A igualdade política não poderá corresponder nunca a uma igualdade económica numa democracia com uma economia concorrencial. E que isso não obste à vontade de desempenho e de crescimento económico de qualquer indivíduo. Mas permanecem duas questões em aberto: o facto de a desigualdade económica ser promovida pelo mesmo sistema que defende a igualdade política e que para a manutenção desse sistema socorre-se dos agentes, ou seus afiliados, mais influentes no mesmo e que evoluem em circuito fechado de colocação política em colocação no sistema económico e vice versa (o que transforma a democracia numa oligarquia e num nepotismo); o facto de ser o erário público a suportar um nível de vida privado que não corresponde a critério nenhum de efectiva retribuição em trabalho para o público legitimamente avaliado, contra a expectativa geral fomentada pele espírito democrático da colocação dos seus servidores por concurso público em regime de avaliação contínua, e contra a expectativa de que o mérito, mais do que a filiação e/ou o nome de família, servirá como único critério de selecção.
Junte-se a tudo isto a impossibilidade que os cidadãos têm de se defender através da mudança da sua intenção voto, porque os partidos na oposição e com reais hipóteses de virem a governar estão também eles presos neste sistema de nomeação que procuram reservar para os seus quadros, o que faz com que poucas garantias se tenham de que haverá ao nível partidário uma resposta para esta situação percepcionada como injusta e incompassível, e compreender-se-á o desânimo de quem acha que em Portugal é praticamente impossível quebrar o ciclo do amigo nomeia amigo que nomeia amigo. Do amigo que favorece amigo que favorece amigo, uma prática institucionalizada como normal em democracia. Bom, e se calhar até é. Numa determinada concepção de democracia que poderá bem ser a nossa.
“Dans la cite démocratique, les citoyens les plus pauvres sont pris en considération, courtisés, flattés en permanence par les grands personnages que briguent leur soutien ; la célébration des vertus du citoyen est une figure rhétorique obligée. L´estime du peuple qu`il convient d`afficher, le sentiment élitiste de supériorité qu`il est nécessaire de masquer, tout ceci tranche avec la condescendance ou le mépris nourris par les catégories dirigeants, dans le systèmes politiques de type oligarchique ou féodal. », Philippe Braud, p. 30




