No blog "A Educação do meu umbigo" foi publicada online uma carta aberta ao Senhor Presidente da República Portuguesa, escrita pelo professor Domingos Freire Cardoso. Eu julgo ser um dever de cidadania dar toda a publicidade ao conteúdo da missiva. Ler carta aqui.
quinta-feira, novembro 08, 2007
quarta-feira, novembro 07, 2007
A vida Nova: o indivíduo e a colectividade vistos pela perspectiva de um caramelo
Há objectos de consumo que definem a portugalidade. E são tão bem achados que podem servir mesmo como armas de arremesso por indígenas boçais de outras culturas. Lembro as sardinhas, por exemplo. Outras nações terão os seus produtos definidores da colectividade. São tempos prévios aos do consumo globalizado. Não são tempos melhores, nem piores. São outros tempos.
Um dia, na Turquia, o jovem Osman lê um livro, vai dizer-nos que esse livro lhe mudou toda a vida. É a sua história que Orhan Pamuk nos conta.
Depois de ler o livro, o de Pamuk, e não o que o Osman leu, nem eu, nem Osman, diga-se a bem da verdade, acreditamos sinceramente que foi um livro quem assim determinou a sua existência. Quem muda realmente a vida de Osman é uma mulher, a mesma que lhe proporcionou a leitura desse livro.
O livro lido é uma chave para um amor: o de Osman por Janan; esta, por sua vez, serve-se do livro como chave para o seu amor por Mehmet; Mehmet serve-se do livro como uma chave para um tempo que lhe permite como que suspender definitivamente o futuro, tornando-se um infatigável copista da obra. Não são amores com histórias felizes, os sentidos por Osman e Janan.
E o livro que Osman leu? Vale o que cada um projectar de si nele ou deixar que ele projecte em si. Como acontece com quase com todos os livros que as pessoas dizem ter-lhes servido para lhes mudar as vidas. Agora devia explicar a excepção que a palavra "quase" significa. Mas não explico. Assim como assim.
É um livro escrito nos tempos livres de um ferroviário, o Tio Rifki, que o intitula de "Vida Nova". Este livro dá conta da presença, entre os homens, de um anjo. Mas é sobretudo um livro que glosa todos os livros que Tio Rifki lera e que falaram de anjos. De Rilke a Ibn Arabi, passando por livros como o Corão, ou aquele escrito por Dante, o Vita Nova, os de Júlio Verne ou os de Nesati Akkalem, entre centenas de outros.
"O que é a vida? Um lapso de tempo. O que é o tempo? Um acidente. O que é um acidente? Uma vida. Uma vida nova. Era isso o que o meu estribilho me repetia." p.291.
O livro que Osman lê é um livro que recria todos os livros que o seu autor já lera. E quando Osman não desistindo de encontrar mesmo assim um sentido, uma continuidade mística entre todos esses autores mundiais, procura compreender como é que a imagem do anjo que ele persegue se substanciou no livro, procurando um mapa para o significado daquela sua vida, encontra o homem que produzira uns caramelos que se vendiam em todas as lojas do país quando ele era garoto pequeno. Uns caramelos que se chamavam precisamente "Vida Nova", embrulhados num papel onde estava sempre desenhado um anjo, e no qual estava escrita uma lengalenga que se queria quase sempre diferente de caramelo para caramelo.
E o livro que Osman leu? Vale o que cada um projectar de si nele ou deixar que ele projecte em si. Como acontece com quase com todos os livros que as pessoas dizem ter-lhes servido para lhes mudar as vidas. Agora devia explicar a excepção que a palavra "quase" significa. Mas não explico. Assim como assim.
É um livro escrito nos tempos livres de um ferroviário, o Tio Rifki, que o intitula de "Vida Nova". Este livro dá conta da presença, entre os homens, de um anjo. Mas é sobretudo um livro que glosa todos os livros que Tio Rifki lera e que falaram de anjos. De Rilke a Ibn Arabi, passando por livros como o Corão, ou aquele escrito por Dante, o Vita Nova, os de Júlio Verne ou os de Nesati Akkalem, entre centenas de outros.
"O que é a vida? Um lapso de tempo. O que é o tempo? Um acidente. O que é um acidente? Uma vida. Uma vida nova. Era isso o que o meu estribilho me repetia." p.291.
O livro que Osman lê é um livro que recria todos os livros que o seu autor já lera. E quando Osman não desistindo de encontrar mesmo assim um sentido, uma continuidade mística entre todos esses autores mundiais, procura compreender como é que a imagem do anjo que ele persegue se substanciou no livro, procurando um mapa para o significado daquela sua vida, encontra o homem que produzira uns caramelos que se vendiam em todas as lojas do país quando ele era garoto pequeno. Uns caramelos que se chamavam precisamente "Vida Nova", embrulhados num papel onde estava sempre desenhado um anjo, e no qual estava escrita uma lengalenga que se queria quase sempre diferente de caramelo para caramelo.
E que sentido tinham esses poemas? Eram mais de dez mil pequenos truques publicitários, frases para embrulharem os caramelos e seduzirem ainda mais os compradores.
E o anjo, onde fora buscar a ideia do anjo para pôr no papel? Ao filme "O Anjo Azul" com Marlene Dietrich.
"Süryya bey, pelo meu silêncio, adivinhou a minha tristeza, graças a essa intuição própria dos cegos, e quis consolar-me: era assim a vida; havia o acaso, a sorte, havia o amor, havia a solidão, a alegria, a melancolia, havia a luz, havia a morte, mas também uma vaga felicidade; o que era necessário, sobretudo, era não esquecer; (...)", p. 284-285
O que resulta do livro de Pamuk? A confirmação da ideia de que "quem procura sempre encontra". Osman afadigou-se quase até à insanidade na procura de um sinal de presença de uma realidade metafísica que ele só entrevira através da leitura de um livro. E encontra-a.
"Süryya bey, pelo meu silêncio, adivinhou a minha tristeza, graças a essa intuição própria dos cegos, e quis consolar-me: era assim a vida; havia o acaso, a sorte, havia o amor, havia a solidão, a alegria, a melancolia, havia a luz, havia a morte, mas também uma vaga felicidade; o que era necessário, sobretudo, era não esquecer; (...)", p. 284-285
O que resulta do livro de Pamuk? A confirmação da ideia de que "quem procura sempre encontra". Osman afadigou-se quase até à insanidade na procura de um sinal de presença de uma realidade metafísica que ele só entrevira através da leitura de um livro. E encontra-a.
E nesse encontro prova que se encontra o que se procura mas muitas vezes quando o deixamos precisamente de procurar. E não, o livro de Pamuk não vende espiritualismo de pacotilha.
Do livro resulta também uma grande defesa do individualismo. A oriente, quase entendido como uma ameaça, o individualismo é menosprezado como mais forma de vida impositiva de um ocidente colonizador. Num oriente que procura defender a sua identidade, conservando os seus objectos identitários em luta neste mercado ideológico e material mundial, ou, quando extenuadas as forças de convicção pela força da imposição desses objectos, que julga-se poderem ter o poder de arrastar aquilo a que se chama as atitudes e as ideias certas de nacionalidade, se opta então por um recurso indefensável como é o terrorismo.
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"Resumamos: eu tinha querido distinguir-me dos outros, descrever-me como um ser à parte, como um objectivo completamente diverso do dos outros, o que, no nosso país, é um crime imperdoável."p.287
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Esse crime, que para o ocidente é uma condição própria da existência, como é que pode ser compreendido e aceite numa comunidade como a europeia, a que eu julgo a que a Turquia deve pertencer? Muito trabalho há para os filósofos turcos. E pronto, sem arrogância cultural, muito trabalho há também para os filósofos ocidentais sobre este sentido da identidade. E para os teólogos. E muito esforço cívico para os jovens Osnan e Janan turcos.
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Afinal gostei muito do livro. A sua leitura não me mudou a vida, mas já do homem que mo ofereceu não posso dizer que não ma tivesse mudado.
terça-feira, novembro 06, 2007
Dilaceração
Quando escrevi o post anterior eu não tinha tido conhecimento do gravíssimo acidente ocorrido na A23. Eu não sabia de nada. Não sabia.
segunda-feira, novembro 05, 2007
Dilaceração
Uma vez houve um polícia que disse à minha mãe que eu não respeitava a figura de autoridade dos polícias. Fiquei chocada.
É verdade que eu não aprendi a temer a polícia, vivi quase sempre em democracia, por isso olho-os nos olhos, e acato sem reclamar as suas ordens se eu as considerar, como adulta e cidadã livre e responsável, que há razões para o fazer, senão reclamo e protesto e contra argumento e... acabo multada. Como tudo se passa num plano de respeito mútuo de direitos sempre achei que estava muito bem assim: é um direito meu o de protestar com educação, é um direito do polícia, no estrito sentido do seu dever, multar ou repreender. Já não é um direito mútuo o de fazermos uso de tons de voz arrogantes ou permitir abuso de poder. E está, e não está.
De entre as histórias hilariantes com as brigadas de trânsito deste país que podia contar, vou escolher uma de tom trágico, e que nem sequer se passou comigo directamente. E isto numa forma de homenagear aquele polícia que um dia se sentiu subvalorizado pela minha atitude, ainda que de uma forma que não compreendo como a sentiu intencional (afinal eu só fiz uma manobra de marcha atrás na rua da minha mãe e que por acaso até é de sentido único, mas é que não vinha lá nenhum carro a circular e eu nem sequer reparei que estava ali perto um polícia de plantão: está certo, as regras existem para serem aplicadas, é simples).
A brigada de acidentes respondeu a uma de muitas chamadas. Era uma coisa pouca, quase nada, um toque leve entre dois carros num parque de estacionamento. Passa uma mota na Avenida ao lado em excesso de velocidade. Estava uma noite amena neste Novembro que vai desaforadamente quente. O polícia mais velho levanta os olhos e segue a mota, meneia a cabeça e começa a desfilar os horrores que o seu olhar já teve que ver, as suas mãos já tiveram que sentir, os seus ouvidos já tiveram que ouvir. “E eu que nem podia ver sangue... um homem habitua-se a tudo, não é? Muitas vezes julgo que não aguento. Ainda há noites em que não consigo dormir, imagens que não me saem da cabeça. Custa-me sobretudo quando os corpos ficam num estado tal que só podem ser recolhidos para dentro de um saco de plástico. Hoje mesmo vi imagens que resultaram de um acidente em que uma das vítimas apareceu decapitada.”
O horror de morrer dilacerado dentro de um carro, por debaixo de um carro, de encontro a um carro, de ficar estendido no chão. O horror de ter de assistir a essa violência. O horror de ter que permanecer de plantão, ainda que ninguém o veja. E o dever de ter que multar para ajudar, quem sabe, a apagar esse horror. Ou de o adiar um pouco, propiciando o fintar da morte numa estrada qualquer.
No A Vida Nova este horror é exemplarmente compreendido.
É verdade que eu não aprendi a temer a polícia, vivi quase sempre em democracia, por isso olho-os nos olhos, e acato sem reclamar as suas ordens se eu as considerar, como adulta e cidadã livre e responsável, que há razões para o fazer, senão reclamo e protesto e contra argumento e... acabo multada. Como tudo se passa num plano de respeito mútuo de direitos sempre achei que estava muito bem assim: é um direito meu o de protestar com educação, é um direito do polícia, no estrito sentido do seu dever, multar ou repreender. Já não é um direito mútuo o de fazermos uso de tons de voz arrogantes ou permitir abuso de poder. E está, e não está.
De entre as histórias hilariantes com as brigadas de trânsito deste país que podia contar, vou escolher uma de tom trágico, e que nem sequer se passou comigo directamente. E isto numa forma de homenagear aquele polícia que um dia se sentiu subvalorizado pela minha atitude, ainda que de uma forma que não compreendo como a sentiu intencional (afinal eu só fiz uma manobra de marcha atrás na rua da minha mãe e que por acaso até é de sentido único, mas é que não vinha lá nenhum carro a circular e eu nem sequer reparei que estava ali perto um polícia de plantão: está certo, as regras existem para serem aplicadas, é simples).
A brigada de acidentes respondeu a uma de muitas chamadas. Era uma coisa pouca, quase nada, um toque leve entre dois carros num parque de estacionamento. Passa uma mota na Avenida ao lado em excesso de velocidade. Estava uma noite amena neste Novembro que vai desaforadamente quente. O polícia mais velho levanta os olhos e segue a mota, meneia a cabeça e começa a desfilar os horrores que o seu olhar já teve que ver, as suas mãos já tiveram que sentir, os seus ouvidos já tiveram que ouvir. “E eu que nem podia ver sangue... um homem habitua-se a tudo, não é? Muitas vezes julgo que não aguento. Ainda há noites em que não consigo dormir, imagens que não me saem da cabeça. Custa-me sobretudo quando os corpos ficam num estado tal que só podem ser recolhidos para dentro de um saco de plástico. Hoje mesmo vi imagens que resultaram de um acidente em que uma das vítimas apareceu decapitada.”
O horror de morrer dilacerado dentro de um carro, por debaixo de um carro, de encontro a um carro, de ficar estendido no chão. O horror de ter de assistir a essa violência. O horror de ter que permanecer de plantão, ainda que ninguém o veja. E o dever de ter que multar para ajudar, quem sabe, a apagar esse horror. Ou de o adiar um pouco, propiciando o fintar da morte numa estrada qualquer.
No A Vida Nova este horror é exemplarmente compreendido.
subscrevo
"(...) Os professores e os sindicatos estão fora dos corredores da 5 de Outubro, e acaba por ser fácil penalizar e humilhar professores. Já os pedagogos, os ideólogos do edifício escolar e os teóricos que se têm encarregado de embrulhar o suistema de ensino, esses, estão instalados no ministério. Todos os conhecemos. Têm, antes de mais, um discurso muito próprio, cheio de metáforas e de ditirambos que nunca se referem a coisas práticas, que dificilmente estão relacionados com a escola e as suas dificuldades em existir e que, no fundo, vivem de experiências pedagógicas e vagamente científicas. Maria de Lurdes Rodrigues encontrou o caminho facilitado; tratou de introduzir alguma racionalidade na administração escolar e na vida dos sindicatos, na "operacionalidade" e no mapa escolar. Mas, quando se esperava que essa coragem fosse transposta para a área fundamental, que é o ensino propriamente dito, entrámos no mundo do puro delírio.
(...)O ensino - nomeadamente a ideologia que está por detrás de todas as decisões do ministério em matéria pedagógica e científica - está entregue a esse monstro corporativo que supõe ter toda a verdade do seu lado. O estatuto do aluno e o seu regime de faltas é apenas mais um episódio lamentável a acrescentar a tantos outros. É, geralmente, gente que não conhece a escola real, que não tem contacto com o dia-a-dia das escolas, que imagina os professores como meros instrumentos ao seu dispor para as experiências mais descabidas. As vítimas dessas experiências descabidas são os nossos filhos - e é o seu futuro. Por isso, o sinal dado pelo Ministério é definitivamente mau e constitui um erro grave, desculpabilizando os alunos faltosos, penalizando os alunos cumpridores e sobrecarregando os professores e as escolas com outra categoria de "desprotegidos" os que, deliberadamente, faltam às aulas. Tudo para adulterar e manipular as estatísticas, o que é grave demais."
Francisco José Viegas, Escritor, É mau de mais para ser verdade no Jornal de Notícias online
quarta-feira, outubro 31, 2007
Interno/Externo
"Destroem a classe média, precisamente aquela de onde, quando não sujeita às extremas pressões da insuficiência, quase sempre vi irromper as aberturas civilizacionais mais consistentes. Esta, não tendo para onde se voltar (já experimentou todos os partidos desta democracia) aceitará politicamente o quê? Se é o espaço fundamental das conquistas democráticas, rapidamente também se torna o espaço da derrocada das próprias democracias. O nosso sistema político não estará perigosamente em causa?"
Joaquim Manuel Magalhães, "Derrocada" no jornal Expresso Actual, 67.
"Generalizar e reformular a avaliação é uma das tarefas mais urgentes do nosso sistema de ensino. Conte-se com os professores que gostariam de ver o resultado do seu trabalho honestamente medido. Conte-se com as famílias que começam a perceber o logro dos progressos fictícios. Não se conte com o "eduquês".
Nuno Crato, "o eduquês envergonhado" no jornal Expresso Actual, p. 27.
"O engano de alguns políticos é outro. É pensarem que o mundo está à espera que a Europa lhe dê orientação moral e exemplo de convívio entre as nações. (...) Não é para assegurar hegemonia moral do seu "soft power" que a Europa precisa de se unir. É para se defender melhor do poder ("soft" e "hard") de outros que lhe dão luta sem quartel. Quem assim não o entender deve evitar a política e procurar conforto numa ONG complacente."
José Cutileiro, "Dois grandes enganos", jornal Expresso, p. 42.
terça-feira, outubro 30, 2007
Ena tantos!
«Portugal é o único país da Europa em que o peso dos salários torna quase impossível realizar medidas política», disse a ministra. No jornal Sol online
Portugal deve ser mesmo o único país da Europa em que os professores são pagos para trabalhar (e tão bem que o são para tão simples tarefa, aliás). Tenho quase a certeza que a Srª Ministra da Educação quando visita outros países deve ficar encantada por haver tantos professores que de forma inteiramente gratuita, ou com um salário meramente simbólico, se dedicam a ensinar. Só precisa de nos explicar por onde anda a viajar e que professores ideais são esses que deixam de ser remunerados para que assim se possam aplicar medidas políticas.
Nós não a merecemos, à Senhora Ministra da Educação, que tanto se preocupa com as políticas educativas, e nós, o que fazemos nós? Fisgaremos o vencimento. Danados.
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É verdade que os CEF (cursos de educação e formação) e os EFA (Educação e formação para Adultos) trouxeram muitos alunos para as Escolas Secundárias. Também é verdade que estes cursos eram leccionados nos Centros de Emprego e Formação Profissional que pagavam a formadores para os assegurarem. Assim, os docentes do básico e do secundário passaram a leccionar estes cursos, o ministério aumenta o número de alunos a frequentar a escolaridade obrigatória em escolas públicas, e poupa nas remessas vindas da comunidade europeia para serem atribuídas ao pagamento de formadores e pagar instalações e material. Não está mal pensado. Mas o que se ganha com estes remendos? Se querem estabelecer de forma generalizada cursos profissionais, algo fundamental numa sociedade, criem-se ou recriem-se as antigas estruturas das escolas comerciais e industriais. Assim, como estão, não passam de emendas na estrutura frágil da Educação em Portugal.
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Os CEF funcionam do seguinte modo: um aluno com desasseis ou desassete anos reprovou sistematicamente (por faltas ou por insuficiente aproveitamento) e pode ter, por exemplo, o equivalente ao sexto ano do unificado, mas pode transitar para um curso CEF o qual lhe dará, ao fim de dois anos e se houver aproveitamento no final, uma equivalência ao 9º ano e um certificado profissional. É óbvio que é um bom investimento, o de procurar trazer o aluno para a Escola. Mas sublinhe-se que estes alunos não irão nunca possuir as competências que são exigidas a todos os outros alunos do unificado que terminam o ensino unificado. Não nos enganemos, ou a eles.
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Como se faz na Alemanha, em Munique, por exemplo? Uma criança é seleccionada no quarto ano de escolaridade (demasiado cedo quanto a mim, mas são as regras desse estado). Logo aí se decide se é encaminhada para um ensino profissional, que mais tarde lhe permitirá o acesso ao ensino politécnico, ou se é encaminhada para o liceu onde poderá procurar aceder à universidade. É duro, mas não é uma medida hipócrita ou escamoteada da realidade. Todos os educadores e educandos conhecem claramente as regras do jogo que não andam sempre a ser remendadas, e que dão uma estrutura clara e definida ao percurso académico de cada aluno.
segunda-feira, outubro 29, 2007
Plano nacional de leitura?
Ofereceram um livro de leitura, recomendado pelo Plano Nacional de leitura, à minha criança. Por experiência conheço bem o reduzido préstimo de planificações que servem para pouco mais que descansar consciências. As Escolas deste país estão cheias de planificações. São actos quase sempre burocráticos para cumprir objectivos de secretaria. Ainda se fossem planos de acção como: vamos lá pôr os alunos em contacto com os livros de todos os tamanhos e feitios, dar-lhes professores que saibam mediar entre o livro e o suscitar do interesse pelo livro, e depois acreditar que desse contacto nasça a sua capacidade de escolher o que lhes interessa ler.
Mas não, são planos com livros recomendados. Que irritação, o tom recomendado. Os livros não se recomendam a não ser por obrigação, numa disciplina necessária mas em contexto académico, já numa aprendizagem da leitura, os livros, se for o caso de um plano nacional de leitura, quanto muito, partilham-se, que aos demais descobrimo-los por acaso, com espanto pela sorte de o descobrirmos.
Li o recomendado livro Três Histórias do Futuro de Luísa Ducla Soares. E de repente vi-me num universo linguístico de grande excelência, com palavras escritas na perfeição e no entanto o livro…não tinha um grama de interesse. Nenhuma história encantou a leitora ou o ouvinte da história, o mais importante. Cumpriu-se com sacrifício o ritual de terminar a história e com um suspiro o acto de o guardar na prateleira.
Mas não é só da literatura portuguesa para crianças, que dó, que se alimenta o inferno das boas intenções, pois o livro de Gabril Garcia Marques O feliz verão da senhora Forbes é outro exemplo da loucura com dom desnorteado que pode afectar um escritor ao escrever para crianças. O livro é quase todo um conto soberbo sobre a vida de dois rapazinhos de férias grandes numa praia. A certa altura eles começam a viver até ao desespero uma relação de ódio com a preceptora que lhes surgira, a meio termo, como agente de castração dessa grandiosa liberdade inicial que marcava as suas existências. O pior é o término da história, as palavras que são contadas para descrever esse fim são desavindas num imaginário infantil. Como eu o penso, pelo menos.
Deve ter sido por ter lido três livros de seguida a falarem sobre livros que estavam na origem dos acontecimentos narrados, e se tornaram livros orientadores de acção das personagens, multiplicando os seus efeitos performativos, que senti vontade de escrever sobre a questão dos livros e da educação.
Três romances seguidos nos últimos meses: um bestseller do qual não gostei quase nada de Carlos Ruiz Zafón, A Sombra do Vento, que apesar de ter um belo tema entre mãos o deixou mastigar num discurso por vezes sem graça, e assim contou a história de um rapazinho que durante um ritual de iniciação ao amor por um daqueles livros já esquecidos, abandonados em armazém, torna esse livro e a vida do seu autor o centro da sua própria vida (uma bela capa); um outro livro mais bem escrito que o anterior mas com personagens que não chegaram nunca a convencer-me do seu profundo interesse em seguir-lhes quer as vidas domésticas quer o seu trágico desenlace existencial, provocado por uma traição familiar consagrada na entrega de um livro proibido ao Santo Ofício incriminado assim os seus proprietários que irão ser submetidos à maldade de uma ordem religiosa inquisitória, que buscava a redenção dos que considerava pecadores em espírito, como os judeus, na humilhação, na dor e morte sistematicamente infligidos. Tudo isto no livro Goa ou o Guardião da Aurora de Richard Zimler; o terceiro livro, o enigmático A Vida Nova de Orhan Pamuk, deixou-me sem possibilidades de dizer se gosto ou não gosto. Não sei se gosto do Vida Nova. Ainda não me decidi. Gosto muito da escrita, do tema, mas…
Li o recomendado livro Três Histórias do Futuro de Luísa Ducla Soares. E de repente vi-me num universo linguístico de grande excelência, com palavras escritas na perfeição e no entanto o livro…não tinha um grama de interesse. Nenhuma história encantou a leitora ou o ouvinte da história, o mais importante. Cumpriu-se com sacrifício o ritual de terminar a história e com um suspiro o acto de o guardar na prateleira.
Mas não é só da literatura portuguesa para crianças, que dó, que se alimenta o inferno das boas intenções, pois o livro de Gabril Garcia Marques O feliz verão da senhora Forbes é outro exemplo da loucura com dom desnorteado que pode afectar um escritor ao escrever para crianças. O livro é quase todo um conto soberbo sobre a vida de dois rapazinhos de férias grandes numa praia. A certa altura eles começam a viver até ao desespero uma relação de ódio com a preceptora que lhes surgira, a meio termo, como agente de castração dessa grandiosa liberdade inicial que marcava as suas existências. O pior é o término da história, as palavras que são contadas para descrever esse fim são desavindas num imaginário infantil. Como eu o penso, pelo menos.
Deve ter sido por ter lido três livros de seguida a falarem sobre livros que estavam na origem dos acontecimentos narrados, e se tornaram livros orientadores de acção das personagens, multiplicando os seus efeitos performativos, que senti vontade de escrever sobre a questão dos livros e da educação.
Três romances seguidos nos últimos meses: um bestseller do qual não gostei quase nada de Carlos Ruiz Zafón, A Sombra do Vento, que apesar de ter um belo tema entre mãos o deixou mastigar num discurso por vezes sem graça, e assim contou a história de um rapazinho que durante um ritual de iniciação ao amor por um daqueles livros já esquecidos, abandonados em armazém, torna esse livro e a vida do seu autor o centro da sua própria vida (uma bela capa); um outro livro mais bem escrito que o anterior mas com personagens que não chegaram nunca a convencer-me do seu profundo interesse em seguir-lhes quer as vidas domésticas quer o seu trágico desenlace existencial, provocado por uma traição familiar consagrada na entrega de um livro proibido ao Santo Ofício incriminado assim os seus proprietários que irão ser submetidos à maldade de uma ordem religiosa inquisitória, que buscava a redenção dos que considerava pecadores em espírito, como os judeus, na humilhação, na dor e morte sistematicamente infligidos. Tudo isto no livro Goa ou o Guardião da Aurora de Richard Zimler; o terceiro livro, o enigmático A Vida Nova de Orhan Pamuk, deixou-me sem possibilidades de dizer se gosto ou não gosto. Não sei se gosto do Vida Nova. Ainda não me decidi. Gosto muito da escrita, do tema, mas…
O mais fascinante em Pamuk, como nos grandes escritores, é que a sua nacionalidade tem por morada a humanidade. Não é um escritor turco a falar de problemas de pessoas turcos, é um escritor turco a falar de problemas das pessoas turcas cujos problemas são os da existência de qualquer pessoa. É certo que os turcos podem usar a muleta de “todos os nossos problemas nascem a ocidente” que os ocidentais não têm, mas ao invés estes podem procurar outros bodes igualmente expiatórios das suas existências sociais e políticas acanhadas demais para os sonhos de cada um. Se por sermos ocidentais não podemos dizer que a causa dos nossos problemas são os ocidentais, podemos dizer que a razão estará na existência de comunistas, ou de capitalistas, ou de religiosos, ou de ateus, ou dos homens ou de mulheres, ou dos políticos ou dos apolíticos. Enfim.
Hei-de voltar a escrever sobre o Vida Nova.
Entrei na pequena livraria da pequena cidade. Por todo o lado cartazes a anunciarem os livros de Miguel Sousa Tavares e de José Rodrigues dos Santos. Perguntei à competente vendedora: “Então, nem um livro de Doris Lessing na montra?” Explicou-me que as pequenas editoras que a publicam não estavam a disponibilizar as suas obras porque não estavam preparadas para o fazer rapidamente.
Pequenas editoras? A editora livros do Brasil, por exemplo, publicou as grandes obras da literatura anglo-saxónica das primeiras décadas do século XX, tem também obras de referência alemãs e francesas!
Hei-de voltar a escrever sobre o Vida Nova.
Entrei na pequena livraria da pequena cidade. Por todo o lado cartazes a anunciarem os livros de Miguel Sousa Tavares e de José Rodrigues dos Santos. Perguntei à competente vendedora: “Então, nem um livro de Doris Lessing na montra?” Explicou-me que as pequenas editoras que a publicam não estavam a disponibilizar as suas obras porque não estavam preparadas para o fazer rapidamente.
Pequenas editoras? A editora livros do Brasil, por exemplo, publicou as grandes obras da literatura anglo-saxónica das primeiras décadas do século XX, tem também obras de referência alemãs e francesas!
Pode-se questionar a qualidade das traduções, eu não questiono mas eu não sei nada sobre isso, mas não a qualidade dos editados. Mas aí fui interrompida: “As capas, sabe. As capas não vendem. Aquele grafismo antigo não convence ninguém.”
Refilei - "Há editoras francesas e ingleses que não mudam de grafismo das capas desde sempre, e vendem.”
Bom, concluí, em Portugal as capas das Edições do Brasil não vendem.
Ainda pensei para que raio se quer mais a uma capa que a um conteúdo de um livro. Mas eu não sou exemplo para ninguém no que a apresentação de trabalhos diz respeito.
Refilei - "Há editoras francesas e ingleses que não mudam de grafismo das capas desde sempre, e vendem.”
Bom, concluí, em Portugal as capas das Edições do Brasil não vendem.
Ainda pensei para que raio se quer mais a uma capa que a um conteúdo de um livro. Mas eu não sou exemplo para ninguém no que a apresentação de trabalhos diz respeito.
Sai da livraria com a biografia de Churchill por Martin Gilbert debaixo do braço. Na realidade comprei-a para completar um fresco de biografias de políticos do princípio do século XX a que tenho dado atenção, sem qualquer lastro de afectividade por esta personalidade, como aliás acontecera com as escolhas de biografias de todos os outros já lidos (Lenine, Estaline, Mao).
A páginas tantas leio: “As canções escolares que Churchill cantou no Dia da Distribuição de prémios animaram-lhe o espírito. “O vibrante patriotismo que estes versos evocavam”, escreveu mais tarde o seu filho Randolph, “permaneceu com ele para sempre, e foi a mola principal da sua conduta política.” p. 36
Diz-me o que andaste a ler dir-te-emos que político serás?
Já tinha percebido este fenómeno da influência das leituras nas vidas práticas dos outros biografados. Não pode ser coincidência, isto dos livros a marcarem futuros.
sábado, outubro 27, 2007
Direitos humanos: a teoria do poder com mais difusão no princípio do séc. XXI
Vamos ver o poder prático deste poder teórico dos Direitos Humanos.
Os sinais da Rússia e da China não são só para "inglês" ver, será para a Europa ver - e comprar, e se tornar parceira, defensora e ainda se tornar simbolicamente mais representativa da defesa das liberdades no mundo do que os EUA. Ora o que ganham os povos chineses e russos em especial com isso, e todos os outros em geral, é o que iremos ver. E também até onde está disposta a Europa a ir na defesa das liberdades.
Mas que a difusão está a funcionar, lá isso está.
A Rússia ontem:
"A Cimeira União Europeia-Rússia terminou com boas intenções das duas partes. A Rússia propôs e a União aceitou: criar um instituto de promoção e acompanhamento dos direitos humanos e da democracia entre as duas potências. Os pormenores – disseram – só para mais tarde.", Primeiro de Janeiro
A China há quatro dias atrás:
"O governo chinês disse hoje estar empenhado na continuação do Diálogo União Europeia (EU)-China sobre Direitos Humanos, pouco dias depois da presidência portuguesa da União ter criticado Pequim sobre o tratamento que a China dá aos direitos fundamentais.
«Com base na igualdade e no princípio do respeito mútuo, poderemos continuar a promover o diálogo dobre Direitos Humanos», disse Liu Jianchao, porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, reagindo às críticas europeias.
Liu Jianchao, que falava em conferência de imprensa de rotina, classificou também como «útil», o diálogo bilateral sobre o tema." Portugal Diário
Os sinais da Rússia e da China não são só para "inglês" ver, será para a Europa ver - e comprar, e se tornar parceira, defensora e ainda se tornar simbolicamente mais representativa da defesa das liberdades no mundo do que os EUA. Ora o que ganham os povos chineses e russos em especial com isso, e todos os outros em geral, é o que iremos ver. E também até onde está disposta a Europa a ir na defesa das liberdades.
Mas que a difusão está a funcionar, lá isso está.
A Rússia ontem:
"A Cimeira União Europeia-Rússia terminou com boas intenções das duas partes. A Rússia propôs e a União aceitou: criar um instituto de promoção e acompanhamento dos direitos humanos e da democracia entre as duas potências. Os pormenores – disseram – só para mais tarde.", Primeiro de Janeiro
A China há quatro dias atrás:
"O governo chinês disse hoje estar empenhado na continuação do Diálogo União Europeia (EU)-China sobre Direitos Humanos, pouco dias depois da presidência portuguesa da União ter criticado Pequim sobre o tratamento que a China dá aos direitos fundamentais.
«Com base na igualdade e no princípio do respeito mútuo, poderemos continuar a promover o diálogo dobre Direitos Humanos», disse Liu Jianchao, porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, reagindo às críticas europeias.
Liu Jianchao, que falava em conferência de imprensa de rotina, classificou também como «útil», o diálogo bilateral sobre o tema." Portugal Diário
sexta-feira, outubro 26, 2007
"public reason"
Mais um blog a acrescentar à lista de favoritos. Este "Public reason" tem a vantagem de aliar a divulgação da informação relativa a congressos e "chamadas de textos" na área dos estudos políticos, com o comentário teórico/filosófico sobre política.
"Nenhum aluno chumba por faltas."
"Nenhum aluno chumba por faltas." no Diário de Notícias online.
Quando os portugueses em geral souberem o que os professores sabem desde há muito, que este ministério da educação não tem uma única ideia sobre a qualidade da educação e que planificou a sua acção em nome da quantidade e não da qualidade (aumento de taxas de sucesso para exportação à custa da exigência e do rigor, diminuição do número de professores à custa de um desmoralização sistemática da profissão e pelos cortes substanciais à entrada de novos docentes com o encerramento, injustificado, de muitas das escolas), hão-de compreender que a educação é o retrato do país que temos: escolas públicas com os melhores professores que o sistema produz (que ninguém duvide que os professores com melhor formação científica e profissional estão, no secundário, e até agora, todos no sector público) e que não conseguem que essa excelência se substancie em resultados gerais, e escolas privadas que se revelam extremamente eficazes pela estrutura disciplinar que a sua autonomia produz (escolhem as regras e aplicam-nas duramente, sem contemplações para a rebaldaria comportamental dos infantes).
Quando os portugueses em geral souberem o que os professores sabem desde há muito, que este ministério da educação não tem uma única ideia sobre a qualidade da educação e que planificou a sua acção em nome da quantidade e não da qualidade (aumento de taxas de sucesso para exportação à custa da exigência e do rigor, diminuição do número de professores à custa de um desmoralização sistemática da profissão e pelos cortes substanciais à entrada de novos docentes com o encerramento, injustificado, de muitas das escolas), hão-de compreender que a educação é o retrato do país que temos: escolas públicas com os melhores professores que o sistema produz (que ninguém duvide que os professores com melhor formação científica e profissional estão, no secundário, e até agora, todos no sector público) e que não conseguem que essa excelência se substancie em resultados gerais, e escolas privadas que se revelam extremamente eficazes pela estrutura disciplinar que a sua autonomia produz (escolhem as regras e aplicam-nas duramente, sem contemplações para a rebaldaria comportamental dos infantes).
Já não falo sequer da questão das escolas privadas terem alunos seleccionados de entre uma classe social já de si seleccionada pelas relações socio/profissionais que as caracterizam, o que, se não em termos afectivos, pelo menos em termos cognitivos, e no que a uma aprendizagem diz respeito, têm um extremo efeito.
Diga, diga, sr. Putin?
"Os dois homens pisaram-lhe depois as mãos (a Natália Petrova) dizendo «assim já não escreves mais», acrescentou."
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«Nós assistimos a uma limpeza na Rússia dos restos de democracia, a imprensa livre é destruída de forma sistemática, a sociedade civil é asfixiada por todos os meios», disse Mironov.
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"Andrei Mironov, membro da conhecida e respeitada ONG Memorial, assim como a organização Repórteres sem Fronteiras."
Excerto retirado do jornal Sol online
terça-feira, outubro 23, 2007
Minha amiga.
Eu, que não tenho idade para me aterrorizar com o epíteto poder popular mas já tenho mais que idade para saber o que aconteceu na história em nome do poder popular, fico consternada com as notícias que me tens enviado. Mais uma vez em nome do povo, desta feita do teu povo venezuelano, se faz experiências políticas ensaiando-se um totalitarismo novo, como se algo de novo houvesse para aprender nesta área.
Diz-me alguém: no aprofundamento da bondade ou da maldade pode-se sempre ir um lance mais longe, a qualquer momento. E eu a dizer que não, nesta pulsão para a negação que me caracteriza, e que porque já vimos acontecerem na história todas as ignomínias, todas as violências, todos os abusos, e que um dia há-de chegar o dia em que esqueceremos o cheiro de corpos queimados, do cheiro do sangue derramado, as imagens dos membros mutilados e dos pontapés na cara, dos espíritos quebrados e dos comportamentos de medo e de cobardia, que o esqueceremos como esquecemos o código daqueles línguas um dia faladas e das quais hoje ninguém sabe o significado e que olhamos, por defastio, através de uma vitrina de museu.
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Fraude Constitucional, ler aqui.
segunda-feira, outubro 22, 2007
O indivíduo2
Os indivíduos podem assemelhar-se no sentimento de regozijo ou de aversão, de alegria ou de desânimo relativamente a um qualquer acontecimento. É essa capacidade de partilha que permite a identificação a determinados grupos e que cria esferas de participação onde o indivíduo sublima os seus excessos de acção ou ideológicos. Mas os indivíduos não são iguais entre si, e não o são quer de forma ontológica quer no exercício de cargos de cidadania. Uns têm mais deveres do que outros.
O clube de caçadores lá da aldeia regula o tipo de violência que nunca se quer excessiva, sobretudo se vinda de uma qualquer pessoa com uma arma carregada na mão e com dois ou três cães a latirem de excitação junto dos seus pés. Tenho a certeza de que se não fossem as reuniões consecutivas e uma forte regulação sobre a actividade, o pessoal ainda entraria ébrio de alegria pelos quintais das casas dentro à procura da caça e manteriam, de forma mais agressiva, longe dos pinhais todos os que procurem ir só dar um passeio e ver os cogumelos.
Pinto Monteiro não é um cidadão que ande só a dar uma volta no pinhal a ver cogumelos, é um cidadão com uma arma na mão. E pode usá-la, com regras, mas pode. Algum dia alguém em Portugal terá que assumir todas as consequências do lugar que ocupa e dizer toda a verdade, não para nos estarrecer com ela, mas para nos permitir agir e melhorar como sociedade, à qual nos possamos congratular por lhe pertencermos.
O clube de caçadores lá da aldeia regula o tipo de violência que nunca se quer excessiva, sobretudo se vinda de uma qualquer pessoa com uma arma carregada na mão e com dois ou três cães a latirem de excitação junto dos seus pés. Tenho a certeza de que se não fossem as reuniões consecutivas e uma forte regulação sobre a actividade, o pessoal ainda entraria ébrio de alegria pelos quintais das casas dentro à procura da caça e manteriam, de forma mais agressiva, longe dos pinhais todos os que procurem ir só dar um passeio e ver os cogumelos.
Pinto Monteiro não é um cidadão que ande só a dar uma volta no pinhal a ver cogumelos, é um cidadão com uma arma na mão. E pode usá-la, com regras, mas pode. Algum dia alguém em Portugal terá que assumir todas as consequências do lugar que ocupa e dizer toda a verdade, não para nos estarrecer com ela, mas para nos permitir agir e melhorar como sociedade, à qual nos possamos congratular por lhe pertencermos.
O indivíduo
Nunca houve sistema nenhum até hoje que realmente pudesse suportar uma participação plena do indivíduo na vida pública. De uma forma ou de outra os sistemas, mesmo os democráticos que de participação plena vivem em estado de pensamento utópico, são exclusivos na admissão de ideias de governabilidade e na distribuição que fazem dos lugares autorizados para exercer esse governo. O indivíduo pode ser ensinado a apreciar esse processo, pode aprender a escolher os que quer ver como seus representantes, de aguardar pelos ciclos eleitorais para proceder a mudanças, de expressar a sua oposição de forma enquadrada pelas regras democráticas e pela lei da sua sociedade, mas não pode pensar que em qualquer momento e desde que para isso sinta vontade ou reúna recursos económicos ou militares, pode alterar um projecto político legitimamente sufragado. Por isso a questão do ensino da cidadania passa pela apresentação de uma lista de direitos devidamente enquadrados por uma lista de deveres, para manter o balão de ar seguro a um ponto fixo na terra.
O problema, como foi sempre um problema, trata-se se saber onde está esse ponto fixo, como se apresenta e em nome de que valores, ou do que regras civilizacionais, se pode fazer representar.
É verdade que há sociedades que preferem ver-se como comunidades, e entenderem-se socialmente segundo regras comunitárias, onde o indivíduo é menos importante que a família, ou o seu grupo comunitário. O ponto fixo que prende o balão das ideias e das acções sociais destas pessoas encontrar-se-á noutro tipo de socialização ou de consciencialização sobre as formas dessa socialização. Mas havendo mais do que um ponto fixo, isso deixar-me-á feliz pela diversidade de formas de viver e sigo tranquilamente a vida ou provocar-me-á desejos de comparar a solidez dessas formas para de alguma forma poder escolher a melhor que me aprouver, subalternizando a preterida? Mas que pontos fixos vamos escolher quando toda uma tradição, sob todas as formas de autoridade, me alimentou e encaminhou para essas formas de entender a realidade?
E no entanto as pessoas escolhem fora do quadro de referências da sua comunidade, mesmo se pequena, mesmo se quiser manter-se à parte. Porque não existem ideias de comunidades não transformáveis, existem ideias de indivíduos que querem ver as suas comunidades segundo ideias não transformáveis. E os processos que impedem a transformação são quase todos violentos, implicam sempre restrições à liberdade de expressão e um forte policiamento que assegure a restrição e puna a transgressão. E no entanto, nenhuma sociedade, mesmo a democrática, pode facilitar o processo de transformação, nenhuma pode precipitar-se numa ordem social de participação nos assuntos públicos.
É por isso que a sensação de nariz colado ao vidro a ver os riscos de luz que um carro a rolar aceleradamente nos dá de uma paisagem urbana nocturna é ainda a sensação do indivíduo que olha o processo democrático em andamento.
O problema, como foi sempre um problema, trata-se se saber onde está esse ponto fixo, como se apresenta e em nome de que valores, ou do que regras civilizacionais, se pode fazer representar.
É verdade que há sociedades que preferem ver-se como comunidades, e entenderem-se socialmente segundo regras comunitárias, onde o indivíduo é menos importante que a família, ou o seu grupo comunitário. O ponto fixo que prende o balão das ideias e das acções sociais destas pessoas encontrar-se-á noutro tipo de socialização ou de consciencialização sobre as formas dessa socialização. Mas havendo mais do que um ponto fixo, isso deixar-me-á feliz pela diversidade de formas de viver e sigo tranquilamente a vida ou provocar-me-á desejos de comparar a solidez dessas formas para de alguma forma poder escolher a melhor que me aprouver, subalternizando a preterida? Mas que pontos fixos vamos escolher quando toda uma tradição, sob todas as formas de autoridade, me alimentou e encaminhou para essas formas de entender a realidade?
E no entanto as pessoas escolhem fora do quadro de referências da sua comunidade, mesmo se pequena, mesmo se quiser manter-se à parte. Porque não existem ideias de comunidades não transformáveis, existem ideias de indivíduos que querem ver as suas comunidades segundo ideias não transformáveis. E os processos que impedem a transformação são quase todos violentos, implicam sempre restrições à liberdade de expressão e um forte policiamento que assegure a restrição e puna a transgressão. E no entanto, nenhuma sociedade, mesmo a democrática, pode facilitar o processo de transformação, nenhuma pode precipitar-se numa ordem social de participação nos assuntos públicos.
É por isso que a sensação de nariz colado ao vidro a ver os riscos de luz que um carro a rolar aceleradamente nos dá de uma paisagem urbana nocturna é ainda a sensação do indivíduo que olha o processo democrático em andamento.
terça-feira, outubro 16, 2007
Quebrar cadeias e as razões porque e quando o devemos fazer
Recebi um e-mail de pessoa muito amiga a convidar-me a assinar uma e-petição. Ao tentar descobrir o site a que se fazia referência no e-mail descobri esta página do site "BreakTheChain.org" que nos esclarece sobre a necessidade de quebrarmos certas correntes de petições por mais nobres que sejam os seus temas ou preocupações.
Argumentam os autores do "break the chain" que qualquer petição deve ser submetida a sete testes que eles denominam de"Seven Tests of Armchair Activism for Petitions". Esses testes são os seguintes:
1. "Expiration. Does the letter give a timeline for the collection of signatures or a target number of signatures? E-petitions can linger online for months, even years. My experience shows this to be the case, even if the originator put a target date on it to begin with. Petitions that are allowed to circulate indefinitely are seldom compelling and very often continue to circulate long after any usefulness they may have once had has passed. (For example, the Jamie Bulger petition.)
2. Focus. Does the message have a well-defined target and mission statement? Does it clearly spell out what steps or results are desired? Does it solicit and allow signatures only from constituents of the party it's meant to influence? Most e-petitions get you worked up, but make no real statement or demand (For example, the Bonsai Kitten petition), or target an individual who has no authority to make the desired change (for example, the petition to President Bush to reinstate prayer in schools).
3. Integrity. Is someone coordinating the petition to make sure it gets to the proper party in the proper format? Most ask you to send them directly to the party whose actions you are trying to influence. This amounts to an "e-mail attack," costs the recipient time and money and does more to hurt the cause than promote it. (For example, the appeal to the United Nations to stop a war against Iraq.)
4. Privacy. Is there an alternative method for signing, such as a Web site, phone number or snail-mail address? Does the message explain clearly what will be done with the information it collects and by whom? If you are directed to a Web site to sign, does the site include a privacy statement? Remember that there are absolutely no privacy protections for information sent via e-mail.
5. Reliability. Does the message explain clearly who will collect and compile the signatures - and can you trust them? While some petitions actually give you an address to send copies to, most of the creators fail to check with their e-mail provider first and, as a result, their account is usually shut down within a few days. Most e-mail providers prohibit chain letters and petitions in their terms of service. (For example, the petition to stop the Taliban's War Against Women.)
6. Sponsorship. Does the petition's author/originator clearly identify himself or herself and give some way to contact him or her. A well-planned political or social cause will usually have a web site or phone number you can contact for more information on the issue and to volunteer to help. Unfortunately, most e-petition creators prefer to hide behind the anonymity of e-mail. (For example, this campaign to stop a non-existent film about Jesus.)
7. Validity. Does the petition contain facts and statistics with a cited source? In other words, can the claims be easily backed up or do you have to take them at face value? In many cases, the thing you're trying to stop no longer exists or never existed to begin with. (For example, any of the collection of petitions to keep Instant Messengers free.)
If a petition fails two or more of the above, dismiss it as Armchair Activism"
Ora aplicando eles estes sete testes à análise da petição "Protect Children in South Africa" que me tinha sido enviada e que corre on-line desde 2001, chegaram à conclusão que a petição falhava em todos os testes, havendo forte recomendação para quebrarmos a cadeia. As razões, que podem ser lidas aqui, convenceram-me.
Argumentam os autores do "break the chain" que qualquer petição deve ser submetida a sete testes que eles denominam de"Seven Tests of Armchair Activism for Petitions". Esses testes são os seguintes:
1. "Expiration. Does the letter give a timeline for the collection of signatures or a target number of signatures? E-petitions can linger online for months, even years. My experience shows this to be the case, even if the originator put a target date on it to begin with. Petitions that are allowed to circulate indefinitely are seldom compelling and very often continue to circulate long after any usefulness they may have once had has passed. (For example, the Jamie Bulger petition.)
2. Focus. Does the message have a well-defined target and mission statement? Does it clearly spell out what steps or results are desired? Does it solicit and allow signatures only from constituents of the party it's meant to influence? Most e-petitions get you worked up, but make no real statement or demand (For example, the Bonsai Kitten petition), or target an individual who has no authority to make the desired change (for example, the petition to President Bush to reinstate prayer in schools).
3. Integrity. Is someone coordinating the petition to make sure it gets to the proper party in the proper format? Most ask you to send them directly to the party whose actions you are trying to influence. This amounts to an "e-mail attack," costs the recipient time and money and does more to hurt the cause than promote it. (For example, the appeal to the United Nations to stop a war against Iraq.)
4. Privacy. Is there an alternative method for signing, such as a Web site, phone number or snail-mail address? Does the message explain clearly what will be done with the information it collects and by whom? If you are directed to a Web site to sign, does the site include a privacy statement? Remember that there are absolutely no privacy protections for information sent via e-mail.
5. Reliability. Does the message explain clearly who will collect and compile the signatures - and can you trust them? While some petitions actually give you an address to send copies to, most of the creators fail to check with their e-mail provider first and, as a result, their account is usually shut down within a few days. Most e-mail providers prohibit chain letters and petitions in their terms of service. (For example, the petition to stop the Taliban's War Against Women.)
6. Sponsorship. Does the petition's author/originator clearly identify himself or herself and give some way to contact him or her. A well-planned political or social cause will usually have a web site or phone number you can contact for more information on the issue and to volunteer to help. Unfortunately, most e-petition creators prefer to hide behind the anonymity of e-mail. (For example, this campaign to stop a non-existent film about Jesus.)
7. Validity. Does the petition contain facts and statistics with a cited source? In other words, can the claims be easily backed up or do you have to take them at face value? In many cases, the thing you're trying to stop no longer exists or never existed to begin with. (For example, any of the collection of petitions to keep Instant Messengers free.)
If a petition fails two or more of the above, dismiss it as Armchair Activism"
Ora aplicando eles estes sete testes à análise da petição "Protect Children in South Africa" que me tinha sido enviada e que corre on-line desde 2001, chegaram à conclusão que a petição falhava em todos os testes, havendo forte recomendação para quebrarmos a cadeia. As razões, que podem ser lidas aqui, convenceram-me.
Regulação centrada na internet ou nova proposta política
"Para Noam (Eli Noam do CITI da Columbia University) existem quatro modelos aplicáveis à regulação da comunicação actualmente: a centrada na “Internet”; a centrada na TV; a centrada na ideia de “camadas” (layers); e, por último, a centrada nas Telecomunicações. Todas essas análises partem de um principio base de carácter tecnológico, com a digitalização, todos os media (talvez, por enquanto, exceptuando os jornais que existam unicamente em papel) tendem a utilizar protocolos de transmissão dos seus conteúdos e, no actual momento histórico, o protocolo mais utilizado é originário na Internet, depois transposto para todos os media que comunicam com as audiências através de redes digitais: o TCP/IP.
A denominada regulação centrada na Internet, ou regulação zero, caracteriza-se pelo facto de ter evoluído de uma lógica totalmente libertária para a necessidade de ter presente um dado proteccionismo, não para os conteúdos (onde apenas os criminalizáveis devem ser excluídos do acesso por terceiros) mas sim para os que detêm os acessos: os gatekeepers. A lógica de raciocínio é simples, por exemplo, a televisão era um recurso escasso porque os governos decidiram atribuir-lhe um dado espectro. Mas se a televisão não fosse escassa? O que se passaria então? Para os defensores da visão “centrada na Internet” a regulação existe porque nos devemos preocupar com os gatekeepers, tão só. É uma regulação assente na manutenção da liberdade individual de todos face a todos. È uma regulação que possa implementar abertura aos conteúdos sexuais na América, à existência de programas violentos na Europa e anúncios com mulheres guiando automóveis na Arábia Saudita. Ou seja, liberdade de conteúdos. Embora teoricamente tentadora no quadro das liberdades, tal abordagem não se afigura como praticável no quadro de uma sociedade baseada num estado de direito, organizado em torno de consensos obtidos por representatividade e não pelo exercício directo da democracia." Ler mais aqui.
Gustavo Cardoso Director do OberCom
A denominada regulação centrada na Internet, ou regulação zero, caracteriza-se pelo facto de ter evoluído de uma lógica totalmente libertária para a necessidade de ter presente um dado proteccionismo, não para os conteúdos (onde apenas os criminalizáveis devem ser excluídos do acesso por terceiros) mas sim para os que detêm os acessos: os gatekeepers. A lógica de raciocínio é simples, por exemplo, a televisão era um recurso escasso porque os governos decidiram atribuir-lhe um dado espectro. Mas se a televisão não fosse escassa? O que se passaria então? Para os defensores da visão “centrada na Internet” a regulação existe porque nos devemos preocupar com os gatekeepers, tão só. É uma regulação assente na manutenção da liberdade individual de todos face a todos. È uma regulação que possa implementar abertura aos conteúdos sexuais na América, à existência de programas violentos na Europa e anúncios com mulheres guiando automóveis na Arábia Saudita. Ou seja, liberdade de conteúdos. Embora teoricamente tentadora no quadro das liberdades, tal abordagem não se afigura como praticável no quadro de uma sociedade baseada num estado de direito, organizado em torno de consensos obtidos por representatividade e não pelo exercício directo da democracia." Ler mais aqui.
Gustavo Cardoso Director do OberCom
segunda-feira, outubro 15, 2007
A nossa vida
O padre não podia celebrar o casamento daquele casal meu amigo que ali vinha formalizar a sua união perante amigos e familiares naquela sublime ermida da Serra da Arrábida. Naquele amável fim de tarde, o padre estava lá para os abençoar e para nos contar algumas histórias.
Contou-nos o sacerdote o seguinte: chamaram uma vez um padre para assistir uma vítima de um acidente de viação que agonizava ali não muito longe do lugar onde se encontrava, porém o padre respondeu que não podia ir dar assistência ao moribundo porque na realidade já estava atrasado para uma conferência para a qual tinha sido convidado a falar sobre o amor.
A assembleia riu-se. E o nosso padre iniciou a peroração sobre aquele episódio.
Eu, tantas vezes fascinada pelas ideias e pelas palavras, tantas vezes em nome da humanidade, compreendo bem demais, bem demais para o que sinto ser desejável, comprendo aquele padre que prefere a bondade em título do amor à actualização do amor na bondade de um gesto para com uma pessoa. Dá um certo desgosto este privilegiar do universal. Mesmo que se argumente a favor do espaço de liberdade que o conceber um universal dá a cada indivíduo. Mesmo assim. É um desgosto.
Porque julgo eu que a bondade existe para além dos actos ou das palavras bondosas que se podem ter para cada um dos indivíduos com quem nos cruzamos? Porque julgo eu que é mais digno sacrificar-se por uma ideia de bondade do que por um gesto de bondade privado? Porque aquilo que se pode pensar é de uma natureza diferente daquilo que eu posso fazer.
Não nos tornamos bons por pensarmos na bondade, é certo, mas descurar essa reflexão também não nos torna por si mesma melhores.
Se eu estiver em sofrimento prefiro que a meu lado esteja alguém que me console, é verdade. A mim, não à humanidade. Que me tragam a justiça se for vítima de injustiça, que me ajudem a reconstituir a minha saúde se sofrer de algum mal físico, que assegurem a minha segurança se for agredida ou espoliada, que me dêem a mão se eu procurar uma mão. Mas se eu quiser todos os actos de bondade para mim, e cada um os quiser igualmente para si, que ideia de humanidade é esta composta por egos centrados em si? E quando aquilo que eu quiser tiver o efeito de folha de árvore caduca no Outono? Pior, quando aquilo que outro quiser como eu quero, que pense ser seu direito, como eu penso ser meu direito, não lhe for assistido por causa da sua pobreza, ou da sua cor, ou do género, ou da nacionalidade? Onde pode ele encontrar consolo para reparar feridas sociais, políticas e económicas senão numa ideia universal de actos bondosos, ou pelos que asseguram a equidade na aplicação dos direitos, exigidos aos seus governantes?
Por tudo isto o filme "A vida dos outros" conta a história de bondade entre um homem para com outro homem. É diferente da história de bondade de um homem para com um grupo alargado de cidadãos, ou para com a humanidade. E já foi tanto, claro. E se todos pelo menos tivéssemos um acto desses na vida. Mas tanto, e tão excelente, não foi tudo. Mas tudo foi para quem ele salvou. Eu sei.
Penso no capitão Wilm Hosenfeld e em Władysław Szpilman . E penso como tem sido difícil fazer reconhecer o primeiro como um homem a merecer o título de "justo". Houve a justeza de um acto, a ideia de bem centrada na protecção de um indivíduo, e no entanto...
Contou-nos o sacerdote o seguinte: chamaram uma vez um padre para assistir uma vítima de um acidente de viação que agonizava ali não muito longe do lugar onde se encontrava, porém o padre respondeu que não podia ir dar assistência ao moribundo porque na realidade já estava atrasado para uma conferência para a qual tinha sido convidado a falar sobre o amor.
A assembleia riu-se. E o nosso padre iniciou a peroração sobre aquele episódio.
Eu, tantas vezes fascinada pelas ideias e pelas palavras, tantas vezes em nome da humanidade, compreendo bem demais, bem demais para o que sinto ser desejável, comprendo aquele padre que prefere a bondade em título do amor à actualização do amor na bondade de um gesto para com uma pessoa. Dá um certo desgosto este privilegiar do universal. Mesmo que se argumente a favor do espaço de liberdade que o conceber um universal dá a cada indivíduo. Mesmo assim. É um desgosto.
Porque julgo eu que a bondade existe para além dos actos ou das palavras bondosas que se podem ter para cada um dos indivíduos com quem nos cruzamos? Porque julgo eu que é mais digno sacrificar-se por uma ideia de bondade do que por um gesto de bondade privado? Porque aquilo que se pode pensar é de uma natureza diferente daquilo que eu posso fazer.
Não nos tornamos bons por pensarmos na bondade, é certo, mas descurar essa reflexão também não nos torna por si mesma melhores.
Se eu estiver em sofrimento prefiro que a meu lado esteja alguém que me console, é verdade. A mim, não à humanidade. Que me tragam a justiça se for vítima de injustiça, que me ajudem a reconstituir a minha saúde se sofrer de algum mal físico, que assegurem a minha segurança se for agredida ou espoliada, que me dêem a mão se eu procurar uma mão. Mas se eu quiser todos os actos de bondade para mim, e cada um os quiser igualmente para si, que ideia de humanidade é esta composta por egos centrados em si? E quando aquilo que eu quiser tiver o efeito de folha de árvore caduca no Outono? Pior, quando aquilo que outro quiser como eu quero, que pense ser seu direito, como eu penso ser meu direito, não lhe for assistido por causa da sua pobreza, ou da sua cor, ou do género, ou da nacionalidade? Onde pode ele encontrar consolo para reparar feridas sociais, políticas e económicas senão numa ideia universal de actos bondosos, ou pelos que asseguram a equidade na aplicação dos direitos, exigidos aos seus governantes?
Por tudo isto o filme "A vida dos outros" conta a história de bondade entre um homem para com outro homem. É diferente da história de bondade de um homem para com um grupo alargado de cidadãos, ou para com a humanidade. E já foi tanto, claro. E se todos pelo menos tivéssemos um acto desses na vida. Mas tanto, e tão excelente, não foi tudo. Mas tudo foi para quem ele salvou. Eu sei.
Penso no capitão Wilm Hosenfeld e em Władysław Szpilman . E penso como tem sido difícil fazer reconhecer o primeiro como um homem a merecer o título de "justo". Houve a justeza de um acto, a ideia de bem centrada na protecção de um indivíduo, e no entanto...
domingo, outubro 14, 2007
A vida daqueles outros
Como eu o entendi ontem, depois da sua visualização pela primeira vez, o filme, que em português recebe o título "A vida dos outros", conta a história de um homem que muda a sua forma habitual de trabalhar não por influência directa das acções ou das palavras dos seus vigiados, mas por influência dos ideologicamente degenerados discursos dos seus camaradas superiores, que, no entender do operacional em causa, estariam a ser mais perniciosos ao regime que os próprios cidadãos indicados como destabilizadores da segurança interna do Estado.
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O filme não conta a história de um agente da Stasi, polícia secreta da então República democrática Alemã, que ao ser incumbido de vigiar um grupo de artistas e intelectuais muda a sua visão da política, e do seu trabalho, por influência directa das palavras ou das acções das pessoas vigiadas.
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É o agente, um operacional solitário, criterioso, estudioso, pragmático, exímio na arte do interrogatório e convencido da absoluta legitimidade da sua acção na defesa de um Estado comunista contra todos os seus inimigos, que inicia a sua própria queda pessoal e profissional, e a dos alvos da sua investigação, quando comunica acidentalmente as suas dúvidas, então ainda académicas, sobre a exemplaridade de comportamento de um escritor nacional famoso e aceite pela cúpula administrativa.
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Quando as suas desconfianças são repetidas por outrem junto do Ministro da Cultura, que tem o poder de interferir na vida dos outros, e o desejo, libidinoso, de o fazer em proveito próprio, a tragédia inicia-se.
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O agente Gerd Wiesler não descura nenhum pormenor técnico ou táctico na sua operação, e tem mesmo a sorte ao seu lado ao menosprezar uma acção de "sabotagem", deixando passar sem castigo uma acção que servira exclusivamente ao grupo vigiado para testar o grau de segurança do apartamento policiado, dando-lhes a ilusão de uma segurança e de uma privacidade que, de facto, não possuíam, contribuindo assim para uma melhor cobertura da espionagem.
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O escritor observado, um político marxista idealista, altera a sua visão acerca do poder discricionário do regime quando um seu grande amigo se suicida. Acontece que esse amigo era um conceituado encenador que o regime indiciara como proscrito impedindo-o de trabalhar. A reflexão iniciada então pelo escritor sobre a inexistência de um número para os suicídios cometidos na planificada Alemanha Democrática, e que irá ser publicada em artigo de jornal no Ocidente, podia resultar na sua detracção e afastamento da ordem social e cultural, mas, paradoxalmente, o agente que o vigia esconde da hierarquia essa acção. Porquê? Porque no dia em que vai entregar o relatório que incrimina o escritor, o seu chefe inicia uma peroração sobre os privilégios dos funcionários de Estado, sobrepostos aos princípios do Estado, e delicia-se na antevisão dos castigos aplicados a artistas, privados de um julgamento, mesmo que sumário, e submetidos a uma detenção em regime de solitária, através da qual se lhes minaria a vontade, destruindo a sua personalidade.
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O agente não está contra o castigo das acções cometidas contra o Estado que defende. Está contra aquele castigo específico, à margem da própria lei da segurança interna, e contra o tipo de legitimidade evocada: o da defesa dos interesses privados. No caso o interesse de subir na carreira, revelado pelo seu superior, e à custa da satisfação dos desejos de um Ministro por uma actriz, namorada do escritor. Como o ministro se queria ver sem concorrência, o processo de incriminação é altamente requerido, para melhor poder subjugar uma mulher confundida entre o dever de lealdade e sacrifício para com a sua arte, subestimando o seu real valor artístico ao aceitar, ainda que passivamente, os avanços sexuais do ministro, e o seu dever de lealdade e sacrifício para com o amor da sua vida.
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Quando no fim, o escritor, já depois da queda do muro de Berlim, dedica a sua obra ao agente que o salvou da detenção, eu julgo que nós não lho podemos dedicar juntamente com ele. E que não pode haver uma simpatia universal por aquele agente. O escritor deve-lhe algo, é certo, e é de um homem bom que reconheça os actos de bondade que para com ele foram cometidos, mas nós não lhe devemos nada, porque a acção do agente foi exclusiva para aquele caso e para aquele indivíduo e não uma acção por princípio contra as regras e os procedimentos gerais do seu próprio regime, não em nome de todos nós. Eu não dedico a visualização do filme ao agente.
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Mais do que uma reflexão sobre o modo como a arte pode incomodar a política, o filme mostra como a política, se exercida como um exercício do poder sem limites, pode perturbar até à insanidade a produção artística e os seus criadores.
quinta-feira, outubro 11, 2007
Filosofia política: eu também me pergunto.

No livro História Crítica da Filosofia Moral e Política, editado em 2004 pela Verbo, os directores da edição, A. Caillé, C. Lazzeri e M. Senellart, surpreendem-se com a ausência, até ao ultimo quartel do século XX, de grandes sistemas filosófico-políticos que servissem de modelo de explicação ou de acção relativos à ordem social. Dizem-nos eles que no século XX se esteve a reflectir sobre a prática política a partir de algumas teorias do século anterior (o marxismo, por um lado, e as teorias nietzschenas acerca do poder e da ordem moral, por outro lado), e, ou, a regular a acção a partir das doutrinas dos partidos, de teorizações económicas, da prática dos sindicalistas e de mudanças de mentalidade de funcionários. Tudo isto os leva a perguntarem-se se os filósofos políticos foram substituídos pelos economistas e sociólogos ou se a filosofia política chegou ao fim. Muito interessante.
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