quinta-feira, maio 31, 2007

As instituições e o doce poder da compaixão

Ser membro de uma instituição que nos acolhe quando estamos em sofrimento deve representar o mesmo que o trigo sobre a terra para um esfomeado. Penso hoje nos sindicatos e na igreja católica, porque pensei ontem nos que fizeram greve e naqueles que, como os pais da menina desaparecida, foram ontem recebidos pelo Papa.
Os sindicatos, mesmo para quem nunca confiou o seu destino laboral a nenhum sindicato, têm na sua história uma bela história de compaixão social, de reconhecimento do poder da união dos indivíduos para equilibrarem a arbitrariedade ou o abuso do poder que pode ser o do empregador. Há no sindicalismo o respeito pelo dinheiro e pelo tempo que caberá ao um de cada um, no quadro de princípios gerais dos sistemas sociais de ideologia solidária. O sindicalismo português centralizado, muito dele fazendo-se representar em grandes grupos de intervenção socio-profissional ligados à ideologia/autoridade partidária, tornaram-se os braços político/partidários que procuram fazer a ponte entre um partido, travestido, nas suas preocupações sociais e laborais, em sindicato, com os trabalhadores de uma nação.

Os trabalhadores sabem que há mais interesses num sindicato que os interesses que o sindicato socialmente diz ter. Não vê os seus membros a pelejarem no dia-a-dia no seu local de trabalho ao lado dos seus colegas, por uma maior dignidade e exigência no respeito pelos seus direitos logo que cumpridos os seus deveres, vê apenas os dirigentes sindicais que se perpetuam nos lugares a repetirem até à náusea os mesmos discursos ideológicos, a carecerem de uma fundamentação teórica. Daí que o respeito com que toda a greve merece ser tratada, como um sintoma de que algo precisa de ser compreendido, não o estando a ser, tivesse resultado numa charada de números que a ninguém apazigua a dúvida.

A igreja, mesmo para quem nada tendo contra ela também não milita nas suas fileiras, tem na sua história uma bela história de compaixão pessoal. E se porvertura alguém em sofrimento vê o líder da sua comunidade compreender que o tem de chamar a si, um membro, para lhe apaziguar a dor, deve achar tal acto comovente. Eu acho.
Não considero correcto falar aqui nas milhares de pessoas em sofrimento no mundo que nunca foram recebidas pelo Papa. Talvez seja uma estratégia publicitária por parte da igreja, mas sendo assim os pais de Madeleine merecem receber os frutos públicos de uma pública mediatização da sua fé. Uma mão lavou a outra. Não me perturba esse reconhecimento entre membros que se compadecem na sua irmandade.
O que me perturba é querermos colar o sofrimento real de todas as muitas crianças desaparecidas para menorizar o sofrimento, ou o interesse por ele, da Madeleine desaparecida. Nenhuma criança é mais importante que nenhuma outra, mas nenhum grupo de crianças é mais importante que uma só criança. Estas escolhas não se fazem, não se põem como hipótese, não servem como argumento. Cada uma é a vida toda e o mundo todo e todos nós. Ainda bem que Madeleine tem esta atenção. Se for para bem dela.
E há outras realidades que a razão, só por si, não apreenderá. Acredito que sim. Não sei, mas acredito que é possível que haja.

quarta-feira, maio 30, 2007

Aliados da América precisam-se. Objectivo: Darfur

Para a resolução do problema em Darfur a inevitável acção de proceder a sanções contra o Sudão pelos EUA não pode assentar num procedimento unilateral. Eu gostaria muito de ver uma cimeira nos Açores com um primeiro-ministro português a pôr-se ao lado de um presidente americano na procura comum de uma resolução para esta situação no Darfur. Consciente, porém, que todas as sanções afectam primeiro os civis, às vezes de forma demasiado violenta. E ainda assim:

"Dear President Bush,

While President al-Bashir continues to ignore diplomatic efforts to pressure him to end the genocide, as many as 400,000 Darfurians have already lost their lives and over 2.5 million have been displaced.
Though it was long delayed, your May 29th announcement of implementing Plan B sanctions was an encouraging step for the people of Darfur. As you recognized, however, this package of unilateral U.S. sanctions will not be enough to change Khartoum's behavior if it is not matched by a robust package of equally tough multilateral sanctions.
I therefore urge you to make the adoption of matching international sanctions a top priority, beginning with strong U.S. leadership at the UN Security Council.
With Secretary Rice, your administration should redouble diplomatic efforts to take full advantage of any room for progress that these sanctions may create. In addition, the administration should engage U.S. allies to ensure the passage of a UN Security Council resolution that includes:
- Tough sanctions against a full list of individuals complicit in the genocide; - An expansion of the Darfur arms embargo to include the Sudanese regime in Khartoum; - The authorization of a no-fly zone over Darfur, with specific enforcement mechanisms; and - International economic sanctions mirroring those just announced by the United States. Thank you for your continued concern for this genocide and your commitment to act to end it."
Sincerely,
Isabel salema morgado
...
Estes americanos da organização Save Darfur são de uma competência operacional sem reservas. Excepcionalmente profissionais. A nossa participação cívica tem o esforço de um toque no sinal de envio de mensagem. Facilitam de tal maneira o trabalho que é quase obsceno ficar indiferente às suas propostas de intervenção cívica. Mas repare-se na lista de organizações que fazem parte desta instituição (aqui) e atente-se na proveniência institucional dos nomes que dirigem as acções (aqui). Amadorismo só se for pela causa, que a defesa e o uso dos métodos é muito profissional.
A China considera que o melhor é continuar a investir no Sudão, como ela tem vindo a fazer, para criar melhores condições de vida e pressionar o governo. Mas, na verdade, esta ideia, surpreendentemente liberal vinda de um país muito pouco preocupado com a participação cívica dos seus próprios cidadãos, é de uma grande ingenuidade. O capital chinês serve para financiar as milícias que atacam no sul do Sudão, no Darfur. Leia-se a este propósito o blogue Coalition for Darfur.
No outro dia, no âmbito das propostas da organização Save Darfur, foi-me solicitado que enviasse uma carta a uma empresa que operava no Sudão, de capitais maioritariamente chineses, com o intuito de avisá-la sobre a "minha" indignação pelo tipo de apoio que ela, indirectamente, estaria a dar ao governo sudanês. Passados uns dias recebo um e-mail dessa empresa a justificar a sua acção e o seu tipo de intervenção, e a propor-me, ao mesmo tempo, um trabalho na sua corporação. Ri-me e pensei: "Estes não andam a dormir na parada. Isto é que é trabalho de Relações Públicas". Poucos dias depois soube que essa empresa tinha ponderado na natureza da sua relação com o governo de Cartum e feito um acto de contrição público. O dinheiro os obrigou.
É claro que este esforço de condicionamento no investimento de capitais pode realmente ter efeitos nefastos sobre a população. Não o ignoro. Mas também não me parece um argumento definitivo no que a uma suspensão em definitivo deste tipo de acção de defesa contra governos que fazem apelo ou apoiam acções de genocídio.

terça-feira, maio 29, 2007

George Lakoff on Moral Politics: How Liberals and Conservatives Think - Google Video

Uau!

Ora ouça-se o discurso:

George Lakoff on Moral Politics: How Liberals and Conservatives Think - Google Video

Ditadura versus revolução

A minha amiga Eunice chegou da Alemanha. Abraços, beijinhos, cumprimentos à família, festas na cabeça dos dois rapazinhos (típico!), ver as fotografias dos últimos meses, proximidade de afectos.

"-Olha o que eu ando a ler" - deu-me para as mãos um livro de Paul Mercier, Nachtzug nach Lissabon (O comboio da noite para Lisboa)

Não conhecia Paul Mercier. Não conheço o livro.
Perguntei-lhe sobre o livro e sobre o autor. Fiquei a saber que Mercier (pseudónimo de Chant Gregorius) é professor de Filosofia em Berlim, este é o seu terceiro romance, nasceu na Suiça. O livro conta a história de um professor que um dia abandona tudo na Alemanha e inicia uma viagem para Lisboa. A minha amiga ainda está no princípio do livro, não sabe muito mais.

"Lá na empresa andam quase todos a lê-lo e estão a gostar muito. " - disse-me.
A Eunice é bióloga e está a trabalhar na indústria farmacêutica alemã. Abriu-me o livro numa página e indicou-me: - "Olha como o romance está pontuado de frases em português". Li a que me mostrou, e que passo a citar de memória: "Quando há uma ditadura, temos o dever de fazer uma revolução".
Sei que estremeci. Isso de certeza. Há palavras assim, fazem-me balançar.
Perguntei-lhe: " - A que propósito surge esta frase no romance?". A Eunice releu o parágrafo e disse-me que era uma inscrição lida pela personagem na pedra de um túmulo de um sujeito de sobrenome Prado, e isto numa ida a um cemitério de Lisboa em busca de pistas sobre uma tal de família Prado.
Em Portugal sim. A última revolução assumiu-se contra a ditadura sem cair na tentação de criar uma outra em seu nome. Mas pensei: Sabemos todos o que é uma ditadura, mas nem todos saberemos como fazer revoluções não ditatoriais. Os portugueses souberam-no. Isso conforta-me. Hoje. Amanhã também. Passe o exagero.

Liberdade de expressão na Venezuela, amordaçada.

"Alpargata no es zapato
Ni que le pongan tacón"

la despedida rctv

Buenas Noches, Venezuela.

Hasta siempre Democracia.

Gracias A.

Um abraço de Portugal.

segunda-feira, maio 28, 2007

ensarilhada

Acrasia. Talvez não seja acrasia esta indefinição de ideias e de modo de colocar as mãos. A filosofia hoje não. Só a poesia. A de Pessoa que percebe tão bem esta sensação. Não é bem, bem, de acrasia, mas anda por lá perto.

Um dia fiz de cicerone a um filósofo americano que estudava e se interessava pelo conceito de acrasia. Bom, não sei se exausto pelas entradas e saídas de museus, de monumentos, ruas e vistas, ou se exausto pelas milhentas perguntas com que o bombardeei sobre o seu trabalho, ao fim do dia comecei a senti-lo inquieto. Pensei: “O homem já não deve poder mais com uma pergunta sequer e ainda fica com uma depressão qualquer, o melhor é ir deixá-lo ao hotel.” Alvitrei isso mesmo. “Que não – respondeu-me - Que estava bem, que…” Compreendi. Rumei ao casino do Estoril e expliquei-lhe tudo o que sabia sobre transportes para Lisboa e sobre as regras do “jogo”. Era para aí que tendia a sua vontade.
Na altura não deixei que nenhum sinal de ironia assomasse ao meu olhar. Nem hoje

sexta-feira, maio 25, 2007

“Tolerância Zero” para a problemática do tráfico de seres humanos. Só peca por não ter vindo mais cedo.


"Em Novembro de 2000, a Convenção contra a Criminalidade Organizada Transnacional e o
Protocolo Adicional Relativo à Prevenção, à Repressão e à Punição do Tráfico de Pessoas, em
especial de Mulheres e Crianças, das Nações Unidas, (aprovada por Portugal pela Resolução
nº32/2004 da Assembleia da República e ratificada pelo Decreto do Presidente da República
nº19/2004, de 2 de Abril) surge como o primeiro documento internacional com uma definição
clara de tráfico para fins de exploração. Desde então diversas organizações internacionais têm
trilhado novos horizontes no que diz respeito a uma abordagem mais integrada e eficaz no
combate a esta problemática.
(...)

Mais recentemente, o Plano de Acção da União Europeia sobre boas práticas, normas e
procedimentos para combate e prevenção do tráfico de seres humanos, adoptado em Dezembro
de 2005, (JO C 311 de 9.12.2005), apresenta uma tabela de áreas/acções a serem regularmente
revistas e actualizadas.
(...)

No contexto nacional, é importante referenciar as Grandes Opções do Plano – 2005-2009 - Principais
linhas de acção e áreas em 2005-2006 – em que é contemplado, na vertente específica do tráfico de
mulheres para fins de exploração sexual, para além de uma maior conhecimento sobre o
fenómeno do tráfico, a implementação de áreas de protecção e apoio às vítimas, bem como a
penalização dos/as prevaricadores.
(...)

4 – INVESTIGAR CRIMINALMENTE E REPRIMIR
Medidas
Investigar Criminalmente

1. Criação e implementação de um guia de registo uniformizado a ser aplicado pelas forças e serviços de segurança para as situações do tráfico de seres humanos MJ / MAI / PCM (ACIDI)
Produção do sistema de registo e sua disseminação pelas forças e serviços de segurança, tendo em conta as especificidades das diversas instituições abrangidas pelo sistema e as vitimas abrangidas por esse serviço
Publicação dos dados recolhidos pelos diversos registos;
2. Incrementar o número de fiscalizações a actividades laborais mais susceptíveis de albergarem focos de criminalidade organizada relacionada com tráfico de seres humanos, nomeadamente bares, casas de alterne, bordeis, actividades na área da construção civil, actividades sazonais e
serviços domésticos e implementar mecanismos de cooperação entre a Autoridade para a Segurança Alimentar e Económica e as forças e os serviços de segurança MJ / MAI / MEI(ASAE) /MTSS
3. Cooperar e desenvolver sinergias com relevantes instituições internacionais, incluindo organizações MAI / MJ / MNE
penais.
(...)
26
formação para as forças de segurança e profissionais da lei"
O documento "I PLANO NACIONAL CONTRA O TRÁFICO DE SERES HUMANOS - 2007-2010" pode ser lido aqui.

quinta-feira, maio 24, 2007

Aí vou eu outra vez. Ainda por cima dá um trabalhão fazer os links.

Djibouti ... e eu aqui tão ...

Recebi este e-mail do blogue "Human Rights Blog". E não, não sabia nada sobre o Djibouti. Nem sequer sabia que existia esta nação.
Fiquei a saber dos atentados no Líbano e, mais uma vez, no Iraque. Fiquei a saber dos bombardeamentos em território palestiniano, mas do Djibouti não sabia nada de nada.
"E depois?" - perguntar-se-ia por exemplo Bernardo Soares, para quem o sofrimento é o sofrimento que se exprime na existência individual e não na formulação de um sofrimento colectivo - "O que é que o mundo ganhou com o que tu aprendeste agora sobre a situação do Djibouti?" Nada, seguramente. Mas também não será por isso que eu me apresento pessoalmente com a minha dor acima da dor do grupo dos que morreram em atentados ou dos que são dominados e expoliados pelos seus governantes em benefício dos próprios.
"E depois?" - poderia ele continuar a reclamar.
..
Respondo-lhe com as suas palavras, quem sabe uma grosseria: "Que tragédia não acreditar na perfectibilidade humana!...
_ E que tragédia acreditar nela!", p. 276
..
Que falta de sossego.
Há alguma coisa que se sobreponha ao sentido de profissionalismo dos profissionais a que recorremos? Eu não conheço. Que saudades deste critério de aferição de um trabalho bem feito.

quarta-feira, maio 23, 2007

sublimada democracia

Ultimamente não consigo deixar de pensar: escolho o lírio ou o pão?
Geralmente sento-me a ver televisão e não escolho nada.

Um colega, quando eu ontem dizia que não tardava nada éramos todos sujeitos a processos disciplinares pelas horas que passámos a brincar sobre o processo de licenciatura, quando não das atitudes, do nosso primeiro-ministro, olhou-me calmamente e disse: "Cada um de nós é responsável por aquilo que faz. Pelas escolhas que fez, pelas decisões que tomou. No país, ou em Lisboa, os governantes são o nosso retrato. Brincar com o primeiro-ministro é brincar connosco mesmos, com o nosso reflexo na sua acção, com o nosso reflexo nas suas atitudes, assim como brincamos com o nosso reflexo que visualizamos nas ruas porcas, prédios velhos e carros em cima do passeio. Ele e tudo o mais somos nós ainda". Passou-me logo a vontade de brincar. Fui sentar-me ao computador por não querer pensar em escolhas públicas.
Há alturas em que a democracia nos dói de forma particularmente intensa, como se perdêssemos alguém próximo. É a dor da realidade por contraponto à sublimada teoria.

A falta de confiança

A falta de confiança dos jornalistas em relação ao trabalho da polícia, a polícia em relação ao trabalho dos jornalistas, o público em relação ao trabalho dos jornalistas e ao trabalho dos polícias. A falta de confiança dos pais de crianças desaparecidas em relação aos jornalistas, aos polícias, ao público e em relação a eles próprios.

Espiral de desconfiança que afecta cada um de nós e não convoca melhores práticas futuras.
A desconfiança não me parece capaz de promover por si uma melhor fiscalização sobre o trabalho e uma melhor reportagem de factos, promove um maior encerramento sobre si e uma maior agressivadade comunicacional dos envolvidos.

Ainda se fosse possível vislumbrar melhoria nos procedimentos. Ainda que não caíssemos numa eterna repetição do mesmo erro. Ainda que as instituições se reformulassem.

terça-feira, maio 22, 2007

Os macacos de imitação ou o registo da história

Imagino-me no grau zero da minha consciência. Para saber ao certo o que é de mim e o que é de outrem. Ilusão. Não há este grau zero. Nem nas sensações, nem no intelecto.
A filosofia e a religião, enfim, a história destes saberes e destas experiências de interpretação das realidades humanas, procuram encontrar uma resposta. Parecem slides de uma apresentação em data show. Há uma ligação entre os slides, claro, deve haver para que a apresentação tenha sentido, e ao mesmo tempo não há nem pode haver, porque são slides distintos que se sucedem num certo tempo a uma dada velocidade. As teorias, as respostas, seguem-se, acumulam-se em camadas geológicas, e às vezes confundem-se. O que há de mim, e dos outros no ser dos outros, é de uma natureza igual ou diferente? O que veio de fora e me suporta a mim agora é mais, menos ou igual ao que eu tenho de mim como sendo o mais perto de mim? Conheço-me melhor através do método de análise racional ou através do meu registo de memórias, ou através da sensação que descrevo? Mas eu só tenho uma linguagem para o dizer, faça eu o que fizer. O que siginifica que essa linguagem pode reinventar uma memória, sobre ou infra valorizar uma sensação, confundir-me enfim.

Esta busca por um critério de verdade que não me mostre só a mim mas que mostre a possibilidade de algo em mim ser comum a todos os outros é fundamental na acção pública ou é acessório? Se responder que somos diferentes, radicalmente distintos, e o que há que fazer para nos pôr em comum é procurar chegar a um acordo, que nunca é definitivo, que a todo o momento pode ser questionado e quebrado, o que nos espera senão uma existência consciente de que tudo não passam de perspectivas, e que tudo está em mudança, e que a todo o momento só se alcançam verdades provisórias? Há nesta fragilidade da verdade uma imensa liberdade, até para a liberdade de defender o mal. É uma democracia.
Se afirmar que somos radicalmente iguais, que as experiências limites, como as da morte, da dor, do êxtase ou a vontade de comunicar, nos universalizam, adormeço embalada pela ideia de uma comunhão que poderá provocar, pelo conforto de pertença a uma comunidade, a inacção ou a adesão acrítica a certos valores que podendo ser culturais se apresentem como válidos e não sujeitos a correcção, o que me submete a tudo para o legitimar, até a suportar o mal. É o primado de uma autoridade.

Certas pessoas passaram pela minha vida e a muitas esqueci-lhes o nome, até a existência, sem querer ou deixar de querer, acho eu, outras parecem-me existir como existentes na vida de alguém que me falou delas, como se de uma experiência em segunda pessoa se tratasse, outras, estão a meu lado, mesmo se fisicamente ausentes para sempre, e há ainda outras que vou descobrindo terem existido para mim mas aparecendo agora como se através dos livros que leram, pois falavam como se fossem personagens desses livros. Não era que citassem os autores, ou as personagens, não, diziam e assumiam aquelas ideias e palavras como se fossem elas próprias. Ou pelo menos eu assim o interpretei. Vá.

Por exemplo, uma das pessoas mais importantes na minha adolescência, uma amiga da minha idade, mas muito mais sábia que eu, costumava dizer-me: “Conheces as pessoas pela biblioteca que elas têm.” Eu brincava dizendo: “No meu caso então têm que ir ver a tua biblioteca primeiro”. Eu admirava-lhe a verve, a inteligência, a argúcia e o conhecimento. Um dia destes, estando a ler a biografia de Estaline de Simon S. Montefiore deparei-me com essa expressão que o autor atribui como sendo utilizada por Estaline.

Não é pela importância que eu devia saber que o marxismo estalinismo tinha na vida dessa amiga e que de todo não tinha na minha, o que de certa forma sempre me tornou uma espécie de excrescência intelectual na sua vida, uma anormalidade explicada pela amizade, talvez, mas sim por eu não saber como é que o saber se construía então, e como, por omissão, podemos não mentir mas também não dizer a verdade sobre nós. Como se de forma consciente, ou inconsciente, borboleteassemos à volta de ideias, sentimentos, gestos e palavras que de todo não nos pertencem mas que são mais nós que qualquer outro nós dito por nós. Tenho a certeza que também a frase não deve pertencer a Estaline, e que se encontrará na história outro percursor ilustre ou nem por isso que a deixou registada. Mas então onde ficará a originalidade na existência de cada um de nós, os que não somos génios, nem criadores exímios? O que eu digo, escrevo, prefiro, toco e vivo é meu porque me diz, porque o adoptei como meu, ou é de tanta gente que eu não passo de uma macaca imitadora? E se o for, tenho a obrigação de o saber e de o dizer (passaria a vida a abrir aspas) ou devo esquecer-me da história e apropriar-me em mim do que é dos outros fazendo-os eu?
E queria que este post fosse sobre a construção da identidade, da cópia existencial, e não de plágio, porque disso não quis tratar.

segunda-feira, maio 21, 2007

Dever/prazer

Fazer o bem é incomensuravelmente mais difícil do que dizer que se é bom e que se quer fazer o bem. É mais difícil e exige muito trabalho. Não é só uma questão de carácter, é de nervo e de exarcebada auto-consciência social e cultural assente na ideia de dever, ou de obrigação. Custa. Discorrer sobre o bem é bem mais confortável. Não se vêem as pessoas chatas, velhas, aborrecidas, doentes ou necessitadas. Só se vêem as letras a comporem-se em palavras bonitinhas.

domingo, maio 20, 2007

Percepções

Não é necessário, nem será suficiente, que a minha percepção pessoal da pessoa candidata a um cargo político me faça decidir o meu voto. Perscruto a minha decisão. Julgo-me uma votante racional. A que toma decisões com base numa análise da argumentação apresentada. Mas sei que isso não é totalmente verdade. Já votei por tradição, porque sim, porque fora naquele partido que depositara a minha primeira confiança. Já votei por solidariedade para com quem vai perder. Já votei em pessoas e não nas ideologias com que essas pessoas habitualmente se identificam. Já votei em projectos e em ideias.
Mas ainda não sei totalmente, e antes de uma campanha, em quem vou votar e porquê. Ou pelo menos gosto de pensar que não sei. Como se a liberdade se materializasse nessa possibilidade do "se ...então".
Dos candidatos à Câmara de Lisboa só troquei, no passado, meia dúzia de palavras com a arquitecta Helena Roseta por duas ocasiões diferentes e das duas por conveniência minha. Foi sempre o mais prestável e interessada possível na formalíssima questão então tratada. Isso não faz dela a minha candidata a presidente da Câmara. Mas faz dela a minha candidata a seguir com uma atenção particular. Comentava isso mesmo com uma amiga e colega minha. Respondeu-me que tem da candidata exactamente uma ideia oposta à minha. O que podia eu dizer? A verdade da má imagem que a minha amiga reteve de Roseta é tão verdadeira quanto a boa imagem que eu tenho de Roseta.
Mas eu não quero votar em imagens (demasiado previsível o fenómeno de criação de imagem pública para cidadão ver e votar), quero votar em alguém que me convença da credibilidade do seu projecto. E para isso é preciso que eu esteja convencida que sou capaz de distinguir os critérios de credibilidade dos que o não são. Mais, é preciso que eu possa provar como é que chego a essa fase do meu convencimento. Isto dá um trabalhão. E nada garante que seja verdade. Ou que o consiga. Haveria então que sopesar o passado, o presente e uma proposta de futuro. Que esforço. Que canseira. E que inutilidade no que a uma certeza na previsão dos actos.

Dizer mal de alguém ainda dá mais trabalho. O esforço que é necessário para não gostar de alguém extenua-me. Na vertigem da maledicência, que aprendi como quem aprende a fazer croché para passar um tempo e arranjar mais um quadrado para uma mortalha, rebenta-se de fel a minha alma. E tudo isto com a etiqueta de que é preciso não gostar muito para saber como gostar muito. Pois sim. Mas também, o gosto de quem gosta com indiferença é o quê? O gosto pela indiferença ou pela diferença indiferentemente? Nem quero saber.

quarta-feira, maio 16, 2007

Mulheres em política

Alguém que eu li falou na esperança que tinha de ver no governo do eixo franco-alemão duas mulheres, juntando-se-lhes depois uma presidente americana. Que era uma conjugação no tempo e no espaço que o autor dizia extraordinária e que ele gostaria de ver concretizada, sendo que a derrota de Royal suspendeu essa possibilidade.
Eu fiquei cheia de pena de não ter sentido o mesmo. Cheia de pena.

Acção política

Se eu repetir muito uma coisa ela tornar-se-á verdade? Alguns jornalistas acreditam que sim. Os políticos, deslumbrados, julgam quase todos que é essa a técnica discursiva a adoptar como forma de convencer outrém dos seus propósitos. Mas não é, porque a linguagem cria realidade, é verdade, mas paralela à realidade ela mesma, não a substitui. Bom, ou pelo menos não durante muito tempo. Que isto do tempo ser muito ou pouco também é relativo. Na vida de uma pessoa, um ano, por exemplo, um ano a viver dominado por uma linguagem que rouba a realidade, é muito tempo, e setenta anos, então, pode representar a alienação de várias gerações, ainda que na história da humanidade esse período não seja quase nada, e na história do universo, então...
Para fazer situar os discursos políticos é preciso pois prendê-los ao presente, à ideia de "nós contamos e as vossas opções fazem diferença na nossa vida". Mas isso é particularmente difícil sendo que os discursos e as acções dos políticos pretendem captar a nossa atenção no presente e influenciar a nossa existência no futuro.

Eu espero que o meu presente se estenda mais pelo futuro para poder falar dele. É por isso que nada me cabe dizer sobre os candidatos à presidência da Câmara de Lisboa. Ainda não sei o que vão defender. E simpatias pessoais, que as tenho, essas só me vão levar à sede de candidatura de Helena Roseta para entregar a minha declaração de propositura da sua candidatura. E depois, depois aguardar pela acção e pelo discurso dos candidatos em campanha.

terça-feira, maio 15, 2007

A ONU e o Zimbabwe

O Zimbabwe foi escolhido para presidir Comissão das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável (CSD). É algo difícil de aceitar. Mas numa democracia há muitas coisas difíceis de aceitar. Faz parte deste sistema vivermos pacificamente com decisões que não aceitamos e que procuramos, num quadro legal, fazer alterar. E a verdade é que a decisão assentou num escrutínio democrático, de eleição, ainda que nos possamos espantar com o grau de incompetência das chancelarias africanas na avaliação do tenebroso regime de Mugabe. Mas também, se repararmos bem, que sentido crítico ou auto-crítico há nas chancelarias, nos governos, ou nas instituições africanas em geral? É preciso pois continuar o trabalho de denúncia e crítica dos actos de Mugabe, é preciso continuar a chamar a atenção para o deplorável estado social e económico do povo do Zimbabwe, mas também é preciso não atacar a pertinência e o trabalho no seu todo de uma organização como as Nações Unidas, atitude que vejo ser prática recorrente nos comentadores sempre que há uma comissão que elege nações pouco respeitadoras das liberdades e garantias dos seus cidadãos. A ONU sobreviveu a muitos golpes, felizmente para o mundo.
Ainda não há muito tempo, em 2003, preconizava-se a queda do Carmo e da Trindade, por causa da eleição da Líbia, essa nação “campeã” na defesa dos direitos humanos, para presidir o destino da famigerada Comissão dos Direitos Humanos. O que aconteceu? Poucos anos depois procedeu-se à Mudança da organização em causa. O que está mal muda-se. É claro que a ONU precisa de reestruturação em algumas áreas, mas não pode ser erradicada ou enfraquecida nos seus poderes. Ela é uma instituição que representa uma vantagem civilizacional nas relações inter povos. Dizer o contrário em nada ajudará a aperfeiçoá-la.

Dua Khali. E onde estavas tu, Cristo, que não ali entre aquela multidão? Bastou só aquela vez com Maria Madalena?

Dua Khali aparece na primeira página do jornal Público de ontem. O horror sufocou-me quando li o título da fotografia que a representa: «Curdistão. Rapariga lapidada por questão de “honra”».

A fotografia, pouco clara, mostra Dua deitada de lado, com o comprido cabelo espalhado pelo chão, os braços encolhidos junto do tronco. Está já, nessa fase do seu assassínio, com a roupa interior à mostra. Mas o que importa a falta de respeito pelo seu pudor quando Dua Khali está ali a ser assassinada pelos homens a quem pertencem aqueles pés junto dos quais ela se encontra já caída. São homens que lhe atiram pedras, uma a seguir à outra, as que que acharem precisas até ela expirar. A violação da sua existência vai-se repetir pela eternidade do tempo fotográfico, de um registo fotográfico, mas ao menos a sua fotografia fala em nome das muitas mulheres e meninas que morrem no mundo sem sequer terem direito ao registo e ao nome impresso, sem sequer poderem ser pranteadas por desconhecidas.
Nas páginas interiores do Jornal vemos outras fotografias de Dua. Dua a tentar proteger-se, de Dua caída, de Dua moribunda.

Dua Khali era uma menina de dezassete anos que namorou com o homem errado segundo os padrões da sua família. Sei que há outras mulheres a serem mortas no mundo por aquilo que os antropólogos gostam de chamar “formas de vida culturalmente alternativas”. Sei que me esqueço vezes demais disso mesmo, sentada que estou no meio deste meu pequeno círculo pequeno de existência. Esqueço-me tanto das mulheres por tão fascinada que estou com o conceito de pessoa. Por isso só posso afirmar que a minha convicção em valores universais não esmorece, e que é por isso que eu estudo ideias.
Estudo ideias para saber a causa do seu efeito nas pessoas e nas sociedades, para encontrar uma solução. Uma solução para o sofrimento de Dua, ou de outra menina ou menino expulsos, perseguidos, vilipendiados, sacrificados, violados ou mortos. Por isso teço um texto. Não sei de outra forma de fazer evitar os comportamentos de morte, senão expondo os sistemas que sustentam as ideias culturais, religiosas ou políticas. Procuro saber sobre os fundamentos das ideias que privilegiam as culturas de violência e de morte por contraponto às que enaltecem as culturas de vida. Não sei fazer mais nada por Dua. E tantas, tantas vezes, nem isso faço bem.