Uma amiga de uma amiga minha conta que os pais nunca lhe quiseram narrar estórias míticas para explicar o que quer que fosse acerca dos fenómenos naturais ou culturais a que ela assistia. Por isso desde pequena sabia que o Pai Natal não existia, assim como também sabia que não havia um coelho ou um pintainho da Páscoa, nem a fada dos dentes, nem duendes matreiros que roubam a chucha e a levam para a floresta ou outros temas quejandos que o seu contexto cultural ocidental, como aliás qualquer outro no mundo, tem de sobra para preencher a infância de irrealidade. Nada de bruxas más, diabos assustadores ou dragões cuspidores de fogo, mas também nada de mouras encantadas, princesas e príncipes, nada de espadas mágicas ou animais que falam, tudo muito explicado de como as prendas aparecem na noite de Natal e os ovos de chocolate são escondidos para a caça ao tesouro na Páscoa. Ela lembra-se de ser a única criança que não acreditava em nada daquilo que as outras crianças acreditavam. E hoje está perfeitamente convencida de que acredita em tudo o que lhe dizem, por nunca ter apanhado os pais numa mentira como todas as outas crianças que sofrem o primeiro desapontamento por saberem que afinal aquela história bem alimentada durante anos era, afinal, uma perfeita mentira.
Não sei se a resposta para a questão de como evitar a credulidade ingénua está no pressuposto de que alguém em quem confiamos tem que nos mentir. Isso levar-nos-á a ser mais vigilantes e críticos, porquê? A crítica não nascerá antes do confronto de crenças livremente aceites e livremente postas à discussão? A crença não sairá mais fortalecida se reconhecida num quadro de discussão o mais alargada possível? Uma criança que acredita em todas essas narrativas infantis não pode comparar-se a um adulto que acredita num conjunto de outras narrativas/crenças. Porquê? A ele pede-se que as saiba legitimar com algo mais do que a explicação infantil: “Porque sim.” Ou “Porque a ou b me disse que era assim, e eu gosto muito de a ou b”.
Mas, se uma comunidade aceita os argumentos que defendem a minha crença, e se os partilha, isso torna a crença necessariamente verdadeira? E se eu não conseguir falar sobre a minha crença, se não conseguir manifestá-la senão pelo silêncio, isso faz com que ela seja falsa, por não ser partilhável numa comunidade de falantes que a avaliam? Mas o silêncio não é inexistência da palavra, é um sinal da sua ausência pública. Daí que Lyotard acredite que as vítimas, por não conseguirem falar sobre o horror, ou a violência, a agressão a que foram sujeitas, possam permitir criar realidades falsas sobre a ausência de testemunho de uma dor que é verdadeira. Todos os regimes políticos sabem que é na luta pelo controlo dos testemunhos que se ganha as crenças, os regimes totalitários sabem-no absolutamente.
Não sei se a resposta para a questão de como evitar a credulidade ingénua está no pressuposto de que alguém em quem confiamos tem que nos mentir. Isso levar-nos-á a ser mais vigilantes e críticos, porquê? A crítica não nascerá antes do confronto de crenças livremente aceites e livremente postas à discussão? A crença não sairá mais fortalecida se reconhecida num quadro de discussão o mais alargada possível? Uma criança que acredita em todas essas narrativas infantis não pode comparar-se a um adulto que acredita num conjunto de outras narrativas/crenças. Porquê? A ele pede-se que as saiba legitimar com algo mais do que a explicação infantil: “Porque sim.” Ou “Porque a ou b me disse que era assim, e eu gosto muito de a ou b”.
Mas, se uma comunidade aceita os argumentos que defendem a minha crença, e se os partilha, isso torna a crença necessariamente verdadeira? E se eu não conseguir falar sobre a minha crença, se não conseguir manifestá-la senão pelo silêncio, isso faz com que ela seja falsa, por não ser partilhável numa comunidade de falantes que a avaliam? Mas o silêncio não é inexistência da palavra, é um sinal da sua ausência pública. Daí que Lyotard acredite que as vítimas, por não conseguirem falar sobre o horror, ou a violência, a agressão a que foram sujeitas, possam permitir criar realidades falsas sobre a ausência de testemunho de uma dor que é verdadeira. Todos os regimes políticos sabem que é na luta pelo controlo dos testemunhos que se ganha as crenças, os regimes totalitários sabem-no absolutamente.
Lyotard, Jean François, Le Différend, pp. 30 a 37.











