segunda-feira, setembro 17, 2007

Lista lusófona de blogs de pesquisadores em comunicação

Do Brasil vem o trabalho de listar, e o interesse em divulgar, os blogs de investigadores na área das Ciências da Comunicação. A ideia foi de Rogério Christofoletti que assim apresenta neste seu directório uma lista lusófona de blogs de pesquisadores em comunicação, lista ainda em aberto, sob o título Monitorando. Uma boa ideia.
A investigação científica precisa de comunidade crítica que se conheça e se confronte no plano das ideias, dos métodos e das provas, em espaço público, pese embora muitos desses blogs não serem espaços de exclusiva intervenção académica dos investigadores seus titulares.

sábado, setembro 15, 2007

Acções

por Darfur

coalition for Darfur

palavras

Há certas palavras que eu escolho, certas palavras que eu alinho, que têm o sentido de criaturas lanzudas enredadas sobre si próprias, com um efeito de badalo acrescido. Servem para me avisar onde é que eu estou. Palavras de maiúscula civilizadora: liberdade, igualdade, verdade, justiça, modernidade, universalidade, pátria, solidariedade, individualismo, democracia, filosofia. Palavras públicas, que sobre as outras talvez espere uma outra história. Que absurdo.
Mas as palavras são a minha dificuldade em pensar.

Sou impelida para certas palavras como as ovelhas umas de encontro às outras quando faz calor. Podemos pensar na razão porque é que criaturas cheias de lã, a arfarem sob um sol escaldante, não se afastam umas das outras e procuram uma sombra. Não as que eu conheço. Elas põem a cabeça junto ao chão e apertam-se umas contra as outras. As criaturas, e as palavras que eu conheço. Que absurdo. Ainda se eu finalmente aprendesse, ou soubesse para além desta música nas palavras que me comove mas não se pensa.

Alain Badiou. Democracy, Politics and Philosophy 2006 1/5

Alain Badiou. Democracy, Politics and Philosophy 2006 2/5

quinta-feira, setembro 13, 2007

Dalai Lama e o perecível

Um dia todos os governos hão-de mudar. O governo português há-de mudar. O governo chinês há-de mudar. E um dia há-de mudar até o regime político chinês. O Dalai Lama há-de ficar. O Tibete há-de ficar. As formas perecíveis têm toda a força do presente, mas o presente não é todo o tempo da vida, nem encerra nele a compreensão de todas as razões de um Estado. Daí o sorriso deste Dalai Lama, julgo.

terça-feira, setembro 11, 2007

as datas

Um dia vamos ter que largar a efeméride do 11 de Setembro de 2001. Não porque essa data não seja reconhecível na história da barbárie universal, mas porque ficarmos agarrada a ela nos vai levar de volta a um tempo civilizacional anacrónico, de más decisões políticas, de falsas explicações e de produção de deficiente informação jornalística que enquadrou as atitudes de uma administração, e tudo isso a partir de razões baseadas no desejo de acreditar e de defender uma ideia de pátria entendida como superior e única, quando não passou da defesa de uma parcela da ideia que de pátria se pode ter entre outras.

Um dia vamos ter que largar o dia 11 de Setembro de 2001 porque crescer implica olhar o dia 12 de Setembro. Há que evitar que o dia 11 mantenha como reféns do medo os cidadãos americanos e os do resto do mundo, reféns de uma ideia errada do estado da nação e dessa nação no mundo. O medo do que se passou no dia 11 de Setembro de 2001 já proporcionou muitas e questionáveis vitórias políticas e já determinou muitas e questionáveis decisões políticas. Cidadãos aterrorizados não são cidadãos livres de decidir. É como na vida pessoal. Um dia temos que deixar partir os nossos mortos e celebrar a vida como ela se nos apresenta no presente e pensando no melhor futuro para os que cá estão. E quem confunde esta atitude com o esquecimento é porque não sabe tudo.

E não me venham dizer que quem esquece a história está condenado a repeti-la no futuro, ou algo assim parecido. Estaline era um profundo e amantíssimo conhecedor da história da Rússia, e realmente, no entanto, de certa forma procurou ainda repeti-la. Procurou estar à altura dela quando ela lhe parecu maior, elevando-se em aparatos de violenta grandeza por uma ideia política e social que ombrearia com com outras ideias políticas passadas, à custa do próprio povo a quem essa ideia devia servir. Como no passado se fizera. Há que procurar procedimentos novos para realidades novas.

Madeleine é o seu nome 2

"Of course, the McCanns have many supporters. But some of us scribblers are well aware that there is also a large and punitive section of the public that has never liked the McCanns. They don’t like their looks, their class, their eloquence. And now the air is full of “I thought they were too good to be true”.
It’s all rubbish. There are always anomalies that can be exploited, sometimes for unconscious reasons. But Shakespeare wrote Hamlet, you can never stop misjudgments being made when tackling terrorists, and no one (bar the abductor or killer and perhaps the police) has the slightest notion what happened to Madeleine McCann. "

What links Shakespeare and the McCanns?
David Aaronovitch in Times on line

Comunicar factos e analisar factos é o que podemos pedir a um jornalismo sério e a uma investigação policial séria. O resto pode ser boa, ou muito má, literatura. Mas o jornalismo português fica prisioneiro dessa arcaica forma de comunicar que as estruturas judiciais em Portugal acumulam de um tempo de exacerbado controlo da palavra que só devia ser enunciada pelos executantes maiores do ritual, sem a deixarem cair em praça pública. Sempre foi uma ilusão essa espécie de círculo mágico onde se detém o poder de julgar, mas em tempos de liberdade de imprensa e de tempos onde o acesso e o interesse pela imprensa se generalizou exponencialmente, essa ilusão de controlo torna-se patética. Daí que para alimentar a sede de informação se comece a inventar. É inevitável, porque corresponde a um excesso de procura sem que haja a equilibrada oferta de qualidade. Perdemos todos com os maus processos de comunicação usados pelas instituições.

segunda-feira, setembro 10, 2007

Universidade do Minho 1

Do Minho vem fresquinho o estouvado vinho verde, a boa comida que finaliza cheia de doces pesados de doce e de sabor, um património arquitectónico inolvidável e uma história de levar em ombros.

os espaços urbanos e as pessoas

Há cidades que merecem os cidadãos que nelas habitam. Há cidades onde eu me imagino estar com aqueles de quem gosto, ali, em casa. Tenho uma mão cheia de cidades dessas. Braga é uma delas.

Madeleine é o seu nome

A nós portugueses deve-nos interessar: 1. O destino de uma criança desaparecida qualquer que ela seja; 2. Os correctos e inquestionáveis procedimentos de investigação de crimes de rapto ou de assassínio nas primeiras horas do acontecimento; 3. A capacidade de uma investigação policial ser conduzida com rigor científico e com a justeza legal mas sem descurar a comunicação com os familiares da vítima e, simultaneamente, com a sociedade.
Se a procura por Madeleine ajudar a polícia portuguesa a melhorar as suas competências comunicacionais e forenses, e se a opinião pública mundial compreender que muita coisa há que mudar ao nível da distribuição e aplicação de meios policiais, científicos e jurídicos que ajudem a combater os crimes contra crianças, então o nome dela não terá sido proferido apenas para ajudar a vender especulação sob a forma de tragédia contemporânea.

quarta-feira, setembro 05, 2007

uma paixão civilizacional e uma opinião a discutir

"The (democratic) media and human rights

As it is, in recent years, the human rights dimension has become more pronounced
as a consideration by the media. The amount of coverage of human rights issues in
the media is likely to continue to rise. For similar reasons, too, there may be higher
expectations about the precision of that coverage, and the quality of that
transmission. Those expectations (e.g., separating systematically editorialising and
news-reporting, dealing with the velocity of coverage) are crucial because although it
is not necessarily more important than other forms of information, information on
human rights has specific characteristics. Similarly, since human rights information is
subject to constant struggles in the public sphere, the media stand at the centre of a
highly political process, which has to be understood in terms of a production cycle influenced by several actors (governments, NGOs, public relations firms, other media). Too, certain places have a more powerful influence on this process than others do. Influence tends to be concentrated in Northern capitals where powerful governments and influential media organisations are located
.

8. In this evolution, two issues stand out. The first concerns the nature and scope of
the media coverage of human rights, and the second its quality. Although journalists
have expanded coverage of human rights into new areas (e.g., coverage of the notion
of universal jurisdiction in the aftermath of the arrest of Augusto Pinochet) — a
positive development that ought to be noted — a large number of stories that are
about human rights remain underplayed by the media (for instance, the effects of the
economic embargo on Iraq continue to be covered most of the time as a political,
diplomatic or military story rather than a human rights one
). Moreover, it is difficult
to estimate whether the increase in coverage of human rights in conflict has been to
the detriment of coverage of human rights issues in less visible, slow or protracted
situations. Human rights are still taken largely to mean political and civil rights, and
1 This evolution seems to be slowing down since the September 11, 2001 attacks on the United States and their aftermath. For a full discussion of this issue, see International Council on Human Rights Policy, Human Rights, after September 11, Geneva: ICHRP, 2002.
6
economic, social and cultural rights remain absent from media coverage or
underreported
.
9. Secondly, how well the media cover, explicate and analyse the human rights
apparatus is less apparent. Data on human rights violations and issues are not
lacking, but the impact of this information on the public is not as great as human
rights activists expect. Consequently, the media miss human rights stories because
they do not pay proper attention to human rights per se and because of inadequate
understanding of the material they are covering. The media also miss the context of
human rights stories
. Hence, the professional value of the reporting is diminished by
these shortcomings."


THE MEDIA IN DEMOCRACIES: ROLE,
RESPONSIBILITIES AND HUMAN RIGHTS
ISSUES
Mohammad-Mahmoud Ould
Mohamedou

Uma paixão rural, chamou-lhe Ray Monk

Um dia Wittgenstein decidiu que queria ir para uma humilde aldeia nas montanhas austríacas dar aulas de instrução primária. Procurava a pureza de carácter e a bondade, dizia ele. Passado pouco tempo rebelava-se contra os seus pequenos, e, às suas mãos de pedagogo intransigente e rigoroso, sacrificados alunos, bem como se agoniava com os obnubilados progenitores, que não compreendiam realmente os elevados objectivos científicos do programa de Wittgenstein, e tanta aplicação e rigor nos métodos de ensino aplicados. Wittgenstein depreendeu que teria que escolher entre a bondade e a inteligência, e que a preferir esta última tinha que sair rapidamente daquela localidade.
Pelo que li sobre a sua vida, a inteligência ganhou o desafio, e Wittgenstein deixou a aldeia e foi para a Universidade de Cambridge. Alguns dos seus alunos, os escolhidos, no entanto, não vieram a ganhar tudo o que podiam com essa escolha do mestre que lhes dificultava a vida pessoal, profissional e académica a um grau difícil de suportar, quando não mesmo deprimente. Mas pelo menos eles tinham ainda um docente inteligente, com planos racionais, ainda que questionáveis, em filosofia ou sobre os palpites respeitantes à vida prática de cada um. Miserável mesmo seria se tivesem perdido ao mesmo tempo um docente inteligente e/ou bondoso.
Quem diz sobre este docente, di-lo de quaisquer outros docentes, e di-lo ainda sobre qualquer outro humano em qualquer outra actividade de relação com o público, como, por exemplo, sobre os governantes da educação. pp. 192 a 233.

segunda-feira, setembro 03, 2007

Quando se negoceia o mal

O mal. Esconjurado com palavras. Et voilà! Um país que veio ao redil. Melhor para o mundo, claro. Mas apetece rir com a entrada e a saída do mal da linguagem política americana. É uma variante da esconjura feita com armas. Usa-se o dinheiro. O mal tratado com pragmatismo é sempre um mal dominável, pacífico, apesar dele mesmo.
Dir-se-á que a ameaça, a pressão, de utilização das armas está presente como subtítulo e daí o êxito da palavra negociada. Mas isso é esquecer as análises de todos os que sabem que a guerra dos Estados Unidos no Iraque é um castelo de cartas e que desteceu uma administração até à linha, e no entanto, apesar de se temer esse enfraquecimento... conseguiu ainda com a negociação o que as ameaças não tinham conseguido desde 1987.
Os homens velhos já não se sentem ameaçados pelo excesso de rapazes nos Estados Unidos e podem agora negociar a paz na Coreia do Norte? Vi esta alusão num episódio do Ossos numa dessas tardes de Verão e não resisto a replicar a ideia. É uma razão dita antropológica para o fenómeno da declaração de guerra. Não sei se é uma razão verdadeira, ou científica, mas que é curiosa, é. A propósito, não há série americana que não tenha uma ou outra referência à guerra no Iraque. Para os americanos esse conflito não é só uma questão de cenário político num mundo dito global, é sim uma experiência quotidiana de ansiedade pela segurança dos seus soldados e descrença pelas razões que os fazem estar lá. A ficção di-lo, ao facto propriamente dito.

Claro que à mesa a falar não estiveram só “o negociador norte-americano Christopoher Hill e o seu homólogo norte-coreano Kim Gye-kwan”, mas muitos outros cujo nome não aparecerá, ou só se saberá, por exemplo, aquando da biografia do presidente chinês Hu Jintao.

sexta-feira, agosto 31, 2007

Dizer o que é 2

Já em política a legitimidade das acções e das palavras foi-se ganhando no recurso a possibilidades terrenas e humanamente concretizáveis de vivermos em conjunto, passíveis de serem avaliadas, sufragadas e vigiadas. Nessa esfera de acção humana toda a palavra é pública, toda a acção é de interesse geral. Ao legislador já não se pede que represente um modo de ser por regra de uma graça divina, mas que nos represente da melhor forma que as suas faculdades, e o nosso mandato, lhe possibilitarem.

Diz-nos Arendt: " É evidente que os factos não estão seguros nas mãos do poder. Mas o importante é que aqui o poder, pela sua própria natureza, não pode nunca produzir um substituto para a sólida estabilidade da realidade factual que, por ser passado, cresceu até a uma dimensão fora do nosso alcance. (...) Na sua obstinação, os factos são superiores ao poder; são menos passageiros que as formações do poder, que surgem quando os homens se reúnem com um objectivo, mas desaparecem quando esse objectivo é alcançado ou fracassa." pp.52-53

É pois a natureza transitória do poder político que nos faz sossegar na ideia de que a defesa de ideias ou de acções realizadas em nome do interesse público serão, inevitavelmente, fiscalizadas por um público. Poderá é não vir a ser o mesmo público, aquele que sofreu as consequências dessas políticas, o que deixará em aberto a questão do castigo ou da recompensa terrena, da justiça aplicada. A não ser que consideremos as páginas escritas da história como método de avaliação suficiente. Para os que sofreram às mãos dos maus políticos não pode ser suficiente, mas já deve trazer alguma inteligibilidade à realidade a hipótese de que os factos perduram sob o manto pesado da impunidade e do desvario de quem julga tudo poder sem a ninguém o dever.

quinta-feira, agosto 30, 2007

duração 2

Quando alguém morre, e a fazer-se uma exortação sobre essa personalidade, o discurso de apresentação/aclamação da vida de outrem transforma-se muitas vezes numa exortação da nossa vida passada com o morto, por convivência social ou cultural. É preciso um grande espírito analítico ou um distanciamento académico ou social para que o discurso sobre o morto seja sobre a sua vida ou obra, e não sobre a nossa vida e o modo como sentimos que o morto passou por nós então.
Quando choramos uma morte, e um morto geralmente leva a um choradinho, fazemo-lo também por ele, mas muito por nós na ausência dele, também por uma ideia dele e de nós, por alívio, por saudade, ou o que for. Mas há um choradinho por algo que passou e já não volta: a nossa própria vida passada que a morte dos outros nos faz carpir. E esta experiência não requer conhecimento profundo, analítico, da obra, ressalvado tão-somente que a pessoa viva fale sobre si no modo como o foi quando o morto ainda era vivo e passou por si. Mas não sendo complicado também não é assunto fácil. Daí que a presença excessiva do eu em artigos que foram escritos para serem sobre a morte do outro seja uma forma de homenagem não menos cuidada ainda que pouco lúcida. Há quem se irrite com isso, quem ache tudo uma pirosice de egos que não sabem sentir nem sabem escrever o que sentem, apropriadamente. Eu vejo um bom momento para lamentar, quase o único no universo das lamentações que não nos cobrirá de vacuidade, um momento próprio para fazer um choradinho sobre o tempo que fez, para falar do outro falando também de nós que lhe sobrevivemos e o contamos em voz alta. E não deixa de ser uma forma de homenagem, nem deixa de ser sincera, é o que é, uma viagem mais por aquilo que geralmente nos interessa mais e melhor: nós mesmos.

Eu leio Séneca frequentemente. E tanto ensinamento de desapego também arrelia. Mas não deixa de ser uma forma de nos ensinar a ser mais livres perante essa coisa de se morrer.

Um destes dias fui visitar as casas onde viveram os pastorinhos de Fátima. As origens humildes, em tudo conformes ao modo de vida de toda uma imensa maioria de população no Portugal pobre e rural do início do século XX, não me surpreenderam, ou mereceram reparo sociológico. Eram formas de vida que sei de cor de um tempo que foi também o modo de viver partilhado com os meus antepassados. Vi as casinhas de Francisco e Jacinta, os irmãozitos, e a de Lúcia. Não são as casas como espaços museológicos curiosos que poderão interessar a quem ali vai, ou não isso apenas, mas interessará sobretudo a forma que as manifestações do sagrado pode tomar, e como irrompe em tais espaços. Não o sagrado que é contado ou investido em nós por outrem em rituais de actualização da presença de uma crença em nós, como acontece com todos os cristãos, por exemplo, no acto do seu baptismo, ou no momento da comunhão, mas o sagrado que se manifesta pela primeira vez no contacto directo com a pessoa, em tudo muito novo, mesmo havendo contornos religiosos de uma história conhecida previamente e que contextualiza a aparição.

Sobre a crença dos pastorinhos eu creio profundamente que eles criam, e mais não sei dizer. Não sei mesmo. Aleivosia dos que não crendo julgam que não aconteceu nada que leve os outros à crença. Sobre a aparição da Nossa Senhora de Fátima o que se poderá dizer mais para além das três hipóteses: “creio”, “não creio”, ou “não sei em que crer?”. Dizer que essa aparição é uma invenção fantasiosa daquelas crianças? E como sabe-lo que o foi? Dizer que ela nunca existiu? E quem o pode comprovar?

Sei que há uma história das religiões, e que ser-se cristão, ou budista, ou muçulmano, não é todavia equivalente a ser-se socrático, ou kantiano ou apeliano, mesmo havendo também uma história das ideias. É certo que eu concebo publicamente melhor o que é ser-se, por exemplo, aristotélico, porque sei que tipo de conceitos, de método de análise, de conhecimentos, alguém terá que invocar para se afirmar filosoficamente de tal ou tal corrente do pensamento. Sei que argumentos evocar para defender esta tese. Mas ser-se cristão, vamos lá, não é ser só aquele que segue as palavras de Cristo, ou o que se dedica à exegese da sua vida e obra, porque senão deixaria de haver crença num estado ou numa figura que fala em nome de um tempo e de um espaço que não é o tempo da história e o espaço da geografia humana, e passaria a estudar-se a teologia como mais um ramo da reflexão em filosofia. Não pode ser só isso, ainda que eu ache que isso já é muito, como acho muito que se saiba tudo sobra a obre de um Hegel ou de um Platão, entre outros. Mas, se eu conhecer uma obra, conhecer as palavras de Cristo, vamos lá, não significa por si que eu creia em Cristo. A crença na sua pessoa é uma possibilidade, não somente a crença naquele indivíduo que nasceu em Belém numa determinada época tendo andado a pregar por toda a Galileia, com um discurso ético e social novo, com conceitos extraordinários sobre a forma de vivermos a nossa vida uns com os outros, e tendo morrido nas circunstâncias que toda a cultura ocidental conhece profundamente, mas a crença na absoluta possibilidade ontológica de existir tudo aquilo que ele nos diz sobre a existência de (um) Deus e de um tempo e de uma vida para além desta vida neste mundo.

Que isto interesse a muitos, compreendo, que alguém alardeie a sua descrença, também, que publicamente e de todas as formas possíveis os que acreditam queiram mostrar aos outros a sua crença, igualmente, só não compreendo porque razão a crença não deverá ser do mais íntimo e pessoal que cada um saberá e deixará caber dentro de si. Porque se crermos na imposição de uma crença religiosa, como se de uma ordem social for, estaremos a dizer que a religião não passará de uma manifestação cultural e sociológica entre outras, e que crer, ou não crer, em Deus, dependerá exclusivamente do tipo de socialização que fizemos, do tipo de cultura em que estivemos inseridos aquando do nosso desenvolvimento. Mas então estaríamos a dar razão aos críticos da religião que a vêem como uma forma de dominar outrem em nome de uma ilusão, integrando-o numa espécie de lei, de regime comportamental, aquietando-o numa estrutura já conhecida e aceite pela comunidade. Ora a mim parece-me que a religião é revolucionária neste aspecto: ao reclamar-se herdeira de uma manifestação do divino ocorrido num tempo passado, tem que se dizer automaticamente permeável à presença de novas aparições desse divino no futuro, porque essa é sua razão de ser. Que depois se queira limitar, classificar, autorizar as formas como esse divino possa ocorrer, é que já me parece de uma arrogância ilimitada. E…no entanto, de alguma forma, as religiões presentes terão que se proteger das falsas manifestações, das pseudo aparições para se preservarem como guardiãs da palavra. Porém, nesta forma ingénua de pensar, há algo que não poderemos deixar de dizer: a crer nos que crêem, as aparições não se fazem por ordem ou vontade de ninguém. E isso é da ordem de que tipo de análise? Psicanalítica? Filosófica? Política? Ou pessoal, imensamente pessoal? É pessoal. Como é que eu sei? Não sei. Mas sei que afirmar o contrário é restringir a liberdade individual. A liberdade de acontecer um milagre, ou liberdade de escolher as palavras que melhor dizem a pessoa, incusive as palavras que digam o que viveu como um milagre.

Há um poço, onde os pequenitos afirmaram ter aparecido o anjo, um caminho para o penedo para onde dizem ter aparecido também um anjo, e há uma toca onde as crianças brincaram. Tudo muito estimado e bonito. E se fosse só isto que há a dizer.

sábado, agosto 25, 2007

Duração

Num tempo em que a influência dos meus professores sobre as minhas opções culturais era mínima, havia dois cronistas que me tinham sob influência: Miguel Esteves Cardoso e Prado Coelho.
Lia então as crónicas que Prado Coelho escrevia de Paris e que tão bons livros e tantos outros bons autores me ajudaram a conhecer. Amei a Criada Zerlina porque ele me ensinou a fazê-lo, e vi a Eunice Munhoz no teatro Trindade a proferir as palavras que Prado Coelho me ensinou a ouvir. Gostei tanto de Peter Handke e do seu poema traduzido em francês por Poème à la durée, porque Prado Coelho mo ensinou e muito depois de Prado Coelho gostar dele e “me” mostrar como gostar desse conceito novo, o da duração. E é essa a ideia que eu tenho: a de um homem que fazia os outros gostarem do que ele descobria e gostava.
É assim, uma forma de lamento pela sua ausência numa escrita que permitia aprender.

quinta-feira, agosto 23, 2007

Dizer o que é 1

Aquela minha grande amiga de adolescência, cuja frequência de amizade por lá ficou, contava-me histórias passadas no Oriente, predizendo a escritora, a viajante e a futura sinóloga. Hoje confundo-as a todas. Há aquela do rapazinho puxador de riquexó que leva uma bofetada de uma bela dama perfumada que transportara, o qual sente verdadeiramente como se um beijo dado na face fora, aquela outra de um monge que derrama o liquido da chávena de um visitante a quem serve o chá e que lhe perguntara como poderia vir a tornar-se num sábio, há ainda aquela história do monge que prende a cabeça sob a água de um tanque de um incauto discípulo que ousara indagar ao mestre sobre o significado da vida, e há aquela sobre uma pedra de âmbar que se obriga a manter fechada na mão do discípulo que procurou querer saber tudo sobre o âmbar.

Sobre o âmbar há também a referência àquele maravilhoso colar que uma certa personagem do Os Thibault usa. Ai, se não for de âmbar onde fica a verdade do facto da minha intensa memória desse momento na narração? A luz do âmbar. É. É a luz do âmbar de certeza. A escrita conversada é como as cerejas. E “as raparigas falam muito” diz o Peter Pan à Wendy. Pateta do Peter Pan que não percebe nada de raparigas para além do minuto em que deixa de estar a vê-las.

Gosto da imagem do chá derramado por um monge imperturbável, vejo-o a vertê-lo do bule para a chávena. Ai queres saber como ser sábio, queres? E essa taça cheia de liquido que nem mais uma gota contempla? Verte em demasia.

Ontem à noite, de passagem pela frente da televisão para outra divisória da sala, ouvi o comentador desportivo Rui Santos. Normalmente, em momentos de excepção (a contradição é assumida), fico deliciada a ouvi-lo falar sobre as táctica dos treinadores ou das equipas ou dos dirigentes e ontem, mais uma vez, ele explicava, como se aquelas palavras fossem completamente novas, para uma situação completamente nova, no seu jeito de quem leva o futebol muito a sério, o empate da nossa seleção frente à Arménia. Enfado, náusea mesmo. Fugi dali rapidamente. E no entanto Portugal nunca antes tinha disputado aquele jogo de futebol, aquele momento merecia tanto quanto antes outros o mereceram, sem reacção de asco da minha parte, atenção e análise. Mas há qualquer coisa de insuportável em ouvir falar sempre com o mesmo interesse sobre algo que desapaixonadamente vemos como uma situação sempre igual e da qual já nada consideramos ser possível dizer. Falei deste caso do futebol, podia ter falado de política.
A chávena está cheia e há a percepção nítida de que nada de muito importante, de revelador, tem espaço para se acomodar. E no entanto esta percepção só pode estar errada. Porque cada caso que acontece tem uma existência única, reclama por atenção, mas a saturação, esse estado de exclusão de si na vida ou nos discursos e acções dos outros, põe-nos à deriva, é certo, mas também nos dá uma certa serenidade, mascarando a indiferença ou o cansaço ou a falta de paciência. E sem esta, dizem-nos as histórias orientais, não há sabedoria que chegue nem bem que sempre dure.

quarta-feira, agosto 15, 2007

Este povo português

"Os contemporâneos de Torga eram: Aquilino, Tomaz de Figueiredo, Jorge de Sena, Nemésio, Pessoa, Pascoaes, Miguéis, Almada, Raul Brandão, João de Araújo Correia, Ferreira de Castro, Régio, Casais Monteiro, Gaspar Simões, Branquinho da Fonseca, Domingos Monteiro, José Gomes Ferreira, Armindo Rodrigues, Eugénio de Andrade, Sophia, Redol, Carlos de Oliveira, Manuel da Fonseca, Irene Lisboa, Maria Judite de Carvalho, Abelaira, Mário Dionísio, Namora, José Cardoso Pires. Foram estes que, em diversos momentos, reafirmaram o perfil da pátria medular e cívica."

Baptista-Bastos, "TORGA: ESQUECIDO E PRESENTE" no DN