domingo, abril 29, 2007

Direitos económicos, sociais e culturais

Como se pode pensar em divisões ideológicas pelas quais se entenda a defesa dos direitos sociais e económicos, como uma forma de dominação de valores como os da liberdade, no quadro dos direitos civis e políticos, por valores como o da equidade nos direitos económicos? Quem tem medo de defender os direitos económicos e sociais numa democracia? Quem os entende um caminho para a unidimensionalidade dos comportamentos políticos ou cívicos, uma forma de marxismo a prever uma ditadura, e não uma condição necessária para garantir a própria prática de uma democracia?
Leio o que escreveu David Beetham em 2002 num seminário apresentado nas Nações Unidas, e concordo, pois as garantias dos direitos económicos, sociais e culturais não são um sinal de identificação ou de confronto para uma luta ideológica partidária. A defesa desses valores é hoje compreendida como uma condição da defesa das liberdades, uma condição para a existência de uma sociedade livre, participativa e com indivíduos a saberem-se soberanos na defesa dos seus direitos e no cumprimento dos seus deveres : "(...) as the history of the past century has shown, social exclusion leads to civil and political alienation on the part of those excluded, and provides a breeding ground for political intolerance and repressive policies which impair the quality of democracy for all, even when they do not threaten its survival. It is now also widely accepted that the guarentee of basic economic and social rights contributes to economic development, rather than being a drian upon it. And it is by the protection and advance of these rights that most citizens in most countries assess the value of their democracy, and consider it worth supporting and participating in."
Há que inventar novos programas políticos para este milénio. Há que fazer uma viragem nas ideias e nos fundamentos para as mesmas.

Por Darfur. Pelo povo do Darfur

Não só neste dia, mas também neste dia Darfur.

sábado, abril 28, 2007

vinte e cinco de Abril


O hospital é grande, harmonioso mesmo, visto do exterior. Depois entra-se na zona da emergência e temos um choque emocional. Quem visitar os pacientes no SO de Faro submerge numa atmosfera de cenário de um filme de clínicos a trabalharem numa situação equivalente ao que nos é dado imaginar ser uma situação de atendimento médico após catástrofe. E que, ali, é a situação corrente de atendimento. Muitos mo confirmaram.

Não pode ser explicação suficiente, aquela que nos é dada no cartaz que à entrada das urgências avisa que o hospital está a proceder a obras para instaurar o sistema de atendimento segundo o método de Manchester. Não pode ser essa a explicação para o facto dos visitantes terem que passar entre três filas contínuas de macas que se aglomeram no hall, seguindo depois por um corredor com friso duplo de mais doentes em macas, isto enquanto andam à procura do seu familiar ou amigo. Nesse caminho vêem-se médicos a tirarem sangue ao seu paciente, ao mesmo tempo que passamos a seu lado evitando procurar tocar-lhes, vemos outros a passarem em grande velocidade ziguezagueando entre nós e as macas a caminho de não sabemos onde. Espreitamos para a sala de ressuscitação e vemos mais dois médicos a darem consulta a um número igual de doentes, não vislumbramos muitas vezes ali, nos corredores pejados de doentes, um auxiliar que seja ou um enfermeiro a quem perguntar a direcção, e não sabemos assim como encontrar quem procuramos. Deambulamos perdidos, procurando respeitar a intimidade de quem ali está exposto aos olhares de quem passa, mas não podendo evitar fisicamente a invasão desse espaço.

Há um médico jovem, com um sorriso fácil, que ainda não aprendeu as manhas de fugir aos bloqueios que os familiares desorientados lhe fazem com o intuito de obter informações. Às vezes faz cara feia e diz com o ar de atarefado de quem realmente o está:”Eu não sou o médico desse/a paciente, mas vou chamar o/a colega que lhe poderá dar assistência”, e desaparece. Até uma próxima vez que ali passar. Na sala de imagologia estão nessa hora cinco doentes. Estão sob observação constante. São doentes em estado grave. Quase em cima uns dos outros, homens e mulheres. Uma delas geme alto e ininterruptamente. Outra, com o ar gracioso de um ser alado, uma idosa de olhos doces e tão magra que diríamos quase não ser, acena-nos com a mão e pede-nos baixinho para fazermos o favor de chamar um/a enfermeira. Só podemos tentar encontrar alguém. “Mas não há uma campainha para chamar assistência? - podemo-nos perguntar irritados, enquanto tentamos manter o sorriso.” Os homens, aqueles, estão calados, imóveis, respiram com dificuldade. Um deles, de etnia cigana, vindo de São Brás de Alportel, tem à porta do hospital bem mais de duas dezenas de familiares e amigos de todas as idades que ali se reuniram para saber notícias, para aguardar por ele. Depois a saída dessa dura realidade circundante e velamos, à vez, pelo nosso paciente, uns minutos.

Em todo o barlavento algarvio não há um aparelho para fazer uma TAC ou uma hemodiálise a não ser em Faro. O hospital de Lagos é pouco mais que um Centro de Saúde com serviço de urgência, com médicos que mudam constantemente e que não conhecem os doentes. Em Portimão também não há todos os meios de diagnóstico, e os doentes mais graves são enviados então para a capital de Distrito que fica, em alguns casos, a mais de oitenta quilómetros de casa, sendo que não há nenhuma possibilidade de se obter informações dos doentes internados em SO pelo telefone. Morre-se. Naturalmente. Sem sarcasmo. Mas sem esse cuidar dessa última hora existencial nesse hospital de Faro. Não ponho em causa as competências dos seus profissionais, a assistência médica, mas o descuidar, por indiferença ou por impotência, do espaço em que estão os mais graves dos doentes algarvios. Acuso a administração do hospital, as suas chefias, e o Ministério, por manterem aquela urgência como está. Nada pode justificar aquele caos. É assim em Abril, imagino, com horror, o que acontecerá no Verão.

Depreendo que um dia abrirão ali um clone do Hospital da Luz. Façam os privados o que quiserem com o seu dinheiro. Mas não à custa do dinheiro público e da apropriação dos deveres de um Estado que recebe impostos para gerir os assuntos públicos. Por isso não façam as administrações públicas o que quiserem com o dinheiro público. Porque não pode ser por falta de dinheiro (constrói-se rapidamente e bem em Portugal quando se quer), e a prová-lo está o estádio de Faro ali bem perto e completamente inutilizado.
Só pode ser uma desorganização a qual espero que não seja com o intuito superior de suprimir pessoal clínico do quadro da função pública, desmoralizando-o e fazendo-o passar para o sector privado, ou para inquietar as populações, fazendo-as crer que cada vez mais uma boa saúde terá que ser paga e seguida por clínicos em prestação de serviços privados.
No dia em que o orçamento for cumprido à custa radical dos cortes na educação e na saúde, o Estado passa apenas a ser um sugador de impostos. Um estado medieval, um estado que espolia. Um estado que ninguém respeita porque não respeita ninguém. O fim do estado.

respostas

Há-de chegar a hora de responder aos vossos comentários. Obrigada.

sexta-feira, abril 27, 2007

25 de Abril

Direitos políticos, económicos e sociais.

Quem herda a defesa política das causas sociais quando a economia entra num ciclo de crise e o regime da república parece ter atingido o zénite na disposição dos seus direitos, oferecendo-se como um arremedo das influências teóricas universais ou assente em atitudes políticas de um qualquer líder personalista, ainda que com sucesso?

Que Estado se quer a partir dos lugares, e dos privilégios, desse outro Estado que se quer abandonar? Como ignorar este acto de reparação de um navio quando ele está em alto-mar? E quem tem as coordenadas para o cais de reparação?


Quem é o dono da festa? Que rituais de celebração está "ele" disposto a partilhar?

quinta-feira, abril 26, 2007

O dia vinte e cinco de Abril de ontem, vai ter que ficar para amanhã

Se a morte se lhe atravessar ao caminho. E não, nada disto são metáforas ideológicas.

terça-feira, abril 24, 2007

a excelência na cidade

Mais ou menos a despropósito falei do professor Librescu. Aconteceu numa aula em que eu discorria sobre a forma como a tecnociência influencia a nossa vida contemporânea, ampliando os pressupostos de uma razão ao serviço da ciência e do progresso, que, como todas as boas ideias, pode ter más aplicações.
Abstracções e exemplos concretos, o exemplo concreto e a abstracção. Não há porque escapar.

Disse aos meus alunos utilizando outras palavras mas significando elas que eu entendia que o professor Librescu procurou atingir verdadeiramente a arete que a antiguidade grega terá posto como objectivo de toda a educação. Atingiu pois a virtude por uma acção baseada no saber humano. Respondeu-me a Lígia: “Também… já viu que idade ele tinha? Não lhe custou assim tanto.” Eu ri-me. Não consegui impedir-me. Depois disse-lhe brincando seriamente: “Diz a Dona Lígia do alto dos seus vinte anos arrogantes, não é?”
Ficámos todos mais uns minutos a discutir os critérios que podem definir um acto de heroísmo, e chegámos à conclusão de que não é por se ter mais idade que se é mais corajoso, mas que a idade poderá trazer mais sabedoria, a qual, se aliada à coragem, pode transformar-se em manifestação de um acto heróico. Isso antes de encerrarmos o assunto e avançarmos com algumas teses sobre as ligações de interesse entre a política, o capital e a ciência.

Não lhes falei do castigo que os gregos diziam ser fatal cair sobre todo aquele que agisse ou proferisse palavras carregadas de Hubris, porque isso ainda vinha mais a despropósito.


“O Estado do séc. V é assim o ponto de partida histórico necessário do grande movimento educativo que imprime o carácter a este século e ao seguinte, e no qual tem origem a ideia ocidental de cultura. Como os Gregos a viram, é integralmente político-pedagógica. Foi das necessidades mais profundas da vida do Estado que nasceu da educação, a qual reconheceu no saber a nova e poderosa força espiritual daquele tempo para a formação de homens, e a pôs ao serviço desta tarefa.”
Werner Jaeger, Paideia, Aster, Lisboa, 1979, p. 313.

E esta necessidade profunda do Estado não consistia em palavras para serem defendidas em campanha política, em outdoors de péssima concepção publicitária, como os que são pagos pelo nosso Ministério, pois eram palavras que reflectiam um movimento cultural-educacional profundo no Estado ático, e que o transcendeu, chegando até à concepção de Estado das revoluções liberais do século XIX.

segunda-feira, abril 23, 2007

Um homem sem voto

Perante a dor dos outros, qualquer outro, fico paralisada. Eu só tenho palavras, umas quantas, e duas mãos que se dão às outras mãos. Mas quando a dor não suporta, ou não lhe chega, a palavra ou o toque de uma mão, eu paraliso. Nessa jornada de acompanhamento da dor de outrem, em que se pode passar da perturbação à impotência num segundo, o que nos resta fazer a nós que não temos conhecimentos médicos?
Deve ser por me sentir perante essa dor como perante uma nudez absoluta desse outro, a qual reclama, em contrapartida, a minha absoluta nudez. Nudez de que me falava um livro de que desgostei imensamente mas que não esqueci, um livro de William Reich. Li-o há umas duas décadas atrás, para uma aula de psicologia no liceu. Chamava-se o livro Escuta, Zé Ninguém!
Volto a folheá-lo pela primeira vez nestas últimas décadas. Nem um sublinhado a provar que foi lido com aplicação. Só o recorte incerto de algumas páginas que na edição tinham ficado coladas e foram abertas com uma faca a provar que por ali alguém passara. Essa mania de colar páginas que algumas editoras tinham então e ainda, e que era motivo de tanto aborrecimento por atrasarem a minha leitura... Às vezes dedicava-me primeiro a abrir as páginas todas de seguida, com frenesim, para depois poder então dedicar-me à leitura descosida, solta. O pior era quando ficava esquecida uma página coladita, logo ali no meio das outras todas obedientemente abertas. Que desabar de frustração. Que resignação. Nunca percebi o interesse desta técnica, ou sequer o motivo de algum gosto nela, a haver. Mas havia sim quem se dedicasse a essa actividade com profundo prazer. Sim, havia uma amiga que não padecia com esse ritual. Pelo contrário, exaltava a prática. Eu suspirava. Imagine-se os livros das Edições Brasil, todos ali de páginas, pouco generosamente, coladas… que tortura. Ainda que, irónico alívio, a maior parte dos livros que eu lia então proviessem da biblioteca dessa minha amiga, logo já vinham abertos: em dupla oferenda.

Já nem me lembro porque não gostei então do Escuta, Zé ninguém! Deve ter sido um tom, uma estridência, terá sido pois pela forma que se terá afectado a minha consciência estética, ou lá o que quer que tivesse sido, porque o conteúdo, é inegável, impressionou-me até ao ponto de eu hoje reclamar a sua presença para explicar a minha ausência nestes últimos dias.

“Mas eu entendo-te. Vezes sem conta te vi nu, psíquica e fisicamente nu, sem máscara, sem opção, sem voto, sem aquilo que faz de ti “membro do povo”. Nu como um recém-nascido ou um general em cuecas.” p. 22

Mas quando vemos os outros sem máscara, sem opção, nos limites dos limites das suas forças e da suas existências, que máscara não estaremos nós a depor também? Quando nem a razão ou a intuição nos ditar o que fazer perante o inadiável dos inadiáveis com longo caminho pelo sofrimento, o que podemos fazer-lhes?
Eu leio as Cartas a Lucílio de Séneca. Como se fosse uma estóica. Reinvento a máscara.

domingo, abril 22, 2007

Esperança/Desprendimento

"Houve uma vez um homem que se queixou a Sócrates de nunca ter tirado proveito das suas viagens. "Não admira!" - respondeu o filósofo. "Viajaste sempre na companhia de ti próprio!"
Séneca, Cartas a Lucílio, p. 571

quarta-feira, abril 18, 2007

Discussão política fora da paróquia: ou como se faz análise em campanha e em França

"Engagement des candidats et du Président sur le Darfour : véritable espoir ?"
Por Jean-Etienne de Linarès, Jean-Marie Fardeau e Sharon Courtoux
LIBERATION.FR : 9 de abril de 2007.
"La France doit immédiatement prendre dessanctions ciblées (1) . Elles doivent viser non seulement les individusportant une grande responsabilité dans les massacres, mais aussi leparti au pouvoir à Khartoum qui ne cesse de bafouer les résolutions du Conseil de Sécurité. La France se doit de ne pas banaliser ses relations diplomatiques et économiques avec des régimes responsables de crimes de guerre et de crimes contre l'humanité. En tant que Patrie des droits de l'homme, il lui incombe au contraire d'entraîner les autres membres de la communauté internationale, notamment ses partenaires européens, à peser sur le régime soudanais pour que celui-ci mette dès aujourd'hui un terme à sa politique de massacres systématiques, accepte de coopérer avec la MINUS et la CPI et commence à désarmer les Janjawid ; et que demain il négocie un nouvel accord de paix sur le Darfour avec l'ensemble des factions rebelles et respecte enfin les engagements qu'il a souscrit dans le cadre de l'accord de paix avec les rebelles sudistes du SPLA. Les populations du Darfour ne peuvent pas attendre l'élection en France d'un nouveau Président et d'une nouvelle Assemblée, puis lamise en place d'un nouveau gouvernement. La France, par son Présidentet son ministre des Affaires étrangères, peut dès aujourd'hui rompre avec son attentisme coupable et mettre enfin ses actes au diapason de ses discours et de ses ambitions, au Conseil de Sécurité des Nation sunies ainsi que lors du Conseil Européen des 23 et 24 avril. Quant aux candidats, media et société civile, (2) ils doivent veiller, avec persévérance et intégrité, à ce qu'elle le fasse effectivement. (...)"
...
Será pela real relevância da posição francesa no mundo, ou porque eles constroem a sua relevância? Não é de forma leviana que chegados a um aeroporto francês somos convidados a ler a publicidade sobre às directivas do direito humanitário francês, ou se evoca a Declaração dos Direitos do Homem, ou há cartazes que investem no verbo reflectir, e utilizando-o para se pedir reflexão sobre políticas europeias. Estes fenómenos não se manifestam gratuitamente, há com certeza a vontade de continuar a estar no centro das decisões, de produzir ou conhecer as propostas que afectam a vida dos europeus. Não pode ser a periferia geográfica a explicar porque chego à Portela e vejo restos de anúncios sobre o Euro 2004.

A procura de sentido dos vivos e o sentido das opiniões fáceis sobre tudo e mais alguma coisa

O blogue "Poliblog" está a fazer um acompanhamento muito interessante sobre as notícias que vão sendo publicadas acerca do assassínio de 32 estudantes americanos.
Hoje comenta-se, no post Asininity on Parade, com Steven Taylor, o ridículo em que caiem todos aqueles que estão sempre a ensinar aos outros o que eles deviam ter feito quando esses outros se encontram em situações de perigo extremo e estes se encontram a escrever sentados às secretárias.
Às vezes apetece-me dizer o mesmo (ou não fosse eu uma moralista danada sentada à secretária...raios!).
"It was bad enough when a raft of individuals opined in public how the British sailors should have behaved while they were captured by the Iranians, now we have people opining about how people should behave when Hell comes to visits them in their classrooms."
por Dr. Steven Taylor

terça-feira, abril 17, 2007

três notícias três

1. Assassínio de 32 estudantes em Virgínia. Continuará a pensar-se que as críticas de Michael Moore são as de um histérico que não merecem reflexão?

2. Sócrates e o texto de inglês: Esta notícia não a percebo. Em que é que isto altera o que quer que seja no que a um sistema de ensino diz respeito, passado, presente ou futuro? Acrescenta alguma coisa ao facto de aquele ano académico naquela universidade ser questionável de um ponto de vista formal? E quem é responsável? Não é a universidade, na pessoa dos seus dirigentes, e os seus docentes que ali leccionam, que têm naturalmente que responder pelo tipo de aulas e de modalidades de avaliação que escolhem? O que há de notícia? O facto do trabalho ser enviado com um cartão com o timbre do Ministério do Ambiente? Mas se não houver uma cultura de alto funcionalismo público, que não há em Portugal, estas coisas, por falta de ética profissional, continuarão sempre a acontecer. Tivesse ele um funcionário de Estado com alta formação em serviço público a dar-lhe assessoria e aquele acto de vaidade seria tolhido à nascença. Mas não, é todo feito tendo como modelo de acção governativa o da camaradagem porreirinha de um clube só para homens, depois dá nisto.
3. Os portugueses e o referendo para a Comunidade europeia: Ora como há interesse e vontade.

A educação de um revolucionário: Lenine 4

São os livros que fazem os revolucionários? Ou os conservadores? Ou os democratas? Não, mas quase, quase. E daí?

“(…) a tentativa de conquistar o poder tal como foi preparada pela exortação de Tkachëv e realizada por meios de um terror “terrífico”, verdadeiramente terrífico, foi magnifica.”
N. Lenine, O que fazer?, 1901. (p 191).

Não parece haver algo de comum entre este pensamento do fim do século XIX e algumas teorias/acções do terrorismo islâmico?
Mas será a via do terrorismo tal como inicialmente o propuseram os socialistas-agrários russos, a via de acesso ao terrorismo dos extremistas hoje? Para Lenine era essa a tradição reconhecida como o meio mais efectivo de criar um estado revolucionário marxista. E para os líderes radicais religiosos? Não pode ser esta a porta de entrada para a fundamentação da sua acção. Demasiado conotada com um pensamento ateu, como era o marxista, para servir de exemplo. Qual será então o fundamento teórico?

Bom, Lenine depois de ler muito sobre ordens políticas passíveis de transformarem a sociedade através de uma revolução, de ler muitos livros de economia, muitos de direito e bastantes de filosofia, preocupou-se com o que havia finalmente a fazer. E publica um texto cujo título retirou de um romance de Tchernichevski, no qual avança com os postulados que deveriam conduzir à criação de um partido político marxista.

“E assim foi Que fazer? Que colocou Vladimir Ulianov perante atenção dos marxistas do Império Russo. Assinara o opúsculo como N. Lenine e foi como Lenine que quase toda a gente passou a conhecê-lo desde então.” p. 189

Solidão - apontamentos

Aqui há umas semanas, enquanto falava do bairro que ajudou a arquitectar, e que eu conheço desde que nasci, Nuno Teotónio Pereira pareceu-me cansado. Não sei porque me parecia, porque na verdade não o conhecia. Mas pareceu-me mesmo cansado. Não em relação a si mesmo, porque ideia de um si mesmo eu não tinha, mas em relação a uma ideia que eu faço do cansaço e da ausência deste nas pessoas. Não esse cansaço físico, ou impaciente, de quem anda muito ocupado com milhares de afazeres, mas um cansaço ao rés da respiração. A entrevistadora, enquanto deambulavam pelo Parque José Gomes ferreira, que teima em não querer deixar de ser a “mata” apesar das muitas e boas obras nele realizadas, ou pelas ruas do centro cultural, pelo estádio do INATEL ou pelos bairros residenciais que quadriculam a igreja de São João de Brito, procurava saber dele, da sua vida pessoal e profissional, perguntas a que o arquitecto se furtava com a atitude um homem simples a quem não lhe apetece ouvir-se falar acerca de si, mas antes falar dos outros que conheceu como mentores da construção do bairro, ou dos seus moradores.
Um homem cansado. Pensei: Estará doente? Desapontado? Lúcido como se está às vezes na vida? Reflectido, por essa viagem no tempo? Senti-o um homem solitário durante todo esse programa, sobretudo quando Ana Sousa Dias lhe perguntou mais ou menos o seguinte: “Lembra-se do primeiro 1º de Maio festejado aqui neste estádio? Esteve na tribuna com Mário soares, Álvaro Cunhal, entre outras grandes figuras, não foi?” Ouvia-se um restolhar linguístico. Respostas lacónicas e sumidas. E não eram por vergonha. Mas um grande cansaço de quem pensa: "Sim. E daí?"

Odete Santos saiu do parlamento ao fim de 26 anos como deputada do Partido Comunista. É normal. Talvez não o seja simbolicamente. Mas isso… O que mais me tocou foi vê-la, pouco tempo antes de fazer o seu discurso na Assembleia, a percorrer o parlamento acompanhada por uma equipa de reportagem da Sic Notícias. Tão absolutamente só. Não sei o que esperava. Na realidade, as pessoas que com ela se cruzavam eram simpáticas quanto baste, mas com aquele ar de simpatia que as pessoas dão ao demonstrarem estar muito ocupadas em pensar ou fazer outras coisas mais importantes. Todos sabemos como é. Uma simpatia do tipo: Eu estou aqui mas devia estar ali, e na realidade a minha cabeça até já lá está. “Olá, olá. Adeus, adeus.” Um beijinho, uma palmadinha nas costas, um relance para a câmara, um sorriso amarelo e toca a andar. Vinte e seis de anos de vida parlamentar intensa.
Levou consigo as palavras de uma cartilha que não reconheço como razoável enquanto proposta de uma ordem política. Mas também levou uma vida sem contemplações dissimuladas e avarentas em nome do seu interesse económico próprio. Não a vemos sair para um grande escritório de advogados, ou para administradora de uma empresa privada ou particular. Saiu sozinha. Para a poesia, talvez para o teatro, confessou em entrevista a Maria Flor Pedroso na Antena 1.

“Mas é difícil viver nestas cidades portuguesas” – disse-nos António Barreto. Sobretudo se as tivermos a comparar com as sociedades mais imaginadas que reais que visitamos quando em trabalho ou em férias. Mas há uma verdade insofismável naquele tom cansado do sociólogo quando falava do urbanismo português nas últimas décadas. A de cidades em eterna construção e que no entanto têm sempre prédios decrépitos, feios, em bairros e ruas mal organizadas, de construção barata que iremos todos pagar bem caro, como nos avisou o arquitecto convidado neste terceiro programa, na hora em que chegarem as obras de recuperação dos edifícios, e também quando chegarem os programas de recuperação de algumas das vidas de adultos que cresceram em bairros sem espírito, beleza ou utilidade.
...
Falam de universidades, de ensino. Há uma abissal falta de programação sistemática, ponderada e projectável no futuro, da ideia de sociedade. É como se Portugal não soubesse pensar por si, como se quem mais pressionar, mais ganha. Sem perspectiva a longo prazo. Sem ideias. Porquê?
Quem tem medo de utopias realistas fica a pespontar os remendos. Bom, é uma forma de vida.

segunda-feira, abril 16, 2007

A educação de um revolucionário: Lenine 3

Podemos regular as publicações de livros? Impedir a sua leitura? Podemos publicar só os textos que nos interessam e ordenar o impedimento de outras publicações que de alguma forma ponham em causa os nossos princípios? Há tendência em pensar que uma resposta afirmativa neste domínio implica a manifestação de uma vontade de poder despótica, uma ditadura, uma tirania ou pelos menos um governo autoritário no uso que dá ao termo de orientação e ordem nos assuntos públicos. Era tão bom se assim fosse. Que de um lado ficassem os obscurantistas, os extremistas ideológicos, os cegos por uma crença de crença num só e absoluto meio de se dizer e pensar a realidade e que, do outro lado, se perfilassem os cavaleiros pela liberdade de expressão, da luta pela universalização sem deixar de se representar pela carranca da hegemonização das culturas. Mas não. Em democracia continua a haver a tentação de regular o que se diz e pensa. Em fazer passar pelo fio dos interesses dominantes (o dos valores económicos, quase sempre, mas também políticos) a letra e o seu sentido.
Também não é fácil. Há que decidir: Publique-se, mesmo que sejam palavras de ódio e de incentivo ao extermínio, que sofrerão da reprovação ou aceitação do soberano público, ou, não, não se publique a não ser o que sirva para educar um povo para a excelência da cidadania. Mas o que é isto? E quem o pode avaliar?


Gosto de livrarias que têm lado a lado autores que se opõem.

A polícia secreta do Czar Alexandre III, a Okhrana, vigiava os estudiosos marxistas. Deixava-os estabelecer os seus grupos de discussão de ideias sem interferir. Eram intelectuais que o Ministério do Interior não temia verdadeiramente. É verdade que não tinham facilidades de publicação em meios de grande circulação, mas podiam editar e fazer circular os seus textos. Tudo mais ou menos conforme, até ao dia em que se iniciaram as movimentações para realizar essas ideias discutidas durante meses, horas seguidas, analisadas e admiradas até à minúcia. Lenine era um intelectual de primeira água. Um estudioso rigoroso e profundo da teoria marxista. Preparou-se para agir. E pôs-se em movimento levando às costas as teorias de Plekhanov, Marx e Engels, Tkachëv e Nechaev. Fundamentou-se com uma teoria muito forte para fazer avançar uma ditadura. pp. 113-176. Ditadura que estava para breve.
...
Quero com isto dizer que não se devia deixar ler os teóricos do terrorismo? Ou que se deviam proibir, censurando, os livros marxistas na Rússia do fim do século XIX? Não. Se essa proibição não existisse, provavelmente era porque a ordem política era outra, e não convidiria ao terrorismo político como forma de oposição. Esta minha argumentação pode ter um efeito desculpabilizador, ou simplista. O que é mau. Porque na actualidade, em sociedades democráticas, onde a ordem assenta mais em ideias e comportamentos de livre arbítrio e de responsabilidade individual, também surgem actos de terrorismo. Mas aqui é porque esta ordem, a dos valores ocidentais, representa uma desordem do ponto de vista de uma ideologia que procura impôr outra forma de vida. A questão é a mesma: Quais são os meios mais rápidos, assustadores e espectaculares, mesmo de um ponto de vista da publicidade e divulgação teórica, de uma ideologia de oposição não democrática a um sistema? O terrorismo. Ontem, como hoje. Procurem-se ler os téoricos desta forma de resistência e conquista.

Pensar nas pessoas de Darfur, no Sudão.

Os Estados Unidos e a sua comunidade civil e política a fazerem grande política. Pois que também o sabem. Ora leia-se:
...
"Dear Madam/ Sir,
Support Divestment!
Ask your Senators to protect the rights of states to divest from companies that support the genocide in Darfur.
Click here to send your message now.
Have you heard of divestment? It's one of the key tactics that was successfully used to end apartheid in South Africa.
It refers to the act of withdrawing investments from companies that support the genocide in Darfur by doing business with the government of Sudan and offers a powerful way to put economic pressure on the Sudanese government to cooperate with international efforts to end the genocide.
The good news is that divestment is already taking place in the United States. Eight courageous states (California, Connecticut, Illinois, Iowa, Maine, New Jersey, Oregon, Vermont) have enacted divestment resolutions that will withdraw the states' pension funds from any companies doing business with Sudan.
The bad news is that the National Foreign Trade Council (NFTC) is trying to stop them! The NFTC recently successfully challenged Illinois's state divestment law in court, arguing that the state of Illinois was violating the Constitution by trying to conduct its own foreign policy in opposition to federal foreign policy
.
Please help secure the rights of states to fight the genocide in Darfur by urging your Senators to support a new bill that would stop the NFTC's attacks. Click here to send a message to your Senators now.
This new bill, the Sudan Divestment Authorization Act, would make clear that state divestment is perfectly in line with U.S. foreign policy, thereby rendering the NFTC's argument moot, and protecting Illinois and other states from similar lawsuits. No state should be obligated to invest its citizens' retirement funds in genocide.
Please help make sure that your state has the right to fight the genocide in Darfur. Click here now to contact your Senators to urge them to support this new bill.
Once you've sent your message, please help us spread the word by forwarding this message to your friends, family and co-workers and ask them to join you.
Thank you again for your dedication to ending the violence in Darfur.
Best regards,
David Rubenstein
Save Darfur Coalition"

domingo, abril 15, 2007

Bagdade, Lisboa, Moscovo

Antes




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Até ler a reportagem de Anthony Shadid na revista "Pública" julguei sempre que o meu post de hoje seria sobre a educação de Lenine, sobre a tese do seu biógrafo acerca do peso excessivo que Lenine dava às ideias por contraponto ao seu real interesse pela vida das pessoas, e como isso tinha afectado de certa forma a sua capacidade de empatia para com o sofrimento dos seus semelhantes. Sou sensível a esta questão. Teria pois dado continuidade aos meus apontamentos sobre a educação do revolucionário, tal como Service no-la dá a entender. Não sei se escreveria sobre a situação actual da Rússia com o autocrático Putin. Não sei. Mas talvez me detivesse a pensar nos movimentos de oposição na Rússia à procura do seu espaço de manifestação. Sobre o pouco que sei.
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Mas depois de ler a reportagem sobre o que aconteceu ao livreiro Mohammed Hayawi, assim bem como a pelos menos outras vinte e seis pessoas, no atentado à bomba na Rua Mutanabi, a rua dos livreiros em Bagdade, sabia que só poderia escrever sobre este caso. O atentado ocorreu o mês passado. Nem sequer me dei conta disso pelo meio das notícias diárias que anunciam sobre os sucessivos atentados suicidas. Não fora o Público ter decido traduzir o artigo de Shadid e eu jamais saberia o que tinha acontecido. E jamais poderia invectivar uma vez mais a ideologia dos terroristas, dos defensores de uma prática das ideias pela acção directa do assassínio e da imolação pela morte.
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Que livros andam a ler os líderes extremistas ? Que educação tiverem estes líderes? Com quem se aconselham? Que livros mandam destruir e quais os que deixam publicar?
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Ao senhor livreiro Hayawi. Às vítimas do terrorismo. Pela publicação livre.

sábado, abril 14, 2007

as imagens e a democracia por David Levi Strauss

"(...) In political terms the distribution of images is more important than their collection, and the distribution of public images is still primarily controlled by corporations. Moreover, as decisions about the distribution of images become more and more concentrated in fewer and fewer corporations, manipulation increases and criticality wanes. The relative fluidity of access on the internet is rapidly becoming monetised (and thus, highly regulated) at every level. Whether or not the last vestiges of net neutrality are obliterated by law in the next few years, the distribution of images will remain a function of the larger market. Although some possibilities for resistance still exist online, the overwhelming trend is toward managed "social" networks, ideological isolation, and mandatory advertising. Advertising engineers have long known that if you can isolate consumers and turn them into monads ensconced alone before screens, you can control them without having to worry about any "social" interference. "
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David Levi Strauss "Click here to disappear: thoughts on images and democracy" in Open Democracy
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"David Levi Strauss is a writer and critic. He is the author of Between Dog & Wolf: Essays on Art & Politics (Autonomedia, 1999) and Between the Eyes: Essays on Photography & Politics, which has an introduction by John Berger (Aperture, 2003) ."
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Esta reflexão está a começar. Apesar, ou sobretudo, do universo Web ainda estar em franca expansão no que à sua utilização, e capacidade de utilização, diz respeito.
A manipulação da imagem é já uma brincadeira de crianças, acrescentando às limitações do fenómeno físico da percepção as distorções digitais na própria imagem captada do "real". A noção de documento e de prova a sofrer um ajuste epistemológico. Já para não falar dos actuais critérios nas escolhas editoriais que ditam a sorte de uma imagem quanto à sua publicação em meio de grande circulação. Ver post anterior.

sexta-feira, abril 13, 2007

Comunicação política

Uma das académicas que eu mais admiro na área da comunicação política, Kathleen H. Jamieson, publicou, em colaboração com Brooks Jackson, o livro un-Spun, finding facts in a world od disinformation}.

Dizem os autores: "UnSpun is about how to recognize and avoid deception, not just in politics but in commercial advertising and life in general. In it, we tell you how to debunk the malarkey for yourself, and get down to facts. We think everybody should be a FactChecker.

-- Brooks Jackson & Kathleen Hall Jamieson" in FactChek.org

Não li o livro ainda, daí que não possa comentar a ambição, desmedida?, dos autores. Mas lá que me parece um tema fundamental na formação da identidade de cada um e de um povo democrático, parece-me.

"Iraque: porque falharam os media"?

Iraq: Why the Media Failed
Topics: Iraq media propaganda
Source: Salon.com, April 10, 2007

"It's no secret that the period of time between 9/11 and the invasion of Iraq represents one of the greatest collapses in the history of the American media," observes Gary Kamiya. "Why did the media fail so disastrously in its response to the biggest issue of a generation? To answer this, we need to look at three broad, interrelated areas, which I have called psychological, institutional and ideological. The media had serious preexisting weaknesses on all three fronts, and when a devastating terrorist attack and a radical, reckless and duplicitous administration came together, the result was a perfect storm." In the "psychological" category, he points to "the subtle, internalized, often unconscious way that the media conforms and defers to certain sacrosanct values and ideals. ... It's reflected in a cautious, centrist media that defers to accepted national dogmas." Institutionally, "The decline of newspapers, the rise of infotainment, and media company owners' insistence on delivering high returns to their shareholders have diminished resources and led to a bottom-line fixation unconducive to aggressive reporting." And ideologically, "the U.S. media works within a tiny ideological spectrum on the Middle East, using the same center-right and right-wing sources again and again."

Pode ler-se em: Center for Media and Democracy