terça-feira, maio 29, 2007

Liberdade de expressão na Venezuela, amordaçada.

"Alpargata no es zapato
Ni que le pongan tacón"

la despedida rctv

Buenas Noches, Venezuela.

Hasta siempre Democracia.

Gracias A.

Um abraço de Portugal.

segunda-feira, maio 28, 2007

ensarilhada

Acrasia. Talvez não seja acrasia esta indefinição de ideias e de modo de colocar as mãos. A filosofia hoje não. Só a poesia. A de Pessoa que percebe tão bem esta sensação. Não é bem, bem, de acrasia, mas anda por lá perto.

Um dia fiz de cicerone a um filósofo americano que estudava e se interessava pelo conceito de acrasia. Bom, não sei se exausto pelas entradas e saídas de museus, de monumentos, ruas e vistas, ou se exausto pelas milhentas perguntas com que o bombardeei sobre o seu trabalho, ao fim do dia comecei a senti-lo inquieto. Pensei: “O homem já não deve poder mais com uma pergunta sequer e ainda fica com uma depressão qualquer, o melhor é ir deixá-lo ao hotel.” Alvitrei isso mesmo. “Que não – respondeu-me - Que estava bem, que…” Compreendi. Rumei ao casino do Estoril e expliquei-lhe tudo o que sabia sobre transportes para Lisboa e sobre as regras do “jogo”. Era para aí que tendia a sua vontade.
Na altura não deixei que nenhum sinal de ironia assomasse ao meu olhar. Nem hoje

sexta-feira, maio 25, 2007

“Tolerância Zero” para a problemática do tráfico de seres humanos. Só peca por não ter vindo mais cedo.


"Em Novembro de 2000, a Convenção contra a Criminalidade Organizada Transnacional e o
Protocolo Adicional Relativo à Prevenção, à Repressão e à Punição do Tráfico de Pessoas, em
especial de Mulheres e Crianças, das Nações Unidas, (aprovada por Portugal pela Resolução
nº32/2004 da Assembleia da República e ratificada pelo Decreto do Presidente da República
nº19/2004, de 2 de Abril) surge como o primeiro documento internacional com uma definição
clara de tráfico para fins de exploração. Desde então diversas organizações internacionais têm
trilhado novos horizontes no que diz respeito a uma abordagem mais integrada e eficaz no
combate a esta problemática.
(...)

Mais recentemente, o Plano de Acção da União Europeia sobre boas práticas, normas e
procedimentos para combate e prevenção do tráfico de seres humanos, adoptado em Dezembro
de 2005, (JO C 311 de 9.12.2005), apresenta uma tabela de áreas/acções a serem regularmente
revistas e actualizadas.
(...)

No contexto nacional, é importante referenciar as Grandes Opções do Plano – 2005-2009 - Principais
linhas de acção e áreas em 2005-2006 – em que é contemplado, na vertente específica do tráfico de
mulheres para fins de exploração sexual, para além de uma maior conhecimento sobre o
fenómeno do tráfico, a implementação de áreas de protecção e apoio às vítimas, bem como a
penalização dos/as prevaricadores.
(...)

4 – INVESTIGAR CRIMINALMENTE E REPRIMIR
Medidas
Investigar Criminalmente

1. Criação e implementação de um guia de registo uniformizado a ser aplicado pelas forças e serviços de segurança para as situações do tráfico de seres humanos MJ / MAI / PCM (ACIDI)
Produção do sistema de registo e sua disseminação pelas forças e serviços de segurança, tendo em conta as especificidades das diversas instituições abrangidas pelo sistema e as vitimas abrangidas por esse serviço
Publicação dos dados recolhidos pelos diversos registos;
2. Incrementar o número de fiscalizações a actividades laborais mais susceptíveis de albergarem focos de criminalidade organizada relacionada com tráfico de seres humanos, nomeadamente bares, casas de alterne, bordeis, actividades na área da construção civil, actividades sazonais e
serviços domésticos e implementar mecanismos de cooperação entre a Autoridade para a Segurança Alimentar e Económica e as forças e os serviços de segurança MJ / MAI / MEI(ASAE) /MTSS
3. Cooperar e desenvolver sinergias com relevantes instituições internacionais, incluindo organizações MAI / MJ / MNE
penais.
(...)
26
formação para as forças de segurança e profissionais da lei"
O documento "I PLANO NACIONAL CONTRA O TRÁFICO DE SERES HUMANOS - 2007-2010" pode ser lido aqui.

quinta-feira, maio 24, 2007

Aí vou eu outra vez. Ainda por cima dá um trabalhão fazer os links.

Djibouti ... e eu aqui tão ...

Recebi este e-mail do blogue "Human Rights Blog". E não, não sabia nada sobre o Djibouti. Nem sequer sabia que existia esta nação.
Fiquei a saber dos atentados no Líbano e, mais uma vez, no Iraque. Fiquei a saber dos bombardeamentos em território palestiniano, mas do Djibouti não sabia nada de nada.
"E depois?" - perguntar-se-ia por exemplo Bernardo Soares, para quem o sofrimento é o sofrimento que se exprime na existência individual e não na formulação de um sofrimento colectivo - "O que é que o mundo ganhou com o que tu aprendeste agora sobre a situação do Djibouti?" Nada, seguramente. Mas também não será por isso que eu me apresento pessoalmente com a minha dor acima da dor do grupo dos que morreram em atentados ou dos que são dominados e expoliados pelos seus governantes em benefício dos próprios.
"E depois?" - poderia ele continuar a reclamar.
..
Respondo-lhe com as suas palavras, quem sabe uma grosseria: "Que tragédia não acreditar na perfectibilidade humana!...
_ E que tragédia acreditar nela!", p. 276
..
Que falta de sossego.
Há alguma coisa que se sobreponha ao sentido de profissionalismo dos profissionais a que recorremos? Eu não conheço. Que saudades deste critério de aferição de um trabalho bem feito.

quarta-feira, maio 23, 2007

sublimada democracia

Ultimamente não consigo deixar de pensar: escolho o lírio ou o pão?
Geralmente sento-me a ver televisão e não escolho nada.

Um colega, quando eu ontem dizia que não tardava nada éramos todos sujeitos a processos disciplinares pelas horas que passámos a brincar sobre o processo de licenciatura, quando não das atitudes, do nosso primeiro-ministro, olhou-me calmamente e disse: "Cada um de nós é responsável por aquilo que faz. Pelas escolhas que fez, pelas decisões que tomou. No país, ou em Lisboa, os governantes são o nosso retrato. Brincar com o primeiro-ministro é brincar connosco mesmos, com o nosso reflexo na sua acção, com o nosso reflexo nas suas atitudes, assim como brincamos com o nosso reflexo que visualizamos nas ruas porcas, prédios velhos e carros em cima do passeio. Ele e tudo o mais somos nós ainda". Passou-me logo a vontade de brincar. Fui sentar-me ao computador por não querer pensar em escolhas públicas.
Há alturas em que a democracia nos dói de forma particularmente intensa, como se perdêssemos alguém próximo. É a dor da realidade por contraponto à sublimada teoria.

A falta de confiança

A falta de confiança dos jornalistas em relação ao trabalho da polícia, a polícia em relação ao trabalho dos jornalistas, o público em relação ao trabalho dos jornalistas e ao trabalho dos polícias. A falta de confiança dos pais de crianças desaparecidas em relação aos jornalistas, aos polícias, ao público e em relação a eles próprios.

Espiral de desconfiança que afecta cada um de nós e não convoca melhores práticas futuras.
A desconfiança não me parece capaz de promover por si uma melhor fiscalização sobre o trabalho e uma melhor reportagem de factos, promove um maior encerramento sobre si e uma maior agressivadade comunicacional dos envolvidos.

Ainda se fosse possível vislumbrar melhoria nos procedimentos. Ainda que não caíssemos numa eterna repetição do mesmo erro. Ainda que as instituições se reformulassem.

terça-feira, maio 22, 2007

Os macacos de imitação ou o registo da história

Imagino-me no grau zero da minha consciência. Para saber ao certo o que é de mim e o que é de outrem. Ilusão. Não há este grau zero. Nem nas sensações, nem no intelecto.
A filosofia e a religião, enfim, a história destes saberes e destas experiências de interpretação das realidades humanas, procuram encontrar uma resposta. Parecem slides de uma apresentação em data show. Há uma ligação entre os slides, claro, deve haver para que a apresentação tenha sentido, e ao mesmo tempo não há nem pode haver, porque são slides distintos que se sucedem num certo tempo a uma dada velocidade. As teorias, as respostas, seguem-se, acumulam-se em camadas geológicas, e às vezes confundem-se. O que há de mim, e dos outros no ser dos outros, é de uma natureza igual ou diferente? O que veio de fora e me suporta a mim agora é mais, menos ou igual ao que eu tenho de mim como sendo o mais perto de mim? Conheço-me melhor através do método de análise racional ou através do meu registo de memórias, ou através da sensação que descrevo? Mas eu só tenho uma linguagem para o dizer, faça eu o que fizer. O que siginifica que essa linguagem pode reinventar uma memória, sobre ou infra valorizar uma sensação, confundir-me enfim.

Esta busca por um critério de verdade que não me mostre só a mim mas que mostre a possibilidade de algo em mim ser comum a todos os outros é fundamental na acção pública ou é acessório? Se responder que somos diferentes, radicalmente distintos, e o que há que fazer para nos pôr em comum é procurar chegar a um acordo, que nunca é definitivo, que a todo o momento pode ser questionado e quebrado, o que nos espera senão uma existência consciente de que tudo não passam de perspectivas, e que tudo está em mudança, e que a todo o momento só se alcançam verdades provisórias? Há nesta fragilidade da verdade uma imensa liberdade, até para a liberdade de defender o mal. É uma democracia.
Se afirmar que somos radicalmente iguais, que as experiências limites, como as da morte, da dor, do êxtase ou a vontade de comunicar, nos universalizam, adormeço embalada pela ideia de uma comunhão que poderá provocar, pelo conforto de pertença a uma comunidade, a inacção ou a adesão acrítica a certos valores que podendo ser culturais se apresentem como válidos e não sujeitos a correcção, o que me submete a tudo para o legitimar, até a suportar o mal. É o primado de uma autoridade.

Certas pessoas passaram pela minha vida e a muitas esqueci-lhes o nome, até a existência, sem querer ou deixar de querer, acho eu, outras parecem-me existir como existentes na vida de alguém que me falou delas, como se de uma experiência em segunda pessoa se tratasse, outras, estão a meu lado, mesmo se fisicamente ausentes para sempre, e há ainda outras que vou descobrindo terem existido para mim mas aparecendo agora como se através dos livros que leram, pois falavam como se fossem personagens desses livros. Não era que citassem os autores, ou as personagens, não, diziam e assumiam aquelas ideias e palavras como se fossem elas próprias. Ou pelo menos eu assim o interpretei. Vá.

Por exemplo, uma das pessoas mais importantes na minha adolescência, uma amiga da minha idade, mas muito mais sábia que eu, costumava dizer-me: “Conheces as pessoas pela biblioteca que elas têm.” Eu brincava dizendo: “No meu caso então têm que ir ver a tua biblioteca primeiro”. Eu admirava-lhe a verve, a inteligência, a argúcia e o conhecimento. Um dia destes, estando a ler a biografia de Estaline de Simon S. Montefiore deparei-me com essa expressão que o autor atribui como sendo utilizada por Estaline.

Não é pela importância que eu devia saber que o marxismo estalinismo tinha na vida dessa amiga e que de todo não tinha na minha, o que de certa forma sempre me tornou uma espécie de excrescência intelectual na sua vida, uma anormalidade explicada pela amizade, talvez, mas sim por eu não saber como é que o saber se construía então, e como, por omissão, podemos não mentir mas também não dizer a verdade sobre nós. Como se de forma consciente, ou inconsciente, borboleteassemos à volta de ideias, sentimentos, gestos e palavras que de todo não nos pertencem mas que são mais nós que qualquer outro nós dito por nós. Tenho a certeza que também a frase não deve pertencer a Estaline, e que se encontrará na história outro percursor ilustre ou nem por isso que a deixou registada. Mas então onde ficará a originalidade na existência de cada um de nós, os que não somos génios, nem criadores exímios? O que eu digo, escrevo, prefiro, toco e vivo é meu porque me diz, porque o adoptei como meu, ou é de tanta gente que eu não passo de uma macaca imitadora? E se o for, tenho a obrigação de o saber e de o dizer (passaria a vida a abrir aspas) ou devo esquecer-me da história e apropriar-me em mim do que é dos outros fazendo-os eu?
E queria que este post fosse sobre a construção da identidade, da cópia existencial, e não de plágio, porque disso não quis tratar.

segunda-feira, maio 21, 2007

Dever/prazer

Fazer o bem é incomensuravelmente mais difícil do que dizer que se é bom e que se quer fazer o bem. É mais difícil e exige muito trabalho. Não é só uma questão de carácter, é de nervo e de exarcebada auto-consciência social e cultural assente na ideia de dever, ou de obrigação. Custa. Discorrer sobre o bem é bem mais confortável. Não se vêem as pessoas chatas, velhas, aborrecidas, doentes ou necessitadas. Só se vêem as letras a comporem-se em palavras bonitinhas.

domingo, maio 20, 2007

Percepções

Não é necessário, nem será suficiente, que a minha percepção pessoal da pessoa candidata a um cargo político me faça decidir o meu voto. Perscruto a minha decisão. Julgo-me uma votante racional. A que toma decisões com base numa análise da argumentação apresentada. Mas sei que isso não é totalmente verdade. Já votei por tradição, porque sim, porque fora naquele partido que depositara a minha primeira confiança. Já votei por solidariedade para com quem vai perder. Já votei em pessoas e não nas ideologias com que essas pessoas habitualmente se identificam. Já votei em projectos e em ideias.
Mas ainda não sei totalmente, e antes de uma campanha, em quem vou votar e porquê. Ou pelo menos gosto de pensar que não sei. Como se a liberdade se materializasse nessa possibilidade do "se ...então".
Dos candidatos à Câmara de Lisboa só troquei, no passado, meia dúzia de palavras com a arquitecta Helena Roseta por duas ocasiões diferentes e das duas por conveniência minha. Foi sempre o mais prestável e interessada possível na formalíssima questão então tratada. Isso não faz dela a minha candidata a presidente da Câmara. Mas faz dela a minha candidata a seguir com uma atenção particular. Comentava isso mesmo com uma amiga e colega minha. Respondeu-me que tem da candidata exactamente uma ideia oposta à minha. O que podia eu dizer? A verdade da má imagem que a minha amiga reteve de Roseta é tão verdadeira quanto a boa imagem que eu tenho de Roseta.
Mas eu não quero votar em imagens (demasiado previsível o fenómeno de criação de imagem pública para cidadão ver e votar), quero votar em alguém que me convença da credibilidade do seu projecto. E para isso é preciso que eu esteja convencida que sou capaz de distinguir os critérios de credibilidade dos que o não são. Mais, é preciso que eu possa provar como é que chego a essa fase do meu convencimento. Isto dá um trabalhão. E nada garante que seja verdade. Ou que o consiga. Haveria então que sopesar o passado, o presente e uma proposta de futuro. Que esforço. Que canseira. E que inutilidade no que a uma certeza na previsão dos actos.

Dizer mal de alguém ainda dá mais trabalho. O esforço que é necessário para não gostar de alguém extenua-me. Na vertigem da maledicência, que aprendi como quem aprende a fazer croché para passar um tempo e arranjar mais um quadrado para uma mortalha, rebenta-se de fel a minha alma. E tudo isto com a etiqueta de que é preciso não gostar muito para saber como gostar muito. Pois sim. Mas também, o gosto de quem gosta com indiferença é o quê? O gosto pela indiferença ou pela diferença indiferentemente? Nem quero saber.

quarta-feira, maio 16, 2007

Mulheres em política

Alguém que eu li falou na esperança que tinha de ver no governo do eixo franco-alemão duas mulheres, juntando-se-lhes depois uma presidente americana. Que era uma conjugação no tempo e no espaço que o autor dizia extraordinária e que ele gostaria de ver concretizada, sendo que a derrota de Royal suspendeu essa possibilidade.
Eu fiquei cheia de pena de não ter sentido o mesmo. Cheia de pena.

Acção política

Se eu repetir muito uma coisa ela tornar-se-á verdade? Alguns jornalistas acreditam que sim. Os políticos, deslumbrados, julgam quase todos que é essa a técnica discursiva a adoptar como forma de convencer outrém dos seus propósitos. Mas não é, porque a linguagem cria realidade, é verdade, mas paralela à realidade ela mesma, não a substitui. Bom, ou pelo menos não durante muito tempo. Que isto do tempo ser muito ou pouco também é relativo. Na vida de uma pessoa, um ano, por exemplo, um ano a viver dominado por uma linguagem que rouba a realidade, é muito tempo, e setenta anos, então, pode representar a alienação de várias gerações, ainda que na história da humanidade esse período não seja quase nada, e na história do universo, então...
Para fazer situar os discursos políticos é preciso pois prendê-los ao presente, à ideia de "nós contamos e as vossas opções fazem diferença na nossa vida". Mas isso é particularmente difícil sendo que os discursos e as acções dos políticos pretendem captar a nossa atenção no presente e influenciar a nossa existência no futuro.

Eu espero que o meu presente se estenda mais pelo futuro para poder falar dele. É por isso que nada me cabe dizer sobre os candidatos à presidência da Câmara de Lisboa. Ainda não sei o que vão defender. E simpatias pessoais, que as tenho, essas só me vão levar à sede de candidatura de Helena Roseta para entregar a minha declaração de propositura da sua candidatura. E depois, depois aguardar pela acção e pelo discurso dos candidatos em campanha.

terça-feira, maio 15, 2007

A ONU e o Zimbabwe

O Zimbabwe foi escolhido para presidir Comissão das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável (CSD). É algo difícil de aceitar. Mas numa democracia há muitas coisas difíceis de aceitar. Faz parte deste sistema vivermos pacificamente com decisões que não aceitamos e que procuramos, num quadro legal, fazer alterar. E a verdade é que a decisão assentou num escrutínio democrático, de eleição, ainda que nos possamos espantar com o grau de incompetência das chancelarias africanas na avaliação do tenebroso regime de Mugabe. Mas também, se repararmos bem, que sentido crítico ou auto-crítico há nas chancelarias, nos governos, ou nas instituições africanas em geral? É preciso pois continuar o trabalho de denúncia e crítica dos actos de Mugabe, é preciso continuar a chamar a atenção para o deplorável estado social e económico do povo do Zimbabwe, mas também é preciso não atacar a pertinência e o trabalho no seu todo de uma organização como as Nações Unidas, atitude que vejo ser prática recorrente nos comentadores sempre que há uma comissão que elege nações pouco respeitadoras das liberdades e garantias dos seus cidadãos. A ONU sobreviveu a muitos golpes, felizmente para o mundo.
Ainda não há muito tempo, em 2003, preconizava-se a queda do Carmo e da Trindade, por causa da eleição da Líbia, essa nação “campeã” na defesa dos direitos humanos, para presidir o destino da famigerada Comissão dos Direitos Humanos. O que aconteceu? Poucos anos depois procedeu-se à Mudança da organização em causa. O que está mal muda-se. É claro que a ONU precisa de reestruturação em algumas áreas, mas não pode ser erradicada ou enfraquecida nos seus poderes. Ela é uma instituição que representa uma vantagem civilizacional nas relações inter povos. Dizer o contrário em nada ajudará a aperfeiçoá-la.

Dua Khali. E onde estavas tu, Cristo, que não ali entre aquela multidão? Bastou só aquela vez com Maria Madalena?

Dua Khali aparece na primeira página do jornal Público de ontem. O horror sufocou-me quando li o título da fotografia que a representa: «Curdistão. Rapariga lapidada por questão de “honra”».

A fotografia, pouco clara, mostra Dua deitada de lado, com o comprido cabelo espalhado pelo chão, os braços encolhidos junto do tronco. Está já, nessa fase do seu assassínio, com a roupa interior à mostra. Mas o que importa a falta de respeito pelo seu pudor quando Dua Khali está ali a ser assassinada pelos homens a quem pertencem aqueles pés junto dos quais ela se encontra já caída. São homens que lhe atiram pedras, uma a seguir à outra, as que que acharem precisas até ela expirar. A violação da sua existência vai-se repetir pela eternidade do tempo fotográfico, de um registo fotográfico, mas ao menos a sua fotografia fala em nome das muitas mulheres e meninas que morrem no mundo sem sequer terem direito ao registo e ao nome impresso, sem sequer poderem ser pranteadas por desconhecidas.
Nas páginas interiores do Jornal vemos outras fotografias de Dua. Dua a tentar proteger-se, de Dua caída, de Dua moribunda.

Dua Khali era uma menina de dezassete anos que namorou com o homem errado segundo os padrões da sua família. Sei que há outras mulheres a serem mortas no mundo por aquilo que os antropólogos gostam de chamar “formas de vida culturalmente alternativas”. Sei que me esqueço vezes demais disso mesmo, sentada que estou no meio deste meu pequeno círculo pequeno de existência. Esqueço-me tanto das mulheres por tão fascinada que estou com o conceito de pessoa. Por isso só posso afirmar que a minha convicção em valores universais não esmorece, e que é por isso que eu estudo ideias.
Estudo ideias para saber a causa do seu efeito nas pessoas e nas sociedades, para encontrar uma solução. Uma solução para o sofrimento de Dua, ou de outra menina ou menino expulsos, perseguidos, vilipendiados, sacrificados, violados ou mortos. Por isso teço um texto. Não sei de outra forma de fazer evitar os comportamentos de morte, senão expondo os sistemas que sustentam as ideias culturais, religiosas ou políticas. Procuro saber sobre os fundamentos das ideias que privilegiam as culturas de violência e de morte por contraponto às que enaltecem as culturas de vida. Não sei fazer mais nada por Dua. E tantas, tantas vezes, nem isso faço bem.

segunda-feira, maio 14, 2007

"O ministro TV Guia (II)" ou a história da Entidade para a Regulação Social

O ministro TV Guia (II)
"Se algum leitor conhecer alguém que trabalhe com o Mugabe ou o Chávez mande-lhe o ‘link’ com o ‘site’ da ERC. Eles vão adorar."
Ricardo Costa
..
"Este artigo só merece ser lido por quem gosta do jornalismo independente, que procure a verdade, que seja testado diariamente pelo mercado, que respeite a Constituição e que não tenha objectivos políticos ou ideológicos. Ou seja, o Joaquim Pina Moura não precisa de o ler. E o ministro Augusto Santos Silva pode voltar a colocar o olhar no último livro de um autor de Lovaina sobre semiótica do poder e arrumar o Diário Económico, um jornal que defende (que horror!) o mercado.
Escrevo-o, porque a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) deu anteontem à estampa um extraordinário documento com o título “avaliação do pluralismo político-partidário na televisão pública”. Qualquer pessoa que tenha um neurónio liberal desconfia de um documento do Estado com um título destes. Não é preciso ter passado muito tempo a ler Orwell ou Koestler para se saber que o Estado é, por natureza, uma entidade que gosta de mandar em tudo e que sempre que o faz corre mal. Corre mal a nós, cidadãos, entenda-se.
Ora, a ERC colocou esse documento ‘on-line’ e diz “preto no branco” quantas notícias é que a RTP1, RTP 2 e RTPN devem dar sobre o governo e o PS! Sim, estão a ler bem. Se algum leitor conhecer alguém que trabalhe com o Mugabe ou o Chávez mande-lhe o ‘link’ com o ‘site’ da ERC. Eles vão adorar. E vão adorar porque a ERC defende que o Governo e o Partido Socialista devem ter, tendencialmente, 50% (cinquenta por cento) das notícias políticas dos noticiários. Ou seja, 50 por cento das notícias políticas da RTP vão ser sobre o governo e o PS, que caso não saibam, são a mesmíssima coisa.
Segundo o Diário de Notícias, o meu colega Luís Marinho, director de Informação da RTP, não se assusta com a “grelha” da ERC. Eu trabalhei vários anos com o Luís Marinho e atesto a sua independência e profissionalismo. Mas não sei com o que é que ele se assusta. Nunca fui ao cinema com ele ver o “Exorcista” ou o “Pesadelo em Elm Street IV”. Se calhar ele não se assusta com nada. Mas com isto devia assustar-se. A ERC, ou melhor o governo, está a tentar condicionar os jornalistas que trabalham para o Estado. Daqui para a frente, a “auto-censura” estará presente a cada minuto que passa na RTP.
A ERC quer levar esta grelha controleira para as televisões privadas, sob o aplauso entusiasta dos partidos. Os partidos, que são os maiores responsáveis pelo afastamento dos cidadãos da política, dos eleitores do voto e dos jovens de quase tudo! Os partidos, que se fecham sobre si mesmo, que caminham para o DIAP de braço dado com empreiteiros, que destroem o ordenamento do território em quase todas as Câmaras do país! Os partidos, que sempre que tentaram dominar projectos jornalísticos os conduziram à banca rota! Os partidos, agora, querem mandar nas redacções das televisões!
E querem mandar assim: o PS e o Governo ficam com 50%, a oposição parlamentar com 48% e a não parlamentar com 2%. Tudo isto é demasiado estúpido para merecer ser criticado. O PPM e o MPT que entraram no Parlamento numa decisão irracional de Pedro Santana Lopes estão incluídos na oposição parlamentar! E os Verdes, uma invenção do PCP, idem. Se esta grelha existisse em 1985 o PRD de Eanes não tinha tido notícias nas televisões. E em 1999 o novato Bloco de Esquerda também não cabia nos noticiários.
Tudo isto é estúpido e criminoso. E tudo isto parte de um ministro que não é uma coisa nem outra. Augusto Santos Silva é um ministro perigoso porque tem medo da comunicação social livre. Porque pensa que regular é mandar e condicionar. Porque, no fundo, ainda não aprendeu a viver em liberdade. Eu é que não sei viver de outra maneira. E garanto-lhe, senhor ministro, nunca acatarei uma grelha da sua ERC."
_Ricardo Costa, Director da Sic Notícias, artigo publicado no Diário Económico
...
(...)
"Tudo isto, admito, por "boa-fé" e por manifesto desejo de "representatividade" e "proporcionalidade" na informação televisiva. Esta "boa-fé", no entanto, acabará por reduzir-se (se ninguém travar a tentação controladora da entidade) ao domínio e fragmentação da informação televisiva pelos partidos políticos. Mais há-de conduzir, se ninguém de bom-senso questionar este delírio, à mais completa irrelevância do conceito de informação e de jornalismo.
A culpa desta situação é, como se sabe, dos partidos - que sempre tentaram manipular a informação televisiva a seu bel-prazer. Entregar-lhes este belo argumento de mão beijada é uma espécie de asneira preanunciada. Não sei de onde a ERC tirou a ideia de que a independência do jornalismo se mede por critérios retirados dos resultados eleitorais. Mas posso lembrar-lhes que essa maravilhosa ideia levou - noutros países - à censura, ao medo e ao que se sabe no México ou na Venezuela."
.
Francisco José Viegas escreve no Jornal de Notícias, semanalmente, às segundas-feiras

domingo, maio 13, 2007

"Quebrar a espinha", a prática do déspota.

Quando alguém não aceita, não concorda, não compreende, não adere, não corrobora, não modifica, não pratica, não admite, a crença de outro alguém, o que há a fazer? E quando outro alguém está completamente convencido, e tem o poder de usar a violência do seu lado, que é fundamental que se aceite, que se concorde, que se compreenda, que se adira, que se corrobore, que se modifique, que se pratique, que se admita, o que deve ele fazer?

O orgulho no trabalho de um quase, quase, licenciado

Dez mil pessoas reuniram-se ontem no Estádio do Farense para homenagear os finalistas deste ano na Universidade do Algarve.

sábado, maio 12, 2007

Discursos assassinos

Antes de começar a perceber que os líderes políticos usavam a metáfora, ouvi falar pela primeira vez em "chicotadas psicológicas" com os treinadores de futebol desta terra, numa era pré-Mourinho. Já não sei quantos, nem quem, mas houve épocas em que se ouviu dizer que muita "chicotada se deu nos jogadores". Como professora, e treinadora de bancada, sempre me confundi com os que confundem a manifestação da autoridade e exigência de disciplina e trabalho com a humilhação e a falta de respeito pela dignidade profissional e pessoal de cada indivíduo. Se isso acontecia no futebol imagine-se quando comecei a aperceber-me que a técnica era utilizada também na política comunicacional entre governantes e governados. Para meu desgosto, o governo Sócrates fê-lo logo no discurso de tomada de posse, quando o nosso primeiro-ministro anunciou um combate aos privilégios dos farmacêuticos e dos juízes. Não, que não houvesse reformas a fazer, nessas como em outras esferas profissionais, mas o tom utilizado, que muitos preconizaram ser o de um corajoso a enfrentar os interesses instalados, eu entendi-o como o início de um princípio de humilhação profissional junto da colectividade, para lhes diminuir a autoridade, enfraquecendo a imagem e a capacidade de resposta. Que os lobbies precisam de um forte poder político que os confronte, ninguém duvida, que a política deve regular as esferas económicas e sociais com vista a um bem-comum, também não, mas procurar governar através da diluição do respeito pelo trabalho dos outros?
Este mesmo tom de "alguns andam aqui para explorar descaradamente o resto da população" encaixa na perfeição na vontade e na razão de queixa que todos temos dos diferentes serviços ao público. É verdade. E assim se procedeu com todos os grupos profissionais a quem se quis cortar nos privilégios, segundo muitos, e nos direitos, segundo outros. O que aconteceu? Humilhação de classes profissionais sem trabalho nenhum no que a uma discussão de interesses e deveres diz respeito, com a salvaguarda do princípio da submissão do interesse geral da população sobre o interesse privado do profissional. Foi um trabalho fácil ao nível discursivo, bastou-lhes dizer duas ou três frases sempre iguais e repetidas em todas as ocasiões: "O país precisa de fazer sacrifícios, todos os estão a fazer e os professores ou juízes, ou forças de segurança ou médicos ou que for, não podem continuar a entender-se a excepção, acima das necessidades de reforma nos procedimentos".


O que ganhou o discurso político com isto? Cortou mais célere nas despesas? E o que o país perdeu em termos paralisia argumentativa que se reflectiu na forma como esses profissionais entendem que são vistos pelas suas tutelas (como párias) e como passaram a ser vistos pelos outros cidadãos, com a consequente desregulação das interacções? Veja-se o aumento no último ano lectivo de casos de violência física e verbal sobre os docentes, por exemplo.
A senhora H. Sellier fez o mesmo. Ao querer alcançar o objectivo certo, uma maior preocupação e empenhamento das autoridades para com os casos que envolvam violência sobre as crianças, arrasou com o sistema policial e judicial português. Este tipo de discurso faccioso, insidioso e falso, ao invés de promover ou obrigar a reformas que envolvam todos os interessados de forma lúcida e autocrítica, só serve para paralisar por sentimento de estupefacção. Quem acredita em chicotadas psicológicas daquele jaez é porque não acredita em democracia, não respeita a inteligência dos seus interlocutores, nem respeita a capacidade de trabalho e de entrega desses profissionais. Não está sozinha no uso destes métodos, no governo português há muitos políticos a partilharem-lhe o estilo. Agora, o que é que em termos de acção pública e melhoria dos sistemas se ganha com esse método é que é algo que eu não vejo.

sexta-feira, maio 11, 2007

Preconceito e combate entre instituições que deviam orientar-se na mesma direcção: ajudar crianças em perigo

Homayra Sellier terá pensado bem nas suas palavras? Terá noção da realidade ou vive com óculos preconceituosos? E o Times cita esta pessoa sem questionar a veracidade das suas conclusões?

Já aqui escrevi sobre o facto dos protocolos de investigação criminal relativo a casos de crianças desaparecidas poderem e deverem ser questionados. Que muito se ganha com a colaboração de especialistas internacionais da matéria, que há no sistema legal alterações a fazer, e muitas, no que a casos relacionados com crianças diz respeito, mas emitir este tipo de suspeitas sobre os operacionais portugueses? Esta insinuação que atinge rasteira o sistema judicial português, quem ganha com isto? As crianças?
Não me parece é que estas instituições, como a Innocence in Danger façam assim tão bem o seu trabalho, caso contrário não deixavam sair das agendaas policiais os casos das crianças desaparecidas em Portugal, por exemplo, ou então convocavam os meios de comunicação portugueses e denunciavam este aparente desinteresse das autoridades, com provas. Com declarações do teor que passarei a citar em seguida, publicadas no Times, é que eu penso que não se vai a lado nenhum, a não ser que se queira provocar uma onda de histeria colectiva contra a polícia em Portugal. Então, se for esse o efeito pretendido, o meio é bom. E a verdade, fica aonde?

We can read that on Times:
"Child protection campaigners have alleged that a culture of corruption and complacency in Portugal is allowing such kidnappings to continue unabated. The founder of the Switzerland-based group Innocence in Danger has said she had tried to set up an office in Portugal but it gave up because of the reluctance of the authorities.

Homayra Sellier said after Madeleine's disappearance last week that Portugal is a country in which “the corruption has gone so high that there's nothing we can do”.
“The fact that the girl (Madeleine) was kidnapped from her bed shows how bad things are.”

What?!! Where are the facts of what has been said? How can someone with responsibility declare something like that?
Como é que em nome do bem se consegue fazer tanto mal?

quinta-feira, maio 10, 2007

Por um Tibete livre e independente

A politica Europeia de apoio a uma só China? Como? Onde é que a China lê isso nos discursos europeus? O Tibete é um estado independente ocupado pela China. Toda a gente o sabe, e a comunidade internacional não deve escamotear esta questão, diga o que disser a propaganda chinesa.

"As autoridades belgas informaram o Dalai Lama sobre as objecções da China à sua visita. Face a esta situação, o prémio Nobel da Paz 1989 decidiu anular a viagem.
(...)
O líder espiritual e político tibetano tinha previsto assistir de 11 a 14 de Maio à V Conferência Internacional de Grupos de Apoio ao Tibete, organizada pelo governo tibetano no exílio, o grupo interparlamentar belga para o Tibete e o Instituto Friedrich Naumann. " in DD
...

Sim

"Por isso, é natural que o lema das aldeias comunitárias segundo o qual o que é comum, não é de nenhum se transforme no seu exacto contrário, quando passamos a considerar que o Estado já não é a comunidade ou república, mas antes o c'est lui do aparelho de poder. Por mim, preferia que a democracia não mantivesse os velhos hábitos do absolutismo: o Estado não é o c'est moi, da voz do dono, o Estado somos nós todos. Porque, como já dizia Plínio, quando se dirigia a Trajano, nós inventámos a república para deixarmos de ter um dono."
Adelino Maltez em Sobre o tempo que passa
...
"Declaro, com toda a frontalidade, em nome da normativista moral de convicção, que tanto não aceito o autoritário quem não está contra mim, está a favor de mim, como repudio activamente o totalitário quem não está a favor de mim, está contra mim. Os fins não justificam os meios... "
Adelino Maltez em Sobre o tempo que passa

Sim

Desaparecimento de crianças. Desaparecimento de uma criança, a Madeleine.
"Pacheco Pereira emendava, há dias, um locutor televisivo português por este ter dito que os jornais ingleses davam o caso do desaparecimento de Madeleine na primeira página. Que não, disse ele no seu blogue Abrupto, só os tablóides ingleses o faziam... Mas quem estava errado era Pacheco Pereira: há vários dias que as notícias e as fotos da menina ou dos seus pais são capa do Guardian, do Times, do Independent, enfim, dos jornais que não são gritantes como o Sun. E isso por razão simples, o próprio dos jornais (de todos) é dar notícias com o relevo que elas têm. (...)
Mal seria que os jornais - e, sobretudo, os melhores - se afastassem do que as pessoas falam."

Ferreira Fernades, "OS JORNAIS SÃO ESPELHO OU NÃO são ", no DN

...
O discurso, a acção e os cidadãos

"O problema não é o de perder-se o sentido crítico ou até condenatório das políticas, porventura enganosas, pouco profícuas ou até erradas. Das coisas que fazem que andam e não andam. O problema não é o de esgrimir contra os bloqueamentos de liberdade de expressão e opinião. Não é o de deixar de dizer mal do que está mal, do que não é justo ou precisa de ser corrigido. O problema é o de fazer prevalecer um pessimismo profetizador de um estado de sítio desolado e desolador. Não estamos num país de oásis, nem estamos num deserto pantanoso. Mas teremos de concordar que contra o acusado fácil marketing político do Governo, que lhe é natural a partir das acções que vai desenvolvendo, grassa uma onda de maledicência tendente a encharcar a opinião pública e a motivação popular num estado de desencanto e desmotivação.
O discurso político anda entrincheirado no desenvolvimento de uma guerrilha verbal que só pode ter por efeito o desencanto do povo pela "coisa política". E não é só o discurso. Os últimos exemplos da vida política autárquica ou regional provocam profunda confusão e descrédito."
Paquete de Oliveira, "A esperança também pode morrer", no JN
...
Lisboa
"Só um forte sentido do interesse público, hoje pouco em voga, e uma visão lúcida sobre Lisboa, com mãos livres para prosseguir um trabalho que não se compadece com demagogias e ainda menos com clientelas, pode mover a roda dos próximos anos nesta cidade parada. As eleições intercalares vão ser um teste aos partidos, particularmente ao PSD, da sua capacidade de redenção face ao eleitorado.Na polis grega, os cidadãos sentiam-se privilegiados por serem parte na produção das ideias que moldam a vida política. E designavam de idiotis (idiotas, sem ideias) os que não queriam frequentar nem o forum nem a agora. Este teste, para ser eficaz, precisa de lisboetas activos na defesa do que lhes pertence. Oxalá!"
Maria José Nogueira Pinto, "Os pecados Capitais", no DN

quarta-feira, maio 09, 2007

Sete falácias ou incompreensões sobre a democracia por David Beetham

"Seven fallacies or misconceptions about democracy (pp.8 a 19) :

Democracy means majority rule
One size fits all democracies
Democracy equals a market economy
Democracy in one country
Democracy versus the courts
‘Demos’ versus ‘cosmos’
Democracy is whatever ‘democracies’ do
International IDEA Handbook on Democracy Assessment.


By way of conclusion it will be useful to summarise the main points of the argument and its findings, one by one:

Democracy is to be defined in the first instance by its key principles of popular control and political equality, and only secondarily by the institutions through which these principles are realised (paras. 4-8).
To realise these principles in a modern society requires three main conditions: a framework of guaranteed citizen rights, a system of representative and accountable political institutions subject to electoral authorisation, and an active civil society (paras. 9-19).
• Since majority rule is not always or necessarily democratic, special institutional provision
may have to be made for protecting the basic rights of minorities, and ensuring them a due
share in political and public office (paras. 22-27).
• Although democracy has historically been associated with a market economy, the free market
has significant negative consequences for human rights and democracy, which government
action is needed to mitigate (paras. 28-31).
• Since such action can be readily frustrated by the policies of international bodies and
transnational corporations, the former need to be made more representative and accountable,
and consideration be given to making the latter subject to human rights and environmental
standards and regulation (paras. 32-35).
• Independent enforcement of human rights by the courts against a democratically elected
government is not undemocratic, especially where these rights have been endorsed by
popular referendum as well as by the legislature (paras. 36-39).
Dealing with threats to democracy without compromising human rights or democratic processes is one of the most difficult challenges facing democracies today (paras. 40-41).
Although democracy requires an agreed ‘demos’ or people enjoying exclusive rights of citizenship, the standards against which its rights and institutions are to be judged have become increasingly internationalised (paras. 42-47).
• Democracy is not an all-or-nothing affair, but a matter of degree, and any country’s
institutions and practices can be assessed to discover the extent to which democratic
principles are realised within them (paras. 48-49).
Because democracies in practice involve a compromise between popular forces and existing powers, the process of democratisation is never complete (paras. 50-51)."
..
O sublinhado a negrito é uma escolha minha.
..
Penso no governo da Irlanda do Norte. Foi ontem um dia grande para o seu povo. Mas o discurso político do primeiro-ministro não me apaziguou dúvidas sobre esta democracia nascente. Espero que os actos dos líderes do Ulster sejam mais sólidos do que as palavras defensivas e passivas que Ian Paisley proferiu.

segunda-feira, maio 07, 2007

A educação de um revolucionário: Lenine 6


Terminada a leitura do livro de Robert Service fiquei com a ideia de um equilíbrio correcto na análise do político e da pessoa Lenine.

É verdade que Service indica frequentemente como sendo uma motivação para as leituras e para a acção política de Lenine, os ideais de educação que os seus pais incutiram na família, arriscando-se o autor a dizer que o louvor de Lenine pelas práticas de ditadura, terror e violência, advinham das ideias marxistas, mas também por alguém que “se inspirara nas primeiras gerações de pensadores socialistas russos.” Acrescentando Service ao retrato de Lenine: “Era um revolucionário-erudito com um profundo empenho na perfectibilidade da humanidade, herdado da filosofia do iluminismo.” (p.232). Ora neste ponto está um dos dois reparos que eu faço à biografia: 1. Que se possa provar que Lenine aderiu intelectualmente ao tipo de estratégia de terror conduzido por Robespierre e seus congéneres durante a Revolução Francesa, vendo nela um modelo para a revolução bolchevista, é uma coisa. Mas que se tenda a associar frequentemente as ideias de progresso, educação e razão do iluminismo com as ideias de terror, ditadura e violência de qualquer pensamento revolucionário, jacobino, marxista ou o que seja, implicando-as inequivocamente, é uma avaliação ideológica da causa e das consequências, e que, do ponto de vista da prova filosófica, tem falhas. É uma linha de pensamento, e pode ser contra-argumentada, não é uma verdade histórica, uma relação lógica, ou um facto empírico. É uma tese. E, já vimos, com Apel e Habermas na Alemanha, com Rawls e Putnam nos EUA, entre outros, que a razão humana continua a ser um suporte fundamental para dirimir conflitos, para propor soluções no quadro da discussão pública da crenças e não necessariamente na sobrevalorização de uma crença entendida como verdade universal produzida por uma razão fascinada em si e para consigo mesma.

...

Logo, não havia necessidade por parte de Service de fazer valer um ponto de vista teórico que me parece pessoal, o de que a ditadura marxista-lenenista estaria assente nos valores propalados pelos teóricos precursores da Revolução Francesa, como se esta ligação teórica-prática decorresse de forma necessária. As doutrinas revolucionárias do século XIX terão retirado lições da Revolução Francesa, claro. Como tiraram de outras tradições sociais e políticas que evoluíram numa proposta de acção de defesa intransigente de uma verdade única, fosse ela política, social ou religiosa.

Terão os bolchevistas, com certeza, aprendido com os revolucionários ditatoriais franceses, a acentuar a importância do autoritarismo centralizado, para conduzir a bom porto a sociedade preconizada, terão adoptado a violência como meio justificável os terroristas revolucionários russos, e ter-se-ão também servido dos pressupostos marxistas de legitimação de instituição de uma prática política científica que conduzisse ao sucesso do socialismo no mundo, mas, essa consequência foi uma das que era possível extrapolar do acontecimento revolucionário passado em França, havia outros actores teóricos e políticos que não alinhavam pelo diapasão da defesa do terror ou da ditadura, e no entanto partilhavam a crença na razão iluminista.

...
2. Outro ponto negativo, nesta excelente biografia, é a tese da indiferença de Lenine para com o destino da família real russa (assassinada sob o seu governo), mas também para com algumas classes consideradas burguesas (industriais, bancários, agricultores ricos, religiosos, mas também médicos, professores, intelectuais, etc.), como sendo um pressuposto não só teórico e preconizado na literatura marxista (que defendia a luta de classes como um momento necessário na conquista da sociedade comunista), o que está certo do ponto de vista da análise, mas também como resultado de uma certa vingança pessoal contra a família do Czar (que condenara à morte o seu irmão) e contra as classes dos indivíduos que na sociedade de Simbisk ostracizaram a sua família após esse trágico acontecimento. Parece-me difícil comprovar esta tese sem que Lenine o tenha reconhecido ou disso deixado provas.
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Julgo que o facto de haver uma teoria, que se tornou uma crença para Lenine, que defendia a possibilidade de se realizar na terra uma sociedade perfeita de convívio social e económico entre os homens, mesmo que isso implicasse a destruição da ordem presente por um mundo novo após uma luta de classes e sem se deter em questões de moralismos políticos, foi a pedra de toque de todas as suas acções, coadjuvadas com as circunstâncias históricas. Ele era um teórico, aplicou a sua teoria à realidade, mas também se adaptou a ela quando precisou de criar a sua polícia secreta, a Tcheka, para perseguir dissidentes, ou quando inverteu as resoluções teóricas do marxismo económico com a criação do seu plano de uma "Nova Política Económica" quando percebeu que não só os camponeses mas toda a sociedade estava a ponto de se rebelar, pondo em causa o próprio processo revolucionário.

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Sem a influência de Lenine a Revolução de Outubro, o Tratado de Brest-Litovsky e a Nova Política Económica poderiam nunca ter acontecido, como nos diz Service, afirmando ainda: “Lenine fundara a facção bolchevique. Escrevera Que fazer?, as Teses de Abril, e o Estado e a Revolução. Elaborara uma estratégia para a conquista do poder e cuidara de que o poder fosse conquistado. (…) Ele não tinha um plano para o Estado de um só partido que foi criado em 1917-1919, mas várias instituições desse Estado foram criadas por ele. Entre elas, esteve a Tcheka e ele insistiu que o terror devia continuar a ser um instrumento de governação à disposição dos comunistas. Acima de tudo, Lenine foi o principal criador do próprio Partido Comunista Russo, um parido que se distinguiu pelo seu empenho no centralismo, na hierarquia e no activismo. Seria estranho afirmar que não teria existido um partido de extrema-esquerda na Rússia se Lenine não tivesse vivido. Mas seria igualmente absurdo supor que o Estado Soviético de um só partido e uma só ideologia teria nascido sem Lenine.” (p.615)



domingo, maio 06, 2007

Teoria e prática


Convidado um criminalista para falar sobre a investigação portuguesa nos casos de desaparecimento de pessoas, na RTP 1. Única opinião absolutamente relevante que ouvi até esta altura, e durante todo este caso, cito de memória, e sem poder indicar o nome do especialista porque dele me esqueci: "É completamente ridícula essa regra que diz que só se deve iniciar as buscas de uma pessoa desaparecida depois de perfazer as quarenta e oito horas. Foram os teóricos em gabinete que a impuseram, não os operacionais que sabem quão importante são as primeiras horas para investigar e solucionar com sucesso estes casos."


Não sei quantas vezes é preciso os erros acumularem-se para alguém mudar as práticas e os protocolos. Quanto mais tempo? Bom, parece que com o desaparecimento da pequena Madeleine, por pressão da comunicação social, ou por lúcido entendimento das chefias policiais, a absurda regra das 48 horas foi quebrada. Por bem, espero que crie um precedente na prática criminal e se torne uma teoria que equilibre tudo o que é excessivamente forjado num sentido de planeamento alheado da realidade, com uma pronta resposta institucional que contudo não pode ser a do tempo emocional. Como encontrar o equilíbrio? No trabalho quotidianos de profissionais, responsabilizados.

Reprodução de um poster de Escher "Other World".

As ideias, e o par para dançar, do próximo baile em França já foram escolhidas. E como irá ser a coreografia do poder do Sr. Sarkozy?

Desenho publicado em 16 de Abril
ver o le site de Kroll
© kroll 2006














sexta-feira, maio 04, 2007

ASTRÓNOMOS DESCOBREM O PRIMEIRO PLANETA HABITÁVEL

Leio isto e penso imediata-
mente no Blade Runner. Não pelas questões filosóficas e religiosas que os replicantes levantam sobre si próprios e junto do seu criador, mas pelos cenários de uma Terra devastada pela guerra, pela chuva ácida, pelo exploração das suas riquezas levada até à exaustão das mesmas, uma terra habitada pelos que não puderam deixá-la, pelos miseráveis, pelas máquinas, ou pelos românticos que nela ainda se querem acolher.
Quem serão os primeiros a deixar o planeta?
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Visão artística do sistema planetário múltiplo Gliese 581. Crédito: ESO

"Como se não bastasse, a cidade está também sem governo.Mas este já não se notava."

"O que está mal em Lisboa", Nuno Rogeiro

quinta-feira, maio 03, 2007

O jogo democrático é um combate de ideias: os franceses no seu meio.

"Au-delà de toutes les propositions concrètes des candidats, le vote de dimanche sera un choix décisif entre deux styles et deux contenus politiques. Ségolène Royale propose une politique optimiste, elle mise sur l’effort commun d’une société en débat. Nicolas Sarkozy mise sur l’action, sur la responsabilité individuelle dans une société qui prône l’ambition à la place de l’assistance.
Le jeu démocratique est un combat d’idées. Le débat d’hier soir était à la hauteur d’une démocratie. Aux Français désormais de choisir."
Anna Karla

Exorcismos contra periódicos versus Liberdade de Imprensa


Neste dia de comemoração da Liberdade de Imprensa, liberdade que mesmo em democracias é entendida como um fenómeno a ser condicionado, o que é estranho em teoria mas confirma as práticas de autoritarismo presente nos fundamentos da maior parte das tradições que dão origem às democracias, o meu aluno Paulo Alexandre enviou-me esta referência da Hemeroteca Digital:




"3 MAIO – Dia Mundial da Liberdade de Imprensa Exorcismos contra Periódicos e outros Malefícios, assim se intitulava o libelo que o Padre José Agostinho de Macedo escreveu em 1821 visando os jornais que proliferavam pelo país. Criados como os cogumelos depois da Revolução de 1820, os jornais eram vistos pelo autor como uma praga, cujo dano era comparável ao que “o Pulgão causa ás vinhas do alto, e do baixo Douro, e de toda a parte”. Para assinalar o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, a 3 de Maio, a Hemeroteca Digital coloca em linha esta raridade bibliográfica, criando uma nova secção, com o mesmo título, destinada à difusão de obras pouco conhecidas, de difícil acesso, mesmo nas bibliotecas, e há muito caídas em domínio público. O paradoxo da edição desta obra na Internet no dia em que se assinala a liberdade de imprensa é aparente pois o que estes Exorcismos traduzem mais não é do que a importância que os jornais sempre tiveram na formação de uma opinião pública crítica e informada e no debate de ideias. Uma leitura incontornável. "


A agenda pode ser consultada aqui.
...
Na realidade é comum a todos os regimes esta vontade de controlar a informação e condicionar a comunicação, sendo que quanto mais ditatoriais menos liberdade é permitida, quanto menor for a tradição de liberdade de imprensa, maior será a tentação de legislar coercivamente sobre ela. Porém, a história prova que este condicionamento não é nunca suficiente para a sobrevivência em si dos regimes. A ausência de liberdade de imprensa não equivale à eliminação perene do desejo de liberdade de imprensa. Um regime pode durar 50 ou 70 anos, mas não dura o tempo que dura o desejo de liberdade e a luta pela mesma.
A leitura deste livro é no entanto uma delícia.

quarta-feira, maio 02, 2007

História da religião e das suas guerras


Andava na internet à procura de um mapa que listasse as religiões desde o aparecimento do Homem no planeta e descobri este video absolutamente fantástico no site Maps of War. Excelente.

A minha cidade é assim

Por convite da querida Belém, do blogue Saudades do Futuro e do Leitura Partilhada, aqui fica o registo dos meus sons da cidade de Lisboa:

O som das corridas do meu filho nas ruas do Chiado, a cantata 147 de Bach na SÉ, o chilrear excitado dos passáros da árvore encostada à janela de casa, a sirene das ambulâncias, o vento sobre a água deste largo rio Tejo, os aviões a aterrarem aqui tão perto, o assobio da minha mãe a acordar-me nas manhãs de adolescente.

terça-feira, maio 01, 2007

A educação de um revolucionário: Lenine 5

A educação de um revolucionário não assenta nos mesmos livros, ou pelo menos, não na mesma crença com que se lê esses mesmos livros, da educação de um democrata, de um defensor do processo eleitoral universal, ou sim?
O que sabemos dos livros com que Lenine procurava fundamentar a sua concepção política-social? Que ele “devorava Hegel, Feuerbach e Aristóteles(p.318), que nutria profundo afecto “não por pessoas com quem vivia, mas por pessoas que tinham moldado as suas opiniões políticas: Marx, Alexandre Ulianov[1], Tchernichevski e os terroristas socialistas russos.” (p.176), e que “Pelos seus livros podemos ver que Hegel, Clausewitz e Aristóteles o ajudaram a apurar a sua interpretação do marxismo e a sua estratégia para a revolução. Talvez Darwin e Maquiavel tenham feito o mesmo por ele.” (p.269)
Acrescenta Service:

Lenine formara a sua visão do mundo durante as duas últimas décadas do século XIX, e após 1900 não surgiu nenhum pensador que ele admirasse. (…) Mas tinha uma filosofia intelectual estabelecida. Carlyle, Freud, Kierkegaard, Le Bon, Michels, Nietzsche e Weber eram ignorados, totalmente ou quase, nas suas obras (embora viesse a ter o Assim falou Zaratustra de Nietszche na sua estante do Kremlin). A sua preocupação era alargar e aprofundar o seu conhecimento de Marx, Engels, Plekhanov e Kautsky". (p.268)


Podemos então dizer que estas leituras fazem o revolucionário? Não, seria ridículo. Explicam alguma das orientações de Lenine, mas não justificam as suas tomadas de posição. Porque na história do intelectual Lenine havia a questão da motivação. Porquê ler estes autores e transformar-se num revolucionário e não num democrata, ou porquê não contemplar obras críticas que se opusessem a esta teorias? Service avança com duas teorias: Estas leituras seguiam no pressuposto iluminista de uma razão triunfal que devia ser posta ao serviço do progresso, por um lado, e, por outro, ele estaria a cumprir um desígnio de vingar a morte do seu irmão. Tenho dificuldade em aceitar este tipo de explicações. As motivações só podem ser explicadas pelo próprio, ou por alguém que tenha acesso a manifestações suas que possam ser claramente decifradas. Tudo o mais é ficção.

Então o que explicará as opções de Lenine? Os livros que leu e os autores que escolheu? Mas as leituras da mesma obra podem ter múltiplas interpretações, e o próprio Service nos diz que Lenine “Tinha ideias peculiares suas. Mas apresentava-as agressivamente como sendo a mais pura ortodoxia” (p. 176). Portanto quanto ao ele estar a seguir ortodoxamente a teria marxista estamos falados. Mas então o quê? O contexto familiar, histórico e cultural? São muitas variáveis para definir um comportamento. Robert Service prefere fazer cruzar a variável cultural (história de uma família profundamente crente nas faculdades cognitivas, na ilustração, como meio de evolução da pessoa e da civilização), a variável personalidade (a morte do irmão revolucionário por ordem do Czar que ensombrou a sua vida de adolescente protegido e cuidado), com a variante intelectual (Lenine era um intelectual agudo e um leitor ávido, ainda que orientado numa linha de interpretação marxista da realidade). Percebe-se bem as leituras de Feuerbach e de Hegel, mas é interessante a sua necessidade da leitura de Aristóteles. Apesar de tudo um crítico forte do regime democrático desde o século IV a C.

Assim, as ideias que se lêem consubstanciam o pensamento do indivíduo, ou o indivíduo lê para justificar o que pensa?

[1] Era o seu irmão.

domingo, abril 29, 2007

Direitos económicos, sociais e culturais

Como se pode pensar em divisões ideológicas pelas quais se entenda a defesa dos direitos sociais e económicos, como uma forma de dominação de valores como os da liberdade, no quadro dos direitos civis e políticos, por valores como o da equidade nos direitos económicos? Quem tem medo de defender os direitos económicos e sociais numa democracia? Quem os entende um caminho para a unidimensionalidade dos comportamentos políticos ou cívicos, uma forma de marxismo a prever uma ditadura, e não uma condição necessária para garantir a própria prática de uma democracia?
Leio o que escreveu David Beetham em 2002 num seminário apresentado nas Nações Unidas, e concordo, pois as garantias dos direitos económicos, sociais e culturais não são um sinal de identificação ou de confronto para uma luta ideológica partidária. A defesa desses valores é hoje compreendida como uma condição da defesa das liberdades, uma condição para a existência de uma sociedade livre, participativa e com indivíduos a saberem-se soberanos na defesa dos seus direitos e no cumprimento dos seus deveres : "(...) as the history of the past century has shown, social exclusion leads to civil and political alienation on the part of those excluded, and provides a breeding ground for political intolerance and repressive policies which impair the quality of democracy for all, even when they do not threaten its survival. It is now also widely accepted that the guarentee of basic economic and social rights contributes to economic development, rather than being a drian upon it. And it is by the protection and advance of these rights that most citizens in most countries assess the value of their democracy, and consider it worth supporting and participating in."
Há que inventar novos programas políticos para este milénio. Há que fazer uma viragem nas ideias e nos fundamentos para as mesmas.

Por Darfur. Pelo povo do Darfur

Não só neste dia, mas também neste dia Darfur.

sábado, abril 28, 2007

vinte e cinco de Abril


O hospital é grande, harmonioso mesmo, visto do exterior. Depois entra-se na zona da emergência e temos um choque emocional. Quem visitar os pacientes no SO de Faro submerge numa atmosfera de cenário de um filme de clínicos a trabalharem numa situação equivalente ao que nos é dado imaginar ser uma situação de atendimento médico após catástrofe. E que, ali, é a situação corrente de atendimento. Muitos mo confirmaram.

Não pode ser explicação suficiente, aquela que nos é dada no cartaz que à entrada das urgências avisa que o hospital está a proceder a obras para instaurar o sistema de atendimento segundo o método de Manchester. Não pode ser essa a explicação para o facto dos visitantes terem que passar entre três filas contínuas de macas que se aglomeram no hall, seguindo depois por um corredor com friso duplo de mais doentes em macas, isto enquanto andam à procura do seu familiar ou amigo. Nesse caminho vêem-se médicos a tirarem sangue ao seu paciente, ao mesmo tempo que passamos a seu lado evitando procurar tocar-lhes, vemos outros a passarem em grande velocidade ziguezagueando entre nós e as macas a caminho de não sabemos onde. Espreitamos para a sala de ressuscitação e vemos mais dois médicos a darem consulta a um número igual de doentes, não vislumbramos muitas vezes ali, nos corredores pejados de doentes, um auxiliar que seja ou um enfermeiro a quem perguntar a direcção, e não sabemos assim como encontrar quem procuramos. Deambulamos perdidos, procurando respeitar a intimidade de quem ali está exposto aos olhares de quem passa, mas não podendo evitar fisicamente a invasão desse espaço.

Há um médico jovem, com um sorriso fácil, que ainda não aprendeu as manhas de fugir aos bloqueios que os familiares desorientados lhe fazem com o intuito de obter informações. Às vezes faz cara feia e diz com o ar de atarefado de quem realmente o está:”Eu não sou o médico desse/a paciente, mas vou chamar o/a colega que lhe poderá dar assistência”, e desaparece. Até uma próxima vez que ali passar. Na sala de imagologia estão nessa hora cinco doentes. Estão sob observação constante. São doentes em estado grave. Quase em cima uns dos outros, homens e mulheres. Uma delas geme alto e ininterruptamente. Outra, com o ar gracioso de um ser alado, uma idosa de olhos doces e tão magra que diríamos quase não ser, acena-nos com a mão e pede-nos baixinho para fazermos o favor de chamar um/a enfermeira. Só podemos tentar encontrar alguém. “Mas não há uma campainha para chamar assistência? - podemo-nos perguntar irritados, enquanto tentamos manter o sorriso.” Os homens, aqueles, estão calados, imóveis, respiram com dificuldade. Um deles, de etnia cigana, vindo de São Brás de Alportel, tem à porta do hospital bem mais de duas dezenas de familiares e amigos de todas as idades que ali se reuniram para saber notícias, para aguardar por ele. Depois a saída dessa dura realidade circundante e velamos, à vez, pelo nosso paciente, uns minutos.

Em todo o barlavento algarvio não há um aparelho para fazer uma TAC ou uma hemodiálise a não ser em Faro. O hospital de Lagos é pouco mais que um Centro de Saúde com serviço de urgência, com médicos que mudam constantemente e que não conhecem os doentes. Em Portimão também não há todos os meios de diagnóstico, e os doentes mais graves são enviados então para a capital de Distrito que fica, em alguns casos, a mais de oitenta quilómetros de casa, sendo que não há nenhuma possibilidade de se obter informações dos doentes internados em SO pelo telefone. Morre-se. Naturalmente. Sem sarcasmo. Mas sem esse cuidar dessa última hora existencial nesse hospital de Faro. Não ponho em causa as competências dos seus profissionais, a assistência médica, mas o descuidar, por indiferença ou por impotência, do espaço em que estão os mais graves dos doentes algarvios. Acuso a administração do hospital, as suas chefias, e o Ministério, por manterem aquela urgência como está. Nada pode justificar aquele caos. É assim em Abril, imagino, com horror, o que acontecerá no Verão.

Depreendo que um dia abrirão ali um clone do Hospital da Luz. Façam os privados o que quiserem com o seu dinheiro. Mas não à custa do dinheiro público e da apropriação dos deveres de um Estado que recebe impostos para gerir os assuntos públicos. Por isso não façam as administrações públicas o que quiserem com o dinheiro público. Porque não pode ser por falta de dinheiro (constrói-se rapidamente e bem em Portugal quando se quer), e a prová-lo está o estádio de Faro ali bem perto e completamente inutilizado.
Só pode ser uma desorganização a qual espero que não seja com o intuito superior de suprimir pessoal clínico do quadro da função pública, desmoralizando-o e fazendo-o passar para o sector privado, ou para inquietar as populações, fazendo-as crer que cada vez mais uma boa saúde terá que ser paga e seguida por clínicos em prestação de serviços privados.
No dia em que o orçamento for cumprido à custa radical dos cortes na educação e na saúde, o Estado passa apenas a ser um sugador de impostos. Um estado medieval, um estado que espolia. Um estado que ninguém respeita porque não respeita ninguém. O fim do estado.

respostas

Há-de chegar a hora de responder aos vossos comentários. Obrigada.

sexta-feira, abril 27, 2007

25 de Abril

Direitos políticos, económicos e sociais.

Quem herda a defesa política das causas sociais quando a economia entra num ciclo de crise e o regime da república parece ter atingido o zénite na disposição dos seus direitos, oferecendo-se como um arremedo das influências teóricas universais ou assente em atitudes políticas de um qualquer líder personalista, ainda que com sucesso?

Que Estado se quer a partir dos lugares, e dos privilégios, desse outro Estado que se quer abandonar? Como ignorar este acto de reparação de um navio quando ele está em alto-mar? E quem tem as coordenadas para o cais de reparação?


Quem é o dono da festa? Que rituais de celebração está "ele" disposto a partilhar?

quinta-feira, abril 26, 2007

O dia vinte e cinco de Abril de ontem, vai ter que ficar para amanhã

Se a morte se lhe atravessar ao caminho. E não, nada disto são metáforas ideológicas.

terça-feira, abril 24, 2007

a excelência na cidade

Mais ou menos a despropósito falei do professor Librescu. Aconteceu numa aula em que eu discorria sobre a forma como a tecnociência influencia a nossa vida contemporânea, ampliando os pressupostos de uma razão ao serviço da ciência e do progresso, que, como todas as boas ideias, pode ter más aplicações.
Abstracções e exemplos concretos, o exemplo concreto e a abstracção. Não há porque escapar.

Disse aos meus alunos utilizando outras palavras mas significando elas que eu entendia que o professor Librescu procurou atingir verdadeiramente a arete que a antiguidade grega terá posto como objectivo de toda a educação. Atingiu pois a virtude por uma acção baseada no saber humano. Respondeu-me a Lígia: “Também… já viu que idade ele tinha? Não lhe custou assim tanto.” Eu ri-me. Não consegui impedir-me. Depois disse-lhe brincando seriamente: “Diz a Dona Lígia do alto dos seus vinte anos arrogantes, não é?”
Ficámos todos mais uns minutos a discutir os critérios que podem definir um acto de heroísmo, e chegámos à conclusão de que não é por se ter mais idade que se é mais corajoso, mas que a idade poderá trazer mais sabedoria, a qual, se aliada à coragem, pode transformar-se em manifestação de um acto heróico. Isso antes de encerrarmos o assunto e avançarmos com algumas teses sobre as ligações de interesse entre a política, o capital e a ciência.

Não lhes falei do castigo que os gregos diziam ser fatal cair sobre todo aquele que agisse ou proferisse palavras carregadas de Hubris, porque isso ainda vinha mais a despropósito.


“O Estado do séc. V é assim o ponto de partida histórico necessário do grande movimento educativo que imprime o carácter a este século e ao seguinte, e no qual tem origem a ideia ocidental de cultura. Como os Gregos a viram, é integralmente político-pedagógica. Foi das necessidades mais profundas da vida do Estado que nasceu da educação, a qual reconheceu no saber a nova e poderosa força espiritual daquele tempo para a formação de homens, e a pôs ao serviço desta tarefa.”
Werner Jaeger, Paideia, Aster, Lisboa, 1979, p. 313.

E esta necessidade profunda do Estado não consistia em palavras para serem defendidas em campanha política, em outdoors de péssima concepção publicitária, como os que são pagos pelo nosso Ministério, pois eram palavras que reflectiam um movimento cultural-educacional profundo no Estado ático, e que o transcendeu, chegando até à concepção de Estado das revoluções liberais do século XIX.

segunda-feira, abril 23, 2007

Um homem sem voto

Perante a dor dos outros, qualquer outro, fico paralisada. Eu só tenho palavras, umas quantas, e duas mãos que se dão às outras mãos. Mas quando a dor não suporta, ou não lhe chega, a palavra ou o toque de uma mão, eu paraliso. Nessa jornada de acompanhamento da dor de outrem, em que se pode passar da perturbação à impotência num segundo, o que nos resta fazer a nós que não temos conhecimentos médicos?
Deve ser por me sentir perante essa dor como perante uma nudez absoluta desse outro, a qual reclama, em contrapartida, a minha absoluta nudez. Nudez de que me falava um livro de que desgostei imensamente mas que não esqueci, um livro de William Reich. Li-o há umas duas décadas atrás, para uma aula de psicologia no liceu. Chamava-se o livro Escuta, Zé Ninguém!
Volto a folheá-lo pela primeira vez nestas últimas décadas. Nem um sublinhado a provar que foi lido com aplicação. Só o recorte incerto de algumas páginas que na edição tinham ficado coladas e foram abertas com uma faca a provar que por ali alguém passara. Essa mania de colar páginas que algumas editoras tinham então e ainda, e que era motivo de tanto aborrecimento por atrasarem a minha leitura... Às vezes dedicava-me primeiro a abrir as páginas todas de seguida, com frenesim, para depois poder então dedicar-me à leitura descosida, solta. O pior era quando ficava esquecida uma página coladita, logo ali no meio das outras todas obedientemente abertas. Que desabar de frustração. Que resignação. Nunca percebi o interesse desta técnica, ou sequer o motivo de algum gosto nela, a haver. Mas havia sim quem se dedicasse a essa actividade com profundo prazer. Sim, havia uma amiga que não padecia com esse ritual. Pelo contrário, exaltava a prática. Eu suspirava. Imagine-se os livros das Edições Brasil, todos ali de páginas, pouco generosamente, coladas… que tortura. Ainda que, irónico alívio, a maior parte dos livros que eu lia então proviessem da biblioteca dessa minha amiga, logo já vinham abertos: em dupla oferenda.

Já nem me lembro porque não gostei então do Escuta, Zé ninguém! Deve ter sido um tom, uma estridência, terá sido pois pela forma que se terá afectado a minha consciência estética, ou lá o que quer que tivesse sido, porque o conteúdo, é inegável, impressionou-me até ao ponto de eu hoje reclamar a sua presença para explicar a minha ausência nestes últimos dias.

“Mas eu entendo-te. Vezes sem conta te vi nu, psíquica e fisicamente nu, sem máscara, sem opção, sem voto, sem aquilo que faz de ti “membro do povo”. Nu como um recém-nascido ou um general em cuecas.” p. 22

Mas quando vemos os outros sem máscara, sem opção, nos limites dos limites das suas forças e da suas existências, que máscara não estaremos nós a depor também? Quando nem a razão ou a intuição nos ditar o que fazer perante o inadiável dos inadiáveis com longo caminho pelo sofrimento, o que podemos fazer-lhes?
Eu leio as Cartas a Lucílio de Séneca. Como se fosse uma estóica. Reinvento a máscara.

domingo, abril 22, 2007

Esperança/Desprendimento

"Houve uma vez um homem que se queixou a Sócrates de nunca ter tirado proveito das suas viagens. "Não admira!" - respondeu o filósofo. "Viajaste sempre na companhia de ti próprio!"
Séneca, Cartas a Lucílio, p. 571

quarta-feira, abril 18, 2007

Discussão política fora da paróquia: ou como se faz análise em campanha e em França

"Engagement des candidats et du Président sur le Darfour : véritable espoir ?"
Por Jean-Etienne de Linarès, Jean-Marie Fardeau e Sharon Courtoux
LIBERATION.FR : 9 de abril de 2007.
"La France doit immédiatement prendre dessanctions ciblées (1) . Elles doivent viser non seulement les individusportant une grande responsabilité dans les massacres, mais aussi leparti au pouvoir à Khartoum qui ne cesse de bafouer les résolutions du Conseil de Sécurité. La France se doit de ne pas banaliser ses relations diplomatiques et économiques avec des régimes responsables de crimes de guerre et de crimes contre l'humanité. En tant que Patrie des droits de l'homme, il lui incombe au contraire d'entraîner les autres membres de la communauté internationale, notamment ses partenaires européens, à peser sur le régime soudanais pour que celui-ci mette dès aujourd'hui un terme à sa politique de massacres systématiques, accepte de coopérer avec la MINUS et la CPI et commence à désarmer les Janjawid ; et que demain il négocie un nouvel accord de paix sur le Darfour avec l'ensemble des factions rebelles et respecte enfin les engagements qu'il a souscrit dans le cadre de l'accord de paix avec les rebelles sudistes du SPLA. Les populations du Darfour ne peuvent pas attendre l'élection en France d'un nouveau Président et d'une nouvelle Assemblée, puis lamise en place d'un nouveau gouvernement. La France, par son Présidentet son ministre des Affaires étrangères, peut dès aujourd'hui rompre avec son attentisme coupable et mettre enfin ses actes au diapason de ses discours et de ses ambitions, au Conseil de Sécurité des Nation sunies ainsi que lors du Conseil Européen des 23 et 24 avril. Quant aux candidats, media et société civile, (2) ils doivent veiller, avec persévérance et intégrité, à ce qu'elle le fasse effectivement. (...)"
...
Será pela real relevância da posição francesa no mundo, ou porque eles constroem a sua relevância? Não é de forma leviana que chegados a um aeroporto francês somos convidados a ler a publicidade sobre às directivas do direito humanitário francês, ou se evoca a Declaração dos Direitos do Homem, ou há cartazes que investem no verbo reflectir, e utilizando-o para se pedir reflexão sobre políticas europeias. Estes fenómenos não se manifestam gratuitamente, há com certeza a vontade de continuar a estar no centro das decisões, de produzir ou conhecer as propostas que afectam a vida dos europeus. Não pode ser a periferia geográfica a explicar porque chego à Portela e vejo restos de anúncios sobre o Euro 2004.

A procura de sentido dos vivos e o sentido das opiniões fáceis sobre tudo e mais alguma coisa

O blogue "Poliblog" está a fazer um acompanhamento muito interessante sobre as notícias que vão sendo publicadas acerca do assassínio de 32 estudantes americanos.
Hoje comenta-se, no post Asininity on Parade, com Steven Taylor, o ridículo em que caiem todos aqueles que estão sempre a ensinar aos outros o que eles deviam ter feito quando esses outros se encontram em situações de perigo extremo e estes se encontram a escrever sentados às secretárias.
Às vezes apetece-me dizer o mesmo (ou não fosse eu uma moralista danada sentada à secretária...raios!).
"It was bad enough when a raft of individuals opined in public how the British sailors should have behaved while they were captured by the Iranians, now we have people opining about how people should behave when Hell comes to visits them in their classrooms."
por Dr. Steven Taylor

terça-feira, abril 17, 2007

três notícias três

1. Assassínio de 32 estudantes em Virgínia. Continuará a pensar-se que as críticas de Michael Moore são as de um histérico que não merecem reflexão?

2. Sócrates e o texto de inglês: Esta notícia não a percebo. Em que é que isto altera o que quer que seja no que a um sistema de ensino diz respeito, passado, presente ou futuro? Acrescenta alguma coisa ao facto de aquele ano académico naquela universidade ser questionável de um ponto de vista formal? E quem é responsável? Não é a universidade, na pessoa dos seus dirigentes, e os seus docentes que ali leccionam, que têm naturalmente que responder pelo tipo de aulas e de modalidades de avaliação que escolhem? O que há de notícia? O facto do trabalho ser enviado com um cartão com o timbre do Ministério do Ambiente? Mas se não houver uma cultura de alto funcionalismo público, que não há em Portugal, estas coisas, por falta de ética profissional, continuarão sempre a acontecer. Tivesse ele um funcionário de Estado com alta formação em serviço público a dar-lhe assessoria e aquele acto de vaidade seria tolhido à nascença. Mas não, é todo feito tendo como modelo de acção governativa o da camaradagem porreirinha de um clube só para homens, depois dá nisto.
3. Os portugueses e o referendo para a Comunidade europeia: Ora como há interesse e vontade.

A educação de um revolucionário: Lenine 4

São os livros que fazem os revolucionários? Ou os conservadores? Ou os democratas? Não, mas quase, quase. E daí?

“(…) a tentativa de conquistar o poder tal como foi preparada pela exortação de Tkachëv e realizada por meios de um terror “terrífico”, verdadeiramente terrífico, foi magnifica.”
N. Lenine, O que fazer?, 1901. (p 191).

Não parece haver algo de comum entre este pensamento do fim do século XIX e algumas teorias/acções do terrorismo islâmico?
Mas será a via do terrorismo tal como inicialmente o propuseram os socialistas-agrários russos, a via de acesso ao terrorismo dos extremistas hoje? Para Lenine era essa a tradição reconhecida como o meio mais efectivo de criar um estado revolucionário marxista. E para os líderes radicais religiosos? Não pode ser esta a porta de entrada para a fundamentação da sua acção. Demasiado conotada com um pensamento ateu, como era o marxista, para servir de exemplo. Qual será então o fundamento teórico?

Bom, Lenine depois de ler muito sobre ordens políticas passíveis de transformarem a sociedade através de uma revolução, de ler muitos livros de economia, muitos de direito e bastantes de filosofia, preocupou-se com o que havia finalmente a fazer. E publica um texto cujo título retirou de um romance de Tchernichevski, no qual avança com os postulados que deveriam conduzir à criação de um partido político marxista.

“E assim foi Que fazer? Que colocou Vladimir Ulianov perante atenção dos marxistas do Império Russo. Assinara o opúsculo como N. Lenine e foi como Lenine que quase toda a gente passou a conhecê-lo desde então.” p. 189

Solidão - apontamentos

Aqui há umas semanas, enquanto falava do bairro que ajudou a arquitectar, e que eu conheço desde que nasci, Nuno Teotónio Pereira pareceu-me cansado. Não sei porque me parecia, porque na verdade não o conhecia. Mas pareceu-me mesmo cansado. Não em relação a si mesmo, porque ideia de um si mesmo eu não tinha, mas em relação a uma ideia que eu faço do cansaço e da ausência deste nas pessoas. Não esse cansaço físico, ou impaciente, de quem anda muito ocupado com milhares de afazeres, mas um cansaço ao rés da respiração. A entrevistadora, enquanto deambulavam pelo Parque José Gomes ferreira, que teima em não querer deixar de ser a “mata” apesar das muitas e boas obras nele realizadas, ou pelas ruas do centro cultural, pelo estádio do INATEL ou pelos bairros residenciais que quadriculam a igreja de São João de Brito, procurava saber dele, da sua vida pessoal e profissional, perguntas a que o arquitecto se furtava com a atitude um homem simples a quem não lhe apetece ouvir-se falar acerca de si, mas antes falar dos outros que conheceu como mentores da construção do bairro, ou dos seus moradores.
Um homem cansado. Pensei: Estará doente? Desapontado? Lúcido como se está às vezes na vida? Reflectido, por essa viagem no tempo? Senti-o um homem solitário durante todo esse programa, sobretudo quando Ana Sousa Dias lhe perguntou mais ou menos o seguinte: “Lembra-se do primeiro 1º de Maio festejado aqui neste estádio? Esteve na tribuna com Mário soares, Álvaro Cunhal, entre outras grandes figuras, não foi?” Ouvia-se um restolhar linguístico. Respostas lacónicas e sumidas. E não eram por vergonha. Mas um grande cansaço de quem pensa: "Sim. E daí?"

Odete Santos saiu do parlamento ao fim de 26 anos como deputada do Partido Comunista. É normal. Talvez não o seja simbolicamente. Mas isso… O que mais me tocou foi vê-la, pouco tempo antes de fazer o seu discurso na Assembleia, a percorrer o parlamento acompanhada por uma equipa de reportagem da Sic Notícias. Tão absolutamente só. Não sei o que esperava. Na realidade, as pessoas que com ela se cruzavam eram simpáticas quanto baste, mas com aquele ar de simpatia que as pessoas dão ao demonstrarem estar muito ocupadas em pensar ou fazer outras coisas mais importantes. Todos sabemos como é. Uma simpatia do tipo: Eu estou aqui mas devia estar ali, e na realidade a minha cabeça até já lá está. “Olá, olá. Adeus, adeus.” Um beijinho, uma palmadinha nas costas, um relance para a câmara, um sorriso amarelo e toca a andar. Vinte e seis de anos de vida parlamentar intensa.
Levou consigo as palavras de uma cartilha que não reconheço como razoável enquanto proposta de uma ordem política. Mas também levou uma vida sem contemplações dissimuladas e avarentas em nome do seu interesse económico próprio. Não a vemos sair para um grande escritório de advogados, ou para administradora de uma empresa privada ou particular. Saiu sozinha. Para a poesia, talvez para o teatro, confessou em entrevista a Maria Flor Pedroso na Antena 1.

“Mas é difícil viver nestas cidades portuguesas” – disse-nos António Barreto. Sobretudo se as tivermos a comparar com as sociedades mais imaginadas que reais que visitamos quando em trabalho ou em férias. Mas há uma verdade insofismável naquele tom cansado do sociólogo quando falava do urbanismo português nas últimas décadas. A de cidades em eterna construção e que no entanto têm sempre prédios decrépitos, feios, em bairros e ruas mal organizadas, de construção barata que iremos todos pagar bem caro, como nos avisou o arquitecto convidado neste terceiro programa, na hora em que chegarem as obras de recuperação dos edifícios, e também quando chegarem os programas de recuperação de algumas das vidas de adultos que cresceram em bairros sem espírito, beleza ou utilidade.
...
Falam de universidades, de ensino. Há uma abissal falta de programação sistemática, ponderada e projectável no futuro, da ideia de sociedade. É como se Portugal não soubesse pensar por si, como se quem mais pressionar, mais ganha. Sem perspectiva a longo prazo. Sem ideias. Porquê?
Quem tem medo de utopias realistas fica a pespontar os remendos. Bom, é uma forma de vida.