segunda-feira, janeiro 22, 2007

"tu vês avançar para ti a literatura"

Ziguezagueando entre a morte, a lei e o ego.

Num mês da minha vida trabalhei um mês na Biblioteca Nacional. Foi durante umas férias universitárias, num programa de ATL para jovens que então era promovido pelos governos da época. O dinheiro ia inteirinho para ajudar a pagar o meu bilhete de InterRail desse ano, e o lugar de trabalho era o meu preferido.
Estava um dia muito quente de entre o fim de primavera e o princípio de verão. No primeiro dia de trabalho levei um vestido cor-de-rosa. Tal qual. Recordo-me, claro, pois deve ter sido a áurea que aquela cor me dava que convenceu a senhora que ficava responsável pelo meu trabalho, pois quando ela chegou ao pé de mim fez um ar de agrado e disse-me que eu podia ficar no serviço de atendimento ao público. Quem gosta de vestir um vestido cor-de-rosa não se ofende com esta atribuição de prendas.
Qual ganso deslizei como um cisne, e, sentindo-me mimosa, planei até à minha secretária, sita na intimidante sala de consulta geral. Ao tempo só havia meia dúzia de computadores que obrigavam a uma consulta em pé. A informatização da biblioteca estava a começar e as pesquisas faziam-se então com base no arquivo de fichas e por consulta manual, sistema que ainda hoje se mantém apesar da crescente informatização. A mim competia-me aprender a interpretar os códigos das fichas de consulta, ajudar os leitores nas suas buscas e verificar a correcção dos dados nas fichas preenchidas pelas pessoas antes destas ingressarem na sala de leitura. As coisas, simples coisas, devem ter corrido bem porque nunca mais vi a minha chefe, e em poucos dias os meus colegas de secretária já me deixavam sozinha na sala. E aí eu pairava, qual soberana, nesse mundo de informação, de prestação de informação, de troca de informação. Um mundo perfeito.

Dos muitos episódios que aqui poderia contar, destaco um, hoje, em memória de.
Um dia, pela hora do almoço, uma senhora ao passar pelo nosso lugar parou um pouco para conversar com a minha colega. Eu levantei os olhos e vi-a. Nesse tempo lia poesia como quem come. E conhecia a sua obra porque a minha amiga de adolescência, a Cláudia, a minha grande referência para livros e autores, ma indicara como uma poetisa das maiores. Embasbacada fiquei. A senhora trocou comigo um olhar fugaz e sorriu-me levemente. Lembro-me de uma voz e de uma presença muito suaves. Mas nunca mais a voltei a ver.
Perguntei à minha colega, ainda sob o efeito hipnótico da sua presença: “Era a poetisa Hasse Pais Brandão, não era?” Era. Ó sensação de glória.

“Tu vês avançar para ti a literatura,
a resfolegar e a chiar.
Sabes vencer o monstro que te exalta.
Viste como se enrosca o Leviathan.

Mas conheces o hipogrifo, a ave Zizith
e o unicórnio? Este é benigno
e simboliza através do Conhecimento
a Criação. Portanto vê, exegeta,

que ao lado do Autor o chifre
luminoso corta o ar e a Via.
Ambos vêm com os livros e também
todas as figuras e pensamentos

alheios que em trânsito
atravessaram pelo meio de si o Autor.
Exegeta, o que tu viste,
com o teu único olho ciclópico,

é um paralelepípedo onde
a voz ou o silêncio da voz
adquiriram uma figura sólida.”
Fiama Hasse Pais Brandão, Obra Breve

Tell Bush: Darfur MUST Be a Top Priority


"Tell Bush: Darfur MUST Be a Top Priority
Please urge President Bush to make ending the crisis in Darfur a main point in his State of the Union address on Tuesday, January 23rd and one of his top priorities in 2007.There is no time to waste! President Bush must act NOW to prevent infamous Sudanese President Bashir from seizing control of the African Union.Fill out the fields below to add your name to send your urgent message to the President. "


Organização Save Darfur

domingo, janeiro 21, 2007

ziguezagueando1

Ziguezagueando entre a morte, a lei e o ego.



Cabelos pretos, grandes olhos castanhos, numa pele muito clara. Respondi eu à pergunta sobre como era Fiama Hasse Pais Brandão, ontem quando evocávamos a poetisa no dia da sua morte. “Não”, respondeu o professor Campos, “Cabelo preto, pele muito morena.”

ziguezagueando 2

Ziguezagueando entre a morte, a lei e o ego.



A lei nasce na vontade escrita do poder, ou na interpretação e aplicação de uma autoridade na escrita?

Esta discussão terá que ser muito bem respondida, e um modelo de responsabilização admitido, para que o lodaçal legal não se transforme em pântano social. Mas como encontrar espaço para pensar a prática e a teoria nesta exibição de produção de leis em catadupa que impõe uma certa ideia de realidade sem se conhecer a realidade, como tem sido prática histórica?

Já aqui escrevi algumas vezes sobre o continuado mastodôntico processo de adopção. Como se entre a ideia do interesse das crianças e o real interesse das crianças houvesse um muro de indiferença. Como é que os ilustres defensores da campanha pelo "não" à despenalização do aborto não estendem também a sua influência, poder e vontade, na defesa de uma lei de adopção mais célere, mais a pensar numa família que numa instituição?

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Admirável mundo da internet - site da musicovery e o Google answers

O meu amigo Fernando enviou-me este link de uma Webradio interactiva verdadeiramente incrível. Uma forma nova de ouvir música na rádio (por temas, estilos ou temperamento). Estou encantada. E a ouvir o concerto nº 1 para violino de Beethoven enquanto aqui escrevo.

Outro site que descobri no princípio da semana enquanto navegava na internet foi o o da Google answers. Uma ideia de sociedade como eu a entendo e defendo. Vinte e quatro horas de disponibilidade para nos perguntarmos o que quisermos, ou soubermos, com vinte e quatro horas de disponibilidade de vermos alguém responder-nos ou respondermos a alguém sobre um assunto que se domine. Infelizmente hoje soube que o serviço já não está aceitar questões. Fiquei desolada, porque ainda há poucos dias me fascinava a ver a frequência com que eram introduzidas questões pertinentes por pessoas de todo o mundo em cada segundo que passava. Bom, ficamos com os registos divididos por temas e a aguardar que o Google não desista da ideia.


Vou continuar a ouvir mais música. Agora passou à voz de Mahalia Jackson com o "What Then" que nunca eu tinha ouvido. Ena. E, já de seguida, David Bowie com o meu amado "Fill your heart".

quinta-feira, janeiro 18, 2007

os nós dentro de nós ou ressentimento 2


Ressentimento

Muitas das pessoas que eu conheço leram Nietzsche e sabem o que ele diz sobre esse afecto do ressentimento, a moral dos escravos como ele a descreveu no texto Para a genealogia da Moral.

Muitas das pessoas que eu conheço afirmam estar acima do ressentimento, porque nã0 querem ser identificadas com os escravos, seres servis, da filosofia de Nietzsche. Mas essas pessoas se evitam a afirmação do sentimento, não evitam a prática do ressentimento. E também não estão preparadas para assumir a radicalidade das consequências que a definição de um homem anti-ressentimento pressupõe no contexto filosófico apresentado.

Conhecer a teoria do anti-ressentimento, e afirmá-la, não é o mesmo que praticá-la, até poque ela exige pessoas ou muito distraídas de si e dos outros (como eu digo), ou pessoas cruéis (como o diz Nietzsche).
F. Nietzsche exaltou a moral do "Sim", do homem de acção, e contrapô-la ao do homem da reacção, no que subentende ser o ressentimento a "vingança do impotente". Mas o homem de acção não é apenas a incarnação de um tipo, é uma identificação precisa de um certo tipo de homem real que ele quer ver como senhor. O homem histórico,"assustadoramente brutal", que a aristocracia grega deu ao mundo, e que se opõe ao homem do ressentimento, é o exemplo de humanidade preferida. A outra, o povo passivo e sumisso, só produz pessoas temerosas, que defendem, por cobardia de assumirem os seus intintos, formas de diluição das forças de domínio e de subjugação.


Mas até que ponto os que sabem evitar a palavra ressentimento conseguem evitar a sua natureza de ser ressentidos? Seres que, anémicos, debatem assuntos ou pessoas que se lhes opõem, ou que escolheram o seu destino fora da esfera de influência dessas personalidades, como se fossem fantoches manuseados pela maledicência, espreitando, frouxamente, sobre o "ombro" de uma teoria que gostariam que lhes dissesse respeito, que os dissesse o super-homem poderoso de Nietzsche que sente o sabor doce da vingança na boca e o afirma exaltamente.

Eu confesso-me como o menos seduzida possível pela teoria moral de Nietzsche, pese embora reconheça a necessidade de uma investigação contínua sobre esse tipo de previsibilidade da acção moral que julgamos ser a que define a nossa sociedade. E que a investigação de uma genealogia da moral não sirva para defender uma ideologia social, mas nos faça pensar: "Como é que se faz uma memória dentro do homem-animal?", Como se cria uma consciência? Nietzsche diz-nos que só com terror e dor isso se consegue. Explica assim a história da consciência moral como uma "total hipnotização do sistema nervoso intelectual".

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Portugal de...

"PORTUGAL DE...
Documentários - Informação
Nuno Portas

Nº 10 de 12: "Portugal de Nuno Portas"

Um olhar de 12 portugueses sobre Portugal, em conversas reveladoras"

Já houve 10, 10!!, pessoas a falar sobre Portugal e eu só ouvi ontem a primeira?!

Ouvi Nuno Portas pela primeira vez. Não conhecia o urbanista e fiquei fascinada com os seus conhecimentos e com a sua personalidade. Soberbo.

Bela ideia, bem filmada e a deixar solto o entrevistado. Não vi logo desde o início, mas, do muito que vi, só uma vez o entrevistador interrompeu o discurso de Portas para o ajudar a esclarecer melhor uma questão. Excelente.

Faltam dois programas.
Agora vou ver se consigo saber quem foram os restantes autores, e como será possível ouvi-los. Estou expectante.

As palavras, o meio e a difusão da ideologia da violência

Os meios de comunicação e a sua subordinação a meios difusores de ideologias. São demasiado apetecíveis para serem deixados em auto-regulação. Daí que haja, de forma consentida ou não por parte dos jornalistas, no mundo inteiro, uma apropriação do meio para espalhar a "verdade". Desta feita analisa-se a Al Jazeera.




Another Perspective, or Jihad TV?



By JUDEA PEARL
Published: January 17, 2007
Los Angeles


"IN late 2001, three months before my son, the Wall Street Journal reporter Daniel Pearl, was kidnapped, he interviewed the influential Qatari cleric Sheik Yusuf al-Qaradawi, and asked him about suicide bombings against Israeli civilians. The sheik replied with a novel twist of logic. “Israeli society in general is armed,” he said, implying that Israeli civilians — including women and children, doctors and journalists — are legitimate targets.

At the time, it was still surprising to see an authoritative Muslim cleric give religious license to the ideology of terror — granting the faithful permission to elevate their own grievances above the norms of civilized society.

Daniel would fall victim to that same ideology when he was abducted and murdered in Pakistan. After his death, I discovered that Sheik Qaradawi is the host of a weekly program on the Qatar-based TV news network Al Jazeera called “Sharia and Life.” He uses this forum to preach his new morality to millions of Arabic-speaking viewers, including Hamas operatives, Al Qaeda recruits, schoolteachers and impressionable Muslim youths. “We have the ‘children bomb,’ and these human bombs must continue until liberation,” he told his audience in 2002. Consistent with this logic and morality, Sheik Qaradawi later extended his Koranic blessing to suicide bombing against American civilians in Iraq.

A few in the Arab world have taken issue with his calls for violence. Al Ittihad, a newspaper in the United Arab Emirates, editorialized in 2004 that the beheading of two American hostages in Iraq happened “in direct response to Qaradawi’s fatwa and incitement, which permits the killing of American civilians.” Yet few, in the Middle East or the West, seem willing to condemn Al Jazeera’s management for giving the cleric regular airtime.

None of this might seem to matter much to Americans except that for two months now Al Jazeera has been taking its mixture of news coverage and extremist propagandizing to our front door through an English-language station. Called Al Jazeera English, the network can be received via satellite or streamed over the Internet. It has bureaus in London and Washington, and has recruited such high-profile Western journalists as Sir David Frost as correspondents.
In part, this is promising. The Arabic version of Al Jazeera and its various spinoffs on satellite TV and the Internet are usually credited with having a positive influence on Arab society. True, Al Jazeera’s coverage has placed an emphasis on younger leaders, reformers and successful businessmen who may serve as role models for today’s Arab youth. And it has brought — as the press usually does — a degree of inquisitiveness and openness that could become a useful engine of reform in the region.

Westerners have been quick to point out these benefits. A critic for The Times said that “though Al Jazeera English looks at news events through a non-Western prism, it also points to where East and West actually meet.” Time magazine noted, “arguably nothing — including the Bush administration’s panoply of democratization programs — has done more than Al Jazeera to open minds and challenge authority in the Middle East.”

But what should concern Westerners is that the ideology of men like Sheik Qaradawi saturates many of the network’s programs, and is gaining wider acceptance among Muslim youths in the West. In its “straight” news coverage on its Arabic TV broadcasts and Web sites, Al Jazeera’s reports consistently amplify radical Islamist sentiments (although without endorsing violence explicitly).

For example, the phrase “war on terror” is invariably preceded by the contemptuous prefix “so-called.” The words “terror” and “insurgency” are rarely uttered with a straight face, usually replaced with “resistance” or “struggle.” The phrase “war in Iraq” is often replaced by “war on Iraq” or “war against Iraq.” A suicide bombing is called a “commando attack” or, occasionally, a “paradise operation.”
Al Jazeera’s Web site can be less subtle. On Dec. 12, after religious leaders and heads of state all over the world condemned President Mahmoud Ahmadinejad of Iran for staging a Holocaust denial conference in Tehran, the headline on the site read, “Ahmadinejad Praised by Participants of the Holocaust Conference in Tehran, but Condemned by Zionists in Europe.”


terça-feira, janeiro 16, 2007

nocturno português

"Toma lá que te dou eu,
rapariga da fortuna!
uma mão cheia de nada
outra de coisa nenhuma"

popular

O título de um livro de contos infantis de Irene Lisboa é precisamente "Uma mão cheia de nada outra de coisa nenhuma".

Disseram-nos que iam fechar maternidades porque as condições médico-clínicas em que as parturientes eram atendidas não estavam asseguradas. Que não, não era uma questão económica mas que, provava-se por relatórios de médicos profissionalmente irrepreensíveis, eram questões de saúde materno-infantil. Agora vimos a saber, quando sabemos, e quando não as mandamos para Espanha ter os seus bebés, que há um número elevado de mulheres a darem à luz em casa, sem assistência médica, ou em ambulâncias, assistidas por bombeiros de boa-vontade mas que nunca na vida fizeram partos. A média de partos do bombeiro deixa imediatamente de ser relevante, até porque ele pode fazer um parto por ano porque, como não ganha como um médico, a vida da parturiente deixa de estar automaticamente em risco por falta de experiência, ou lá o que era que alegavam os relatórios acerca de médicos com menos de mil partos por ano no currículo. Não, não era só por contenção financeira.

Disseram-nos que iam fechar escolas, reduzir o corpo docente e trazer mais alunos para o ensino, em nome da concentração de esforços e de oferecimento de recursos humanos com maior qualidade e por maior formação. Que não senhores, não era por motivos económicos. As escolas fecharam, o número de docentes diminui, vai instituir-se um estatuto de carreira docente que, quem vê de fora, julga ser a solução para a avaliação dos docentes, e só transformará o secundário numa instituição endogâmica à semelhança dos se passa nas universidades. Mas não, agora é que a avaliação a sério vai começar, dizem, e o ensino melhorará , qual milagre da redução.

Institui-se também a figura do super-sabichão professor no 2º ciclo, sendo que até agora o seu saber era dividido por 10 professores, vejam bem, que horror as crianças terem tantos professores, quando um pode perfeitamente ensinar aquilo que os outros dez ensinavam. E o aluno fica menos traumatizado por ter como docente essa figura que sabe de tudo, e não sabe de nada, licenciado e mestre nessas nossas novas e super eficientes universidades. Assim como assim, todos aqueles saberes juntos valem o quê? Tudo em nome da qualidade, e da protecção dos interesses do aluno, não em nome da contenção de custos. Não.

Dizem que muitos alunos regressaram à escola. É verdade, dizem os números. Mas quantos ficaram nessa escola, findo agora o primeiro período, nessa escola que lhes oferece tudo de forma gratuita, ao ponto de muitos entrarem com a antiga quarta classe directamente para o secundário (e os que têm mais de vinte e três anos entram directamente para a universidade sem passar pelo secundário), e depois perguntam aos professores se não os podem passar (mesmo que não tivessem feito nenhum exercício obrigatório de avaliação, ou mesmo que fossem avaliados negativamente) só porque estiveram presentes em algumas aulas? Porque não, realmente? Assim como assim. Tudo isto em nome da qualidade de ensino, e não, não tem nada a ver com números para “burocrata europeu ver” ou com contenção financeira do sistema. É pela qualidade da formação, garante essa mão que nos dão.

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Nocturno Indiano

“O que é que fazia em Calcutá?”.
“Fotografava a objecção”, respondeu Christine.
“Que quer dizer com isso?”.
“A miséria”, disse ela, “a degradação, o horror, chame-lhe como quiser”.
“Porque o fez?”.
“É o meu ofício”, disse ela, “pagam-me para isso”.

Fez um gesto que podia significar resignação à profissão da sua vida, e depois perguntou-me:”Já alguma vez esteve em Calcutá?”.


Abanei a cabeça. “Não vá lá”, disse Christine, “nunca cometa um erro desses”.
“Pensava que uma pessoa como você achasse que na vida é preciso ver o mais possível”.
“Não”, disse ela convicta, “é preciso ver o menos possível”.


Nocturno Indiano de Antonio Tabucchi, ed. Quetzal, p. 102.

Pouco tempo depois de sair o livro, soube de um casal conhecido que tinha ido para a Índia e seguido o itinerário sugerido pela personagem. “Que romântica delícia”, pensei eu na altura. Mas fiquei a saber demais desse casal para continuar a pensar assim. Quanto menos se sabe mais se pode efabular.

Naquele dia, perdido o comboio para Istambul, a Eunice eu ficámos sentadas no chão da estação ferroviária de Belgrado, encostadas às nossas mochilas e literalmente a ver passar os comboios. A Eunice propôs-me um jogo para ajudar a passar aquele longo tempo de espera: observar atentamente cada pessoa que passasse e comentá-la. Ao fim de um tempo eu tive que parar, nauseada e cheia de dores de cabeça. Já nos lavabos procurei reencontrar a minha natureza. Como a Eunice sabia, eu era a que tentava ver o menos possível.

Como é que a miséria humana, e a irrelevância/incongruência democrática de um sistema social de castas, podem passar ao lado de um crescimento de aproximadamente 9% ao ano?
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sexta-feira, janeiro 12, 2007

Imaginário político: Índia


A série "A Jóia da Coroa" (The jewel in the crown), de produção inglesa, dirigido porJim O'Brien e Christopher Morahan a partir de uma adptação do romance de Paul Scott, faz parte do meu imaginário quando penso na Índia. Mas a Índia foi só uma jóia da coroa inglesa? E as nossas jóias, Goa, Damão e Diu? Em que coroa, ou estandarte, brilharam elas?
A minha obsessão com o aspecto simbólico da política leva-me a dizer uma vez mais que Portugal desperdiça, em termos de discurso, uma ideia que reúna os portugueses não sob o abominável princípio da potência colonizadora, da dominação dos povos, mas do admirável princípio de que amámos tanto essas terras estrangeiras como se nossa se tratasse, mesmo se as amámos execravelmente. Há uma história por contar mesmo quando pode ser feia. O silêncio é que apaga a beleza ou a vilania dos acontecimentos, não o discurso. Mas quem conta a história dessa paixão, mesmo que tivesse sido infeliz? Quem não deixa esquecer essa existência partilhada entre portugueses e indianos? Quem narra esse tempo e o oferece ao imaginário de outros povos?
As visitas das comitivas presidenciais são grãos de areia no deserto, pois só o imaginário colectivo é que fixa as pessoas a um local ou a outras pessoas. Vão para lá só preocupados com a economia que modificar-se-á estruturalmente muito com isso em Portugal.
E no entanto... a economia move-se.

Comunicação política: análise ao discurso de Bush

Mais uma vez o serviço FactCheck.org me ensina como se procede com excelência na análise de discursos políticos. Quem me dera saber trabalhar assim. Quem me dera trabalhar assim. Reparo no cuidado com que cada tema é discutido, no que ao elidir ou ao relevar de factos diz respeito. Soberba análise.
(Suspiro.)

Bush's Iraq Speech
The President's facts check out, though he leaves out some inconvenient ones.
January 11, 2007

Summary
President Bush's sobering address to the nation laid out his plan to rescue Iraq by sending in more troops at a time when polls show the American people want just the opposite. Is his approach a significant change of course? Will it work? We leave that to others to chew over. What we can say is that he was right on the facts he cited, although there were some notable omissions. While he highlighted the planned distribution of oil revenues to the Iraqi people and a new commitment of reconstruction funds by the Iraqi government, he didn't say a word about how the U.S. or Iraq would deal with rampant corruption that threatens to undermine both.
Similarly, we found the rebuttal by Sen. Richard Durbin of Illinois, the Senate's second-ranking Democrat, to be factually accurate but also somewhat selective.


Analysis
Bush's speech wasn't long on facts, since he was focused mainly on what the U.S. and Iraq will do in the future. We'll take his factual statements one-by-one and note some things that got left on the cutting-room floor.

Desire to live in peace?
Bush: Most of Iraq's Sunni and Shia want to live together in peace.
A big orange warning flag should go up over the accuracy of any polls of a population caught in the middle of a war. That said, the available polling data supports this claim. Last June, the International Republican Institute asked over 2,000 Iraqis to agree or disagree with the suggestion that the nation be segregated according to religious or ethnic sect. Only 13 percent agreed or strongly agreed, while 66% strongly disagreed. In the same poll, 89 percent of respondents said that establishing a "unity" government was extremely important "to the future peace and stability of Iraq.
In addition, the summary of a 1,000-person poll in Sept. 2006 by the World Public Opinion organization concluded that "Majorities of all groups do not favor a movement toward a looser confederation and believe that five years from now Iraq will still be a single state. A large majority sees the current government as the legitimate representative of the Iraqi people."

Sharing oil revenues
Bush: Iraq will pass legislation to share oil revenues among all Iraqis.
That sounds good, but Bush fails to note that crude oil production hasn't yet recovered to pre-war levels. Before the U.S.-led invasion, it stood at 2.5 million barrels/day. By December 2006, it was 2.15 million – down a bit from the months of June-Oct. of last year. With the price-per-barrel being high, there still could be a lot of money to pass around – except for corruption that is siphoning off a good deal of the money and which we didn't hear about in the President's speech.

Corruption
Bush: To show that it is committed to delivering a better life, the Iraqi government will spend $10 billion of its own money on reconstruction and infrastructure projects that will create new jobs.
The missing word here is "corruption," perhaps the most glaring omission in the President's address. If the $10 billion in reconstruction money is to be effective, the Iraqi government will have to do something about the rampant corruption noted by the Iraq Study Group, the Government Accountability Office and numerous news accounts. Bush didn't use the word "corruption" once in his speech, nor was it mentioned by either of the "senior administration officials" who briefed White House reporters just prior to the speech on the condition that their names not be used. By contrast, "corruption" is mentioned 15 times in the ISG report, which lists it as one of the major reasons for the Iraqi government’s inability to provide basic services like water and electricity on any sort of reliable basis. Other examples:
ISG Report: [C]orruption is rampant. One senior Iraqi official estimated that official corruption costs $5–7 billion per year.
ISG Report: Economic development is hobbled by insecurity, corruption, lack of investment, dilapidated infrastructure and uncertainty.
ISG Report: One senior official told us that corruption is more responsible than insurgents for breakdowns in the oil sector.
In July 2006, the U.S. Special Inspector General for Iraq Reconstruction (SIGIR) reported a poll that found a third of Iraqis said they had paid bribes for goods or services that year. In a September 2006 news report by the United Nations’ Integrated Regional Information Networks, Judge Radhi al-Radhi, head of the Commission for Public Integrity (CPI) in Iraq, estimated that $4 billion “has been pilfered from state coffers and no one is taking responsibility.”

Transparency International, a non-partisan international watchdog group, has listed as the second most corrupt government in the world, with only Haiti edging it out of first place. The GAO reported that the lack of an effective banking system in , ambiguous procurement systems, and inadequate anti-corruption training have hampered attempts to reduce foul play. The GAO also reported that between January 2005 and August 2006, 56 Iraqi officials were found guilty of corruption or had arrest warrants issued against them, but apparently the arrests and prosecutions aren't having much of a deterrent effect.

Sunni outreach
Bush: [T]o allow more Iraqis to re-enter their nation's political life, the government will reform de-Baathification laws.
This measure, which is indeed on Iraqi Prime Minister Nouri al-Maliki's to-do list, was also recommended by the ISG as a key element of national reconciliation. Many professionals who worked in the government in the days of Saddam Hussein were purged because of their Baath Party ties in the weeks and months after Hussein was ousted. But 40 percent of Iraq's professional class has left the country altogether, and Bush doesn't address the problem of luring them back.

al Qaeda
Bush: Al Qaeda has helped make Anbar the most violent area of Iraq outside the capital. A captured al Qaeda document describes the terrorists' plan to infiltrate and seize control of the province.
It is fair to say that al Qaeda is still active in Iraq, even though its leader in the country, Abu Masab al Zarqawi, was killed by U.S. forces in June 2006. The group is believed to include mostly foreign fighters, and it's widely acknowledged that they're most active in Anbar. The Brookings Institution's Iraq Index estimates that there were between 800 and 2,000 foreign fighters in all of Iraq as of November.
The Washington Post reported in November that a secret Marine memo described al-Qaeda in Iraq as the “dominate organization of influence in al-Anbar.” But the official who leaked the memo to the paper said “it overstates the role of al Qaeda in the province.” A Congressional Research Service report characterizes this group as “numerically small, but politically significant.”

al Qaeda, pt. II
Bush: America's men and women in uniform took away al Qaeda's safe haven in Afghanistan, and we will not allow them to re-establish it in Iraq.
Operation Enduring Freedom, the U.S. military response to the Sept. 11 attacks in 2001, pretty much ousted the Taliban and al Qaeda from Afghanistan. But Bush didn't mention that the Taliban have been creeping back, possibly as a consequence of the deployment of so many troops to Iraq, and some key members of al Qaeda – including, according to many reports, Osama bin Laden – have found safe haven just over the border in Pakistan.

Iran
Bush: Iran is providing material support for attacks on American troops.
There's not much disagreement on this front, except from the Iranians. It is widely accepted that , either directly or indirectly, has been involved in aiding militia and insurgent groups fighting U.S. forces. In August 2006 The Washington Post quoted Department of Defense spokesman Major General William B. Caldwell as saying, “We do believe that some Shiite elements have been in Iran, receiving training. But the degree to which this is known and endorsed by the government of is uncertain.” However, by the following month, . military reported that explosive devices with signature labels found in Iraq were proof-positive of Iranian government involvement. And Brig. Gen. Michael Barbero of the Joint Chiefs of Staff has said in an interview that “ is definitely a destabilizing force in …I think it’s irrefutable that is responsible for training, funding and equipping some of these Shiia extremist groups and also providing advanced technology to them, and there’s clear evidence of that.” A Congressional Research Service report from December 2006 also cites reports of Iranian involvement with Sunni insurgents fighting US forces.

The Democratic Rebuttal
In a Democratic rebuttal to the President’s speech, Sen. Dick Durbin of Illinois said a troop increase is not what the voters ordered up in the 2006 House and Senate elections. That’s true as far as it goes, but it’s truer of Democrats than Republicans.
Durbin: Escalation of this war is not the change the American people called for in the last election.
Exit-polling data from last year's congressional elections support this statement. When asked about troop levels in Iraq, only 17 per cent said “send more” and 21 per cent favored no change. But 55 per cent said they favored withdrawing some or all US troops. Democrats were far more likely than Republicans to favor withdrawal, and the few who favored a troop increase were Republican by three to one.
After Durbin spoke, The Associated Press reported a new AP /Ipsos poll showing that 70 per cent of those surveyed oppose sending more troops. The poll was taken in the days just before Bush spoke, and has a margin of error of plus or minus 3 per cent, according to AP. The partisan split continues: 87 per cent of Democrats opposed a troop increase, but only 42 per cent of Republicans.

Ignoring advice of generals?
Durbin: In ordering more troops to Iraq, the president is ignoring the strong advice of most of his own top generals. General John Abizaid -- until recently, the commanding general in Iraq and Afghanistan -- said, and I quote, "More American forces prevent the Iraqis from doing more, from taking more responsibility for their own future," end of quote.
True, Abizaid said that at a Nov. 15, 2006 hearing, and also said that he believed Iraqi forces could defeat the insurgency. But later at the same hearing he also said, “If more troops need to come in, they need to come in to make the Iraqi army stronger.”Bush says that's just what he's doing: using the added US troops to stiffen Iraqi forces. The two senior administration officials who briefed reporters Wednesday said some of the added US troops would be embedded with Iraqi forces, but that Iraqis would take the lead in combat operations.
A minor point, but Abizaid no longer is one of Bush’s “own top generals,” which Durbin himself noted in passing. Bush announced a few days ago he was replacing Abizaid as head of the Central Command, at the same time that he replaced Gen. George Casey as the top commander in Iraq. Casey had also expressed reservations about sending more troops, although at a news conference Thursday Marine Corps General Peter Pace, chairman of the Joint Chiefs of Staff, said that the request for additional troops actually came from Gen. Casey "and his commanders."

Pace: General Casey and his commanders came forward and asked for additional forces.They asked for additional forces for Baghdad, and they asked for additional forces for al-Anbar.
Bush is glossing over some inconvenient facts, and so are his critics.
by the Staff of FactCheck.org


Sources
AmericaVotes, " U.S. House of Representatives / National / Exit Poll ," CNN.com, 8 Nov 2006.
Michael R. Gordon and Thom Shanker, “ Bush to Name a New General to Oversee Iraq ,” New York Times, 5 Jan 2007
CQ Transcripts, “U.S. Senator John Warner (R-Va) Holds A Hearing On Military Operations In Iraq And Afghanistan,” Transcript of Senate Armed Services Committee hearing, 15 Nov 2006.
“The Iraqi Public on the US Presence and the Future of Iraq,” WorldPublicOpinion.org. 27 Sept. 2006.“Survey of Iraqi Public Opinion,” International Republican Institute. 18 July 2006.
Gannon, Kathy. "Taliban Train Suicide Bombers to Attack." The Associated Press Online . 23 Nov. 2006:.
“Secretary of State Condoleezza Rice, Secretary of Defense Robert M. Gates and Chairman of the Joint Chiefs Of Staff General Peter Pace (USMC) Hold a News Conference On Iraq,” transcript of news conference, CQ Transcripts 11 Jan 2007.
Iranian Government Behind Shipping Weapons to . 28 Sep. 2006. American Forces Information Service . 11 Jan. 2007.
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Baker III, James A. et. al. The Iraq Study Group Report. New York: Vintage Books, 2006.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

as províncias do império

Ontem à noite quando cheguei a casa, a SIC Notícias fazia correr em rodapé a anúncio de um discurso de Bush a anunciar o seu novo plano para o Iraque, discurso previsto para as duas da manhã. Não me consegui impedir de pensar nos impérios que se foram criando ao longo da história, e nas formas de comunicação que eles tiveram que estabelecer para fazer anunciar/estabelecer as razões que lhe aprouverem para prosseguir as suas acções. Estremeci, não só pelo interesse universal que o destino do povo iraquiano merece nos órgãos de comunicação dos outros povos, no que, de um ponto de vista teórico se explica e se exige igualmente e relativamente à sorte de qualquer outro povo que saibamos, ou devíamos saber, se em sofrimento, mas por sentir que as decisões de Bush afectam não apenas a sorte do povo iraquiano, fenómeno que já de si me parece extravagante no séc. XXI, mas do mundo, numa cadeia de razões políticas, não naturalmente necessárias nem sufragadas, ou contratuais, universalmente.

Impressionada fiquei pela arbitrariedade da história se continuar a escrever, uma vez mais e sempre, por força das palavras de um homem que dispõe do poder de enviar a espada a partir do seu Estado, no qual foi eleito, para um outro Estado onde nunca sujeitou as suas regras a escrutínio interno, ou obteve consenso externo para a intervenção.

Não me custa compreender o papel da administração americana, no quadro da compreensão que se tem da história no passado e das relações internacionais entendidas como defesa dos interesses do que mais tiver poder no momento histórico. O que me pesa é a inoperacionalidade de conceitos civilizacionais que um número de pessoas cada vez mais crescente reconhece e não consegue impor como regra para o presente. Esta consciência de inoperância ou de lentidão de operância de estratégias internacionais reconhecidas e aceites pelo direito universal causa-me desconforto e desânimo, a mim que vivo descansadamente numa democracia. A 19ª democracia, dizem-me. O que não causará em quem for industriado a não acreditar senão na violência para combater a violência?

Por outro lado, ouvindo os iraquianos, em vozes que nos chegam por reportagem dando conta de uma incredulidade relativas ao que lhes está a acontecer e que, exceptuando grupos rivais de milícias em confronto directo pelo poder nas ruas, nenhum iraquiano deseja, seja curdo, chiita ou sunita, também não se reconhece agora em que é que a saída dos soldados americanos resolveria para já as condições de segurança daquele povo. Daí que eu tema que o presidente Bush ainda venha a declarar mais tarde que por o congresso ter impedido a execução do seu plano de envio de mais tropas é que a guerra ficou totalmente perdida.

Esta será a desculpa no futuro, a de que o congresso impediu a resolução do conflito iraquiano, proporcionado pela intervenção americana, afirmando ser esse um assunto interno e propondo-se a retirada?
Um dia convenceram-se as tropas americanas, os seus líderes, de que se tinha perdido uma guerra no Vietname por causa da má imprensa na cobertura dessa guerra que desmobilizou a opinião pública no que a um apoio ao envio de mais tropas dizia respeito, agora temo que a desculpa seja, para o futuro, de que os democratas impediram a estratégia militar de buscar, finalmente, o êxito quanto aos seus objectivos. A não esquecer, os de impor (!) uma democracia no Iraque. Ficando mais uma vez por discutir, ou por se fazer responsabilizar, os que defenderam a irrelevância nacional da questão da legitimidade inicial da intervenção, assim bem como fica por discutir a competência dos líderes políticos e militares para, pondo em causa a frágil ordem internacional, conseguirem impor os seus intentos. Continuam a sobrar os problemas do império. E ouvimos as palavras de Bush com um sentido com que nem sequer ouvimos as palavras do presidente da nossa nação. Por mim falo.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Insidiosa actuação dos anónimos

Menos saudável do ponto de vista institucional me parecem as pressões que sofrem todos os que são atacados anonimamente por aqueles que procuram conspurcar a honra, confundir a verdade, e intentam rebaixar as acções daqueles que com eles não concordam ou que se lhes opõem em projectos ou ideias. Conhecendo mais ou menos bem os modos de operar em sistemas fechados, como é o sistema de poder nas universidades, mas tendo permanecido sempre na periferia dessa luta, pela minha irrelevância no meio, não posso senão assinalar o meu regozijo por haver quem, tendo responsabilidades e tendo influência, não teme nem deixa de chamar as coisas pelos seus nomes, não deixa de continuar a preferir o que entende ser o melhor para a sua comunidade, sem esperar que sobre isso o tempo passe e tudo apague tornando insistinto e conforme o que não o é, nem deve ser. Destaco a voz inconformada e que procura a liberdade de José Adelino Maltez no seu blogue Sobre o tempo que Passa.

Editoriais

Relevo o editorial do Diário de Notícias sobre a ETA porque subscrevo o tom e o modo como Eduardo Dâmaso trata de uma questão delicada como o terrorismo em geral e o terrorismo da ETA em especial.

Destaque também para o editorial de José Leite Pereira do Jornal de Notícias pelo que denota de tom inconformado com a actuação, cada vez mais questionada em vários meios e pelos vários discursos/intervenções, da Entidade Reguladora para a Comunicação Social.
Haja liberdade para se não concordar e poder-se escrever livremente com o que não se concorda, como há, no entanto, em Portugal.

terça-feira, janeiro 09, 2007

A democracia como regime oligarca

De vez em quando chega-me por e-mail um conjunto de textos que dão testemunho da composição das administrações das empresas públicas, dos honorários que cada um ganha, do anúncio de colocação de certas pessoas na hierarquia administrativa pública, de listas com nomes de reformados que continuam em exercício e a acumular com outros vencimentos chorudos, e, obviamente, tudo isto no espectro das personalidades que ocuparam ou ocupam cargos políticos de relevo. Se os textos vêm assinados, e julgo deveras fundamentados, comento-os e reencaminho-os. Quando os textos não vêm assinados ou julgo ser deficiente a prova demonstrada, apago-os. Mas é lamentável que não haja um recurso público a quem dar conta destes casos, e me veja envolvida numa espécie de alcoviteirice sem responsabilização destas questões. Falo dos que, como eu, seguem a via do reencaminhamento enviesado destas mensagens que se tornam semipúblicas, e não dos que assumem publicar estes dados, e daí aceitar as consequências legais e sociais provenientes, como o faz o blog Câmara Corporativa, por exemplo. Enfim, ontem mesmo recebi, de uma colega que muito estimo, um conjunto de textos identificados, que correm na Internet, com cópias de documentos que dizem respeito a nomeações para cargos políticos/económicos que nos deixam a todos sem palavras por não ser visível nenhum outro critério imediato que não seja o de pagar um favor político ou pessoal/familiar.
A igualdade política não poderá corresponder nunca a uma igualdade económica numa democracia com uma economia concorrencial. E que isso não obste à vontade de desempenho e de crescimento económico de qualquer indivíduo. Mas permanecem duas questões em aberto: o facto de a desigualdade económica ser promovida pelo mesmo sistema que defende a igualdade política e que para a manutenção desse sistema socorre-se dos agentes, ou seus afiliados, mais influentes no mesmo e que evoluem em circuito fechado de colocação política em colocação no sistema económico e vice versa (o que transforma a democracia numa oligarquia e num nepotismo); o facto de ser o erário público a suportar um nível de vida privado que não corresponde a critério nenhum de efectiva retribuição em trabalho para o público legitimamente avaliado, contra a expectativa geral fomentada pele espírito democrático da colocação dos seus servidores por concurso público em regime de avaliação contínua, e contra a expectativa de que o mérito, mais do que a filiação e/ou o nome de família, servirá como único critério de selecção.
Junte-se a tudo isto a impossibilidade que os cidadãos têm de se defender através da mudança da sua intenção voto, porque os partidos na oposição e com reais hipóteses de virem a governar estão também eles presos neste sistema de nomeação que procuram reservar para os seus quadros, o que faz com que poucas garantias se tenham de que haverá ao nível partidário uma resposta para esta situação percepcionada como injusta e incompassível, e compreender-se-á o desânimo de quem acha que em Portugal é praticamente impossível quebrar o ciclo do amigo nomeia amigo que nomeia amigo. Do amigo que favorece amigo que favorece amigo, uma prática institucionalizada como normal em democracia. Bom, e se calhar até é. Numa determinada concepção de democracia que poderá bem ser a nossa.
Ora que o povo perceba que as classes dirigentes promovem antes de mais o seu bem-estar pessoal, mas fazendo-o em nome de uma ideia geral para o bem público, é que é trágico para a ideia de democracia. Porque depois deixar-se-á de acreditar na possibilidade até de poder acreditar, na vontade de poder que cada um deve ter por direito e com responsabilidade.

“Dans la cite démocratique, les citoyens les plus pauvres sont pris en considération, courtisés, flattés en permanence par les grands personnages que briguent leur soutien ; la célébration des vertus du citoyen est une figure rhétorique obligée. L´estime du peuple qu`il convient d`afficher, le sentiment élitiste de supériorité qu`il est nécessaire de masquer, tout ceci tranche avec la condescendance ou le mépris nourris par les catégories dirigeants, dans le systèmes politiques de type oligarchique ou féodal. », Philippe Braud, p. 30

domingo, janeiro 07, 2007

Munique

“A irmã dela morreu, mas se não foi aos funerais dos atletas, foi por haver gente fula...por não negociar com terroristas. Não foi aos funerais... porque não quis ser vaiada.”

Esta é a explicação que o oficial de contacto israelita Ephraim dá ao agente Avner, escolhido para executar a missão de encontrar e eliminar os teóricos ou os operacionais envolvidos no ataque terrorista e consequente assassínio dos atletas israelitas que participavam nos jogos Olímpicos de 1972. Golda Meir decidira que chegara o tempo da “sua” civilização “fazer compromissos com os seus próprios valores”.

“A irmã dela morreu, mas se não foi aos funerais dos atletas, foi por haver gente fula por não negociar com terroristas. Não foi aos funerais porque não quis ser vaiada.”

Minudência narrativa. Mas não parei de pensar o tempo todo em que estive a visionar o filme Munique, em DVD, nesta minudência. Governantes crentes e público descrente. Governam para quem e em nome de quê? Quem servem primeiro? O ego ou a razão?

sábado, janeiro 06, 2007

Lisboa-Paris

Descer a Belém vinda de Monsanto, entrar no jardim dos Condes da Calheta. Tudo à beira da beleza. No fio de cá de uma beleza pressentida lá.
A cidade a não poder ser bela à força, por descuido, por negligência, por pobreza. A mata de Monsanto por limpar, as casas, de materiais de construção inferior, de traça sem graça e com exteriores decrépitos, as ruas numa sucessão caótica de carros estacionados em cima dos passeios, casas desaprumadas, estendais improvisados de roupa, sujidade e descuido nos espaços públicos, prédios abandonados em derrocada progressiva.

O quase muitíssimo belo jardim dos condes da Calheta, espaço de luxo, paredes meias com o palácio de Belém, é, pela sua extensão, pelo seu propósito, por uma ideia que se pressente ter começado a ser delineada há muito tempo mas que não sabe como afirmar-se, envergonhada, no presente, é, volto a repetir, um jardim quase muitíssimo belo.
É o problema de quem se embaraça com a sua história, a quem incomoda os parentes belicosos, ignorantes e despudorados do seu passado, ou do pouco conhecimento que se tem dele. Não podemos ter colecções de apaixonados pela flora colonial sem exaltar o espírito colonialista? Não há quem saiba viver esse equilíbrio?
Ainda que com deficiente informação no exterior relativo a horários e preços de ingresso, o jardim convida a entrar. As pessoas olham-no da rua e depois vão por aí fora até serem paradas por um: “Se faz favor?”
É um espaço a dar sinais aqui e ali de querer levantar voo e de querer levar-nos com ele, mas depois há o amontoado de detritos abandonados numa instalação há muito por utilizar, bidões armazenados em nichos de um arco que emoldura a entrada do terreno dedicado a Macau, os vidros partidos das estufas, um certo ar de quem não ama e não mora ali, de quem acha que o muito que existe ali e o que já está feito é suficiente. E não é. Porque o que está feito é pouco mais que uma manutenção do espaço, não o exalta ou exibe, como ele merece.
Ao visitante nada é dado a saber sobre os trabalhos ou os estudos de botânica em curso, ou sobre os projectos dos cientistas sociais para darem a conhecer melhor os povos com quem nos cruzámos. Nada nos é informado sobre os resultados produzidos no e pelo jardim.
O jardim e o palácio-museu pertencem ao Instituto de Investigação Científica Tropical. Têm um blogue sobre “História Lusófona” muito interessante que começou a ser escrito com o propósito de nos situar no quadro dos estudos das várias histórias dos povos que se cruzaram com o povo que permite falar numa história lusófona.

Eu sei que os meus olhos ainda vêm com as proporções dos edifícios e dos parques de uma cidade imperial. A perspectiva com que eu caminhei em Belém é a de quem caminhou ainda há poucos dias no Jardim de Luxemburgo e nos bairros à sua volta. Não que deixasse de perceber a sujidade numa ou outra esquina de Paris, dos túneis do metro, nem deixei de esboçar um sorriso condescendente pelo rato que, para gáudio de uma pequena multidão de estrangeiros parados em frente da montra, se passeava por entre as dezenas de queijos em amostra num restaurante de fundue do “quartier latin”, afinfando um ou outro à sua passagem. Sei que à volta de Paris existe esta mesma construção feia e barata que caracteriza os bairros de Lisboa, que ali também floresce. Mas há uma concepção tão distinta de cidade e de perservação do espaço entre paris e Lisboa, para não falar noutras capitais, que até entontece pela diferença de qualidade. E eu não quero falar de Lisboa com tiques de personalidade altaneira e pateta de tão estrangeirada, porque esta é realmente a minha cidade, e dói-me vê-la tão deslavada, tão pateticamente submetida a uma miséria esteticamente opressiva. Mas é verdade que há um conflito estético em Lisboa que empurra as nossas expectativas para baixo (eu diria mesmo nas cidades portuguesas em geral), que quase dificulta o respirar. É verdade.

sexta-feira, janeiro 05, 2007

A democracia como um regime oligarca?

Comprei um livro de divulgação de Philippe Braud, La Démocratie Politique. Ele evoca a conhecida tese de Moses Finley sobre a democracia clássica questionando-se sobre a actualidade dessa definição: “La démocratie antique (comme toute démocratie?) est, en réalité, “un régime oligarchique avec un élément décisif de participation populaire” qui constitue une réponse appropriée à trois types de problèmes affrontés par cette cité. » p. 25

quinta-feira, janeiro 04, 2007

o imaginário histórico em discurso político

Le Nouvel Observateur” editou um número duplo para o período compreendido entre 21 de Dezembro e 3 de Janeiro. Dedicou 48 das páginas da revista ao tema “O século das luzes. 1715-1789 Quando a França inventou as liberdades”.
É um espanto esta restauração permanente da França sobre o seu papel histórico. É assim que se produz uma imagem de nação, é pela consistência não desarmável de títulos como este. A Inglaterra fá-lo constantemente também. É a projecção da sua ideia de nação política no mundo que serve de chave de entrada para os múltiplos negócios que se fazem à sombra de conceitos. Mesmo que os seus concorrentes ingleses não lhes deixem ocupar impavidamente um lugar que lhes conceda a titularidade de nação das liberdades por estes sempre almejada, na verdade é uma ideia que rende muito e é capitalizada num lugar cimeiro no ranking dos países com imagem de progressistas junto da opinião pública mundial.
Num conjunto notável de artigos, autores como Philippe Sollers ou Mona Ozouf, entre outros, desenvolvem as suas ideias sobre pensadores e figuras, conceitos e acontecimentos que marcaram o século das luzes francesas, procurando fazer as pontes com o presente e não descurando na apresentação dos outros iluminismos europeus como o da Inglaterra, Escócia, Alemanha, Itália e Rússia.

Curioso o artigo de Fabrice Pliskin sobre Olympe de Gouges autora da “Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, Dedicado à Rainha” publicada em 1791 . Pliskin chama-nos a atenção para o aspecto simbólico que teve a alusão a Olympe de Gouges por parte da candidata presidencial francesa Ségolène Royal no seu discurso de investidura à eleição. Royal assume claramente a herança intelectual da humanista executada em 1793 pela sua defesa dos girondinos, renegada pelo seu único filho que procurava salvaguardar a sua própria vida, e acusada por alguns psiquiatras de ser paranóica por a considerarem dominada pela sua mania reformadora (as mulheres quando espíritos reformadores são paranóicas, os homens, por sua vez, são figuras heróicas e lutadoras. Misoginia oblige). Esta mulher que proponha, entre outras ideias, a criação de um sistema de protecção maternal e infantil, foi recuperada para o discurso político pela candidata socialista à presidência. É por este trabalhar do imaginário que o discurso de alguns políticos franceses e dos seus intelectuais continua a mostrar ao mundo a ideia de uma França soberana e guia ideológica. É assim que se constrói uma personalidade nacional, para não falar numa personalidade política.

Dirá Marc Fumaroli no seu artigo “Historiographie de la France et mémoire du royame au XVIII siécle » que a falência dos historiadores franceses do século XVIII em fundamentar o “civismo monárquico”, não tendo em conta os catorze séculos desse regime e não conseguindo criar uma ideia sustentada e partilhada de memória comum, foi uma das razões para a investida de uma revolução que fez tábua rasa do seu passado e utilizou o terror para construir o futuro.
Um corpo intelectual que descuida na promoção dos valores e da legitimidade do uma ideia futura da nação, entrega-a ao primeiro mercador que a quiser contrabandear em qualquer esquina da História. É o que não tem faltado em Portugal.

quarta-feira, janeiro 03, 2007

"Hizbullah’s victory, Israel’s choice"

Helena Cobban tem o melhor artigo que eu já li sobre a guerra entre Israel e o Líbano. Sobre estratégia militar, sobre os decisores políticos e as suas inaptidões, sobre a a história dos conflitos armados no mundo, sobre incompetências na leitura dos dados de certos analistas. É sobretudo um artigo que explica aos defensores da prática de bombardeamentos porque é que estes têm vindo a provar historicamente que nunca são solução para uma mudança de política, começando com os bombardeamentos que os alemães fizeram sobre Londres na Segunda Guerra e vindo por aí fora até aos dias de hoje.

The 33-Day War
Hizbullah’s victory, Israel’s choice

Helena Cobban

segunda-feira, janeiro 01, 2007

uma concepção de democracia

Não há sinais dos conflitos que as notícias reportam sobre Paris. Milhares de turistas enchem as ruas nos lugares previsíveis que esta cidade com uma boa e bem vendida imagem tem para oferecer. Não há sequer vislumbre de reforço policial por parte das autoridades que, a existir, e existirá com certeza, não privilegia a regra da ostentação da figura. Parece uma cidade sem polícias à vista, com gente a deambular por toda a parte e que vem de toda a parte do mundo, misturada com os residentes de forma ordenada. É uma cidade que parece ser tomada de assalto, sim, mas pelos turistas que, de um modo que eu vi sempre ser pacífico, se aglomera em todo o lado esperando pacientemente a sua vez de entrar, de ver, de comprar, de tomar os transportes públicos, de comer. Tudo feito em fila, à vez. Terrível, mas ordenada, multidão que parece no entanto guardar-se a si própria nesta verdadeira Babel em que se cruzam freneticamente os indivíduos que, como eu os meus, vão em busca de um lugar, ou de uma coisa, ou de uma fotografia, enfim. O que há de gente a fotografar o que quer que seja, mesmo que seja algo a mexer-se muito depressa, dava um romance de muitas páginas.

E muito vejo eu também comprar em Paris. Lojas de bairro sempre cheias. Pastelarias com bolos enjoativos, lojas com boa e má roupa, sapatarias, casas de “souvenirs”, cafés e restaurantes mil, papelarias e livrarias, tudo cheio a toda a hora. Lojas com coisas de muito luxo em zonas com terrenos caros da cidade e outras que nem por isso, sempre todas com clientela farta. Pouquíssimas a publicitarem qualquer redução de preço. Não parece ser essa a razão para se continuar a comprar por estes dias. Tudo caro. Para os franceses parece que é véspera de Natal ainda agora.

O tempo, por estes dias, ora chuvoso, ora seco, quase sempre de céu cinzento. Os pobres sem abrigo, que os há e muitos, apresentam um ar alquebrado. Nos túneis do metro não se ouvem tantos músicos como já dei conta outrora. Se a cidade se apresenta festiva, com as ruas e estabelecimentos cheios de luz e decorações natalícias, notei uma muito menor presença de música na rua.

Um dia, aos vinte anos, amei com paixão e deslumbramento esta cidade. Hoje faz parte de uma cartografia pessoal que reconheço ainda sem me deixar já ofuscar. Aos vinte anos, Beauvoir e Martin Du Gard, Duras e Proust traziam-me pela mão e passeavam-me. Eu era mais olhos do que qualquer outra coisa, mais vontade de liberdade do que consciência de como preservá-la.

Hoje estou mais atenta ás questões políticas que este Estado continua a conseguir fazer determinar, atenta ao que pensam os seus filósofos e teóricos políticos. E se já muitas vezes critiquei a política narcísica deste presidente, uma replica para o modelo francês do que é o presidente americano para a sua cultura, na verdade tenho um reconhecimento maior do que este narciso europeu proclama de vez em quando. E fazendo coro com as palavras do editorial do “Le Monde” do dia 31 de Dezembro reconheço-me incluída na ideia de democracia defendida, apesar de tudo, pela Europa: “Beaucoup d`Iraquiens réclamaient la mort de celui que fit régner la terreur dans leur pays. Mais il n`est d`opposition à la peine de mort que de principe. Et ce principe s`il est admis, comme il l`est dans toute l`union européenne, ne soufre pas d`exception. Prendre en compte des circunstances exceptionnelles, c`est miner le principe lui-même. Jacques Chirac l`a bien compris, lui qui, face à une opinion publique toujours tentée par la loi du talion, veut inscrire l`abolotion de la peine de mort dans la Contitution.
George W. Bush, qui ne sait ni pourquoi maintenir ses 140.000 soldts en Irak ni comment les retirer, a salué l´exécution de Saddam Hussein comme « une étape importante sur le chemim de la démocratie ». C`est une conception de la démocratie. Elle n`est pas le notre.» Não é mesmo.

sábado, dezembro 30, 2006

direitos humanos e uma teoria do poder

No dia em que um homem é executado, com a condescendência de um Estado democrático que ocupa o país desse homem, é um dia marcado pela falência prática do poder alternativo proposto pela Declaração Universal dos Direitos Humanos. Vence o poder da estratégia e da força dos que mais podem no momento. E não duvido que os que mais podem agora, poderão, noutras circunstâncias, não poder mais, e ficam então todos os diabos á solta. Admiremo-nos que os líderes mais agressivos do mundo não se deixem convencer pelos argumentos pacíficos de um Ocidente manipulador, e procurem rearmar-se o mais depressa e da forma mais mortífera. São as regras que permanencem sobre as ideias e universalidade de acção humana. São as regras do passado.

Eu estou na cidade que instituiu a guilhotina como instituição universal de punição. Sob o seu gume pereceram todo um conjunto de indivíduos, de monarcas a vilões. Ninguém estava acima da lei da guilhotina. A cidade escolheu ser conhecida como a cidade da luz.

quarta-feira, dezembro 27, 2006

um presente de Natal

Da parte de quem melhor compreende a ansiedade do conhecimento do que a serenidade de aceitar as coisas como elas se apresentam ser.

sábado, dezembro 23, 2006

Reencarnação/Ressuscitação 2

Querer (não é só dizer) que nem um cabelo mude numa determinada pessoa, ou melhor, nem se quer conceber a palavra mudança em relação ao que quer que seja em alguém, e não o sentindo por indiferença ou passividade emocional, revela que tipo de estado afectivo?

Quando Cristo afirmou que um dia todos ressuscitaríamos, sabia, com certeza, que esse todos implicava mesmo todos, e os todos com o seu tudo que define cada um. E ele há cada um… Mas quem consegue estar assim tão apaixonado pelo um de cada um? Quem consegue aceitar a humanidade personificada de forma tão radical? Se na vida tudo se opera pela mudança, quem prefere que nada mude numa pessoa por toda a eternidade? Só pode ser os que estão apaixonados, os que amam profundamente alguém, os que temem mais do que perder a sua própria vida perder a vida dos amados, os que mais do que darem a sua própria vida, querem a vida eterna dos que amam. Uma e outra vez, e para sempre, tal e qual como eles só, e sem que um só cabelo mude sequer.

Platão, pela personagem de Sócrates, ensina-nos no Fédon que imortal só a alma, e que essa incarna numa forma, humana ou não, tantas quantas forem as vezes necessárias para adquirir um elevado grau de virtude e de inteligência. É uma concepção mais cáustica no que à natureza da pessoa diz respeito. Platão, como Sócrates, o pedagogo, quer o que cada mestre quer, a saber, mudar, moldar, aperfeiçoar a natureza do seu discípulo. Mesmo se amado, um discípulo é um aprendiz, um ser imperfeito, inacabado, que urge alterar para corresponder a uma forma exemplar, precisa de ser realizado tendo por modelo um projecto entendido como lhe sendo superior e que ele procurará, se aceitar a autoridade daquele que sabe, ou da ideia que guia o plano do mestre, executar. A reencarnação é pois exemplo de uma teoria que vê na pessoa de cada um a existência de uma parte imortal, a alma, a quem é dada uma outra parte, que é o corpo, que a aprisiona à materialidade, mas que também lhe permite manifestação, numa luta pela emancipação das partes. É um processo que assume que não só quer mudar algo na pessoa, como exige essa mudança.

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Reencarnação/Ressuscitação 1

Nick Cave - 01 - "Into My Arms" (LIVE)
música do disco "The boatman`s call" de 1997.

Escolhi a cadeira vermelha.

Sublinho, porque vou precisar desta frase, a ideia de Nick Cave: "Not to touch a hair on your head/To leave you as you are"

quinta-feira, dezembro 21, 2006



Das três hipóteses vou escolher uma: 1. O que dizia Antero? Que verdades eram aquelas que homens inteligentes ouviam sem delas, ou do autor que as enunciava, duvidar? Que sentido tinha o estado de discípulo então por contraposição ao ser discípulo hoje?; 2. Utopia; 3. Reencarnação/ Ressuscitação.
Eu já sei onde me vou sentar nos próximos dias.
"Three Chairs with a Section of a Picasso Mural" 1970 (100 Kb); Acrylic on canvas, 122 x 152.4 cm (48 x 60 in);

quarta-feira, dezembro 20, 2006

utopia 2

"Se os oásis utópicos se secarem, surgirá como substituição um deserto de banalidade e de perplexidade. Eu não saio da minha tese segundo a qual o facto da modernidade dever encontrar nela mesma as suas próprias garantias é estimulado, hoje como ontem, por uma consciência da actualidade na qual se confundem pensamento histórico e pensamento utópico.”
Jürgen Habermas, Écrits Politiques, p. 124.

Ao tomar-se consciência dessa intercessão entre o pensamento histórico e o pensamento utópico, estaremos salvaguardados das tentações messiânicas em política? Se Habermas reconhece que sem energias utópicas a consciência da história embrutece pela banalidade, quando não se imola no estado de permanente perplexidade perante o real a que não sabe dar sentido, saberá também o autor onde se encontra o ponto de equilíbrio entre o que são as possibilidades de um tempo futuro e a estrutura do nosso tempo?

Eu julgo que sim, que ele sabe. Mas afirmá-lo é-me fácil de mais. Demasiado interessada na defesa das suas teses, portanto. Daqui a uns tempos terei que aqui voltar.


Mais novecentas escolas primárias vão fechar. Os pragmáticos perguntam-me: Mas achas racional elas continuarem a funcionar com tão pouco alunos? Eu respondo-lhes que não, realmente, se queremos um país entendido como plataforma de turismo, até podemos vir cá só no fim do mês para vir buscar as rendas das casas que alugámos a turistas sazonais, e ir viver para outro lugar qualquer. Geralmente estes pragmáticos de aldeias só conhecem as do pai Natal.

terça-feira, dezembro 19, 2006

islamo-fascismo/islamo-bolchevismo

“Li todas as declarações públicas que Osama Bin Laden fez antes e depois do 11 de Setembro e o mais espantoso nelas é o facto de serem essencialmente declarações de um revolucionário. Reflectem um desejo de mudar a ordem mundial, são anticapitalistas e acusam explicitamente os Estados Unidos de terem interesses imperialistas e económicos em dominar o Médio Oriente. Em muitos aspectos, a Al-Qaeda é como o partido bolchevique da Rússia pré-revolucionária: é uma rede relativamente pequena e bastante fragmentada, capaz de levar a cabo ataques terroristas. (…) O que é interessante é que este programa revolucionário no seio do mundo islâmico seja em geral tão mal interpretado no Ocidente como sendo islamo-fascista. Mas não há nada de fascista naquilo que Bin Laden tem em mente. O islamo-fascismo é uma daquelas categorias absolutamente enganadoras. É mais adequado dizer islamo-bolchevismo, no sentido em que se trata de uma organização revolucionária internacional, enquanto o fascismo tinha tudo a ver com o Estado-nação.”

Entrevista a Niall Ferguson, in Revista Tabu do semanário Sol, 16-12-06, p. 72.
Pessoalmente entendo o movimento fundamentalista islâmico como sendo uma ideologia herdeira a ocupar o lugar que o comunismo soviético tivera no mundo como polo aglutinador das críticas radicais ao anticapitalismo, lugar que ficara por momentos vazio. Mais do que islamo-bolchevismo procuraria arranjar um termo que desse conta desses propósitos políticos internacionais manifestos na vontade de criação de uma nova ordem mundial, mas com assento num texto religioso. Procuraria arranjar, mas não arranjei.
Mas muito gostaria de assistir à troca de argumentos entre os defensores da denominação de islamo-fascismo por oposição aos defensores do termo islamo-bolchevismo. Sendo que melhor sou capaz de defender a tese de Niall Fergunson.

O fim dos exames de Filosofia

"O fim dos exames de Filosofia está a ser muito criticado pelos especialistas da área, sobretudo pelas consequências negativas que teve nas salas de aula. Ricardo Santos, da Sociedade Portuguesa de Filosofia, diz que a decisão tomada há um ano pelo Ministério da Educação foi "um golpe" no progresso que o ensino da disciplina vinha a registar.
"Muitos colegas meus testemunharam que a suspensão mudou as práticas nas escolas. As provas tinham contribuído para alguma homogeneidade no ensino da disciplina, mas tudo isso foi posto em causa." (...) Ricardo Santos entende o objectivo do ministério de separar a formação do secundário do acesso ao superior. O problema, são as implicações: "Com exame, se o professor falta muito ou se atrasa na matéria, os alunos reclamam. "Sem prova, só são avaliados em função do que aprendem. E quando menos melhor." in "Diário de Notícias"
Autor: Filomena Naves,
Pedro Sousa Tavares
Data: 15-12-06
Pág.: 20 a 21
Ora bem, o que é que um representante da Sociedade Portuguesa de Filosofia tem a dizer sobre o fim dos exames em filosofia...vamos lá ler, aqui está. Ah, ficamos a saber que esse facto vem distorcer um propósito de homogeneização da disciplina e recompensar esses professores parasitas que andam para aí a faltar muito e a poderem agora atrasarem-se na matéria a leccionar sem que os petizes os caustiquem, pois se não têm exame... como fiscalizar o professor ronceiro? Trastes dos professores.
Eu li bem? Foi um representante da Sociedade Portuguesa de Filosofia a falar? E só tem isto para dizer? A homogeneização dos conteúdos disciplina, e a suposta perda de fiscalidade dos professores de filosofia pelos seus alunos no futuro, é o que o preocupa? Está tudo dito do espírito homogeneizado da época que estamos a viver.
Valha-nos ao menos uma pergunta que Maria Cândida Proença formulou no seu livro e que podia servir para começar a reflectir sobre o caso actual da Filosofia no Secundário. Pergunta ela, devido à análise do currículo nos anos de formação escolar de D. Manuel II: "Mais difícil de explicar é, porém, a ausência do estudo da filosofia, disciplina obrigatória para os alunos oficiais do mesmo nível. Como se explica que a educação do infante tenha sido descurada nesta área, tão importante para o conhecimento da evolução do pensamento humano e das grandes correntes que influenciaram o seu tempo?", D. Manuel II, p. 22
Eu gostaria muito que se tivesse avançado com uma explicação, mas a autora também não a consegue dar, até porque, o que acentua a estranheza, e como reconhece Proença, essa disciplina tinha sido estudada por D. Carlos e D. Afonso. Quem, e porquê, terá ordenado que se retirasse essa disciplina do programa de estudos do último monarca de Portugal?
Quem realmente está a dar ordens para se retirar agora à Filosofia o papel que ela tem tido como disciplina nuclear no ensino secundário em Portugal? Porquê? E se, pondere-se, quem está a propor o fim dos exames quer dar espaço à filosofia e liberdade de actuação aos professores de filosofia, para romperem com essa homogeneização artificial do ensino e do pensamento? Revelo com a questão, aleivosia, esperança idiota, ou inconsciência do sentido dos poderes sociais?
Poderes homogeneamente sorrateiros. Quando lhes tocarem nos interesses acordarão.

segunda-feira, dezembro 18, 2006

como um discípulo. e para sempre assim me conservei na vida.

"Olhe, deixe-me ver, foi aí por volta de 1862 ou 63, numa noite macia de Abril ou Maio. Atravessando lentamente, com as sebentas na algibeira, o Largo da Feira, avistei sobre as escadarias da Sé Nova, romanticamente batidas pela lua, que nesses tempos ainda era romântica, um homem de pé, que improvisava. A sua face, a grenha densa e loira com lampejos fulvos, a barba de um ruivo mais escuro, frisada e aguada, à maneira siríaca, reluziam aureoladas. Parei, seduzido, com a impressão que não era aquele um repentista picaresco ou amavioso, como os vates do antiquíssimo século XVIII - mas um Bardo, um Bardo dos tempos novos, despertando almas, anunciando verdades. O Homem com efeito cantava o Céu, o Infinito, os mundos que rolam carregados de humanidades, a luz suprema habitada pela ideia pura... Deslumbrado, toquei o cotovelo dum camarada, que murmurou, por entre os lábios abertos de gosto e pasmo: «É o Antero!». Então, perante este Céu onde os escravos eram mais gloriosamente acolhidos que os doutores, destracei a capa, também me sentei num degrau, quase aos pés de Antero que improvisava, a escutar, num enlevo, como um discípulo. E para sempre assim me conservei na vida."
Eça de Queirós, "Um génio que era um santo" in Notas Contemporâneas, edições livros do Brasil, Lisboa, pp. 285.

domingo, dezembro 17, 2006

Utopia

A minha amiga Ayetsa enviou-me um texto da sua Venezuela para eu ler. É um texto apologético de uma certa ideia de Hugo Chávez. O que, pessoalmente, me deixa indiferente. Em democracia há os discursos dos apoiantes e há o dos opositores. Movimento natural do pêndulo político que, por não querer pensá-lo quanto à sua origem e natureza, não posso deixar que me afecte agora. Não aprecio o estilo do texto, mas não é ele que me provoca a escrita, e sim o seu conteúdo. O dito texto é escrito com um discurso que exalta a ideia de que uma nova época vai começar na América do Sul em geral e na Venezuela em particular (mas Chávez é eleito agora pela primeira vez? Não teve já tempo de ter começado antes o que quer que tenha prometido desse futuro novo?), a época do bolivarismo (os portugueses reconhecem bem este território nebuloso da espera de uma figura mítica) que, no caso de uma parte da América Latina, se manifesta na assunção de que confluem as circunstâncias necessária para um ressurgir dos valores ditos ser os que estariam encarnados na figura do libertador Bolívar, que, segundo Cifuentes, sempre procurou transformar a utopia em realidade. E que utopia era essa? A “maior suma de felicidade para o povo”.

Folclore Chavista à parte, porque eu não sei se os valores do discurso político da América Latina não reflectirão exactamente um tipo de simbolismo mágico-religioso da sociedade em questão e que no ocidente seria considerado anacrónico (para dizer o mínimo), sem querer com isto revelar uma atitude condescendente para com o fenómeno, e sendo certo que a mim jamais me convenceriam a votar num indivíduo que utiliza o tipo de discurso maniqueísta de Chávez, o que não me impede de respeitar quem o faz, não deixo de me interessar profundamente por políticas que visam suprimir a miséria no mundo. Mas chegada a este ponto começo a divergir em tudo o mais. A utopia, tema que me é caro, é um nível intelectual de exigência para a acção e para o pensamento, e não um modelo passível de ser transmutado em realidade. A utopia, nos autores que Cifuentes cita, como a utopia de Platão, de More e de Campanella (e que diferenças há entre estas propostas a utopias) são ideias que servem para gerar outras ideias com o intuito de regular modelos de acção. Procurar que ao invés de gerar ideias a utopia se apresente sim como capaz de gerir ideias e acções é algo que qualquer aprendiz de utopia sabe que dá desordem social na certa. E desordem social destrutiva, não criadora. E porquê? Porque querer realizar uma utopia é como querer realizar uma visão que se tem para o universal sem se preocupar com a reacção do individual. Como se a existência dos indivíduos se diluísse na existência da ideia de indivíduos. E para quem conseguir fazer coincidir a sua acção com a acção proposta, isto é, para quem fizer coincidir a sua vida com a ideia que se tem do que deve ser a sua vida, deve haver alguma exaltação, como se do encontro da pessoa com o seu destino se tratasse, não sei, deve ser exaltante, momento único da história do indivíduo a coincidir com o da história, mas o que acontece a quem não se reconhece nesse modelo e pretende inverter o movimento que impele o grupo, mesmo que em maioria? É eliminado? Em democracia querer realizar utopias é o prenúncio de uma vontade não democrática de governar. Porque a utopia sobrepõe-se à possibilidade de ser discutida. Recusada até, por quem o entender. Ela é profundamente anti-democrática na sua versão operatória, ainda que em democracia ela possa servir como catalizadora de apresentação de projectos sociais e políticos, que, claro, terão que ser postos à discussão de forma ininterrupta. Como eu julgo.
Há quem veja na negociação uma fraqueza da democracia: Os espíritos prepotentes e os desejosos de serem submetidos.
Em democracia a noção de “suma felicidade para o povo” tem que ser escrutinada. Não é possível governar com este propósito ético. Porque a felicidade para o povo é o quê? Alcança-se de que forma? E a sua felicidade é diferente da felicidade para a pessoa?
A suma felicidade parece ser materializada na libertação da exploração do capital e a sua libertação do império, mas que felicidade é esta? Quantos cabem nela e o que se deve fazer para aceder à mesma? Está-se disposto a fazer o quê que se exceda, ou se limite, nos propósitos de um governo democrático num Estado de direito?
E sendo que alguma solução económica a política terá que encontrar para permitir que se acabe definitivamente com as situações de pobreza e que alguma solução política a economia terá que aceitar para que uma sociedade não se estratifique de forma amomível e dominadora. Mas com este discurso não me parece que se vá numa direcção muito reflectida. Há muitos heróis num filme que não deixa de parecer um simulacro de uma qualquer possível realidade heróica. Ainda sem sairem do quintal da casa dos filmes do império. Mas que sei eu, amiga. Só de alguns exemplos infelizes de utopias que se quiseram viver no passado. Bons augúrios para a Venezuela.

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Revolução – autoridade e poder 6

Despedindo-me de Hannah Arendt.

“(…) os homens das revoluções do século XVIII professavam em comum: a convicção de que a fonte e origem do poder político legítimo reside no povo.. Na verdade, esta concordância era meramente aparente. O Povo em França, le peuple no sentido da Revolução, não estava nem organizado nem constituído; quaisquer que fossem os “organismos constituídos” existentes no Velho mundo, dietas e parlamentos, ordens e classes, eles assentavam no privilégio, no nascimento e na situação. (…) Para o século XVIII, tal como, antes dele, para o XVII e, depois dele, para o XIX, a função das leis não era propriamente a de garantir liberdades, mas a de proteger o direito de propriedade; era a propriedade, e não o direito como tal, o que garantia a liberdade. Só com o século XX o povo ficara exposto, directamente e sem qualquer protecção pessoal, às pressões quer do estado, quer da sociedade; e foi apenas quando o povo se tornou livre, sem possuir propriedades que lhe protegessem as liberdades, que as leis foram necessárias, a fim de protegerem directamente as pessoas e a liberdade pessoal, em lugar de se protegerem apenas os seus direitos de propriedade.”

“O grande problema em política, problema que eu comparo ao de realizar a quadratura do círculo em geometria (…) [é saber] como encontrar uma forma de governo que coloque a lei acima do homem.” Rosseau

“E os homens da Revolução Americana não se viram menos confrontados com este problema, que apareceu sob a forma de necessidade urgente de um absoluto, do que os seus colegas em França.” Arendt, pp. 222-227.

E os políticos e os filósofos contemporâneos também não se vêm menos confrontados com este problema. Que o digam Apel, Habermas ou Rawls.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

luz

Como é que se pode continuar a ser crítico sem que isso represente uma traição? Tende-se a confundir a crítica com maledicência. Porque nos sentimos tão agastados com a primeira? É como se a alternativa fosse entre a perpétua mentira e a perpétua mágoa.

Nas famílias isso dá episódios caricatos. Há quem defenda os seus contra tudo e contra todos não importa as acções ou as circunstâncias, e se assanhe com algo que um estranho ou um familiar menos aceite possa realizar. Sendo que esse espírito de clã, tão sublinhado nos filmes americanos de 1 mas também nos de 5 estrelas, revela de princípio de unidade e de protecção do indivíduo pelo grupo mas também de falsidade. Mas se não fosse a história de família, que se confunde na nossa mente com os dias solarengos da infância, e esta falsidade cortesã, o que seria dela na maior parte do tempo?

Em relação aos países ocorre fenómenos semelhantes. Há quem os atraiçoe de forma imponderada debitando misérias pátrias em terras de outros, ou generalizando erros em terras próprias, e há quem esconda, por detrás de uma adesão emocional sem reservas, qualquer crítica ao seu torrão. E no entanto, há ainda os proscritos de um lado e do outro, os que dizem que preferir é conhecer. E conhecer é conhecer a coisa amada, mas também em perspectiva com todos os outros, e os outros perspectivados pelo amor à coisa. Não é melhor, nem tem que ser pior. É mais desconfortável e mais dura esta lucidez. E será ela verdadeira ou simplesmente malcriada, ou, então, apenas isso, lucidez?
É muito difícil quando não se tem um livrinho com regras aceite universalmente, e ter que pensar autonomamente. Como todos os filósofos o souberam e Kant tão bem explicou.
"Semear preconceitos é muito pernicioso, porque acabam por se vingar dos que pessoalmente, ou os seus predecessores, foram os seus autores. Por conseguinte, um público só muito lentamente pode chegar à ilustração. Por meio de uma revolução poderá talvez levar-se a cabo a queda do despotismo pessoal e da opressão gananciosa ou dominadora, mas nunca uma verdadeira reforma do modo de pensar. Novos preconceitos, justamente como os antigos, servirão de rédeas à grande massa destituída de pensamento."
Kant, "Resposta à pergunta o que é o iluminismo?", in A Paz perpétua e outros opúsculos

terça-feira, dezembro 12, 2006

Munícipes, nós?

Primos?

Há no filme Coffee and Cigaretts duas histórias interessantes. Gosto muito da história contada em "Champagne", que é perfeita, e gosto da história de "Cousins?" que é sarcástica quanto baste com o fenómeno social dos amigos de ocasiões. Esta história versa sobre um encontro num café entre dois homens que nunca se viram antes, sendo que um deles, Alfred Molina, actor, mostra-se entusiasmado com a relação de parentesco que descobriu ter com o outro, também ele actor e de nome Steve Coogan. Este, pelo contrário, vê a simpatia e o empenho do outro em estabelecer uma relação de proximidade como sendo um comportamento desagradável e perturbador da imagem que tem de si. Mostra-se altivo, indiferente, procura inequivocamente não voltar a encontrar mais o sujeito que ali se diz seu primo e que, de forma percepcionada como inoportuna, avança com projectos para trabalharem juntos num filme. Quando finalmente Molina se apercebe, os sinais são inequívocos, do enfado do seu primo Coogan, toca o seu telemóvel. Molina saúda em voz alta, de forma descontraída e informal, o conhecido realizador Spike Jonze. Koogan endireita-se e percebe agora que aquele súbito primo talvez tenha algum interesse. É a vez de Molina perguntar: Primos, nós?
- Say isn`t true - Taylor Mead
_ Say what isn`t true? - Billy Rice
- Never, never, never mind. - Taylor Mead


Coffe and Cigarettes


"champagne"

domingo, dezembro 10, 2006

Pinochet. Com que paz vão os vivos ficar?


Ponho-me a imaginar aqueles pais que têm ainda os seus filhos dados como desaparecidos no Chile. E os filhos que foram afastados dos seus pais e que nunca mais souberam como os encontrarem. Nos amantes e nos amigos que não sabem da pessoa amada que um dia foi levada e nunca mais deu sinal de si. E penso, com horror, que ver morrer este homem deve ser como ver morrer um carcereiro que leva consigo a chave que permitia a hipótese, frágil e remota, mas ainda assim uma hipótese de entreabrir a porta do conhecimento que desse para um lugar onde se descobrisse o corpo da pessoa procurada. Agora que o ditador morreu, que conciliação interior se encontrará no não saber cada vez mais espesso que paira sobre esses lugares onde se encontra o ausente? Quem conseguirá dormir em paz?

Educação

Tinha pensado em procurar não escrever mais nada sobre o estado actual da educação. Porque me sentia demasiado envolvida, demasiado interessada, demasiado comprometida e receava que os meus interesses se sobrepusessem à minha objectividade. De mim para mim. E mesmo que procurasse distinguir algumas coisas boas das pouco que tenho encontrado na que imaginamos ser a actual actuação da equipa ministerial, relativamente à exigência de avaliação, que, ver-se-á, será outra fraude, mas está bem, tudo o resto me revolve a mente ao ponto de eu saber que se continua a comprometer o ensino de uma maneira que os portugueses nem sabem o quão grave é, iludidos que bastará pôr na linha os madraços que por ali andam a ser pagos pelo erário público, sufocando-os a todos com uma espiral de deveres milimétricos controlados pelo poder central, para que as coisas mudem. Não vão mudar, mas vai haver ginástica numérica suficiente para termos números com algum sucesso (os alunos do secundário não precisam de o terminar, porque se tiverem mais de 23 anos há uma universidade ali de braços abertos), os que não terminaram o básico, porquê agora não irem para o secundário, vão ver que não lhe fez falta nenhuma não terem passado pelos anos de ensino anteriores, inscrevam-se, façam número). Ah, e tudo isto em nome da qualidade. Não é por estratégia financeira, não senhora.
E depois falam de autonomia, senhor!, de autonomia mas só económica, que tudo o resto é para manter de rédea curta não lhes dê para ensinarem o que não se prevê.
Mas eis que o poeta escreve. Ou escreveu o professor universitário, não sei. Ou os dois, enfim.

“Algumas palavras” por Joaquim Manuel Magalhães

“(…) O ensino secundário português começou a ser estragado por Veiga Simão. Culminou com Roberto Carneiro e os seus esquecimentos bem calculados do ensino público. (..)
A prioridade do ensino deixou de ser transmitir saberes. Hoje culmina em planificações de um pouco de vazio no máximo tempo possível. Ouvindo-se a palavra planificar, imediatamente sabemos que as chamadas pedagogias e didácticas passaram a ter o domínio sobre os conteúdos de cada disciplina e gerou-se uma complicação de saberes sem saberes, que consiste na aplicação de umas grelhas às quais se junta um cuspo de meditações bacocas nunca se percebe bem sobre o quê. Um professor de biologia tem de saber biologia? Não. Tem de saber planear umas aulas que se encaixem num programa oficial que enumera o que da biologia basta saber. Houve uma conjura que não foi só desta situação a que se chama ministra; resultou de vários anos de fermentações bem calculadas de que ela se apoderou.

(…) Não foi por acaso que ninguém se preocupou com os conteúdos dos saberes. Apenas se ouvia um zumbir ou silvar (por entre torvos cálculos) umas vagas conjuras que pouco se entendiam. (...)

Será ministério o que podemos chamar ao mero cruzamento (basta que somem as disciplinas controladas por esta espécie de repelência) de panóplias estratégicas? (…)

Da filosofia à educação visual, da língua estrangeira à química, de todos a cada um, pergunte-se: têm vontade de sempre ler e estudar o que lêem? Têm dinheiro para isso? Têm tempo vosso para poder dar um lato conseguimento aos vossos alunos? É da educação o vosso ministério?”
in "Expresso", Revista Actual, de 8 de dezembro, p.54.