domingo, outubro 07, 2007

A guerra e os que se estão nas tintas

“(…) Usavas o quico no alto da cabeça, como se não te pertencesse, e quando ia visitar-te ao teu destacamento era uma festa de abraços debaixo daqueles eucaliptos enormes, onde se habitava em condições miseráveis, porque quem mandava em Luanda estava-se nas tintas para nós: bem se ralavam com a nossa sorte e a gente rodeados de inimigos e cães. (…)

Não conheço uma única pessoa que tenha passado por aquele horror na qual não exista uma parte que se mata devagar, em silêncio, numa discrição pungente que apenas os que passaram por aquilo sabem reconhecer. (…)”

António Lobo Antunes, “Zé”, in Visão, 4 de Outubro de 2007, p. 19.


Mas o que é, ontem, como hoje, dizer, como Weber o fez, que um Estado racional-legal se define por ser o depositário do monopólio do uso de uma força física legítima?
Se sempre se pôde demandar pelo tipo de legitimidade consignado para compreender a natureza da ordem evocada para usar a força, mais hoje, com a multiplicação das empresas de forças de segurança privadas a actuarem em cenários de guerra, faz sentido juntar-se à questionação filosófica uma outra da ordem pratico-jurídica: onde fica a delimitação da legitimidade dos Estados quando o monopólio da força por parte do Estado está à venda a retalho?
Como é que os Estados se atolam ainda mais no absurdo de se deslegitimarem perante o uso da força, já por si de fundamentação pouco pacífica?
Quando é que a dor privada do cidadão que cumpre o seu dever se transformou no pagamento privado do infligir e receber a dor? Quem controla o horror, e qual é o nome da instituição ou o nome dos indivíduos que pagam e que se podem estar nas tintas para essa dor?


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"No Iraque assistiu-se a uma verdadeira proliferação de sociedades militares privadas, movimentando um número de funcionários equivalente ou mesmo superior aos efectivos militares no país, e a quem foram entregues importantes funções militares (nomeadamente logística e segurança), mas também funções de segurança e “para-militares” na prática, como a Blackwater, a DynCorp International e a Triple Canopy.



Ora, as condições e a lógica de actuação dessas sociedades escapam ao controlo das instâncias políticas, tornando-se virtualmente inimputáveis em matéria de direito internacional ou de direitos humanos. "
Açoriano Oriental on line, "Democratas norte-americanos questionam privatização da guerra"

quinta-feira, outubro 04, 2007

"Não, sr. Secretário de Estado"

O meu colega Rui enviou-me um artigo de Maria Filomena Mónica publicado no passado Domingo, dia 30, no jornal Público, por via do blogue De Rerum Natura. Dele constam informações que é do conhecimento geral de muitos professores. Ficaram então públicas as percepções privadas de todos aqueles que sabem porque é que este Ministério da Educação confundiu posições de autoridade nas propostas legislativas com a grosseria dos ignorantes com poder.

"Valter Lemos nunca participou em debates parlamentares, nunca demonstrou possuir uma ideia sobre Educação.
A ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, tem aparecido na televisão e até no Parlamento, o mesmo não sucedendo ao seu secretário de Estado, Valter Lemos. É pena, porque este senhor detém competências que lhe conferem um enorme poder sobre o ensino básico e secundário. Intrigada com a personagem, decidi proceder a uma investigação. Eis os resultados a que cheguei.
Natural de Penamacor, Valter Lemos tem 51 anos, é casado e possui uma licenciatura em Biologia: até aqui nada a apontar. Os problemas surgem com o curriculum vitae subsequente. Suponho que ao abrigo do acordo que levou vários portugueses a especializarem-se em Ciências da Educação nos EUA, obteve o grau de mestre em Educação pela Boston University. A instituição não tem o prestígio da vizinha Harvard, mas adiante. O facto é ter Valter Lemos regressado com um diploma na "ciência" que, por esse mundo fora, tem liquidado as escolas.
Foi professor do ensino secundário até se aperceber não ser a sala de aula o seu habitat natural, pelo que passou a formador de formadores, consultor de "projectos e missões do Ministério da Educação" e, entre 1985 e 1990, a professor adjunto da Escola Superior do Instituto Politécnico de Castelo Branco.
Em meados da década de 1990, a sua carreira disparou: hoje, ostenta o pomposo título de professor-coordenador, o que, não sendo doutorado, faz pensar que a elevação académica foi política ou administrativamente motivada; depois de eleito presidente do conselho científico da escola onde leccionava, em 1996 seria nomeado seu presidente, cargo que exerceu até 2005, data em que entrou para o Governo.
Estava eu sossegadamente a ler o Despacho ministerial n.º 11 529/2005, no Diário da República, quando notei uma curiosidade. Ao delegar poderes em Valter Lemos, o texto legal trata-o por "doutor", título que só pode ser atribuído a quem concluiu um doutoramento, coisa que não aparece mencionada no seu curriculum. Estranhei, como estranhei que a presidência de um politécnico pudesse ser ocupada por um não doutorado, mas não reputo estes factos importantes.
Aquando da polémica sobre o título de engenheiro atribuído a José Sócrates, defendi que os títulos académicos nada diziam sobre a competência política: o que importa é saber se mentiram ou não. Deixemos isto de lado, a fim de analisar a carreira política do sr. secretário de Estado.
Em 2002 e 2005, foi eleito deputado à Assembleia da República, como independente, nas listas do Partido Socialista. Nunca lá pôs os pés, uma vez que a função de direcção de um politécnico é incompatível com a de representante da nação. A sua vida política limita-se, por conseguinte, à presidência de uma assembleia municipal (a de Castelo Branco) e à passagem, ao que parece tumultuosa, pela Câmara de Penamacor, onde terá sofrido o vexame de quase ter perdido o mandato de vereador por excesso de faltas injustificadas, o que só não aconteceu por o assunto ter sido resolvido pela promulgação de uma nova lei.
Em resumo, Valter Lemos nunca participou em debates parlamentares, nunca demonstrou possuir uma ideia sobre Educação, nunca fez um discurso digno de nota. Chegada aqui, deparei-me com uma problema: como saber o que pensa do mundo este senhor?
Depois de buscas por caves e esconsos, descobri um livro seu, O Critério do Sucesso: Técnicas de Avaliação da Aprendizagem. Publicado em 1986, teve seis edições, o que pressupõe ter sido o mesmo aconselhado como leitura em vários cursos de Ciências da Educação. Logo na primeira página, notei que S. Excia era um lírico. Eis a epígrafe escolhida: "Quem mais conhece melhor ama."
Afirmava seguidamente que, após a sua experiência como formador de professores, descobrira que estes não davam a devida importância ao rigor na "medição" da aprendizagem. Daí que tivesse decidido determinar a forma correcta como o docente deveria julgar os estudantes.
Qualquer regra de bom senso é abandonada, a fim de dar lugar a normas pseudocientíficas, expressas num quadrado encimado por termos como "skill cognitivos". Navegando na maré pedagógica que tem avassalado as escolas, apresenta depois várias "grelhas de análise". Entre outras coisas, o docente teria de analisar se o aluno "interrompe o professor", se "não cumpre as tarefas em grupo" e se "ajuda os colegas".
Apenas para dar um gostinho da sua linguagem, eis o que diz no subcapítulo "Diferencialidade":"Após a aplicação do teste e da sua correcção deverá, sempre que possível, ser realizado um trabalho que designamos por análise de itens e que consiste em determinar o índice de discriminação, [sic para a vírgula] e o grau de dificuldade, bem como a análise dos erros e omissões dos alunos. Trata-se portanto, [sic de novo] de determinar as características de diferencialidade do teste."
Na página seguinte, dá-nos a fórmula para o cálculo do tal "índice de dificuldade e o de discriminação de cada item". É ela a seguinte: Df= (M+P)/N em que Df significa grau de dificuldade, N o número total de alunos de ambos os grupos, M o número de alunos do grupo melhor que responderam erradamente e P o número de alunos do grupo pior que responderam erradamente.
O mais interessante vem no final, quando o actual secretário de Estado lamenta a existência de professores que criticam os programas como sendo grandes demais ou desadequados ao nível etário dos alunos. Na sua opinião,"tais afirmações escondem muitas vezes, [sic mais uma vez] verdades aparentemente óbvias e outras vezes "desculpas de mau pagador", sendo difícil apoiá-las ou contradizê-las por não existir avaliação de programas em Portugal".
Para ele, a experiência dos milhares de professores que, por esse país fora, têm de aplicar, com esforço sobre-humano, os programas que o ministério inventa não tem importância. Não contente com a desvalorização do trabalho dos docentes, S. Excia decide bater-lhes:"Em certas escolas, após o fim das actividades lectivas, ouvem-se, por vezes, os professores dizer que lhes foi marcado serviço de estatística. Isto é dito com ar de quem tem, contra a sua vontade, de ir desempenhar mais uma tarefa burocrática que nada lhe diz. Ora, tal trabalho, [sic de novo] não deve ser de modo nenhum somente um trabalho de estatística, mas sim um verdadeiro trabalho de investigação, usando a avaliação institucional e programática do ano findo."
O sábio pedagógico-burocrático dixit. O que sobressai deste arrazoado é a convicção de que os professores deveriam ser meros autómatos destinados a aplicar regras.
Com responsáveis destes à frente do Ministério da Educação, não admira que, em Portugal, a taxa de insucesso escolar seja a mais elevada da Europa. Valter Lemos reúne o pior de três mundos: o universo dos pedagogos que, provindo das chamadas "ciências exactas", não têm uma ideia do que sejam as humanidades, o mundo totalitário criado pelas Ciências da Educação e a nomenklatura tecnocrática que rodeia o primeiro-ministro."

Maria Filomena Mónica

terça-feira, outubro 02, 2007

Um Estado de Direito mal-educado

Não sei o que os psiquiatras presentes pensaram do comportamento dos juízes que ali estavam, supostamente, a esclarecer as posições jurídicas. Eu, que só consegui assistir à última parte do debate no Prós e Contras, fico paralisada de vergonha por ter em Portugal juízes com um comportamento sobranceiro, quando não menos arruaceiro, como o daqueles.
Quem é que andará a ensinar aos juízes como eles deverão comunicar as suas decisões aos cidadãos eu não sei, porque espero que aqueles tiques corporativistas , onde os esgares, a incapacidade de ouvir, ausência de autocrítica, recuo numa posição de defesa a partir da luz da lei, não sejam ensinados por ninguém e sejam assim uma espécie de comportamento de mimetismo inter pares, como se quisessem ser tratados como prima-donas. Comportamento aflitivo da parte de quem tem tanta responsabilidade e tanta formação académica e que, até agora, parece manchar a maioria dos juízes que são chamados a comentar casos mediáticos da justiça, e independentemente das razões que lhes assistem.

A legitimidade da aplicação da lei assenta no uso elevado do tom e no ar de enjoo para com as posições dos restantes concidadãos?

As elites do PSD

"Em geral, as elites portuguesas não se distinguem por nada que tenham feito.
Não têm o hábito de se elevar e, em consequência, resta-lhes empurrar o povo para baixo quando ele se chega muito perto.(...)




(...) as elites do PSD, no fundo, não são tão elites quanto isso. Na tradição nacional, sempre esperaram que o seu lugar lhes fosse guardado e cedido: no conselho da administração como no conselho de ministros. Nos intervalos do poder escolhiam um caseiro para tomar conta do partido. Da mesma forma, estes legítimos representantes da respeitabilidade cavaquista continuam a achar que o PSD tem de ter lugar cativo na sociedade portuguesa, apenas porque sim. Sempre desprezaram a ideologia a favor de um suposto monopólio do "saber governar". Fizeram o elogio dos self-made man para depois os acusar de populismo. Fugiram das causas sociais e avisaram o seu povo para se manter afastado do "politicamente correcto" Repetiram durante anos que a iniciativa pública é incopetente e a iniciativa privada é virtuosa. Lembraram que se fizermos tudo para para beneficiar os investidores e os empresários, o mecanismo do mercado se encarregará de todos. (...) E agora choram: mas este foi o partido que eles fizeram."

Rui Tavares, "Chorai elites" no jornal Público.

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"Escrito por mim (Pacheco Pereira) no Diário de Notícias em Janeiro de 1998:

O desprezo nefelibata de alguns dirigentes social-democratas, que se consideram "barões" e serem a elite do partido, tem tido com a própria vida interna do PSD, com que não perdem tempo e consideram abaixo do seu standard, tem tido como consequência o entregar dessas estruturas intermédias aos pequenos interesses clientelares, mas também o abandono à sua sorte de muitos militantes sinceros e idealistas que se sentem cada vez mais perdidos. Este divórcio vai-se acentuando, aquele que separa o "partido de militantes" da fundação e dos anos difíceis, como um novo tipo de clientelas que vêem no PSD essencialmente o partido do poder, o partido que detinha o poder, logo os lugares.Basta consultar as biografias de alguns dirigentes locais vindos da JSD ou do aparelho partidário, para ver como nos anos em que o PSD esteve no poder se acentuou a ligação entre os cargos partidários, e os cargos de nomeação governamental, associados de um modo geral à ausência ou ao abandono de qualquer actividade profissional própria, ou seja à perda de independência económica em relação ao partido. Para essas novas clientelas o partido tornou-se o emprego e a carreira política a forma de ascender profissional e socialmente. Por muito que encham a boca como uma espécie de clubismo social-democrata, o partido enquanto realidade política e cívica significa para eles muito pouco. A sua motivação é essencialmente interna - e do poder interno que precisam para manter os lugares. Actuam como um sindicato e estão dispostos a tudo para manter o emprego, mesmo que isso signifique matar socialmente o PSD."
Pacheco Pereira no Abrupto

Análise que se pode fazer igualmente para o PS tendo em conta a sua passagem pelo poder. Vamos ver quanto tempo ele vai demorar a trasformar-se num clube de empregados do poder de Estado.




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"Cito Santana: "Acho que o País está doido, com todo o respeito. Por isso não continuo a entrevista. O País tem de aprender." Eu sei que a memória do pessoal é curta, mas ouvir Santana dizer "o País tem de aprender", em tom professoral, sabendo nós o estado em que deixou o País, é a mesma coisa que ver um talibã a discursar sobre a qualidade da estatuária budista - não bate certo. É verdade que a SIC se portou mal e que não foi lá muito esperta ao esconder as imagens do que se passou, mas a indignação de Santana é apenas uma mistura de marketing e sobranceria. Pessoalmente, dispenso. Embora numa coisa eu esteja de acordo com toda a gente: é sempre muito mais interessante ver Santana Lopes a sair de um estúdio de televisão do que a entrar nele."
João Miguel Tavares, "ACHO QUE O PAÍS ESTÁ DOIDO, COM TODO O RESPEITO", Jornalista, DN on line

segunda-feira, outubro 01, 2007

"Sê louco comigo quando eu estiver louco e sábio quando eu estiver sábio"

Às vezes penso na lógica dos defensores dos conflitos por via armada, nos partidários da guerra, que ficam tão perturbados quando os seus correligionários entram na política disputando o poder com as mais baixas das armas discursivas utilizáveis, como se nunca tivessem pensado no fenómeno da traição, como se não conhecessem o impulso para a destruição e queda que o seu discurso sobre a defesa da guerra como estratégia de resolução de conflitos faz pressupor.

Péricles, o imprevidente, ainda que sábio estadista, o desesperado amante de Aspásia, ainda que racional dirigente político, foi sucessivamente traído, e sucessivamente o cidadão acreditou na sua cidade e nas suas leis. Os senhores da guerra que lhe sucederam roubaram o esplendor do governo de Péricles e preparam-na, com o princípio do fim da sua glória, para ser dominada. Mas o sistema político iria ser lapidado e renasceria pedindo sabedoria quando a sabedoria é necessária e soltando, preferencialmente em comunhão, a sua loucura quando esta irrompe, como pedia a canção grega.

Saudades, já, das análises no Bloguítica

Certamente que estou incomodada. Não gosto que Paulo Gorjão tenha terminado o seu Bloguítica. É inquietante esta perda de referência e de intuição na análise política. O poder fica menos escrutinado. Que pena.

Também hoje fiquei a conhecer mais dois blogues: o Alto Hama, do jornalista Orlando Castro e o A Escola de Ciência Política (via Revista de Teoria Política).
Fuxo e refluxo não se anulam.

sábado, setembro 29, 2007

valores universais

"Dear Minister
I am deeply concerned by the reports that hundreds of monks and other peaceful protesters, including well-known comedian Zargana and member of parliament Paik Ko have been detained. I strongly urge the Myanmar authorities to release them immediately and unconditionally, unless they are to be charged with recognizably criminal offences. I call on the authorities to ensure that, while they remain in custody, all the detainees are held only in official places of detention, and are given immediate access to lawyers, their families and any medical treatment they may require. I also call on the authorities to ensure that the detainees are not subjected to torture or any other ill-treatment. I call on the authorities to ensure that all people in Myanmar are able to peacefully exercise the rights to freedom of expression, association and assembly without fear of harassment, intimidation or arbitrary detention, in line with international human rights standards. "

Yours Sincerely

Os intelectuais e o liberalismo 5

“A mãe de família muçulmana que só pede paz e o militante que se coloca ao serviço da ideologia totalitária islamista receberam a mesma educação; isso quer dizer que os seus valores são idênticos?”(p. 57) pergunta R. Boudon, ao procurar com ela pôr em causa uma tese difundida de que o conceito de universalidade é um valor exclusivamente ocidental que teria, desde a antiguidade com Sócrates, sido imposto ao resto do mundo como norma. Esta e outras ideias, já que o anti-universalismo está para o culturalismo dominante em algumas análises sociológicas como a defesa das imposições sócio-sociais está para a caracterização do comportamento humano, têm resultados práticos nas teorias políticas. Boudon sabe que muitas das vezes estas teorias estão certíssimas nas seus diagnósticos acerca de realidades sociais e por isso, sendo úteis, e usadas com as melhores das intenções, a de lutar contra os abusos de poder ao lado dos mais desfavorecidos, acabam por ser tomadas como descrições verdadeiras da realidade, ou como mais próximas de uma verdade que afirmam não existir como valor em si.

Sendo a minha formação inicial em Filosofia eu própria refiz, como aluna e, mais tarde como professora, o caminho da história da razão ocidental. E eu própria tive que encontrar os autores que, na contemporaneidade, continuavam a argumentar contra os anunciantes da morte da filosofia, a filosofia como actividade intelectual pela qual se procura explicar as causas dos comportamentos e as crenças de cada um de nós a partir de razões passíveis de serem enunciadas. Fazendo-o sem deixar de ouvir os que defendem uma vertente mais estruturalista ou mais causalista ou mais marxista na compreensão da realidade.
Assim, reiterando as palavras de Max Weber, Boudon concluiu: “Se o actor social crê numa determinada verdade, isto é, regra geral, porque essa crença tem sentido para ele, porque tem razões para acreditar nela, e portanto essas razões representam a causa da sua crença”. p., 62.

É claro que aqueles que preferem teorias em que os conceitos de origem social, de natureza nacionalista, de género, enfim, se impõem como determinantes para a afirmação da personalidade e do comportamento, tenderão sempre a ver as manifestações populares, as escolhas dos outros quando não conformes às suas, como sinal evidente de que as pessoas não agem por razões mas por causas sociais e políticas que lhes podem provocar falsa consciência, os podem ludibriar e socializar a seu gosto.

É muito útil para a publicidade, e para a publicidade política em especial, que se pense assim. É o que permite alguém em certo momento de devario afirmar: "Eu posso vender um presidente tanto quanto um sabonete". E no entanto, este "assim" não é tudo o que se pode pensar sobre as adesões das pessoas. E é por isso que numa sociedade democrática quando alguém elege um grande estupor e não compreendemos as razões, simplificamos e falamos de eleitores estúpidos ou, se mais paternalistas, dizemo-los enganados, ou ingénuos. Em alguns casos pensamo-los mesmo incapazes de decidir por si, defendendo que a democracia não é para esses povos. É um clássico. Eu também acho que há razões estúpidas para se escolher alguém, e que há dominação ideológica. Não será de todo inútil procurar entender as relações de poder quando se dá uma formação ideológica. Não o discuto. Mas, como Boudon, sei que não se pode reduzir toda a análise a esta hipótese de trabalho. É-me muito útil dizer que as pessoas são fantoches enganadas por populistas quando estou zangada com as suas opções políticas e não quero pensar nas razões que as podem ter levado a preferir. É-me útil. É cómodo. Não me obriga a argumentar. Não tem que ser verdadeiro, porém.

É por isso que podemos continuar a pensar em valores universais, sem paralisarmos perante a diversidade de manifestações culturais, sociais ou económicas? Será uma das razões, sim.


Dá é muito mais trabalho ter que ouvir, estudar, compreender e explicar os outros. É mais fácil repetir até à insanidade lugares comuns que nos são cómodos.

sexta-feira, setembro 28, 2007

Os sapatos de António Lobo Antunes

Como brilham os sapatos de António Lobo Antunes na sua fotografia tirada para a Visão. Os sapatos que pertencem a um homem que é ou foi militar, penso. Ou as de um homem ainda vaidoso consigo próprio. E tem toda a razão para o ser, note-se. Só que entre os sapatos de um brilho perfeito e as palavras e a camisa meio amodorradas que ele escolheu usar há uma grande diferença, pois onde Lobo Antunes diz "Acho graça à maneira como, nas entrevistas, as pessoas se tentam compor, se penteiam para arranjar o cabelo, ajeitam a gravata, retocam a maquilhagem. Para quê? Para seduzir? Para tentar que gostem delas? Para fazer boa figura perante os leitores? Tudo isso já me é completamente indiferente", eu leio e digo: - Será ou talvez não.

Nada disto importa, claro e claro é, perante a sua escrita. Mas que os sapatos ali estão a provocá-lo, estão. Ou a mim.
Desde quarta-feira que ando a pensar na Clarinha. A Clarinha dizia-me, de dentro do seu corpo de uma beleza toda em filigrana, que só gostaria de se apaixonar por um homem que escrevesse sobre ela. Não sei o que eu, através do meu olhar lacustre e anguloso, lhe dizia, mas pressinto, conhecendo-me, que devo ter desejado que isso lhe acontecesse e terei certamente sorrido sem uma ponta de ironia pelo seu gosto a melodrama.

Ando a pensar desde quarta-feira na Clarinha por causa de uma notícia que li nessa manhã no jornal Público. O suicídio do casal André Gorz e Dorine. E sei que nesse dia longínquo estávamos a falar da existência um casal assim, de amor que ela pressentia existir em algum lado e que eu nem adivinhava então.

“Sur le papier, j’étais capable de montrer que l’amour est la fascination réciproque de deux sujets dans ce qu’ils ont de moins dicible, de moins socialisable, de réfractaire aux rôles et aux images d’eux-mêmes que la société leur impose, aux appartenances culturelles. Nous pouvions presque tout mettre en commun parce que nous n’avions rien au départ. Il suffisait que je consente à vivre ce que je vivais, à aimer plus que tout ton regard, ta voix, ton odeur, tes doigts fuselés, ta façon d’habiter ton corps pour que tout l’avenir s’offre à nous.”
André Gorz, Lettre à D.

1,2,3, democracia mais uma vez.

Não compreendo duas ou três coisas que ouço por aí dizer a respeito das eleições directas no PSD :
1. A ideia de que estas eleições fazem mais mal que bem ao partido. Não vejo em que é que o processo electivo seja em que estrutura for, e por força de razão numa estrutura partidária, lhe possa fazer mal. As eleições são processos que sustentam o próprio processo de escolha democrática e mal andarão os partidos cujo secretário-geral seja preferencialmente eleito por manobras do aparelho e não por sufrágio dos seus militantes depois de uma campanha. A eleição não foi bem conduzida pelos candidatos? Paciência. Anote-se e vote-se em conformidade. Também há votos de protesto. É o que há, e será melhor saber como se comportam os candidatos em eleições, agora, do que descobri-lo, tarde de mais, nas legislativas. No PS a conquista das eleições por Sócrates ter-lhe-á dado uma legitimidade (política, sem descurar o seu reforço psicológico) acrescida no exercício das suas funções como primeiro-ministro. Obviamente isso não foi garantia de que ele seria um bom primeiro-ministro, mas foi garantia de que, pelo menos, sabe como convencer outrem a votar em si. E isto é o trampolim para o exercício do poder em democracia. E não é uma tarefa fácil. João Soares que o diga, ou Manuel Alegre.

2. A ideia, defendida ontem por Menezes, de que, depois das eleições, tudo o que se disse será eliminado como se por uma esponja, sendo então o momento de incluir e de se aceitar todos os adversários. Se as divergências fossem de ordem estratégica/ideológica faria sentido dizê-lo, mas os dois concorrentes acusaram-se mutuamente de faltas graves de carácter e, pior, de estarem a manipular dados e informações, o que é um caso para sanção disciplinar grave. Dizer que tudo se acalmará depois é não querer retirar consequências do que se afirmou, é reduzir tudo a um (mau) jogo de palavras. Desacredita quem proferiu as sentenças e quem delas foi acusado e não pode reagir com assertividade e exigindo reparação. É um mau hábito fingir que nada aconteceu e que ficamos todos amigos como dantes. Os partidos precisam de resolver crises e não de fingir que elas não existem.

Curiosa a analogia da iconoclasta Filomena Mónica ontem em comentário no Rádio Clube Português. Esta eleição lembra-lhe essas muitas outras eleições no século XIX, cheias de casos de “chapeladas eleitorais” e outras estórias de caciquismo e eleições viciadas. O que faz algum sentido num partido que se denomina como o mais português de Portugal, a comentadora o disse.

3. A ideia de que deve haver uma elevação especial no trato em campanhas entre adversários do mesmo partido para que não se ponha a unidade do mesmo em perigo. Sinceramente. Andámos tão ciosos a defender as realidades políticas dos outros países e quando a passamos a viver portas dentro comportamo-nos como vestais a guardar o fogo juvenil da nossa democracia. O único risco que um partido corre é de não ter vozes discordantes e candidatos dissemelhantes que elevem as discussões e o combate político pelos lugares. A democracia portuguesa pode não ter ganho muito com esta eleição, mas, sem ela, ainda ganhava menos. E alguma coisa os líderes futuros do PSD devem ter aprendido com a experiência. Espera-se. Que a mim só me interessa o futuro de Portugal e não o do PSD, entenda-se que não o confundo com o futuro dos partidos, e no entanto, não o confundindo, também não posso radicalizar na sua diferenciação. Não enquanto não houver uma democracia mais directa.

quinta-feira, setembro 27, 2007

"All humans be free from killing and torturing"


Página editada a partir da original: The Independent
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"Buddhist monks are chanting: "All humans be free from killing and torturing, Our compassion and love spread all over country" and "Peace on earth".
Sein Khaloke
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"Now the junta is reducing the internet connection bandwidth and we have to wait for a long time to see a page. Security forces block the route of demonstrations. Yesterday, the junta told people in Rangoon and Mandalay not to leave their houses from 9pm to 5am. I think if the junta decides, they will cut off communication."
David, Rangoon
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"Myanmar: China não condena ataques a monges" - Pergunto-me porquê, quais serão as intenções do igualmente "democrático" governo da China?
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"A posição chinesa é semelhante à da Rússia, que qualificou os acontecimentos em Myanmar de "assunto interno" que não ameaça a "segurança regional e internacional"."
Pois, a China e a Rússia também têm muitos destes problemas ditos "internos", daí o medo.

quarta-feira, setembro 26, 2007

Os intelectuais e o liberalismo 4

Boudon não vai aprofundar na sua obra a origem histórica da designação de intelectuais, limita-se a dizer-nos que eles se dividem em três tipos distintos: os produtores de ideias, os mediadores de ideias e os consumidores de ideias. É para o nível dos produtores de ideias que ele vai orientar sua atenção, pois será por eles, claro?, que se determinam formas de compreender ou explicar a realidade. O que o leva a querer saber sobre o tipo de motivações que levam esses intelectuais ao seu trabalho de produtores de ideias. Serão movidos pelo interesse de descobrir a verdade? Do saber pelo saber? Ou será que têm outros interesses pessoais e profissionais menos científicos e que passam pela promoção da sua pessoa? R. Boudon encontra três tipos (outra vez esta divisão tripartida) de produtores de ideias: 1. Os “intelectuais que são animados pela libido sciendi.”, p.46. Isto é, os que trabalham no concerto de uma comunidade científica que se apresente como tendo interesse em produzir modelos de explicação eficazes sobre o objecto estudado; 2. Aqueles que “são militantes”, isto é, os que de forma directa ou indirecta procuram legitimar as suas pertenças ideológicas, culturais ou filosóficas, através das suas teorias. Como diz Boudon: “Na linguagem de Max Weber, estes militantes – no sentido muito lato em que me proponho tomar aqui a palavra – obedecem principalmente a uma ética da convicção”, p. 46; 3. O terceiro tipo define os intelectuais que estão interessados sobretudo em tornarem-se visíveis, em “passar na TV”.


Na sua obra de 1892*, Simmel, di-lo Boudon, terá escrito que não há intelectuais que se movam exclusivamente impelidos por uma busca da verdade, sendo que a causa principal da sua produção é sempre o desejo de visibilidade. Eu não conheço esta obra de Simmel. Boudon considera no entanto que este desejo pela visibilidade está muitas das vezes subordinado à actividade do intelectual quer em nome da libido sciendi, quer, também, à actividade em nome de uma ética da convicção. Por sua vez, um intelectual que regule a sua produção científica em nome de uma ética da convicção, em que passe a legitimar com o seu pensamento determinadas formas de pensar e agir contra outras, cai, muitas vezes, no erro grosseiro de tomar a sua verdade pela a verdade. Abandona a atitude que Weber diz caracterizar toda a verdadeira investigação científica: a de manter uma neutralidade axiológica, valorativa, acerca do objecto estudado. Isto pode acontecer igualmente nas ciências sociais ou naturais, acrescente-se.


Para Boudon, os intelectuais estão num mercado de ideias em que a procura é maior que a oferta. Os meios de comunicação, vorazes na procura de informação para preencher as suas 24 horas de emissão, recorrem frequentemente aos intelectuais para estes explicarem, analisarem ou contextualizarem aspectos da realidade social, política ou económica. Ora o que acontece é que intelectuais com mais sensibilidade ao tipo de interesses da opinião pública, ao que as pessoas têm como factos marcantes da sociedade, tenderão a dar resposta a esse interesse, mantendo um discurso que vai ao encontro do que as pessoas esperam ouvir, aumentando assim a sua presença nos órgãos de comunicação, com a consequente influência mediática daí proveniente e com o alargamento social do seu espaço de intervenção.

Ora se os fenómenos marcantes de uma sociedade se prenderem com as reais questões económicas e sociais que possam ter trazido crises, desequilíbrios graves e injustiças sociais, então esses factos tenderão a ser explicados facilmente como uma consequência do liberalismo, e este será rejeitado tanto pelo homem da rua como pelo intelectual na televisão. O intelectual não se esforçará em contrariar a ideia corrente, em procurar apresentar factos que corroborem a sua análise, procurará antes responder conformemente aquilo que ele percebe que as pessoas querem ouvir, dizendo não haver possibilidade de correcção social e económica dentro do quadro de pensamento económico liberal. O que, acrescento eu, é um erro que os próprios intelectuais orgânicos defensores do liberalismo deixam que ocorra, pela sua própria incapacidade de explicarem e/ou compreenderem eles próprios a natureza do liberalismo político, em primeiro lugar, filosófico, em segundo, e, para terminar, até económico. Porque dentro dos defensores do liberalismo económico o espectro alarga entre os que exigem uma regulação social que imponha estruturas que realizem um estado de justiça social e, aqueles outros, mais radicais, que apelam a uma total autonomia e responsabilização do indivíduo na sua relação com a actividade económica. Não se explicam bem, daí, entendo eu, a agressividade intelectual, legítima, dos iliberais.

Mas qual é a fonte dos pensamentos iliberais? Porque são eles aceites por uma maioria da população? As pessoas andarão todas enganadas? Mas então não é o próprio Boudon a reclamar por uma cultura do real? Estarão as pessoas todas formatadas pelos iliberiais, ou haverá razões pertinentes para o serem?
*Einleitung in die Moralwissenschaft, 2 volumes, Berlin: Hertz, 1892-3 [Introdução à Ciência da Ética]

O medo dos que têm o poder de mudar o nome de um país

terça-feira, setembro 25, 2007

Os intelectuais e o liberalismo 3

O princípio filosófico do liberalismo, o da autonomia e responsabilização individual, parte do pressuposto de que o seu humano é um ser racional, e que por isso as suas acções e paixões podem ser compreendidas e explicadas. As explicações que recorrem a causas não explicáveis não fazem parte deste universo teórico. Claro que isto é extremamente útil em termos políticos. Se admitirmos que todas as acções públicas de imposição de uma ordem social podem ser explicadas, estamos a inferir quer todas as acções devem ser explicadas perante os afectados por essas acções, não havendo aqui lugar a registos discursivos desculpabilizantes ou desresponsabilizantes.

Mas esta compreensão dos indivíduos e dos fenómenos enquadrados pelo modelo da psicologia clássica (que entendia o ser humano como essencialmente um ser racional) não restringirão a compreensão mais aprofundada da acção humana, nem sempre consciente, nem sempre racional? Assim o pensaram todos os investigadores que preferiram sempre explicar a acção do indivíduo a partir de categorias psicológicas, de estruturas sociais ou culturais que determinavam a acção individual. Por outro lado, a nível da análise social o que se ganha na procura de causas irracionais por contraponto à explicação racional? Se nos ativermos exclusivamente às causas racionais, alguma coisa de fundamental do indivíduo se poderá perder, mas se privilegiarmos as causas irracionais da acção, curto circuitamos a nossa análise social, ou, mais grave, bloqueamos a nossa acção cívica de participação política (pois se nos ativermos a analisar extensivamente as nossas intenções mais profundas, não agiremos ou exigiremos uma acção pautada por critérios de selecção racionais, explicáveis e autónomos). Daí que sublinhe estas palavras críticas de Boudon: “Continua-se a considerar que os comportamentos e as crenças dos homens são efeitos mais ou menos mecânicos do seu meio envolvente.”, p. 40.

Ora, Boudon reforça o interesse em manter os métodos de compreensão e análise da acção humana provenientes do modelo clássico de psicologia racional desde Aristóteles, como regra, por contraponto aos métodos utilizados contemporaneamente em investigação pelas Ciência Sociais, que adoptaram o método de análise dos construtivistas e dos culturalistas nas diferentes áreas de estudo, no seguimento dos métodos de investigação propostos no início do séc. XX por psicanalistas, behavioristas e marxistas. Salvaguardando o papel real que estes últimos tiveram na expansão do conhecimento e da compreensão do ser humano e do mundo, Boudon reclama pelo recolocar no centro das investigações das ciências sociais o papel do indivíduo entendido como sujeito autónomo, uma matriz de pensamento liberal, propondo reconfigurar as explicações positivistas, marxistas, estruturalistas ou psicanalíticas que recorrem a causas psicológicas ou sociais não racionais.

Pergunto eu, mas então estas visões científicas, estes modelos explicativos não respondem bem às investigações que são conduzidas no seu campo? Boudon responderá que sim. Que esses modelos explicativos respondem a procuras, mas acrescenta ele, essas teorias sendo úteis, não serão necessariamente verdadeiras e, para mais, há teóricos que não procuram tanto a verdade quanto procuram obter um determinado efeito político através das suas teorias. Certo. Mas a questão é: qual é a teoria que não provoca um efeito político? Não conheço. Mesmo a do senhor Boudon, escrita em nome da verdade. Senão, também, da utilidade? Reconheço no entanto haver diferenças ao nível dos métodos e das intenções entre uns e outros. Por isso qual será o próximo passo? Pensar sobre quem são os intelectuais e como investigam eles?

segunda-feira, setembro 24, 2007

As palavras que eu gostava que os editores tivessem escrito quando publicaram notícias sobre o conteúdo do diário de uma mulher sob investigação.

Kate por Francisco José Viegas no JN.

"Um dos epicentros desta tragédia aconteceu, no entanto, quando a polícia resolveu apreender - dando-lhe existência - o diário de Kate McCann. No extraordinário mundo do segredo de justiça português há sempre formas de os documentos chegarem à imprensa para proteger um dos lados do conflito - porque se trata de um conflito entre duas trincheiras armadas da sua fé. Quando a imprensa veste a pele de moralista, faz figuras ridículas; ao tentar um assassinato de carácter na figura de Kate McCann, o retrato foi absurdo. Não ocorreu apenas nos jornais portugueses. Os ingleses, espanhóis, franceses e brasileiros, davam largas à sua capacidade de indignação subtil ao afirmarem que, preto no branco, no segredo do seu diário, aquela mãe achava que as crianças eram histéricas, que Maddie era hiperactiva e que o marido não ajudava a tratar dos gémeos. Daí se inferia, na alma popular incitada pelos jornais, que estava tudo escrito e que a polícia ia deitar a mão (com base em quê?) àquela mãe cruel. Ora, todas as mães chamaram histéricos aos seus filhos e todas já acharam que eles eram hiperactivos. Todas já acharam que os maridos não as ajudavam. Todas elas, em algum momento, pensaram na sua vida sem filhos. Todas elas têm vida para além dos filhos e nenhuma delas está exclusivamente destinada, como se fosse carne para canhão, à carreira de reprodutora, puericultora ou educadora de infância. O que os jornais quiseram fazer com a "caracterização psicológica" de Kate McCann a partir de fragmentos escolhidos do seu diário é, francamente, uma filha da putice. O leitor conhece a expressão."

Os intelectuais e o liberalismo 2

Quais foram então os caminhos que Boudon abriu para a questão que o inquietou, a saber, o antagonismo expresso dos intelectuais às ideias do liberalismo?

É claro que Boudon distingue o liberalismo filosófico do político e estes do liberalismo económico, porém, resume que qualquer destas esferas pode ser unificada sob a égide da ideia liberal que defende “que as entidades colectivas, as classes sociais, as nações, o Estado e os Partidos, etc., são constituídos por indivíduos: rejeita o holismo.”, p. 15. Esta identificação ideológica é curiosa e é uma identidade filosófica, é uma ideia ocidental que tem uma história que não exclui as pessoas que se dizem de esquerda, nem, por si, identifica imediatamente as pessoas ditas de direita. Aliás, ainda há poucas semanas, já não recordo em que jornal, o socialista Mário Soares reforçava a sua ideia de inequívoca adesão aos ideais filosóficos do liberalismo, refutando tão só as ideias do liberalismo económico. Esta não é uma contradição ideológica, não num socialista de matriz ocidental. E o contrário também é verdade. Quantos liberais económicos não se sentiriam profundamente perturbados na construção da sua identidade quando se reclamasse para eles uma defesa de valores, igulamente denominados de liberais em termos filosóficos, de construção de uma ordem social mais assente na ideia de indivíduo e no reforço da ideia de uma “sociedade composta por indivíduos que procuram maximizar o seu bem-estar”, p.18, mais do que na ideia de coesão à volta das normas de grupo, na tradição familiar ou social, por exemplo.

Boudon parte também da definição filosófica de liberalismo. É sobre esta corrente do pensamento que ele investiga movimentos de aceitação ou negação, sendo que por ela se afirma “o indivíduo tem a aspiração de dispor de uma autonomia tão ampla quanto possível e quer ser respeitado na sua dignidade na mesma medida em que respeita o próximo”, p. 14. Dito isto, porque será então, segundo Boudon, que os intelectuais dos anos 50 aos nossos dias se têm mostrado tão adversos a seguirem as ideias liberais?
Porque:
a) Os princípios filosóficos do liberalismo terão sido frequentemente violados pelos preconizadores de uma sociedade liberal, defraudando assim as expectativas de toda uma gente que via nesses princípios uma boa teoria para ser aplicada numa prática social de regulação da ordem pública, onde a individualidade não implicava a defesa de acção do mais egoísta e do mais forte a promover desigualdades sociais sem legitimidade funcional.

b) Os modelos explicativos da sociedade segundo a teoria marxista continuam a ser utilizados pelos intelectuais, porque continuam a dar respostas úteis quando se procura explicar a sociedade. Daí o recurso a termos como os de “classe” ou “luta de classes” mesmo por parte de académicos que não advogam o marxismo como ideologia política. São termos que se sedimentaram melhor se os compararmos com as explicações das representações da sociedade em torno de ideias como as de estratificação social por "tipos ideais", “estatuto” e “teias de estatuto” (Weber e Pareto).

Na verdade, digo eu, a explicação de Gramsci permite uma análise curiosa da sociedade nas suas relações comunicacionais de poder. É um modelo que tem como pertinência teórica procurar uma resposta interessante, e culturalmente forte, para a questão de saber como as ideias se formam, se divulgam e se institucionalizam, por exemplo. Este modelo assenta na divisão da sociedade em duas classes que se opõem: a dos que têm poder de tornar homogénea a sua cultura e a sua ideologia (os detentores do capital financeiro e/ou capital de conhecimento e informação) por contraponto à classe dos trabalhadores. Hoje seria uma divisão entre os que detêm o poder de informar e os que procuram, ou estão sujeitos, ao processo de informação (reinvenção da clássica luta entre a classe dominante e a classe dominada).

Para Boudon, este fascínio teórico pela “luta de classes” explica-se por “o marxismo ter dado uma aparência erudita, e com ela legitimidade, a um modelo conspirativo eterno: a teoria da conspiração (conspiracy theory) De acordo com esta teoria , todos os males que se podem observar nas sociedades seriam devidos a uma conspiração dos poderosos, que dissimulariam os seus desígnios debaixo de nobres intenções”., p. 25.

Este argumento, sedutor, peca, quanto a mim, do mesmo defeito que ele apontou aos argumentos marxistas para a definição de sociedade. Boufon fica seduzido pela ideia de que é o gosto popular por uma teoria da conspiração que promoveu tão grande concordância à teoria marxista, quando a prática filosófica revela que a origem, ainda que dubitativa, não parte senão de uma observação das reais condições de vida de uma sociedade altamente estratificada como era a do século XIX, para mais tendo Marx lido e procurado assimilar o modelo filosófico de Hegel, que não é, nunca foi, um teórico da conspiração, senão um sistémico à procura de uma explicação para os movimentos de transformação (para a dialéctica) dos processos naturais, sociais, históricos ou ideológicos.

O que os neo-marxistas terão feito com as ideias de Marx, na década de sessenta e setenta, ou que eles tenham enveredado por defenderem ideias que, ao seguirem nessa linha de uma popularmente atraente explicação assente numa teoria da conspiração entre classes, tivesse levado a generalização dos diagnósticos marxistas de uma eterna luta de classes a acontecer em todos os domínios sociais, também me parece uma conclusão exagerada. Pese embora eu não saiba como contra argumentar contra a ideia decorrente da anterior e que leva Boudon a escrever que “A ideia de que a cultura é um veículo da reprodução das classes assumiu o estatuto de ideia feita. E continua a impregnar fortemente os meios do ensino e da cultura /Harouel, 1998 (1994)\”, p.27.

Mas se a cultura não é , de alguma forma, uma reprodução das classes, é o quê? E como se chega a essas conclusões? Com que métodos e assente em que teorias explicativas?

quinta-feira, setembro 20, 2007

Os intelectuais e o liberalismo 1

Raymond Boudon parte do pressuposto que eu considero correcto ao analisar o seguinte problema: porque razão a maior parte dos intelectuais ( classe que ele divide os produtores de ideias, os consumidores de ideias ou os mediadores de ideias) atacam o liberalismo? E o pressuposto de que o autor parte é de que há razões cognitivas que expliquem essa opção ideológica, logo há que identificá-las e sistematizá-las. Convenhamos, é um progresso relativamente às análises que nos dizem que um intelectual é por força da razão um anti-liberal porque é… uma pessoa inteligente ou aquela outra explicação que advoga que o intelectual defende ideia iliberais porque é um ressentido economicamente, isto é, não recebe o dinheiro suficiente pelo seu trabalho, daí a reacção negativa ( ideia à senhor Nozick!). Estas duas espécies de resposta bloqueiam a argumentação, há que ir por outros caminhos. Boudon fê-lo.

Birmânia

"Na Birmânia a esperança começa a sair do ponto morto: "Milhares de bonzos de vários pagodes estão a manifestar-se nas ruas em protesto contra a junta militarl" [The Guardian]; "Os sacerdotes budistas, vestidos com as habituais túnicas avermelhadas e com o crânio reluzente ao sol implacável de Rangoon, marcham em longas colunas silenciosas pelas ruas onde são ladeados por milhares de laicos que os aplaudem. Os bonzos mostram à sua maneira tranquila e disciplinada que reprovam o modo como o regime militar comanda o país há 45 anos. O acto é simbólico, mas extraordinariamente poderoso neste país fechado, com 60 milhões de habitantes impregnados pelo budismo" [Mas Constant, repórter do Le Temps de Genéve].


(...)

"Estes tiranos que se impõem através do terror estão a ser abalados por alguns bravos. Infelizmente, o mundo permanece mudo. Há declarações de preocupação, apenas isso. É absurdo o mito de que a junta militar é insensível a pressões. Importa agir, com a União Europeia e a ONU à cabeça. Para começar, impor prazo para libertação de presos políticos. Se não cumprirem, aplicar-lhes sanções económicas. Não podemos continuar a abandonar o povo da Birmânia" [The Independent].

Seleccção de notícias sobre Myanmar (a Birmânia) por Sena Santos no Diário de Notícias on line

quarta-feira, setembro 19, 2007

Caracóis e imperiais bem geladas aqui para esta mesa, se faz favor.

Ando há semanas para escrever sobre um, ou dois ou mesmo três livros.
Li um livro nas férias do verão. Um livro pequenino que começava com uma pergunta. É, como eu gosto.
Ando há semanas também para falar das exposições sobre comunicação política que ouvi e registei na Universidade do Minho. Por isso, ando há semanas a tentar assestar os meus neurónios para aquilo que é e não para aquilo que eu julgo que deve ser. Nas cidades como nos sistemas institucionais, nas pessoas como nas casas.
Não vou falar dos cochichos e sorrisos larvares, a roçar o esgar, dos secretários de estado da Educação deste meu país durante um programa de debate na televisão, assim como assim entre as atitudes e comportamentos de indisciplina deste meu ministério e a atitude leviana do Ministro dos Negócios francês a falar de guerra eu aguento melhor com os nossos meninos tonecas. É o fado. E não vou falar do estado do sistema de educação no que à ausência de ideias, uma que fosse, para orientar o trabalho de formação da identidade do cidadão. Não, o ministério comporta-se como associação patronal que exige números para exportação e há-de atingi-los, e havemos de figurar nos relatórios da OCDE em lugares mais convenientes. E alguma coisa tinha que ser feita, não digo o contrário. Não vou falar disto. Nem vou dizer que nunca o ministério da educação me pareceu tão bem guardado com a duplicação de forças de segurança à porta, ou será tão acossado? Estamos todos a atingir o zénite educativo e não nos sentimos agradecidos, ingratos que somos. Não vou falar disto. Dos horários absurdos daqueles alunos que irão fazer em dois anos o ensino básico obrigatório, ou da multiplicação de cursos e cursinhos em cada Escola, nem da falsidade de se afirmar que fecharam escolas sem condições, ou que agora é que os professores estão a ser avaliados adequadamente, enfim. Nem daquilo, do debate dos pretendentes a líderes do maior partido de oposição. É porque se começar a falar sei que vou começar a defender mudanças de regime e outros temas quejandos que não domino a não ser com a emoção.

Vou falar de um livro, pequenito, que eu li nas férias. É um livro de Raymond Boudon. Não conhecia o autor de lado nenhum quando comprei o livro. Comprei o livro porque depois do título me chamar a atenção, a tabela de conteúdos me convenceu. E gostei de conhecer o senhor Boudon. É um francês que escreve sobre política e filosofia com a simplicidade de exposição de ideias anglo-saxónica, mas sem descurar a comparação com a filosofia continental. Mais abrangente, desde logo. Não concordo com tudo o que o filósofo/sociólogo escreveu, mas aprendi com ele, e, sobretudo, considero que ele procurou claramente responder a uma pergunta fundamental daquelas que cabe no objectivo mais vasto que é o de sabermos como se formam as nossas crenças/atitudes, do ponto de vista de uma sociologia das ideias, vamos lá, que nem sabia que esta área académica existia e já estou convicta da sua necessidade absoluta. Utilizando na sua análise a perspectiva da racionalidade cognitiva, e não a psicológica ou a de determinismo social, por exemplo. Método mais próximo do da filosofia, portanto. O livro intitula-se Os intelectuais e o liberalismo, e começa com uma pergunta: porque é que os intelectuais, entenda-se os produtores de ideias (ena, começamos logo com um vocábulo marxista a assinalar o trabalho do intelectual), na sua grande maioria, recusam o liberalismo?
Será? Porquê, então? Ou, porque não?