terça-feira, abril 10, 2007

A educação das crianças

No blogue O Diplomata é feito um link a um interessante artigo escrito no passado dia 6 de Abril por Polly Toynbee, publicado no Guardian Abroad, no qual ela reflecte sobre o papel da mulher na sociedade inglesa em particular, e no mundo em geral. O ponto de partida foram as reacções políticas à detenção da marinheira Faye Turney, mãe de uma criança pequena, quer no Irão quer na Inglaterra. Estas reacções, sobretudo as de comentadores ocidentais, levaram Toynbee a escrever sobre a luta pela emancipação das mulheres que está longe de poder ser declarada como terminada, já que ciclicamente voltam as questões sobre a perda de valores familiares relacionada com a saída das mães para o mercado de trabalho, que se julga ter como efeito levar à desagregação social. Argumento ao qual ela contrapõe: "Sweden and other Nordic countries, who have had good universal childcare for decades, don't do it on the cheap. The UK spends less than half what they spend: half their childcare staff have degrees. No research suggests the Nordics have been turning out generations of sociopaths: their children score at the top of wellbeing charts where the UK is at the bottom. Who would doubt that long hours in cheap nurseries are bad for children?
But watch how this research is used by the "send-mothers-home brigade" and the Tories who want to cut back costs on under-fives. It is a reminder of how precarious still is women's progress, always obliged to defend small gains, from abortion laws to the right to work: it's painfully easy to terrify mothers about their children. Meanwhile the CBI resists longer maternity leave, the right to flexible working hours for all parents or raising the minimum wage, which mostly helps women. The 17% gap in women's pay keeps mothers poor, their traditional but vital caring jobs valued less than men's work just because traditionally low-paid women do it. And how has it come about that unbearably destructive pressures on girls to be beautiful are worse, not better, than 20 years ago?
Leading Seaman Turney is no doubt typical of the 10% of women who make up the armed forces, and she probably thought old battles about gender discrimination long won. But she will get a shocking reminder to the contrary when she reads what has been said about her. It will be a reminder that the women's revolution is still less than half-won."

Os educadores e a sua tutela

"A violência contra professores e profissionais de saúde vai ser crime de investigação prioritária na próxima versão da proposta de lei da política criminal para o biénio 2007/2009."
E quem o terá proposto, os ministros da tutela? Vá, pelo menos alguém do Ministério da Educação, já que são os profissionais da educação aqueles que mais têm sofrido agressões, e que gostariam que alguém tomasse francamente a defesa da integridade e dignidade das suas pessoas no exercício da suas funções? Não. Os professores não devem a ninguém do se Ministério este interesse ou proposta mas sim à "(...) actual procuradora-geral distrital de Lisboa que no CSMP chamou a atenção para a omissão daquele crime no rol das prioridades da futura lei de política criminal. "Os dados recentemente tornados públicos em matéria de violência dirigida a membros de comunidades escolares e a profissionais de saúde em exercício de funções ou por causa destas, tornam difícil a compreensão do não enquadramento dessas situações nas prioridades definidas no âmbito de uma política criminal de conjuntura, que elege os actos de violência contra as pessoas como meio de cometimento de crime a reprimir particularmente", defendeu Francisca Van Dunem, sendo a posição subscrita por oito conselheiros daquele órgão." no Jornal de Notícias.
É uma situação irrelevante esta de saber quem é a autora da proposta?

segunda-feira, abril 09, 2007

A educação dos governantes

Depois de ouvir o senhor Ministro Mariano Gago, ainda faz mais sentido citar o artigo de Francisco José Viegas, porque todas as respostas ficaram por dar sobre o sentido de universidade na sociedade portuguesa, mesmo se uma instituição universitária de cariz privada, sendo que o mesmo não quer dizer "de carácter arbitrário":
"Evidentemente que é bom, para a democracia, saber em que condições e sob que condições foram emitidos os títulos de licenciatura do primeiro-ministro.
O problema é, também aqui, outro e inteiramente diferente - tem a ver com a interessantíssima ligação entre os dirigentes políticos, os partidos, e as universidades privadas que nasceram como cogumelos nos anos oitenta e noventa. Quem não se recorda dos nomes de políticos a quem nenhum ponto do currículo recomenda especialmente e que foram nomeados para postos e cargos académicos de responsabilidade? Paulo Portas e Santana Lopes, por exemplo, passaram pela Moderna como directores de um centro de sondagens. O que os fez merecer o cargo? Professores de jornalismo e de sociologia, de "relações internacionais" e de "comunicação" multiplicaram-se pelo país fora, sobretudo nessas universidades que foram abençoadas por dirigentes políticos, até aí inacreditavelmente incultos ou, mesmo, semi-analfabetos. Era difícil, nesses quadros académicos, não encontrar um dirigente partidário, uma boa representação de deputados ou um grupo de "especialistas em ideias gerais". O que tinham eles feito pelo ensino, pela carreira académica, pela investigação, pela ciência, pelo conhecimento? Nada. Ao contrário de outros países, onde há políticos saídos da universidade e com um currículo aceitável e recomendável, em Portugal fez-se o caminho ao contrário como havia poucos dirigentes políticos com um passado académico que os valorizasse, criavam-se universidades onde eles teriam assento. Estaria resolvido o problema do título académico e garantida a influência da universidade. Façam a lista dos deputados, futuros ministros, secretários de estado, líderes de partido ou de tendência, que receberam esses títulos ou que "ajudaram" a criar universidades. É numerosa. E dá conta de um saudável regime de colaboração multipartidária, registe-se.
E, pergunto, de novo o que fizeram esses cavalheiros e madamas pelo prestígio da universidade? Pouco, que se saiba. Em Portugal, os dirigentes políticos não lêem, não escrevem, não estudam, não investigam. Mas criam universidades e "fazem política". Uns com os outros.
PS - A fim de defender o primeiro-ministro, vários comentadores têm insistido num ponto particularmente sensível à mentalidade democrática actual a de que não é preciso um curso universitário para se ser um bom primeiro-ministro. O exagero compreende-se mas não se aceita e temo pelas consequências: como se pode explicar às "novas gerações" que não há necessidade de estudar? Um título académico não é uma página da "Caras"."
Francisco José Viegas "A boa e a mávida académica" no Jornal de Notícias

A educação de um teórico e revolucionário: Lenine 1

Sobre o que eu queria escrever não consigo escrever. Assim vou dissertar sobre o livro que comecei a ler. A biografia de Lenine de Robert Service publicada pela Europa-América em 2004.

O que mais relevo nesta biografia é a preocupação do autor pela educação de Lenine, sobretudo com os livros que Lenine leu e que possam de certa forma explicar as opções ideológicas e as atitudes do revolucionário que procurou criar e justificar a existência de um estado de um só partido.

“Todavia, é notável que o livro mais apreciado por Vladimir {Lenine] descrevesse não a Rússia mas os EUA. Isso ia de encontro ao desejo dos seus pais de se manterem, e aos seus filhos, afastados de discussões perigosas sobre a vida pública russa. Se assim era, eram um pouco ingénuos. A Cabana do Pai Tomás continha ideias de significado universal; o seu estilo sentimental comunica ideias de dignidade humana universal. Quando tentamos pesquisar as origens da visão política de Vladimir, deparamos frequentemente com as suas leituras no final da adolescência e no início da idade adulta. Concentramo-nos em Tchernichevski, Marx, Plekhanov e Kautsky. Mas devemos lembrar-nos que, antes desses autores russos e alemães marcarem a sua consciência, uma mulher americana – Harriet Beecher Stowe – tinha já influenciado a sua jovem mente.” p. 74


Ao longo da biografia iremos ver que Service tem a preocupação de contextualizar as decisões de Lenine no quadro de influências teóricas das leituras que escolheu, ou para si foram escolhidas, e formaram as suas ideias. Esta é a pergunta que devia ser feita a qualquer estadista ou a qualquer aspirante ao cargo: Quais foram os livros que leu? Os que verdadeiramente leu, e não aqueles que os seus assessores de imagem gostaria de dizer que você leu?
Senão sob a forma de uma pergunta, então sob a forma de uma pesquisa jornalística. Quais foram os autores/livros que condicionam o comportamento dos candidatos?
Pensar-se-á talvez que a indicação de uma licenciatura obtida determinará por si o tipo de formação que cada um terá recebido. Mas não é uma informação suficiente. A leitura não releva, nem revela, só o percurso público estatuído num programa liceal ou universitário, mas também dá conta do circulo do privado com que cada um vai formando as suas explicações sobre os fenómenso ou descobrindo as palavras que melhor descrevem a sua realidade. Dai a importância deste biografia de Robert Service ao sublinhar o papel das leituras na formação da pessoa Lenine.
Há quem se sinta muito satisfeito por não se proceder à exumação dos restos mortais de D. Afonso Henriques para efeitos de uma investigação académica. Não percebo em que é que o imobilismo institucional e o “não se deixa mexer em nada” contribuem para aumentar o respeito pelo nosso primeiro estadista. O que é perturbante será sempre a ignorância e o desconhecimento que contribuem para o obscurantismo acerca da figura. A investigação científica rigorosamente orientada só poderia contribuir com mais informação, logo, mais reconhecimento pela admirada figura secular que tutela a nossa identidade nacional. São estes trejeitos de clausura da informação que asfixiam a existência.

quinta-feira, abril 05, 2007

A arte de fazer a paz

Irão
"A diplomacia funcionou. Inaceitável! Inconcebível! Inadmissível!
(...) E, acima de tudo, os belicistas de um lado têm os belicistas do outro, que tudo farão para que desilusões destas não se voltem a repetir.
Para os restantes, contudo, foi um bom dia neste planeta. (...)"

Rui Tavares, "Inconcebível! Inaceitável" no Público

Iraque
"Estávamos em 2003, o país inteiro era a favor da guerra, os media eram a favor da guerra. Lembro-me de chegar a Bagdad e haver, finalmente,combates a sério. Eles [os americanos] mataram civis e havia muita gente morta, fotografei tudo isso. Três dias depois, a estátua [de Saddam] veio abaixo. Eu mandei umas 70 fotografias para a Times, o que é bastante, os editores disseram-me: "não vamos usar as tuas fotografias esta semana". Queriam fotografias de crianças com flores à volta dos soldados. "Tens alguma coisa assim?" E eu respondi: "Nem sequer vi nada assim!"
Christopher Morris, fotojornlista de Guerra em entrevista ao Público.

quarta-feira, abril 04, 2007

ríctus de poder 3

"(...) Researchers led by the psychologist Dacher Keltner took groups of three ordinary volunteers and randomly put one of them in charge. Each trio had a half-hour to work through a boring social survey. Then a researcher came in and left a plateful of precisely five cookies. Care to guess which volunteer typically grabbed an extra cookie? The volunteer who had randomly been assigned the power role was also more likely to eat it with his mouth open, spew crumbs on partners and get cookie detritus on his face and on the table. (...)"

Por Richard Conniff, autor do The Natural History of the Rich. New Iork Times


Pois, a experiência também já nos tinha feito perceber este impulso, mas... é necessariamente assim? Indubitavelmente? Triste imagem. Será sempre verdadeira?

economia a crescer e democracia anestesiada

Li no La Tribune.fr que Angola, Mauritânia e Moçambique representaram em 2006 os três países com o maior crescimento económico do continente africano. O estudo é da ONU. Regozijei-me com o facto.
Também sublinho o interesse da iniciativa, democrática, espera-se, que reuniu em seminário um conjunto alargado de pensadores que discutiram sobre os objectivos gerais para a sociedade angolana: Agenda do Consenso. Mas não consigo deixar de pensar nos outros números de Angola (a taxa de mortalidade infantil, o número de crianças órfãs ou abandonadas nas ruas, os estropiados pelas minas, o de refugiados sem tecto ou terra, a separação abissal entre os mais ricos e os mais pobres, a corrupção, o abuso de poder, o autoritarismo representado por um estado personalizadamente forte e socialmente fraco).

Convenção sobre os direitos das pessoas com deficiências

O Jornal de Notícias publicou na segunda-feira a notícia da assinatura da convenção internacional sobre os direitos das pessoas deficientes por um número de oitenta e um países e da União Europeia. Não sei como me esqueci de que queria dar destaque aqui a esta informação. Preocupada com o púcaro esqueço o cântaro.

terça-feira, abril 03, 2007

localização de países europeus - jogo

Um colega enviou-me um jogo muito giro sobre os países europeus (dão-nos um país e temos que o "arrastar" para a posição correcta no mapa). Como queria pôr o link aqui e não era possível fazê-lo a partir do e-mail, fui ver se encontrava a ligação na internet e aí descobri esta página com jogos (Aprender a Europa) também interessantes mas não tanto quanto este outro que tem vários níveis. Eu, no nível três, que era o que me foi enviado por defeito, acertei 35 em 46 vezes, num tempo de 513 ss. Uma lástima. Mas uma lástima divertida. Jogos de geografia mundial num site verdadeiramente fantástico.

Artº 2 nº 4 da Carta ou o tempo das decisões sábias para a Inglaterra. E difíceis para o mundo.

"(...) For all the hard words coming out of Jerusalem, it seems as difficult for Israel as for the United States to find credible military means of stopping the Iranians. A veteran British strategist, by no means a soft touch, said to me with a sigh this week, “It looks as though we must accept that however painful are the consequences of living with a nuclear-armed Iran, this is preferable to the consequences of trying to stop such an outcome by force, and failing.”
In the eyes of many Americans, such words represent characteristic European pusillanimity, indeed appeasement. But some of us suggested when the 2003 Iraq invasion was launched that it could result in a drastic diminution of the West’s ability to address graver threats from Iran and North Korea. So it has proved.
We must keep talking to the Iranians, offering carrots even when these are contemptuously tossed into the gutter, because there is no credible alternative. Even threats of economic sanctions must be considered cautiously. Their most likely consequence would be to feed Iranian paranoia, to strengthen the hand of Tehran’s extremists. A state of declared Western encirclement could suit President Ahmadinejad very well indeed.
No sensible Westerner, committed to the pursuit of international harmony, could welcome any of this. Iran represents a menace to the security of us all, not to mention what it must be like to live under that reprehensible regime. But, in the wake of the Iraq catastrophe, never has the overwhelming military power of the United States seemed less relevant to confronting a large, relatively rich nation that enjoys considerable grassroots support in the Islamic world for its defiance of the West.
No matter how it ends, the seizure of the British sailors is likely to be viewed by most of the world as an Iranian victory. Thus it is unlikely to be Iran’s last affront to us. It is not the American way, but only patience, statesmanship and a refusal to respond in kind to outrageous behavior offer a chance of eventually persuading this dangerous nation to join a rational universe."
Max Hastings, "Iran, The vicious victim" no "The New Iork Times".
is the author, most recently, of Warriors: Portraits From the Battlefield.

sensibilidade democrática 3

As atitudes e os pensamentos herdam-se ou é possível criar tudo de novo?

segunda-feira, abril 02, 2007

sensibilidade democrática 2

Onde assenta a autoridade de quem critica os actos dos governantes? Em pressupostos teóricos-políticos da cultura anglo-saxónica? Nas formação educacional familiar? Nos valores tradicionais portugueses? Quais? Para além do código legal, que delimita a esfera dos comportamentos legais, que outra esfera regula os comportamentos, ajudando a formar governantes/funcionários atentos e comprometidos profissionalmente com a causa pública?

Para além do comportamento individual que se manifesta no discurso público, onde nasce a autoridade daquilo que é dito ou feito? 1. Na legitimidade conferida pelo reconhecimento dos pares? 2. No elevado(?)número dos que lêem, ouvem, divulgam ou citam o crítico? 3. Em pressupostos éticos abstractos? Em modelos de educação e de comportamento reconhecidos tradicionalmente como garantias de equilíbrio e de boa formação para o serviço público (em que escolas, com que programas)?

cinismo/realismo

Li hoje uma frase que me deixou em suspenso, num contexto onde se explica que a legitimidade da acção política (seja a que nasce da adequação a um princípio abstracto, seja a que nasce do consentimento público) é como uma forma eficiente, e cínica, de explicar o monopólio da força e da violência por parte de um Estado:”The person over whom power is exercited is not usually as important as other power-olders.”
Foi Arthur Stinchcombe quem a escreveu, retirada do seu livro Constructing Social Theories, p. 150.

domingo, abril 01, 2007

sensibilidade democrática

Recebi um e-mail político-humorístico. Uma montagem fotográfica a partir da figura do nosso Ministro da Economia que posava junto de duas tabuletas em que uma direccionava para a internacionalmente conhecida região do “Allgarve”, essa verdadeira criação política do nulo interesse público, e a outra, apontando à figura, indicava a direcção de “pedaço de asno”. Com o riso fácil, mesmo sabendo que soes e pouco lúcido, ainda quis pensar no modo como é que eu percepciono o que se faz em Portugal quando se crítica os actos dos governantes.

Tomarei por base o artigo escrito de Vasco Pulido valente no "Público" de hoje e a intervenção de Marcelo Rebelo de Sousa na RTP1, também de hoje.

Quando não pelo riso e pelo evidenciar do caricato do tema ou da acção, técnicas utilizadas pelos humoristas, o que fica à disposição dos críticos das acções dos políticos são as figuras da ironia, do sarcasmo, da repreensão ou do elogio presentes numa exortação, do apontar algo ou alguém como exemplo, de alvitrar ou recusar um modelo de acção, de sugerir alternativas, de estimar propostas ou pessoas defendendo-as num quadro que se pretende defensável argumentativamente.

Vasco Pulido Valente utilizou o sarcasmo para falar na dita sensibilidade democrática dos nossos parlamentares que só acordam para as questões dos direitos públicos quando estão em causa os seus direitos privados, servindo, para o caso, o exemplo da proibição de fumar no parlamento que terá feito despertar os nossos representantes para a defesa da sua (que devia ser nossa) liberdade de usufruir de um direito que era o do Estado não interferir com legislações draconianas sobre assuntos que a ele não lhe devem dizer respeito.
Sarcasmo e ironia são, aliás, as figuras que estruturam na generalidade as críticas de Pulido Valente. É uma forma pedagógica que tem valor não só por si, o evidenciar do ridículo ao superlativar um pormenor ou ao enfatizar um comportamento que passaria inobservado como coisa inócua, mas também pela autoridade de quem o usa, que lhe dá um uma garantia de auditório que outro qualquer, utilizando essa figura de estilo por utilizar, não teria. O sarcasmo é geralmente percepcionado como um insulto, e é talvez das figuras que mais gera confusão pela incompreensão do próprio sentido. É a atitude de quem utiliza o seu discurso para aproximando-se do semelhante dele se diferenciar, radicalmente.

Marcelo Rebelo de Sousa, o professor, usa o discurso crítico como forma de evidenciar pessoas, ideias ou acções que avalia e apresenta como exemplos a seguir ou como modelos a evitar. É o pedagogo que julga e destaca, que utiliza a sua autoridade para avaliar. Exactamente como Pulido Valente, também Marcelo Rebelo de Sousa é escutado não pelo uso que faz do discurso nas figuras que escolhe utilizar, mas pelo que acrescenta à realidade nas descrições que faz dela. O que fez ele hoje quando se falou sobre o Presidente do Tribunal de Contas, e numa semana em que esta instituição foi responsável por um conjunto polémico de informação sobre o estado das contas públicas dos nossos digníssimos governantes? Reconheceu-lhe o mérito e a competência isenta, atitudes que ainda há pouco tempo eram postas em dúvida pelo coro da oposição. O que quer isto dizer? Que este é o critério através do qual as pessoas públicas se devem reger, caso contrário cá estará ele atento para arguir.


Fica por responder o seguinte: 1.Como é que estas pessoas ganham autoridade? Onde se fundamenta? No seu saber, na sua personalidade, na sua intuição e capacidade de predizer, em todas juntas? 2.Serão estas as formas comuns glosadas por todos os outros intérpretes da realidade portuguesa nos seus diferentes níveis e graus ou haverá outro espaço/forma de propor formas de vida? 3. Onde estão os pensadores portugueses com textos fundamentais sobre a democracia, sobre o estado de direito, sobre as atitudes cívicas, sobre os direitos fundamentais? 4. Quem legitima o que se diz em Portugal e a a partir do quê? 5. Quem diz, e porquê, o que é ou não possível fazer? 5. Quem define o que é sensibilidade democrática universal?

Tenho que continuar nisto amanhã...

sábado, março 31, 2007

subscrevo

"(...) Tanto em relação ao Darfur como às violações dos direitos humanos a mando de Mugabe o mais grave não é, porém, o alheamento dos chineses - tem sido o silêncio da maioria dos dirigentes africanos.
Entre nós fala-se no caso do Zimbabwe, sobretudo porque ele poderá impedir a tão desejada cimeira União Europeia-União Africana, prevista para Lisboa em Dezembro, no final da presidência portuguesa da UE. A UA poderá não vir, se Mugabe continuar impedido de entrar na UE.
Seria, de facto, pena não termos a cimeira. Mas seria uma pena ainda maior Portugal aceitar a conivência de muitos africanos com as atrocidades no Zimbabwe.
As coisas atingiram ali tal ponto de brutalidade que, finalmente, se começam a ouvir algumas críticas de chefes políticos africanos, como os presidentes da Zâmbia e do Gana. A própria UA lembrou timidamente a conveniência de ele respeitar as regras democráticas e os direitos humanos. Há movimentações africanas pressionando Mugabe a sair pelo seu pé.
Mas o Governo de Angola apoia activamente a repressão de Mugabe. A maioria dos governos africanos, como o da África do Sul, manteve-se durante anos surda aos desesperados apelos de auxílio vindos dos políticos perseguidos pelo tirano.
Agora o Presidente sul-africano Mbeki vai tentar mediar o conflito entre Mugabe e os seus opositores internos. Não será de esperar muito desta iniciativa. Na África do Sul apenas o arcebispo anglicano Desmond Tutu se atreve a criticar frontalmente os desmandos de Mugabe.
Aliás,o problema no Zimbawe não é apenas político. Este país já foi rico, mesmo depois de deixar de se chamar Rodésia. Hoje, graças à tirania ali reinante (que expulsou os fazendeiros brancos), o Zimbabwe está na miséria, alastrando a fome.
Com o desemprego a chegar aos 80 % da população activa e a mais alta inflação do mundo, não admira que três dos 13 milhões de habitantes do Zimbabwe já tenham abandonado o país. Perante tal situação, poderá a comunidade internacional assobiar para o lado, seguindo o abstencionismo predominante entre os Estados africanos?
Fazê-lo seria uma forma de neocolonialismo. Esse, sim, autêntico. Tratar os africanos com critérios diferentes dos utilizados em relação a outros povos, nomeadamente europeus, é implicitamente afirmar que a democracia não é para África. É dizer aos africanos que são inferiores."
"Democracia e neocolonialismo" por Francisco Sarsfield Cabral no DN

quinta-feira, março 29, 2007

O jogo do sabichão e a ideologia nacionalista



O meu filho quis brincar com o jogo do "Sabichão" editado pela Majora, o mesmo com que o seu pai brincara quando menino pequeno. Eu lia-lhe as perguntas e depois ficávamos a ver o bonequinho rodopiando a encontrar a resposta certa. Um dos temas com perguntas e respostas para o Sabichão é o de Corografia de Portugal. E como é que se descrevia então Portugal nos fins dos anos sessenta, princípios de setenta? Vou listar as perguntas que então eram feitas:
1. Que província ultramarina temos na China?
2. Que província ultramarina temos na Oceânia?
3. Qual o ponto cardeal da Europa em que fica Portugal?
4. Que ponto cardeal nos fica à esquerda, se nos voltarmos a Sul?
5. O Douro fica ao norte ou ao sul do Tejo?
6. A Beira Alta fica ao norte ou ao sul do Douro?
7. A que província pertence o distrito de Portalegre?
8. A que província pertence o distrito do Porto?
9. Qual é o maior rio que nasce em Portugal?
10. Qual é o rio que desagua próximo de Setúbal?
11. Qual é a serra portuguesa que tem quase 2.000 m de altitude?
12. Qual é a maior serra do Algarve?
13. A que arquipélago pertence a ilha de S. Miguel?
14. A que arquipélago pertence a ilha de S. Nicolau?
15. Qual é maior: Angola ou Moçambique?
16. Qual é a província ultramarina portuguesa que fica na costa oriental da África?


Imagine-se uma criança a quem perguntavam se o Douro ficava a norte ou a sul do Tejo com a mesma naturalidade com que lhe perguntavam qual era a província que tínhamos na China, na Oceânia, ou na Costa oriental de África, e para quem era igual saber que Portugal tinha uma ilha de S. Miguel pertencente ao arquipélago dos Açores tanto quanto tinha uma ilha de São Nicolau a pertencer ao arquipélago de Cabo Verde. Esta naturalidade de se saber a viver no império, mesmo se preso pelo cano de uma arma, mesmo se sob uma prepotência, dá uma imagem do país e da pessoa (mesmo que seja como na história do sapo que incha para se parecer com o boi) absolutamente extraordinária. A interiorização da ideia de senhores de um império, de entender a radicalidade do nosso governante ao contrariar as directivas internacionais que nos pressionavam para descolonizarmos como um feito heróico, de todos compreendermos que nele estava concentrada uma ideia e uma acção para Portugal que mais ninguém protagonizou (e felizmente para Portugal, porque uma democracia caracteriza-se precisamente pela pulverização de projectos e de acções que se devem apresentar a plebiscito, relativizando as marcas do absolutismo), marcou, como era suposto que marcasse profundamente, o imaginário colectivo coevo. Um ditador não o é só pelas circunstâncias sociais e históricas, nem, sobretudo, permanece como ditador por demérito de um povo pouco lutador, é-o pelo mérito de saber impor a sua paixão sobre a dos outros, de fazer da sua paixão a paixão que os outros sentem sua. Quem é que pode, na democracia, cruzar espadas com Salazar? Quem tem para oferecer décadas de orientação ideológica sob a nação, numa travessa de porcelana azul-cobalto chinesa?



A imagem da travessa foi retirada do site do Centro cultural de Macau

quarta-feira, março 28, 2007

Ríctus de poder 2


“(…) Há tantos outros livros que falam da comédia, tantos outros ainda que contêm o elogio do riso. Porque é que este te incutia tanto pavor? p. 345,
- Porque era do Filósofo. Cada um dos livros daquele homem destruiu parte da sapiência que a cristandade tinha acumulado ao longo dos séculos. (…)
Mas se alguém, um dia agitando as palavras do Filósofo, e portanto falando como filósofo, levasse a arte do riso à condição de arma subtil, se à retórica da convicção se substituísse a retórica da irrisão, se à tópica da paciente e salvadora construção das imagens da redenção se substituísse a tópica da impaciente demolição e do desvirtuamento de todas as imagens mais santas e veneráveis…oh, nesse dia também tu e toda a tua sapiência, Guilherme, seríeis arrasados!
- Porquê? Bater-me-ia, a minha argúcia contra a argúcia alheia. Seria um mundo melhor que aquele em que o fogo em brasa de Bernardo Gui humilham o fogo e o ferro em brasa de Dulcino.”, p.347
A palavra humilhação outra vez. Vontade de, e poder para, humilhar.
No livro O Nome da Rosa, Umberto Eco põe as personagens do monge Jorge a dirimir argumentos com o Frei Guilherme sobre o segundo livro da Poética de Aristóteles (“aquele que todos consideravam perdido ou jamais escrito”). O bibliotecário Jorge, cego, guarda zelosamente e em segredo, na biblioteca de uma abadia “de que é bom e piedoso calar agora o próprio nome”, o último exemplar no mundo do livro do filósofo.

Frei Guilherme, chamado à abadia para ajudar a deslindar o mistério da morte do monge Adelmo Otranto depressa compreende que este foi assassinado e inicia as suas investigações. Mais mortes se seguem à de Otranto até que Guilherme descobre o autor dos crimes e o móbil para os homicídios: a curiosidade dos monges pelo livro secretamente guardado pelo bibliotecário Jorge e ao qual nenhum ser humano devia ter acesso.

O ricto do homem do poder está na gravidade ou no riso?

A tradição filosófica, a autoridade da palavra do Filósofo, fazia pressupor que era na gravidade que a dignidade do papel do homem de governação se exprimia. E era sobre “Cada palavra do Filósofo, sobre quem hoje juram mesmo os santos e os pontífices, subverteu a imagem do mundo. (…)” que se encontravam as regras de comportamento. Estas faziam que cada indivíduo agisse na terra como um indivíduo temente da ira da sentença divina, ou da sua justiça, após a morte. Mas se viesse a descobrir-se que o Filósofo escrevera um livro onde fazia a apologia do riso, então, defende Jorge, em breve a plebe e os falsos sábios poderiam espalhar a ideia de que era possível anular o medo da morte, libertando os homens para o pecado, para a miséria das paixões, aceitando-se a fraqueza como princípio de elevação até ao sagrado, ou fazendo da procura de uma vida boa na terra o objectivo da vida humana por oposição à demanda de uma vida vivida a pensar na vida eterna. O livro poderia pois passar a ser, se lido e divulgado, a “(…) centelha luceferina que transmitiria ao mundo inteiro um novo incêndio; (…)".

É de um romance que se trata.
Mas esta questão de saber como se deve comportar o homem do poder é secular, tem, no ocidente, o tempo da filosofia ocidental, quando esta desvia a atenção da reflexão sobre as causas naturais da realidade física e começa a perguntar-se pelas causas da realidade social e política.
Os ríctus são ensinados. A sua não manifestação também. Como bem o sabem todos os especialistas contemporâneos da imagem e da comunicação política. Julga-se é que é só o hábito que faz o monge. Mas... e se forem as ideias?