julgo que sim.

Mas, como superar essa miríade de interesses nacionais e constituir uma organização internacional com poderes efectivos?

terça-feira, outubro 31, 2006

Realismo político/idealismo político

“(…) Muitos europeus afirmam que são eles, e não os americanos, os verdadeiros defensores dos valores liberais universais, porque acreditam nesses valores independentemente da sua concretização em Estados-nação democráticos realmente existentes. As decisões tomadas por democracias liberais soberanas podem ser correctas nos seus processos sem que isso conceda a garantia de que são justas ou estão de acordo com esses princípios superiores. As maiorias democráticas podem decidir fazer coisas terríveis a outros países e podem violar os direitos humanos e as normas de decência nas quais se baseia a sua própria ordem democrática. Na verdade, os debates Lincoln-Douglas versaram precisamente sobre esta questão. Douglas afirmava ser-lhe indiferente se o voto popular era a favor ou contra a escravatura, desde que a decisão reflectisse a vontade do povo. Lincoln, pelo contrário, considerou que a escravatura viola em si mesma o princípio superior da igualdade humana no qual se baseia o regime americano. A legitimidade das acções de uma democracia não se funda, afinal, na correcção de procedimentos democráticos, mas sim nos direitos e normas prévios, provenientes de um domínio moral superior ao da ordem legal.”p. 122
A legitimidade das acções de uma democracia não se funda , afinal, na correcção de procedimentos democráticos, mas sim nos direitos e normas prévios, provenientes de um domínio moral superior ao da ordem legal. Acrescento eu.

segunda-feira, outubro 30, 2006

Maria Filomena Mónica e Miguel Sousa Tavares.



Salvador Dali, "Metamorfoses de Narciso",

1937.





Conheci Filomena Mónica e Sousa Tavares nas páginas do “Público”. Foi pelos artigos de opinião que escreveram durante anos neste jornal que aprendi a valorizar o pensamento, o humor e a ironia que cada um a seu jeito desenvolve.
Quando saiu a Biografia de Eça de Queirós de Filomena Mónica comprei e apreciei o livro. Quando editou o seu Bilhete de Identidade comprei e ri-me imenso com as reacções machistas de alguns leitores, eu que apreciei o estilo e a ousadia de escrever assim tão bem sobre si e sobre os seus, que me regozijei pelo mérito de uma mulher falar de sexo e de homens como as mulheres falam e se interessam e raramente têm coragem em Portugal de o dizer, sem por isso ficar a gostar mais da pessoa. Diria até que pelo contrário. Da qual aliás não tenho que gostar ou deixar de gostar.
Quando Sousa Tavares publicou o Equador, li e gostei bastante do livro, como se gosta dos livros de uma autora como Mary Renault ou de um escritor como Thomas Wolf. E eu gosto de ambos. Os livros são interessantes, lêem-se muito bem e não deixam de ser inteligentes.

Lembro-me de comentar com amigos mais críticos que tomara Portugal ter uma dúzia de Sousa Tavares a escrever livros com a qualidade deste. Que é uma literatura que cativa e que arrasta para a leitura os que andam em transportes públicos, como nos países que demonstram maor índice de leitura, pela sedução da história e da escrita que não exige excesso de concentração mas um interesse ou uma curiosidade que prende suficientemente ao livro.

Eu li o livro de uma assentada. Diverti-me e aprendi umas coisas, sem por isso ficar a gostar mais da pessoa que o escreveu. Da qual aliás não tenho que gostar ou deixar de gostar.

Mas, dito isto, os autores conseguiram surpreender-me pela negativa este fim-de-semana. Filomena Mónica no programa da RTP 2, “Câmara Clara”, na sexta-feira à noite, e Sousa Tavares no seu artigo de opinião semanal no Expresso.
A primeira porque fala com algum espírito sobre os portugueses, mas, vimos a descobrir, serem os portugueses, afinal, aqueles portugueses que com a senhora se cruzam nos corredores da academia ou nas ruas por onde circula, já que ficamos a saber que detesta sair de casa e não vai ao Porto há que séculos porque fica muito longe! Que portugueses conhece Filomena Mónica, então? Afinal, que universo de amostra tem a autora para vir a perorar tão absolutamente sobre o carácter português?

Sousa Tavares a propósito de uma história de um plágio que não o é ou nunca o foi ou é-o de uma forma explicável, sei lá, atenta contra a blogoesfera, com o direito que lhe assiste, claro, começando por dizer que nada conhece sobre ela, nem tem interesse em conhecer, mas sem que tal desconhecimento o impeça de ir desfiando um rosário de lugares comuns sobre o meio e sobre as pessoas. Com certeza que sabe este jornalista o que diziam os escritores e outros intelectuais portugueses quando se começaram a editar jornais em Portugal? Nem um deles queria escrever para tão desprestigiado e malfadado meio, ao contrário do que se passava por exemplo em Inglaterra. E isso até ao século XIX. E no entanto hoje parece ser o meio por excelência que separa os ignaros escribas da nação dos excelsos e bravos moços do pensamento e da palavra pública.
Afinal, que universo de amostra tem o autor para vir perorar tão absolutamente sobre o carácter da blogosfera?

sexta-feira, outubro 27, 2006

Mudam-se os tempo mudam-se os nomes. O Ministério da Educação e a sua fanfarra

Hoje diz o ME que vai ser obrigatório ter mestrado para se iniciar a carreira de professor. Muito bem.
Segundo o processo de Bolonha será entáo preciso uma licenciatura de 3 anos mais um mestrado de ano e meio a dois anos. O que perfaz no total 4,5 a 5 anos de aprendizagem. Muito bem.

Há quinze anos atrás para se iniciar a carreira de professor do Secundário, com a ideia de um dia conseguir o vinculo à famigerada função pública, era obrigatório possuir uma licenciatura de 4 anos, e uma pós-graduação científica-pedagógica de 2 anos, sendo que o acesso a este segundo ano comportava um "numerus clausus" havendo quem não acedesse, pelas classificações, ao contingente dos que estavam a iniciar então o estágio. Logo, estava-se 6 anos em formação. Vê-se a diferença? Mudou o nome e ... encurtou-se a formação. Mas ficamos todos a saber que agora sim, é que o ensino vai melhorar, pois se vêm aí os mestres! Agora é que vais ser exigência e rigor.

Agora enche-se a boca com o mestrado, tal como o ex Presidente Jorge Sampaio fascinado com uma visita qualquer a umas escolas do Norte da Europa enchia a boca com os mestrados dos "aqueles é que são bons professores". É ridículo. Tão ridículo quanto um actor em "overacting" que é o que este Ministério me está a parecer. Se nos mexermos muito, e todos os dias apresentarmos ideias antigas com nomes novos, pode ser que alguma coisa mude.
Não nos enganem, por favor.

administração pública e as normas sociais e profissionais

"O esforço para ser mais "científico" do que permite o objecto de estudo tem custos reais no facto de tornar cegos para as complexidades reais da administração pública tal como é praticada em sociedades diferentes."
p. 100

"As administrações públicas nos países em desenvolvimento estão contaminadas por compadrios e corrupção, e limpá-las, mediante a implementação de sistemas de serviços públicos "modernos", tem sido um objectivo central da reforma das instituições." p. 95

"No mundo desenvolvido, as administrações públicas "modernas" ostentam variações consideráveis na forma como recrutam, formam, promovem e disciplinam os funcionários. Os sistemas de "mandarins" que existe no Japão e em França são muito diferentes da abordagem feita pelos EUA e permitem aos sistemas francês e japonês envolver-se em actividades que dificilmente seriam levadas a cabo nos EUA. A incapacidade de notar estas diferenças conduziu no passado a importantes fracassos políticos." p.95
"As organizações criam e promovem normas por meio de socialização e treino, mas as normas também se derramam a partir da sociedade envolvente", p.92

"(...) as áreas mais difíceis de reformar são as actividades de baixa especificidade com altos volumes de transicção, como a educação ou o direito.
Não há nenhum sistema legal no mundo que possa ser "reparado" por dez tecnocratas, por mais brilhantes que sejam." p. 94

Fukuyama


E não há sistema de educação nenhum do mundo que seja "reparado" por dez tecnocrtas por mais brilhantes que eles sejam. Acrescento eu. O que é preciso? Pessoas que ao invés de só saberem analisar números, saibam que realidade estão a querer transformar, e cativar os agentes responsáveis por operarem essa transformação a compreenderem a necessidade, e a pertinência, se a houver, dessas reformas. Talvez os interesses desses agentes se confunda com os interesses públicos e não sejam exclusivamente egoístas. Há que conhecer a realidade. Estar envolvido nela e não se pôr a ditar regulamentos ancrónicos que só irão saturar a acção livre ensino-aprendizagem com mecanismos de controlo absolutamente burocratizados, inúteis e irrelevantes para as avaliações do sistema.

realismo/idealismo na análise social

Gostei muito deste artigo de Nuno Rogeiro no JN. Idealista quanto baste.

quinta-feira, outubro 26, 2006

Questões morais e normativas no funcionamento das instituições que materializam o poder do Estado

“Há quatro poderes do Estado, encadeados entre si, que é preciso tratar: 1) concepção e gestão organizacional, 2) concepção do sistema político, 3) base de legitimação, e 4) factores culturais e estruturais.” P. 36

“O grau de poder discricionário que uma organização concede a uma divisão subordinada, a uma filial, uma repartição ou um indivíduo está entre as decisões mais importantes a ser tomadas a nível da concepção institucional”. P. 83.

“É seguro afirmar que relativamente poucos economistas gastaram tempo a escrever, à maneira de Schein (1988), sobre o papel da liderança nas organizações, sobre como são treinados os líderes, e como comunicam com os trabalhadores e os inspiram. Uma excepção a esta regra é Gary Miller, que no seu livro Managerial Dilemmas (1992, 217) conclui que os líderes “modelam as expectativas dos subordinados sobre a cooperação entre empregados e entre empregados e superiores herárquicos. Isto é feito por meio de um conjunto de actividades que tradicionalmente têm estado no campo da política, e não no da economia: comunicação, estímulo e assumir de posições simbólicas”. Miller estava, infelizmente, a reinventar uma roda que tinha rodado pela primeira vez há mais de cinquenta anos. Tal é a natureza do progresso nas ciências sociais.” P. 89 Fukuyama


A saber: Quais são as questões morais e normativas que estruturam os nossos poderes em Portugal? Quem sabe responder acerca dos valores que os líderes portugueses defendem e através dos quais condicionam as práticas dos seus subordinados/pares? Como se processa o ritual de iniciação nas organizações/instituições de poder, e que tipo de subordinação e condicionamento no comportamento mais crítico, essa aceitação/reconhecimento implicará? Que normas/acção estamos a perpetuar? Quem? Como são treinados os líderes em Portugal? A família, sistema de educação, igreja, partidos políticos, organizações e associações culturais, civis e políticas de várias ordens. Quem condiciona a socialização portuguesa no início do século XXI?

Pelos menos em palavras os Estados sabem.


"Over the past 10 years, we have made some big steps forward in our common struggle for development, security and human rights.
Aid and debt relief have increased, making the world economy somewhat fairer.
At last, the world is scaling up its response to HIV/AIDS.
There are fewer wars between States than there used to be; and many civil wars have ended.
More Governments are elected by, and accountable to, the people whom they govern.
And all States have acknowledged, at least in words, their responsibility to protect people from genocide, war crimes, ethnic cleansing and crimes against humanity.
But, there is so much that still needs doing:
The gap between rich and poor continues to grow.
Very few countries are on track to reach all eight of the Millennium Development Goals by 2015.
Many people still face atrocities, repression and brutal conflicts.
The nuclear non-proliferation regime requires urgent attention.
Terrorism, and the reaction to it, are spreading fear and suspicion.
It seems we don't even agree which threats are most important. Those who live in small islands may see global warming as the biggest danger. Those who live in a city that has suffered terrorist attacks – like New York, or Mumbai, or Istanbul – may feel that confronting terrorism is more urgent. Others, again, may cite poverty, disease, or genocide.
The truth is, these are all global threats. All of us should be concerned about all of them. Otherwise, we may not succeed in dealing with any of them.


Long live our planet, and its peoples. Long live the United Nations! "



terça-feira, outubro 24, 2006

"Agenda-setting, opinion leadership and the world of web logs"

"Agenda-setting, opinion leadership, and the world of web logs"
Aaron Delwiche

"More than 350 studies have explored the agenda setting hypothesis, but most of this research assumes a clear distinction between reporters and their readers. Web logs erode this distinction, facilitating participatory media behavior on the part of audiences (Blood, 2003). The activities of journalistically focused web log authors give us new ways to understand and measure the agenda setting process. While previous researchers have explored issue salience by focusing on audience recall and public opinion, web logs invite us to consider hyperlinks as behavioral indicators of an issue’s perceived importance. This paper tracks news stories most often linked to by web log authors in 2003, comparing the results to stories favored by traditional media. Arguing that web log authors construct an alternative agenda within the admittedly limited realm of the blogosphere, I note that their focus has shifted from technology to broader political issues. My findings support Chaffee and Metzger’s (2001) prediction that “the key problem for agenda-setting theory will change from what issues the media tell people to think about to what issues people tell the media they want to think about” (375).

Estado forte estado nacionalista? 2

”Não existe, é claro, uma hierarquia consensual das funções do Estado, especialmente quando estão em causa questões como a redistribuição e as políticas sociais. (…) O Relatório sobre Desenvolvimento mundial de 1997 do Banco Mundial (World Bank 1997) fornece uma lista plausível de funções do estado, dividida em três categorias que vão de “mínima” a “intermédia” e “activista”. Esta lista não é, obviamente, exaustiva, mas fornece pontos de referência úteis para o âmbito do Estado.
(…)
Força inclui, neste sentido, e como já dissemos, a capacidade de formular e levar a cabo políticas e promulgar leis; administrar com eficiência e com um mínimo de burocracia; controlar os abusos de poder, a corrupção e o suborno; manter um levado nível de transparência e responsabilidade nas instituições públicas; e, o mais importante, fazer cumprir as leis.
(…)
Este novo reconhecimento da força sobre o alcance está reflectido num comentário feito em 2001 por Milton Friedman, decano dos economistas ortodoxos do mercado livre. Afirmou que uma década antes teria dado três conselhos aos países saídos do socialismo:”privatizem, privatizem, privatizem”. “Mas estava enganado”, prosseguiu, “sabemos agora que a primazia do Estado de direito é provavelmente mais importante do que a privatização” (entrevista com Milton Friedman, Gwartney e Lawson 2002).”

F. Fukuyama, A construção de Estados, pp. 23, 24 e 32.

segunda-feira, outubro 23, 2006

Estado forte e Estado fraco – a pensar


Escreve Fukuyama no seu livro A construção de Estados:”(…) a dilatação do Estado tinha infectado igualmente muitos países em vias de desenvolvimento não comunistas. (…)
Em resposta a estas tendências, o conselho dado por instituições financeiras (IFIs) como o Fundo Monetário Internacional (FMi) e o Banco Mundial, bem como pelo governos dos EUA, deu especial relevo a um conjunto de medidas destinadas a reduzir o grau de intervenção estatal nos assuntos económicos - este pacote foi designado por um dos seus criadores (Williamson 1994) como “consenso de Washington”, e como “neoliberalismo” pelos seus detractores da América Latina. O consenso de Washington tem sido implacavelmente atacado no início do século XXI, não só pelos manifestantes antiglobalização mas também por críticos académicos com melhores credenciais em economia (veja-se Rodrik 1997; Stiglitz 2002). (…) Mas o verdadeiro problema era que, se os Estados precisavam de ser reduzidos em certa áreas, precisavam simultaneamente de ser fortalecidos noutras. (…) A teoria da construção de Estados, que era pelo menos tão importante como a que defendia a sua redução, não recebeu metade da ênfase desta e não foi pensada ao mesmo nível. O resultado foi que a reforma económica liberalizadora falhou o cumprimento das suas promessas em muitos países. (…)”, pp.18, 19

Estado de coisas


De repente os semanários começam a contar-nos histórias de pessoas que estão a viver muito mal em Portugal. Dos que estão desempregados, dos que têm vencimentos magros e que não chegam para suprir as necessidades da família, os que têm dependentes com deficiências graves, os que não têm saúde e os que estão velhos e com baixas reformas.
Histórias de pobreza a regressar ou que, de facto, nunca foram definitivamente embora?

domingo, outubro 22, 2006

Um livro dentro do qual se pode viver




"O meu processo baseava-se numa série de observações feitas desde há muito em mim próprio: toda a explicação lúcida me convenceu sempre, toda a delicadeza me conquistou, toda a felicidade me tornou moderado. E nunca prestei grande atenção às pessoas bem intencionadas que dizem que a felicidade excita, que a liberdade enfraquece e que a humanidade corrompe aqueles sobre quem é exercida. Pode ser: mas, no estado habitual do mundo, é como recusar alimentação necessária a um homem emagrecido com receio de que alguns anos depois ele possa sofrer de super-abundância. Quando se tiver diminuído o mais possível as servidões inuteis, evitado as desgraças necessárias, continuará a haver sempre, para manter vivas as virtudes heróicas do homem, a longa série de verdadeiros males, a morte, a velhice, as doenças incuráveis, o amor não correspondido, a amizade recusada ou traída, a mediocridade de uma vida menos vasta que os nossos projectos e mais enevoada que os nossos sonhos: todas as infelicidades causadas pela divina natureza das coisas."


Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano, 5ª edição, trad. Maria Lamas, Lisboa, Ulisseia, 1974, pp. 98-99.
Naquele dia, a minha audiência era constituída por idosos que tinham feito a gentileza de me ir ouvir. O grande auditório da Junta de Freguesia estava cheio. Naquele tempo acabava sempre as minhas prelecções ou as minhas aulas com a leitura deste texto, que conhecia quase de memória. Digo quase porque nunca é mais do que quase. Quando comecei a ler, lembrei-me: são maioritariamente velhos os que me ouvem, gente informada, interessada e activa, mas velhos. Vou dizer-lhes que a velhice é um verdadeiro mal? Não faz sentido. E quando me aproximei dessa parte do texto, hesitei, suspirei e...saltei a palvra. Cobarde. Deixei de lado a velhice e entreguei-lhes a morte, as doenças incuráveis, o amor não correspondido e o mais de mal que há. Mas a velhice não. Porque a velhice só é um mal quando assoberba o indivíduo com todos os outros males. Não por si.
Não por si, justifico-me eu. E acredito.

sábado, outubro 21, 2006

Intelligentsia - definição por I. Berlin


"A palavra intelligentsia, como o conceito que designa, é de origem russa e foi inventada a certo momento algures entre a década de 1860 e 1870. Não significava simplesmente o conjunto de pessoas instruídas. E também não, sem dúvida, simplesmente os intelectuais nessa qualidade.


(…) Num momento de crise, as preocupações sociais podem tornar-se facilmente uma espécie de histeria, como acontece no caso daqueles que tentam proteger as nossas sociedades contra certas perversões reais ou imaginárias: trata-se de um fenómeno responsável por toda a espécie de dispositivos de censura, de cruzadas intelectuais, de esforços no sentido de organizar os escritores ou artistas em defesa do país, contra o comunismo ou o fascismo, contra o ateísmo ou contra a religião. (…) Assim, aqueles que se ocupam das ideias e outras formas de comunicação humana são obrigados a viver entre estes dois pólos em matéria de responsabilidade, procurando uma ou outra solução de equilíbrio aceitável.


(…) Mas no país em que a intelligentsia nasceu, o seu fundamento foi, a traço grosso, a ideia de uma oposição racional e permanente a um status quo considerado a todo o momento em vias de ossificação, tido por um obstáculo barrando o caminho do pensamento e do progresso humanos.


Eis o papel da intelligentsia, como ela o própria o vê, então como agora. O termo intelligentsia não designa simplesmente os intelectuais ou os artistas enquanto tais; (…) As pessoas instruídas podem ser reaccionárias, do mesmo modo que as desprovidas de instrução. (…)


O simples protesto, justificado ou injustificado, não torna automaticamente alguém membro da intelligentsia. Para tanto, é necessário que se verifique uma combinação da crença na razão e no progresso, juntamente com uma profunda preocupação moral pela sociedade. (…) A intelligentsia militans – e assim era a intelligentsia original, sendo o traço da militância parte integrante da sua essência – é engendrada por regimes efectivamente opressivos.”


Isaiah Berlin, O Poder das Ideias, trad. Miguel S. Pereira, Lisboa, Relógio d`água, 2006, pp. 147 a149.

sexta-feira, outubro 20, 2006

Parir um filho

Há um carácter torcionário patente em muitos dos técnicos hospitalares que acompanham uma mulher quando ela vai parir um filho.
A minha mãe contou-me que quando eu estava para nascer havia uma senhora que estava no mesmo quarto que ela e que a dada altura se descontrolou com as dores. Gritava, maldizia o marido, vilipendiava quem andava por ali. As enfermeiras fartas de a ouvirem gritaram-lhe: “Olhe lá, você quando o estava a fazer não gritou assim, pois não?”. Eu, que ouvi isto pela vida fora, entre risos condescendentes, achava que isso era o pior que se podia dizer a uma parturiente, e insurgia-me contra a falta de profissionalismo, julgando que essas palavras nunca mais poderiam ser proferidas e que, a terem-no sido, só o foram em momentos de pontual distracção.
Quando chegou a minha hora eu levava a lição bem estudada, quer das dezenas de livros que tinha lido sobre técnicas de relaxamento e assuntos quejandos (eu sou uma teórica) quer do aviso impresso na memória dessa história que a minha mãe me contou. Privilegiada, mas sem querer incomodar o meu obstreta às 3:00 da manhã, lá apareci no pequeno hospital acompanhada pelo futuro pai Amadeu, sem aviso prévio. Tudo parecia dormir naquele piso. Eu comecei por perturbar, pois claro. Rabugenta, a médica de serviço anunciou-me a novidade. Eu não queria fanfarra com pandeireta, mas alegria confesso que era coisa que estava pronta para ouvir e ver na voz e nos olhos de quem me anunciasse para breve o nascimento de um primeiro filho. Está bem, está, vai lá para o quartinho e aguarda pela hora da expulsão.
Fiz sempre por me dominar, com medo de aborrecer alguém, e mesmo sem a bendita da epidural, porque a senhora enfermeira por algum motivo considerou que eu iria levar muito tempo a fazer a dilatação e quando se chamou a anestesista já eu ia a caminho da sala de partos, até acho que não gritei muito. Excepto quando me cortaram para o pequeno nascer. Aí ouvi um “Cale-se!”, com um tom daqueles que se deve ouvir na tropa. E meio atordoada pela dor imensa de ter um filho lá consegui festejar esse filho que me puseram nos braços, enquanto pensava, ter um filho é uma tortura. Como é que uma mulher consegue pensar em ter mais do que um quando passa por isto?

Depois fui recolhendo histórias de mulheres que tinham parido. E percebi que há uma história de dor e humilhação por contar. Por vergonha, por desinteresse da maioria dos ouvintes, porque isso é um assunto de mulheres, porque “ai filhinha que vale a pena quando nos põem os anjinhos nos braços”, porque as “mulheres sempre pariram e tu não foste a primeira nem hás-de ser a última”. Por medo que digam que as mulheres não amam suficientemente o bebé, ao pensarem assim. Enfim…
É por isso que não suporto ouvir dizer que fecham maternidades, que circunscrevem os cuidados de saúde às grávidas, que não se alarga a formação científica mas também humana aos técnicos de saúde, de ouvir discursos de pessoas que engravidaram outras sem a responsabilidade, ou as que nunca pariram, nem acompanharam a dor das que engravidam sem o desejar.

Estado social

Albino Aroso, G. Ribeiro Teles e Medina Carreira, nas suas respectivas áreas de conhecimento eu consigo dar-lhes a palavra. Isto é ser de direita ou de esquerda?
Um pensador deve pensar a esquerda ou a direita, logo não deve ser importante que se defina como sendo de direita ou de esquerda, a não ser que isso contribua para ser mais bem escutado pela área ideológica que se lhe opõe, já que de certa forma os seus correligionários têm menos paciência para escutar propostas de modelos que vão contra o status quo. Eu assim o julgo.
A questão é que as últimas décadas introduziram tantas varáveis para se reflectir sobre o papel do Estado que ser de direita ou de esquerda parece mais uma questão ficcional do que de ideologia correspondente a uma realidade de facto.
Por exemplo, se queremos manter a hipótese de existência de um estado social, ainda que não totalizador, como eu o entendo ser fundamental à sociedade, há que encontrar novas formas de o garantirmos. Como? Não sei.

quinta-feira, outubro 19, 2006

Coisas que eu ouvi 6. Doutor João Almeida Santos evocando as análises de Zaki Laidi

A candidatura de Ségolène Royal ao Eliseu foi pensada como fazendo parte de um fenómeno que os especialistas denominaram de efeito “bolha mediática”. Passando a ideia de que ela era o tipo de candidato que através da imagem simula a existência de uma ideia, e que tal como aparecera o fenómeno Royal também desapareceria.
A deputada socialista francesa viu-se em confronto com o discurso tradicional dos seus pares socialistas tanto quanto com os discursos dos candidatos da oposição. Isto mesmo é analisado por Zaki Laidi.
Ségolène estará a fazer um discurso político enquadrado pela sua mundivivência no seguimento do que é entendido ser a filosofia dos blogues (meio mediático que ela privilegiou no primeiro contacto com os seus eleitores), abandonando nos seus discursos os grandes conceitos da teoria política clássica, mais programática, chamando à discussão temas do mundo da vida.
A candidata à presidência francesa está a levar a uma nova vaga de inscrições no partido socialista francês mesmo tendo contra ela figuras importantes dentro do partido. Logo, há estudos a fazer relativamente ao tipo de escolhas das narrativas que as pessoas em geral parecem estar interessadas em ouvir.
Recorde-se, e isto sublinho eu, que o facto de a maioria das pessoas parecer estar a preferir essas narrativas políticas da senhora Royal, isso não as torna por si mais verdadeiras. Indica apenas que as pessoas as preferem. Diz alguma coisa acerca da acção comunicacional em política, não diz tudo acerca da realidade discursiva política.

Tive pena que Almeida Santos não falasse na questão do discurso orientado para o género, como se torna evidente quando os jornalistas perguntam à candidata: “Quem vai tomar conta da sua família?”.
Alguém ouviu alguma vez perguntar coisa semelhante a um homem que tenha filhos e se candidate?

quarta-feira, outubro 18, 2006

Coisas que eu ouvi 5 – Doutor João Almeida Santos

Como foi possível que Berlusconi detendo uma elevadíssima capacidade de fazer aceder a sua imagem e mensagem ao público por via dos meios comunicacionais, tendo usufruído de um número de horas muito superior aos outros candidatos, nomeadamente a Prodi do “Centro Esquerda”, quer na categoria espaço e atenção, quer na categoria de exposição directa, vem a perder com a sua coligação “Força Itália” as últimas eleições legislativas em Itália? Com os votos vindos do círculo de emigração que deram essa vitória ao “Centro Esquerda”.
Isto nos foi dito por J. Almeida Santos. Mais um dado a confirmar o condicionamento do voto de todos os que se mantêm sob a influência da mensagem mediática organizada como um produto publicitário, independentemente da orientação ideológica e da história pragmática do governo do candidato?

Orçamento de Estado e Educação

Estive a assistir uns largos minutos à discussão da proposta de Orçamento de Estado para 2007 organizada pelo Diário Económico/Sapo no âmbito do Observatório sobre a proposta de Orçamento que nos chegou em directo sobre a forma multimédia na página do motor de busca "Sapo". A imagem do que nos chegava era má, mal conseguiamos perceber quem eram os intervenientes na discussão, mas a qualidade do som era razoável.
Ouvi falar as senhoras economistas Teodora Cardoso e Manuela Ferreira Leite e ouvi parte da intervenção de Pina Moura relativamente aos cortes a fazer nos serviços da Função Pública. Ficou ali claro que é financeiramente incomportável a um qualquer governo continuar a deixar aceder por promoção automática os professores aos últimos escalões. E que será no 7º escalão que terá que se reter a maioria dos docentes. Ora esta explicação, e esta preocupação com o dinheiro para pagar os ordenados aos professores, não nos é apresentada como a causa para as novas reformas no novo Estatuto da Carreira Docente apresentado pelo governo. Este ilude, e pretende passar a mensagem de que está sim é preocupado com a qualidade do ensino, quando, na realidade, o que o preocupa é o número elevado de docentes que estão a atingir os últimos escalões de vencimento.

Sejamos claros.
Porque é que os governantes não falam claro e tentam consecutivamente atirar areia para os olhos da opinião pública? Porque infantilizam as pessoas? Não seria melhor dizer-lhes: "Meus amigos, não há dinheiro que chegue para pagar estes ordenados todos. Vamos lá encontrar uma solução de forma a manter a qualidade de ensino mas controlar os custos?"

Ontem gostei de ver o senhor secretário-adjunto da educação a falar num tom mais respeitoso e menos fanfarrão com um dos representantes da frente de sindicatos no jornal das 22:00 na Sic Notícias. Confesso que acho as intervenções públicas do dito governante uma lástima. E desgosta-me profundamente que os decisores públicos utilizem a arrogância para falar com quem se lhes opõe. A oposição é garantia de existência de democracia.
O que eu aí ouvi foi que os sindicatos concordam com a realização de avaliações exigentes e rigorosas aos docentes, não negam a importância destes processos de selecção, o que negam e pretendem ver explicado, é a razão pela qual se irá impedir muitos daqueles que atinjam os patamares de excelência, de aceder então ao topo de carreira, não lhes sendo reconhecido o mérito, o trabalho e o esforço, em nome do número elevado dos que já lá estão.

Dir-me-ão que no ensino superior também há um processo de selecção rigoroso, o que faz com que, por exemplo, só uns quantos sejam titulares de uma cátedra. E que é um título inteiramente alcançado tendo por base critérios de avaliação universais e objectivos, que não se prendem nada com o tipo de relação que o docente foi tecendo ao longo da sua vida académica com os membros do júri que o irá avaliar. Pois sim. Um dia hei-de acreditar.

terça-feira, outubro 17, 2006

construir a educação a partir dos políticos

"Se encararmos o problema central da administração pública como o de criar um sistema institucional formal que alinhe os interesses dos subordinados com os dos chefes, então os casos mais difíceis ficarão todos no quadrante IV (volume de transacção elevado e especificidade baixa. ex. sistema judicial, ensino básico, medicina profilática, aconselhamento profissional). O ensino público básico e secundário são claros exemplos disso. Os resultados educacionais são difíceis de medir, e é praticamente impossível responsabilizar individualmente os professores. O ensino público é uma actividade de elevado volume de transacção que pode ser muito visível em grandes cidades mas que fica escondida nas áreas rurais. Mesmo num país rico e com grande quantidade de informação acumulada como os Estados Unidos, tem sido muito difícil desenvolver mecanismos de responsabilização. Boa parte da tendência para a adopção de testes estandardizados em muitos Estados visa responder a esta necessidade, mas conta com a resistência feroz de professores, administradores escolares e comunidades locais que não querem ter de lidar com as consequências de um fraco desempenho." Francis Fukuyama, A Construção de Estados, trad. F.J. Azevedo Gonçalves, Lisboa, Gradiva, 2006, p. 70

Mas em Portugal já há testes estandirzados há anos, já há listas classificativas de escolas, já há muito que obrigaram os professores a doptarem todos o mesmo manual, a cumprirem rígidos planos de aulas iguais entre si, a ser classificados internamente para progressão de carreira. O que mais querem estandardizar? Será que os políticos ainda não perceberam que o sucesso escolar em Portugal tem a ver com as suas políticas de facilidade e de desresponsabilização em relação ao trabalho, assim bem como de incentivo à desautorização do professor, e não com o desempenho de uma vasta maioria de professores?

Alguém sabe neste país como se procede à avaliação dos alunos no ensino nocturno por comparação com o que era há dez anos? Tudo por via do sucesso.

Fazer ou não fazer greve, eis a questão.


Incomoda-me tomar atitudes políticas quando sinto que há atitudes pessoais a resolver relativamente a essas políticas. Igualmente me desagrada tomar atitudes que se prendem com a minha vida profissional quando sinto que estou a deixar interferir emoções que se prendem com a minha vida pessoal. Há quem diga que estas distinções são puras abstracções. Não são. É difícil equilibrá-las mas elas existem e podem ser actualizadas na nossa prática. É o que impede que confundamos os nossos deveres com as nossas dores ou prazeres pessoais. Sei de pessoas que fazem análise da sua vida pessoal com os seus alunos, clientes, utentes ou colegas de trabalho nas horas de trabalho. Também sei de pessoas que de si nada dizem, nem dos livros que preferem nem das escolhas sobre assuntos públicos que propõem, de um acontecimento vivido que ajude ilustrar as suas explicações científicas ou de uma manifestação de gosto. É uma questão de balanço.

Fazer greve ou apoiar uma greve é uma questão profissional. Racionalidade das causas ou racionalidade dos interesses ? Será porque convictos da injustiça da causa para todos e contra o poder, ou do ataque aos nossos interesses particulares?
Ou porque não? Ou porque não pode deixar de ser, para que alguém escute a voz?

segunda-feira, outubro 16, 2006

Coisas que eu ouvi 4 - prof. Alvarez

Relativamente às campanhas políticas, à criação de candidatos pelos media e sua sustentação política através dos mesmos, Alvarez faz uma distinção entre as campanhas de José Sócrates, Merkel e Prodi, e as de Zapatero e Blair, dizendo as primeiras como sendo mais políticas que mediáticas e as dos segundos mais mediáticas que políticas. O que permite àqueles governantes europeus, na perpectiva do orador, dar prosseguimento às suas políticas, executando os seus programas sem que isso os deixe submetidos à imagem que os media deles passam, e sem que as sondagens os afectem tãoprofundamente quanto os que governam para a sua imagem, a imaginada, junto do eleitorado.
É curioso como esta análise do professor espanhol contraria de certa forma a ideia que os comentadores nacionais têm de que o Primeiro-ministro Sócrates e o seu governo sabem muito bem vender uma certa imagem enquanto políticos reformadores.

Coisas que eu ouvi 3- Prof. Alvarez

Ainda procurei contrapor às teses do prof. Alvarez com exemplos de jornalistas e de uma certa imprensa que reage contra a conversão da política aos interesses mediáticos altamente financiados, prosseguindo na sua tarefa de informar com rigor e espírito crítico. Mas o professor calou-me ao informar-me acerca da percentagem em termos de audiência desses programas e do número de vendas desses jornais. Perguntou: "E como resolvem os Diários esses problemas?" Respondeu: "Aliando-se a grandes grupos económicos."
A relação dinheiro, política e media é um tema incontornável, desde que a imprensa surgiu, claro, mas mais ainda hoje em dia, certo. No entanto, há esferas de resistência.

Coisas que eu ouvi 2 - José Timóteo Alvarez

Karl Rove , o director da campanha de Bush, o seu “spin doctor”, conseguiu ganhar 9,5 milhões de votos para o seu candidato de entre os 12 milhões de primeiros votantes. Sabendo-se da autoridade que o primeiro voto tem na determinação das intenções futuras de votação, Rove “deu” aos conservadores uma bela base de sustentação das suas políticas.
Karl Rove construiu a sua campanha com base em quatro ideias: 1. "As pessoas não ouvem o que se lhes diz"; 2. "As que ouvem não entendem"; 3. "As que entendem não têm interesse"; 4 "As que têm interesse esquecem-se".
Não ouvem, não entendem, não têm interesse e esquecem-se, então o que se dá às pessoas? Campanhas de política espectáculo.

Dizia ele que o paradigma de conceito mudou nesta última década por influência dos meios de comunicação que estariam a abandonar a sua função instrumental, de mediação das mensagens entre governantes e cidadãos e destes para os políticos, para se tornarem dominadores na forma e no tipo de selecção de conteúdo, obrigando os actores políticos e sociais a seguirem na sua acção comunicativa o formato por estes impostos. Deu como exemplo o preço das campanhas políticas que, com a generalização da TV já nos anos 80, se têm vindo a tornar incomportáveis para os partidos políticos, ficando por esclarecer a questão de “onde é que se vai buscar o dinheiro para pagar as campanhas?” Quem é que financia as campanhas políticas dos nossos candidatos a governantes?
Neste sentido, a confusão entre a política e os negócios torna-se a marca do poder que temos. Passa-se a ter mais uma definição de Estado, paralela à de muitos outros: o Estado contemporâneo tende a ser um Estado Virtual em que o poder se dilui. O Estado dos que funcionam segundo o sistema que envolve a troca e a venda de mercadoria ideológica organizanda entre os meios de comunicação, os políticos e os financeiros.

Será na tríade política, dinheiro e media que teremos então que buscar indícios da nova forma de poder travestida no mundo, sendo que todo o poder que se converta a uma só ideologia (no caso à dos poderes económicos) se transforma numa tirania.

domingo, outubro 15, 2006

Coisas que eu ouvi 1 - Lakoff e um “think tank” para a esquerda


Georges Lakoff no lançamento de um dos seus últimos livros terá discursado sobre a necessidade dos liberais americanos concentrarem os seus recursos económicos na criação de grupos que se dediquem à análise e produção de ideias novas em política (“think tanks”) à semelhança do que é já tradição para os conservadores. Para Lakafoff a esquerda estaria a perder no campo da interpretação da realidade política (incapaz de produzir novas metáforas representativas), tanto quanto na capacidade de criar argumentos para propor novas visões políticas do mundo.

Não sabia que Lakoff era um liberal. Nem sabia que ele se preocupava com a produção de novas ideias liberais para analisar a realidade. Também não tinha a percepção tão aguda de que fossem os conservadores a potenciarem com as suas contribuições financeiras os maiores, melhores e mais efectivos grupos de estudo na área da política. Sempre julguei que isso era indiferente e que, de um ponto de vista da investigação, seria mesmo necessário ultrapassar a necessidade pessoal de identificação ideológica por parte dos que se dedicavam ao trabalho de análise política nacional e internacional.
O livro Think Tank Traditions, Policy Research and the Politics of Ideas não me tinha aliás preparado para outra visão. Sendo no entanto um livro exaustivo sobre a identificação dessas instituições no mundo.

Perguntei ao meu interlocutor se acaso Lakoff não teria interpretado a ausência de um discurso de esquerda no facto de essa esquerda ter tido Marx como o grande dínamo ideológico, sob a energia do qual dezenas de governos pareceram pôr-se em movimento, deixando exauridos todos os outros ideólogos de esquerda que não cabiam no sistema do comunista astro rei, e que não tinham tido a hipótese de se manifestar, pelo efeito do argumento de autoridade que, neste campo, lhes retirava a palavra e submetia a vontade. Mas, segundo julgo ter compreendido, a interpretação de Lakoff prendia-se mais com o tipo de opção financeira, distinta entre si, dos conservadores e liberais, sendo que os primeiros tendem a concentrar esforços na criação desses centros de investigação, e a dispersar menos o dinheiro em miríades de outras causas causas sociais.


Quem me contava este e outros episódios era o professor Tito Cardoso e Cunha. Fora meu professor no curso de mestrado em Ciências da Comunicação na Universidade Nova e agora, no jantar que reuniu a maioria dos oradores das III Jornadas de Comunicação e Política, organizadas pelo prof. João carlos Correia da Universidade da Beira Interior, eu tinha a sorte de o ter sentado à minha frente. O tom pausado, baixo e comedido do professor fá-lo um orador mais atractivo numa conversa com um grupo pequeno de interlocutores, que se calam reflectidamente para o ouvir.

Covilhã

A montanha estava soberba nos dias quentes e limpos. No seu sopé, ela impôs-se-nos, obrigando-nos a levantar os olhos para a contemplarmos.

quarta-feira, outubro 11, 2006

MIT

O MIT chegou. Só posso ficar satisfeita. E no entanto não posso deixar de pensar no artigo de Paulo Ferreira que em tempos o "Bloguítica" assinalou, não porque Ferreira acertasse totalmente na previsão, felizmente, mas pelo que se pressente de mal-entendidos na origem do processo, e pelo que sabemos revelar sobre um comportamento endémico nas academias.

liberdade de expressão também é assassinada no Iraque

Depois de ler ontem a notícia do assassínio de Anna Politkovskaya na página do Committee to Protect Journalists fui ler a notícia dos jornalistas mortos no Iraque. Foram assassinados 8o jornalistas desde o início do conflito em 2003, e estão dados como raptados 41.
Um jornalista não é mais importante que qualquer outra pessoa. Mas a sua função em política é das mais importantes no sentido em que se apresenta como o agente que pode manifestar o uso da liberdade de expressão. A sua morte não é só o da sua pessoa, é a morte da prática da liberdade de expressão na sociedade que o mata.

terça-feira, outubro 10, 2006

Tentativa de resposta

Aceitará o meu leitor Marco Aurélio que eu argumente num sentido ligeiramente diferente relativamente à questão EUA/Coreia do Norte?

Ontem estive a ver o programa "60 minutos" que em Portugal passa na Sic Notícias. Parte do programa era a apresentação de uma entrevista ao jornalista Bob Woodward, na qual ele comentava as descrições e opiniões expressas no seu livro "State of Denial". Com um ar sóbrio e procurando fundamentar as suas conclusões, descrevendo situações, diálogos, relatando mesmo estados de espírito, o jornalista reconstitui as acções que levaram, no pós 11 de Setembro, à calamitosa decisão de invadir o Iraque por parte dos Estados Unidos da América.

Ficamos a saber como o Vice-presidente Dick Cheney pressionou Bush até à exaustão, e como este se deixou convencer, defendendo-se com a ideia de que a intervenção dos EUA (leia-se a sua intervenção pessoal) relevava de um designío divino de imposição de paz no mundo. É assustador. Tanto pelos motivos que esconde para justificar a legitimidade da sua escolha, sendo que estes não são passíveis de ser fiscalizados ou possam ser comentados, porque são da esfera da crença pessoal, não partilhável, o que torna o caso ainda mais assustador, mas sobretudo pelos motivos que evocou para defender essa intervenção. E estes são passíveis de ser fiscalizados. São mentiras. São factos que podem ser apresentados para contrapor às suas posições.

Mas, ao contrário de muitos líderes mundiais, Bush vive numa democracia dinâmica, com uma imprensa que está a acordar da sua vertigem patrioteira e a voltar a cumprir o seu papel que é o de informar e de publicar opiniões diferentes sobre o mesmo assunto para permitir aos leitores um maior leque de influências. O mesmo não se pode dizer de outras partes do mundo.

Por outro lado, o mal da administração Bush no Iraque (e dos milhares de iraquinanos mortos e feridos em consequência dessa intervenção militar) é o bem das Nações Unidas que vai reforçando nos últimos meses o seu papel como organização orientada, sobretudo, para a manutenção do estado de Paz no mundo. Sem o desaire do Iraque, talvez o Irão e a Coreia do Norte não tivessem sentido que era oportuno iniciarem ou desenvolverem os seus programas nucleares, talvez, mas também não teríamos os Estados Unidos tão afinados em prosseguirem esforços de resolução de conflitos por via diplomática em colaboração com a China ou com o Líbano, como por exemplo temos vindo a acontecer nos últimos tempos. Deixou o presidente americano de se sentir o "iluminado" que pode avançar sozinho pela pradaria a combater os maus e passou a ter que contar com a influência de Instituições que estavam cá antes de ele chegar à política, e hão-de cá ficar depois de ele desaparecer da esfera da acção política. Para desgraça de muitos, o homem teve que aprender isso pela experiência.

Os pupilos do Sr. Estaline

Andei distraída com o jogo de domínio de mestres estrategos da Coreia do Norte e a tentar perceber como iria reagir a China que foi posta entre a espada e a parede no que à sua política de apoio sustentado à Coreia do Norte diz respeito. E o meu meio sorriso pelo discurso cauteloso do governo chinês relativamente a uma acção concertada com outras nações contra o regime de Pyongyang é mais de desânimo do que de contentamento pela previsibilidade. Por isso deixei passar a notícia do assassínio da jornalista russa Ann Politkovskaya.
Teresa de Sousa no seu artigo hoje do "Público" tem toda a razão quando alerta para o perigo de descuidarmos na vigilância das acções do governo russo, de subestirmarmos as acções de um governo autoritário, já que se revela pouco respeitador dos tratados internacionais no que a questões dos direitos humanos diz respeito, e sem que a que comunidade internacional esteja a fiscalizar convenientemente o que se passa com a intervenção russa na Tchechénia.

segunda-feira, outubro 09, 2006

Falar de dinheiro

Porque é preciso falar de dinheiro, de como ganhá-lo, mas sobretudo como planear as finanças e investir, para saber gastá-lo, é que eu penso que o artigo de Helena Garrido hoje no "diário de Notícias" é fundamental.
Nos programas americanos de grande audiência, e que passam em Portugal como o "dr. Phil" ou "Oprah", já vi dedicarem ao tema da planificação económica das famílias quase uma hora inteira. Daquela maneira prática americana, embora muito superficial e com o recurso narrativo do tipo "agora nós vamos resolver-lhe o seu problema desde já, é só começar a ler este livro", a vida económica das famílias que pedem ajuda é escrutinada e depois é-lhes sugerido um plano estrito para as ajudar a saldar as divídas em que estão submersas.
Todos sabem da importância social que representa o endividamento das famílias e por isso procuram mudar atitudes, influenciar positivamente um comportamento mais racional com o consumo.
A taxa de divórcios a aumentar, o baixar das possibilidades de pagar uma boa educação aos filhos, o prenúncio de uma velhice com dificuldades financeiras, são problemas reais com que as pessoas lidam. É preciso estimulá-las a defenderem-se de uma instituição agressiva e que induz ao consumo como é a banca, fornecendo um modelo de vida mais estimulante do que viver acima das reais possibilidades económicas da sua família.
É bom que em Portugal se fale destas questões o mais pragmaticamente possível. Se fale de como distribuir dinheiro, de como pagar divídas, ajudando as pessoas a livrarem-se desse peso que carregam até à próxima geração.
É triste porque o dinheiro chegou tarde e já não é muito, e é bom gastá-lo, mas é preciso dizer o que os nossos antepassados sabiam, viver de aparências destrói o próprio indivíduo pelo esforço sem sentido em que está envolvido.
Seria bom também que o mercado de aluguer de habitação se equilibrasse finalmente, porque até agora os senhorios estão em pânico com o aumento desproporcionado do IMI e há uma grande maioria que prefere não adoptar a nova lei das rendas, para já, o que deixa muitas famílias sem opções a não ser a de comprar casa ou alugar por preço exorbitante.

nos meus programas de televisão - ontem

Ontem, antes de ver o último episódio do "Sexo e a Cidade" de que gostei mais ou menos, mais pelas personagens, pelo guarda-roupa e por uma ou outra emoção, menos pelo desfecho em passo acelerado de quem quer terminar e é assim e agora, ainda consegui ver um bom bocado da entrevista de Maria João Avillez. Concordei em absoluto com a definição que o director do "Correio da manhã", João Marcelino, deu do semanário "Sol": "Começa-se como com o Expresso, passa-se pelo Público e pelo Correio da Manhã e termina-se no 24 Horas". Mas enquanto percebi a pertinência da presença de João Marcelino e de José Manuel Fernandes, director do "Público", não percebi a presença de Proença de Carvalho num programa em que se discutia os meios de comunicação em geral e a imprensa em particular no actual contexto cultural e tecnológico. Só se o conhecido advogado estava lá para dar o contributo de um leigo sobre o assunto. O que, convenhamos, é uma justificação muito coxa.
Não há especialistas académicos em jornalismo que servissem de maior e melhor contrapeso explicativo à prática dos directores presentes?

o discurso do Procurador

Quando os Presidentes da República falam de ética, dão um discurso bonito, podem estar a indicar vias de acção, mas podem fazer pouco para desenvolver realmente a consciência moral social. Quando um Procurador-Geral da República fala de ética, dá um discurso bonito, está a indicar vias de acção e pode fazer muito para desenvolver a consciência moral social.

Mesmo sabendo que a justiça não é a mesma coisa que a lei, como terá aprendido com Kohlberg, Pinto Monteiro reconhece que sem a lei e o recto cumprimento da mesma, a justiça mais dificilmente será alcançável, pois mais dificilmente se passará aos outros estádios do desenvolvimento moral da sociedade, que são superiores ao que é caracterizado pelo recto cumprimento da lei.
Será um caso de estudo saber o que irá ele fazer tendo à partida um discurso filosoficamente bem fundamentado e moralmente ambicioso, como é este seu.

A Coreia do Norte ou o pupilo Chinês

A China ajudou a criar e a alimentar essa máquina militar Norte-Coreana, apoiando há décadas, com dinheiro, alimentos, conhecimento e homens, a sua política agressiva. Será interessante ver agora como irá reagir à fuga do seu pupilo para a boca de cena, lugar que a China quer ocupar na região, para já não falar num palco mais alargado que tenha o mundo por dimensão. Assim, ou se cola às políticas de sanção e proibição em nome do uso da força com os restantes países, e torna-se mais uma voz em consonância, mas perde protagonismo, ou se continua a colar ao regime de Kim Il Sung, mas correndo o risco de ver escapar a criatura ao poder do criador e ficar com uma grande tragédia nas mãos.

De qualquer modo, o envolvimento da China será de seguir com a máxima atenção tendo em linha de conta as debilidades militares internacionais, com forças espalhadas já pelo mundo, e as debilidades políticas de intervenção do Japão que tem uma história recente por resolver ainda com muitos países da região e da Coreia do Sul que não tem o poder que gostaria. Será no governo Chinês que se terá que confiar para ajudar a controlar o problema e no quadro dos seus poderes e deveres como membro do Conselho de Segurança da ONU.

sábado, outubro 07, 2006

Prémio Nobel

“Ele é um supervisor competente e exemplar, encoraja muito a comunicação, está sempre disponível para o diálogo e o objectivo dele é estar o máximo de tempo com a sua equipa.” Está a falar de quem este aluno de doutoramento? Do prémio Nobel da medicina deste ano, Craig Mello. Isto pode-se ler no semanário “Expresso” de hoje.

“Há universidades que estão a receber centenas de alunos sem o 12º ano, ou mesmo sem o 9º ano. A possibilidade foi aberta pela autonomia dada pelo Governo, em nome da igualdade de oportunidades na educação.” Isto pode-se ler no semanário "Sol" de hoje.
Estão a falar de quem? Dos alunos portugueses, a quem os Governos portugueses têm vindo desde há décadas a alienar na sua capacidade de trabalho e de evolução ao unificarem e desnivelarem o ensino a parâmetros de insuficiência contínua, em nome da igualdade. Isto não é igualdade, é mediocridade. É sabotar a capacidade de trabalho, de exigência e de capacidade dos alunos, passando-lhe a mensagem de que “deixem lá, no fim entra toda a gente para a universidade”. E enganam-nos, porque a desigualdade se acentua. Os ricos, ou os mais informados, vão estudar para o estrangeiro e cá ficam os que se licenciam para assegurar os vencimentos de professores, para depois engrossarem a bicha do desemprego.

Portugal um país de oportunidades: na cabeça de alguns

Eu gostaria de saber se a Presidente da Câmara de Vila de Reis não corou sequer quando disse relativamente aos brasileiros que estão abandonar a vila:”Se eles não querem ficar ou não se adaptaram, o problema é deles. São todos adultos, para saberem o que querem.” Esta senhora que foi ao Brasil aliciar cidadãos para virem habitar no seu concelho, não deverá ser acusada de incitamento ilícito à emigração, por ter tido a impertinência de promover o que nem ela nem ninguém do seu concelho estava em condições de providenciar aos brasileiros que procuravam uma vida melhor no nosso país?
E já agora, viajou a título individual ou a expensas do erário público quando decidiu pôr em marcha este projecto de repovoação?
Estes políticos espaventados dão cabo da classe. Não pela ideia em si, que tem algum mérito, não pela vontade, que implica um desejo, mas pela incapacidade de prever as dificuldades, pela ligeireza com que se desmarcam das suas próprias acções. Tudo colado a cuspo nas nossas vidas públicas, sem consciência, nem responsabilidade. A eterna fuga para a frente dos nossos poderes.

sexta-feira, outubro 06, 2006

Porque não falam as portuguesas?


Ontem ouvi o discurso do nosso Presidente da República na Antena 1. Vinha no carro, o sol a bater no vidro, meio amodorrada. O discurso era bonito, correcto. Não empolgava, mas a normalidade, nos discursos como na História, não costumam empolgar. E a data, excepto para os defensores da República para Olivença já, para os monárquicos, para os filósofos que discutem a passagem da ética republicana à ética deliberativa em democracia, ou para os realizadores de eventos que discutem a importância de uma varanda relativamente a uma praça e vice-versa, é de normalidade. Os defensores da causa Olivença têm razão, a diplomacia portuguesa à época andou mal ao não reivindicar o território. Mas não sei se em termos de direito internacional o caso não terá já prescrito, não havendo qualquer hipótese de reclamação. Quem deve ficar feliz é o director do semanário “Sol” que de quando em vez lá descobre meia dúzia de portugueses que gostariam, tanto quanto ele, de ter por dieta principal uns carapaus com molho à espanhola, e que tem ali em Olivença uma antecâmara de acesso ao imaginado paraíso. Como eu e as minhas amigas dizíamos na adolescência, sem pensarmos muito no dramatismo da expressão, “isso só sobre o meu cadáver”.

Estava tudo a correr muito bem. Não havia muito povo, mas o povo também tem que passear, limpar as casas, dormir até mais tarde. Enfim, as coisas que o povo faz quando não anda preocupado com revoluções (sorte a do Eng.º Sócrates). Havia música e, presumo, porque só ouvi, não vi, devia haver flores. Mas de repente a jornalista da Antena 1, terminado o discurso presidencial, resolveu saber a opinião dos que estavam à volta. Falou um senhor, depois a jornalista queria que uma senhora falasse e…está bem está…a jornalista explicava-nos: “Geralmente as senhoras recusam-se sempre a falar”. Eu encolhia-me conforme a repórter nos ía indicando as senhoras que se recusavam a falar, e eram muitas. E ela lá se virou para mais um senhor que, esses, parecem que têm sempre qualquer coisa para dizer.

Razão tem a professora João Silveirinha que investiga o modo como os géneros se manifestam de forma distinta na esfera pública em geral e na política em particular. E eu, que até sou muito reticente, não posso deixar de pensar que a recusa em falar por parte das mulheres portuguesas precisa de ser explicado.

quinta-feira, outubro 05, 2006

os bisnetos da República

Num dia em que se passa o tempo todo com vontade de ir por aí por uma estrada fora de mãos nos bolsos a dar pontapés numa pedra, que atenção dar à mensagem presidencial?

quarta-feira, outubro 04, 2006

E depois da pausa...as eleições brasileiras como os investigadores as vêem

Lula da Silva não quis deixar de ser presidente mesmo naquelas alturas em que necessariamente tinha que se tornar candidato à presidência, por via das regras e dos ciclos da democracia que obrigam cada governante a apresentar-se a eleições. Escudou-se numa pose de Estado que julgou ser suficiente para justificar a sua ausência dos debates públicos, separando-se dos outros concorrentes ao lugar. Escrutinado pelas urnas, mas também por grupos académicos que estudam a actuação comunicacional dos políticos em geral, e dos candidatos a eleições em particular, o discurso de Lula não está a convencer e vai ter que mudar.

Repare-se neste trabalho de uma equipa de investigadores brasileiros sobre as eleições presidenciais no Brasil. Os brasileiros têm uma escola de análise da comunicação política, de influência americana nos métodos utilizados, verdadeiramente interessante. Quando vêm fazer conferências a Portugal conseguem sempre surpreender-nos com o trabalho de investigação empírico que habilitadamente reunem e apresentam. A tradição nesta área é muito consistente.
Veja-se por exemplo a análise de um anúncio televisivo da campanha de Lula de 2002, quando foi eleito presidente pela primeira vez, conduzida por Sérgio Roberto Trein, arquivado e apresentado pelo Laboratório de comunicação on-line.

Em Portugal só se pensa sobre Comunicação Política (ou em Comunicação e Política, o que é diferente, mesmo assim), há muito pouco tempo, sendo esse campo ocupado pelas agências de comunicação que desenvolvem a sua prática de assessoria aos candidatos ou aos governantes na área da comunicação política. A monitorização da quantidade e qualidade das notícias políticas, o estudo das imagens e dos discursos, a reflexão sobre a influência das agendas políticas sobre as mediáticas, assim bem como a inversa, ainda está numa fase incipiente, sendo normalmente encarada pela nossa academia clássica como uma excrescência da Ciência política e/ou das Ciências da Comunicação. Falta andar esse caminho.