terça-feira, março 13, 2007

Liberdades e garantias2

Sublinho: Artigo de Helena de Matos "Informação é Poder" no jornal Público

"(...) O processo Casa Pia revelou teias de cumplicidades e silêncios e confirmou que, de facto, "informação é poder". Em que medida é que quem está no Governo, na Procuradoria, na Assembleia da República e nos serviços de informação usa o seu poder não apenas para fazer o seu trabalho mas também para impedir investigações que lhe sejam inconvenientes? (...)"

segunda-feira, março 12, 2007

Liberdades e garantias

Sublinho: "Liberais à moda antiga" de Francisco José Viegas, no JN


"(...) e os portugueses sabem que o deserto mora no Parlamento.", frase do artigo de Domingos de Andrade também no Jornal de Notícias.

As crenças, ideias que se impõem como modelos de acção e de compreensão, reflectem ou criam a realidade em que vivemos?

Uma amiga de uma amiga minha conta que os pais nunca lhe quiseram narrar estórias míticas para explicar o que quer que fosse acerca dos fenómenos naturais ou culturais a que ela assistia. Por isso desde pequena sabia que o Pai Natal não existia, assim como também sabia que não havia um coelho ou um pintainho da Páscoa, nem a fada dos dentes, nem duendes matreiros que roubam a chucha e a levam para a floresta ou outros temas quejandos que o seu contexto cultural ocidental, como aliás qualquer outro no mundo, tem de sobra para preencher a infância de irrealidade. Nada de bruxas más, diabos assustadores ou dragões cuspidores de fogo, mas também nada de mouras encantadas, princesas e príncipes, nada de espadas mágicas ou animais que falam, tudo muito explicado de como as prendas aparecem na noite de Natal e os ovos de chocolate são escondidos para a caça ao tesouro na Páscoa. Ela lembra-se de ser a única criança que não acreditava em nada daquilo que as outras crianças acreditavam. E hoje está perfeitamente convencida de que acredita em tudo o que lhe dizem, por nunca ter apanhado os pais numa mentira como todas as outas crianças que sofrem o primeiro desapontamento por saberem que afinal aquela história bem alimentada durante anos era, afinal, uma perfeita mentira.
Não sei se a resposta para a questão de como evitar a credulidade ingénua está no pressuposto de que alguém em quem confiamos tem que nos mentir. Isso levar-nos-á a ser mais vigilantes e críticos, porquê? A crítica não nascerá antes do confronto de crenças livremente aceites e livremente postas à discussão? A crença não sairá mais fortalecida se reconhecida num quadro de discussão o mais alargada possível? Uma criança que acredita em todas essas narrativas infantis não pode comparar-se a um adulto que acredita num conjunto de outras narrativas/crenças. Porquê? A ele pede-se que as saiba legitimar com algo mais do que a explicação infantil: “Porque sim.” Ou “Porque a ou b me disse que era assim, e eu gosto muito de a ou b”.
Mas, se uma comunidade aceita os argumentos que defendem a minha crença, e se os partilha, isso torna a crença necessariamente verdadeira? E se eu não conseguir falar sobre a minha crença, se não conseguir manifestá-la senão pelo silêncio, isso faz com que ela seja falsa, por não ser partilhável numa comunidade de falantes que a avaliam? Mas o silêncio não é inexistência da palavra, é um sinal da sua ausência pública. Daí que Lyotard acredite que as vítimas, por não conseguirem falar sobre o horror, ou a violência, a agressão a que foram sujeitas, possam permitir criar realidades falsas sobre a ausência de testemunho de uma dor que é verdadeira. Todos os regimes políticos sabem que é na luta pelo controlo dos testemunhos que se ganha as crenças, os regimes totalitários sabem-no absolutamente.
Lyotard, Jean François, Le Différend, pp. 30 a 37.

sábado, março 10, 2007

Identidade e violência 4

Se não é do teu interesse, porque terás escolhido fazer o que fizeste?” - perguntar-se-ão os defensores da versão contemporânea da corrente filosófica utilitarista que tão bem parece acolher em si os pressupostos de uma relação modelada nas trocas económicas, pois mais nenhuma outra motivação, pelo menos não lhe dando o mesmo grau de importância, encontra para explicar o comportamento humano, logo este tenha que fazer escolhas e agir. Ao sermos explicados como sujeitos que agem determinados em obter ou satisfazer um qualquer interesse individual, as políticas começam a ser ditadas no quadro deste entendimento da acção do indivíduo: ser impelido para a acção se desta decorrer a satisfação para o indivíduo, justificando-se a acção a partir da satisfação com as consequências dessa acção, com o resultado positivo ou o benefício adquirido.

Se não é do nosso interesse, deste grupo de cidadãos com quem te identificas, porque terás escolhido fazer o que fizeste?”- perguntar-se-ão os que inscrevem de forma absoluta a representação da sua identidade como definida por um conjunto de deveres inquestionáveis para quem por eles é socializado, numa tentativa de singularizar a afiliação única, tornando-a exclusivo padrão de regulação da acção, que tanto pode ser religiosa, como política, como cultural, por exclusão radical das partes que dele não fizerem parte (por nascimento, por raça, género, ideologia ou religião, entre outras).


Há estudos empíricos que demonstram à saciedade que estes modelos de compreensão da identidade são ambos incapazes de descrever as diversas formas de vida coexistentes no mundo, e fornecem conjuntos de argumentos que, sendo de natureza diferente entre si, convocam o mesmo tipo de ignorância sobre as possíveis motivações para agir e prestam-se, igualmente, a legitimar a violência, por a compreenderem como fenómeno inseparável da regulação da acção, entendendo-a como meio para solucionar conflitos.

Amartya Sen preocupa-se no entanto com queda na esparrela da identidade em que os analistas dos conflitos internacionais ou de violência sectária parecem estar sempre a cair: “impor uma identidade única e fracturante a PESSOAS QUE ASSIM SE TORNAM NOS SOLDADOS RASOS DA BRUTALIDADE POLÍTICA; (…)”. P. 92 Essa imposição de uma identidade única a quem de si se sabe reconhecidamente que a tem que ter múltipla, reforça o poder dos ideólogos fundamentalistas, que assim vêm justificada por autoridade externa a força das suas convicções impostas internamente ao grupo que eles dominam politicamente ainda que o façam em nome de uma crença religiosa, ou cultural, ou o que quer que seja.

Os grupos fundamentalistas islâmicos utilizam este método da exaltação da afiliação exclusiva do indivíduo, próprio dos grupos terroristas que potenciam este efeito, assim como têm impulsos para o fazer qualquer outro grupo, mesmo se na política dos países democráticos ocidentais, que se sinta ameaçado e saiba que a ameaça externa o torna mais coeso desde que reconheça estarem todos os membros imbuídos de um espírito acrítico de pertença e de defesa incondicional da identidade beliscada. O reflexo da sua imagem no espelho que o outro segura na mão para ele se ver pode ter um efeito muito lisonjeador e nada dissuasor, por permite-lhe afirmar-se na sua exclusiva, ainda que possa ser brutal, afirmação de identidade. Ameaçados, o que não fazem aqueles que não estão treinados a controlar-se, ou que recusam ideologicamente essa possibilidade de auto-controlo, para continuar a prosseguir negociações, a convocar meios não violentos para resolução de desacordos? Ameaçadores, quem os consegue controlar de forma democrática?
Amartya Sen, Identidade e Violência, trad. M. J. de La Fuente, Lisboa, Tinta-da-China, 2007

Debate público sobre direitos, liberdades e garantias

Paulo Gorjão convocou a blogosfera para uma discussão que envolve a definição do que se entende por direitos, liberdades e garantias, a propósito do projecto governamental do "Sistema Integrado de segurança Interna". Com o seu sentido de oportunidade e capacidade de trabalho manifesta no acompanhar crítico das notícias, faz regularmente um trabalho exemplar ao assinalar desmandos ou criação de ilusões da nossa política. Ao assinalar esta questão "DEPOIS DO SIRP, AGORA O SISI?", está a fazer um trabalho para a cidadania, em cujas interrogações eu me reconheço definitivamente.

Via Bloguítica:

“(…) Claro que vivemos num mundo perigoso e é preciso coordenar as polícias. Sucede que das várias formas de coordenação o Governo escolheu a pior: a que mais reforça (e compromete) o chefe do Executivo, a que não inclui um droit de regard do Parlamento e a que deixa os portugueses sem defesa perante a prepotência e o arbítrio. O que de resto não espanta. A liberdade nunca foi por aqui muito estimada.»
«O Estado-polícia», Vasco Pulido Valente (PÚBLICO, 10.3.2007: 44).”


Identidade e violência 3

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John Tenniel

sexta-feira, março 09, 2007

Identidade e violência 2

Em confronto duas teses redutoras que, segundo Amartya Sen, são as responsáveis por, cada uma a seu modo e na sua vez, fazerem com que os dirigentes mundiais continuem a insistir em modelos políticos que não permitem encontrar soluções para a resolução dos muitos conflitos existentes na actual ordem internacional, a saber: a teoria que defende que o fim justifica os meios, desde que as consequências da acção realizem o interesse do indivíduo (desvalorização do conceito de identidade por subalternização à ideia que defende a “existência de indivíduos absolutamente egoístas”); e a teoria que afirma que os indivíduos se definem e modelam o seu comportamento enquanto membros de um grupo (afiliação única), consistindo pois a noção de pertença, de identificação, a motivação superior para justificar a acção do indivíduo.


O confronto destas ideias já não tem por palco as academias do mundo inteiro, ocuparam lugar na definição de acção que os Estados têm que adoptar. Uma tragédia, segundo Sen. Uma tragédia. E depois diga-se que são só ideias.

Amartya Sen, Identidade e Violência, trad. M. J. de La Fuente, Lisboa, Tinta-da-China, 2007.

quinta-feira, março 08, 2007

Sobre Habermas

Sobre um dos meus mestres de pensamento, Jürgen Habermas, há o seguinte blogue: Habermasian Reflections.

Há também on line um forum sobre a sua obra. Infelizmente não vem substituir a excelente lista de discussão que havia aqui há uns dois anos atrás sobre o autor. Mas cumpre.

Li um texto interessante que ele escreveu em 2006 sobre os intelectuais e a opinião pública traduzido em português por Peter Naumann, "O caos da esfera pública" e que se pode ler na página dedicada a "Gramsci e o Brasil".

Situações públicas fundamentais a precisarem de tomada de posição

No Bloguítica de paulo Gorjão

"DEPOIS DO SIRP, AGORA O SISI?"

"Há aspectos da nossa vida democrática comum que não devem estar cegamente subordinados à eficácia nos resultados e em que, em nome de interesses superiores, nomeadamente o Estado de Direito e uma prudente dispersão de poder, é tolerável e aceitável uma menor eficiência. Um primeiro-ministro, seja ele quem for, controlar, tutelar e orientar o SIRP e o SISI é manifestamente imprudente do ponto de vista dos direitos, liberdades e garantias. Por motivos óbvios."


e no Sobre o tempo que passa de José adelino Maltez

"Quando o Estado é invadido pelos cultores do doméstico (...)"


"Se continuarmos a governar o Estado como o chefe da casa governa a família extensa, teremos apenas agentes políticos que querem ser do oikos despote (o nome do chefe da casa em grego), ou do dominus (o chefe da domus, donde veio o nosso dono), esses padrinhos ou patrões que podem existir na oikos nomos, na economia e no mercado, mas não na polis, onde a política tem que obedecer à racionalidade ética dos princípios da justiça, os tais que vão além da racionalidade técnica do bem-estar e da segurança onde dominam a utilidade e o interesse."

e "Poderes soberanos e de autoridade (...)"

"O poder político não se confunde com a simples coerção – com a possibilidade de levar alguém a fazer alguma coisa contra a respectiva vontade, com a força que pode obrigar outrem a obedecer – não se reduzindo à imposição a outrem de algo que este não deseja espontaneamente.O poder político é uma capacidade criada por um acordo social, é sempre alguma coisa que tem de ser conjugada no plural, onde a união pode fazer a força, onde a união pode produzir mais força que a simples soma das forças dos vários particulares que integram essa união.Quando falamos em poder político, estamos a referir-nos à interacção ou à mobilização em torno de um fim comum que pode gerar uma maior soma de energia. Onde um forte rei pode fazer forte a gente fraca; onde as vulnerabilidades podem transformar-se em potencialidades. Ou vice versa, onde um fraco rei pode fazer enfraquecer a gente forte; onde as potencialidades podem ser vulnerabilidades.Para compreendermos o poder político, temos assim de ascender dos poderes ao poder, temos de medir a distância qualitativa que vai do medo ao consentimento, entendendo em profundidade o manda quem pode, obedece quem deve, onde há sempre, de um lado, um poder-dever e do outro um dever-poder."

Sim...conte-me, eu estou a ouvir.

Camille Claudel, La Confidence


Muita acção bem feita, muito pensamento ordenado, muita perspectiva de futuro tiveram as mulheres e os homens que me procederam porque na verdade eu aprendi tão bem o que me ensinaram: que antes demais, de tudo o mais que se diga ou se faça, eu sou uma Pessoa que, por acaso, tem um género muito bem colado, é o caso, à sua pessoa.
Muito bem me nutriram esses antepassados para que não me passe pela cabeça, ou para isso sinta impulso físico, de deixar de me sentir um ser autónomo, capaz de pensar e de decidir segundo as suas próprias regras, mesmo quando o meu corpo se transformou numa imensa via láctea, ou quando se dobrou com dores sobre si próprio, ou quando deseja, até à alucinação erótica, outro corpo de outra Pessoa que outro género tenha bem colado à sua pessoa, ou quando vestia mini-saia, ou vestidinhos com folhos que o vento fazia balançar e laços no cabelo ou uma fita preta à volta do pescoço à Degas, ou quando sentia o filho com soluços no ventre e a agarrar, de mansinho, o cordão umbilical com a sua mão pequenina.

Eu não sou esta roupinha e os sapatos, às vezes, de salto alto, não sou o cabelo pintado com mesclas de dourado, não sou um conjunto de hormonas sob o domínio do cromossoma XX, não sou umas mamas e um ventre, porque também sou esta pessoa, a Isabel, um ser que pensa, decide, escolhe e age. Age atabalhoadamente, impulsivamente ou racionalmente, mas sempre com assumida responsabilidade e no quadro da máxima liberdade que se percepciona como possível, num esforço para cumprir personalizadamente a vida.


É por todas essas mulheres e homens livres que me procederam, as que lutaram pela igualdade de géneros perante a lei e perante os costumes, e perante aquelas que ainda hoje fazem dessa luta o seu terreno de consagração à humanidade, que eu hoje entro na procissão de louvor.

quarta-feira, março 07, 2007

identidade e violência 1

Amartya Sen tem um livro traduzido em português pela editora Tinta-da-China que se chama Identidade e Violência.

O livro procura compreender o fenómeno da criação da identidade dos povos a partir da análise concreta do modo como estes se vêm, se dão a ver ou são vistos. Para Sen, a violência entre os vários grupos humanos advém da subvalorização relativa à existência de facto de um conjunto de identidades múltiplas e acumuladas, as quais, se reforçadas a manifestarem-se, permitiriam em algum momento fazer cruzar uma memória, ou uma prática, provocando a vocação da partilha, ao contrário do que acontece verdadeiramente quando se produzem grandes parangonas sobre o que um povo é, ou se pensa que é, que tem por efeito criar uma imagem empolada de si por contraposição à imagem esfacelada do outro, que agride e afasta entre si. Ambas igualmente reflectindo profundo desconhecimento sobre si e sobre os outros, e a aleivosia de quem as promove.

Parece claro que a solução encontrada por Sen parece assentar na assumpção de uma identidade diversa por oposição a uma identidade exclusiva. O que invalidaria pérolas tais como:”Nós os portugueses somos…", qualquer coisa. Qualquer coisa geralmente negativa, para fazer agachar. A palavra é feia, mas muito mais enraizada na vontade de poder do que geralmente se admite publicamente. Apoucamo-nos uns aos outros, mas para que alguém se avulte? Quem ganha merecimento com o nosso contínuo desmerecer, mesmo quando pensamos que o estamos a fazer só contra os outros, porque nós, os bravos da genealogia e da educação, estamos acima de classificação? Quem comprará o que desdenhamos? Mas ao mesmo tempo há que não evitar a crítica, o julgamento mesmo, escudando-nos nesta atitude de vestais sacrificadas a um deus menor. Difícil.

Acho tanta piada quando ouço falar em pseudo-intelectuais, pseudo analistas, pseudo qualquer coisa. Os outros são falsos, têm que necessariamente o ser, para que a minha verdade brilhe?

A Crítica que Sen faz sobre os analistas de conflitos internacionais actuais: “Apesar das nossas diversas diversidades, o mundo é visto, de repente, não como uma série de povos, mas como uma federação de religiões e civilizações. Na Grã-Bretanha, a confusão acerca do que uma sociedade multiétnica deve fazer levou a que se encorajasse a abertura de escolas muçulmanas, escolas hindus, escolas siques, etc., financiadas pelo estado, para suplantarem as já existentes escolas cristãs, sendo as crianças arrumadas à força no domínio de afiliações únicas, muito antes de terem capacidade de raciocinar sobre os diferentes sistemas de identificação que se lhes oferecem.”
Amartya Sen, Identidade e Violência, trad. M. J. La Fuente, Lisboa, edições Tinta-da-china, p. 44

terça-feira, março 06, 2007

os meios e os fins

Quando eu dissertava sobre a questão do fim último para a acção humana, fundamento da acção moral, em Aristóteles, uma aluna esclareceu-me: “Sabe que a ideia de felicidade do nosso Primeiro-Ministro é não aparecer nunca nos jornais?”. Não sabia. Mas aproveitei para perguntar à classe: “E qual deveria ser a pergunta do/a jornalista, logo em seguida?”
“Como chegou a Primeiro-Ministro?” – respondeu um aluno mais expedito. Rimo-nos.

Bom – respondi - Eu escolheria a pergunta, cuja resposta é fundamental para uma democracia: “Que meios está o senhor governante disposto a usar para realizar essa felicidade?”

Identidade 7

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John Tenniel

Identidade 6

Mas estou a dar uma importância muito grande à origem social, externa, das estruturas constituintes da identidade. O que identifica um povo, ou uma pessoa, não pode ser apenas aquilo codificado ou que ganha significado pelas ideias controladas e impostas pelo exterior. O peso dado às circunstâncias históricas e sociais faria de cada indivíduo um ser determinado pelo meio sociocultural. E como não o é? Primeiro porque existem outros factores que influenciam a representação de si e a acção ou comportamento correspondente a essa representação, tal como as características genéticas, a faculdade da vontade que permite alterar um traço de carácter, ou corrigir um comportamento, entre outros factores, segundo, porque se o que nos identifica estiver exclusivamente dependente de um ponto de equilíbrio entre os meus interesses e os interesses do meu grupo ou sociedade, eu não passaria de um fiel de armazém, a dar conta das entradas e saídas de ideias e modelos comportamentais, num registo muito comercial da minha existência.
Para evitar a redução da anáilise à heteronomia da identidade (caracterizada pela interiorização de modelos sociais do seu grupo), alguns filósofos buscaram definir a autodeterminação na acção e na reflexão segundo princípios que relevassem a autonomia de cada indivíduo na sua relação com o grupo. Isto é, procuraram encontrar uma dimensão em que cada um se apresenta como Pessoa, em que cada um se apresenta como senhor da sua existência. Foi o que fez Kant, por exemplo, ao desenvolver o conceito de razão prática, faculdade de orientação da vontade que cada indivíduo possui para orientar, escolher, a sua acção.

Assim, cada indivíduo poderia, a partir da faculdade racional, teórica e prática, utilizar a sua vontade regulada pela razão para escolher as suas acções da forma mais autónoma possível, isto é, como um ser que possui livre arbítrio e não se encontra sujeito às mesmas leis de causalidade e necessidade dos restantes fenómenos naturais. Mas como sabemos que isto do livro arbítrio, da possibilidade de cada um escolher, não é mais um jogo de palavras para escamotear uma realidade social em que cada um não passa de uma peça de jogo na mão de um sistema de classes e de poder que determina o nosso lugar, o nosso comportamento e as nossas representações do mundo e de nós, numa linha de interpretação gramsciana? Interpretação que eu devia conhecer melhor, aliás, mas que não domino. Em Portugal nem reeditam as suas obras...

Wittgenstein, ainda que ele explorasse esta questão por contraponto com essa outra do determinismo ou tese que defende a universalidade de leis necessárias para orientar o comportamento, preocupou-se com o problema. Ele conclui que na realidade no nosso contexto científico –cultural nada nos pode fazer crer mais na afirmação determinista do comportamento humano, do que na afirmação de livre-arbítrio, pois afirmar o jogo de predizibilidade absoluta dos acontecimentos não é causa para impossibilitar efectivamente que haja e se possa realizar escolhas. Mesmo que essa predição se realize, o carácter da escolha é da ordem do intencional, é da ordem daquilo que cada um, com o que sabe e como sabe, reconhece ser a melhor justificação para as suas escolhas, logo...

segunda-feira, março 05, 2007

identidade 5

Dragão-marinho / Oceanário de Lisboa.

Identidade 4

Há pessoas que se nunca tivessem ouvido falar de certas ideias nunca as defenderiam ou as tomariam como directrizes dos seus comportamentos ou sistemas de crenças. Se assim não fosse não haveria formas de nos agruparmos sob a representação de uma certa ideia de nós, por contraposição a ideias dos outros, que incluísse exposição directa ou indirecta, institucional ou socialmente informal, a certo ideário que passamos a defender como nosso. A representação presente numa sociedade que defenda a igualdade de géneros, por exemplo. A luta que isto deu. Ou a universalização do voto a indivíduos com mais de 18 anos independentmente das suas habilitações ou condições económicas, ou a a defesa do conceito de democracia representativa, ou... Quantas reuniões, conversas partilhadas, edição de livros e panfletos, discursos inflamados ou nem por isso, pressão física e opressão psicológica, tudo isto não provocou.

A representação de uma sociedade como sendo democrática, por oposição a uma qualquer outra, faz-se, em primeiro lugar, como uma construção mental. Eu defino-me em comparação/contraposição contra outra qualquer definição. A minha identidade, individual ou de grupo contra a identidade de outrem que se me opõe. Daí a importância da pedagogia cívica, da propaganda, da repetição pelo exemplo e pelo seguir o modelo, e da interiorização de hábitos e comportamentos que caracteriza a socialização dos indivíduos em qualquer sociedade. Todas as ideias sobre todos os fenómenos, naturais ou sociais, precisaram de pessoas para as divulgar e explicar até que elas começassem a ser aceites ou recusadas e torná-las parte da estrutura vivencial ou moral de cada um a elas expostas, criando uma identidade social.

Independentemente de sabermos que tipo de recursos estão à disposição dos divulgadores e a forma como os mecanismos de interiorização funcionam (não consigo esquecer por exemplo o estudo[*] que afirma a importância da primeira indicação de voto de um cidadão o qual permitirá predizer com alguma segurança o tipo de comportamento de identificação a um partido político, a sua escolha afectiva e racional futura em política), a que responderão as ciências do comportamento, haverá que saber identificar o/os indivíduos que começam por criar essas ideias e a forma de se apresentarem como defensáveis, legítimas ou seduzíveis junto dos seus concidadãos. Quem cria as ideias que caracterizam o que chamamos a identidade de um povo, com que fundamentos e porquê? Se a pergunta estiver bem feita, e poder ser feita nestes termos, as respostas terão que vir da História das ideias, da teoria política e da filosofia.


Profissionalmente tenho dois problemas que me perseguem: saber qual o fundamento das nossas crenças e saber qual o fundamento das nossas crenças. São dois, são, é uma forma de me persuadir que isto não é uma obsessão mas uma inquiração racional, para dois momentos. Tudo muito rigoroso e nada confuso. Muito científico.


[*] Quando descobrir a referência bibliográfica indicá-la-ei.

Identidade 3

Pessoas há que nunca se teriam consciencializado dos seus direitos e deveres civis e políticos se nunca tivessem ouvido ouvido falar de democracia?

sábado, março 03, 2007

Identidade 2

Vou buscar o livro de Roland Barthes e nele ando para trás e para a frente, folheando-o, à procura da citação certa para um pensamento que sei de cor, mas que há muitos anos não releio. Canso-me de procurar e deixo-me ficar a ler um ou outro capítulo. Já me parece que passou um século entre o tempo de o ter lido pela primeira vez e o tempo presente.

Levei muito tempo agora, o que me desconcentrou para tudo o mais senão para o que nele tivesse escrito. Sinto a vertigem de falar como ele fala. Agora já não sei sobre o que queria escrever. Leio Barthes e faço um esforço para pensar no que tinha pensado quando abri o livro à procura da frase. Recito arduamente: Ora bem, se eu substituir a palavra “apaixonado” na frase de La Rouchefoucauld pela palavra patriotismo, ou defesa da democracia, ou proclamação da Declaração dos direitos humanos, por exemplo, estarei ao mesmo nível de significação mitológica?
Mas já não consigo argumentar mais.

La Rochefoucauld: “Pessoas há que nunca se teriam apaixonado se nunca tivessem ouvido falar de amor” (máxima 36),

em Roland Barthes, Fragmentos de um Discurso Amoroso, trad. Isabel Pascoal, Lisboa, Ed. 70, p. 175

sexta-feira, março 02, 2007

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Não percebi nada sobre esta questão da OPA. Há um ano não se lançavam todos os foguetes sobre a iniciativa da SONAE para que já este ano andasse toda a gente a mandar apanhá-la as canas? É que isto de festas privadas sem dinheiros públicos nem toda a gente as sabe fazer. Sabem é mandar os outros fazê-las, sobretudo se isso implicar a "flexibilização" das leis do trabalho, que é como quem diz, despedir, sobretudo esses outros que são sempre os dispensáveis em qualquer reestruturação, que nós, os administradores desta telefónica pública, ditos liberais quando isso nos mais aprouver, somos para continuar nos nossos lugarzinhos, ou lá somos o quê, do povo, não? Disseram alto e o baile parou. O baile pára sempre, logo que os músicos o queiram. Uma questão de dinheiro, dizem-me.
A minha prima Salomé, que é a pessoa mais informada sobre política nacional de todas as que conheço, telefonou-me a perguntar o que pensava eu da declaração de Paulo Portas a anunciar a sua candidatura. Não pensava nada porque não a tinha ouvido. Só consegui dizer-lhe: "Mas porque carga de água é que uma das pessoas intelectualmente mais estimulantes de entre as figuras públicas, e que escreve exemplarmente bem, com artigos do que há de melhor, como comprovam as suas crónicas sobre cinema no jornal "Sol", e dando o desconto de uma certa queda para uma ou outra politiquice, para a qual não tenho paciência, quer afinal ser político profissional à força? Que sensaboria." Declaração mais antidemocrática que é esta minha.

quinta-feira, março 01, 2007

Identidade 1


John Tenniel, Ilustração







A criação da identidade é sempre colectiva. Di-lo a sociologia contemporânea. Parece estranho que aquilo que seja mais singular de cada um o seja em combinação com a pluralidade. Estranho e por vezes perturbador, sobretudo se eu nego em mim aquilo de que não gosto em qualquer outro, ou se eu nego sequer admitir a contribuição da ideia que o outro tem de mim na construção da minha identidade. É neste sentido que procuramos muitas vezes ter sempre a última palavra, para evitar a caracterização de outrem que não nos diz de todo, ou assim o pensamos. Ou, num exemplo mais intelectual, é o tipo de exercício que o filósofo Richard Rorty diz ter sido conduzido pelo meu bem amado Proust. O que terá feito Proust? Escrito um romance que pusesse um ponto final no que fosse ser dito dele depois dele, ou apesar dele. Uma ilusão, como o prova as muitas biografias sobre ele aí existentes, ou não, porque apesar de tudo o que se sabe, sabe-se a partir da leitura da obra, fonte primeira de toda a informação?

A descrição que satisfaz a um sujeito requer o quê? O discurso de um apaixonado? De um amigo? O que suporta ele de lucidez e de análise, por contraposição ao discurso evocativo e exortativo das características da sua personalidade? O que estamos dispostos a ouvir, ou a não ouvir? Que mentiras dizem os outros sobre nós ou nós sobre eles, e como isso afecta a nossa identidade, e que verdade admitiremos como a verdade? Seremos transmudados pelas nossas auto-narrativas e pela dos outros? Eu penso que sim. E a nível colectivo também?

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

"As madrugadas já não são o que eram" por Teresa Marques

Ilustração de John Tenniel para o livro Alice no País das Maravilhas
Da minha amiga Teresa Marques. Eu não poderia ter escrito nada melhor, daí ter retirado o texto da forma "comentário" e tê-lo posto aqui em destaque.


"E porque a nossa História é rica em referências aproveito para começar por citar Antero de Quental, in 'Prosas da Época de Coimbra':“Um dos piores sintomas de desorganização social, que num povo livre se pode manifestar, é a indiferença da parte dos governados para o que diz respeito aos homens e às cousas do governo, porque, num povo livre, esses homens e essas cousas são os símbolos da actividade, das energias, da vida social, são os depositários da vontade e da soberania nacional. Que um povo de escravos folgue indiferente ou durma o sono solto enquanto em cima se forjam as algemas servis, enquanto sobre o seu mesmo peito, como em bigorna insensível se bate a espada que lho há-de trespassar, é triste, mas compreende-se porque esse sono é o da abjecção e da ignomínia. Mas quando é livre esse povo, quando a paz lhe é ainda convalescença para as feridas ganhadas em defesa dessa liberdade, quando começa a ter consciência de si e da sua soberania... que então, como tomado de vertigem, desvie os olhos do norte que tanto lhe custara a avistar e deixe correr indiferente a sabor do vento e da onda o navio que tanto risco lhe dera a lançar do porto; para esse povo é como de morte este sintoma, porque é o olvido da ideia que há pouco ainda lhe custara tanto suor tinto com tanto sangue, porque é renegar da bandeira da sua fé, porque é uma nação apóstata da religião das nações - a liberdade!” - Pois que adormecido este povo permanece nas memórias de outros tempos é legítimo perguntarmo-nos: Será a democracia sinónimo de aceitar que as vontades de pseudo-maiorias nos obriguem a fazer parte de uma amálgama de figurantes que assiste impávida e serena ao desenrolar da trama que nos rege? E que, absurdamente, vibra com a acção esfusiante e fantástica desses actores eleitos sob as luzes da ribalta? Pois que nos teremos de questionar seriamente sobre que figurante seremos, somos ou gostaríamos de não ser!


Mas, e porque a noite urge e as madrugadas já não são o que eram, relembro Aldous Huxley, in “Sobre a Democracia e Outros Estudos”:“Os defeitos da democracia política como sistema de governo são tão óbvios, e têm sido tantas vezes catalogados, que não preciso mais do que resumi-los aqui. A democracia política foi criticada porque conduz à ineficiência e fraqueza de direcção, porque permite aos homens menos desejáveis obter o poder, porque fomenta a corrupção. A ineficiência e fraqueza da democracia política tornam-se mais aparentes nos momentos de crise, quando é preciso tomar e cumprir decisões rapidamente. Averiguar e registar os desejos de muitos milhões de eleitores em poucas horas é uma impossibilidade física. Segue-se, portanto, que, numa crise, uma de duas coisas tem de acontecer: Ou os governantes decidem apresentar o facto consumado da sua decisão aos eleitores - em cujo caso todo o princípio da democracia política terá sido tratado com o desprezo que em circunstâncias críticas ela merece; ou então o povo é consultado e perde-se tempo, frequentemente, com consequências fatais.
Durante a guerra todos os beligerantes adoptaram o primeiro caminho. A democracia política foi em toda a parte temporariamente abolida. Um sistema de governo que necessita ser abolido todas as vezes que surge um perigo, dificilmente se pode descrever como um sistema perfeito.”


Pois que estamos encurralados! Resta-nos a esperança na “missão do chamado «intelectual» que é, de certo modo, oposta à do político. A obra intelectual aspira, frequentemente em vão, a aclarar um pouco as coisas, enquanto a do político só, pelo contrário, consistir em confundi-las mais do que já estavam. Ser da esquerda é, como ser da direita, uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser um imbecil: ambas, com efeito, são formas da hemiplegia moral” (Ortega y Gasset, in 'A Rebelião das Massas')


E para terminar à boa maneira infantil:-Podes dizer-me, por favor, que caminho devo seguir para sair daqui?-Isso depende muito de para onde queres ir - respondeu o gato.-Preocupa-me pouco aonde ir - disse Alice.-Nesse caso, pouco importa o caminho que sigas - replicou o gato.(Lewis Carroll -Alice no País das Maravilhas).

Teresa Marques

terça-feira, fevereiro 27, 2007

A “ética da responsabilidade” e a “ética das consequências”

Ao fazer uma distinção clara entre estas duas esferas normativas da acção humana, a ética e a política, Max Weber contribuiu para dar razão aos que atacam o exercício da democracia como mais um sistema que se prende com uma luta e imposição de interesses dos que visam pragmaticamente atingir o poder, ainda que em nome dos seus concidadãos. Na linha de raciocínio de Weber, o homem de acção, o político, teria então que procurar evitar a fidelidade a princípios, como se entende ser a tradução de uma vivência ética ao nível de uma ética de responsabilidade, e prosseguir no plano da ética da responsabilidade, e isto se quiser atingir e/ou manter o poder. Assumir as consequências dos próprios actos mas sem recorrer a critérios definidos por princípio e segundo os seus princípios que os responsabilize, como? E se as decisões a tomar forem claramente não éticas? Bastará assumir as suas consequências e, dizendo-o, pôr em acção a sua decisão e ficar assim moralmente ilibado? E as consequências na vida dos outros, passa a ser responsabilidade de quem? Max Weber não defende este comportamento, em absoluto. Apesar de tudo ele reconhece ao político a possibilidade, e a honestidade, de se demitir no caso de ter que decidir de forma contrária aos princípios éticos por si defendidos, mas, ao permitir essa separação, vulgarizou, e legitimou, com a sua autoridade teórica, a ideia de que há princípios puros de regulação de uma acção ideal que, por não serem passíveis de actualização prática, devem ser considerados de forma diferente dos da acção prática. A separação radical destas duas esferas é injustificável.
Se por um lado com isto se procura evitar o deslumbramento messiânico de uma figurinha que queira impor os “seus” firmes princípios a quem quer que seja, porque esses são a verdade, e reclamando para avaliação da acção política o critério da assumpção das consequências pela decisão, por outro lado também os deixa sem critérios para ajuizar sobre as consequências dos seus actos. Quais são os limites? Quem os define? E como fazer a representação dos princípios? E não terá que se responsabilizar pelos mesmos?




Sir Edward Burne-Jones (1833-1898) "O espelho de Vénus"

Posso ser Ministro da Justiça e manipular números de sucesso administrativo? E ser Ministra da Educação e manipular números de sucesso escolar que escondem a verdade de um sistema que já nem sabe como ensinar o que quer que seja a alguém? Posso?


E posso ser autarca e cometer ilegalidadas que, desde que sancionada/o pela vontade popular, nada me impedirá de concorrer e de arranjar expedientes para continuar a concorrer a eleições tantas quanto eu quiser? Posso?


Numa sociedade que não pede responsabilidade e com um grupo de políticos que não pesam as consequências, pode-se.


Weber, diria eu, podia pragmaticamente assumir a legitimidade dessas atitudes já que, podia ele defender, as consequências far-se-iam chegar na hora de voltarmos a querer ser eleitos como governantes. E, em democracia, é assim que deve ser. Há o tempo para governar, para fazer campanha e para ser eleito. Mas a sensação por parte do público de que existe um ciclo de impunidade e de irresponsabilidade que nenhuma derrota eleitoral corrigirá (na realidade até parece que quanto mais depressa se sair do governo de Portugal mais depressa se tem um lugar de poder internacional e ou de administração em alguma empresa estrangeira), não deixará em aberto uma tentação para o radicalismo que uma defesa intransigente por uma ética dos princípios tomados como absolutos poderá esconder, só porque a ética das consequências a que nenhuma responsabilidade parece dar resposta, anda irresponsavelmente longe das acções da nossa sociedade política?
Max Weber, "A política como vocação" in Três tipos de Poder e Outros Escritos, trad. A. Morão, Lisboa, Tribuna, 2005:63-115.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Oui, c`est moi

A tentação de narciso e a precipitação de Orfeu. Ou nada disto e é uma simples entrevista que João Ferreira Dias do blogue Kontrastes teve a a gentileza de me requerer e de a publicar agora. Mania a minha de fazer malabarismos. Irra.

domingo, fevereiro 25, 2007

Ramires e a democracia dos outros, que nós por cá todos bem e recomendamo-nos, pois.


Bruno Logan Flou artistique aux cerises





Daquele telefonema de além-mar retive o seguinte: “Estou preocupada com o discurso do presidente e mais preocupada ainda com as acções que ele tem vindo a incentivar e que assentam no lema, para funcionário público aprender: “Quem não está comigo, está contra mim.” Tu sabes da minha simpatia pelas ideias da pessoa no início, agora começo a suspeitar que está a levar o país numa viagem para trás no tempo político.
Sim, chegam-nos cá notícias – respondi-lhe, contida. Acrescentando: -Parece-me que vai alterar a Constituição para ficar eternamente no poder, não é?


Não - respondeu depressa - Só fica no poder se o elegerem. Vai alterar a constituição para se poder candidatar ciclicamente, mas só assumirá o poder se for eleito – Tentou ainda defender com um resto de racionalidade a acção do seu governante.
E então eu recordei-lhe a história das eleições "livres e democráticas" do Estado Novo. Depois seguiu-se um silêncio incómodo. Quando desliguei pensei em qual seria a cadeira, e em que tempo, que tomaria o lugar de servir de oposição democrática àquele governante. Ou qual seria a maturidade daquele povo e o seu tempo de o manifestar.


Devia ter-lhe falado nas cerejas bêbedas que tinha acabado de comer na “Ilustre Casa de Ramiro”, sempre amenizava as previsões e recordava a sua paixão de viver.

Ah, e se o lugar se chamasse a "Ilustre Casa de Ramires", então... é que era, a cerejinha convidaria a dissertação farta.

sábado, fevereiro 24, 2007

24

Há dias que nos aconchegam e dão um grande abraço. Este é um deles. É um número que se me enrola e me solta.

igualdade em liberdade

Esta questão da igualdade. Nunca compreendi os detractores deste valor. Nem nunca compreendi porque há-de este valor entrar em conflito com esse outro da liberdade. Mas eu, tendo uma matriz de pensamento europeia, talvez possa compreender melhor essa conciliação e ver assim com mais facilidade como o argumento dos que identificam a igualdade com uniformidade é falacioso. Esta não é reversível naquela, e criticar a uniformidade não equivale a atacar a igualdade. Todavia, John Rawls, que viveu num país de grandes desigualdades sociais e que privilegia normativamente a liberdade como valor supremo para a acção humana, procurou rejeitar ao mesmo tempo uma imposição do valor de igualdade como objectivo político autoritário, mas também procurou rejeitar o valor da liberdade dos mais favorecidos explorarem aqueles que o são menos do ponto de vista económico, tendo como fim a eficácia económica. Uma tentativa de solucionar o problema da coexistência social destes valores.
A igualdade manifestar-se-ia no “princípio de igualdade de oportunidades” no sentido de criar uma maior justiça social, e, obviamente, segundo um “princípio de igual liberdade”. Se quanto a esta as questões, mais políticas, têm sido conduzidas a bom porto nas sociedades ocidentais, ainda que às vezes haja reservas, como no caso da liberdade de imprensa em Estado de guerra declarada, por exemplo, quanto ao primeiro, que mexe com o dinheirinho, é que as teorias e as práticas têm sofrido grandes ajustamentos e reformulações, pois caberá sempre perguntar pelos critérios do que se entende por igualdade de oportunidades, e como é que precisamente se pode proceder justamente à aplicação de uma política que faça todos os cidadãos beneficiarem igualmente das oportunidades, redistribuindo-as segundo as necessidades. Mas como definir o que é e como se deve fazer essa redistribuição? E como definir o que é equitativo sem cair no autoritarismo de regime?

Se me perguntar a mim mesma se acho que os ricos devem ajudar os pobres, eu respondo que os ricos não devem explorar os pobres. É uma atitude diferente, totalmente diferente.

A história dos sapatos de pele de porco.

Um tio, que não era meu mas podia bem sê-lo, sentou-se a meu lado. Contou-me histórias do Sul, de durante a guerra. A minha ascendência é beirã e do oeste ribatejano, tenho uma memória familiar diferente, porque diferente é a distribuição das terras nestas regiões. A pobreza não era tão avassaladoramente pobre como terá sido mais a sul, de cidadãos sem terras para subsistência, porque região de grandes concentrações de propriedades. O tio contou-me então que calçou os primeiros sapatos aos catorze anos, eram uns soberbos sapatos feitos pelo irmão, já mestre sapateiro, que tinha pedido uns restos de pele de porco para lhos confeccionar. Catita, só os tirava dos pés para dormir…o pior era no Verão, confidenciou-me, é que não havia nem cão nem gato lá na cidade que não lhe andasse ao encalço dos pés. O que nos rimos com a fantástica história. E desta vez nem sequer vou acrescentar nenhuma moral.

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

A EMEL e as suas trapalhadas

Quem quiser tratar de assuntos com a EMEL (Empresa Pública Municipal de Estacionamento em Lisboa), e consultar o seu site na internet, fica a saber apenas a morada da Loja do Munícipe e as horas de atendimento. Do mal o menos se a informação estivesse correcta, sendo certo que a página não permite obter quaisquer outras informaçães porque todos os links dão a indicação que estão "em actualização". Ora dirigindo-se o munícipe à morada ali indicada depara com um papel na porta avisando que os serviços mudaram para a Rua Pinheiro Chagas, numa loja que se chama "Ponto Verde". Distante o bastante da indicada Rua dos Douradores ao Rossio que é a morada que consta da informação on line. Chegados finalmente ao seu destino, e apresentada a devida reclamação, ficam os munícipes a saber que há um diferendo legal entre a empresa que criou o site e a EMEL, o que faz com que aquele se mantenha on line apesar de estar a dar indicações falsas. E para quem não vive nos bairros históricos da cidade a história acaba aqui.
Mas para os que lá vivem... um número sem fim de munícipes protesta pela confusão gerada ao nível das informações informáticas relativas à listagem dos automóveis aos quais é permitida a entrada nas ruas residenciais dos ditos bairros. Do Castelo ao Bairro Alto há um número crescente de munícipes que vêm a sua entrada no bairro ser impedida por manifesta ausência de informação actualizada. As pessoas saturadas protestam, dizem que têm os papéis todos em ordem, apresentam as respectivas licenças, e os serviços desculpam-se com a confusão gerada pelo tratamento informático dos dados. Mais uma face do poder camarário de Lisboa a mostrar a sua falta de profissionalismo. Mais pessoas a dizerem que mais vale ir morar para fora da cidade. Pois.

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Pragmatismo político

Estava aqui a pensar nas reacções ao documento entregue pelo MUNAF (Movimento de Unidade Nacional Antifascista) junto da Assembleia Geral das Nações Unidas a 8 de Dezembro de 1948, intitulado “Portugal e a ONU”. Na altura, a imprensa mais afecta ao regime do Estado Novo caustica o documento pelo seu carácter antipatriótico (argumento pífio do ponto de vista racional mas que emocionalmente deve ter deixado a sua mossa, não sei) e por nem sequer estar assinado. Pudera... Ironiza-se, na dita imprensa, com o tipo de apoio procurado, e encontrado, junto de países representados nas Nações Unidas e que impedissem a entrada de Portugal, evocando-se para o efeito o carácter ditatorial do nosso regime. Na realidade esse apoio foi dado pela união Soviética que vetou a entrada de Portugal na Organização.

Penso nos autores do documento e na sua vitória, que lhes deve ter dado um sabor amargo na boca, pois se realmente eram opositores de governos ditatoriais o que não lhes deve ter constrangido estar em semelhante companhia. Deve ser o tipo de situação de se estar entre a espada e a parede. Do ponto de vista pragmático a vitória assim conseguida contra o Estado Novo foi importantíssima, o governo sofreu uma derrota pesada no plano internacional, mas do ponto de vista da justificação da sua acção, o facto de a União Soviética estar a apoiar as suas exigências não lhes deve ter dado muito descanso.
Mas que diabo… estávamos entre nações democráticas, a pedir-lhes a sua atenção e apoio para pressionarem o nosso Estado, e todas elas aceitavam o nosso regime fascista, caucionando-o, nessa votação? E depois há uma nação que de democrática nem tinha sequer o nome e que apoia as alegações da oposição portuguesa? Não há aqui nenhuma contradição?
Bom, mas também de vitórias morais está a teoria cheia. Ou talvez não.

Quatro anos de conflitos no Darfur. Já faz quatro anos.


"This month marks the fourth anniversary of the start of the horrific violence in Darfur. Hundreds of thousands of innocent Darfurians have lost their lives, and millions more have been displaced from their homes.
Four years is far too long -- it is time to put a stop to this genocide."
David Rubenstein

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

duas histórias 1

A história do nada ou a dos sapatos de pele de porco?
Um-dó- li-tá.

Morrer por ideias ou…por pessoas

Ah, pois, porque quem não está preparado para morrer pelos seus ideais, não lhes dá o devido apreço, não os assume intransigentemente contra os seus inimigos. Como? Morrer por ideais? Quais? Sim, a liberdade, sim a justiça, sim a igualdade dos cidadãos perante a lei, sim à equidade, sim à solidariedade, sim a isto tudo e não a morrer por nenhum deles. Era o que mais me faltava. Mas custa-me um bocadinho admiti-lo, a réptil parte de mim está a fazer um esforço para não concordar com o facto de que há sim ideias pelos quais se deve morrer. É a parte panfletária do meu cérebro, figurada pela padeira com a pá alçada e pelo salivar de ratito de Hamelin sempre que ouve uma fanfarra militar.
Se eu vivesse numa sociedade militarizada ou doutrinada para combater com a morte tudo o que não fosse a vida que eu entendesse que era a verdadeira vida, admitiria esta luta, mais, consagrá-la-ia como a heróica humana forma de vida, ou continuaria a pensar que não era esse de todo o meio que me permitiria o fim almejado? Em democracia admitir a morte por ideais é o equivalente a um suicídio cívico. É sacrificar à liberdade com sangue. Mas que raio de liberdade é esta que se conquista com sangue? Sim, bom, mas o que fazer com os inimigos que nem sequer pressupõem outra forma de defender os seus próprios ideais a não ser pela imolação da sua própria vida? Que desprezam qualquer outra forma de dirimir o conflito de valores ou de formas de vida? Não se deve combater pela liberdade contra os seus inimigos? Eu não conheço outra resposta que não seja a que diz que existem pensadores, que existem políticos, que existem diplomatas, que existem leis e tribunais internacionais, que existem forças regulares de segurança e nenhuma destas ordens que garante um Estado de direito deve poder evocar a necessidade da consagração da vida dos seus cidadãos.
Na realidade conhecer até conheço outra resposta mas pôs-lhe açaimo e conto-lhe histórias de algumas revoluções, ou de algumas intervenções armadas no mundo em nome dos direitos consagrados no espírito das democracias, até que a resposta aprenda e se transforme numa pergunta. Esse não é um dever de cidadania, o dever é fazer um esforço e raciocinar e argumentar. E quando já não conseguirmos mais? Sermos substituídos por quem o saiba fazer melhor que nós.

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Por cima de mim um céu cheio de estrelas


Mais do que evocar um imperativo categórico que se impõe pela razão para controlar a vontade numa tentativa de neutralizar os interesses individuais em nome do interesse geral, a filosofia ética contemporânea procura justificar em primeiro lugar a possibilidade em continuar a defender pressupostos universais a regular a acção humana, assentando na ideia de que é possível compreender que há na humanidade um estado que é partilhável por todos e cada um: 1. A vontade de comunicar entre si regulada por critérios intrínsecos à própria natureza dessa comunicação que permite a visualização dessa realização discursiva em acção de mútua compreensão, e depois vai por aí fora com a defesa de critérios universais de regulação; 2. Ou pela evocação de uma experiência mental passível de ser realizada por todos os indivíduos, em que estes se aprenderiam a saber-se colocar no lugar da neutralização dos seus interesses privados e legislaria da melhor forma possível para todos os cidadãos. À excepção das filosofias que o negam de todo, numa linha de interpretação nietzscheana da evocação de princípios morais como princípios de poder dos dirigentes do momento, ou das teoria analíticas da linguagem, as outras filosofias orbitam à roda destas ideias de Apel e Habermas e de Rawls

Mas cada um de nós da humanidade só conhece o rosto daqueles com quem convive. São esses de quem gostamos ou detestamos, ou nem por isso. A doença e a morte atinge milhões de indivíduos por anos, mas eu sou chamada à cabeceira dos que conheço. É a ausência destes, pela sua morte, que perspectiva a ausência dos que eu não conheço. Mas aprendo a partilhar e a ser solidária com a dor de outrem pelas ideias, logo pelo reforço numa educação do comportamento, ou pela analogia que pressinto na nossa co-existência?

Não é no entanto o facto de eu me interessar pela existência dos outros de quem pouco ou nada sei que me faz mais solidária. Eu posso saber tudo sobre a dor de perder alguém e não querer saber que isso aconteça a outrem, ou não me importar em demasia. Posso saber tudo de como ser solidária e não arriscar um milímetro para além da satisfação da minha vontade do momento. Ouço dizerem-me frequentemente: ”Com a dor dos outros posso eu bem.” E porque não, realmente? Porque é isto um absurdo? Não será por uma explicação que excede a do interesse de cada indivíduo saudável que é o de querer tudo para si da forma que lhe for mais conveniente sem olhar ao como e à custa de quem? E onde se justifica uma explicação de aversão por este comportamento? No principio de cooperação entre sujeitos sem a qual não haveria sociedade, logo não haveria eu como identidade? Mas chega-se a esta constatação como? Pela nossa natureza, pela nossa civilização ou pela nossa imaginação?

Se um cidadão comum devia saber responder a si mesmo sobre o que o “faz correr” e porquê, um político nunca deveria exercer nenhum cargo público, ou apresentar nenhuma medida geral, sem saber responder explicitamente, mesmo se só de si para si, ao conjunto de questões que a filosofia ética contemporânea propõe.

De resto…morrer… bom, esperemos que seja ela a chegar-nos pela forma natural, e não por imaginação ou ideia de civilização de alguém. Mesmo assim sobre aquela já há muito a aprender como fazê-lo, quanto mais sobre a que vem por acréscimo da satisfação da vontade de alguém em defender interesses dos quais eu não vislumbre defesa possível no quadro dos direitos e dos deveres cartografados internacionalmente. Sem reservas.

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Diz-me que espírito tens.

Até que ponto a nossa adesão a uma ideia, um movimento ou uma instituição deve ser feita sem reservas? Até que ponto podemos dizer que somos de uma religião ou que partilhamos de um ideário político, ou que escolhemos um regime, sem afirmar isso e o seu contrário quando sentimos que o contrário também existe e explica melhor certos momentos? Será incapacidade de compromisso e de afirmação de identidade ou manifesta paixão pela liberdade de acção e de pensamento? Como saber quais as práticas, porque é mais fácil defender valores, a que concordaríamos sem reservas?
Que dever temos para com as nossas crenças? O de as manter sob revisão constante ou de as defender intransigentemente? Como viver a dialéctica? Com a poesia da entrega em absoluto, com o sentimento da inquietação pelo pressentir das ambivalências ou com o passo atrás dado pelo exercício da argumentação?

Os problemas de Lisboa. E que problemas...

Por via do blogue Duas Cidades ficamos a saber da organização destas conferências por Pedro Quartin Graça.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

epifenómeno ou epicentro da história: o meu problema profissional

"A ideia de que são homens, livres e iguais em direitos, que constituem o único fundamento da ordem política, graças a um contrato social, desenvolve-se a partir do meio do século XVII, alimenta o pensamento do século das Luzes e culmina nas proclamações e nas declarações americanas e francesas do século XVIII, que caracterizam a ideologia individualista e burguesa dos direitos do homem e do cidadão." Perelman, p.203
Comer uma fatia do melhor bolo de chocolate do mundo, ou combinar ir à Beira comer Chanfana, sabor que vem da infância, plantar um jardim de flores ou olhar uma árvore ou não poder olhar uma árvore. Sorrir, gostar muito, rir, contemplar e derramar uma lágrima. Inquietar-se.

Let's Dance

David Bowie

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Status e poder

Este texto parecerá muito afastado do tema anterior. Mas eu julgo que não é. Vejamos bem como funcionam os processos de entrada e progressão nos sistemas de poder, num artigo escrito por Elísio Estanque e que pode ser lido na íntegra no blogue BoaSociedade.

"Como afirmou recentemente o conhecido sociólogo Ralf Dahrendorf, mesmo aqueles (poucos) que chegam às elites pelo seu talento fecham as portas atrás de si logo que tenham alcançado o seu status. «os que lá chegaram por 'mérito’ passam a querer ter tudo o resto – não apenas poder e dinheiro, mas também a oportunidade de decidir quem entra e quem fica de fora». Assim, pode dizer-se que a retórica da «meritocracia» não passa, regra geral, disso mesmo, nomeadamente no acesso ao emprego de um jovem recém formado. Em vez disso, parecem cada vez mais fortes as redes informais e o «capital social», o que remete directamente para a questão das influências que a família de origem possui. Muito embora a formação superior e o diploma avançado seja um requisito fundamental, ele exige como complemento decisivo, não apenas o mérito e o conhecimento, mas sim conhecer quem vai abrir a porta. Como dizem os ingleses «the important is not what you know, but who you know». E isto é também uma questão «de classe»."
Sobre o autor Ralf Dahrendorf.
Uma entrevista com o mesmo, intitulada "Justiça Social não é feita em tribunais".
Hoje mesmo se poder ler no Jornal Público uma carta de uma leitora que fazendo parte do Conselho Executivo de uma Escola Secundária de Lisboa nos conta como se tornou perverso o novo sistema de contratação livre de docentes por parte da escola. A ausência de critérios pré-definidos que, em tempo útil, permitam a uma escola avaliar sobre a entrada de um professor para leccionar, com as consequentes pressões para escolher este ou aquele candidato, por motivos alheios aos da sua avaliação por comparação de mérito, está a dar a confusão que pessoas experientes ha´muito previam. Claro que uma lista ordenada nacionalmente por classificações e números de anos de trabalho perturbava as almas. Que almas?
Atente-se na citação de Joaquim Manuel Magalhães feita no Almocreve das Petas, num post intitulado "O Ministério da Educação":
"Mais do que o TLEBS ser bem ou mal em si, o que importa é quem tentou implementar isso. Se o Ministério da Educação fosse um lugar credível para os professores, estes, os principais envolvidos em todo o processo, seriam capazes de dialogar e de intervir de modo a que se modificasse muita aresta mais incómoda. Os professores não precisam de interventores culturais a falarem por eles. São gente, na sua maioria, informada, dedicada e habituada ao diálogo transformador. O problema está em que desacreditaram de tudo o que possa vir de um ministério que os apoucou, aviltou e desautorizou. Um ministério que elegeu como inimigo a abater, diga o que disser na sua demagogia, aqueles a quem devia servir. Sobre este assunto já o Padre António Vieira se pronunciou, como talvez nos ministérios se não saiba. Quotidianamente, a escola serve ao ministério para abater a autonomia do professor: nos horários em que o rouba, nas avaliações em que o conspurca, nas portarias em que o desumaniza. Perante esta situação de abate sistemático, esta via de desprezo pela vontade continua de aprendizagem e actualização, mesmo sem ter apoios económicos de lado nenhum, a que o professor geralmente gosta de se dedicar, esta espoliação do tempo para pensar e informar-se e ler e ir ao teatro e ao cinema e às exposições onde o melhor de si pode apreender o melhor dos outros, esta transformação do professor de educador e amigo dos seus alunos em criado de servir e bode expiatório do inevitável insucesso escolar: como há-de alguém querer interessar-se por qualquer proposta que surja de um declarado inimigo assim? TLEBS e outras situações existentes não perderam por causa das opiniões abalizadas que as atacam - e que eu estou longe de discutir aqui, tanto mais que em muitos casos concordo com essas opiniões. Perderam porque ninguém respeita nem pode respeitar um ministério como este que lhes caiu em sorte"[Joaquim Manuel Magalhães, in Algumas Palavras, Expresso-Actual, 9/02/2007]
A pensar é também o que nos convidam a fazer os artigos "Boicotes" do prof. Alberto Castro e "Histórias com final feliz" do Jornalista Sérgio Andrade no Jornal de Notícias.
E é de sublinhar a consciência de Pedro Correia no post "O dia seguinte" do blogue Corta-fitas que nos alerta para o que é agora verdadeiramente importante questionar no pós-referendo.

Veja lá se quer levar com 480 euros…veja lá…. Os direitos pensam-se para ser caros em Portugal. É a justiça como um privilégio.

A ameaça velada aos cidadãos que peticionaram o habeas corpus em nome de uma lei exibida com riso sardónico, a aquiescência subalterna de quem, sendo advogado, e tendo sido um dos primeiros subscritores, aprende que é um risco muito grande confrontar um juiz negando o valor de verdade das suas afirmações mesmo quando elas são falsas, ou pelo menos não rigorosas, e, quando repreendido pelo tom de autoridade que se sente irritada e molestada, encadeia um rosário de desculpas confrangedoras para quem ouve a espinha a dobrar-se até ao chão, gesto que é entendido pelo mesmo juiz como uma atitude que nem merece compreensão, de tão interiorizada como normal no seu quotidiano de decisor e aplicador mor da lei da República. Afinal de contas é o mesmo juiz que não recebe ordens de ninguém e acha supérfluo a manifestação de um direito de cidadania por parte de 10.000cidadãos seus, embora se ache uma figura vitoriosa na luta pelo poder dentro do seu sistema. Não ouve, não argumenta, não dá essa consideração senão a um número restrito de seus pares.


Eu não assinei nenhuma lista mas agora até tenho pena, pois, se o tivesse feito, diria que não comprariam o meu silêncio se eu sentisse que tinha necessidade imperativa de me manifestar. Não me assustava com a insidiosa indicaçãozinha. Nem com o sorrisinho. Não temeria a ameaça, nem a julgaria exemplar. Pelo contrário, insistiria na pressão social como forma de fiscalizar o que é dever de um povo fiscalizar: todos os assuntos que digam respeito à gestão dos assuntos públicos conduzidos em seu nome.

E a ninguém eu vi discutir a concepção filosófica/sociológica do corpo teórico que fundamenta o sistema de direito defendido e aplicado em Portugal, que, naturalmente em processo de continua revisão histórica porque não emana de nenhuma divina presciência mas da razão humana, ainda que a alguém eu tivesse visto propor uma alteração radical no sistema de ensino que propicia a existência de personalidades arrogantes e escudadas na concepção de direito privilegiado pelo sistema, como as que nos vamos apercebendo pululam no meio.
Escreveu Perelman para que nós todos pensemos:
“É o positivismo lógico quem insiste no facto de que a finalidade própria do direito, contrariamente à moral e à política, não é a realização da justiça nem a procura do bem comum, mas a segurança jurídica, garantida por4 uma ordem conhecida por todos.

Sabe-se que esse ideal de elaboração sistemática de um direito estático, análogo a um sistema lógico ou matemático, foi derrotada desde a segunda metade do século XX, graças à concepção teleológica do direito, tal como a encontramos em Von Jhering e Gény e sobretudo graças à concepção sociológica do direito que se impõe desde o primeiro quartel do século XX (Erlich, Roscoe Pound et Duguit).” p. 379
“Embora seja obrigado a aplicar a lei, o juiz dispõe, no entanto, de um conjunto de técnicas próprias do raciocínio jurídico que lhe permitem, na maior parte dos casos, adaptar as regras ao resultado procurado. A intervenção do juiz permite introduzir no sistema jurídico considerações relativas à oportunidade, à justiça e ao interesse geral que parecem, numa perspectiva positivista, estranhas ao direito. O recurso a noções vagas, tais como força maior, o estado de necessidade, a ordem pública nacional ou internacional, permitirão aos juízes limitar o campo de aplicação das regras reconhecidas com o intuito de chegar a uma solução mais satisfatória.

Notemos que essas técnicas de flexibilização e de adaptação dos sistema jurídico aos valores dominantes na sociedade se encontram, sob outras formas, noutros sistemas, que não o do direito europeu continental.” Chaïm Perelman, p. 382
E os portugueses que o atestem …

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

A política como acção simbólica

Um trabalho muito interessante sobre a questão da política como acção simbólica numa apresentação em "powerpoint" pelo prof. americano Allan Louden. Aliás todas as ligações e trabalhos dele são muito bons.

domingo, fevereiro 11, 2007

um referendo

Os referendos há oito ou 10 anos anos estavam na moda. Repetia-se à saciedade o seu valor cívico e participativo. Era o tempo em que os políticos evocavam as democracias do Norte da Europa e vendiam publicamente essa ideia. Desta feita a defesa da ideia do referendo como processo participativo dos cidadãos na política foi defendido de uma forma mais envergonhada. Não está na moda. O que está na moda em política neste Outono/Inverno é apresentar malabarismos com números da função pública e achar que todos os problemas do país se resolvem com a maximização das privatizações dos serviços públicos. È a ideologia do primado do económico sobre o politico. Uma ideologia social, portanto.
Eu comprei totalmente a ideia da importância do referendo, e não desisto dela mesmo quando os que fizemos até agora insistem em demonstrar que os portugueses não querem tornar vinculativas as decisões que daí venham a ser manifestadas. São expressões da vontade, e neste caso específico, da consciência moral de cada um.
Seria interessante que alguém pudesse fazer um estudo sobre os valores da sociedade Portugal em termos de desenvolvimento moral segundo os estádios de Kohlberg. Mas para isso era preciso sabermos as motivações e fundamentações de cada votante. Um estudo mais complexo mas não menos importante para a compreensão de quem somos como povo, do que o que é feito pelas apresentações de sondagens, por exmplo. Aliás, com cada empresa/canal a reivindicar êxitos na previsão. Também com o tipo de intervalos que os mesmos especialistas propõem… e depois há a questão levantada pelo sociólogo Patrick Champagne de que a sondagem é uma falsa ciência que dá a ilusão de um saber: a ilusão de que se sabe o que pensa o público ou, mais sério ainda, de que ao fazer-se sondagens se está a fazer uma consulta “democrática” ao eleitorado. Hei-de voltar a escrever sobre este tema.

As televisões pareceram também não se quererem vincular muito ao referendo e terminaram todas muito antes do tempo que tinham anunciado vir a dedicar à sua discussão. Mas, sinal de maturidade ou de desprendimento? , feitas as contas, e caindo-se na saturação da repetição dos argumentos dirimidos na campanha (em alguns casos a atingir a caricatura, como aconteceu com um representante do “Movimento pelo Não” que interveio a prever o apocalipse do sistema de saúde público e a reclamar como votantes no “Não” os abstencionistas, no movimento contorcionista da noite), e no vazio de uma lei ainda por fazer e sobre a qual ainda ninguém pode apresentar contornos (a entrevista ao Ministro da Saúde na RTP1 foi por isso confrangedora), os três canais de televisões generalistas terminaram todas as suas emissões muito mais cedo do que o que tinham programado e foi um aí vão elas para programas que garantam audiências, com a SIC a ser apanhada na mão e a propor em série de dois a série CSI.

A humilhação pelo acto da mulher em estado de não querer/poder prosseguir a sua gravidez espero que termine, pese embora dependa esta mais da humanidade dos técnicos de saúde escalonados para acompanhar as mulheres do que da bondade de uma lei, mas a dor … a dor, essa é que não desaparece por nenhum referendo, mesmo se vinculativo. E aí estarão sozinhas. E sozinhos. Um dia, na rotunda do Santo António em Alvalade, enquanto esperava que o sinal de trânsito abrisse, ouvi um carro parar bruscamente, de lá de dentro saiu um rapaz que gritava desesperadamente "Não faças isso, tu és uma assassina. Não vás." e agarrado à porta continuava a gritar. Quando finalmente bateu com a porta o carro arrancou e passou à minha frente. Segui o rapaz com os olhos, ele ia visivelmente alterado. Ao mesmo tempo eu consegui compreender o desespero dele, sem pôr em causa a decisão da rapariga. Ela saberia o que eu não sabia. Mas compreendi pela primeira vez a dor de um homem quando é obrigado a abortar. Algo que eu nem admitia. Imaturidade minha, ou excesso de neo-realismo existencial, nem consigo aqui explicar. A dor, pois. Essa maldita dor que não os largará por jurisdição.

sábado, fevereiro 10, 2007

O Estado1


Mas porque é que se baralham as funções de Estado com os ordenados que se pagam a quem exerce essas funções? Interessa a quem a confusão entre a concepção de Estado e a concepção defendida por um sistema capitalista de regular as transações económicas? E além disso, quem disse que as funções de Estado de um Estado europeu são as de defesa e de Relações Internacionais? Não é aí que precisamente a Europa devia falar como um Estado a uma só voz, tornando irrelevantes as posições de cada Estado-nação que nela estão integrados?

Paga-se para fazer, paga-se para desfazer, e há quem pague para ver

Embasbacaram as nossas ilustres almas lusitanas com o que Al Gore veio dizer. Só pode ser porque o ex futuro senhor presidente dos EUA (como aliás ele tem a graça de se saber apresentar, e a graça de vender a sua imagem como conferencista) tem um odor a poder imperial, porque de resto essas mesmas palavras andam há anos a ser ditas pelo Arq. Ribeiro Teles e pelo prof. Soromenho Marques, entre outros, e nenhuma dessas almas governativas e autárquicas pára em êxtase para os ouvir falar (e há até quem proponha a lei da pedra para os mesmos). E muitos desses autarcas compungidos com o futuro climático do mundo, desde que ombro a ombro com o Sr. Gore (que “frisson” senhores!) são responsáveis por decisões urbanísticas que contribuem para pôr em causa esse mesmo futuro. Contradição? Não, é só consciência (ecológica) de alguns autarcas/políticos portugueses colada a cuspo.

Há em François Lyotard um saber que reflecte sobre a questão do ajustamento entre o homem e o seu meio ambiente. Se eu me situo na linha de um pensamento do desenvolvimento, tal como na modernidade se concebeu a história social e a história da razão em particular, Lyotard, com as suas críticas ao tipo de programa desenvolvido na modernidade, é o autor que serve muitas vezes de contraponto às minhas teses. Quer isto dizer que o ouço, e com ele procuro argumentar, mas não defendo a sua teoria. No entanto, exactamente por não partilhar das suas conclusões, parece-me mais fiável distinguir os seus pontos de vista, porque exactamente me sinto mais distanciada relativamente aos mesmos. Assim quando ele escreve sobre as relações entre o capitalismo e a tecnologia eu paro para pensar, ainda que com alguma resistência. E o que diz ele? Que o ser humano não passa de um transformador de energia entre outros, que assegura, com as suas produções culturais, económicas, artísticas e tecno-científicas, a complexidade do universo. E à resposta que a comunidade humana deu à complexidade do universo com a criação de uma linguagem e de um método cognitivo extremamente sofisticado, e que dá origem às teorias científicas, reage o capital com a capacidade que tem de retribuir com essas teorias, porque as mesmas que dão resposta aos problemas científicos podem servir depois para produzir e distribuir novos produtos comercializáveis.
Ora não sendo no entanto para Lyotard o capital “um fenómeno económico e social”, pois apesar de ser o capitalismo um sistema que permite poupar tempo, trabalho e dinheiro, de intercâmbio, de aumentar as mais-valias, tudo isto é certo, tem a função de reforçar o que o autor chama de sistema de complexidade energética da “grande mónade”, um reforço conduzido por negentropia. Por esta entende-se um factor que organiza os sistemas físicos e humanos no sentido de evitar a desordem do sistema, fenómeno anterior à vontade e à inteligibilidade dos humanos e que os convoca. Ora o que poderia estar a acontecer, segundo Lyotard, é que a tecno-ciência não é um fenómeno decorrente do interesse e da vontade de cada indivíduo, ou de um grupo social, em conhecer e transformar a realidade, mas sim a reacção cósmica por necessidade de se complexificar utilizando a comunidade humana para o efeito, longe de um ponto de vista humanista. É bizarro, mas a degradação do nosso planeta, na soma geral dos sistemas existentes no universo, não interessa, mesmo que isso pressoponha, como pressupõe, o fim da própria espécie humana.

Não podemos deixar de perguntar então o que há a fazer? Para um pós estruturalista, este tipo de fenómenos, não dependem do domínio humano, os seres humanos não o podem dominar:”No estado actual das tecno-ciências e do capital acumulado nos países desenvolvidos, a identificação da comunidade por ela própria não necessita da adesão dos espíritos, não depende de grandes ideologias partilhadas, acontece pela mediação do conjunto dos bens e dos serviços trocados a um ritmo prodigioso, do equivalente geral destas trocas representado pelo dinheiro e do pressuposto absoluto deste equivalente que é a linguagem.”, p.127.
Se compreendo esta teoria como um novo impacto no narcisismo humano (no seguimento do que fora, como Freud os enunciara, os impactos narcisistas de o “homem não está no centro do Cosmos (Copérnico), não é o primeiro dos seres vivos (Darwin), não é dono do significado (Freud)”, o que obrigaria a compreender que mais não passaríamos de um átomo em movimento no sistema de energia universal), também compreendo que nos deixa sem a possibilidade de defender uma intervenção mais inteligente e cooperativa entre os humanos no sentido de criarem uma vida melhor. E a lição de humildade da tese ajuda-nos a defender-nos dos maus decisores? Ou apenas nos ajuda a compreendê-los irrelevantes na soma total da vida universal, mas relevantes para as comunidades afectadas directamente pelas suas acções e/ou pensamentos?

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Divulgo: SAGE Journals com acesso gratuito

O prof. João Pissarra Esteves enviou-me a referência de que as revistas da SAGE online estarão inteiramente acessíveis este mês de Fevereiro.

"To celebrate throughout February all content on SAGE Journals Online is accessible for free!
2) If your institution does not subscribe to any SAGE journals, please visit https://online.sagepub.com/cgi/register?registration=FT20074
<https://online.sagepub.com/cgi/register?registration=FT20074> to
register for free online access to the free trial today."

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

“Começar a ver” ou o papel de um professor como é suposto um professor ser

Nesta tarde de chuva tiro uma hora para ler os meus blogues favoritos. E no fim apetece-me transcrever:

“No dia seguinte Minnie devolve o livro a Theodora Bosanquet.
- Gostou? – pergunta Theodora.
- Bem, Miss Bosanquet, está muito bem escrito, isso deu para ver, mas…
- Mas?- Os grandes olhos castanhos de Theodora estão quase cintilantes.
- Bem, para ser franca, é um bocadinho de mais para mim.
- Pois é, Mr James é de facto um escritor difícil ao primeiro contacto. Exige muito dos leitores. Mas o esforço é compensador.
- Ah, sim, certamente, Miss Bosanquet. Mas p`ra isso é preciso ser culta.
- O que é que achou mais difícil de entender? - Theodora abre o livro e começa a folheá-lo.
Minnie hesita, tentada a responder: “Tudo!” Mas o que diz é:
- Bem, eu julgava que ia ser acerca da selva…
- Ah. A fera na selva é apenas uma metáfora. Um símbolo.
- Ah… – Minnie fitou-a boquiaberta.
- Marcher teve toda a vida um pressentimento…uma sensação…de que alguma coisa terrível e extraordinária lhe ia acontecer, e compara essa coisa a um animal selvagem à espera para saltar sobre a presa.
- Ah, estou a ver. - E Minnie está mesmo a começar a ver.
- E então ele conversa com May sobre o que poderá ser… interminavelmente, obsessivamente, egocentricamente, encontro após encontro, ano após ano. Até que ela morre e só então ele compreende, tarde de mais, que ela o amava. E compreende que nada jamais irá acontecer-lhe, porque ele é incapaz de amar.
- Ah, então é isso que a história quer dizer – murmurou Minnie, quase em êxtase, com o olhar desfocado.
Theodora salta para a última página da história e lê em voz alta: - ”Ela tinha vivido, quem poderia dizer agora com que paixão?, pois tinha-o amado pelo que ele era; ao passo que ele nunca tinha pensado nela (ah, como a verdade o fita acusadora) senão no gelo do seu próprio egoísmo e à luz da utilidade dela.” Percebe?
- Agora sim. Obrigada, Miss Bosanquet.”

David Lodge, Autor, Autor, pp. 32-33.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Timor a precisar ainda de assistência humanitária...até quando?

TIMOR-LESTE SECURITY SITUATION REMAINS 'VOLATILE,' WARNS SECRETARY-GENERAL
New York, Feb 5 2007 4:00PM


"The overall situation in Timor-Leste has improved, although the security situation in the country remains volatile and the political climate fluid… The judicial sector, a key component of the rule of law, remains weak in a number of areas, and UNMIT, together with many partners in the wider international community, stands ready to assist in strengthening it," he writes.
(...)
"In order to be sustainable in the long run, the efforts in the political and security sector spheres need to enjoy the full ownership and acceptance of the Timorese stakeholders. They also need to be underpinned by tangible progress and dividends in economic and social development."
"For the time being, however, the humanitarian challenge still exceeds the Government’s capacity. I welcome, therefore, the new consolidated appeal covering the first six months of 2007. The international donor community was generous in supporting humanitarian assistance to Timor-Leste in 2006. It is hoped that donors will consider contributing towards the 2007 appeal with the same generosity."

in http://www.un.org/news/

A situação de segurança é instável, o sistema judicial é instável, o sistema económico é instável, e as decisões das instituições estatais, serão estáveis?

David Lodge

Eu tinha acabado de sair de duas leituras muito más. Assim, de seguida. Lá me aguentei a ler o último livro de Isabel Allende, estupefacta com a má qualidade do romance que está ai no topo de vendas. É que é mesmo muito fraco o Inês da minha alma, a quem nem sequer as referências históricas conseguem salvar a face de uma escrita ao rés de um romance que podia ser de uma bela personagem literária feminina e não passou de um esboço grosseiro de uma mulherzinha e seus amantes com a revolta dos índios nativos do Chile como pano de fundo. Aguentei-me também a ler o livro de Lou Marinoff, Mais Platão, menos Prozac! A culpa é de Platão que se deixou pôr a jeito no título. O livro, do ponto de vista da reflexão filosófica, é uma desgraça, mas sendo um livro de auto-ajuda, é, como todos os livros de auto-ajuda, um livro de filosofia instantânea, e nada mais se lhe deve pedir que seja. Mas quando chegou a hora da minha submersão em vírus, eu já andava a ler um livro deliciosamente bem escrito, o Autor, Autor de David Lodge, daí que não possa afirmar em absoluto: - Diz-me que livro andas a ler, dir-te-ei que doença terás. Algo que teria conotações muito Humberto Eco, diga-se.

Foi o prof. João Carlos Correia quem mo tinha indicado, um dia em que eu me devia estar a sentir-me mais “Calimero” que o próprio “Calimero” no que a assuntos universitários diz respeito. “David Lodge? Sim?! Não conheço.” Fui conhecer. Comprei o livro, um dos dois que havia, e ao calhar, na livraria nova que abriu há pouco tempo na Rua Vasco da Gama em Lagos. O livro não tratou de me perspectivar em relação à universidade, mas em relação à construção de um ego cheio de matizes psicológicas do mundo literário, Henry James. É um portento de escrita com um toque de época e de meio, o que não é um defeito.

Afundada em sensações virais imaginava Lamb House, ou meneava a cabeça com a relação empertigada de James com os amigos escritores, sobretudo com o superior carácter da escritora Fenimore, ou deixava-me compadecer com a perseguição de si por si mesmo descrita pela mão de Lodge, e, sobretudo, sentia alívio com o ventinho fresco na cara quando dos passeios dados a pé e de bicicleta pela personagem principal. E agora convençam-me lá que eu nunca estive no East Sussex.

Divulgação

O meu colega Fernando Mouro enviou-me esta ligação que nos permite ter acesso a um grande número de vídeos de filósofos ou sobre filosofia, o Online videos of Philosophy . O link corresponde ao post de um excelente blogue de Filosofia que só agora fiquei a conhecer A brood comb ... philosophical and other notes...

De Portugal, e através de e-mail de kontrastes canhoto [kontrastes.blogue@gmail.com], chega a notícia de que já está em linha a revista VoxBlogs Magazine. Um projecto curioso a pretender fazer a ligação entre o jornalismo online com a edição/filosofia do espaço blogue.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

A ditadura da Birmânia

Gosto da palavra convalescença. Uma palavra que cheira a ar rarefeito e pólen. Lembra-me o livro Montanha Mágica de Thomas Mann ao mesmo tempo associado à imagem da nossa assombrosamente bela serra mágica do Caramulo com os seus esventrados, e elegantíssimos apesar de tudo, sanatórios. Tudo muito burguês, é verdade. Mas é como é. E como eu gosto.
Também gosto da palavra transumância. Mas aqui é a minha história genética familiar, ainda demasiado próxima, a falar, porque eu, este eu aqui sentado a escrever, nunca guardou rebanhos. Alberto Caeiro também não. Mas sobre isso escreve ele melhor.


Como é que Álvaro de Campos precisava de verdade na sua constipação, essa constipação que lhe alterou, como ele soube que todas as valentes constipações alteram, o estado do universo, é que me intriga. Que se precise de cama, sim, e de chás quentinhos, ajuda, de aspirinas, também, mas de verdade? Acho que mesmo que me tivessem dado verdade eu por estes dias não teria sido capaz de a percepcionar como tal.
Bom, mas as sensações disfuncionais e as percepções diluídas não me impediram de perceber que houve mais um atentado em Bagdad. Raios, estas notícias empurram-nos até a consciência, mesmo se feita em farinha, as assinalar.

Também vi no canal Hollywood um filme muito, muito, mau, sobre uma história muito importante num país bom em crise interna grave, com um regime ditatorial muito violento, e com menor visibilidade na cena internacional do que devia ter, apesar dos esforços conduzidos por Aung San Suu Kyi. Estou a falar da Birmânia. E já agora, com quem mantém a Birmânia laços de grande entendimento? Com o outro país campeão das liberdades e dos direitos civis e políticos lá da região, a não menos ditatorial China, pois claro. Os "grandes" espíritos encontram-se, não é?
“According to several organizations, including Human Rights Watch and Amnesty International, the regime has a poor human rights record.[22] There is no independent judiciary in Myanmar and political opposition to the military government is not tolerated. Internet access is highly restricted through software-based filtering that limits the material citizens can access on-line, including most political opposition, pro-democracy web pages, and pornography.[23][24] Forced labour, human trafficking, and child labour are common.”

Do que consegui ler escreverei depois. Agora vou ali convalescer mais um bocadinho, o mais aburguesada que souber.