domingo, junho 10, 2007

As cigarras e as formigas

- Diz-me, Ana, como é que não saímos deste arremedo de elites há tantos séculos? Mas o que fizeram afinal as revoluções que não cumpriram o seu objectivo de transformação?

A Ana falou-me de D. João II e da substituição de elites. Os mesmos tons e modos para pessoas pensadas para serem diferentes. Uma aristocracia fascinada com a pose e com o traje.
Falou-me da burguesia dos Países Baixos para quem o dinheiro servia para investir antes de se pensar em comprar a ostentação de si e dos seus.

Elegância versus contenção, gasto versus poupança, aparência versus sustentabilidade financeira.

E no entanto... parece tanto uma luta entre a grandeza e a mesquinhez. De um lado e do outro das personagens desta história. Uma luta de formas de vida. Mesmo se uma pequena luta. E sobretudo pelo dinheiro, ou falta dele, que sustenta, ou devia sustentar, essas formas de vida. O ridículo é a moral da história. É uma moral real, mas nem por isso deixa de ser ridícula. Alarvidade, que constrange, quando se pode dizer-se: "Eu não te avisei..." Mas todas as formigas o podem dizer às cigarras. Terão sempre essa oportunidade. Claro que uma cigarra, se o for verdadeiramente, nem ouve. Os outros vivem para servi-la ou para a incomodar. Luta de irritações. Quem me dera que fosse de declínios ou ascensão de formas de vida, claramente, e não este, este, ressentimento mútuo.

sexta-feira, junho 08, 2007

Política e terror: Estaline 1

Em política quando se perde a fé numa ideia, ou numa pessoa e nas suas ideias, faz-se o quê? Retira-se o apoio. E se esse apoio for não apenas considerado como necessário, mas sinal absoluto de "quem não está comigo está contra mim", sendo que eu tenho o poder de transformar a aversão em agrado mesmo se sob a lei do medo?
Diz-nos Montefiori: "Mas os pensamentos de Estaline, em 1937, revelam a razão mais lata do iminente assassínio de centenas de milhar de pessoas aparentemente por escassa razão. "Talvez se possa explicar pelo facto de terem perdido a fé", disse, dirigindo-se aos Velhos Bolcheviques"." p. 214
Mas a razão da perda da fé não é uma escassa razão no que ao seu peso histórico diz respeito, e às vezes nem sequer o é do ponto de vista da história pessoal, é-o sim do ponto de vista de uma ideia de política assente numa concepção aberta e livre de discussão, de adesão e crítica ideológica, o que do ponto vista da história das ideias é uma razão pouco mais que nascente, convenhamos.
O que me espanta é como tanta gente, tão depressa, reconheceu no terror enquanto forma de fazer política, algo sem justificação. O que me espanta não é a violência, mas sim haver tanta gente contra a violência como forma civilizacional de derimir conflitos. Que se saiba dizer ou pensar o contrário do que se aprendeu historicamente a fazer, eis o que é fascinante. A isto chama-se dar lições de moral. A democracia sabe que não pode deixar de se comportar como velha mestre-escola que não descura nunca certos valores pedagógicos que suportam a sua comunidade educativa, como os que afirma que existem acções correctas e incorrectas, ideias defensáveis e outras que nem tanto, boas avaliações por bons desempenhos e reprovações quando não se cumpre os objectivos clara e inequivocamente determinados.
O nosso primeiro-ministro não quis comportar-se como um velho mestre-escola na Rússia de Putin, não se bateu pela democracia. Comportou-se como um azeiteiro daqueles que mistura o óleo com azeite a pensar no lucro e no mercado. Havemos todos de ficar mais ricos. É uma outra forma de fé, de perda de uma fé ou de não ter fé nenhuma. Um dia destes nós iremos descobrir isso. E entretanto os anos vão passando. Para o país pode ser um incómodo, mais um nesta sucessão de governantes, mas para cada um de nós é a nossa existência pública, finita.

terça-feira, junho 05, 2007

The Nexus of Politics and Terror

A importância de manter os media e os cidadãos focalizados em sucessivos alertas sobre ataques terroristas, para fazer aprovar certas acções ou leis que normalmente não seriam aceites. A iminência de ataques que nunca se concretizaram ou dos quais não existem provas que sustentem a teoria de conspiração. A manutenção de um discurso que destacava as ameaças de grupos terroristas contra os USA sempre que era preciso desviar a atenção de outros acontecimentos/pessoas que afectavam o domínio discursivo da administração Bush. Foram factos/medidas que resultaram de meras coincidências?
Como nos diz o pivot há que respeitar as leis da lógica e evitar cair num pensamento que alimente a falácia lógica, pois só porque o acontecimento "a" ocorre e então o acontecimento "b" ocorre, isto não implica necessariamente que o acontecimento "a" foi a causa do acontecimento "b". É verdade. Mas há relevância na observação destas ocorrências. Eis a proposta deste trabalho.

segunda-feira, junho 04, 2007

Paz celestial

Há dezoito anos, numa aula de Estética do curso de Filosofia do quarto ano, na Universidade de Lisboa, discutia-se o conceito de sublime em Hegel. Estava uma tarde de calor, e a percepção de uma intensa luz branca dentro da sala preenche hoje os espaços da minha intermitente memória. Nessa manhã a notícia sobre o massacre na praça de Tiananmen tinha a maior das atenções por parte dos meios de comunicação e da população. Eu cheguei à Faculdade, e na minha aula discutia-se o sublime em Hegel. Sem sobressaltos. Ainda hoje não sei bem se isso foi exemplo de uma arte de quem conhecendo demasiado bem o relativismo dos acontecimentos históricos se ocupava deliberadamente com o fundamental, os conceitos, ou se era uma tão grande distracção da realidade por parte de quem não mais sabia que preocupar-se com o acessório.
Mas a deliberação de querer esquecer o passado não equivale ao facto de esse passado não ter existido. Nem mesmo para o regime chinês.
Na entrevista ao presidente Bush, conduzida por Bob Woodward, é-nos revelado que o presidente ao ser questionado sobre o papel que entende ser o que a história lhe atribuirá no futuro, disse: "‘History,’ and then he took his hands out of his pocket and kind of shrugged and extended his hands as if this is a way off. And then he said, ‘‘History, we don’t know. We’ll all be dead.’”
Pois, estaremos mesmos todos mortos. Só que há pessoas que não concederam nenhuma procuração aos líderes mundiais autorizando-os a mandarem matá-las. E isso também terá uma tabuleta na história.
Pois, enquanto houver tabuleta, ou alguém para a ler.
Mas o sofrimento esquecido não equivale a sofrimento não existente. Isso nem mesmo a propaganda o consegue fazer.

domingo, junho 03, 2007

Dia 3 de Junho

"(...)
Eu sorrio e levo pela mão essa criança poderosa,
(...)"


Herberto Helder, Poesia Toda, Assírio e Alvim, p.40



P.S. Pode ler-se o poema na íntegra aqui


"(...)

Essa criança que aperta as veias que iluminam
a minha garganta. Ela dorme. Escuta:
a sua vida estala como uma brasa, a sua vida
deslumbrante estala e aumenta.
Se um dia os archotes incendiarem essa boca, e as faúlhas cercarem
o silêncio tremendo dessa pequena boca, escuta:


a minha boca, lá em baixo, está coberta de fogo."

Herberto Helder, p.85

P.S. O poema pode ler-se na íntegra aqui.


Se houver eterno retorno eu quero retornar eternamente ao dia daquele e deste dia.

sexta-feira, junho 01, 2007

Como fomos amados em criança? Ou como pensamos que o fomos? 1

No vídeo de G. Lakoff que editei na última terça-feira ficamos a saber como é que um cognitivista linguístico (um filósofo que estuda como é que a linguagem pode modelar o comportamento individual e social) vê o uso das metáforas quer por parte dos Conservadores (maioritariamente votantes nos Republicanos) quer por parte dos Liberais (os que frequentemente sufragam os Democratas), e isto relativamente aos valores defendidos no que ao conceito de família diz respeito ( e desde logo da nação) nos Estados Unidos.

Assim, os Republicanos tomam para si a defesa do conceito de família segundo valores assentes numa moralidade estrita, segundo uma ordem moral assente na disciplina e no auto controlo orientado para assumir que a autoridade equivale ao poder, à legitimidade de governar, centralizada na figura dominadora do pai de família. Os Democratas tenderiam a adoptar a metáfora familiar como a de um parentesco protector, no qual o pai e a mãe interviriam em igualdade de importância como agentes para cuidar e ensinar os descendentes a confiarem, a cooperarem e a contribuírem para o progresso social da sua comunidade.

Ora, Lakoff sabe que todos nós somos enquadrados desde que nascemos por estes dois sistemas de valores, que cada um de nós identifica estas duas formas de moralidade sendo que estas muitas vezes coexistem no mesmo indivíduo. O que faz com que, segundo o autor, estes valores sejam imediatamente reconhecidos por todos os votantes, que permitem uma adesão emocional a pessoas cujas teses, ideologias ou posições nunca seriam aceites, se não fossem enquadradas por esses valores. Dá-nos como exemplo Ronald Reagan. Sabendo-se que a maior parte dos americanos era contra a suas posições políticas, não concordado com elas, mesmo assim continuava a votar no indivíduo que se apresentava como o defensor dos valores de família nos quais quase todos os americanos se reconheciam, ou gostavam de se reconhecer. E será nesta moldura valorativa que se condicionam os comportamentos. Rapidamente os Conservadores o aprenderam e aperceberam-se da necessidade de divulgar essas ideias (só Think Tank conservadores há 48, diz o autor), numa alargada e profunda operação intelectual a favor da ideia de governo assente na iniciativa privada por oposição à ideia de governar procurando o bem-comum, a promoção da ideia de que as empresas privadas são melhores a fazerem o mesmo trabalho do que qualquer sector do Estado.

Se as pessoas compreenderem a realidade segundo uma ou outra das perspectivas morais, segundo as duas mesmo, frequente e paradoxalmente, é certo que para Lakoff teremos uma maior compreensão do que elas estão honestamente dispostas a escolher e a decidir.

Alguns acórdãos sobre direito familiar em Portugal, o tom e o modo de cesarzito de província usado por alguns governantes, a desresponsabilização perante o nosso papel de fiscalizadores do processo democrático, a lassidão no que à exigência e ao rigor no serviço ao público que os elegeu diz respeito, tudo isto corresponde a que tipo de valores familiares que enquadra a nossa acção?

Como entendemos nós que fomos amados em crianças e como entendemos nós que devemos amar as nossas crianças? Tendemos para o modelo do pai severo ou da família cooperativa?

quinta-feira, maio 31, 2007

As instituições e o doce poder da compaixão

Ser membro de uma instituição que nos acolhe quando estamos em sofrimento deve representar o mesmo que o trigo sobre a terra para um esfomeado. Penso hoje nos sindicatos e na igreja católica, porque pensei ontem nos que fizeram greve e naqueles que, como os pais da menina desaparecida, foram ontem recebidos pelo Papa.
Os sindicatos, mesmo para quem nunca confiou o seu destino laboral a nenhum sindicato, têm na sua história uma bela história de compaixão social, de reconhecimento do poder da união dos indivíduos para equilibrarem a arbitrariedade ou o abuso do poder que pode ser o do empregador. Há no sindicalismo o respeito pelo dinheiro e pelo tempo que caberá ao um de cada um, no quadro de princípios gerais dos sistemas sociais de ideologia solidária. O sindicalismo português centralizado, muito dele fazendo-se representar em grandes grupos de intervenção socio-profissional ligados à ideologia/autoridade partidária, tornaram-se os braços político/partidários que procuram fazer a ponte entre um partido, travestido, nas suas preocupações sociais e laborais, em sindicato, com os trabalhadores de uma nação.

Os trabalhadores sabem que há mais interesses num sindicato que os interesses que o sindicato socialmente diz ter. Não vê os seus membros a pelejarem no dia-a-dia no seu local de trabalho ao lado dos seus colegas, por uma maior dignidade e exigência no respeito pelos seus direitos logo que cumpridos os seus deveres, vê apenas os dirigentes sindicais que se perpetuam nos lugares a repetirem até à náusea os mesmos discursos ideológicos, a carecerem de uma fundamentação teórica. Daí que o respeito com que toda a greve merece ser tratada, como um sintoma de que algo precisa de ser compreendido, não o estando a ser, tivesse resultado numa charada de números que a ninguém apazigua a dúvida.

A igreja, mesmo para quem nada tendo contra ela também não milita nas suas fileiras, tem na sua história uma bela história de compaixão pessoal. E se porvertura alguém em sofrimento vê o líder da sua comunidade compreender que o tem de chamar a si, um membro, para lhe apaziguar a dor, deve achar tal acto comovente. Eu acho.
Não considero correcto falar aqui nas milhares de pessoas em sofrimento no mundo que nunca foram recebidas pelo Papa. Talvez seja uma estratégia publicitária por parte da igreja, mas sendo assim os pais de Madeleine merecem receber os frutos públicos de uma pública mediatização da sua fé. Uma mão lavou a outra. Não me perturba esse reconhecimento entre membros que se compadecem na sua irmandade.
O que me perturba é querermos colar o sofrimento real de todas as muitas crianças desaparecidas para menorizar o sofrimento, ou o interesse por ele, da Madeleine desaparecida. Nenhuma criança é mais importante que nenhuma outra, mas nenhum grupo de crianças é mais importante que uma só criança. Estas escolhas não se fazem, não se põem como hipótese, não servem como argumento. Cada uma é a vida toda e o mundo todo e todos nós. Ainda bem que Madeleine tem esta atenção. Se for para bem dela.
E há outras realidades que a razão, só por si, não apreenderá. Acredito que sim. Não sei, mas acredito que é possível que haja.

quarta-feira, maio 30, 2007

Aliados da América precisam-se. Objectivo: Darfur

Para a resolução do problema em Darfur a inevitável acção de proceder a sanções contra o Sudão pelos EUA não pode assentar num procedimento unilateral. Eu gostaria muito de ver uma cimeira nos Açores com um primeiro-ministro português a pôr-se ao lado de um presidente americano na procura comum de uma resolução para esta situação no Darfur. Consciente, porém, que todas as sanções afectam primeiro os civis, às vezes de forma demasiado violenta. E ainda assim:

"Dear President Bush,

While President al-Bashir continues to ignore diplomatic efforts to pressure him to end the genocide, as many as 400,000 Darfurians have already lost their lives and over 2.5 million have been displaced.
Though it was long delayed, your May 29th announcement of implementing Plan B sanctions was an encouraging step for the people of Darfur. As you recognized, however, this package of unilateral U.S. sanctions will not be enough to change Khartoum's behavior if it is not matched by a robust package of equally tough multilateral sanctions.
I therefore urge you to make the adoption of matching international sanctions a top priority, beginning with strong U.S. leadership at the UN Security Council.
With Secretary Rice, your administration should redouble diplomatic efforts to take full advantage of any room for progress that these sanctions may create. In addition, the administration should engage U.S. allies to ensure the passage of a UN Security Council resolution that includes:
- Tough sanctions against a full list of individuals complicit in the genocide; - An expansion of the Darfur arms embargo to include the Sudanese regime in Khartoum; - The authorization of a no-fly zone over Darfur, with specific enforcement mechanisms; and - International economic sanctions mirroring those just announced by the United States. Thank you for your continued concern for this genocide and your commitment to act to end it."
Sincerely,
Isabel salema morgado
...
Estes americanos da organização Save Darfur são de uma competência operacional sem reservas. Excepcionalmente profissionais. A nossa participação cívica tem o esforço de um toque no sinal de envio de mensagem. Facilitam de tal maneira o trabalho que é quase obsceno ficar indiferente às suas propostas de intervenção cívica. Mas repare-se na lista de organizações que fazem parte desta instituição (aqui) e atente-se na proveniência institucional dos nomes que dirigem as acções (aqui). Amadorismo só se for pela causa, que a defesa e o uso dos métodos é muito profissional.
A China considera que o melhor é continuar a investir no Sudão, como ela tem vindo a fazer, para criar melhores condições de vida e pressionar o governo. Mas, na verdade, esta ideia, surpreendentemente liberal vinda de um país muito pouco preocupado com a participação cívica dos seus próprios cidadãos, é de uma grande ingenuidade. O capital chinês serve para financiar as milícias que atacam no sul do Sudão, no Darfur. Leia-se a este propósito o blogue Coalition for Darfur.
No outro dia, no âmbito das propostas da organização Save Darfur, foi-me solicitado que enviasse uma carta a uma empresa que operava no Sudão, de capitais maioritariamente chineses, com o intuito de avisá-la sobre a "minha" indignação pelo tipo de apoio que ela, indirectamente, estaria a dar ao governo sudanês. Passados uns dias recebo um e-mail dessa empresa a justificar a sua acção e o seu tipo de intervenção, e a propor-me, ao mesmo tempo, um trabalho na sua corporação. Ri-me e pensei: "Estes não andam a dormir na parada. Isto é que é trabalho de Relações Públicas". Poucos dias depois soube que essa empresa tinha ponderado na natureza da sua relação com o governo de Cartum e feito um acto de contrição público. O dinheiro os obrigou.
É claro que este esforço de condicionamento no investimento de capitais pode realmente ter efeitos nefastos sobre a população. Não o ignoro. Mas também não me parece um argumento definitivo no que a uma suspensão em definitivo deste tipo de acção de defesa contra governos que fazem apelo ou apoiam acções de genocídio.

terça-feira, maio 29, 2007

George Lakoff on Moral Politics: How Liberals and Conservatives Think - Google Video

Uau!

Ora ouça-se o discurso:

George Lakoff on Moral Politics: How Liberals and Conservatives Think - Google Video

Ditadura versus revolução

A minha amiga Eunice chegou da Alemanha. Abraços, beijinhos, cumprimentos à família, festas na cabeça dos dois rapazinhos (típico!), ver as fotografias dos últimos meses, proximidade de afectos.

"-Olha o que eu ando a ler" - deu-me para as mãos um livro de Paul Mercier, Nachtzug nach Lissabon (O comboio da noite para Lisboa)

Não conhecia Paul Mercier. Não conheço o livro.
Perguntei-lhe sobre o livro e sobre o autor. Fiquei a saber que Mercier (pseudónimo de Chant Gregorius) é professor de Filosofia em Berlim, este é o seu terceiro romance, nasceu na Suiça. O livro conta a história de um professor que um dia abandona tudo na Alemanha e inicia uma viagem para Lisboa. A minha amiga ainda está no princípio do livro, não sabe muito mais.

"Lá na empresa andam quase todos a lê-lo e estão a gostar muito. " - disse-me.
A Eunice é bióloga e está a trabalhar na indústria farmacêutica alemã. Abriu-me o livro numa página e indicou-me: - "Olha como o romance está pontuado de frases em português". Li a que me mostrou, e que passo a citar de memória: "Quando há uma ditadura, temos o dever de fazer uma revolução".
Sei que estremeci. Isso de certeza. Há palavras assim, fazem-me balançar.
Perguntei-lhe: " - A que propósito surge esta frase no romance?". A Eunice releu o parágrafo e disse-me que era uma inscrição lida pela personagem na pedra de um túmulo de um sujeito de sobrenome Prado, e isto numa ida a um cemitério de Lisboa em busca de pistas sobre uma tal de família Prado.
Em Portugal sim. A última revolução assumiu-se contra a ditadura sem cair na tentação de criar uma outra em seu nome. Mas pensei: Sabemos todos o que é uma ditadura, mas nem todos saberemos como fazer revoluções não ditatoriais. Os portugueses souberam-no. Isso conforta-me. Hoje. Amanhã também. Passe o exagero.

Liberdade de expressão na Venezuela, amordaçada.

"Alpargata no es zapato
Ni que le pongan tacón"

la despedida rctv

Buenas Noches, Venezuela.

Hasta siempre Democracia.

Gracias A.

Um abraço de Portugal.

segunda-feira, maio 28, 2007

ensarilhada

Acrasia. Talvez não seja acrasia esta indefinição de ideias e de modo de colocar as mãos. A filosofia hoje não. Só a poesia. A de Pessoa que percebe tão bem esta sensação. Não é bem, bem, de acrasia, mas anda por lá perto.

Um dia fiz de cicerone a um filósofo americano que estudava e se interessava pelo conceito de acrasia. Bom, não sei se exausto pelas entradas e saídas de museus, de monumentos, ruas e vistas, ou se exausto pelas milhentas perguntas com que o bombardeei sobre o seu trabalho, ao fim do dia comecei a senti-lo inquieto. Pensei: “O homem já não deve poder mais com uma pergunta sequer e ainda fica com uma depressão qualquer, o melhor é ir deixá-lo ao hotel.” Alvitrei isso mesmo. “Que não – respondeu-me - Que estava bem, que…” Compreendi. Rumei ao casino do Estoril e expliquei-lhe tudo o que sabia sobre transportes para Lisboa e sobre as regras do “jogo”. Era para aí que tendia a sua vontade.
Na altura não deixei que nenhum sinal de ironia assomasse ao meu olhar. Nem hoje

sexta-feira, maio 25, 2007

“Tolerância Zero” para a problemática do tráfico de seres humanos. Só peca por não ter vindo mais cedo.


"Em Novembro de 2000, a Convenção contra a Criminalidade Organizada Transnacional e o
Protocolo Adicional Relativo à Prevenção, à Repressão e à Punição do Tráfico de Pessoas, em
especial de Mulheres e Crianças, das Nações Unidas, (aprovada por Portugal pela Resolução
nº32/2004 da Assembleia da República e ratificada pelo Decreto do Presidente da República
nº19/2004, de 2 de Abril) surge como o primeiro documento internacional com uma definição
clara de tráfico para fins de exploração. Desde então diversas organizações internacionais têm
trilhado novos horizontes no que diz respeito a uma abordagem mais integrada e eficaz no
combate a esta problemática.
(...)

Mais recentemente, o Plano de Acção da União Europeia sobre boas práticas, normas e
procedimentos para combate e prevenção do tráfico de seres humanos, adoptado em Dezembro
de 2005, (JO C 311 de 9.12.2005), apresenta uma tabela de áreas/acções a serem regularmente
revistas e actualizadas.
(...)

No contexto nacional, é importante referenciar as Grandes Opções do Plano – 2005-2009 - Principais
linhas de acção e áreas em 2005-2006 – em que é contemplado, na vertente específica do tráfico de
mulheres para fins de exploração sexual, para além de uma maior conhecimento sobre o
fenómeno do tráfico, a implementação de áreas de protecção e apoio às vítimas, bem como a
penalização dos/as prevaricadores.
(...)

4 – INVESTIGAR CRIMINALMENTE E REPRIMIR
Medidas
Investigar Criminalmente

1. Criação e implementação de um guia de registo uniformizado a ser aplicado pelas forças e serviços de segurança para as situações do tráfico de seres humanos MJ / MAI / PCM (ACIDI)
Produção do sistema de registo e sua disseminação pelas forças e serviços de segurança, tendo em conta as especificidades das diversas instituições abrangidas pelo sistema e as vitimas abrangidas por esse serviço
Publicação dos dados recolhidos pelos diversos registos;
2. Incrementar o número de fiscalizações a actividades laborais mais susceptíveis de albergarem focos de criminalidade organizada relacionada com tráfico de seres humanos, nomeadamente bares, casas de alterne, bordeis, actividades na área da construção civil, actividades sazonais e
serviços domésticos e implementar mecanismos de cooperação entre a Autoridade para a Segurança Alimentar e Económica e as forças e os serviços de segurança MJ / MAI / MEI(ASAE) /MTSS
3. Cooperar e desenvolver sinergias com relevantes instituições internacionais, incluindo organizações MAI / MJ / MNE
penais.
(...)
26
formação para as forças de segurança e profissionais da lei"
O documento "I PLANO NACIONAL CONTRA O TRÁFICO DE SERES HUMANOS - 2007-2010" pode ser lido aqui.

quinta-feira, maio 24, 2007

Aí vou eu outra vez. Ainda por cima dá um trabalhão fazer os links.

Djibouti ... e eu aqui tão ...

Recebi este e-mail do blogue "Human Rights Blog". E não, não sabia nada sobre o Djibouti. Nem sequer sabia que existia esta nação.
Fiquei a saber dos atentados no Líbano e, mais uma vez, no Iraque. Fiquei a saber dos bombardeamentos em território palestiniano, mas do Djibouti não sabia nada de nada.
"E depois?" - perguntar-se-ia por exemplo Bernardo Soares, para quem o sofrimento é o sofrimento que se exprime na existência individual e não na formulação de um sofrimento colectivo - "O que é que o mundo ganhou com o que tu aprendeste agora sobre a situação do Djibouti?" Nada, seguramente. Mas também não será por isso que eu me apresento pessoalmente com a minha dor acima da dor do grupo dos que morreram em atentados ou dos que são dominados e expoliados pelos seus governantes em benefício dos próprios.
"E depois?" - poderia ele continuar a reclamar.
..
Respondo-lhe com as suas palavras, quem sabe uma grosseria: "Que tragédia não acreditar na perfectibilidade humana!...
_ E que tragédia acreditar nela!", p. 276
..
Que falta de sossego.
Há alguma coisa que se sobreponha ao sentido de profissionalismo dos profissionais a que recorremos? Eu não conheço. Que saudades deste critério de aferição de um trabalho bem feito.

quarta-feira, maio 23, 2007

sublimada democracia

Ultimamente não consigo deixar de pensar: escolho o lírio ou o pão?
Geralmente sento-me a ver televisão e não escolho nada.

Um colega, quando eu ontem dizia que não tardava nada éramos todos sujeitos a processos disciplinares pelas horas que passámos a brincar sobre o processo de licenciatura, quando não das atitudes, do nosso primeiro-ministro, olhou-me calmamente e disse: "Cada um de nós é responsável por aquilo que faz. Pelas escolhas que fez, pelas decisões que tomou. No país, ou em Lisboa, os governantes são o nosso retrato. Brincar com o primeiro-ministro é brincar connosco mesmos, com o nosso reflexo na sua acção, com o nosso reflexo nas suas atitudes, assim como brincamos com o nosso reflexo que visualizamos nas ruas porcas, prédios velhos e carros em cima do passeio. Ele e tudo o mais somos nós ainda". Passou-me logo a vontade de brincar. Fui sentar-me ao computador por não querer pensar em escolhas públicas.
Há alturas em que a democracia nos dói de forma particularmente intensa, como se perdêssemos alguém próximo. É a dor da realidade por contraponto à sublimada teoria.

A falta de confiança

A falta de confiança dos jornalistas em relação ao trabalho da polícia, a polícia em relação ao trabalho dos jornalistas, o público em relação ao trabalho dos jornalistas e ao trabalho dos polícias. A falta de confiança dos pais de crianças desaparecidas em relação aos jornalistas, aos polícias, ao público e em relação a eles próprios.

Espiral de desconfiança que afecta cada um de nós e não convoca melhores práticas futuras.
A desconfiança não me parece capaz de promover por si uma melhor fiscalização sobre o trabalho e uma melhor reportagem de factos, promove um maior encerramento sobre si e uma maior agressivadade comunicacional dos envolvidos.

Ainda se fosse possível vislumbrar melhoria nos procedimentos. Ainda que não caíssemos numa eterna repetição do mesmo erro. Ainda que as instituições se reformulassem.

terça-feira, maio 22, 2007

Os macacos de imitação ou o registo da história

Imagino-me no grau zero da minha consciência. Para saber ao certo o que é de mim e o que é de outrem. Ilusão. Não há este grau zero. Nem nas sensações, nem no intelecto.
A filosofia e a religião, enfim, a história destes saberes e destas experiências de interpretação das realidades humanas, procuram encontrar uma resposta. Parecem slides de uma apresentação em data show. Há uma ligação entre os slides, claro, deve haver para que a apresentação tenha sentido, e ao mesmo tempo não há nem pode haver, porque são slides distintos que se sucedem num certo tempo a uma dada velocidade. As teorias, as respostas, seguem-se, acumulam-se em camadas geológicas, e às vezes confundem-se. O que há de mim, e dos outros no ser dos outros, é de uma natureza igual ou diferente? O que veio de fora e me suporta a mim agora é mais, menos ou igual ao que eu tenho de mim como sendo o mais perto de mim? Conheço-me melhor através do método de análise racional ou através do meu registo de memórias, ou através da sensação que descrevo? Mas eu só tenho uma linguagem para o dizer, faça eu o que fizer. O que siginifica que essa linguagem pode reinventar uma memória, sobre ou infra valorizar uma sensação, confundir-me enfim.

Esta busca por um critério de verdade que não me mostre só a mim mas que mostre a possibilidade de algo em mim ser comum a todos os outros é fundamental na acção pública ou é acessório? Se responder que somos diferentes, radicalmente distintos, e o que há que fazer para nos pôr em comum é procurar chegar a um acordo, que nunca é definitivo, que a todo o momento pode ser questionado e quebrado, o que nos espera senão uma existência consciente de que tudo não passam de perspectivas, e que tudo está em mudança, e que a todo o momento só se alcançam verdades provisórias? Há nesta fragilidade da verdade uma imensa liberdade, até para a liberdade de defender o mal. É uma democracia.
Se afirmar que somos radicalmente iguais, que as experiências limites, como as da morte, da dor, do êxtase ou a vontade de comunicar, nos universalizam, adormeço embalada pela ideia de uma comunhão que poderá provocar, pelo conforto de pertença a uma comunidade, a inacção ou a adesão acrítica a certos valores que podendo ser culturais se apresentem como válidos e não sujeitos a correcção, o que me submete a tudo para o legitimar, até a suportar o mal. É o primado de uma autoridade.

Certas pessoas passaram pela minha vida e a muitas esqueci-lhes o nome, até a existência, sem querer ou deixar de querer, acho eu, outras parecem-me existir como existentes na vida de alguém que me falou delas, como se de uma experiência em segunda pessoa se tratasse, outras, estão a meu lado, mesmo se fisicamente ausentes para sempre, e há ainda outras que vou descobrindo terem existido para mim mas aparecendo agora como se através dos livros que leram, pois falavam como se fossem personagens desses livros. Não era que citassem os autores, ou as personagens, não, diziam e assumiam aquelas ideias e palavras como se fossem elas próprias. Ou pelo menos eu assim o interpretei. Vá.

Por exemplo, uma das pessoas mais importantes na minha adolescência, uma amiga da minha idade, mas muito mais sábia que eu, costumava dizer-me: “Conheces as pessoas pela biblioteca que elas têm.” Eu brincava dizendo: “No meu caso então têm que ir ver a tua biblioteca primeiro”. Eu admirava-lhe a verve, a inteligência, a argúcia e o conhecimento. Um dia destes, estando a ler a biografia de Estaline de Simon S. Montefiore deparei-me com essa expressão que o autor atribui como sendo utilizada por Estaline.

Não é pela importância que eu devia saber que o marxismo estalinismo tinha na vida dessa amiga e que de todo não tinha na minha, o que de certa forma sempre me tornou uma espécie de excrescência intelectual na sua vida, uma anormalidade explicada pela amizade, talvez, mas sim por eu não saber como é que o saber se construía então, e como, por omissão, podemos não mentir mas também não dizer a verdade sobre nós. Como se de forma consciente, ou inconsciente, borboleteassemos à volta de ideias, sentimentos, gestos e palavras que de todo não nos pertencem mas que são mais nós que qualquer outro nós dito por nós. Tenho a certeza que também a frase não deve pertencer a Estaline, e que se encontrará na história outro percursor ilustre ou nem por isso que a deixou registada. Mas então onde ficará a originalidade na existência de cada um de nós, os que não somos génios, nem criadores exímios? O que eu digo, escrevo, prefiro, toco e vivo é meu porque me diz, porque o adoptei como meu, ou é de tanta gente que eu não passo de uma macaca imitadora? E se o for, tenho a obrigação de o saber e de o dizer (passaria a vida a abrir aspas) ou devo esquecer-me da história e apropriar-me em mim do que é dos outros fazendo-os eu?
E queria que este post fosse sobre a construção da identidade, da cópia existencial, e não de plágio, porque disso não quis tratar.