"Alpargata no es zapato
Ni que le pongan tacón"
terça-feira, maio 29, 2007
la despedida rctv
Buenas Noches, Venezuela.
Hasta siempre Democracia.
Gracias A.
Um abraço de Portugal.
segunda-feira, maio 28, 2007
ensarilhada
Um dia fiz de cicerone a um filósofo americano que estudava e se interessava pelo conceito de acrasia. Bom, não sei se exausto pelas entradas e saídas de museus, de monumentos, ruas e vistas, ou se exausto pelas milhentas perguntas com que o bombardeei sobre o seu trabalho, ao fim do dia comecei a senti-lo inquieto. Pensei: “O homem já não deve poder mais com uma pergunta sequer e ainda fica com uma depressão qualquer, o melhor é ir deixá-lo ao hotel.” Alvitrei isso mesmo. “Que não – respondeu-me - Que estava bem, que…” Compreendi. Rumei ao casino do Estoril e expliquei-lhe tudo o que sabia sobre transportes para Lisboa e sobre as regras do “jogo”. Era para aí que tendia a sua vontade.
Na altura não deixei que nenhum sinal de ironia assomasse ao meu olhar. Nem hoje
sexta-feira, maio 25, 2007
“Tolerância Zero” para a problemática do tráfico de seres humanos. Só peca por não ter vindo mais cedo.
"Em Novembro de 2000, a Convenção contra a Criminalidade Organizada Transnacional e o
Protocolo Adicional Relativo à Prevenção, à Repressão e à Punição do Tráfico de Pessoas, em
especial de Mulheres e Crianças, das Nações Unidas, (aprovada por Portugal pela Resolução
nº32/2004 da Assembleia da República e ratificada pelo Decreto do Presidente da República
nº19/2004, de 2 de Abril) surge como o primeiro documento internacional com uma definição
clara de tráfico para fins de exploração. Desde então diversas organizações internacionais têm
trilhado novos horizontes no que diz respeito a uma abordagem mais integrada e eficaz no
combate a esta problemática.
Mais recentemente, o Plano de Acção da União Europeia sobre boas práticas, normas e
procedimentos para combate e prevenção do tráfico de seres humanos, adoptado em Dezembro
de 2005, (JO C 311 de 9.12.2005), apresenta uma tabela de áreas/acções a serem regularmente
revistas e actualizadas.
No contexto nacional, é importante referenciar as Grandes Opções do Plano – 2005-2009 - Principais
linhas de acção e áreas em 2005-2006 – em que é contemplado, na vertente específica do tráfico de
mulheres para fins de exploração sexual, para além de uma maior conhecimento sobre o
fenómeno do tráfico, a implementação de áreas de protecção e apoio às vítimas, bem como a
penalização dos/as prevaricadores.
4 – INVESTIGAR CRIMINALMENTE E REPRIMIR
Medidas
Investigar Criminalmente
1. Criação e implementação de um guia de registo uniformizado a ser aplicado pelas forças e serviços de segurança para as situações do tráfico de seres humanos MJ / MAI / PCM (ACIDI)
serviços domésticos e implementar mecanismos de cooperação entre a Autoridade para a Segurança Alimentar e Económica e as forças e os serviços de segurança MJ / MAI / MEI(ASAE) /MTSS
26
formação para as forças de segurança e profissionais da lei"
quinta-feira, maio 24, 2007
Djibouti ... e eu aqui tão ...
Fiquei a saber dos atentados no Líbano e, mais uma vez, no Iraque. Fiquei a saber dos bombardeamentos em território palestiniano, mas do Djibouti não sabia nada de nada.
quarta-feira, maio 23, 2007
sublimada democracia
Geralmente sento-me a ver televisão e não escolho nada.
A falta de confiança
Espiral de desconfiança que afecta cada um de nós e não convoca melhores práticas futuras.
A desconfiança não me parece capaz de promover por si uma melhor fiscalização sobre o trabalho e uma melhor reportagem de factos, promove um maior encerramento sobre si e uma maior agressivadade comunicacional dos envolvidos.
Ainda se fosse possível vislumbrar melhoria nos procedimentos. Ainda que não caíssemos numa eterna repetição do mesmo erro. Ainda que as instituições se reformulassem.
terça-feira, maio 22, 2007
Os macacos de imitação ou o registo da história
A filosofia e a religião, enfim, a história destes saberes e destas experiências de interpretação das realidades humanas, procuram encontrar uma resposta. Parecem slides de uma apresentação em data show. Há uma ligação entre os slides, claro, deve haver para que a apresentação tenha sentido, e ao mesmo tempo não há nem pode haver, porque são slides distintos que se sucedem num certo tempo a uma dada velocidade. As teorias, as respostas, seguem-se, acumulam-se em camadas geológicas, e às vezes confundem-se. O que há de mim, e dos outros no ser dos outros, é de uma natureza igual ou diferente? O que veio de fora e me suporta a mim agora é mais, menos ou igual ao que eu tenho de mim como sendo o mais perto de mim? Conheço-me melhor através do método de análise racional ou através do meu registo de memórias, ou através da sensação que descrevo? Mas eu só tenho uma linguagem para o dizer, faça eu o que fizer. O que siginifica que essa linguagem pode reinventar uma memória, sobre ou infra valorizar uma sensação, confundir-me enfim.
Esta busca por um critério de verdade que não me mostre só a mim mas que mostre a possibilidade de algo em mim ser comum a todos os outros é fundamental na acção pública ou é acessório? Se responder que somos diferentes, radicalmente distintos, e o que há que fazer para nos pôr em comum é procurar chegar a um acordo, que nunca é definitivo, que a todo o momento pode ser questionado e quebrado, o que nos espera senão uma existência consciente de que tudo não passam de perspectivas, e que tudo está em mudança, e que a todo o momento só se alcançam verdades provisórias? Há nesta fragilidade da verdade uma imensa liberdade, até para a liberdade de defender o mal. É uma democracia.
Se afirmar que somos radicalmente iguais, que as experiências limites, como as da morte, da dor, do êxtase ou a vontade de comunicar, nos universalizam, adormeço embalada pela ideia de uma comunhão que poderá provocar, pelo conforto de pertença a uma comunidade, a inacção ou a adesão acrítica a certos valores que podendo ser culturais se apresentem como válidos e não sujeitos a correcção, o que me submete a tudo para o legitimar, até a suportar o mal. É o primado de uma autoridade.
Certas pessoas passaram pela minha vida e a muitas esqueci-lhes o nome, até a existência, sem querer ou deixar de querer, acho eu, outras parecem-me existir como existentes na vida de alguém que me falou delas, como se de uma experiência em segunda pessoa se tratasse, outras, estão a meu lado, mesmo se fisicamente ausentes para sempre, e há ainda outras que vou descobrindo terem existido para mim mas aparecendo agora como se através dos livros que leram, pois falavam como se fossem personagens desses livros. Não era que citassem os autores, ou as personagens, não, diziam e assumiam aquelas ideias e palavras como se fossem elas próprias. Ou pelo menos eu assim o interpretei. Vá.
Por exemplo, uma das pessoas mais importantes na minha adolescência, uma amiga da minha idade, mas muito mais sábia que eu, costumava dizer-me: “Conheces as pessoas pela biblioteca que elas têm.” Eu brincava dizendo: “No meu caso então têm que ir ver a tua biblioteca primeiro”. Eu admirava-lhe a verve, a inteligência, a argúcia e o conhecimento. Um dia destes, estando a ler a biografia de Estaline de Simon S. Montefiore deparei-me com essa expressão que o autor atribui como sendo utilizada por Estaline.
Não é pela importância que eu devia saber que o marxismo estalinismo tinha na vida dessa amiga e que de todo não tinha na minha, o que de certa forma sempre me tornou uma espécie de excrescência intelectual na sua vida, uma anormalidade explicada pela amizade, talvez, mas sim por eu não saber como é que o saber se construía então, e como, por omissão, podemos não mentir mas também não dizer a verdade sobre nós. Como se de forma consciente, ou inconsciente, borboleteassemos à volta de ideias, sentimentos, gestos e palavras que de todo não nos pertencem mas que são mais nós que qualquer outro nós dito por nós. Tenho a certeza que também a frase não deve pertencer a Estaline, e que se encontrará na história outro percursor ilustre ou nem por isso que a deixou registada. Mas então onde ficará a originalidade na existência de cada um de nós, os que não somos génios, nem criadores exímios? O que eu digo, escrevo, prefiro, toco e vivo é meu porque me diz, porque o adoptei como meu, ou é de tanta gente que eu não passo de uma macaca imitadora? E se o for, tenho a obrigação de o saber e de o dizer (passaria a vida a abrir aspas) ou devo esquecer-me da história e apropriar-me em mim do que é dos outros fazendo-os eu?
segunda-feira, maio 21, 2007
Dever/prazer
domingo, maio 20, 2007
Percepções
Dizer mal de alguém ainda dá mais trabalho. O esforço que é necessário para não gostar de alguém extenua-me. Na vertigem da maledicência, que aprendi como quem aprende a fazer croché para passar um tempo e arranjar mais um quadrado para uma mortalha, rebenta-se de fel a minha alma. E tudo isto com a etiqueta de que é preciso não gostar muito para saber como gostar muito. Pois sim. Mas também, o gosto de quem gosta com indiferença é o quê? O gosto pela indiferença ou pela diferença indiferentemente? Nem quero saber.
quarta-feira, maio 16, 2007
Mulheres em política
Acção política
terça-feira, maio 15, 2007
A ONU e o Zimbabwe
Dua Khali. E onde estavas tu, Cristo, que não ali entre aquela multidão? Bastou só aquela vez com Maria Madalena?
A fotografia, pouco clara, mostra Dua deitada de lado, com o comprido cabelo espalhado pelo chão, os braços encolhidos junto do tronco. Está já, nessa fase do seu assassínio, com a roupa interior à mostra. Mas o que importa a falta de respeito pelo seu pudor quando Dua Khali está ali a ser assassinada pelos homens a quem pertencem aqueles pés junto dos quais ela se encontra já caída. São homens que lhe atiram pedras, uma a seguir à outra, as que que acharem precisas até ela expirar. A violação da sua existência vai-se repetir pela eternidade do tempo fotográfico, de um registo fotográfico, mas ao menos a sua fotografia fala em nome das muitas mulheres e meninas que morrem no mundo sem sequer terem direito ao registo e ao nome impresso, sem sequer poderem ser pranteadas por desconhecidas.
Dua Khali era uma menina de dezassete anos que namorou com o homem errado segundo os padrões da sua família. Sei que há outras mulheres a serem mortas no mundo por aquilo que os antropólogos gostam de chamar “formas de vida culturalmente alternativas”. Sei que me esqueço vezes demais disso mesmo, sentada que estou no meio deste meu pequeno círculo pequeno de existência. Esqueço-me tanto das mulheres por tão fascinada que estou com o conceito de pessoa. Por isso só posso afirmar que a minha convicção em valores universais não esmorece, e que é por isso que eu estudo ideias.
segunda-feira, maio 14, 2007
"O ministro TV Guia (II)" ou a história da Entidade para a Regulação Social
domingo, maio 13, 2007
"Quebrar a espinha", a prática do déspota.
O orgulho no trabalho de um quase, quase, licenciado
sábado, maio 12, 2007
Discursos assassinos
sexta-feira, maio 11, 2007
Preconceito e combate entre instituições que deviam orientar-se na mesma direcção: ajudar crianças em perigo
Já aqui escrevi sobre o facto dos protocolos de investigação criminal relativo a casos de crianças desaparecidas poderem e deverem ser questionados. Que muito se ganha com a colaboração de especialistas internacionais da matéria, que há no sistema legal alterações a fazer, e muitas, no que a casos relacionados com crianças diz respeito, mas emitir este tipo de suspeitas sobre os operacionais portugueses? Esta insinuação que atinge rasteira o sistema judicial português, quem ganha com isto? As crianças?
We can read that on Times:
Homayra Sellier said after Madeleine's disappearance last week that Portugal is a country in which “the corruption has gone so high that there's nothing we can do”.
“The fact that the girl (Madeleine) was kidnapped from her bed shows how bad things are.”
What?!! Where are the facts of what has been said? How can someone with responsibility declare something like that?
quinta-feira, maio 10, 2007
Por um Tibete livre e independente
Sim
Sim
...
O discurso, a acção e os cidadãos
quarta-feira, maio 09, 2007
Sete falácias ou incompreensões sobre a democracia por David Beetham
Democracy means majority rule
One size fits all democracies
Democracy equals a market economy
Democracy in one country
Democracy versus the courts
‘Demos’ versus ‘cosmos’
Democracy is whatever ‘democracies’ do
International IDEA Handbook on Democracy Assessment.
• To realise these principles in a modern society requires three main conditions: a framework of guaranteed citizen rights, a system of representative and accountable political institutions subject to electoral authorisation, and an active civil society (paras. 9-19).
• Since majority rule is not always or necessarily democratic, special institutional provision
may have to be made for protecting the basic rights of minorities, and ensuring them a due
share in political and public office (paras. 22-27).
• Although democracy has historically been associated with a market economy, the free market
has significant negative consequences for human rights and democracy, which government
action is needed to mitigate (paras. 28-31).
• Since such action can be readily frustrated by the policies of international bodies and
transnational corporations, the former need to be made more representative and accountable,
and consideration be given to making the latter subject to human rights and environmental
standards and regulation (paras. 32-35).
• Independent enforcement of human rights by the courts against a democratically elected
government is not undemocratic, especially where these rights have been endorsed by
popular referendum as well as by the legislature (paras. 36-39).
• Dealing with threats to democracy without compromising human rights or democratic processes is one of the most difficult challenges facing democracies today (paras. 40-41).
• Although democracy requires an agreed ‘demos’ or people enjoying exclusive rights of citizenship, the standards against which its rights and institutions are to be judged have become increasingly internationalised (paras. 42-47).
• Democracy is not an all-or-nothing affair, but a matter of degree, and any country’s
institutions and practices can be assessed to discover the extent to which democratic
principles are realised within them (paras. 48-49).
• Because democracies in practice involve a compromise between popular forces and existing powers, the process of democratisation is never complete (paras. 50-51)."
segunda-feira, maio 07, 2007
A educação de um revolucionário: Lenine 6

2. Outro ponto negativo, nesta excelente biografia, é a tese da indiferença de Lenine para com o destino da família real russa (assassinada sob o seu governo), mas também para com algumas classes consideradas burguesas (industriais, bancários, agricultores ricos, religiosos, mas também médicos, professores, intelectuais, etc.), como sendo um pressuposto não só teórico e preconizado na literatura marxista (que defendia a luta de classes como um momento necessário na conquista da sociedade comunista), o que está certo do ponto de vista da análise, mas também como resultado de uma certa vingança pessoal contra a família do Czar (que condenara à morte o seu irmão) e contra as classes dos indivíduos que na sociedade de Simbisk ostracizaram a sua família após esse trágico acontecimento. Parece-me difícil comprovar esta tese sem que Lenine o tenha reconhecido ou disso deixado provas.
...
Julgo que o facto de haver uma teoria, que se tornou uma crença para Lenine, que defendia a possibilidade de se realizar na terra uma sociedade perfeita de convívio social e económico entre os homens, mesmo que isso implicasse a destruição da ordem presente por um mundo novo após uma luta de classes e sem se deter em questões de moralismos políticos, foi a pedra de toque de todas as suas acções, coadjuvadas com as circunstâncias históricas. Ele era um teórico, aplicou a sua teoria à realidade, mas também se adaptou a ela quando precisou de criar a sua polícia secreta, a Tcheka, para perseguir dissidentes, ou quando inverteu as resoluções teóricas do marxismo económico com a criação do seu plano de uma "Nova Política Económica" quando percebeu que não só os camponeses mas toda a sociedade estava a ponto de se rebelar, pondo em causa o próprio processo revolucionário.
domingo, maio 06, 2007
Teoria e prática

Não sei quantas vezes é preciso os erros acumularem-se para alguém mudar as práticas e os protocolos. Quanto mais tempo? Bom, parece que com o desaparecimento da pequena Madeleine, por pressão da comunicação social, ou por lúcido entendimento das chefias policiais, a absurda regra das 48 horas foi quebrada. Por bem, espero que crie um precedente na prática criminal e se torne uma teoria que equilibre tudo o que é excessivamente forjado num sentido de planeamento alheado da realidade, com uma pronta resposta institucional que contudo não pode ser a do tempo emocional. Como encontrar o equilíbrio? No trabalho quotidianos de profissionais, responsabilizados.
Reprodução de um poster de Escher "Other World".
sexta-feira, maio 04, 2007
ASTRÓNOMOS DESCOBREM O PRIMEIRO PLANETA HABITÁVEL

Quem serão os primeiros a deixar o planeta?
quinta-feira, maio 03, 2007
O jogo democrático é um combate de ideias: os franceses no seu meio.
Le jeu démocratique est un combat d’idées. Le débat d’hier soir était à la hauteur d’une démocratie. Aux Français désormais de choisir."
• Anna Karla •
Exorcismos contra periódicos versus Liberdade de Imprensa

"3 MAIO – Dia Mundial da Liberdade de Imprensa Exorcismos contra Periódicos e outros Malefícios, assim se intitulava o libelo que o Padre José Agostinho de Macedo escreveu em 1821 visando os jornais que proliferavam pelo país. Criados como os cogumelos depois da Revolução de 1820, os jornais eram vistos pelo autor como uma praga, cujo dano era comparável ao que “o Pulgão causa ás vinhas do alto, e do baixo Douro, e de toda a parte”. Para assinalar o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, a 3 de Maio, a Hemeroteca Digital coloca em linha esta raridade bibliográfica, criando uma nova secção, com o mesmo título, destinada à difusão de obras pouco conhecidas, de difícil acesso, mesmo nas bibliotecas, e há muito caídas em domínio público. O paradoxo da edição desta obra na Internet no dia em que se assinala a liberdade de imprensa é aparente pois o que estes Exorcismos traduzem mais não é do que a importância que os jornais sempre tiveram na formação de uma opinião pública crítica e informada e no debate de ideias. Uma leitura incontornável. "
quarta-feira, maio 02, 2007
História da religião e das suas guerras

A minha cidade é assim
terça-feira, maio 01, 2007
A educação de um revolucionário: Lenine 5
“Lenine formara a sua visão do mundo durante as duas últimas décadas do século XIX, e após 1900 não surgiu nenhum pensador que ele admirasse. (…) Mas tinha uma filosofia intelectual estabelecida. Carlyle, Freud, Kierkegaard, Le Bon, Michels, Nietzsche e Weber eram ignorados, totalmente ou quase, nas suas obras (embora viesse a ter o Assim falou Zaratustra de Nietszche na sua estante do Kremlin). A sua preocupação era alargar e aprofundar o seu conhecimento de Marx, Engels, Plekhanov e Kautsky". (p.268)
Podemos então dizer que estas leituras fazem o revolucionário? Não, seria ridículo. Explicam alguma das orientações de Lenine, mas não justificam as suas tomadas de posição. Porque na história do intelectual Lenine havia a questão da motivação. Porquê ler estes autores e transformar-se num revolucionário e não num democrata, ou porquê não contemplar obras críticas que se opusessem a esta teorias? Service avança com duas teorias: Estas leituras seguiam no pressuposto iluminista de uma razão triunfal que devia ser posta ao serviço do progresso, por um lado, e, por outro, ele estaria a cumprir um desígnio de vingar a morte do seu irmão. Tenho dificuldade em aceitar este tipo de explicações. As motivações só podem ser explicadas pelo próprio, ou por alguém que tenha acesso a manifestações suas que possam ser claramente decifradas. Tudo o mais é ficção.
Então o que explicará as opções de Lenine? Os livros que leu e os autores que escolheu? Mas as leituras da mesma obra podem ter múltiplas interpretações, e o próprio Service nos diz que Lenine “Tinha ideias peculiares suas. Mas apresentava-as agressivamente como sendo a mais pura ortodoxia” (p. 176). Portanto quanto ao ele estar a seguir ortodoxamente a teria marxista estamos falados. Mas então o quê? O contexto familiar, histórico e cultural? São muitas variáveis para definir um comportamento. Robert Service prefere fazer cruzar a variável cultural (história de uma família profundamente crente nas faculdades cognitivas, na ilustração, como meio de evolução da pessoa e da civilização), a variável personalidade (a morte do irmão revolucionário por ordem do Czar que ensombrou a sua vida de adolescente protegido e cuidado), com a variante intelectual (Lenine era um intelectual agudo e um leitor ávido, ainda que orientado numa linha de interpretação marxista da realidade). Percebe-se bem as leituras de Feuerbach e de Hegel, mas é interessante a sua necessidade da leitura de Aristóteles. Apesar de tudo um crítico forte do regime democrático desde o século IV a C.
Assim, as ideias que se lêem consubstanciam o pensamento do indivíduo, ou o indivíduo lê para justificar o que pensa?
[1] Era o seu irmão.
domingo, abril 29, 2007
Direitos económicos, sociais e culturais
sábado, abril 28, 2007
vinte e cinco de Abril
O hospital é grande, harmonioso mesmo, visto do exterior. Depois entra-se na zona da emergência e temos um choque emocional. Quem visitar os pacientes no SO de Faro submerge numa atmosfera de cenário de um filme de clínicos a trabalharem numa situação equivalente ao que nos é dado imaginar ser uma situação de atendimento médico após catástrofe. E que, ali, é a situação corrente de atendimento. Muitos mo confirmaram.
Não pode ser explicação suficiente, aquela que nos é dada no cartaz que à entrada das urgências avisa que o hospital está a proceder a obras para instaurar o sistema de atendimento segundo o método de Manchester. Não pode ser essa a explicação para o facto dos visitantes terem que passar entre três filas contínuas de macas que se aglomeram no hall, seguindo depois por um corredor com friso duplo de mais doentes em macas, isto enquanto andam à procura do seu familiar ou amigo. Nesse caminho vêem-se médicos a tirarem sangue ao seu paciente, ao mesmo tempo que passamos a seu lado evitando procurar tocar-lhes, vemos outros a passarem em grande velocidade ziguezagueando entre nós e as macas a caminho de não sabemos onde. Espreitamos para a sala de ressuscitação e vemos mais dois médicos a darem consulta a um número igual de doentes, não vislumbramos muitas vezes ali, nos corredores pejados de doentes, um auxiliar que seja ou um enfermeiro a quem perguntar a direcção, e não sabemos assim como encontrar quem procuramos. Deambulamos perdidos, procurando respeitar a intimidade de quem ali está exposto aos olhares de quem passa, mas não podendo evitar fisicamente a invasão desse espaço.
Há um médico jovem, com um sorriso fácil, que ainda não aprendeu as manhas de fugir aos bloqueios que os familiares desorientados lhe fazem com o intuito de obter informações. Às vezes faz cara feia e diz com o ar de atarefado de quem realmente o está:”Eu não sou o médico desse/a paciente, mas vou chamar o/a colega que lhe poderá dar assistência”, e desaparece. Até uma próxima vez que ali passar. Na sala de imagologia estão nessa hora cinco doentes. Estão sob observação constante. São doentes em estado grave. Quase em cima uns dos outros, homens e mulheres. Uma delas geme alto e ininterruptamente. Outra, com o ar gracioso de um ser alado, uma idosa de olhos doces e tão magra que diríamos quase não ser, acena-nos com a mão e pede-nos baixinho para fazermos o favor de chamar um/a enfermeira. Só podemos tentar encontrar alguém. “Mas não há uma campainha para chamar assistência? - podemo-nos perguntar irritados, enquanto tentamos manter o sorriso.” Os homens, aqueles, estão calados, imóveis, respiram com dificuldade. Um deles, de etnia cigana, vindo de São Brás de Alportel, tem à porta do hospital bem mais de duas dezenas de familiares e amigos de todas as idades que ali se reuniram para saber notícias, para aguardar por ele. Depois a saída dessa dura realidade circundante e velamos, à vez, pelo nosso paciente, uns minutos.
Em todo o barlavento algarvio não há um aparelho para fazer uma TAC ou uma hemodiálise a não ser em Faro. O hospital de Lagos é pouco mais que um Centro de Saúde com serviço de urgência, com médicos que mudam constantemente e que não conhecem os doentes. Em Portimão também não há todos os meios de diagnóstico, e os doentes mais graves são enviados então para a capital de Distrito que fica, em alguns casos, a mais de oitenta quilómetros de casa, sendo que não há nenhuma possibilidade de se obter informações dos doentes internados em SO pelo telefone. Morre-se. Naturalmente. Sem sarcasmo. Mas sem esse cuidar dessa última hora existencial nesse hospital de Faro. Não ponho em causa as competências dos seus profissionais, a assistência médica, mas o descuidar, por indiferença ou por impotência, do espaço em que estão os mais graves dos doentes algarvios. Acuso a administração do hospital, as suas chefias, e o Ministério, por manterem aquela urgência como está. Nada pode justificar aquele caos. É assim em Abril, imagino, com horror, o que acontecerá no Verão.
Depreendo que um dia abrirão ali um clone do Hospital da Luz. Façam os privados o que quiserem com o seu dinheiro. Mas não à custa do dinheiro público e da apropriação dos deveres de um Estado que recebe impostos para gerir os assuntos públicos. Por isso não façam as administrações públicas o que quiserem com o dinheiro público. Porque não pode ser por falta de dinheiro (constrói-se rapidamente e bem em Portugal quando se quer), e a prová-lo está o estádio de Faro ali bem perto e completamente inutilizado.
No dia em que o orçamento for cumprido à custa radical dos cortes na educação e na saúde, o Estado passa apenas a ser um sugador de impostos. Um estado medieval, um estado que espolia. Um estado que ninguém respeita porque não respeita ninguém. O fim do estado.
sexta-feira, abril 27, 2007
25 de Abril
Que Estado se quer a partir dos lugares, e dos privilégios, desse outro Estado que se quer abandonar? Como ignorar este acto de reparação de um navio quando ele está em alto-mar? E quem tem as coordenadas para o cais de reparação?
Quem é o dono da festa? Que rituais de celebração está "ele" disposto a partilhar?
quinta-feira, abril 26, 2007
O dia vinte e cinco de Abril de ontem, vai ter que ficar para amanhã
terça-feira, abril 24, 2007
a excelência na cidade
Abstracções e exemplos concretos, o exemplo concreto e a abstracção. Não há porque escapar.
Disse aos meus alunos utilizando outras palavras mas significando elas que eu entendia que o professor Librescu procurou atingir verdadeiramente a arete que a antiguidade grega terá posto como objectivo de toda a educação. Atingiu pois a virtude por uma acção baseada no saber humano. Respondeu-me a Lígia: “Também… já viu que idade ele tinha? Não lhe custou assim tanto.” Eu ri-me. Não consegui impedir-me. Depois disse-lhe brincando seriamente: “Diz a Dona Lígia do alto dos seus vinte anos arrogantes, não é?”
Ficámos todos mais uns minutos a discutir os critérios que podem definir um acto de heroísmo, e chegámos à conclusão de que não é por se ter mais idade que se é mais corajoso, mas que a idade poderá trazer mais sabedoria, a qual, se aliada à coragem, pode transformar-se em manifestação de um acto heróico. Isso antes de encerrarmos o assunto e avançarmos com algumas teses sobre as ligações de interesse entre a política, o capital e a ciência.
Não lhes falei do castigo que os gregos diziam ser fatal cair sobre todo aquele que agisse ou proferisse palavras carregadas de Hubris, porque isso ainda vinha mais a despropósito.
“O Estado do séc. V é assim o ponto de partida histórico necessário do grande movimento educativo que imprime o carácter a este século e ao seguinte, e no qual tem origem a ideia ocidental de cultura. Como os Gregos a viram, é integralmente político-pedagógica. Foi das necessidades mais profundas da vida do Estado que nasceu da educação, a qual reconheceu no saber a nova e poderosa força espiritual daquele tempo para a formação de homens, e a pôs ao serviço desta tarefa.”
segunda-feira, abril 23, 2007
Um homem sem voto
Deve ser por me sentir perante essa dor como perante uma nudez absoluta desse outro, a qual reclama, em contrapartida, a minha absoluta nudez. Nudez de que me falava um livro de que desgostei imensamente mas que não esqueci, um livro de William Reich. Li-o há umas duas décadas atrás, para uma aula de psicologia no liceu. Chamava-se o livro Escuta, Zé Ninguém!
Já nem me lembro porque não gostei então do Escuta, Zé ninguém! Deve ter sido um tom, uma estridência, terá sido pois pela forma que se terá afectado a minha consciência estética, ou lá o que quer que tivesse sido, porque o conteúdo, é inegável, impressionou-me até ao ponto de eu hoje reclamar a sua presença para explicar a minha ausência nestes últimos dias.
“Mas eu entendo-te. Vezes sem conta te vi nu, psíquica e fisicamente nu, sem máscara, sem opção, sem voto, sem aquilo que faz de ti “membro do povo”. Nu como um recém-nascido ou um general em cuecas.” p. 22
Mas quando vemos os outros sem máscara, sem opção, nos limites dos limites das suas forças e da suas existências, que máscara não estaremos nós a depor também? Quando nem a razão ou a intuição nos ditar o que fazer perante o inadiável dos inadiáveis com longo caminho pelo sofrimento, o que podemos fazer-lhes?
domingo, abril 22, 2007
Esperança/Desprendimento
quarta-feira, abril 18, 2007
Discussão política fora da paróquia: ou como se faz análise em campanha e em França
Por Jean-Etienne de Linarès, Jean-Marie Fardeau e Sharon Courtoux
LIBERATION.FR : 9 de abril de 2007.
A procura de sentido dos vivos e o sentido das opiniões fáceis sobre tudo e mais alguma coisa
terça-feira, abril 17, 2007
três notícias três
A educação de um revolucionário: Lenine 4
“(…) a tentativa de conquistar o poder tal como foi preparada pela exortação de Tkachëv e realizada por meios de um terror “terrífico”, verdadeiramente terrífico, foi magnifica.”
N. Lenine, O que fazer?, 1901. (p 191).
Não parece haver algo de comum entre este pensamento do fim do século XIX e algumas teorias/acções do terrorismo islâmico?
Mas será a via do terrorismo tal como inicialmente o propuseram os socialistas-agrários russos, a via de acesso ao terrorismo dos extremistas hoje? Para Lenine era essa a tradição reconhecida como o meio mais efectivo de criar um estado revolucionário marxista. E para os líderes radicais religiosos? Não pode ser esta a porta de entrada para a fundamentação da sua acção. Demasiado conotada com um pensamento ateu, como era o marxista, para servir de exemplo. Qual será então o fundamento teórico?
Bom, Lenine depois de ler muito sobre ordens políticas passíveis de transformarem a sociedade através de uma revolução, de ler muitos livros de economia, muitos de direito e bastantes de filosofia, preocupou-se com o que havia finalmente a fazer. E publica um texto cujo título retirou de um romance de Tchernichevski, no qual avança com os postulados que deveriam conduzir à criação de um partido político marxista.
“E assim foi Que fazer? Que colocou Vladimir Ulianov perante atenção dos marxistas do Império Russo. Assinara o opúsculo como N. Lenine e foi como Lenine que quase toda a gente passou a conhecê-lo desde então.” p. 189
Solidão - apontamentos
Odete Santos saiu do parlamento ao fim de 26 anos como deputada do Partido Comunista. É normal. Talvez não o seja simbolicamente. Mas isso… O que mais me tocou foi vê-la, pouco tempo antes de fazer o seu discurso na Assembleia, a percorrer o parlamento acompanhada por uma equipa de reportagem da Sic Notícias. Tão absolutamente só. Não sei o que esperava. Na realidade, as pessoas que com ela se cruzavam eram simpáticas quanto baste, mas com aquele ar de simpatia que as pessoas dão ao demonstrarem estar muito ocupadas em pensar ou fazer outras coisas mais importantes. Todos sabemos como é. Uma simpatia do tipo: Eu estou aqui mas devia estar ali, e na realidade a minha cabeça até já lá está. “Olá, olá. Adeus, adeus.” Um beijinho, uma palmadinha nas costas, um relance para a câmara, um sorriso amarelo e toca a andar. Vinte e seis de anos de vida parlamentar intensa.
Levou consigo as palavras de uma cartilha que não reconheço como razoável enquanto proposta de uma ordem política. Mas também levou uma vida sem contemplações dissimuladas e avarentas em nome do seu interesse económico próprio. Não a vemos sair para um grande escritório de advogados, ou para administradora de uma empresa privada ou particular. Saiu sozinha. Para a poesia, talvez para o teatro, confessou em entrevista a Maria Flor Pedroso na Antena 1.
“Mas é difícil viver nestas cidades portuguesas” – disse-nos António Barreto. Sobretudo se as tivermos a comparar com as sociedades mais imaginadas que reais que visitamos quando em trabalho ou em férias. Mas há uma verdade insofismável naquele tom cansado do sociólogo quando falava do urbanismo português nas últimas décadas. A de cidades em eterna construção e que no entanto têm sempre prédios decrépitos, feios, em bairros e ruas mal organizadas, de construção barata que iremos todos pagar bem caro, como nos avisou o arquitecto convidado neste terceiro programa, na hora em que chegarem as obras de recuperação dos edifícios, e também quando chegarem os programas de recuperação de algumas das vidas de adultos que cresceram em bairros sem espírito, beleza ou utilidade.

