segunda-feira, abril 16, 2007

Pensar nas pessoas de Darfur, no Sudão.

Os Estados Unidos e a sua comunidade civil e política a fazerem grande política. Pois que também o sabem. Ora leia-se:
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"Dear Madam/ Sir,
Support Divestment!
Ask your Senators to protect the rights of states to divest from companies that support the genocide in Darfur.
Click here to send your message now.
Have you heard of divestment? It's one of the key tactics that was successfully used to end apartheid in South Africa.
It refers to the act of withdrawing investments from companies that support the genocide in Darfur by doing business with the government of Sudan and offers a powerful way to put economic pressure on the Sudanese government to cooperate with international efforts to end the genocide.
The good news is that divestment is already taking place in the United States. Eight courageous states (California, Connecticut, Illinois, Iowa, Maine, New Jersey, Oregon, Vermont) have enacted divestment resolutions that will withdraw the states' pension funds from any companies doing business with Sudan.
The bad news is that the National Foreign Trade Council (NFTC) is trying to stop them! The NFTC recently successfully challenged Illinois's state divestment law in court, arguing that the state of Illinois was violating the Constitution by trying to conduct its own foreign policy in opposition to federal foreign policy
.
Please help secure the rights of states to fight the genocide in Darfur by urging your Senators to support a new bill that would stop the NFTC's attacks. Click here to send a message to your Senators now.
This new bill, the Sudan Divestment Authorization Act, would make clear that state divestment is perfectly in line with U.S. foreign policy, thereby rendering the NFTC's argument moot, and protecting Illinois and other states from similar lawsuits. No state should be obligated to invest its citizens' retirement funds in genocide.
Please help make sure that your state has the right to fight the genocide in Darfur. Click here now to contact your Senators to urge them to support this new bill.
Once you've sent your message, please help us spread the word by forwarding this message to your friends, family and co-workers and ask them to join you.
Thank you again for your dedication to ending the violence in Darfur.
Best regards,
David Rubenstein
Save Darfur Coalition"

domingo, abril 15, 2007

Bagdade, Lisboa, Moscovo

Antes




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Até ler a reportagem de Anthony Shadid na revista "Pública" julguei sempre que o meu post de hoje seria sobre a educação de Lenine, sobre a tese do seu biógrafo acerca do peso excessivo que Lenine dava às ideias por contraponto ao seu real interesse pela vida das pessoas, e como isso tinha afectado de certa forma a sua capacidade de empatia para com o sofrimento dos seus semelhantes. Sou sensível a esta questão. Teria pois dado continuidade aos meus apontamentos sobre a educação do revolucionário, tal como Service no-la dá a entender. Não sei se escreveria sobre a situação actual da Rússia com o autocrático Putin. Não sei. Mas talvez me detivesse a pensar nos movimentos de oposição na Rússia à procura do seu espaço de manifestação. Sobre o pouco que sei.
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Mas depois de ler a reportagem sobre o que aconteceu ao livreiro Mohammed Hayawi, assim bem como a pelos menos outras vinte e seis pessoas, no atentado à bomba na Rua Mutanabi, a rua dos livreiros em Bagdade, sabia que só poderia escrever sobre este caso. O atentado ocorreu o mês passado. Nem sequer me dei conta disso pelo meio das notícias diárias que anunciam sobre os sucessivos atentados suicidas. Não fora o Público ter decido traduzir o artigo de Shadid e eu jamais saberia o que tinha acontecido. E jamais poderia invectivar uma vez mais a ideologia dos terroristas, dos defensores de uma prática das ideias pela acção directa do assassínio e da imolação pela morte.
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Que livros andam a ler os líderes extremistas ? Que educação tiverem estes líderes? Com quem se aconselham? Que livros mandam destruir e quais os que deixam publicar?
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Ao senhor livreiro Hayawi. Às vítimas do terrorismo. Pela publicação livre.

sábado, abril 14, 2007

as imagens e a democracia por David Levi Strauss

"(...) In political terms the distribution of images is more important than their collection, and the distribution of public images is still primarily controlled by corporations. Moreover, as decisions about the distribution of images become more and more concentrated in fewer and fewer corporations, manipulation increases and criticality wanes. The relative fluidity of access on the internet is rapidly becoming monetised (and thus, highly regulated) at every level. Whether or not the last vestiges of net neutrality are obliterated by law in the next few years, the distribution of images will remain a function of the larger market. Although some possibilities for resistance still exist online, the overwhelming trend is toward managed "social" networks, ideological isolation, and mandatory advertising. Advertising engineers have long known that if you can isolate consumers and turn them into monads ensconced alone before screens, you can control them without having to worry about any "social" interference. "
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David Levi Strauss "Click here to disappear: thoughts on images and democracy" in Open Democracy
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"David Levi Strauss is a writer and critic. He is the author of Between Dog & Wolf: Essays on Art & Politics (Autonomedia, 1999) and Between the Eyes: Essays on Photography & Politics, which has an introduction by John Berger (Aperture, 2003) ."
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Esta reflexão está a começar. Apesar, ou sobretudo, do universo Web ainda estar em franca expansão no que à sua utilização, e capacidade de utilização, diz respeito.
A manipulação da imagem é já uma brincadeira de crianças, acrescentando às limitações do fenómeno físico da percepção as distorções digitais na própria imagem captada do "real". A noção de documento e de prova a sofrer um ajuste epistemológico. Já para não falar dos actuais critérios nas escolhas editoriais que ditam a sorte de uma imagem quanto à sua publicação em meio de grande circulação. Ver post anterior.

sexta-feira, abril 13, 2007

Comunicação política

Uma das académicas que eu mais admiro na área da comunicação política, Kathleen H. Jamieson, publicou, em colaboração com Brooks Jackson, o livro un-Spun, finding facts in a world od disinformation}.

Dizem os autores: "UnSpun is about how to recognize and avoid deception, not just in politics but in commercial advertising and life in general. In it, we tell you how to debunk the malarkey for yourself, and get down to facts. We think everybody should be a FactChecker.

-- Brooks Jackson & Kathleen Hall Jamieson" in FactChek.org

Não li o livro ainda, daí que não possa comentar a ambição, desmedida?, dos autores. Mas lá que me parece um tema fundamental na formação da identidade de cada um e de um povo democrático, parece-me.

"Iraque: porque falharam os media"?

Iraq: Why the Media Failed
Topics: Iraq media propaganda
Source: Salon.com, April 10, 2007

"It's no secret that the period of time between 9/11 and the invasion of Iraq represents one of the greatest collapses in the history of the American media," observes Gary Kamiya. "Why did the media fail so disastrously in its response to the biggest issue of a generation? To answer this, we need to look at three broad, interrelated areas, which I have called psychological, institutional and ideological. The media had serious preexisting weaknesses on all three fronts, and when a devastating terrorist attack and a radical, reckless and duplicitous administration came together, the result was a perfect storm." In the "psychological" category, he points to "the subtle, internalized, often unconscious way that the media conforms and defers to certain sacrosanct values and ideals. ... It's reflected in a cautious, centrist media that defers to accepted national dogmas." Institutionally, "The decline of newspapers, the rise of infotainment, and media company owners' insistence on delivering high returns to their shareholders have diminished resources and led to a bottom-line fixation unconducive to aggressive reporting." And ideologically, "the U.S. media works within a tiny ideological spectrum on the Middle East, using the same center-right and right-wing sources again and again."

Pode ler-se em: Center for Media and Democracy

quinta-feira, abril 12, 2007

A ter que se encontrar uma solução. E a lamentar.

"Explosão no Parlamento iraquiano provoca vários mortos"

"Atentados voltam a Argel pela mão da Al-Qaeda"

A seguir

"As nuvens negras já não estão apenas no horizonte. Em matéria de liberdade de expressão, já chove em Portugal."
Mário Bettencourt Resendes, "Um cenário de preocupação" in Diário de Notícias

uma entrevista

Para mim o primeiro-ministro deu ontem explicações absolutamente razoáveis relativamente ao seu percurso académico. Eu já aqui defendi o interesse público e a legitimidade de uma investigação jornalística como a que foi conduzida pelo jornal Público, e fi-lo, tal como julgo, em tempo útil. Daí que ache, no seguimento da ideia, absolutamente necessária esta explicação de José Sócrates ao país. Porém, um acontecimento não tem que confundir o outro. Então, numa certa vertigem que me levou a querer misturar a parte com o todo, fiz um juízo de valor acerca da personalidade de Sócrates que, fazendo fé nas suas palavras de hoje, e eu não tenho por que duvidar, nem provas há que nos fundamentem essa dúvida, fui precipitada e injusta. Errei. Ele não deixa de ser um testemunho do que poderemos encontrar de incongruente, incerto e laxista no sistema de ensino em geral, e, muito em especial, no ensino superior, mas imputar-lhe a ele pessoalmente uma falta que é generalizada a tantos outros, e sendo que ele nem responsabilidades tinha nessa área, também me parece um exagero.
Obviamente, e desde que é chefe de governo, que o estado da educação em Portugal passa a ser um reflexo das propostas e das escolhas que sob o seu governo forem determinantes. E é sobre este percurso que ele responderá a seu tempo. Nada há que nos garanta ter havido algo mais senão um certo pactuar, por inércia ou por indiferença, com o permissivo estado de validação académica e social em Portugal do aluno José Sócrates.
Se relativamente ao seu percurso académico as suas respostas me satisfizeram, já quanto à explicação da sua atitude para com os jornalistas (Telefonou? Não telefonou? Telefonou em que tom e porquê) não me convenceu nada. Tendo sobretudo em linha de conta os projectos governamentais nesta matéria e os argumentos aduzidos. Mas do facto de ele não me ter convencido da razoabilidade das suas acções não vem propriamente muito mal ao meu mundo, desde que haja jornalistas que não se deixem afectar por vozes de comando, nem leis que lhes cerceiem a liberdade.

quarta-feira, abril 11, 2007

Que pensamentos e que livros nos levam a que tipo de acções?

"Mas porque é que a oposição clara ao Estado Novo me parece a mim ser toda feita à esquerda, e, sobretudo, à extrema-esquerda?" - perguntei ontem a um lúcido, crítico e inteligente colega de economia, com quem aprecio conversar, e que me contava que pertencera e actuara em tempos como activista do MRPP.

- "Porque a dita esquerda democrática" - respondeu-me - " só aparecia quando havia eleições. Depois desse período, já na clandestinidade, só os membros com mais coragem física, mais empenhamento ideológico, é que ousavam enfrentar a polícia e a autoridade reinante. E esses membros mais corajosos da sociedade que se oponha ao regime e proponham uma mudança pela revolução, ou eram comunistas ou pertenciam a grupos de extrema-esquerda. Grupos marxistas-leninistas ou anti-marxistas."

"Qual era era a fonte doutrinária? - Perguntei.
Reproduzo de memória a resposta: "Os intelectuais franceses para os socialistas e também, sobretudo, para os de extrema-esquerda. Da União Soviética para os comunistas, mediados pelo pensamento francês. Era de lá que nos chegava a literatura, os modelos de acção, as propostas ideológicas. Nota que toda a imprensa de divulgação ideológica em Portugal como o "Jornal do Fundão", "Seara Nova", "Vértice", "Comércio do Funchal" e o "Tempo e o Modo" é uma imprensa feita à imagem e semelhança do "Tel Quel"."

"E do pensamento anglo-saxónico? E dos intelectuais portugueses?" - inquiri ainda. Ao que me foi respondido: - "Dos primeiros chegavam-nos sobretudo livros técnicos.
O pensamento ideológico de vertente liberal saxónica era residual e estava representado pela dita Ala Liberal na Assembleia Nacional de Sá Carneiro e outros que procuravam tranformar o regime de forma gradual e sem revolução." Quanto aos intelectuais portugueses, em termos políticos, pensavam o que os intelectuais franceses pensavam."
Um pequeno passo mais num caminho longo que há a percorrer. A saber: onde assentam as crenças ideológicas dos portugueses?

A educação de um revolucionário: Lenine 2

Segundo o biógrafo Robert Service
Quando Lenine tinha dezasseis anos o seu irmão mais velho, Alexandre Ulianov, em consequência do seu envolvimento num plano para assassinar o czar Alexandre III, foi detido, julgado como conspirador e condenado à morte. A família, estupefacta, não acreditou num primeiro momento que Alexandre "o querido solzinho ofuscante no céu" (p. 92) pudesse estar envolvido na preparação de semelhante acto de violência e morte. O brilhante aluno da Universidade de Matemática e Física de São Petersburgo deixara de acreditar ser possível haver uma mudança pacífica e continuada no regime russo, como criam os seus pais, e aderiu a um dos muitos movimentos revolucionários antimonárquicos que existiam então na Rússia que tinham como objectivo primeiro praticar o regicídio.
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Os ideais "Verdade, ciência, liberdade e justiça" eram comuns a todos os movimentos revolucionários russos, que defendiam em 1887 que as mudanças políticas só poderiam ocorrer por força de uma revolução, mas os pressupostos para a acção revolucionária tinham bases diferentes. Por um lado havia os revolucionários que defendiam o socialismo-agrário como forma de transformar a vida política russa, mas também havia outros que defendiam que só as teses marxistas, que evoluiam à volta do papel determinante da classe operária como catalizadora da revolução, poderia fazer sentido numa sociedade que estava a industrializar-se rapidamente.
"Praticamente todos estes socialistas, embora vendo virtudes nas ideias e práticas do povo, estavam muito longe de repudiar a necessidade de industrialização da Rússia. Descobriram também, através da amarga experiência, que os operários reagiam mais às invocações revolucionárias do que os camponeses. Qunado uma vaga de estudantes partiu para fazer propaganda revolucionária nas zonas rurais em 1874, muitos deles foram entregues ao Ministério do Interior por camponenses espantados". p. 90.
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Entre os defensores das ideias marxistas, como Plekhanov e os seus seguidores, sendo que ele abandonara as suas crenças numa força revolucionária assente no campesinato, e os que continuavam a defender uma revolução a partir das tradições do campesinato russo, estabeleceu-se um diferendo. O irmão de Lenine terá entrado então para um grupo que teoricamente procurava fazer a ponte essas duas formas de conceber o socialismo, enquanto na prática operava de forma decida a alterar o regime político por força da sua própria acção imediata. Alexandre Ulianov conhecia bem as teses marxistas, pois ele próprio tinha traduzido trabalhos de Karl Marx do alemão para o russo, por isso soube redigir uma declaração de objectivos para o seu grupo que sublinhava a importância das leis científicas acerca da história e da sociedade tal como defendia Marx, sem deixar de afirmar que todas as classes oprimidas da Rússia (sem citar directa ou especificamente os camponeses) tinham um igual interesse em alterar o regime político.
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Os marxistas russos, segundo Service, terão tentado dar a entender que Lenine desde cedo optara pelas ideias marxistas, não seguindo a via ideológica do irmão, mas na realidade, Lenine terá entrado para grupos que defendiam então ideias revolucionárias relacionadas com o socialismo-agrário. Mas, como nos diz o autor, tendo então só dezasseis anos "Não existe realmente razão para pensar que Vladimir [Lenine] tivesse ideias formadas acerca de alguma coisa. Mais provavelmente começava apenas a conhecer o mundo das ideias revolucionárias." p. 95.

terça-feira, abril 10, 2007

A educação das crianças

No blogue O Diplomata é feito um link a um interessante artigo escrito no passado dia 6 de Abril por Polly Toynbee, publicado no Guardian Abroad, no qual ela reflecte sobre o papel da mulher na sociedade inglesa em particular, e no mundo em geral. O ponto de partida foram as reacções políticas à detenção da marinheira Faye Turney, mãe de uma criança pequena, quer no Irão quer na Inglaterra. Estas reacções, sobretudo as de comentadores ocidentais, levaram Toynbee a escrever sobre a luta pela emancipação das mulheres que está longe de poder ser declarada como terminada, já que ciclicamente voltam as questões sobre a perda de valores familiares relacionada com a saída das mães para o mercado de trabalho, que se julga ter como efeito levar à desagregação social. Argumento ao qual ela contrapõe: "Sweden and other Nordic countries, who have had good universal childcare for decades, don't do it on the cheap. The UK spends less than half what they spend: half their childcare staff have degrees. No research suggests the Nordics have been turning out generations of sociopaths: their children score at the top of wellbeing charts where the UK is at the bottom. Who would doubt that long hours in cheap nurseries are bad for children?
But watch how this research is used by the "send-mothers-home brigade" and the Tories who want to cut back costs on under-fives. It is a reminder of how precarious still is women's progress, always obliged to defend small gains, from abortion laws to the right to work: it's painfully easy to terrify mothers about their children. Meanwhile the CBI resists longer maternity leave, the right to flexible working hours for all parents or raising the minimum wage, which mostly helps women. The 17% gap in women's pay keeps mothers poor, their traditional but vital caring jobs valued less than men's work just because traditionally low-paid women do it. And how has it come about that unbearably destructive pressures on girls to be beautiful are worse, not better, than 20 years ago?
Leading Seaman Turney is no doubt typical of the 10% of women who make up the armed forces, and she probably thought old battles about gender discrimination long won. But she will get a shocking reminder to the contrary when she reads what has been said about her. It will be a reminder that the women's revolution is still less than half-won."

Os educadores e a sua tutela

"A violência contra professores e profissionais de saúde vai ser crime de investigação prioritária na próxima versão da proposta de lei da política criminal para o biénio 2007/2009."
E quem o terá proposto, os ministros da tutela? Vá, pelo menos alguém do Ministério da Educação, já que são os profissionais da educação aqueles que mais têm sofrido agressões, e que gostariam que alguém tomasse francamente a defesa da integridade e dignidade das suas pessoas no exercício da suas funções? Não. Os professores não devem a ninguém do se Ministério este interesse ou proposta mas sim à "(...) actual procuradora-geral distrital de Lisboa que no CSMP chamou a atenção para a omissão daquele crime no rol das prioridades da futura lei de política criminal. "Os dados recentemente tornados públicos em matéria de violência dirigida a membros de comunidades escolares e a profissionais de saúde em exercício de funções ou por causa destas, tornam difícil a compreensão do não enquadramento dessas situações nas prioridades definidas no âmbito de uma política criminal de conjuntura, que elege os actos de violência contra as pessoas como meio de cometimento de crime a reprimir particularmente", defendeu Francisca Van Dunem, sendo a posição subscrita por oito conselheiros daquele órgão." no Jornal de Notícias.
É uma situação irrelevante esta de saber quem é a autora da proposta?

segunda-feira, abril 09, 2007

A educação dos governantes

Depois de ouvir o senhor Ministro Mariano Gago, ainda faz mais sentido citar o artigo de Francisco José Viegas, porque todas as respostas ficaram por dar sobre o sentido de universidade na sociedade portuguesa, mesmo se uma instituição universitária de cariz privada, sendo que o mesmo não quer dizer "de carácter arbitrário":
"Evidentemente que é bom, para a democracia, saber em que condições e sob que condições foram emitidos os títulos de licenciatura do primeiro-ministro.
O problema é, também aqui, outro e inteiramente diferente - tem a ver com a interessantíssima ligação entre os dirigentes políticos, os partidos, e as universidades privadas que nasceram como cogumelos nos anos oitenta e noventa. Quem não se recorda dos nomes de políticos a quem nenhum ponto do currículo recomenda especialmente e que foram nomeados para postos e cargos académicos de responsabilidade? Paulo Portas e Santana Lopes, por exemplo, passaram pela Moderna como directores de um centro de sondagens. O que os fez merecer o cargo? Professores de jornalismo e de sociologia, de "relações internacionais" e de "comunicação" multiplicaram-se pelo país fora, sobretudo nessas universidades que foram abençoadas por dirigentes políticos, até aí inacreditavelmente incultos ou, mesmo, semi-analfabetos. Era difícil, nesses quadros académicos, não encontrar um dirigente partidário, uma boa representação de deputados ou um grupo de "especialistas em ideias gerais". O que tinham eles feito pelo ensino, pela carreira académica, pela investigação, pela ciência, pelo conhecimento? Nada. Ao contrário de outros países, onde há políticos saídos da universidade e com um currículo aceitável e recomendável, em Portugal fez-se o caminho ao contrário como havia poucos dirigentes políticos com um passado académico que os valorizasse, criavam-se universidades onde eles teriam assento. Estaria resolvido o problema do título académico e garantida a influência da universidade. Façam a lista dos deputados, futuros ministros, secretários de estado, líderes de partido ou de tendência, que receberam esses títulos ou que "ajudaram" a criar universidades. É numerosa. E dá conta de um saudável regime de colaboração multipartidária, registe-se.
E, pergunto, de novo o que fizeram esses cavalheiros e madamas pelo prestígio da universidade? Pouco, que se saiba. Em Portugal, os dirigentes políticos não lêem, não escrevem, não estudam, não investigam. Mas criam universidades e "fazem política". Uns com os outros.
PS - A fim de defender o primeiro-ministro, vários comentadores têm insistido num ponto particularmente sensível à mentalidade democrática actual a de que não é preciso um curso universitário para se ser um bom primeiro-ministro. O exagero compreende-se mas não se aceita e temo pelas consequências: como se pode explicar às "novas gerações" que não há necessidade de estudar? Um título académico não é uma página da "Caras"."
Francisco José Viegas "A boa e a mávida académica" no Jornal de Notícias

A educação de um teórico e revolucionário: Lenine 1

Sobre o que eu queria escrever não consigo escrever. Assim vou dissertar sobre o livro que comecei a ler. A biografia de Lenine de Robert Service publicada pela Europa-América em 2004.

O que mais relevo nesta biografia é a preocupação do autor pela educação de Lenine, sobretudo com os livros que Lenine leu e que possam de certa forma explicar as opções ideológicas e as atitudes do revolucionário que procurou criar e justificar a existência de um estado de um só partido.

“Todavia, é notável que o livro mais apreciado por Vladimir {Lenine] descrevesse não a Rússia mas os EUA. Isso ia de encontro ao desejo dos seus pais de se manterem, e aos seus filhos, afastados de discussões perigosas sobre a vida pública russa. Se assim era, eram um pouco ingénuos. A Cabana do Pai Tomás continha ideias de significado universal; o seu estilo sentimental comunica ideias de dignidade humana universal. Quando tentamos pesquisar as origens da visão política de Vladimir, deparamos frequentemente com as suas leituras no final da adolescência e no início da idade adulta. Concentramo-nos em Tchernichevski, Marx, Plekhanov e Kautsky. Mas devemos lembrar-nos que, antes desses autores russos e alemães marcarem a sua consciência, uma mulher americana – Harriet Beecher Stowe – tinha já influenciado a sua jovem mente.” p. 74


Ao longo da biografia iremos ver que Service tem a preocupação de contextualizar as decisões de Lenine no quadro de influências teóricas das leituras que escolheu, ou para si foram escolhidas, e formaram as suas ideias. Esta é a pergunta que devia ser feita a qualquer estadista ou a qualquer aspirante ao cargo: Quais foram os livros que leu? Os que verdadeiramente leu, e não aqueles que os seus assessores de imagem gostaria de dizer que você leu?
Senão sob a forma de uma pergunta, então sob a forma de uma pesquisa jornalística. Quais foram os autores/livros que condicionam o comportamento dos candidatos?
Pensar-se-á talvez que a indicação de uma licenciatura obtida determinará por si o tipo de formação que cada um terá recebido. Mas não é uma informação suficiente. A leitura não releva, nem revela, só o percurso público estatuído num programa liceal ou universitário, mas também dá conta do circulo do privado com que cada um vai formando as suas explicações sobre os fenómenso ou descobrindo as palavras que melhor descrevem a sua realidade. Dai a importância deste biografia de Robert Service ao sublinhar o papel das leituras na formação da pessoa Lenine.
Há quem se sinta muito satisfeito por não se proceder à exumação dos restos mortais de D. Afonso Henriques para efeitos de uma investigação académica. Não percebo em que é que o imobilismo institucional e o “não se deixa mexer em nada” contribuem para aumentar o respeito pelo nosso primeiro estadista. O que é perturbante será sempre a ignorância e o desconhecimento que contribuem para o obscurantismo acerca da figura. A investigação científica rigorosamente orientada só poderia contribuir com mais informação, logo, mais reconhecimento pela admirada figura secular que tutela a nossa identidade nacional. São estes trejeitos de clausura da informação que asfixiam a existência.

quinta-feira, abril 05, 2007

A arte de fazer a paz

Irão
"A diplomacia funcionou. Inaceitável! Inconcebível! Inadmissível!
(...) E, acima de tudo, os belicistas de um lado têm os belicistas do outro, que tudo farão para que desilusões destas não se voltem a repetir.
Para os restantes, contudo, foi um bom dia neste planeta. (...)"

Rui Tavares, "Inconcebível! Inaceitável" no Público

Iraque
"Estávamos em 2003, o país inteiro era a favor da guerra, os media eram a favor da guerra. Lembro-me de chegar a Bagdad e haver, finalmente,combates a sério. Eles [os americanos] mataram civis e havia muita gente morta, fotografei tudo isso. Três dias depois, a estátua [de Saddam] veio abaixo. Eu mandei umas 70 fotografias para a Times, o que é bastante, os editores disseram-me: "não vamos usar as tuas fotografias esta semana". Queriam fotografias de crianças com flores à volta dos soldados. "Tens alguma coisa assim?" E eu respondi: "Nem sequer vi nada assim!"
Christopher Morris, fotojornlista de Guerra em entrevista ao Público.

quarta-feira, abril 04, 2007

ríctus de poder 3

"(...) Researchers led by the psychologist Dacher Keltner took groups of three ordinary volunteers and randomly put one of them in charge. Each trio had a half-hour to work through a boring social survey. Then a researcher came in and left a plateful of precisely five cookies. Care to guess which volunteer typically grabbed an extra cookie? The volunteer who had randomly been assigned the power role was also more likely to eat it with his mouth open, spew crumbs on partners and get cookie detritus on his face and on the table. (...)"

Por Richard Conniff, autor do The Natural History of the Rich. New Iork Times


Pois, a experiência também já nos tinha feito perceber este impulso, mas... é necessariamente assim? Indubitavelmente? Triste imagem. Será sempre verdadeira?

economia a crescer e democracia anestesiada

Li no La Tribune.fr que Angola, Mauritânia e Moçambique representaram em 2006 os três países com o maior crescimento económico do continente africano. O estudo é da ONU. Regozijei-me com o facto.
Também sublinho o interesse da iniciativa, democrática, espera-se, que reuniu em seminário um conjunto alargado de pensadores que discutiram sobre os objectivos gerais para a sociedade angolana: Agenda do Consenso. Mas não consigo deixar de pensar nos outros números de Angola (a taxa de mortalidade infantil, o número de crianças órfãs ou abandonadas nas ruas, os estropiados pelas minas, o de refugiados sem tecto ou terra, a separação abissal entre os mais ricos e os mais pobres, a corrupção, o abuso de poder, o autoritarismo representado por um estado personalizadamente forte e socialmente fraco).

Convenção sobre os direitos das pessoas com deficiências

O Jornal de Notícias publicou na segunda-feira a notícia da assinatura da convenção internacional sobre os direitos das pessoas deficientes por um número de oitenta e um países e da União Europeia. Não sei como me esqueci de que queria dar destaque aqui a esta informação. Preocupada com o púcaro esqueço o cântaro.

terça-feira, abril 03, 2007

localização de países europeus - jogo

Um colega enviou-me um jogo muito giro sobre os países europeus (dão-nos um país e temos que o "arrastar" para a posição correcta no mapa). Como queria pôr o link aqui e não era possível fazê-lo a partir do e-mail, fui ver se encontrava a ligação na internet e aí descobri esta página com jogos (Aprender a Europa) também interessantes mas não tanto quanto este outro que tem vários níveis. Eu, no nível três, que era o que me foi enviado por defeito, acertei 35 em 46 vezes, num tempo de 513 ss. Uma lástima. Mas uma lástima divertida. Jogos de geografia mundial num site verdadeiramente fantástico.

Artº 2 nº 4 da Carta ou o tempo das decisões sábias para a Inglaterra. E difíceis para o mundo.

"(...) For all the hard words coming out of Jerusalem, it seems as difficult for Israel as for the United States to find credible military means of stopping the Iranians. A veteran British strategist, by no means a soft touch, said to me with a sigh this week, “It looks as though we must accept that however painful are the consequences of living with a nuclear-armed Iran, this is preferable to the consequences of trying to stop such an outcome by force, and failing.”
In the eyes of many Americans, such words represent characteristic European pusillanimity, indeed appeasement. But some of us suggested when the 2003 Iraq invasion was launched that it could result in a drastic diminution of the West’s ability to address graver threats from Iran and North Korea. So it has proved.
We must keep talking to the Iranians, offering carrots even when these are contemptuously tossed into the gutter, because there is no credible alternative. Even threats of economic sanctions must be considered cautiously. Their most likely consequence would be to feed Iranian paranoia, to strengthen the hand of Tehran’s extremists. A state of declared Western encirclement could suit President Ahmadinejad very well indeed.
No sensible Westerner, committed to the pursuit of international harmony, could welcome any of this. Iran represents a menace to the security of us all, not to mention what it must be like to live under that reprehensible regime. But, in the wake of the Iraq catastrophe, never has the overwhelming military power of the United States seemed less relevant to confronting a large, relatively rich nation that enjoys considerable grassroots support in the Islamic world for its defiance of the West.
No matter how it ends, the seizure of the British sailors is likely to be viewed by most of the world as an Iranian victory. Thus it is unlikely to be Iran’s last affront to us. It is not the American way, but only patience, statesmanship and a refusal to respond in kind to outrageous behavior offer a chance of eventually persuading this dangerous nation to join a rational universe."
Max Hastings, "Iran, The vicious victim" no "The New Iork Times".
is the author, most recently, of Warriors: Portraits From the Battlefield.

sensibilidade democrática 3

As atitudes e os pensamentos herdam-se ou é possível criar tudo de novo?

segunda-feira, abril 02, 2007

sensibilidade democrática 2

Onde assenta a autoridade de quem critica os actos dos governantes? Em pressupostos teóricos-políticos da cultura anglo-saxónica? Nas formação educacional familiar? Nos valores tradicionais portugueses? Quais? Para além do código legal, que delimita a esfera dos comportamentos legais, que outra esfera regula os comportamentos, ajudando a formar governantes/funcionários atentos e comprometidos profissionalmente com a causa pública?

Para além do comportamento individual que se manifesta no discurso público, onde nasce a autoridade daquilo que é dito ou feito? 1. Na legitimidade conferida pelo reconhecimento dos pares? 2. No elevado(?)número dos que lêem, ouvem, divulgam ou citam o crítico? 3. Em pressupostos éticos abstractos? Em modelos de educação e de comportamento reconhecidos tradicionalmente como garantias de equilíbrio e de boa formação para o serviço público (em que escolas, com que programas)?

cinismo/realismo

Li hoje uma frase que me deixou em suspenso, num contexto onde se explica que a legitimidade da acção política (seja a que nasce da adequação a um princípio abstracto, seja a que nasce do consentimento público) é como uma forma eficiente, e cínica, de explicar o monopólio da força e da violência por parte de um Estado:”The person over whom power is exercited is not usually as important as other power-olders.”
Foi Arthur Stinchcombe quem a escreveu, retirada do seu livro Constructing Social Theories, p. 150.

domingo, abril 01, 2007

sensibilidade democrática

Recebi um e-mail político-humorístico. Uma montagem fotográfica a partir da figura do nosso Ministro da Economia que posava junto de duas tabuletas em que uma direccionava para a internacionalmente conhecida região do “Allgarve”, essa verdadeira criação política do nulo interesse público, e a outra, apontando à figura, indicava a direcção de “pedaço de asno”. Com o riso fácil, mesmo sabendo que soes e pouco lúcido, ainda quis pensar no modo como é que eu percepciono o que se faz em Portugal quando se crítica os actos dos governantes.

Tomarei por base o artigo escrito de Vasco Pulido valente no "Público" de hoje e a intervenção de Marcelo Rebelo de Sousa na RTP1, também de hoje.

Quando não pelo riso e pelo evidenciar do caricato do tema ou da acção, técnicas utilizadas pelos humoristas, o que fica à disposição dos críticos das acções dos políticos são as figuras da ironia, do sarcasmo, da repreensão ou do elogio presentes numa exortação, do apontar algo ou alguém como exemplo, de alvitrar ou recusar um modelo de acção, de sugerir alternativas, de estimar propostas ou pessoas defendendo-as num quadro que se pretende defensável argumentativamente.

Vasco Pulido Valente utilizou o sarcasmo para falar na dita sensibilidade democrática dos nossos parlamentares que só acordam para as questões dos direitos públicos quando estão em causa os seus direitos privados, servindo, para o caso, o exemplo da proibição de fumar no parlamento que terá feito despertar os nossos representantes para a defesa da sua (que devia ser nossa) liberdade de usufruir de um direito que era o do Estado não interferir com legislações draconianas sobre assuntos que a ele não lhe devem dizer respeito.
Sarcasmo e ironia são, aliás, as figuras que estruturam na generalidade as críticas de Pulido Valente. É uma forma pedagógica que tem valor não só por si, o evidenciar do ridículo ao superlativar um pormenor ou ao enfatizar um comportamento que passaria inobservado como coisa inócua, mas também pela autoridade de quem o usa, que lhe dá um uma garantia de auditório que outro qualquer, utilizando essa figura de estilo por utilizar, não teria. O sarcasmo é geralmente percepcionado como um insulto, e é talvez das figuras que mais gera confusão pela incompreensão do próprio sentido. É a atitude de quem utiliza o seu discurso para aproximando-se do semelhante dele se diferenciar, radicalmente.

Marcelo Rebelo de Sousa, o professor, usa o discurso crítico como forma de evidenciar pessoas, ideias ou acções que avalia e apresenta como exemplos a seguir ou como modelos a evitar. É o pedagogo que julga e destaca, que utiliza a sua autoridade para avaliar. Exactamente como Pulido Valente, também Marcelo Rebelo de Sousa é escutado não pelo uso que faz do discurso nas figuras que escolhe utilizar, mas pelo que acrescenta à realidade nas descrições que faz dela. O que fez ele hoje quando se falou sobre o Presidente do Tribunal de Contas, e numa semana em que esta instituição foi responsável por um conjunto polémico de informação sobre o estado das contas públicas dos nossos digníssimos governantes? Reconheceu-lhe o mérito e a competência isenta, atitudes que ainda há pouco tempo eram postas em dúvida pelo coro da oposição. O que quer isto dizer? Que este é o critério através do qual as pessoas públicas se devem reger, caso contrário cá estará ele atento para arguir.


Fica por responder o seguinte: 1.Como é que estas pessoas ganham autoridade? Onde se fundamenta? No seu saber, na sua personalidade, na sua intuição e capacidade de predizer, em todas juntas? 2.Serão estas as formas comuns glosadas por todos os outros intérpretes da realidade portuguesa nos seus diferentes níveis e graus ou haverá outro espaço/forma de propor formas de vida? 3. Onde estão os pensadores portugueses com textos fundamentais sobre a democracia, sobre o estado de direito, sobre as atitudes cívicas, sobre os direitos fundamentais? 4. Quem legitima o que se diz em Portugal e a a partir do quê? 5. Quem diz, e porquê, o que é ou não possível fazer? 5. Quem define o que é sensibilidade democrática universal?

Tenho que continuar nisto amanhã...

sábado, março 31, 2007

subscrevo

"(...) Tanto em relação ao Darfur como às violações dos direitos humanos a mando de Mugabe o mais grave não é, porém, o alheamento dos chineses - tem sido o silêncio da maioria dos dirigentes africanos.
Entre nós fala-se no caso do Zimbabwe, sobretudo porque ele poderá impedir a tão desejada cimeira União Europeia-União Africana, prevista para Lisboa em Dezembro, no final da presidência portuguesa da UE. A UA poderá não vir, se Mugabe continuar impedido de entrar na UE.
Seria, de facto, pena não termos a cimeira. Mas seria uma pena ainda maior Portugal aceitar a conivência de muitos africanos com as atrocidades no Zimbabwe.
As coisas atingiram ali tal ponto de brutalidade que, finalmente, se começam a ouvir algumas críticas de chefes políticos africanos, como os presidentes da Zâmbia e do Gana. A própria UA lembrou timidamente a conveniência de ele respeitar as regras democráticas e os direitos humanos. Há movimentações africanas pressionando Mugabe a sair pelo seu pé.
Mas o Governo de Angola apoia activamente a repressão de Mugabe. A maioria dos governos africanos, como o da África do Sul, manteve-se durante anos surda aos desesperados apelos de auxílio vindos dos políticos perseguidos pelo tirano.
Agora o Presidente sul-africano Mbeki vai tentar mediar o conflito entre Mugabe e os seus opositores internos. Não será de esperar muito desta iniciativa. Na África do Sul apenas o arcebispo anglicano Desmond Tutu se atreve a criticar frontalmente os desmandos de Mugabe.
Aliás,o problema no Zimbawe não é apenas político. Este país já foi rico, mesmo depois de deixar de se chamar Rodésia. Hoje, graças à tirania ali reinante (que expulsou os fazendeiros brancos), o Zimbabwe está na miséria, alastrando a fome.
Com o desemprego a chegar aos 80 % da população activa e a mais alta inflação do mundo, não admira que três dos 13 milhões de habitantes do Zimbabwe já tenham abandonado o país. Perante tal situação, poderá a comunidade internacional assobiar para o lado, seguindo o abstencionismo predominante entre os Estados africanos?
Fazê-lo seria uma forma de neocolonialismo. Esse, sim, autêntico. Tratar os africanos com critérios diferentes dos utilizados em relação a outros povos, nomeadamente europeus, é implicitamente afirmar que a democracia não é para África. É dizer aos africanos que são inferiores."
"Democracia e neocolonialismo" por Francisco Sarsfield Cabral no DN

quinta-feira, março 29, 2007

O jogo do sabichão e a ideologia nacionalista



O meu filho quis brincar com o jogo do "Sabichão" editado pela Majora, o mesmo com que o seu pai brincara quando menino pequeno. Eu lia-lhe as perguntas e depois ficávamos a ver o bonequinho rodopiando a encontrar a resposta certa. Um dos temas com perguntas e respostas para o Sabichão é o de Corografia de Portugal. E como é que se descrevia então Portugal nos fins dos anos sessenta, princípios de setenta? Vou listar as perguntas que então eram feitas:
1. Que província ultramarina temos na China?
2. Que província ultramarina temos na Oceânia?
3. Qual o ponto cardeal da Europa em que fica Portugal?
4. Que ponto cardeal nos fica à esquerda, se nos voltarmos a Sul?
5. O Douro fica ao norte ou ao sul do Tejo?
6. A Beira Alta fica ao norte ou ao sul do Douro?
7. A que província pertence o distrito de Portalegre?
8. A que província pertence o distrito do Porto?
9. Qual é o maior rio que nasce em Portugal?
10. Qual é o rio que desagua próximo de Setúbal?
11. Qual é a serra portuguesa que tem quase 2.000 m de altitude?
12. Qual é a maior serra do Algarve?
13. A que arquipélago pertence a ilha de S. Miguel?
14. A que arquipélago pertence a ilha de S. Nicolau?
15. Qual é maior: Angola ou Moçambique?
16. Qual é a província ultramarina portuguesa que fica na costa oriental da África?


Imagine-se uma criança a quem perguntavam se o Douro ficava a norte ou a sul do Tejo com a mesma naturalidade com que lhe perguntavam qual era a província que tínhamos na China, na Oceânia, ou na Costa oriental de África, e para quem era igual saber que Portugal tinha uma ilha de S. Miguel pertencente ao arquipélago dos Açores tanto quanto tinha uma ilha de São Nicolau a pertencer ao arquipélago de Cabo Verde. Esta naturalidade de se saber a viver no império, mesmo se preso pelo cano de uma arma, mesmo se sob uma prepotência, dá uma imagem do país e da pessoa (mesmo que seja como na história do sapo que incha para se parecer com o boi) absolutamente extraordinária. A interiorização da ideia de senhores de um império, de entender a radicalidade do nosso governante ao contrariar as directivas internacionais que nos pressionavam para descolonizarmos como um feito heróico, de todos compreendermos que nele estava concentrada uma ideia e uma acção para Portugal que mais ninguém protagonizou (e felizmente para Portugal, porque uma democracia caracteriza-se precisamente pela pulverização de projectos e de acções que se devem apresentar a plebiscito, relativizando as marcas do absolutismo), marcou, como era suposto que marcasse profundamente, o imaginário colectivo coevo. Um ditador não o é só pelas circunstâncias sociais e históricas, nem, sobretudo, permanece como ditador por demérito de um povo pouco lutador, é-o pelo mérito de saber impor a sua paixão sobre a dos outros, de fazer da sua paixão a paixão que os outros sentem sua. Quem é que pode, na democracia, cruzar espadas com Salazar? Quem tem para oferecer décadas de orientação ideológica sob a nação, numa travessa de porcelana azul-cobalto chinesa?



A imagem da travessa foi retirada do site do Centro cultural de Macau

quarta-feira, março 28, 2007

Ríctus de poder 2


“(…) Há tantos outros livros que falam da comédia, tantos outros ainda que contêm o elogio do riso. Porque é que este te incutia tanto pavor? p. 345,
- Porque era do Filósofo. Cada um dos livros daquele homem destruiu parte da sapiência que a cristandade tinha acumulado ao longo dos séculos. (…)
Mas se alguém, um dia agitando as palavras do Filósofo, e portanto falando como filósofo, levasse a arte do riso à condição de arma subtil, se à retórica da convicção se substituísse a retórica da irrisão, se à tópica da paciente e salvadora construção das imagens da redenção se substituísse a tópica da impaciente demolição e do desvirtuamento de todas as imagens mais santas e veneráveis…oh, nesse dia também tu e toda a tua sapiência, Guilherme, seríeis arrasados!
- Porquê? Bater-me-ia, a minha argúcia contra a argúcia alheia. Seria um mundo melhor que aquele em que o fogo em brasa de Bernardo Gui humilham o fogo e o ferro em brasa de Dulcino.”, p.347
A palavra humilhação outra vez. Vontade de, e poder para, humilhar.
No livro O Nome da Rosa, Umberto Eco põe as personagens do monge Jorge a dirimir argumentos com o Frei Guilherme sobre o segundo livro da Poética de Aristóteles (“aquele que todos consideravam perdido ou jamais escrito”). O bibliotecário Jorge, cego, guarda zelosamente e em segredo, na biblioteca de uma abadia “de que é bom e piedoso calar agora o próprio nome”, o último exemplar no mundo do livro do filósofo.

Frei Guilherme, chamado à abadia para ajudar a deslindar o mistério da morte do monge Adelmo Otranto depressa compreende que este foi assassinado e inicia as suas investigações. Mais mortes se seguem à de Otranto até que Guilherme descobre o autor dos crimes e o móbil para os homicídios: a curiosidade dos monges pelo livro secretamente guardado pelo bibliotecário Jorge e ao qual nenhum ser humano devia ter acesso.

O ricto do homem do poder está na gravidade ou no riso?

A tradição filosófica, a autoridade da palavra do Filósofo, fazia pressupor que era na gravidade que a dignidade do papel do homem de governação se exprimia. E era sobre “Cada palavra do Filósofo, sobre quem hoje juram mesmo os santos e os pontífices, subverteu a imagem do mundo. (…)” que se encontravam as regras de comportamento. Estas faziam que cada indivíduo agisse na terra como um indivíduo temente da ira da sentença divina, ou da sua justiça, após a morte. Mas se viesse a descobrir-se que o Filósofo escrevera um livro onde fazia a apologia do riso, então, defende Jorge, em breve a plebe e os falsos sábios poderiam espalhar a ideia de que era possível anular o medo da morte, libertando os homens para o pecado, para a miséria das paixões, aceitando-se a fraqueza como princípio de elevação até ao sagrado, ou fazendo da procura de uma vida boa na terra o objectivo da vida humana por oposição à demanda de uma vida vivida a pensar na vida eterna. O livro poderia pois passar a ser, se lido e divulgado, a “(…) centelha luceferina que transmitiria ao mundo inteiro um novo incêndio; (…)".

É de um romance que se trata.
Mas esta questão de saber como se deve comportar o homem do poder é secular, tem, no ocidente, o tempo da filosofia ocidental, quando esta desvia a atenção da reflexão sobre as causas naturais da realidade física e começa a perguntar-se pelas causas da realidade social e política.
Os ríctus são ensinados. A sua não manifestação também. Como bem o sabem todos os especialistas contemporâneos da imagem e da comunicação política. Julga-se é que é só o hábito que faz o monge. Mas... e se forem as ideias?
Ontem deplorava eu com um colega de História sobre a necessidade das instituições se atolarem em serviços burocratas fazendo dos não burocratas uns burocratas tementes dos burocratas-mor, à força da necessidade, sob a lei do escárnio ou da ordem, quando ele me falou no livro de Arthur Koestler, Act of Creation. Não conheço o autor, mas o meu colega disse-me que ele tem um artigo sobre o papel dos hábitos interiorizados numa sociedade que era verdadeiramente de antologia e que podia explicar muito bem a mentalidade salazarista de pessoas que ainda que pouco ou nada tenham vivido no tempo de Salazar, se vivificam ainda nesses parâmetros intelectuais dos quais resultam as nossas leis e as nossas regras sociais que as instituições, fechadas, mesquinhas, intriguistas e temerosas, exaltam. Eu não gosto muito de pensar assim. Há aqui algo de determinismo da acção que não aceito. Mas não li o artigo, não tenho como contra argumentar. Mas quando estou irritada por estar quatro horas a fazer um documento absolutamente inútil por ordem de pessoas a quem não reconheço autoridade, a começar pelas pessoas que mandam no Ministério, acabo por embandeirar em arco com qualquer discurso que mais açoite o esgar arrogante dos que precisam de levantar o sobrolho, ou mudar o tom de voz quando dão um ar do seu mando no mundo do pequeno poder. Atitude nada reflexiva esta minha. Mesmo nada. Raios. Mas é que eu acho que não tenho mesmo hábito nenhum intelectual salazarista. Acho mesmo. E o hábito salazarista dos outros irrita.
Se eu repetir muitas vezes, passará a ser verdade, isto? Qual será o meu hábito? O do modelo de Salazar, que eu não soube quem era e com quem não tenho a mínima empatia intelectual ou pessoal, mas de quem devo ter bebido qualquer coisa no leite de quem me alimentou e de mim cuidou, por coação do grupo à ideologia dominante, ou o hábito do filósofo Sócrates de Platão que eu li, e se tornou meu mestre, no liceu? O da história dos portugueses pobres mas honestos e trabalhadores lá na sua aldeia, ou o dos cidadãos do mundo?

terça-feira, março 27, 2007

teatro

Dia Mundial do Teatro. Os Bilhetes são gratuitos. Estreia a peça "Dúvida" no teatro Maria Matos com Eunice Muños, Diogo Infante, Isabel Abreu e Lucília Raimundo. Já disse que hoje os bilhetes nos teatros são gratuitos?
Eu sei, parece um bocadinho mal tanto entusiasmo pelo bilhetinho de "borla". Mas é.

segunda-feira, março 26, 2007

Património português


Acabadinho de chegar aqui a casa o Portugal Património de Álvaro Duarte de Almeida e Duarte Belo. Uma maravilha. Bato palmas. Melhor do que olhar o livro e ver as propostas só a imaginar-me com os meus, de carro, à procura delas. Com um livro pesadito a tiracolo. Eu sou a maluquinha cá em casa dos livros de viagens e a amante dos percursos. Então se houver alguém a botar discurso… Ainda hoje suspiro lamentando a minha pouca sorte por certo itinerário que o escritor Mário Cláudio fez no Porto e aonde eu não pude ir. Não há guiazito nenhum que proponha uma deambulação a que eu não dê troco e procure arrastar para aí os meus. Família sofre, maçada, mas às vezes damos connosco imersos na mais profunda beleza e isso, eu sei, porque sinto, perdoa-me.


"Cada paisagem imprime um particular registo de emoções, um típico modo de olhar, uma forma singular de relação com os outros. Os conceitos de longe e perto variam de um tipo para outro dessa população particularizada. Também variam os conceitos de vizinho e de estranho, ou de meu e de nosso. A paisagem modela ainda a própria dimensão do tempo, e as correspondentes expressões do vagar ou da urgência.", p.7.

Nem de perto nem de longe tenho a alma de viajante de Gonçalo Cadilhe. Muito menos de perto. Mas ele escreveu há umas semanas sobre a sua viagem a Itália através dos olhos/obras do Imperador Adriano testemunhados por Marguerite Yourcenar e eu fiquei (ía para dizer extasiada, mas esse adjectivo guardo-o para os artigos de Bénard da Costa sobre a Itália) cativada. Para mim a Roma antiga é a Roma do imperador Adriano de Yourcenar. Nem sei onde começa a realidade e acaba a ficção. Para mim é tudo real. E se ele sabia de património. De identidade social também.

Ríctus de poder 1

Fiquei a saber que os portugueses que votaram no concurso dos Grandes Portugueses escolheram maioritariamente Salazar. Serão velhinhos nostálgicos da velha ordem, ou jovens à procura de desordem? Os números de telefone não têm idade. E as explicações racionais de defesa só as que publicamente fez o Prof. Nogueira Pinto em espaço e tempo próprio, já que dos votantes pouco se sabe. Há que saber? As decisões deste teor ficam com cada um que as faz, era só o que faltava, agora, é que um concurso de televisão vinculasse o povo português a uma escolha sobre uma personagem do seu passado paroquial. Do imaginário de cada um responda cada um. Já da opção política por uma pessoa ou um partido de estrema direita, respondemos todos. Mas também…a quem interessa a política em Portugal? A 26% dos seus eleitores. Bem nos podemos continuar a ralar.

Já a escolha do nosso Presidente da República em não convidar o ex. Presidente Mário Soares para a cerimónia de celebração dos 50 anos sobre o Tratado de Roma, tal qual ouvi nos noticiários, me pareceu do mais mesquinho ricto que Cavaco Silva teve como presidente. É este tipo de mediocridade nas acções e nas ideias dos nossos políticos que arrasta Portugal para a desonra. Pessoas muito mal-educadas, que se acotovelam para fazer ouvir os argumentos que não têm, que enchem o peito ao pensar na vingançazinha que hão-de fazer sofrer por penas imaginárias ou reais, e se acocoram à voz do dono, é que são uma lástima para Portugal. De um Presidente da República não esperava tal.


Li que o nosso Primeiro-ministro terá partido para “um exercício de humilhação” sobre o deputado socialista Ricardo Gonçalves por este se lhe opor frequentemente. Não conheço pessoalmente nenhum dos envolvidos, não estive presente, não testemunhei. Mas acredito na fonte do jornal Expresso (24-3-2007, p. 10). E este ricto de poder é frequente em todos os que se sentem imbuídos de uma ideia messiânica de si que não permite discussões, ou críticas ou reticências. Todos sabemos que uma democracia é o regime que mais trabalho dá aos seus governantes, porque estes ao mandarem têm que esclarecer, justificar e aguardar pela adesão. Não é fácil, deve ser frustante muitas das vezes, e deve dar uma grande vontade de passar a intitular-se um déspota iluminado, assim não há resistências nem oposições.
Compreendo que quem tem de si uma imagem de vencedor e intrépido líder não terá paciência para os “ses” e os “mas” que certos indivíduos pensantes, teimosos ou azémolas esvoaçantes teimam em fazer ouvir, como se fizessem perder um tempo precioso para o tempo da governação. É muito melhor calarem-se todos para que possam fazer conjunto harmonioso, e sairem sempre vitoriosos e não passarem à oposição, nunca. Não pela qualidade das medidas, não pela força dos projectos, mas pela coesão à volta do chefe dos “sim, senhor Primeiro-ministro”, pela aparência de união. Pela estupidez que dita a moda falsa da ideia que é muito citada por aí, falsa e frase mal pensada, que “à mulher de César não basta sê-lo há que parecê-lo”, para deixar cair convenientemente o "sê-lo# e só ficarmos com o que parecemos, onde mitigamos vaidades e fome de atenção.
Já vi pessoas a serem objecto de exercícios de humilhação por indivíduos sem escrúpulos que hoje ocupam alguns cargos de poder. Autênticos momentos de abjecção, embora, pelo que leio na história, feita por aprendizes em canalhice das relações humanas. Nunca vi os humilhados a enfrentarem-nos, não sei se por não se terem apercebido ou se por estupefacção ou se por educação. E se calhar, se fosse possível, ainda telefonariam a dizer que gostavam de eleger essas pessoas como outros grandes portugueses do futuro.

domingo, março 25, 2007

Nós na Europa política

Olho para o jornal e analiso os dados do último Eurobarómetro sobre a Realidade social Europeia, depois vou ao seu sítio na rede e leio o relatório "European Social reality". De entre as coisas que consideram importantes, os portugueses põem a política em último lugar de interesse. Na realidade, põem os portugueses e todos os outros europeus, mas a média europeia é de 43% e a portuguesa é de 26%. Com um desinteresse maior pela política que os portugueses, na Europa dos 27, só mesmo a Eslováquia.
Os holandeses registam-se como os mais interessados em política, seguidos da Suécia, Dinamarca, Alemanha e Itália (p.15 do relatório).

Presumo que enquanto houver políticos em Portugal que governam para o seu ego ou para o seu bolso, ou para o ego ou o bolso de alguém a quem devem favores, as pessoas continuarão insensibilizadas para a defesa dos direitos comuns e inconscientes do nível de exigências colectivas. Quem compreende por exemplo a medida do ministro da economia de mudar o nome da região Algarve para “Allgarve”? Os algarvios com quem eu falei estão varados com a notícia. Mas penso: - Se este assunto é deveras desorientador no que à adesão à ideia que as pessoas fazem da sua região, porque não se juntam e não protestam ruidosamente contra este artifício do poder central? Porque não exigem ao ministro uma linha de comboio decente entre Tunes e Lagos, que faria mais pela imagem do turismo na região do que todo o dinheiro gasto nos patéticos cartazes “Allgarvios”? Porque não se interessam mais pela política no sentido de intervir mais, de nela quererem participar?
Eu julgo que os portugueses têm a percepção que a política, como a justiça, ou como a legalidade, é uma coisa lá deles, só para alguns, e que nenhum esforço de intervenção será recompensado. A solução, afinal, tem passado por quando estamos mal cá dentro não procuramos mudar as coisas de dentro, não, emigramos e vamos dar mais mundo ao nosso mundo. Tenho familiares e conhecidos que são conhecidos por emigrarem ciclicamente conforme as políticas. Nunca se arrependeram de partir, para os Estados Unidos, para Macau, para a Alemanha, para a Espanha. São os pêndulos portugueses que me permitem medir o autoritarismo inconveniente de certos governantes.
Explicava-me a empregada do bar da minha escola: “Eles fecharam-nos a urgência lá na minha terra que ficava a 13 Km e puseram-nos a uma distância de 50 e tal Km do hospital mais perto, agora todos os meus familiares e conhecidos estão a fazer seguros de saúde em Espanha para serem lá consultados”. Aprendam espanhol gente da raia, aprendam, se já lá vão aos médicos, se já lá nascem os vossos filhos, que diferença existe se começarem a frequentar as suas escolas? Nenhuma, pois claro. Mesmo isto é tudo Europa! E além disso eu sou uma europeísta convicta.
Mas então porque me irritam tanto estas políticas do empurra português porta fora?
Sermos portugueses ou espanhóis ou suecos ou italianos, não é tudo a mesma coisa? Vão lá para os hospitais, trabalhos, cidades, escolas e línguas deles. Nós por cá ficamos todos “allém” na Europa.
Pensei muito se devia ou não escrever sobre isto. Mas decidi que o acto de mitomania do Primeiro-ministro afecta todos os portugueses de uma forma mais profunda do que a que tem estado a ser compreendida pelos críticos à publicação da notícia sobre a legalidade da licenciatura do Primeiro-ministro. Notícia que, aliás, já tinha sido publicada num diário económico de grande referência. Não me parece que alguém leia a notícia e pense “Olha, afinal o homem nem engenheiro é!”. Isso seria o menos, e seria irrelevante, porque o valor das pessoas não advirá directamente das licenciaturas que conseguirem ou não fazer, mas advirá da capacidade de trabalho e de esforço, da verdade e da legalidade que enformar as suas acções na vida.
Não nos envergonhava ter um ministro não licenciado, mas envergonha-nos ter um ministro que não tem vergonha na cara e diz de si o que a sociedade o quer ouvir dizer: é tudo uma questão de poder e de saber utilizá-lo. Isso é viver para a aparência, é ser falso, é criar uma ideia de si que não corresponde senão a um simulacro, e é, do ponto de vista da referência de si como modelo social, um mau sinal. Mas porque é que eu me admiro tanto se é isso mesmo que está a acontecer na Educação, com a manipulação da imagem dos professores e do número repentino de sucesso nos alunos? É tudo uma questão de “conhecimentos”. Digam lá quantos diplomas do secundário vão ser entregues, nem que seja à força, para cumprir os números?

sexta-feira, março 23, 2007

A tradição da cultura portuguesa

Não resisto a citar António José Saraiva: " No fundo, a tradição está no futuro, é o sentido que damos à nossa actividade, é aquilo que queremos. Avança na tua velhice robusta. A tradição é o vento que a tua passagem levantar." p.114

"sangue e terra", a força da ideologia no árabe, uma linguagem sob sequestro, povos dominados

"Ideology and the desiccation of Arabic"
por Rayyan al-Shawaf - Terça-feira, 20 de Março de 2007

"Because of the political turmoil that has engulfed Lebanon since the assassination of former Prime Minister Rafik Hariri, the Lebanese have paid scant attention to the cultural ramifications of the Syrian withdrawal from their country. No sooner does one find occasion to ponder cultural issues, it seems, than Lebanon is beset by new political crises. Yet allowing politics to dominate all other aspects of life is unfortunate. That's because conditions in Lebanon are propitious for a cultural renaissance, particularly the rejuvenation of the much-abused Arabic language.
Indeed, not since its heyday in the swinging 1960s has Lebanon enjoyed the kind of cultural freedom afforded by the recent demise of Syrian tutelage. Aside from economic prosperity, pre-1975 Lebanon boasted vibrant experiments in Arabic literature. For example, the stylistically bold poetry popularized by Iraqis Badr Shakir al-Sayyab and Nazik al-Malaika exploded into free verse with the trailblazing journal Shi'r, edited by Yusuf al-Khal and Adonis. Given its distinctly non-Islamic themes, indebtedness to Western trends, and complete break with the conventions of classical Arabic poetry, Shi'r could only be published in Lebanon. Lebanon's Civil War ended that golden era, destroying the environment that nurtured an uninhibited and boundless Arabic.
In other Arab countries, however, the curtain had descended much earlier. With the advent of Arab nationalism in the decades following World War I, Arabic entered its "blood and soil" phase. Before long, a civilizational language was provincialized and forced to serve as mouthpiece for the perceived interests of a single ethnic group. Of course, the belief that art, literature, and even language itself should be subordinated to ideology figured prominently in other forms of nationalism in the Middle East. Antoun Saadeh, the founder of the Popular Syrian Party (now the Syrian Social Nationalist Party), insisted that in order for Arabic literature to be meaningful, it had to serve the cause of Syrian nationalism.

Yet it was the Arab nationalists who enjoyed political success. Their takeover of power in Egypt, Iraq, and Syria led to the institutionalization of the new creed. The faithful acolytes of Arab nationalist theorists such as Sati al-Husri, Michel Aflaq, and Zaki al-Arsuzi officially wedded Arabic to ethnic chauvinism, martial values, and the macabre exaltation of death. Generations of Arabs imbibed an Arabic that vilified Jews, not just Zionists; while in countries like Iraq, the word "Persian" became an insult. Crucially, dissenting views were denied publication, and thereby effectively banished from the language.

To complete the transmogrification of Arabic, the entirety of its vocabulary had to be conscripted into the service of ideology. A new bombastic form of Arabic developed, one unwittingly self-parodying, its grandiloquence mocking the expressive richness of the language.
Much of this was in evidence when Lebanon was a Syrian satrapy. How not, with the country governed by the Syrian Baath? In Syria, the Baath extirpated and - in true Arab nationalist fashion - "ethnicized" Arabic. In Lebanon, the corruption of language was more insidious, but left its mark nonetheless. This was apparent in discussions of Arab political causes, and in references to the heroic stoicism of Lebanon's "Syrian brothers" in defending the honor of "Sister Syria" and the entire "Arab nation."

That period has, fortunately, ended. Notwithstanding all its other challenges, Lebanon now faces the thorny issue of how to define its relationship with the Arab world, and indeed with Arabic itself. In the first half of the 20th century, a number of primarily Christian thinkers like Salamah Musa in Egypt and Anis Freiha and Said Akl in Lebanon argued for the standardization and transcription of the local vernacular. In Lebanon, such calls became increasingly political over time. The movement reached its zenith during the Lebanese Civil War, when several prominent Christian intellectuals called for Lebanon to dissociate itself completely and finally from the Arab world. Though such calls ended after Syria imposed its hegemony in 1990, today Lebanon is once again free to make its own decisions regarding its ties to the Arab hinterland.

In certain respects the fate of Arabic hangs in the balance. In the past few years two Israeli authors who chose to write in Arabic have died. The passing of novelist Samir Naqqash and memoirist Ishaq Bar-Moshe, both of Iraqi origin, marked the end of an era. Arabic has ceased to be the literary language of choice among Eastern Jews, its use now entirely confined to academic and intelligence work. With this loss in mind, how another Arabic-speaking community, such as the Lebanese, responds to the Arab world can profoundly affect what happens to the language.

Throughout the centuries, Christians and Jews ensured that Arabic was not simply a Muslim language. Non-religious writers of all faiths kept Arabic from being a purely devotional medium; and non-Arab Muslims secured for Arabic its status as the language of high culture in much of the Islamic world. These multifarious and often conflicting phenomena infused Arabic with a suppleness and vitality seldom found among liturgical or strictly ethnic tongues. After all, language is enriched by ideological diversity and debate; conversely, the monopolization of language by a single ideology inevitably leads to its desiccation. During those periods in which Arabic came to be identified exclusively with Islam or Arabs, the religious, ethnic, or ideological "other" always fared badly, and often cast about for an escape route.

Yet removing oneself from the equation means forfeiting the chance to effect change. Perhaps this was not adequately understood by Lebanon's Christian separatists, or else they considered Arabic - and the Arab world - beyond salvation. Today in Lebanon, there is no influential movement to sever ties with the Arab world. Yet the country appears oblivious to the fact that a golden opportunity has arisen for the rejuvenation of Arabic.

Paradoxically, only once Lebanon is free from coercive attempts to annex or control it will it be able to offer Arabs something of substance. At long last, that moment has arrived. There is a historic opportunity to make heard the voices of those Lebanese who espouse religious, cultural, and literary views that fly in the face of prevailing Arab orthodoxies. It remains to be seen whether the publishing industry and the media will take full advantage of the situation. Multi-sectarian, multi-lingual Lebanon, with its heady and contradictory mix of Western and Eastern influences, has always been perfectly suited to injecting Arabic with original as well as foreign themes, and shaking the language free of a single, overarching ideology. Indeed, this may be Lebanon's true calling.

Rayyan al-Shawaf is a freelance writer and reviewer based in Beirut. He wrote this commentary for THE DAILY STAR.

quinta-feira, março 22, 2007

Mitomania.
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O mundo a seus pés, penso.



Imagem que me foi enviada por Fernando Mouro.

Aula prática no ensino de como fazer boa política. Tema: Darfur

Reparo como esta associação é profissional, directa e promotora de atitudes cívicas, reparo como a internet é um meio que potencia a adesão a causas, universalizando-as ao segundo, reparo como o poder na América é tratado com a consideração mas também com a exigência e com o trato directo que merece.
Nesta carta o senador americano Bill Frist pede-nos que nos juntemos a ele e telefonemos para o número da Casa Branca, referenciado a negrito, declarando ao Presidente Bush que está na hora de ele passar ao plano "B" de uma acção sobre o governo do Sudão. Plano que passaria pelo: 1. reforço de sanções mais duras contra o Sudão (eu por acaso tenho sempre dúvidas neste tipo de medidas porque acabam por prejudicar mais os povos que os governos, mas enfim, restrições duras em certas áreas não alimentares ou circulação de medicamentos serão defendidas por mim); 2. Fazer uma parceria com as Nações Unidas para obrigar à existência de um espaço aéreo de circulação proibida sobre Darfur a fim de evitar os continuados bombardeamentos sobre a população (parece-me bem, pese embora seja uma obrigatoriedade que implique uma ameaça e demonstração de força da comunidade internacional e não sei como será feita sem ingerência); 3. Pressionar as Nações Unidas para rapidamente instaurar forças de Manutenção da Paz para protegerem os civis (e para realizar esta actividade, esta assistência, é preciso que o governo do Sudão e as forças em confronto dêem autorização. Há pois uma diferença entre assistência e o recurso a uma intervenção humanitária. Esta não é uma figura do direito internacional que registe um acordo unânime entre os especialistas, pois há quem a considere ilegítima por muitas vezes prolongar os conflitos armados. Veja-se o caso da Libéria e da intervenção humanitária dos EUA, por exemplo.). Eu sobre esta questão não tenho opinião formada. Por princípio sou a favor desta figura de intervenção, mas reconheço que na prática pode servir como forma de atear ainda mais a violência. Não sei. Melhor seria uma força de manutenção da paz, claro, com o acordo das partes. Mas parece tudo tão lento...
Bom, aqui fica a carta e o exemplo de uma política de cidadania "on-line":
"Dear .....,

Join Me in Calling the White House
Dial 1-800-671-7887 to urge President Bush to save lives in Darfur by launching "Plan B" immediately.

Once you've hung up, click here to report your call back to the Save Darfur Coalition.
Each year I travel to Africa as a medical missionary. I've just returned from my latest trip, a deeply troubling visit to the Sudan.
Due to a series of increasingly violent attacks on foreign aid workers in Darfur over the past six months, international efforts to protect civilians and provide them with food, clean water, shelter, and medical care are in a state of crisis.
Countless men, women, and children are in real danger of falling prey to violence, starvation, or disease as a result of these attacks.
The U.S. must take the lead in working with the international community to end the violence. The lives of millions hang in the balance.
Please join me in calling the White House comment line today to urge President Bush to launch "Plan B," his tough, three-tiered plan to push Sudan to end the genocide, before more lives are lost in Darfur.

It will only take two minutes of your time and could make a world of difference for millions of people in need. Just follow the steps below:
Dial 1-800-671-7887 (toll-free)
Once you've been transferred to the comment line leave your comment using the talking points below:

I'm calling to urge President Bush to implement "Plan B" to help bring an end to the genocide in Darfur. Specifically, I am asking him to:
Enforce tough sanctions against Sudan;
Work with the UN to authorize and enforce a no-fly zone over Darfur to protect civilians from Sudanese bombers; and
Press the UN for faster deployment of UN peacekeepers to protect civilians in Darfur.
Click here to report your call back to the Save Darfur Coalition (this step is crucial - please don't skip it.)
The U.S. and the international community are all that stand between millions of civilians in Darfur and the Sudanese regime's policy of genocide. Hundreds of thousands have already been killed, and time is running out for millions more.
Without tough "Plan B" measures to accompany diplomatic efforts, the international community's efforts to end the violence in Darfur are doomed to fail.
Please follow the steps above to join me in calling the White House comment line to ask President Bush to launch "Plan B" without further delay, then click here to report your call back to the Save Darfur Coalition.
I hope you will help me spread this message of urgent action by forwarding my email to your friends, family and co-workers and asking them to join you in taking two minutes to call the White House.

Thank you for your ongoing advocacy on behalf of the people of Darfur.

Sincerely,
Senator Bill Frist, M.D.

----------------------------------------------------------------------------------------P.S. Will you join the Save Darfur Coalition in future calls to action? Click here to join our Weekly Action Network and commit to taking one action each week to stop the genocide in Darfur.

quarta-feira, março 21, 2007

Vil tristeza ou engenho e arte? 2


Não querendo deixar de te responder, Teresa, sobre a questão de como se poderá explicar, ou defender, a tese de termos um povo que poderá ser declarado como razoável ao mesmo tempo que temos tido governantes muito assim-assim quanto à visão e à sua concretização na prática, e não tendo tempo, nem saber, agora, para o fazer, deixo-te com esta observação de António José Saraiva a quem mais tarde voltarei para pensar esta questão da cultura portuguesa, cruzando-o então com o livro de José Gil, Portugal , hoje: o medo de existir (com o qual não concordo por aí além e que eu questiono na fundamentação). Irei então, como já escrevi, tentar alinhar mais tarde umas ideias para esta discussão.


Diz-nos então Saraiva experimentando definir o carácter português e a sua crença de que este era incompatível com o tipo de ordem de um socialismo marxista, modelo de oposição dominante à época em Portugal, para não dizer que era modelo exclusivo: “E julgo, por outro lado, que a nossa debilidade económica e institucional, a nossa propensão a dividir-nos em bandos irredutíveis, o nosso carácter improvisador e messiânico, a nossa mitomania (que são constantes nossas através de várias estruturas sociais), e também a nossa apatia, que de vez em quando desperta em labaredas de papel (vide caso Delgado e o que se seguiu) tornam arriscado e de desfecho imprevisível um processo de desintegração anárquica, embora ideologicamente orientado por uma reintegração em melhor estrutura. É uma lotaria em que há pelo menos 50% de probabilidades de perder”, p.p. 285-286.

Ora a carta foi escrita em Janeiro de 1970 e António J. Saraiva previa que a solução para Portugal não seria a da economia planificada ou de uma ideologia social marxista, mas também não via, ou apresentava, outra solução. Parece que os intelectuais portugueses só bebiam água, e a davam a beber, de duas fontes: a que provinha da ideologia do Estado Novo ou da ideologia comunista, ficando uns quantos sem saber onde pensar novas propostas. Mas não sabiam pensar para além destes modelos? Ninguém conseguia ter ideias para lá destes dois paradigmas, e propor uma solução democrática, universalista, ainda que própria a Portugal? Parece que em Portugal primeiro faz-se (no caso a revolução para resolver questões do foro prático-militar) e depois pensa-se (Mário Soares sai realmente da Alameda com um projecto exequível de uma terceira via política para Portugal, mas, que eu saiba, não é um pensador programático). Por isso, onde estavam os teóricos portugueses e que ideias estavam a produzir? Calados, confusos, incrédulos, desconhecedores ou engajados, porventura. Um dia terei que estudar isto melhor.


A imagem aqui reproduzida é do quadro "Jogo de damas" de Abel Manta.

terça-feira, março 20, 2007

Guerra de percepções

“Batalha de percepções”, é como classificava um militar americano a realidade do que se está a passar num mundo de terrorismo islâmico versus poderio militar ocidental - que é demasiadas vezes usado sem respeitar integralmente o cumprimento das regras de combate expressos na Convenção de Genebra (cf. os § 4, 7, 12, 13 e 15), ouvi eu hoje no programa 60 minutos na Sic Notícias.
Batalha de percepções que o exército de coligação no Iraque, sem jamais ter perdido uma batalha em campo, como o militar fez questão de sublinhar, e é um facto, está a perder na guerra da comunicação.
Batalha de percepções como sempre se tratou de batalhas de percepções em tudo o que aconteceu na história da humanidade, só que as pessoas tendem a esquecê-lo quando são as suas percepções a dominar (a isso gostam de chamar realidade ou descrição de factos, ou o que quer que seja para se convencerem de que estão do lado da verdade), mas quando são a dos outros a ganhar adesão desculpam-se com os meios (os jornalistas em função livremente difundida no papel de “watch dog” na guerra de Vietname, a Internet na guerra com o Iraque). Não que o meio não seja relevante, e que a Internet não providencie um espaço de divulgação poderosíssimo ao alcance de qualquer um e ao serviço de todas as intenções, como espaço livre, mas se a contraproposta ao terrorismo islâmico, insidioso e malévolo na utilização dos meios para atingir fins inaceitáveis em democracia, fosse uma contraproposta inteligente e bem conduzida, através dos serviços de informação e com o apoio das Nações Unidas, os americanos não estariam a perder esta guerra da percepção, porque na realidade teriam a razão do seu lado: a razão da liberdade e da democracia, que deixariam de ser palavras para passarem a ser um modelo, e não a razão do voluntarismo maniqueísta do pensamento dito de conservadores americanos em acção ideológica sectária sobre o mundo.

Fiquei até à 1 da manhã a ouvir o debate sobre as televisões e a Entidade Reguladora para a Comunicação Social. A sucessão de leis da comunicação social no nosso país entontece qualquer um, mas fiz um esforço para seguir o programa, iludida de que se iria falar sobre o papel dos media como meios de promoção da democracia. Está bem…para além de auto promoções das ilustres pessoas presentes em gravitação à volta de si próprias, da defesa da iniciativa privada conduzida por Pinto Balsemão, mesmo assim a ser o único a fazer as perguntas pertinentes da noite e a exigir esclarecimentos para além do que a jornalista Fátima Campos estava a conseguir, e da intervenção de um auto proclamado representante dos telespectadores portugueses, surrealista na sua assumpção em nome de “nós os espectadores” (“nós?!” Como? Em nome de quem?), e da sua piadinha de que a televisão tem mais poder que os Ministros da Educação excepto com a Ministra Maria de Lurdes Rodrigues (ai sim que ela é uma pessoa muito influente na educação deste país…) o que ouvi deixou tudo por esclarecer sobre o tema.

Almerindo Marques, convencido que descobriu a identidade da RTP, um problema dos gestores que confundem o combate ao défice com objectivos de programação, e o bom desempenho financeiro com um bom desempenho em prestação do serviço público (na RTP como na vida pública do país), não foi um interveniente claro quanto a considerar relevante, ou não, as opções políticas sobre o canal público através da ERC, agora a poder ver os seus poderes reforçados.
Podemos sempre pensar que os mais pobres recorrem à televisão espanhola (30% do território não tem acesso aos 4 canais generalistas!) e que os que podem têm a tv cabo e escapam a estas manigâncias do mercado e da política caseira (ficarão sob influência de outras, claro, mas sempre têm mais escolha).
Uma batalha de percepções, também nestes assuntos. E sempre. É por isso que há uma batalha pela verdade. Sempre.
Excelente o documentário inicial sobre o papel da televisão em Portugal nos últimos 50 anos e a sua relação com o poder político e económico.

4 anos 4

Happy Fourth Birthday, Iraq War! via Wonkette.


"(...) Quanto a nós, começamos por ingressar na procissão das velas com a GNR e muitos jornalistas e comentadores no desfile. Agora apagam-se as luzes e encerramos a embaixada em Bagdad. Em tudo um despropósito e uma desmedida, próprios da periferia cultural.

Porém, não me associo aos festejos actuais dos que firmemente e civicamente se opuseram à guerra, protestaram pelo escárnio ao direito internacional, preveniram contra a falta de provas sobre a existência de armas de destruição maciça.Louvo-os mesmo pela clarividência, apego aos princípios de uma sã convivência internacional, capacidade de testemunho em sociedades de pensamento unificado, mas hoje as minhas preocupações voltam-se para outro lado.

E não me associo, porque desde o 11 de Setembro de 2001 que tenho a noção de que os EUA estão sujeitos a uma guerra de usura, à qual estão a responder sem critério nem racionalidade. A primeira reacção norte-americana aos ataques do 11 de Setembro ainda foi racional e dentro do mais escrupuloso respeito pelo direito internacional: legítima defesa, resoluções do Conselho de Segurança e intervenção no Afeganistão ao abrigo de um mandato da ONU. Mas a invasão do Iraque em Março de 2003 foi em tudo o contrário desse princípio de luta contra o terrorismo internacional. Cumulativamente, os quatro anos de ocupação militar do Iraque colocam os EUA à mercê de uma guerra de usura onde nem a vitória, mais do que improvável, terminaria com ela. Tanto assim é que, no preciso momento em que Bush, já com uma maioria do Partido Democrático no Congresso, decidiu enviar mais de 20 mil homens para Bagdad, é de Teerão que vem o novo desafio que prolonga essa guerra de usura."

"Da cimeira à rocha tarpeia", José Medeiros Ferreira em DN