segunda-feira, março 05, 2007
Identidade 3
Pessoas há que nunca se teriam consciencializado dos seus direitos e deveres civis e políticos se nunca tivessem ouvido ouvido falar de democracia?
sábado, março 03, 2007
Identidade 2
Vou buscar o livro de Roland Barthes e nele ando para trás e para a frente, folheando-o, à procura da citação certa para um pensamento que sei de cor, mas que há muitos anos não releio. Canso-me de procurar e deixo-me ficar a ler um ou outro capítulo. Já me parece que passou um século entre o tempo de o ter lido pela primeira vez e o tempo presente.
Levei muito tempo agora, o que me desconcentrou para tudo o mais senão para o que nele tivesse escrito. Sinto a vertigem de falar como ele fala. Agora já não sei sobre o que queria escrever. Leio Barthes e faço um esforço para pensar no que tinha pensado quando abri o livro à procura da frase. Recito arduamente: Ora bem, se eu substituir a palavra “apaixonado” na frase de La Rouchefoucauld pela palavra patriotismo, ou defesa da democracia, ou proclamação da Declaração dos direitos humanos, por exemplo, estarei ao mesmo nível de significação mitológica?
Mas já não consigo argumentar mais.
La Rochefoucauld: “Pessoas há que nunca se teriam apaixonado se nunca tivessem ouvido falar de amor” (máxima 36),
em Roland Barthes, Fragmentos de um Discurso Amoroso, trad. Isabel Pascoal, Lisboa, Ed. 70, p. 175
La Rochefoucauld: “Pessoas há que nunca se teriam apaixonado se nunca tivessem ouvido falar de amor” (máxima 36),
em Roland Barthes, Fragmentos de um Discurso Amoroso, trad. Isabel Pascoal, Lisboa, Ed. 70, p. 175
sexta-feira, março 02, 2007
Não percebi nada sobre esta questão da OPA. Há um ano não se lançavam todos os foguetes sobre a iniciativa da SONAE para que já este ano andasse toda a gente a mandar apanhá-la as canas? É que isto de festas privadas sem dinheiros públicos nem toda a gente as sabe fazer. Sabem é mandar os outros fazê-las, sobretudo se isso implicar a "flexibilização" das leis do trabalho, que é como quem diz, despedir, sobretudo esses outros que são sempre os dispensáveis em qualquer reestruturação, que nós, os administradores desta telefónica pública, ditos liberais quando isso nos mais aprouver, somos para continuar nos nossos lugarzinhos, ou lá somos o quê, do povo, não? Disseram alto e o baile parou. O baile pára sempre, logo que os músicos o queiram. Uma questão de dinheiro, dizem-me.
A minha prima Salomé, que é a pessoa mais informada sobre política nacional de todas as que conheço, telefonou-me a perguntar o que pensava eu da declaração de Paulo Portas a anunciar a sua candidatura. Não pensava nada porque não a tinha ouvido. Só consegui dizer-lhe: "Mas porque carga de água é que uma das pessoas intelectualmente mais estimulantes de entre as figuras públicas, e que escreve exemplarmente bem, com artigos do que há de melhor, como comprovam as suas crónicas sobre cinema no jornal "Sol", e dando o desconto de uma certa queda para uma ou outra politiquice, para a qual não tenho paciência, quer afinal ser político profissional à força? Que sensaboria." Declaração mais antidemocrática que é esta minha.
quinta-feira, março 01, 2007
Identidade 1

John Tenniel, Ilustração
A criação da identidade é sempre colectiva. Di-lo a sociologia contemporânea. Parece estranho que aquilo que seja mais singular de cada um o seja em combinação com a pluralidade. Estranho e por vezes perturbador, sobretudo se eu nego em mim aquilo de que não gosto em qualquer outro, ou se eu nego sequer admitir a contribuição da ideia que o outro tem de mim na construção da minha identidade. É neste sentido que procuramos muitas vezes ter sempre a última palavra, para evitar a caracterização de outrem que não nos diz de todo, ou assim o pensamos. Ou, num exemplo mais intelectual, é o tipo de exercício que o filósofo Richard Rorty diz ter sido conduzido pelo meu bem amado Proust. O que terá feito Proust? Escrito um romance que pusesse um ponto final no que fosse ser dito dele depois dele, ou apesar dele. Uma ilusão, como o prova as muitas biografias sobre ele aí existentes, ou não, porque apesar de tudo o que se sabe, sabe-se a partir da leitura da obra, fonte primeira de toda a informação?
A descrição que satisfaz a um sujeito requer o quê? O discurso de um apaixonado? De um amigo? O que suporta ele de lucidez e de análise, por contraposição ao discurso evocativo e exortativo das características da sua personalidade? O que estamos dispostos a ouvir, ou a não ouvir? Que mentiras dizem os outros sobre nós ou nós sobre eles, e como isso afecta a nossa identidade, e que verdade admitiremos como a verdade? Seremos transmudados pelas nossas auto-narrativas e pela dos outros? Eu penso que sim. E a nível colectivo também?
A descrição que satisfaz a um sujeito requer o quê? O discurso de um apaixonado? De um amigo? O que suporta ele de lucidez e de análise, por contraposição ao discurso evocativo e exortativo das características da sua personalidade? O que estamos dispostos a ouvir, ou a não ouvir? Que mentiras dizem os outros sobre nós ou nós sobre eles, e como isso afecta a nossa identidade, e que verdade admitiremos como a verdade? Seremos transmudados pelas nossas auto-narrativas e pela dos outros? Eu penso que sim. E a nível colectivo também?
quarta-feira, fevereiro 28, 2007
"As madrugadas já não são o que eram" por Teresa Marques
Ilustração de John Tenniel para o livro Alice no País das MaravilhasDa minha amiga Teresa Marques. Eu não poderia ter escrito nada melhor, daí ter retirado o texto da forma "comentário" e tê-lo posto aqui em destaque.
"E porque a nossa História é rica em referências aproveito para começar por citar Antero de Quental, in 'Prosas da Época de Coimbra':“Um dos piores sintomas de desorganização social, que num povo livre se pode manifestar, é a indiferença da parte dos governados para o que diz respeito aos homens e às cousas do governo, porque, num povo livre, esses homens e essas cousas são os símbolos da actividade, das energias, da vida social, são os depositários da vontade e da soberania nacional. Que um povo de escravos folgue indiferente ou durma o sono solto enquanto em cima se forjam as algemas servis, enquanto sobre o seu mesmo peito, como em bigorna insensível se bate a espada que lho há-de trespassar, é triste, mas compreende-se porque esse sono é o da abjecção e da ignomínia. Mas quando é livre esse povo, quando a paz lhe é ainda convalescença para as feridas ganhadas em defesa dessa liberdade, quando começa a ter consciência de si e da sua soberania... que então, como tomado de vertigem, desvie os olhos do norte que tanto lhe custara a avistar e deixe correr indiferente a sabor do vento e da onda o navio que tanto risco lhe dera a lançar do porto; para esse povo é como de morte este sintoma, porque é o olvido da ideia que há pouco ainda lhe custara tanto suor tinto com tanto sangue, porque é renegar da bandeira da sua fé, porque é uma nação apóstata da religião das nações - a liberdade!” - Pois que adormecido este povo permanece nas memórias de outros tempos é legítimo perguntarmo-nos: Será a democracia sinónimo de aceitar que as vontades de pseudo-maiorias nos obriguem a fazer parte de uma amálgama de figurantes que assiste impávida e serena ao desenrolar da trama que nos rege? E que, absurdamente, vibra com a acção esfusiante e fantástica desses actores eleitos sob as luzes da ribalta? Pois que nos teremos de questionar seriamente sobre que figurante seremos, somos ou gostaríamos de não ser!
Mas, e porque a noite urge e as madrugadas já não são o que eram, relembro Aldous Huxley, in “Sobre a Democracia e Outros Estudos”:“Os defeitos da democracia política como sistema de governo são tão óbvios, e têm sido tantas vezes catalogados, que não preciso mais do que resumi-los aqui. A democracia política foi criticada porque conduz à ineficiência e fraqueza de direcção, porque permite aos homens menos desejáveis obter o poder, porque fomenta a corrupção. A ineficiência e fraqueza da democracia política tornam-se mais aparentes nos momentos de crise, quando é preciso tomar e cumprir decisões rapidamente. Averiguar e registar os desejos de muitos milhões de eleitores em poucas horas é uma impossibilidade física. Segue-se, portanto, que, numa crise, uma de duas coisas tem de acontecer: Ou os governantes decidem apresentar o facto consumado da sua decisão aos eleitores - em cujo caso todo o princípio da democracia política terá sido tratado com o desprezo que em circunstâncias críticas ela merece; ou então o povo é consultado e perde-se tempo, frequentemente, com consequências fatais.
Durante a guerra todos os beligerantes adoptaram o primeiro caminho. A democracia política foi em toda a parte temporariamente abolida. Um sistema de governo que necessita ser abolido todas as vezes que surge um perigo, dificilmente se pode descrever como um sistema perfeito.”
Pois que estamos encurralados! Resta-nos a esperança na “missão do chamado «intelectual» que é, de certo modo, oposta à do político. A obra intelectual aspira, frequentemente em vão, a aclarar um pouco as coisas, enquanto a do político só, pelo contrário, consistir em confundi-las mais do que já estavam. Ser da esquerda é, como ser da direita, uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser um imbecil: ambas, com efeito, são formas da hemiplegia moral” (Ortega y Gasset, in 'A Rebelião das Massas')
E para terminar à boa maneira infantil:-Podes dizer-me, por favor, que caminho devo seguir para sair daqui?-Isso depende muito de para onde queres ir - respondeu o gato.-Preocupa-me pouco aonde ir - disse Alice.-Nesse caso, pouco importa o caminho que sigas - replicou o gato.(Lewis Carroll -Alice no País das Maravilhas).
Teresa Marques
terça-feira, fevereiro 27, 2007
A “ética da responsabilidade” e a “ética das consequências”
Ao fazer uma distinção clara entre estas duas esferas normativas da acção humana, a ética e a política, Max Weber contribuiu para dar razão aos que atacam o exercício da democracia como mais um sistema que se prende com uma luta e imposição de interesses dos que visam pragmaticamente atingir o poder, ainda que em nome dos seus concidadãos. Na linha de raciocínio de Weber, o homem de acção, o político, teria então que procurar evitar a fidelidade a princípios, como se entende ser a tradução de uma vivência ética ao nível de uma ética de responsabilidade, e prosseguir no plano da ética da responsabilidade, e isto se quiser atingir e/ou manter o poder. Assumir as consequências dos próprios actos mas sem recorrer a critérios definidos por princípio e segundo os seus princípios que os responsabilize, como? E se as decisões a tomar forem claramente não éticas? Bastará assumir as suas consequências e, dizendo-o, pôr em acção a sua decisão e ficar assim moralmente ilibado? E as consequências na vida dos outros, passa a ser responsabilidade de quem? Max Weber não defende este comportamento, em absoluto. Apesar de tudo ele reconhece ao político a possibilidade, e a honestidade, de se demitir no caso de ter que decidir de forma contrária aos princípios éticos por si defendidos, mas, ao permitir essa separação, vulgarizou, e legitimou, com a sua autoridade teórica, a ideia de que há princípios puros de regulação de uma acção ideal que, por não serem passíveis de actualização prática, devem ser considerados de forma diferente dos da acção prática. A separação radical destas duas esferas é injustificável.
Se por um lado com isto se procura evitar o deslumbramento messiânico de uma figurinha que queira impor os “seus” firmes princípios a quem quer que seja, porque esses são a verdade, e reclamando para avaliação da acção política o critério da assumpção das consequências pela decisão, por outro lado também os deixa sem critérios para ajuizar sobre as consequências dos seus actos. Quais são os limites? Quem os define? E como fazer a representação dos princípios? E não terá que se responsabilizar pelos mesmos?
Se por um lado com isto se procura evitar o deslumbramento messiânico de uma figurinha que queira impor os “seus” firmes princípios a quem quer que seja, porque esses são a verdade, e reclamando para avaliação da acção política o critério da assumpção das consequências pela decisão, por outro lado também os deixa sem critérios para ajuizar sobre as consequências dos seus actos. Quais são os limites? Quem os define? E como fazer a representação dos princípios? E não terá que se responsabilizar pelos mesmos?
Sir Edward Burne-Jones (1833-1898) "O espelho de Vénus"Posso ser Ministro da Justiça e manipular números de sucesso administrativo? E ser Ministra da Educação e manipular números de sucesso escolar que escondem a verdade de um sistema que já nem sabe como ensinar o que quer que seja a alguém? Posso?
E posso ser autarca e cometer ilegalidadas que, desde que sancionada/o pela vontade popular, nada me impedirá de concorrer e de arranjar expedientes para continuar a concorrer a eleições tantas quanto eu quiser? Posso?
Numa sociedade que não pede responsabilidade e com um grupo de políticos que não pesam as consequências, pode-se.
Weber, diria eu, podia pragmaticamente assumir a legitimidade dessas atitudes já que, podia ele defender, as consequências far-se-iam chegar na hora de voltarmos a querer ser eleitos como governantes. E, em democracia, é assim que deve ser. Há o tempo para governar, para fazer campanha e para ser eleito. Mas a sensação por parte do público de que existe um ciclo de impunidade e de irresponsabilidade que nenhuma derrota eleitoral corrigirá (na realidade até parece que quanto mais depressa se sair do governo de Portugal mais depressa se tem um lugar de poder internacional e ou de administração em alguma empresa estrangeira), não deixará em aberto uma tentação para o radicalismo que uma defesa intransigente por uma ética dos princípios tomados como absolutos poderá esconder, só porque a ética das consequências a que nenhuma responsabilidade parece dar resposta, anda irresponsavelmente longe das acções da nossa sociedade política?
Max Weber, "A política como vocação" in Três tipos de Poder e Outros Escritos, trad. A. Morão, Lisboa, Tribuna, 2005:63-115.
segunda-feira, fevereiro 26, 2007
Oui, c`est moi
A tentação de narciso e a precipitação de Orfeu. Ou nada disto e é uma simples entrevista que João Ferreira Dias do blogue Kontrastes teve a a gentileza de me requerer e de a publicar agora. Mania a minha de fazer malabarismos. Irra.
domingo, fevereiro 25, 2007
Ramires e a democracia dos outros, que nós por cá todos bem e recomendamo-nos, pois.

Bruno Logan Flou artistique aux cerises
Daquele telefonema de além-mar retive o seguinte: “Estou preocupada com o discurso do presidente e mais preocupada ainda com as acções que ele tem vindo a incentivar e que assentam no lema, para funcionário público aprender: “Quem não está comigo, está contra mim.” Tu sabes da minha simpatia pelas ideias da pessoa no início, agora começo a suspeitar que está a levar o país numa viagem para trás no tempo político.
Sim, chegam-nos cá notícias – respondi-lhe, contida. Acrescentando: -Parece-me que vai alterar a Constituição para ficar eternamente no poder, não é?
Sim, chegam-nos cá notícias – respondi-lhe, contida. Acrescentando: -Parece-me que vai alterar a Constituição para ficar eternamente no poder, não é?
Não - respondeu depressa - Só fica no poder se o elegerem. Vai alterar a constituição para se poder candidatar ciclicamente, mas só assumirá o poder se for eleito – Tentou ainda defender com um resto de racionalidade a acção do seu governante.
E então eu recordei-lhe a história das eleições "livres e democráticas" do Estado Novo. Depois seguiu-se um silêncio incómodo. Quando desliguei pensei em qual seria a cadeira, e em que tempo, que tomaria o lugar de servir de oposição democrática àquele governante. Ou qual seria a maturidade daquele povo e o seu tempo de o manifestar.
Devia ter-lhe falado nas cerejas bêbedas que tinha acabado de comer na “Ilustre Casa de Ramiro”, sempre amenizava as previsões e recordava a sua paixão de viver.
Ah, e se o lugar se chamasse a "Ilustre Casa de Ramires", então... é que era, a cerejinha convidaria a dissertação farta.
E então eu recordei-lhe a história das eleições "livres e democráticas" do Estado Novo. Depois seguiu-se um silêncio incómodo. Quando desliguei pensei em qual seria a cadeira, e em que tempo, que tomaria o lugar de servir de oposição democrática àquele governante. Ou qual seria a maturidade daquele povo e o seu tempo de o manifestar.
Devia ter-lhe falado nas cerejas bêbedas que tinha acabado de comer na “Ilustre Casa de Ramiro”, sempre amenizava as previsões e recordava a sua paixão de viver.
Ah, e se o lugar se chamasse a "Ilustre Casa de Ramires", então... é que era, a cerejinha convidaria a dissertação farta.
sábado, fevereiro 24, 2007
24
Há dias que nos aconchegam e dão um grande abraço. Este é um deles. É um número que se me enrola e me solta.
igualdade em liberdade
Esta questão da igualdade. Nunca compreendi os detractores deste valor. Nem nunca compreendi porque há-de este valor entrar em conflito com esse outro da liberdade. Mas eu, tendo uma matriz de pensamento europeia, talvez possa compreender melhor essa conciliação e ver assim com mais facilidade como o argumento dos que identificam a igualdade com uniformidade é falacioso. Esta não é reversível naquela, e criticar a uniformidade não equivale a atacar a igualdade. Todavia, John Rawls, que viveu num país de grandes desigualdades sociais e que privilegia normativamente a liberdade como valor supremo para a acção humana, procurou rejeitar ao mesmo tempo uma imposição do valor de igualdade como objectivo político autoritário, mas também procurou rejeitar o valor da liberdade dos mais favorecidos explorarem aqueles que o são menos do ponto de vista económico, tendo como fim a eficácia económica. Uma tentativa de solucionar o problema da coexistência social destes valores.
A igualdade manifestar-se-ia no “princípio de igualdade de oportunidades” no sentido de criar uma maior justiça social, e, obviamente, segundo um “princípio de igual liberdade”. Se quanto a esta as questões, mais políticas, têm sido conduzidas a bom porto nas sociedades ocidentais, ainda que às vezes haja reservas, como no caso da liberdade de imprensa em Estado de guerra declarada, por exemplo, quanto ao primeiro, que mexe com o dinheirinho, é que as teorias e as práticas têm sofrido grandes ajustamentos e reformulações, pois caberá sempre perguntar pelos critérios do que se entende por igualdade de oportunidades, e como é que precisamente se pode proceder justamente à aplicação de uma política que faça todos os cidadãos beneficiarem igualmente das oportunidades, redistribuindo-as segundo as necessidades. Mas como definir o que é e como se deve fazer essa redistribuição? E como definir o que é equitativo sem cair no autoritarismo de regime?
Se me perguntar a mim mesma se acho que os ricos devem ajudar os pobres, eu respondo que os ricos não devem explorar os pobres. É uma atitude diferente, totalmente diferente.
A história dos sapatos de pele de porco.
Um tio, que não era meu mas podia bem sê-lo, sentou-se a meu lado. Contou-me histórias do Sul, de durante a guerra. A minha ascendência é beirã e do oeste ribatejano, tenho uma memória familiar diferente, porque diferente é a distribuição das terras nestas regiões. A pobreza não era tão avassaladoramente pobre como terá sido mais a sul, de cidadãos sem terras para subsistência, porque região de grandes concentrações de propriedades. O tio contou-me então que calçou os primeiros sapatos aos catorze anos, eram uns soberbos sapatos feitos pelo irmão, já mestre sapateiro, que tinha pedido uns restos de pele de porco para lhos confeccionar. Catita, só os tirava dos pés para dormir…o pior era no Verão, confidenciou-me, é que não havia nem cão nem gato lá na cidade que não lhe andasse ao encalço dos pés. O que nos rimos com a fantástica história. E desta vez nem sequer vou acrescentar nenhuma moral.
Se me perguntar a mim mesma se acho que os ricos devem ajudar os pobres, eu respondo que os ricos não devem explorar os pobres. É uma atitude diferente, totalmente diferente.
A história dos sapatos de pele de porco.
Um tio, que não era meu mas podia bem sê-lo, sentou-se a meu lado. Contou-me histórias do Sul, de durante a guerra. A minha ascendência é beirã e do oeste ribatejano, tenho uma memória familiar diferente, porque diferente é a distribuição das terras nestas regiões. A pobreza não era tão avassaladoramente pobre como terá sido mais a sul, de cidadãos sem terras para subsistência, porque região de grandes concentrações de propriedades. O tio contou-me então que calçou os primeiros sapatos aos catorze anos, eram uns soberbos sapatos feitos pelo irmão, já mestre sapateiro, que tinha pedido uns restos de pele de porco para lhos confeccionar. Catita, só os tirava dos pés para dormir…o pior era no Verão, confidenciou-me, é que não havia nem cão nem gato lá na cidade que não lhe andasse ao encalço dos pés. O que nos rimos com a fantástica história. E desta vez nem sequer vou acrescentar nenhuma moral.
sexta-feira, fevereiro 23, 2007
A EMEL e as suas trapalhadas
Quem quiser tratar de assuntos com a EMEL (Empresa Pública Municipal de Estacionamento em Lisboa), e consultar o seu site na internet, fica a saber apenas a morada da Loja do Munícipe e as horas de atendimento. Do mal o menos se a informação estivesse correcta, sendo certo que a página não permite obter quaisquer outras informaçães porque todos os links dão a indicação que estão "em actualização". Ora dirigindo-se o munícipe à morada ali indicada depara com um papel na porta avisando que os serviços mudaram para a Rua Pinheiro Chagas, numa loja que se chama "Ponto Verde". Distante o bastante da indicada Rua dos Douradores ao Rossio que é a morada que consta da informação on line. Chegados finalmente ao seu destino, e apresentada a devida reclamação, ficam os munícipes a saber que há um diferendo legal entre a empresa que criou o site e a EMEL, o que faz com que aquele se mantenha on line apesar de estar a dar indicações falsas. E para quem não vive nos bairros históricos da cidade a história acaba aqui.
Mas para os que lá vivem... um número sem fim de munícipes protesta pela confusão gerada ao nível das informações informáticas relativas à listagem dos automóveis aos quais é permitida a entrada nas ruas residenciais dos ditos bairros. Do Castelo ao Bairro Alto há um número crescente de munícipes que vêm a sua entrada no bairro ser impedida por manifesta ausência de informação actualizada. As pessoas saturadas protestam, dizem que têm os papéis todos em ordem, apresentam as respectivas licenças, e os serviços desculpam-se com a confusão gerada pelo tratamento informático dos dados. Mais uma face do poder camarário de Lisboa a mostrar a sua falta de profissionalismo. Mais pessoas a dizerem que mais vale ir morar para fora da cidade. Pois.
quinta-feira, fevereiro 22, 2007
Pragmatismo político
Estava aqui a pensar nas reacções ao documento entregue pelo MUNAF (Movimento de Unidade Nacional Antifascista) junto da Assembleia Geral das Nações Unidas a 8 de Dezembro de 1948, intitulado “Portugal e a ONU”. Na altura, a imprensa mais afecta ao regime do Estado Novo caustica o documento pelo seu carácter antipatriótico (argumento pífio do ponto de vista racional mas que emocionalmente deve ter deixado a sua mossa, não sei) e por nem sequer estar assinado. Pudera... Ironiza-se, na dita imprensa, com o tipo de apoio procurado, e encontrado, junto de países representados nas Nações Unidas e que impedissem a entrada de Portugal, evocando-se para o efeito o carácter ditatorial do nosso regime. Na realidade esse apoio foi dado pela união Soviética que vetou a entrada de Portugal na Organização.
Penso nos autores do documento e na sua vitória, que lhes deve ter dado um sabor amargo na boca, pois se realmente eram opositores de governos ditatoriais o que não lhes deve ter constrangido estar em semelhante companhia. Deve ser o tipo de situação de se estar entre a espada e a parede. Do ponto de vista pragmático a vitória assim conseguida contra o Estado Novo foi importantíssima, o governo sofreu uma derrota pesada no plano internacional, mas do ponto de vista da justificação da sua acção, o facto de a União Soviética estar a apoiar as suas exigências não lhes deve ter dado muito descanso.
Mas que diabo… estávamos entre nações democráticas, a pedir-lhes a sua atenção e apoio para pressionarem o nosso Estado, e todas elas aceitavam o nosso regime fascista, caucionando-o, nessa votação? E depois há uma nação que de democrática nem tinha sequer o nome e que apoia as alegações da oposição portuguesa? Não há aqui nenhuma contradição?
Bom, mas também de vitórias morais está a teoria cheia. Ou talvez não.
Quatro anos de conflitos no Darfur. Já faz quatro anos.

"This month marks the fourth anniversary of the start of the horrific violence in Darfur. Hundreds of thousands of innocent Darfurians have lost their lives, and millions more have been displaced from their homes.
Four years is far too long -- it is time to put a stop to this genocide."
Four years is far too long -- it is time to put a stop to this genocide."
David Rubenstein
quarta-feira, fevereiro 21, 2007
Morrer por ideias ou…por pessoas
Ah, pois, porque quem não está preparado para morrer pelos seus ideais, não lhes dá o devido apreço, não os assume intransigentemente contra os seus inimigos. Como? Morrer por ideais? Quais? Sim, a liberdade, sim a justiça, sim a igualdade dos cidadãos perante a lei, sim à equidade, sim à solidariedade, sim a isto tudo e não a morrer por nenhum deles. Era o que mais me faltava. Mas custa-me um bocadinho admiti-lo, a réptil parte de mim está a fazer um esforço para não concordar com o facto de que há sim ideias pelos quais se deve morrer. É a parte panfletária do meu cérebro, figurada pela padeira com a pá alçada e pelo salivar de ratito de Hamelin sempre que ouve uma fanfarra militar.
Se eu vivesse numa sociedade militarizada ou doutrinada para combater com a morte tudo o que não fosse a vida que eu entendesse que era a verdadeira vida, admitiria esta luta, mais, consagrá-la-ia como a heróica humana forma de vida, ou continuaria a pensar que não era esse de todo o meio que me permitiria o fim almejado? Em democracia admitir a morte por ideais é o equivalente a um suicídio cívico. É sacrificar à liberdade com sangue. Mas que raio de liberdade é esta que se conquista com sangue? Sim, bom, mas o que fazer com os inimigos que nem sequer pressupõem outra forma de defender os seus próprios ideais a não ser pela imolação da sua própria vida? Que desprezam qualquer outra forma de dirimir o conflito de valores ou de formas de vida? Não se deve combater pela liberdade contra os seus inimigos? Eu não conheço outra resposta que não seja a que diz que existem pensadores, que existem políticos, que existem diplomatas, que existem leis e tribunais internacionais, que existem forças regulares de segurança e nenhuma destas ordens que garante um Estado de direito deve poder evocar a necessidade da consagração da vida dos seus cidadãos.
Se eu vivesse numa sociedade militarizada ou doutrinada para combater com a morte tudo o que não fosse a vida que eu entendesse que era a verdadeira vida, admitiria esta luta, mais, consagrá-la-ia como a heróica humana forma de vida, ou continuaria a pensar que não era esse de todo o meio que me permitiria o fim almejado? Em democracia admitir a morte por ideais é o equivalente a um suicídio cívico. É sacrificar à liberdade com sangue. Mas que raio de liberdade é esta que se conquista com sangue? Sim, bom, mas o que fazer com os inimigos que nem sequer pressupõem outra forma de defender os seus próprios ideais a não ser pela imolação da sua própria vida? Que desprezam qualquer outra forma de dirimir o conflito de valores ou de formas de vida? Não se deve combater pela liberdade contra os seus inimigos? Eu não conheço outra resposta que não seja a que diz que existem pensadores, que existem políticos, que existem diplomatas, que existem leis e tribunais internacionais, que existem forças regulares de segurança e nenhuma destas ordens que garante um Estado de direito deve poder evocar a necessidade da consagração da vida dos seus cidadãos.
Na realidade conhecer até conheço outra resposta mas pôs-lhe açaimo e conto-lhe histórias de algumas revoluções, ou de algumas intervenções armadas no mundo em nome dos direitos consagrados no espírito das democracias, até que a resposta aprenda e se transforme numa pergunta. Esse não é um dever de cidadania, o dever é fazer um esforço e raciocinar e argumentar. E quando já não conseguirmos mais? Sermos substituídos por quem o saiba fazer melhor que nós.
segunda-feira, fevereiro 19, 2007
Por cima de mim um céu cheio de estrelas
Mais do que evocar um imperativo categórico que se impõe pela razão para controlar a vontade numa tentativa de neutralizar os interesses individuais em nome do interesse geral, a filosofia ética contemporânea procura justificar em primeiro lugar a possibilidade em continuar a defender pressupostos universais a regular a acção humana, assentando na ideia de que é possível compreender que há na humanidade um estado que é partilhável por todos e cada um: 1. A vontade de comunicar entre si regulada por critérios intrínsecos à própria natureza dessa comunicação que permite a visualização dessa realização discursiva em acção de mútua compreensão, e depois vai por aí fora com a defesa de critérios universais de regulação; 2. Ou pela evocação de uma experiência mental passível de ser realizada por todos os indivíduos, em que estes se aprenderiam a saber-se colocar no lugar da neutralização dos seus interesses privados e legislaria da melhor forma possível para todos os cidadãos. À excepção das filosofias que o negam de todo, numa linha de interpretação nietzscheana da evocação de princípios morais como princípios de poder dos dirigentes do momento, ou das teoria analíticas da linguagem, as outras filosofias orbitam à roda destas ideias de Apel e Habermas e de Rawls
Mas cada um de nós da humanidade só conhece o rosto daqueles com quem convive. São esses de quem gostamos ou detestamos, ou nem por isso. A doença e a morte atinge milhões de indivíduos por anos, mas eu sou chamada à cabeceira dos que conheço. É a ausência destes, pela sua morte, que perspectiva a ausência dos que eu não conheço. Mas aprendo a partilhar e a ser solidária com a dor de outrem pelas ideias, logo pelo reforço numa educação do comportamento, ou pela analogia que pressinto na nossa co-existência?
Não é no entanto o facto de eu me interessar pela existência dos outros de quem pouco ou nada sei que me faz mais solidária. Eu posso saber tudo sobre a dor de perder alguém e não querer saber que isso aconteça a outrem, ou não me importar em demasia. Posso saber tudo de como ser solidária e não arriscar um milímetro para além da satisfação da minha vontade do momento. Ouço dizerem-me frequentemente: ”Com a dor dos outros posso eu bem.” E porque não, realmente? Porque é isto um absurdo? Não será por uma explicação que excede a do interesse de cada indivíduo saudável que é o de querer tudo para si da forma que lhe for mais conveniente sem olhar ao como e à custa de quem? E onde se justifica uma explicação de aversão por este comportamento? No principio de cooperação entre sujeitos sem a qual não haveria sociedade, logo não haveria eu como identidade? Mas chega-se a esta constatação como? Pela nossa natureza, pela nossa civilização ou pela nossa imaginação?
Se um cidadão comum devia saber responder a si mesmo sobre o que o “faz correr” e porquê, um político nunca deveria exercer nenhum cargo público, ou apresentar nenhuma medida geral, sem saber responder explicitamente, mesmo se só de si para si, ao conjunto de questões que a filosofia ética contemporânea propõe.
De resto…morrer… bom, esperemos que seja ela a chegar-nos pela forma natural, e não por imaginação ou ideia de civilização de alguém. Mesmo assim sobre aquela já há muito a aprender como fazê-lo, quanto mais sobre a que vem por acréscimo da satisfação da vontade de alguém em defender interesses dos quais eu não vislumbre defesa possível no quadro dos direitos e dos deveres cartografados internacionalmente. Sem reservas.
sexta-feira, fevereiro 16, 2007
Diz-me que espírito tens.
Até que ponto a nossa adesão a uma ideia, um movimento ou uma instituição deve ser feita sem reservas? Até que ponto podemos dizer que somos de uma religião ou que partilhamos de um ideário político, ou que escolhemos um regime, sem afirmar isso e o seu contrário quando sentimos que o contrário também existe e explica melhor certos momentos? Será incapacidade de compromisso e de afirmação de identidade ou manifesta paixão pela liberdade de acção e de pensamento? Como saber quais as práticas, porque é mais fácil defender valores, a que concordaríamos sem reservas?
Que dever temos para com as nossas crenças? O de as manter sob revisão constante ou de as defender intransigentemente? Como viver a dialéctica? Com a poesia da entrega em absoluto, com o sentimento da inquietação pelo pressentir das ambivalências ou com o passo atrás dado pelo exercício da argumentação?
Que dever temos para com as nossas crenças? O de as manter sob revisão constante ou de as defender intransigentemente? Como viver a dialéctica? Com a poesia da entrega em absoluto, com o sentimento da inquietação pelo pressentir das ambivalências ou com o passo atrás dado pelo exercício da argumentação?
Os problemas de Lisboa. E que problemas...
Por via do blogue Duas Cidades ficamos a saber da organização destas conferências por Pedro Quartin Graça.
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