quarta-feira, janeiro 31, 2007

11% de crescimento ao ano e o Estado da China transforma-se na bem apaparicada titi. Às malvas as liberdades públicas.

Teodorico é bem aconselhado pelo dr. Margaride, jurista sapiente destas coisas de heranças, a satisfazer a titi para que a fortuna do comendador Godinho venha parar a suas mãos: "_ Nem tudo está perdido, Teodorico. Não me parece que esteja tudo perdido... É possível que a senhora sua tia tenha mudado de ideia...Você é bem comportado, amima-a, lê-lhe o jornal, reza o terço com ela...Tudo isto influi. Que é necessário dizê-lo, o rival é forte!"
Eça de Queiroz, A Relíquia, ed. Livros do Brasil, p.42.

terça-feira, janeiro 30, 2007

Um povo e a liberdade

Ouve-se por aí mas sem se saber realmente (ao modo sussurrado do “diz que diz-se” do Estado Novo) que Salazar será a figura mais votada pelos portugueses no concurso televisivo, e evocam-se já explicações culturais, psicológicas e sociais para justificar essa tomada de posição de um povo que dizem retrógrado e sem consciência de liberdade, do seu valor e da necessidade da preservação deste valor em sociedade. Eu então recordo uma revolução democrática em 1974 por oposição a um concurso de televisão, recordo eleições disputadas e votadas com respeito e sentido de participação desde então, por oposição a votos em SMS, recordo um povo que num comício na fonte luminosa soube estar ao lado dos que disseram um basta à possibilidade de desvarios totalitários. E recordo que em 1928 o número dos que acompanharam os restos mortais de Sebastião Magalhães Lima, um dos meus grandes portugueses, assombrou todos os presentes ao ponto de vinte anos depois esse facto ser recordado como um acontecimento popular de dimensões nunca vistas, no apoio a um lutador pela liberdade e pela democracia, mesmo sob a ditadura de João Franco. Em França estaria no Panteão para dar corpo à memória e ao símbolo liberdade. Mas não faz mal, cá está na memória dos que o recordam e lembram como um lutador pela liberdade.

Sebastião Magalhães Lima fundou em 1922 a Liga Portuguesa dos Direitos Humanos
Tal como me perturba racionalmente a intervenção agitadada da igreja no debate sobre a lei do aborto, não a sua decisão ou a sua tomada de posição, claro, porque é uma instituição livre numa sociedade livre, também me perturba racionalmente que um governo que anda a economizar todos os tostões na saúde materno-infantil e que não apresenta um plano estruturado de apoio às mães trabalhadoras, venha agora a participar freneticamente em comícios/propaganda sobre a despenalização do aborto até às 10 semanas. Uma posição de força política que não prevê, ou contempla, o sofrimento das mães e pais que sentem que têm necessariamente que abortar, tanto quanto o das que não podem ter filhos por não terem uma sociedade socialmente organizada a favor da maternidade, é uma força que representa um Estado que não dignifica os filhos que sob ele nascem, e que age por força das circunstâncias não só económicas como ideológicas que melhor sirvam a sua ideia de sociedade no momento. Vale o que vale em política, e para mim vale pouco como ideia de sociedade. Já exprimi nestas páginas o meu sentido de voto. Não me envergonho dele, mas também não o considero reflexo do avanço civilizacional que por aí se apregoa. É um declarado sim por um mal que eu desejo, em consciência, que seja menor, e com o maior respeito por cada pessoa afectada. Sem que eu faça nada, porém, para ajudar mães que estejam em dificuldades. Assumo-o.

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Direito: conflito tradicional entre formalismo e pragmatismo 2

"Ora, em direito, toda a nova regra se inspira em alguns princípios mais gerais que ela particulariza e estrutura, e toda a decisão é fundada em alguma regra que a justifica: assistimos a uma dialéctica constante da razão e da vontade, das estruturas que determinam os quadros de uma acção, e das decisões que particularizam, adaptam, e até modificam esses quadros, se eles forem incompatíveis com regras mais fundamentadas. A razão e a vontade não se apresentam como uma dualidade irredutível, não sendo uma de nenhum auxílio na elaboração da outra, mas estão efectivamente em constante interacção. A prática do direito ensina-nos assim a não recorrer a uma separação nítida das faculdades. A metafísica absolutista, pelo contrário, quer seja racionalista ou voluntarista, quer se preocupe com elaborar uma ordem racional, que exclui todo o poder de decisão, quer com apresentar, por causa do seu dualismo radical, analogias impressionantes com uma sociedade sem juízes ou sem legisladores.", p. 334

Chaïm Perelman, Ética e Direito, Instituto Piaget, Lisboa, 2002.

A mim parece-me que os juízes caiem muitas vezes nesta armadilha teórica de embarcarem na defesa de uma metafísica absolutista quando alegam, para se defender, que se limitaram a cumprir a lei. É que assim podem ser substituídos por máquinas. Admitem que a sua presença é apenas a de reafirmarem a aplicação da lei, acima de qualquer poder de decisão baseada em regras que em cada caso se podem apresentar como mais bem fundadas.

O voto do sim ou do não no referendo

A Igreja, com mais de dois milénios de existência, ainda não sabe como dizer aos seus sacerdotes que não é no barulho e no discurso apopléctico em certas homilias numa missa que melhor se poderá defender uma sua posição? Não serão a ira e a soberba dos que mais se apresentam como inquestionáveis seguidores de Jesus menos boas conselheiras que a serenidade e a firmeza da suas posições? Quem os ouve, e não abandona a missa na igreja onde entrou, não encolherá os ombros pela falta de senso, e não lamenta a falta de postura de recolhimento e reflexão que a questão provoca em todos? E não lhes dirá que as suas palavras não devem atravessar os assuntos que são de César e cuidar atentamente das que admitem ser as de Deus?
Há uma grande confusão na cabeça de alguns sacerdotes que mais parecem vigilantes da virtude que amáveis guardiães. Quem querem aqueles que entre na sua igreja? Imaculadas criaturas registadas no livro do deve e haver do senhor prior? E quem são elas e como sabem eles que elas o são? Há tantas certezas. E no entanto há tanta miséria mesmo se com essas certezas. Também sentirão este paradoxo? Sofrerão por ele? Saberão até onde se poderá estender o seu braço e até onde deve ir o braço da política?

domingo, janeiro 28, 2007

Direito: conflito tradicional entre formalismo e pragmatismo 1

O que nos diz Chaïm Perelman sobre este conflito tradicional, latente, entre a “fidelidade à regra e à tradição” e a “tomada de consideração das consequências da interpretação”?

Na realidade que tipo de solução se poderá encontrar para um problema que é inerente ao próprio processo de decisão judicial? Tendo em conta, por exemplo, o caso de conflito de regulação do poder paternal da pequenina da Sertã, o que há para pensar?
No cumprimento da lei há ou não interpretação? E esta é ou não passível de induzir consequências graves? E deixar cair o respeito pela lei e tomar decisões só pensando nas consequências? Onde ficaria o sentido da equidade da lei?

Passo a citar Perelman que em Ética e Direito nos diz ser necessário a existência de uma dialéctica activa (processo interactivo) na vida do direito entre o formalismo e o pragmatismo. Mas este bom senso (pois é, pois é, todos e cada um o julgam consideravelmente presente sempre que tomam atitudes, diria Descartes) exige uma atenção redobrada por parte dos juízes sabendo estes que o "respeito da letra e das formas não constitui (...) um valor absoluto", e uma atenção cuidada pela sociedade em reconhecer que esse respeito pela letra e pela forma também não pode ser "um preconceito sem importância".

É nesse ponto de equílibrio que a ordem jurídica se pode estabelecer, entre o texto, a letra, e o contexto político e social da aplicação do texto: "Mas se os textos não forem redigidos com precisão, ou se deixarem de corresponder à ordem política e social em que se inserem, assistir-se-á ao primado do pragmatismo, ao triunfo do espírito sobre a lei."p. 333.

divulgo 2


O meu colega Rui Manuel pede-me para divulgar o seguinte:

"A Atalanta Filmes vai estrear no próximo dia 8 de Fevereiro o filme O GRANDE SILÊNCIO, documentário de Philip Gröning que ganhou o Prémio de Melhor Documentário Europeu. O GRANDE SILÊNCIO é o primeiro filme sobre a vida interior da Grande Chartreuse, casa-mãe da Ordem dos Cartuxos, uma meditação silenciosa sobre a vida monástica na sua forma mais pura. Dezassete anos depois de ter pedido autorização para filmar no mosteiro, é dada autorização para entrar ao realizador, que filmará a vida interior dos monges cartuxos. Sem música, à excepção dos cânticos do mosteiro, sem entrevistas, nem comentários, ou artifícios. É um filme sobre a presença do absoluto e a vida de homens que dedicam a sua existência a Deus.

O filme estará em exibição no Cinema Nimas (Av. 5 de Outubro, 42B), em Lisboa, e gostaríamos muito de contar com o vosso apoio na sua divulgação.
Com os melhores cumprimentos, "
e também isto:

*Divulguem, para não perdermos essa ferramenta!*
Mariza Russo Coordenadora do Curso de Biblioteconomia e Gestão de
Unidades de Informação - CBG/FACC/UFRJ
Por favor, leiam e repassem!
Convoco todos a lutar para impedirmos um desastre. Imaginem um
lugar onde se pode ler gratuitamente, as obras de Machado de Assis,
ou A Divina Comédia, ou ter acesso às melhores historinhas infantis
de todos os tempos.
Um lugar que lhe mostrasse as grandes pinturas de Leonardo Da Vinci.
Onde você pudesse escutar músicas em MP3 de alta qualidade.
Pois esse Lugar existe! O Ministério da Educação disponibiliza tudo
isso, basta acessar o site:
*http://www.dominiopublico.gov.br/*

divulgo 1

A minha amiga Ayetsa, de nacionalidade venezuelana, tem um blog "actos y consecuencias". Sei que ela há-de encontrar a liberdade dentro das suas obrigações e deveres profissionais para escrever o que pensa sobre o seu país. Será uma voz da Venezuelena. Não será a voz, claro, mas uma voz que eu reconheço como sendo íntegra e procurando a verdade.

sábado, janeiro 27, 2007

Mocho/gaivotas de Fiama Hasse Pais Brandão

Efectivamente algum mocho, embora não fosse
uma paisagem,
anunciou a noite. Nem era uma página, mesmo que os versos
soltos pela evocação pudessem descrever-se. Neste sítio tantos
[pios
se soltaram no azul.

Já não parece sincera enunciada tantas vezes a emoção
perante a emoção. Mas os mochos voavam regressando sobre
[distâncias que não eram
suas. Eu que receava reproduzir uma noite monótona
[recomecei
transferindo-me para o mar.

Tudo isto se confunde na minha representação do mar esvaído,
as mil gaivotas dispersas naquele chão arenoso. Tais pássaros
[sobre o mar
equivocaram-me: ora são sombras das suas formas, e ágeis
como a superfície, ora têm aquela voz cava toldando os céus de
[azul.

Vi-os desse modo, pela primeira vez, áugures. Os da imagem
actual são brancos, dependentes do nome que possuem na
[associação
com as imagens do mar. Só eu
quero abandonar as significações eternas,
o significado anterior que me arrastara, e estarrecera a minha
[simplicidade.
Perante a tradição literária, nada sou
sem artifício.

Esta confissão não é só minha. Seres de linguagem, ave ou
[outra estirpe
que fale com outra estirpe no Universo. São artífices
da realidade,
que aperfeiçoaram nos olhos vítreos um olhar semelhante ao
[mundo. Mundo
semelhante a uma obra. Deito-me na mansidão relativa do
[mar

como se fosse acolhida pela cachoeira de espuma que se
[desfaz. Tudo
o que está figurado nesta brancura lhes pertence, são sob a
[sua forma desfeita,
pássaros de azeviche. Dizer com exactidão a cor no espaço é
[a forma mais
vaga de incerteza. Antes redemoinhassem flocos de espuma
[sobre mim pensativa
do que eu perder na figuração do céu o sentido subtil da
[inverosimilhança.


Fiama Hasse Pais Brandão, Obra Breve, ed. Teorema, 1991, p.258.

sexta-feira, janeiro 26, 2007

"Político domesticável é do escalão dos animais domésticos"

“Já disse uma vez: político que se deixa domesticar, que na sua consciência não vê ofensa grave à expectativa que se pôs nele, deve ser remetido para o escalão dos animais domésticos.” João Cravinho em entrevista hoje no jornal “Público”.

Mas o político deve em sua consciência corresponder à expectativa de quem? À do líder parlamentar do partido do governo que precisa de manter um grupo coeso para fazer aprovar as leis sem criar instabilidade institucional, à de um líder partidário dos partidos de oposição que precisa de mentes inquietas que apresentem propostas e discursos que potenciem a presença de um contraditório na argumentação, a de um povo que quando vota nem sequer sabe quem é o seu representante no parlamento e muito menos o que dele deve esperar, ou à ideia de função de um político como uma pessoa que em consciência só responde perante o povo que o elegeu com a sua autónoma actuação e livre pensamento?

Um político a pensar pela sua cabeça é como um povo a participar civicamente, só é aceitável nos manuais, e nos discursos de jubilação pátria para almas idealistas ouvirem. Não corresponde a nada.
A nada, nada, não, corresponde a uma ideia. E aí é que Cravinho sabe onde começa a política. Ou onde devia começar. Ou não devia, porque senão o povoléu ainda pensava que chegava a parlamentar independente com a mania de pensar pela sua própria cabeça ou a discutir os intangíveis princípios de aplicação da justiça. Estrangeirices. Revolução.

Ninguém pode saltar sobre a sua própria sombra

Ninguém pode saltar sobre a sua própria sombra, dizem os alemães. E às vezes ela é ainda maior que nós mesmos. Como o sabe o povo alemão. E sabe-lo tu?
Eu acho que sei. Talvez saiba. Ainda me espanto, claro, com a minha sombra, com a que conheço; tanto quanto com a dos outros.

Sei de alguém que é tão bonito, tão excelente a escrever e a pensar, com uma ortografia e uma sintaxe esplêndidas, um vocabulário mais-que-perfeito que eu admiro como a uma coluna dórica, mas a quem basta a própria respiração para aterrorizar o seu coração.

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Historiador Oliveira Marques

Morreu o historiador Oliveira Marques . Ou devia dizer: morreu o pensador Oliveira Marques?

Um doutoramento como um PhD

Depois de duas horas a ouvir discutir sobre a importância das proteínas vegetais na estabilização do vinho por contraposição às habituais proteínas de origem animal usadas pela produção, e respectivas fórmulas químicas implicadas, discussão hermética para não iniciados, como era o meu caso, eis senão quando interveio um elemento do júri de doutoramento daquelas provas a que eu assistia. Júri de nacionalidade inglesa. Admirou-se com a extensão da tese (muito gosta a academia portuguesa de teses ao quilo), elogiou a capacidade de trabalho da candidata e depois perguntou-lhe:”Sabe que em Inglaterra um doutoramento representa aquilo a que se chama obter um grau em Filosofia. É assim que eu o entendo. Pressupõe-se por isso que o trabalho científico apresente uma filosofia nova, uma ideia que contribua para o avanço teórico na área. Diga-me pois, qual é a filosofia deste trabalho?” Silêncio expressivo naquele auditório de uma universidade técnica de Lisboa: “Filo…quê?!”
A minha amiga Helena prestou ontem as suas provas de doutoramento em engenharia agro-industrial. Unanimemente aprovada pelo júri e saudada por todos nós.

terça-feira, janeiro 23, 2007

A lei da adopção

O programa do Prós e Contras de ontem não foi sobre adopção mas sobre o caso de vida de uma menina que está no centro de uma luta de poder. Ela está a ser disputada pelo poder judicial, o poder de pertença paternal convencional, o poder dos que a amam incondicionalmente, o poder da segurança social, o poder de informar e influir dos meios de comunicação e o poder de tomada de posição popular. Com o devido respeito pelo caso da pequenina, mas quem me dera que o programa fosse realmente sobre o rotundo falhanço do nosso sistema de adopção e reflexão sobre o meio de o alterar. Mas como pedir a um programa de televisão o que o parlamento não é capaz de fazer? Ainda assim, ontem parece que toda a gente descobriu afinal os méritos de uma coisa chamada "adopção restrita" e que parecia que estava na lei mas não era aplicada, ou coisa que o valha, e que de certeza alguém vai querer ver a sua aplicação mais complicada para justificar o seu trabalho.

O que me parece que está a perturbar todos os intervenientes deste acontecimento em particular é facto do poder judicial, o paternal convencional e o da segurança social , tradicionalmente escudados na intangibilidade dos seus direitos, estarem a ser questionados pela tomada de posição popular que, dizem os interessados, está ser influenciada pelos meios de comunicação, como, numa expressão infeliz, declarou o juiz do tribunal da relação do Porto ao afirmar que “Não há opinião pública, há opinião publicada”, declarando como sendo autor da frase um outro senhor do Porto, que, obviamente, não o é, pois quem a proferiu foi Winston Churchill, que, aliás, sabia muito bem publicitar a sua opinião. É como se um jornalista dissesse “Não há justiça na aplicação da lei o que há é arrogância administrativa aplicada”. Frases sem qualquer interesse teórico ou prático e que servem para toldar a argumentação, e cuja legitimação está longe de ser justificada. Mas adiante. O que me parecia essencial, para além da resolução do caso a favor da menina, era esclarecer de uma vez para sempre, quanto tempo é admissível que uma resolução judicial destas possa demorar, quando é que se passa a ter exclusivamente juízes formados em direito de família para analisar estes casos, quando é que o processo de adopção acelera e deixa de ter excessos de proteccionismo de um sistema de segurança social que tem vindo a provar à saciedade que é tudo menos seguro (e não me venham dizer que é o tempo necessário de o sistema garantir a protecção de uma criança, porque eu não acredito, e não tem fundamentação psicológica, legal e filosófica), quando é que a justiça deixa de falar sobranceiramente com o povo que, numa democracia, a financia e a legitima no seu poder, quando é que os directores, do Observatório sobre a adopção, e o do Instituto da Segurança Social, por exemplo, se deixam de conversa mole?

Ontem foi dito que Portugal não é o Brasil em termos de adopção. Portugal não é realmente o Brasil, de quem dão uma má imagem em termos de sistema de adopção, mas também não é os Estados Unidos que tantos gostam de exibir em credenciais noutras matérias. Portugal prefere então ser um país onde morrem crianças nas mãos de progenitores cruéis, e é um país com muitas crianças institucionalizadas, com uma lista imensa de pais desejosos de adoptar, com leis disfuncionais, e com muitos juízes a dormir descansados com o bom trabalho que fazem, e é isto que a opinião pública (que existe, como sabe os que estudaram estas coisas) reconhece, e, talvez tomando agora a parte pelo todo, não sei, quer poder evitar. Quer poder intervir, no limite da sua força e no restrito cumprimento da lei, ao invés de se limitar a receber de forma passiva as inúmeras notícias de crianças em risco. Se o faz é porque sente que quem de direito é incompetente para o fazer. E que chegou a hora de o afirmar. Isto é participação cívica. Não gostam? Pois a acção da democracia, como só na teoria se diz que a queremos, incomoda sempre as oligarquias. Sempre assim foi.

Exemplo prático (caso real). Eu conheço, infelizmente, muitos outros casos.

A casou com B. B tem dois filhos de um primeiro casamento já maiores de idade. A e B querem adoptar uma criança e vão a um Centro de Segurança Social, a funcionária comunica-lhes que para iniciarem o processo os filhos de B têm que ser chamados e declarar o seu consentimento. Mas A não quer a interferência dos seus enteados já adultos porque julga que se engravidasse também não lhes ia pedir autorização para ter a criança. Resultado, uma adopção de um casal estável e com imenso carinho e condições materiais para dar a menos, uma criança institucionalizada a mais. O sistema fica feliz porque garantiu a aplicação da lei.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

para pensar o editorial de hoje do JN

Ana & Cravinho

"tu vês avançar para ti a literatura"

Ziguezagueando entre a morte, a lei e o ego.

Num mês da minha vida trabalhei um mês na Biblioteca Nacional. Foi durante umas férias universitárias, num programa de ATL para jovens que então era promovido pelos governos da época. O dinheiro ia inteirinho para ajudar a pagar o meu bilhete de InterRail desse ano, e o lugar de trabalho era o meu preferido.
Estava um dia muito quente de entre o fim de primavera e o princípio de verão. No primeiro dia de trabalho levei um vestido cor-de-rosa. Tal qual. Recordo-me, claro, pois deve ter sido a áurea que aquela cor me dava que convenceu a senhora que ficava responsável pelo meu trabalho, pois quando ela chegou ao pé de mim fez um ar de agrado e disse-me que eu podia ficar no serviço de atendimento ao público. Quem gosta de vestir um vestido cor-de-rosa não se ofende com esta atribuição de prendas.
Qual ganso deslizei como um cisne, e, sentindo-me mimosa, planei até à minha secretária, sita na intimidante sala de consulta geral. Ao tempo só havia meia dúzia de computadores que obrigavam a uma consulta em pé. A informatização da biblioteca estava a começar e as pesquisas faziam-se então com base no arquivo de fichas e por consulta manual, sistema que ainda hoje se mantém apesar da crescente informatização. A mim competia-me aprender a interpretar os códigos das fichas de consulta, ajudar os leitores nas suas buscas e verificar a correcção dos dados nas fichas preenchidas pelas pessoas antes destas ingressarem na sala de leitura. As coisas, simples coisas, devem ter corrido bem porque nunca mais vi a minha chefe, e em poucos dias os meus colegas de secretária já me deixavam sozinha na sala. E aí eu pairava, qual soberana, nesse mundo de informação, de prestação de informação, de troca de informação. Um mundo perfeito.

Dos muitos episódios que aqui poderia contar, destaco um, hoje, em memória de.
Um dia, pela hora do almoço, uma senhora ao passar pelo nosso lugar parou um pouco para conversar com a minha colega. Eu levantei os olhos e vi-a. Nesse tempo lia poesia como quem come. E conhecia a sua obra porque a minha amiga de adolescência, a Cláudia, a minha grande referência para livros e autores, ma indicara como uma poetisa das maiores. Embasbacada fiquei. A senhora trocou comigo um olhar fugaz e sorriu-me levemente. Lembro-me de uma voz e de uma presença muito suaves. Mas nunca mais a voltei a ver.
Perguntei à minha colega, ainda sob o efeito hipnótico da sua presença: “Era a poetisa Hasse Pais Brandão, não era?” Era. Ó sensação de glória.

“Tu vês avançar para ti a literatura,
a resfolegar e a chiar.
Sabes vencer o monstro que te exalta.
Viste como se enrosca o Leviathan.

Mas conheces o hipogrifo, a ave Zizith
e o unicórnio? Este é benigno
e simboliza através do Conhecimento
a Criação. Portanto vê, exegeta,

que ao lado do Autor o chifre
luminoso corta o ar e a Via.
Ambos vêm com os livros e também
todas as figuras e pensamentos

alheios que em trânsito
atravessaram pelo meio de si o Autor.
Exegeta, o que tu viste,
com o teu único olho ciclópico,

é um paralelepípedo onde
a voz ou o silêncio da voz
adquiriram uma figura sólida.”
Fiama Hasse Pais Brandão, Obra Breve

Tell Bush: Darfur MUST Be a Top Priority


"Tell Bush: Darfur MUST Be a Top Priority
Please urge President Bush to make ending the crisis in Darfur a main point in his State of the Union address on Tuesday, January 23rd and one of his top priorities in 2007.There is no time to waste! President Bush must act NOW to prevent infamous Sudanese President Bashir from seizing control of the African Union.Fill out the fields below to add your name to send your urgent message to the President. "


Organização Save Darfur

domingo, janeiro 21, 2007

ziguezagueando1

Ziguezagueando entre a morte, a lei e o ego.



Cabelos pretos, grandes olhos castanhos, numa pele muito clara. Respondi eu à pergunta sobre como era Fiama Hasse Pais Brandão, ontem quando evocávamos a poetisa no dia da sua morte. “Não”, respondeu o professor Campos, “Cabelo preto, pele muito morena.”

ziguezagueando 2

Ziguezagueando entre a morte, a lei e o ego.



A lei nasce na vontade escrita do poder, ou na interpretação e aplicação de uma autoridade na escrita?

Esta discussão terá que ser muito bem respondida, e um modelo de responsabilização admitido, para que o lodaçal legal não se transforme em pântano social. Mas como encontrar espaço para pensar a prática e a teoria nesta exibição de produção de leis em catadupa que impõe uma certa ideia de realidade sem se conhecer a realidade, como tem sido prática histórica?

Já aqui escrevi algumas vezes sobre o continuado mastodôntico processo de adopção. Como se entre a ideia do interesse das crianças e o real interesse das crianças houvesse um muro de indiferença. Como é que os ilustres defensores da campanha pelo "não" à despenalização do aborto não estendem também a sua influência, poder e vontade, na defesa de uma lei de adopção mais célere, mais a pensar numa família que numa instituição?

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Admirável mundo da internet - site da musicovery e o Google answers

O meu amigo Fernando enviou-me este link de uma Webradio interactiva verdadeiramente incrível. Uma forma nova de ouvir música na rádio (por temas, estilos ou temperamento). Estou encantada. E a ouvir o concerto nº 1 para violino de Beethoven enquanto aqui escrevo.

Outro site que descobri no princípio da semana enquanto navegava na internet foi o o da Google answers. Uma ideia de sociedade como eu a entendo e defendo. Vinte e quatro horas de disponibilidade para nos perguntarmos o que quisermos, ou soubermos, com vinte e quatro horas de disponibilidade de vermos alguém responder-nos ou respondermos a alguém sobre um assunto que se domine. Infelizmente hoje soube que o serviço já não está aceitar questões. Fiquei desolada, porque ainda há poucos dias me fascinava a ver a frequência com que eram introduzidas questões pertinentes por pessoas de todo o mundo em cada segundo que passava. Bom, ficamos com os registos divididos por temas e a aguardar que o Google não desista da ideia.


Vou continuar a ouvir mais música. Agora passou à voz de Mahalia Jackson com o "What Then" que nunca eu tinha ouvido. Ena. E, já de seguida, David Bowie com o meu amado "Fill your heart".