segunda-feira, julho 30, 2007

o universal e o particular. A teoria e a prática.

"Deves tratar deste modo um amigo, um concidadão, um companheiro." - Porquê? - "Porque é de justiça."
Ora todos estes casos particulares são-me proporcionados pelo estudo do que é a "justiça": através deste verei que a equidade é algo que, em si mesmo, devemos procurar, que não somos coagidos a ela pelo medo nem atraídos por prémios, e que não é justo quem, na prática desta virtude, tem outro objectivo para lá dela mesma. Se eu me tiver apercebido e embebido desta verdade, se eu já souber esta lição, para que me servirão os preceitos? Ministrar preceitos a quem já conhece a teoria é supérfluo, a quem ainda a ignora é insuficiente, porquanto não basta conhecer os preceitos, é necessário saber igualmente a respectiva razão de ser. Pergunto eu: os preceitos são necessários a quem possui uma opinião correcta sobre o bem e o mal, ou a quem não a possui? Quem a não possui nada beneficiará com os teus conselhos, já que tem os ouvidos atentos à opinião do vulgo, a qual é contrária à tua. Quem já possui uma noção correcta do que devemos evitar e procurar, esse sabe muito bem como há-de agir, mesmo que se lhe não diga nada. " (p. 482 do livro Cartas a Lucílio)
Assim argumentava Aríston.

Respondia-lhe Séneca, o filósofo das exortações e dos conselhos, mestre e conselheiro do imperador Nero, essa alma que acabou por escapar aos conselhos/preceitos do seu pedagogo.

"Eu admito que, por si só, os preceitos não sejam eficazes para corrigir as convicções falsas do nosso espírito; são todavia, úteis, desde que aliados a outros métodos. Por um lado avivam a memória; por outro, questões que, vistas na globalidade, podiam parecer confusas são entendidas com maior clareza quando encaradas separadamente. Se assim não fosse teríamos de considerar supérfluas as consolações e as exortações; ora nem umas nem outras são supérflua; logo, os conselhos também o não são." (p. 485)

segunda-feira, julho 23, 2007

A paixão por um líder 2

A adesão a uma ideia, a uma acção, a uma pessoa assenta em que tipo de crença numa necessidade, ou em que tipo de necessidade transformada depois em crença? Lakoff envereda pela explicação mais simbólica/psicológica que se desenvolve à volta da ideia de parentalidade que cada um de nós viveu ou aspira viver: a ideia de pai autoritário mas protector ou a ideia de família organizada para se apoiar entre si de forma solidária. E de certa forma parece que na história da sociedade estes dois modelos, e seus diferentes graus de existência, explicam a identificação a ideias ou pessoas que mudando no acessório (origem, aparência, linguagem) corresponderiam sempre a um determinado arquétipo presente na sociedade sobrevivendo nas diferentes mutações históricas como uma mesma identidade, logo reconhecível por todos mesmo quando se apresenta sob uma forma revolucionária: completamente outra pela transformação operada.
Mas esta explicação da identificação a algo ou alguém a partir do tipo de socialização que se faz deixa ficar onde a capacidade de racionalizar e de deliberar racionalmente sobre uma questão de forma autónoma?

sábado, julho 21, 2007

A paixão por um líder

Há uma certa paz na descrição, nesse acto que suspende o vício da complacência ou o ímpeto enfadonho e frequentemente mesquinho do contínuo ajuizar sobre o comportamento dos outros, mesmo com a explicação de que os outros são figuras públicas a precisarem de ser ajuizadas. Na descrição pode haver um despojamento emotivo que suaviza a personalidade. Descreve-se um último livro que se acabou de ler, ou o último filme visionado. Com o mínimo de adjectivos possíveis. Um bálsamo, uma qualquer discrição de um eu demasiadas vezes demasiado consciente de si, como se essa consciência dissesse a verdade da pessoa.
Terminada, finalmente, a leitura da biografia de Estaline. Na cabeça uma pergunta: Por que é que os potentados não mataram Estaline?
Na realidade, os companheiros/servidores de Estaline podiam tê-lo morto na última década da sua vida, eram assassinos experimentados, tinham oportunidade física, e sabiam que sobre a sua cabeça, e as das suas famílias e amigos, pendia a espada ou a sempre iminente exclusão do poder, porque não o fizeram então? A pergunta também é feita no excelente livro de Simon Sebag Montefiore, mas, único reparo que eu faço à obra, a resposta não me parece suficiente para descrever a pessoa de Estaline.
Escreve Montefiore na p. 620: ”Os quatro últimos homens de pé decidiram (Molotov, Mikoian, Khrushchev e Béria), segundo o filho de Béria, “não permitir que Estaline os atirasse uns contra os outros”. Por vezes, o Vozhd (Estaline) perguntava aos Quatro: “Estão a formar um bloco contra mim?” Num certo sentido estavam, mas nenhum deles, nem sequer Béria, tinha a força de vontade necessária. Mikoian discutiu provavelmente com Molotov, o assassínio de Estaline, mas, como mais tarde disse a Enver Hoxha: “Desistimos da ideia por recearmos que as pessoas do partido não compreendessem.”
Ora porque não iriam compreender as pessoas do partido? Montefiore não explica. Deduzo que este falta de explicação seja intencional nesta rigorosa biografia. Montefiore procura apresentar Estaline, como qualquer outra figura históricoa que cruzou o seu caminho, num plano estritamente descritivo da personalidade e das suas acções, e não quis entrar numa linha de investigação que iria embocar em explicações pouco racionais dos comportamentos que definiam os apoiantes de Estaline, com o intuito, talvez, de não contribuir para a mistificação/divinização da figura. Mas a verdade é que esta personagem histórica, como outras, puseram-se a si próprias num plano superior ao da humanidade (pelo intelecto, pela acção estratégica, mas também por carisma e capacidade psicológica de darem de si uma imagem de excelência e superioridade humana que, aliada a uma grande narrativa ideológica, transforma a pessoa histórica numa figura divinizada). Parece-me que o temor dos correligionários por Estaline era o terror de saberem que apesar das políticas, dos planos económicos centralizadores, das perseguições, do terror e da morte sofridos arbitrariamente por milhões de pessoas, ele era uma figura na qual se acreditava, a qual se seguia, a qual se respeitava. E esta contradição, quando se quer ser objectivo na análise, não é fácil de explicar, senão mesmo difícil de compreender racionalmente, porque remete para o campo das emoções, das adesões a crenças ou a pessoas que, diz a razão pública, serão sempre pouco recomendáveis de um ponto de vista do que se quer para líderes da acção pública. Mas se não houver um esforço para compreender a paixão por Estaline não se conseguirá compreender, por exemplo, a paixão por figuras deste tempo que, também elas, entram em rota de colisão com os valores racionais do processo electivo, cíclico, de gerir a vida pública. Paixões a prazo pelos líderes na vida democrática versus paixões derradeiras e intemporais. Ou a lição da história humana versus a crença numa ilusão de liderança intemporal.

terça-feira, julho 17, 2007

interesse público e desinteresse privado

Alguns analistas já tinham avisado: logo na noite das eleições vão-se contabilizar cabeças, vão-se sentir desafiados nos seus lugares os líderes e os candidatos. E eu esperava que não, que nessa noite ir-se-ia falar dos projectos que tinham, ou não, merecido a atenção e aprovação dos eleitores lisboetas. Que se ia enunciar propósitos, reiterar planos, sublinhar intenções, mudar perspectivas, enfim, discutir as ideias que deviam ter estado, ou sobre as que de alguma forma estiveram, em discussão e que depois se procurariam aplicar pelos ganhadores e fiscalizar pelos adversários com responsabilidades directas porque eleitos vereadores. Ilusão, pensei eu. Ou não, sei eu. Como se não se soubesse já. Como se de repente algo de extraordinário acontecesse. Mas o que havia de extraordinário a acontecer quando sabemos que o que não é expectável não é da ordem da normalidade democrática?

Depois também erro, historicamente, noutra forma de pensar que me caracteriza. E nisso concebo a teoria de Rorty a ajuizar-me. Se passo o tempo a pensar na real possibilidade de se conduzirem os assuntos públicos sob a forma de discussões conduzidas em comunidades racionais, ao limite pensadas como ideais, e que manifestam a existência de valores universais e incontornáveis na regulação da ordem social, esqueço-me do papel dos indivíduos, da diferença no papel desempenhado por diferentes indivíduos para o mesmo assunto. É nesta inquietante situação que nos encontramos como cidadãos. Por um lado quero a esfera dos princípios universais, na lei e em quaisquer outros procedimentos que formalizam as relações sociais em geral e as de poder em particular, por outro lado todas as páginas da história mostram que os mesmos procedimentos e os mesmos princípios podem ser experimentados e dados a experimentar de formas distintas. Não ajuda nada, se quisermos um critério “claro e distinto”. Ajudará muito se quisermos ser, ou soubermos ser, biógrafos, ou sábios experientes e bondosos que aceitam as contradições da existência, assim mesmo.

De certa forma contamos só com a nossa memória, para contextualizar o futuro, e, sobretudo, com os humores, para dar conta do presente. E estes podem ser manipulados, podem ser mistificados, podem ser racionalizados, podem ser orientados e educados, mas não nos permitem que lhes escapemos. O humor que faz ir da ovação à vaia em espaço de poucos meses, da adesão à repulsa, da simpatia à indiferença. Uma coisa idealmente despropositada, uma força descontrolada a gerir a existência. O acaso e a minha ignorância a prevalecer sobre os meus interesses públicos. Como escapar? Como querer escapar? A quem interessa, assim que acaba o acto de depositar o voto na urna? Porque me devia interessar?

sexta-feira, julho 13, 2007

El regreso del idiota

A Ayetsa enviou-me este excerto do texto de Mario Vargas Llosa publicado no jornal argentino La Nacion em 24-2-2007.

"Las mejores páginas de El regreso del idiota están dedicadas a deslindar las fronteras entre lo que los autores del libro llaman la "izquierda vegetariana", con la que casi simpatizan, y la "izquierda carnívora", a la que detestan.
Representan a la primera los socialistas chilenos -Ricardo Lagos y Michelle Bachelet-, el brasileño Lula da Silva, el uruguayo Tabaré Vázquez, el peruano Alan García y hasta parecería -¡quién lo hubiera dicho!- el nicaragüense Ortega, que ahora se abraza con, y comulga con frecuencia de manos de su viejo archienemigo, el cardenal Obando. Esta izquierda ya dejó de ser socialista en la práctica y es, en estos momentos, la más firme defensora del capitalismo -mercados libres y empresa privada- aunque sus líderes, en sus discursos, rindan todavía pleitesía a la vieja retórica y de la boca para afuera homenajeen a Fidel Castro y al comandante Chávez. Esta izquierda parece haber entendido que las viejas recetas del socialismo jurásico -dictadura política y economía estatizada- sólo podían seguir hundiendo a sus países en el atraso y la miseria. Y, felizmente, se han resignado a la democracia y al mercado. La "izquierda carnívora", en cambio, que, hace algunos años, parecía una antigualla en vías de extinción que no sobreviviría al más longevo dictador de la historia de América latina -Fidel Castro-, ha renacido de sus cenizas con el "idiota" estrella de este libro, el comandante Hugo Chávez, a quien, en un capítulo que no tiene desperdicio, los autores radiografían en su entorno privado y público con su desmesura y sus payasadas, su delirio mesiánico y su anacronismo , así como la astuta estrategia totalitaria que gobierna su política. Discípulo e instrumento suyo, el boliviano Evo Morales, representa, dentro de la "izquierda carnívora", la subespecie "indigenista", que, pretendiendo subvertir cinco siglos de racismo "blanco", predica un racismo quechua y aymara, idiotez que, aunque en países como Bolivia, Perú, Ecuador, Guatemala y México carezca por completo de solvencia conceptual, pues en todas esas sociedades el grueso de la población es ya mestiza y tanto los indios como los blancos "puros" son minorías, entre los "idiotas" europeos y norteamericanos, siempre sensibles a cualquier estereotipo relacionado con América latina, ha causado excitado furor. Aunque en la "izquierda carnívora", por ahora, sólo figuran, de manera inequívoca, tres trogloditas -Castro, Chávez y Morales- en El regreso del idiota se analiza con sutileza el caso del flamante presidente Correa, de Ecuador, grandilocuente tecnócrata, quien podría venir a engordar sus huestes. Los personajes inclasificables de esta nomenclatura son el presidente argentino, Kirchner, y su guapa esposa, la senadora Cristina Fernández (y acaso sucesora), maestros del camaleonismo político, pues pueden pasar de "vegetarianos" a "carnívoros" y viceversa en cuestión de días y a veces de horas, embrollando todos los esquemas racionales posibles (como ha hecho el peronismo a lo largo de su historia). Una novedad en El regreso del idiota sobre el libro anterior es que ahora el fenómeno de la idiotez no lo auscultan los autores sólo en América latina; también en Estados Unidos y en Europa, donde, como demuestran estas páginas con ejemplos que producen a veces carcajadas y a veces llanto, la idiotez ideológica tiene también robustas y epónimas encarnaciones."

Os idiotas regressam sempre. Os que acham que os outros são idiotas também. Pareceria que esta compensação equilibraria o mundo político, e, afinal, não.

quinta-feira, julho 12, 2007

Perguntas

Perguntava-me o Amadeu depois de termos ouvido o resultado das sondagens da RTP1 e da Antena 1: "Mas quem são as pessoas que vão votar em Carmona?"

Perguntava-me a minha prima Salomé: "Porque será que ninguém discutiu ainda nesta campanha o testemunho daquele jornalista que escreveu sobre a forte possibilidade de ter havido fraude nas eleições autárquicas de 2001?"

Perguntava eu: "Não devia aparecer os nomes dos candidatos à presidência de uma Câmara antes do nome dos partidos ou dos movimentos que os apoiam?"

Amanhã será um novo dia

Acordei logo de manhã com aquela imagem cinematográfica/literária do exilado emocional, do exilado da pátria, de histórias antigas que li nos livros. Nos livros de quem? Somerset Maugham, Graham Greene, Malraux ou Conrad? Podia perguntar também se teria sido em Ferreira de Castro. Mas neste autor sei que não encontro a imagem, pois que essa imagem de humidade, floresta, calor sufocante, suor, sofrimento e naturezas ébrias tenho-a de antes de ter lido Ferreira de Castro. Mas onde terei ido buscar essa ideia de homens perdidos, encostados ao balcão de uma qualquer venda no interior de um país bem interior?

Ontem à noite li uma história do pato Donald a um menino. Começava assim: "Um remoto posto comercial nos confins do continente africano. Difícil de alcançar com tempo seco, quase impossível com chuva...". O posto comercial ficava em "N`tali", terra onde havia um bar no qual, encostados ao balcão, todos se diziam perdidos. O pato Donald, a um canto, fixava o balcão, agressivo. A seu lado uma série de copos vazios...de sumo.
Está explicado. O pato Donald foi a minha senha de entrada nesse outro imaginário sobre um espaço e sobre personagens que não conheço, mas sei.

O exame de português B do 12º ano trazia um poema de Fernando Pessoa, rezava assim:

Em toda a noite o sono não veio. Agora
Raia do fundo
Do horizonte, encoberta e fria, a manhã.
Que faço eu no mundo?
Nada que a noite acalme ou levante a aurora,
Coisa séria ou vã.

Com olhos tontos da febre vã da vigília
Vejo com horror
O novo dia trazer-me o mesmo dia do fim
Do mundo e da dor -
Um dia igual aos outros, da eterna família
De serem assim.

Nem o símbolo ao menos vale, a significação
Da manhã que vem
Saindo lenta da própria essência da noite que era,
Para quem,
Por tantas vezes ter sempre 'sperado em vão,
Já nada 'spera.


Pensei, depois de ler, que ali estava um poema que convoca o desânimo, o desapontamento, a impotência. Um poema que sabe o que é estar um homem encostado a um bar a olhar para o fundo de um copo. Isto servirá como analogia para os tempos sociais que estamos sempre a repetir em Portugal? Como se aquele desinteresse no que um novo dia pode trazer, por se saber igual no tempo que antecede a noite temida, fosse o sintoma de uma sociedade que não espera nada de novo, porque ao novo, o que não se sabe como é, mas espera-se que seja novo porque se sabe que o novo sempre vem, haverá sempre algo, ou alguém, que impede que se manifeste. Nem imagino o que seria viver em regime autoritário, em que os dias políticos se queriam a suceder sempre iguais, sob a batuta do ditador.

Lembro-me de Scarlet O`Hara, de M. Mitchell, quando no fim do livro profere a sua vital frase: "After all, tomorrow is another day!"

Mas Fernando Pessoa não tem o mesmo tom, ou intenção, quando diz "Nem o símbolo ao menos vale, a significação /Da manhã que vem". Almas formadas para compreenderem este poema, que semelhança poderão ter com as que reagem esperando, ansiando, acreditando no dia novo que há-de vir amanhã? E essas, que sentimentos reconhecem naquelas?

quarta-feira, julho 11, 2007

A liberdade como regra

A LIBERDADE AMEAÇADA , Baptista-Bastos no DN

E ainda alguma prática dessas formas de ameaças: o blog In Apto foi processado. Soube-o via blog A tactear.


O que há de paradoxal nas ameaças à liberdade não é que os ameaçados fiquem com medo, às vezes têm até reacção contrária, mas é que essas ameaças demonstram o medo, medo verdadeiro, de quem faz e impõe as ameaças. E um governo que governa com investidas legitimadas no medo, não pode ser um governo que nos represente bem.

terça-feira, julho 10, 2007

Um bom debate entre os candidatos à presidência da Câmara de Lisboa é melhor do que o não disfarçarem a política das tricas

A RTP fez o meritório esforço de juntar os doze candidatos à presidência da Câmara de Lisboa para um debate. Quem diz que tal número de candidatos não daria um painel funcional em termos de apresentação televisiva enganou-se. Foi bem concebida e pensada a colocação das mesas e dos candidatos. Gonçalo da Câmara Pereira ainda se disse prejudicado por estar afastado da jornalista mediadora, juntando a si a sua companheira de "canto, Helena Roseta, esquecendo-se, no entanto, que a câmara de televisão pode pôr no centro quem está no canto, e vice versa, sendo que o critério é filmar quem fala, quando fala. Ora, a percepção de que houve uns que tinham mais câmara (tempo de antena), logo mais exposição, não é errada, porque em televisão a exposição é dada ao que fala, logo premeia-se aquele que interrompe, algo que na rádio já não é possível, porque não se identificará a voz que se sobrepõe e cria um ruído ininteligível. Na televisão também cria ruído, mas com o prémio da imagem aparecer.


Fátima Campos avisava os candidatos, às vezes em tom crispado, que eles estavam a perder tempo ao fugirem à pergunta que ela lhes colocava, refugiando-se em frases feitas de campanha ou em ataques pessoais que escapavam à lógica da pergunta. Mas eles, os mais experientes, sabiam como chamar a atenção sobre si ou, pensaram muitos, sobre os temas que gostariam de impor, mudando a agenda. Nesta tentativa de mudar a agenda estiveram sempre mais nitidamente empenhados Fernando Negrão e Telmo Correia. Algo que lhes deu, quanto a mim, um tom esforçado, de inconveniências e falta de ideias.

Num tom próximo do esgar público esteve Manuel Monteiro, que não dá descanso a sua voz alta de homem ressentido com Portas, e no seu propósito de recuperar um tempo de líder partidário com destaque, recuperando esses tempos que devem ter sido mágicos de amizade e de influência na pequena esfera do poder. A expulsão de um paraíso, mesmo que se tivesse transformado num inferno, é um acto de iniciação duríssimo. Que o digam os povos antigos, e nós e a interpretação simbólica dos seus mitos nas nossas experiências quotidianas.

António Costa esteve senatorial. Às vezes olhava com profunda atenção e interesse os seus opositores. Tive quase a certeza que o seu cérebro estava a registar a pertinência da intervenção e/ou a qualidade da proposta apresentada. Achei-o legitimamente empenhado na sua tarefa, a responder com o tom e a pose certa, descontraído, sem menorizar os seus rivais. Isso não impede que a figura que até há pouco tempo tinha consagrado toda a sua energia na área da Administração Interna, apareça ali como um novato, e um alheado sobre os grandes propósitos/projectos para Lisboa, concentrando-se em dizer que o mais importante é sanear as contas públicas da câmara.

Esteve menos bem hoje ao escapar às embrulhadas em que o seu mandatário Júdice se deixou enredar. Em Portugal parece que há meia dúzia de homens que estão à venda para tudo e para todos os lugares. Mas onde é que o advogado Júdice aprendeu sobre urbanismo para lhe ser atribuído o papel de Comissário? Pronto, não precisava de saber nada sobre urbanismo, mas conhecem-se-lhes interesses na área de projectos de urbanismo? Reflexões sobre a/s cidade/s? É a distribuição do poder avulso pelas personalidades do costume. Quando não são as do costume são as outras chamadas para assessorar. Para se calarem com as sobras?

Como o presidente francês compreende, ainda que o possamos acusar de egoísmo nacional, é que reformas não se fazem, em democracia, com chicote, e isso porque é desrespeitar as pessoas em todas as suas categorias existenciais, para apresentar um número baixo de défice. Não é por medo do eleitorado, não me parece de todo que Sarkozy o tenha, ,mas porque compreende que para fazer reformas há que explicá-las, prepará-las e impô-las quando tudo estiver claro aos seus concidadãos, que não são crianças mimadas e mal educadas a precisarem de um pai ameaçador e disciplinador.

Ruben de Carvalho esteve igual à CDU. O partido pode contar com um eficiente, ainda que esteja por explicar algumas das posições da CDU nas assembleias que decidiram certos negócios, membro que não se esquece do pronome pessoal inclusivo "nós", não cai na tentação do "eu". Coube-lhe uma das tiradas da noite com a frase "a câmara não está falida", explicando depois porquê (a outra foi a de Quartim Graça ao mostrar um quadro em que se provava a sustentabilidade do aeroporto da Portela). Fez bem o seu papel o candidato Graça ao alertar para situações de desvario iminente na cidade, pelo o Porto de Lisboa, instituição zurzida por todos, pela saída do aeroporto, etc.
Menos bem Gonçalo da Cãmara Pereira. De ideias só retive a de que o país (leia-se o governo) deve ajudar a capital do país no seu saneamento económico. Nem a evocação da cidade simbólica, nem nada parecido. Também não tinha que o fazer.

Helena Roseta apresentou as suas ideias para Lisboa. Tem-nas. Insiste demasiado na ideia de diálogo com os cidadãos, na necessidade de procurar consenso. Percebo a intenção, demarcar-se de um certo fazer política mais impositiva da do tipo do partido socialista no governo, mas não me parece que esse seja um objectivo para a cidade, quanto muito uma metodologia e mesmo assim...

Sá Fernandes apresentou uma solução interessante para a questão da reabilitação da baixa e depois achou por bem atacar o antigo presidente. É uma figura interessante do ponto de vista da fiscalização cívica, mas começou a perder quando se começou a enredar na questão dos assessores. É verdade que se procurou explicar, ainda bem. Mas não me convenceu uma linha. Os assessores dos outros são problemas (sérios) dos outros, ele só tinha que se preocupar com os seus, justificando a sua necessidade. O que não foi o caso.

Garcia Pereira foi o candidato que quanto a mim começou melhor. Sublinhou a importância de se ter e apresentar uma perspectiva estratégica para a cidade que queremos. Foi semi-visionário na sua proposta de um aeroporto, um porto, uma ferrovia (tudo grande). Depois perdeu-se em algum desvario ideológico, como no caso dos arrendamentos (uma lei que celebrei quando saiu e que pouco mais está que sob a forma de suspensa na vida de muitos proprietários que não sabem, ou temem, pô-la em execução). Nesse desvario ideológico também incorreu por vezes Pinto Coelho, à direita. Mas teve intervenções sóbrias, a procurarem manifestar-se no sistema, a querer justificar-se dentro do sistema. É útil trazer a possível desordem da frustração da extrema-direita ao espaço da ordem democrática.

Carmona Rodrigues respondeu bem a Sá Fernandes sobre o facto de terem que ser os tribunais a julgarem acerca da ilegalidade dos actos, mas esqueceu-se que são os eleitores que avaliam os actos que dão credibilidade aos programas. E o senhor é demasiado alheado, demasiado aéreo, para se lhe conhecer um acto credível de gestão, ou um projecto dinamizador para a cidade.

Aliás, projectos dinamizadores, por ali, no debate, nem ouvi-los.

Não foi um debate para se decidir seja o que for. A discussão a seguir, na RTPN, foi pobre, rápida e sem grande interesse. Recordo com saudade os debates nas últimas campanhas autárquicas e as discussões que se lhes seguia na RTP, na Sic Notícias ou com o programa "choque ideológico" na RTP N. Desta feita é o deserto em discussão. Ou sou eu que tenho mais em que pensar.

Um bom debate europeu é melhor do que disfarçar as divisões

"Foi o antigo primeiro-ministro Lionel Jospin quem fez acrescentar o "C" de crescimento ao Pacto de Estabilidade. O tema foi recorrente da campanha eleitoral francesa, obrigando a chanceler alemã a intervir por duas vezes em defesa do estatuto de independência do BCE. O problema é, precisamente, que, em matéria de política monetária, há mesmo um "pensamento único" que foi ditado pela Alemanha quando negociou a UEM com a França e que Berlim dificilmente deixará pôr em causa. E, em matéria de crescimento, a boa "ortodoxia" europeia aconselha a que ele seja feito através das reformas estruturais e não através de uma moeda mais fraca.
Quando Sarkozy anunciou o regresso da França à Europa, isso foi saudado como uma excelente notícia por quase toda a gente. Agora, a sua frenética actividade em todas as frentes arrisca-se a colocar a Europa à beira de um ataque de nervos.
O desafio é enorme para a presidência portuguesa. Não há "pensamento único", é verdade, e um bom debate europeu é sempre melhor do que disfarçar as divisões. Mas uma "revolução europeia" é tudo o que Sócrates certamente não desejará."

Teresa de Sousa in Público

sábado, julho 07, 2007

As últimas palavras de Richard Rorty

"Last Words from Richard Rorty" por Danny Postel


"Richard Rorty: When I visited Tehran I was surprised to hear thatsome of my writings had been translated into Persian, and had a considerable readership. I was puzzled that rather fussy debates of the sort that take place between European and American philosophers, and in which I engage, should be of interest to Iranian students. But the reception of the talk I gave on “Democracy and Philosophy” made clear that there was indeed intense interest in the issues I discussed.
When I was told that another figure much discussed in Tehran was Habermas, I concluded that the best explanation for interest in my work was that I share Habermas’s vision of a social democratic utopia. In this utopia, many of the functions presently served by membership in a religious community would be taken over by what Habermas calls “constitutional patriotism.” Some form of patriotism — of solidarity with fellow-citizens, and of shared hopes for the country’s future — is necessary if one is to take politics seriously. In a theocratic country, a leftist political opposition must be prepared to counter the clergy’s claim that the nation’s identity is defined by its religious tradition. So the left needs a specifically secularist form of moral fervor, one which centers around citizens’ respect for one another rather than on the nation’s relation to God.
My own views on these matters derive from Habermas and John Dewey. In the early decades of the twentieth century Dewey helped bring a culture into being in which it became possible for Americans to replace Christian religiosity with fervent attachment to democratic institutions (and equally fervent hope for the improvement of those institutions). In recent decades, Habermas has been commending that culture to the Europeans. In opposition to religious leaders such as Benedict XVI and the ayatollahs, Habermas argues that the alternative to religious faith is not “relativism” or “rootlessness” but the new forms of solidarity made possible by the Enlightenment."



Livros publicados em Portugal:

Contingência, Ironia e Solidariedade
Pragmatismo e Política
A Filosofia e o espelho da natureza
Consequências do pragmatismo
Interpretração Sobreinterpretação

Richard Rorty morreu!

Só o soube hoje. Estava a ler o blog Habermasian resources quando li o título "Jürgen Habermas writes an obiturary for American philosopher Richard Rorty". O quê? Richard Rorty morreu?!

Morreu no dia 8 de Junho.

Tive a imensa sorte, e o privilégio, de conhecer e de poder falar pessoalmente com o filósofo. Foi um dia, na Fundação Gulbenkian. Estava sentado numa pequena sala onde ia discursar, à espera que o público chegasse. Os conferencistas estavam em maior número do que pessoas presentes para assistirem. O ambiente parecia-me a mim constrangedor. Só pensava no desperdício de inteligência e de saber ali derramado. O filósofo Rorty esteve sempre calmo, sem manifestar qualquer emoção, de braços cruzados, enquanto o tempo se arrastava. Era um homem alto, forte, sem pretensiosismo nos gestos, na fala, no pensamento. Era como a sua escrita. Depurada e directa, muito limpa. Sem querer agradar, mas sem tiques de vedeta, um homem absolutamente disponível para ouvir e para falar, sem ansiedade.
Um grande filósofo contemporâneo que quando alguém anónimo, numa assistência inócua, ganhou coragem e se lhe dirigiu perguntando se lhe pode fazer uma pergunta, ele se levantou imediatamente preparado para responder, inclinou a cabeça para o lado da interlocutora, pôs os olhos no chão e escutou a pergunta.

Richard Rorty foi um dos filósofos com "o" qual passei mais tempo durante os anos de preparação do meu doutoramento. Ele, Lyotard, H. Putnam, Rawls, Habermas e, sobretudo, o meu bem amado Apel, são as estrelas maiores que fazem parte do meu universo conceptual. Rorty morreu. E eu detesto a ideia de ter morrido um filósofo com o qual eu não concordava, não podia concordar, e que me fez tanta falta para eu aprender porque não concordava com ele.

De olhos no chão, e de cabeça inclinada, para o poder continuar a ler melhor, assim estou eu hoje Prof. Rorty. Sentida recordação.

E como é que eu não soube antes da sua morte? Que parvoíces me distrairam para este acontecimento?

sexta-feira, julho 06, 2007

Uma campanha se faz favor. E, já agora, alguém explica onde foi parar a feira popular?

Leio na revista Visão (a mesma que me põe “o coração num pingo” só com os artigos de João Lobo Antunes) que António Costa afirma que parece que nem está a decorrer uma campanha em Lisboa por Lisboa, tal a ausência de notícias na imprensa, de comentários, de opiniões a respeito do acontecimento político. A haver uma desconcentração, será pela existência de outros temas de interesse a ocorrerem simultaneamente. Eu tenho-a, a essa desconcentração. Comparativamente às últimas eleições autárquicas tenho acompanhado muito menos o que andam a fazer ou dizer os actuais candidatos. Talvez por causa do governo, ou da Europa, ou da situação no Darfur, na Palestina, em Inglaterra ou na Rússia. Talvez. Mas conheço muito bem os últimos episódios de “Casos Arquivados”. Posso comentá-los.
Cada pedaço de povo tem o seu ópio.

Qualquer policial me deixa embasbacada a olhar para o televisor, mas “Casos arquivados” tem o mérito de trazer um argumento em que é permitido redimir as injustiças passadas que passaram impunes aos olhos menos argutos ou menos competentes dos investigadores de então. O paraíso dos que pensam que a justiça tarda mas não falha. Pois, é assim uma espécie de história de fadas para adultos.

Nem sei se na polícia “real” existem brigadas com esta função, mas é para mim terapêutico que exista uma ficção em que a polícia faça o seu trabalho de investigação e descoberta da verdade, e, ao mesmo tempo, contribua para repor um certo equilíbrio existencial no universo social e pessoal de cada um dos que viu a sua vida ser alterada por um crime, no passado, que não larga os sobrevivente no presente. O apaziguamento com os acontecimentos e as pessoas envolvidas, e, sobretudo, a ideia de alguém continuar a interessar-se nos casos apesar do tempo passado, dá uma boa estrutura narrativa à série. Também dava uma boa estrutura social.

Os cartazes de Helena Roseta custaram a chegar. Uma amiga comentava comigo num jantar há oito dias que quase não via cartazes da candidata na rua. Falta de dinheiro, sentenciei eu sem saber nada sobre o assunto. Mas agora já se vêm mais cartazes da candidata.

Há uma semana tive a oportunidade de ouvir a excelente pessoa e professora Paula do Espírito Santo a falar sobre os cartazes políticos e, em especial, dos cartazes da última eleição presidencial francesa. Retive duas ideias fundamentais: os cartazes não são por si só sinal de uma boa campanha, ou elementos dos quais não se possa vir a prescindir, mas uma campanha sem cartazes é como um texto sem notas de rodapé, nota-se quando faltam; e os melhores cartazes (do ponto de vista estético e do ponto de vista de uma boa comunicação politica) não pertencem geralmente aos candidatos ganhadores.

Em Entrecampos perfilam-se uns cartazes de campanha autárquica que, aprendi, são todos muito clássicos e previsíveis. Nas poses, nas cores, nos slogans, nos elementos gráficos. Há também um cartaz político mas que não pertence a nenhum candidato mas sim à marca de cerveja Super Bock. Ao lado do cartaz de Fernando Negrão, utilizando a mesma cor de fundo, a marca tem três garrafas e o seguinte slogan: “Perfeito perfeito era explicarem onde foi parar a feira popular.”



E agora obrigo-me a mim mesma a pôr aqui os endereços dos outros candidatos, numa ordem aleatória. A bem da equidade.
Ainda um dia destes vou comentar, sem rigor académico, os respectivos sites de candidatura.

José Sá Fernandes
Manuel Monteiro
Ruben de Carvalho
Telmo Correia
Carmona Rodrigues
Garcia Pereira
Pedro Quartim Graça
Gonçalo da Câmara Pereira
José Pinto Coelho

quinta-feira, julho 05, 2007

Um dragão cheio de fome

Dizem os manuais que Democracia, paz e economia de mercado costumam andar a par. Bom, economia de mercado e ditadura também já conseguem andar a par. Chama-se o milagre chinês, ou algo que o valha. Vá lá que o mercado de armas chinesas no Sudão parece que não vai continuar a ser tão livre, ou pelo menos que falar nesse negócio já é algo embaraçoso. Como não é pelo princípio dos princípios dos direitos humanos, pois desse lado nada de novo no país do dragão, deve ser pelo princípio da regra de mercado que os faria perder algo maior em troca dessa venda. Que seja.

Júri de exame

O CDS propôs exames nacionais em todos os graus de ensino. A proposta chumbou no parlamento com os votos de toda a esquerda.
Mas onde estava o júri de exame? Alguém viu um representante do Ministério da Educação a discutir a proposta?

Um sindicalista na Europa

A EU e o Brasil. Lula, o sindicalista, a dar um “show” de brandura no estilo e de voz bem colocada. Sabe falar bem, o Sr. Presidente brasileiro. Pudera, como o próprio disse, passou as últimas três décadas a negociar (com patrões, com colegas, com eleitorado (aqui muitas vezes até ser leito), com ministros, com jornalistas, com cidadãos). Sabe falar. A Europa também gosta do seu país, Sr. Presidente. Portugal gosta. E do seu mercado também, porque não. Bom, a verdade é que Portugal trata o Brasil como se deve tratar um filho adulto, e o Brasil trata Portugal como um filho adolescente excessivamente mimado trata os seus pais idosos. Que seja. Ainda muita água há-de correr debaixo desta ponte que nos une.

Eles andam por aí. Os valores.

No “Panorama BBC” vi uma reportagem sobre o movimento Hezbollah no Líbano. De fazer pensar.
A certa altura gravam uma mãe de quarenta anos, que pranteava e homenageava com as sua presença no cemitério o seu filho de dezoito anos, morto na guerra do verão passado com Israel, a dizer algo como ter muita honra na morte do seu filho, por este se ter sacrificado em nome de valores que não são materiais. E depois começou a desfiar a cartilha do costume, aquela que diz que os seus valores eram mais importantes que os valores ocidentais, pois estes não passavam de assomos de vaidade, da ostentação e concentrados no objectivo da posse de bens materiais.

Pensei de mim para mim: Alguém anda a enganar esta senhora. E esse alguém tem nome, e esse nome é, muitas vezes, o de filósofos ocidentais. Andam tão obcecados com a matéria e com os comportamentos compulsivos de consumo que se esquecem da matriz filosófica onde assenta a sociedade ocidental (europeia), um povo que sempre combateu pela sobrevivência dos seus próprios modelos de vida. E se esta vida é hoje predominantemente posta em equilíbrio com um dos pratos da balança cheia de euros, também depressa, se a isso forem chamados (e eu espero, em nome de valores civilizacionais superiores, que não), combaterão por valores como segurança, defesa de princípios e outras ideias que tais. Não vejo nenhuma diferença na entrega a valores entre um rapazinho de dezoito anos, guerrilheiro do hezbollah, e um rapazinho americano a combater voluntariamente no Iraque. Se não vejo diferença na entrega a valores, vejo diferença no tipo de valores a que cada um se entrega. Mas não é uma diferença: matéria/espírito. É sim uma diferença na concepção de matéria e na de espírito em que se acredita. E, se calhar, as duas mães dos dois rapazinhos veriam que tinham mais coisas em comum do que pensam, e que ambas sabem que o valor da vida dos seus filhos não se mede em dólares. Medir-se-á, talvez, em honra, e, seguramente, medir-se-á em amor.

quarta-feira, julho 04, 2007

Question from Darfur Refugee Camp

Democracia interactiva

O canal de televisão CNN e o You Tube estão a promover a participação de cidadãos no debate para as presidenciais americanas, incentivando à produção de vídeos com perguntas dirigidas aos candidatos que, em tempo certo, poderão vir a ser respondidas no debate a realizar em 23 de Julho. Sendo um espaço aberto há lugar para todas as atitudes. A democracia é um espaço de diversidade, mesmo quando não subscrevemos o tom, o modo ou os conteúdos de algumas das perguntas dirigidas. É o processo democrático. É a manifestação da lberdade de opinião.

E A Coligação Save Darfur não perdeu tempo:

"CNN and YouTube are giving Americans an exciting opportunity to ask their own questions of the 2008 Democratic presidential hopefuls in the upcoming July 23rd debate through video submissions. The next president will play a crucial role in bringing peace to Darfur. With your help, we can bring Darfur to the forefront of the presidential campaign and make it one of the central issues leading up to the election. "


Com seis milhões de habitantes, um povo muito pobre, com recursos naturais como o petróleo, mas sem muita água, o Darfur, zona a sul do Sudão, a exemplo do que se passa na maioria dos países do continente africano, é o reflexo de uma situação política e económica em que uma elite explora as riquezas e domina um povo altamente necessitado.


No Darfur, as tribos nómadas, financiadas e armadas pelo presidente Omar al-Bashir, entraram em guerra com os povos sedentários, agrícolas, não só por precisarem da escassa água partilhada até então com os agricultores (maioritariamente muçulmanos não árabes), reservando-a para os seus animais, como, sobretudo, por o presidente querer ver submetido o movimento rebelde então criado pelo descontentamento dos agricultores com a política central, utilizando para o efeito a agressividade das tribos nómadas contra os outros habitantes do Darfur, propiciando a criação de milícias conhecidas como Janjaweed (maioritariamente formadas por muçulmanos árabes), apoiadas pelas forças regulares do país. A violência, a destruição e a morte sobre os camponeses, civis, não tem limites, pensando-se que mais de 400.000 vidas já foram perdidas ao logo deste conflito que começou em 2003.
A presença no terreno de uma força militar da União Africana, desde 2004, não tem conseguido fazer impedir esta espiral de terror, sucedendo-se os ataques, fazendo com que, só nos primeiros meses de 2007, tivessem entrado em campos de refugiados cerca de 800.000 pessoas.
Informação recolhida, em grande número, aqui.

terça-feira, julho 03, 2007

O trabalho de governar

"(...)
Estranhamente, aqui na terriola não se consegue ter o melhor de dois mundos. Ou se tem governos panhonhas que não se mexem (género Guterres ou Durão), ou se tem governos esforçados, com vontade de mudança, mas que depois acham que toda a gente tem de dobrar a espinha ao seu extraordinário esforço patriótico (género Cavaco ou Sócrates). Uns não fazem nem chateiam; os outros fazem e por isso acreditam sinceramente que lhes devemos estar muito agradecidos por isso. Isto não é falta de cultura democrática - é mesmo falta de cultura de competência. O primeiro-ministro, a ministra da Educação ou o ministro da Saúde acham, à sua maneira, que são special ones - ou, pelo menos, que fazem parte de um special governo, que está finalmente a pôr o País na ordem. E, por isso, não acham graça nenhuma às pequenas rebeldias de indígenas ingratos. Aqui, sim, falta-nos uma terceira via: sermos um dia governados por gente que perceba que reformar é o seu trabalho natural, e que ao mesmo tempo possa ouvir uma crítica sem de imediato soltar os cães. Um dia. Quem sabe um dia."

João Miguel Tavares, "O GOVERNO SÓCRATES AMA O CHICOTE (SAIBA PORQUÊ)" in DN