quinta-feira, dezembro 06, 2007

"A falta de certificados de nascimento faz com que milhões de crianças no mundo não existam e que, consequentemente, não tenham acesso a qualquer tipo de direitos", sublinhou hoje em Lisboa o autor do relatório da ONU sobre a violência contra as crianças, Paulo Sérgio Pinheiro."
"Se uma árvore cair numa floresta e não estiver nenhuma pessoa lá por perto, ela faz barulho ao cair?"

Berkeley e toda a sua filosofia do conhecimento não chegam agora para responder a esta pergunta, sobretudo quando a acção provocada, e se quer em esquecimento, é provocada por um agente com essa intenção.

quarta-feira, dezembro 05, 2007

"Padrões mínimos de vida, trabalho e tempos livres"

Desta feita, na sexta-feira do “Olha, afinal houve greve mas nem assim tanta!” a fórmula com que este governo, tal como já outros antes dele, destratam a informação e as indicações dos seus cidadãos, ou na sexta-feira em que o ministério da educação, mais do que qualquer outro antes dele, andou a telefonar para as escolas procurando impedi-las de encerrarem por falta de contínuos, eu fiquei doente. Andei a navegar toda a sexta-feira entre tremores de frio e vagas de suores, e mais do que ligeiramente alheada da realidade circundante. Não furei uma greve mas passei-lhe ao lado. Não sei onde aprendi que as greves são para se cumprirem como uma missão. Eu que não respeito o sindicalismo português da nossa conjuntura. São destas coisas.

Bom, entre as obrigações familiares, o sono intermitente, e nas horas em que o sino electrónico lá do campanário da aldeia, que tanto atazanou os meus dias de descanso e que se mudara agora para dentro de mim, me deixava o cérebro em silêncio, lá consegui avançar mais umas páginas na biografia de Churchill. Espanto. Eu que ignorava quase tudo da vida do biografado, que não tinha tido até ao momento nenhuma afeição especial pela pessoa, e que historicamente não me era, como nenhuma outra figura política o é também, muito querida, entro no capítulo “O campo social”. Entro e espanto-me. O que até aí me parecia uma personalidade oportunista, excessivamente centrada no seu voluntarismo, ainda que inegavelmente trabalhadora, intuitiva e corajosa, revela-se uma personalidade determinada por uma ideia de justiça social completa e inovadora, numa tentativa de equilíbrio na procura de uma política entre a prática capitalista e a prática socialista.

Churchill revelou-se um político original. Não que não leia os académicos, e se prepare no sistema de ideias novo, até porque é-nos dito como ele se encontrou com o prof. William Beveridge que dedicava a sua vida ao estudo de reformas sociais (p.158), mas é original no sentido em que aproveita realmente os cargos políticos que ocupa para fazer mudar a realidade a partir de ideias de reforma social até então nunca testadas ou aplicadas. Leia-se: “O seu funcionário mais velho, Sir Edward Troup, recordou mais tarde:”Uma vez por semana, por vezes mais de uma vez por semana, o Sr. Churchill chegava ao Ministério trazendo com ele um projecto venturoso ou impossível; mas depois de meia hora de discussão tinha-se desenvolvido qualquer coisa que continuava a ser aventurosa, mas já não impossível.” (p.178)
Sobre esta questão muito há a escrever ainda. Até porque é curioso como Churchill põe em causa estatutos e convenções económicas e sociais dominantes de uma forma aparentemente pacífica, mesmo contra a ideologia dominante e mesmo contra as teses de alguns dos seus melhores amigos, como John Morley que levara uma vida a estudar as questões sociais e concluira que nada se podia fazer para alterar o estado de coisas, no que à vida dos trabalhadores, dos pobres e dos desvalidos sociais dizia respeito.
Uma outra forma de reformar sem cair na revolução totalitária dos trabalhadores encontrou ele, revolução que ele intuiu ser inevitável a continuar-se a manutenção dessa absoleta e injusta ordem social e económica. As consequências de uma acção e de outra já conhecemos nós. Acredito que na altura estas reformas se parecessem demasiado com panaceias caseiras aos olhos de marxistas exigentes. E no entanto, a factura do futuro não iria ser a mesma para ambos os lados.

E estou a fazer batota, porque ainda não respondi a uma questão que ficou em aberto num outro post lá para trás, sobre quem tinham sido os autores de influência ideológica do Churchill, e como é que a experiência da guerra o forma numa perspectiva nova sobre a sociedade. E também porque já tendo terminado a leitura do livro de Delpech, era deste livro que devia estar aqui a escrever. Está a marinar, digo eu como eufemismo para o acto de preguiça.

segunda-feira, dezembro 03, 2007

E no entanto...eles movem-se.

Intelectuais africanos e europeus atacam líderes políticos

"Africanos vencedores do prêmio Nobel e intelectuais deste continente e da Europa publicaram uma carta na qual atacam a "covardia" de seus líderes políticos por não incluírem os casos de Darfur (Sudão) e do Zimbábue entre os principais temas a serem tratados na conferência entre União Européia (UE) e África.
A carta, assinada por escritores como Vaclav Havel, Wole Soyinka, Nadine Gordimer, John M. Coetzee e Günter Grass, critica os políticos dos dois continentes por não enfrentarem "duas das piores crises mundiais" na cúpula de chefes de Estado e de Governo que será realizada nos próximos dias 8 e 9 em Lisboa. (...)" Ler o resto aqui.

O descontentamento pelos líderes está em em marcha uma vez mais. A caminho do quê? O que se pretende que aconteça com estas cartas, lamentos e declarações? Uma mudança de líderes ou uma mudança de atitude dos líderes?
Mas se as pessoas continuarem a ser escolhidas por algo mais para além daquilo que pensam sobre as políticas públicas, como teremos hipótese de decidir? E se não se decidir, alguém o fará e poderá querer fazê-lo para sempre. Ollemos o Sr. Putin ou os partidos que se eternizam no poder nas diversas formas que esse poder tiver para se manifestar ou em quem se manifestar.

Pela democracia

A análise da minha amiga analista política venezuelana revelou-se certeira. Dizia-me ela que os sinais que vinham das eleições das associações académicas universitárias, umas três semanas antes do referendo à reforma da constituição, iam na direcção de vir a existir pela primeira vez desde que Chávez chegou ao poder uma reacção em massa dos jovens de esquerda contra as intenções de Chávez. Faltará ver agora os números.
Como é sabido pelos venezuelanos, não foi a oposição a Chávez que ganhou sozinha, mas os apoiantes da democracia que ganharam, mesmo os que de entre eles apoiaram ou apoiam ainda Chávez.

E que a voz não lhe doa!

"Reproduzam-se portugueses!"

"Desculpem mas o tema é meu. Escusam de protestar e de ironizar, mas não vi muita gente a protestar na altura. Quando o governo quis punir por vias fiscais, creio, os casais sem filhos ou apenas com um rebento - não me lembro de ver a rapaziada a apoiar-me na guerra contra a política de repressão que visava os maus reprodutores. Para o Estado, os portugueses deviam reproduzir-se com mais regularidade e visibilidade. Era esta a mensagem "Tenham filhos. Reproduzam-se. O Estado precisa de filhos e de contribuintes." Quem não se entregasse às alegrias da paternidade, com os seus exultantes sacrifícios e as suas passageiras alegrias, estava em condições de ser punido pela máquina fiscal, ou discriminado face às famílias que tinham decidido multiplicar-se como mandam os evangelistas. Acontece que o Estado gosta muito da natalidade dos seus cidadãos, exercitando-se em teorias sobre a fraca taxa de reprodução do povo, quase sempre em jeito de queixinhas. Que as pessoas já não querem famílias numerosas (fazem elas bem), que não estamos a olhar bem para o problema da taxa de natalidade europeia (sei lá), que precisamos de mais filhos gerais para equilibrar a previdência, as contas do Estado, o que vai por aí fora. Depois, o argumento moral, que não falha os europeus não se reproduzem e daqui a umas décadas desaparecem. Portanto, resumindo, o que o Estado quer é que os cidadãos se "sacrifiquem" em seu nome, para reequilibrar as contas. Dito assim, parece uma cousa fracturante, do género "toca a reproduzir".



Depois de ter ensaiado uma forma de discriminação negativa das famílias pouco numerosas ou dos celibatários, o governo decidiu deixar a coisa no capítulo dos ensaios. O presidente da República voltou a falar do assunto recentemente, insistindo "no problema" e, quem sabe, no desaparecimento da raça, perguntando-se se os portugueses ainda sabem como se faz filhos. Ora, "o problema" é que a vida está como está, e ninguém de cabeça a funcionar com o mínimo de neurónios aceitáveis quer pensar nas suas obrigações reprodutivas em nome do Estado, da pátria e do futuro da nacionalidade. O Estado que tenha filhos onde quiser, mas não aborreça as pessoas com imperativos morais; o Estado é o último da fila quando se trata de questões morais. (...)
Francisco José Viegas escreve no JN

quinta-feira, novembro 29, 2007

Ainda sobre os líderes europeus...e a sua cobardia política.

Na sequência do que anteriormente escrevi sobre a Europa e a China (desta feita é o duo português Barroso/Sócrates a entrarem para o compêndio de líderes euopeus inconscientes e temerosos), continuo a citar Delpech: "(...) Jacques Chirac decretou, perante a surpresa total, que Taiwan, o único espaço chinês que vive mais ou menos sob um regime democrático, não tinha de modo algum o direito de realizar, no seu território povoado por 22 milhões de habitantes, um referendo." Não é assim que nos fazemos respeitar."p.215
..
A fórmula:"não podemos tratar a China como o Zimbabwe", que foi muito utilizada, não quer dizer estritamente nada, porque, no caso vertente, a diferença entre a China e o Zimbabwe é que este último não ameaça os seus vizinhos e, sobretudo, não tem qualquer hipótese de desencadear uma guerra mundial. Poderíamos deduzir daí que é necessário ser muito mais vigilante em relação à China."p.212.
..
"O que separa mais profundamente a China de Taiwan é a política. Mas por vezes temos a sensação, aqui tal como na Ucránia, de que a França teme mais as democracias do que as apoia , e que a "boa escolha" é finalmente a dos países autoritários, quer se trate da Rússia quer da China." p.208
Eu diria que não é só a França que teme mais as democracias, mas toda a Europa teme mais as democracias, senão veja-se a dupla Barroso/Sócrates.
..
"O acordo de defesa entre Taiwan e os Estados Unidos transformaria a confrontação entre as duas Chinas num conflito mundial com, desde o início das hostelidades, a consciência de uma parte e de outra de que os dois campos são detentores da arma atómica". p.202
..
E finalmente, em memória das vítimas chinesas, a Europa, não só a França, devia pressionar o governo chinês a reconhecer os milhões de mortos que a política de Mao e dos seus seguidores tem feito até hoje.

O mundo dentro de uma carta

Chega-me uma carta da UNICEF a falar sobre o programa Reidratação Oral. Cinco saquetas de sais de reidratação oral (um composto de sais minerais e açúcar), a 0.05 euros cada, podem ajudar a repor os níveis de líquidos de uma criança que os perdeu por desidratação e salvar-lhe assim a vida.


Ainda que os esclarecimentos não abundem e seja o Chade, que é contra o processo de adopção como processo de filiação, a ter levantado a hipótese, cada vez mais plausível, de rapto de crianças, a verdade é que a notícia como a que a ONG francesa protoganizou, a Arche de Zoé, deixa-nos num estado de torpor. Porque de uma boa intenção se consegue criar o caminho para o inferno: raptar crianças é acto de maldade. Daí que não sublinhemos as vezes que são necessárias a importância de programas como o da reidratação oral ou os da distribuição de Plumpy'nut às crianças famintas de África.

E façamos por confiar nos produtores e distribuidores desses produtos, evitando pensar: a quem é que este consumo elevado de produtos financiados pela UNICEF interessará além dos mais importantes e óbvios interessados que são as crianças? Não quero enveredar por aqui. Quero assinalar a importância dos programas em causa.

Também não quero enveredar pela questão de estarmos em 28 ou 29 na lista apresentada pelo relatório do Desenvolvimento Humano de 2007 (que li através do endereço disponibilizado online pelo jornal Público). Uma discussão bizantina se comparada com a discussão que a Europa, que vai realizar uma cimeira com África, deverá preparar para conseguir exigir resultados políticos e técnicos a si própria e aos seus interlocutores, no quadro da análise do relatório PNUD que aponta África como o continente onde o índice de desenvolvimento humano é baixíssimo. Não se pode ignorar o desgoverno de muitas lideranças africanas, nem a semi-indiferença de uma Europa boazinha mas com comportamentos pouco consistentes no que a uma política externa exigente com África diz respeito. Se têm má consciência colonizadora resolvam a questão, mas não ignorem as arbitrariedades de líderes corrompidos, e estejam sobretudo acima de si próprios.

Mas com o tipo de líderes europeus que se vergam aos interesses comerciais ou nacionais antes dos interesses da paz internacional e da salvaguarda dos direitos humanos (exceptuando aqui e ali a senhora Merkel, mas nem sempre), estamos mesmo a ver cada Estado desta nação Europa à procura com uma lupa do seu lugarzinho na lista, e o resto são hieróglifos ou discursos para consumo de pasta de papel em jornal.

quarta-feira, novembro 28, 2007

"We wish a Merry Christmas to all", mas com boas negociações!

Quem é que os dirigentes europeus andam a ler? Quem são os seus conselheiros?

Os governantes europeus que andam a fazer este tipo de cedências à China, "UE cede à China e condena Taiwan por querer referendo", não devem ter demorado um segundo a pensar nestas palavras: "As guerras que ocorreram nas Balcãs, no Afeganistão e no Iraque não podem dar-nos qualquer ideia do que seria uma confrontação sino-americana por causa de Taiwan. Em 2025, essa guerra talvez já tenha eclodido, para surpresa dos europeus, que nem sequer querem encarar a sua possibilidade. (...)Os riscos de conflito são, pois, bem reais: desde a década de 1990, a política dos três grandes actores (Estados Unidos, Taiwan e China) é cada vez mais instável. A possibilidade de um erro de cálculo ou de interpretação de cada um deles relativamente à atitude dos outros dois é muito elevada. A China pensa que Washington não sacrificará Los Angeles a Taiwan, os Estados Unidos que Pequim não sacrificará vinte ou trinta anos de desenvolvimento económico a Taipé, e Taiwan julga que pode colocar Pequim perante o facto consumado sem sofrer as consequências. Trata-se de três erros perigosos. (...)
Não podemos excluir que em 2025, nos encontramos na presença de uma região muito fortemente nuclearizada, com o Japão, as duas Coreias (ou uma Coreia reunificada), a Indonésia e a Malásia, todos detentores de armas nucleares. Um conflito nesta parte do mundo tomaria, pois, rapidamente um rumo demasiado perigoso, em que os europeus deveriam pelo menos, contribuir para evitar uma vitória chinesa e uma conflagração regional. (...)" Thérèse Delpech, O Regresso da Barbárie, p. 161-162.

terça-feira, novembro 27, 2007

Uma aula para governantes para que compreendam o que está em causa quando se aceita ou recusa fazer um referendo europeu

"(...)
A tradicional política furtiva, desenvolvida à margem da intervenção dos eleitorados nacionais e dos respectivos parlamentos, não resulta da complexidade dos textos normativos, para o entendimento e desenvolvimento dos quais os próprios governos vão continuar a recorrer a assessorias várias e a lidar com desencontradas interpretações judiciais, para além de as instituições europeias terem de reinventar os usos e costumes que harmonizam as competências, as tradições e as pretensões. Do que se trata, como acontece em todos os processos internos de eleição e mudança, é de seriar os problemas, de avaliar os interesses, de oferecer respostas, uma pregação pública de que todo o corpo de responsáveis políticos, que dependeram de eleições, têm possivelmente mais experiência do que necessitariam. Não parece haver memória de embaraços eleitorais que tenham sido causados pela meditação sobre a complexidade jurídica dos textos em que virão a ser compendiadas as respostas.
Aquilo que está em causa não é, em qualquer dos métodos, uma aula de interpretação jurídica ao cuidado dos doutos, é uma pública demonstração dos interesses em causa, dos riscos comparados do conservadorismo e da reforma, dos pontos fortes e fracos averiguados para um auditório que algumas vezes também terá mais experiência do que necessita de exercícios semelhantes. A legitimidade parlamentar não é inferior à legitimidade do referendo, estando a escolha dependente de muitas circunstâncias, entre elas os compromissos assumidos pelas formações políticas. Mas nenhuma destas pode dispensar-se, em tempo suficiente, e neste tema finalmente, de explicar ao eleitorado que interesses nacionais e europeus, que tabela de desafios, que prospectiva do mundo, e de vida vivida de cada um, levam a pedir a adesão a uma mudança proposta. O eleitorado tem experiência e sabedoria demonstradas para compreender isto. Não tem experiência e sabedoria que lhe permitam compreender a política furtiva que tem caracterizado o trajecto europeu."
"A DÚVIDA", Adriano Moreira, professor universitário in Dn on line

domingo, novembro 25, 2007

Bill Kristol | The Daily Show | Comedy Central

Bill Kristol The Daily Show Comedy Central


Em quem devemos confiar, nós os que somos considerados maraquinhas?

Vi isto hoje à noite, enquanto tentava acompanhar os gatos na RTP1. Humores ou intelecto?

Video: The Daily Show with Jon Stewart - Bill Kristol - Hear The Issues - Political Articles and Commentary

Video: The Daily Show with Jon Stewart - Bill Kristol - Hear The Issues - Political Articles and Commentary

A inteligência das perguntas.

25 de Novembro

Como é que se pode pensar à esquerda ou como é que se pode pensar à direita, eis um fenómeno que deveras me intriga. Que as pessoas se identifiquem com políticas definidas como de direita ou políticas definidas como esquerda, bom, enfim, sempre é uma variante mais compreensível, porque depende da necessidade de pertença de cada um, e de o fazer nesta medida através de uma correspondência entre a intuição, ou a educação ou a atracção ou a intenção, e as ideias apresentadas por outrem. A questão da filiação só intriga por não sabermos explicar verdadeiramente o processo que está na sua origem. Mas isso de se pensar à esquerda? Ou pensar à direita? O que será isso?

Bom, há pessoas que dizem saber o que é. E há até no mundo jornais que se assumem como os que reflectem o pensamento da direita e os que pensam à esquerda. Fantástico! Em Portugal há quem gostasse de ver os jornais a serem identificados com essa divisão feita para a política. Chamam-lhe, ao desejo de doutrina, legítimo precisamente em imprensa doutrinária, a necessidade de os jornais praticarem um serviço de esclarecimento que impeça o cidadão dito ingénuo de a eles recorrer com a ideia de que aí vai procurar uma posição bem fundamentada e argumentos sólidos mesmo se contrários aos seus, ou uma notícia o mais independente possível das pressões de uma autoridade exterior à dos critérios de edição de uma imprensa livre. A acontecer, isto da imprensa comprometida, revela um duplo atentado contra a consciência: contra a liberdade de pensamento dos que aí escrevem e contra a liberdade de julgar e de decidir dentro do que lê no seu jornal dos leitores.
Dizia-me uma investigadora de ciências da comunicação brasileira: "Então não é que eu era considerada pelos meus colegas uma pessoa de direita só porque comprava e lia um determinado jornal, e só porque me interessava as opiniões dos articulistas que lá escreviam? Sabiam lá eles das minhas identificações partidárias!" E uma outra colega espanhola acrescentava:"Um grupo de cidadãos da localidade x tentou fazer com que o jornal da região noticiasse o atentado ecológico que estava a afectar a costa por causas que se prendiam com falhas no sistema municipal de saneamento. Mas como esse jornal era conotado com o partido representado no município, o grupo de cidadãos não conseguiu fazer passar as suas queixas ou sequer noticiar o ocorrido. Teve então que procurar os meios de comunicação nacionais através dos contactos que alguns de entre os seus membro tinham no meio jornalístico." Perfeito. Um mundo de tribos a querer transformar o pensamento num sistema de consanguinidade. Como é que isto é possível a não ser pela imposição de uma ditadura do pensamento único? Que muitas pessoas se sintam mais seguras neste tipo de espaço criado por autocensura intelectual é um direito que lhes assiste, que o queiram impor como estratégia de socialização é que é lamentável.
Mas como criar identificações livres? Isto é, saber-se que se é de esquerda ou de direita, de travar as defesas desses princípios que os ideólogos dizem ser de esquerda ou de direita, votando em conformidade (o que interessa aos dirigentes partidários, claro) e reservando-se todo o direito de duvidar da sua afiliação, até das conclusões e das acções dos que se dizem seus pares, de se reclamar um pensador livre, e tudo isto sem se trair a si próprio ou sem trair os seus correligionários?
Se calhar há que falar de princípios versus os interesses, e isto para se compreender a liberdade de opções intelectuais ou adesões emocionais. Mas quais princípios? E como saber como distingui-los dos interesses? Quem legitima o quê? E de que forma?
É muito mais simples emprenhar de ouvido. Mas então que liberdade radical de consciência houve pela escolha de um vinte e cinco de Abril se sobrepor a um vinte e cinco de Novembro em Portugal? Mera questiúncula de interesses partidários? Ou de princípios? Voltamos ao mesmo.

sábado, novembro 24, 2007

Um par de horas com as bárbaras acções do mundo

Como o vírus da constipação desta vez não me varejou o cérebro, consegui ler proveitosamente mais de metade do livro O Regresso da Barbárie no tempo de intervalo entre o chá de limão com mel, as brincadeiras com os piratas e os mil e um jogos de computador com o outro paciente cá de casa, o mais novo.
A primeira impressão que a leitura me deixou (continuo a implicar com o título) foi de ter nas mãos um bom trabalho de síntese histórica escrito de forma simples, com um tom equilibrado na análise e por quase tudo o que lá é afirmado sobre o papel a considerar do poder das ideias. Aplico a fórmula "quase" porque há aí uma meia dúzia de parágrafos de afirmação de méritos, sustidos de forma acrítica, sobre toda a política externa dos EUA com os quais eu não posso estar de acordo. De resto é uma mais que interessante análise das ideias sobre a política externa da Europa desde 1905 , a partir de um ponto de vista continental. Na realidade eu julgo que estarmos sempre a ler autores anglo-saxónicos nos faz esquecer o pulsar intelectual do continente europeu, nomeadamente através da Alemanha e da França. Confesso que também não conheço outros autores. Culpa minha.
A autora insiste numa ideia que é deveras o pilar do futuro pensamento político também como eu o entendo: a política e a ética não deverão separar-se, pois quando isso acontece, não são os valores que desaparecem a favor de uma qualquer solução realista, é o ocupar do espaço pelas ideias dos fazedores inconsequentes e voláteis dos promitentes.
Assim que terminar de ler o livro de Delpech referenciarei aqui os temas e as ideias que sublinhei.

Turquia: percepção/realidade pelas palavras do presidente.

De uma forma empática, ainda que prudente, as palavras do presidente turco Abdullah Gul, que se puderam ouvir na entrevista concedida ao programa "Sociedade das Nações", denotam sobretudo uma vontade: a de esclarecer o que ele entende que se passa realmente na Turquia, afirmando que as crises decorrem de um natural e continuado processo de democratização aplicado numa mais profunda extensão das relações sociais, contra a ideia divulgada no Ocidente de uma queda numa deriva mais nacionalista e fundamentada por um activismo religioso.
Sereno, claro, e sem grandes subterfúgios, o presidente falou da crise curda, que pretende colar à ideia de uma luta contra o terrorismo e não contra o povo curdo, falou também das relações com o Irão, Israel, Rússia, E.U.A e UE. Deu-nos a ideia que a Turquia quer tornar-se o fiel depositário das esperanças de um novo entendimento político entre os países da região e também entre a Ásia, o Médio Oriente e o resto do mundo.
Interessante foi também o facto de ele reconhecer que algo de novo politicamente está a acontecer na Turquia que os intelectuais seguem de perto, pondo a constituição turca como garante da laicização dos partidos. Bonito, e talvez a porta de saída política para muitos países muçulmanos à procura de uma democracia. A seguir.
O presidente falou para a UE através da televisão do país que tem a presidência do conselho europeu. Convenientemente distanciado da paixão acerca da discussão acerca da inclusão da Turquia na UE, declaradamente defensor da ideia de uma comunidade de pertença de valores comuns entre o povo turco e as populações ocidentais. Esta ideia é fundamental em qualquer discussão política acerca da integração.

sexta-feira, novembro 23, 2007

Por via da lista de discussão "phimopo" chega-me o texto "I think, therefore I earn" publicado por Jessica Shepherd a 20 de Novembro de 2007 no The Guardian. É curioso como há uns vinte anos que andamos a ouvir falar na procura de licenciados de filosofia no mundo do mercado angloxónico. É mais um momento desse ciclo que está em análise. Do ciclo de empregabilidade deles, porque por cá não se sabe nada sobre este fenómeno e as licenciaturas em filosofia estão a fechar. É o prodigioso mundo laboral português do "quanto menos pensar mais sucesso tenho".

quarta-feira, novembro 21, 2007

Impotência

Num Estado de Direito como é que um cidadão pode reagir a esta notícia? Não deve reagir, porque é uma questão do sistema formal de aplicação de justiça que não depende da emoção de cada indivíduo? Ou deve reagir, porque a aplicação da justiça sob a forma de lei é uma acto convencional, e não está acima de uma discussão racional acerca da falibilidade da aplicação de princípios de justiça por parte de todos os interessados e não apenas dos agentes legisladores ou dos aplicadores da lei?

indiferença/impotência

Ontem, depois de ler o texto de João Miguel Tavares no DN on line “CASA PIA PARTE II: POR FAVOR, NÓS JÁ VIMOS ESTE FILME”, fiquei a pensar no seguinte: a grande sorte que é poder escapar de uma política infeliz através de uma paixão amorosa; às vezes também temos a sorte de escapar a uma paixão amorosa infeliz através da política. Seja como for, esse sentir difuso ou agudo de uma infelicidade pode ficar suspenso com o estado de choque provocado ou por uma paixão ou, pelo seu contrário, pelo impacto sobre os nossos nervos de um acontecimento social ou político. De uma forma ou de outra somos levados a perspectivar a nossa dor ou existência. A sair da dor convergente. Mas essa saída pode não ser para ir ao encontro de uma solução, podemos sair do sentir ou do pensar sobre nós e ficar paralisados à porta de nós mesmos.

O silêncio sobre o que se passa em sociedade, na política, em Portugal como no mundo pode ser representativo da estupefacção e o da impotência. O silêncio não tem que ser sinal de indiferença.
Habermas, não consigo agora precisar em que texto, fala precisamente sobre este estado de estupefacção que paralisa o agente quando compreende que a mediação entre a sua vontade ou desejo de participar, com o espaço e o momento para o fazer efectivamente, e o resultado prático desse desejo ou dessa participação, é de uma tortuosidade para a qual a teoria democrática não o prepara. O que leva à frustração e ao abandono da vontade de participar, prostrando o indivíduo.

Na prática, as sociedades democráticas protegem-se da formação da personalidade cívica multidireccional e concorrente, fazendo enquadrar essa constituição através dos processos académicos ou partidários, propondo uma ordem. Será nas escolas, com programas restritos, e nos partidos, com programas restritos, que os indivíduos aprendem a pensar a política. Muito diferente seria assumir uma actividade extra curricular e extra partidária que preparasse os indivíduos para a vida pública. Nas sociedades contemporâneas para além do grupo familiar ou de amigos de cada um, só a existência de uma imprensa livre permite esta estrutura de formação política paralela. Mas a imprensa é também um produto que tem que se vender. Entre essa dupla existência (é um objecto comercializável e é um objecto de formação, através da divulgação de informação imparcial e idónea) ela produz efeitos na criação da personalidade pública de cada um de nós. Mas na antiguidade clássica, por exemplo, os filósofos, com um método de investigação mais dialéctico e mais orientado para a procura da verdade, e os sofistas, mais atinentes aos efeitos práticos do seu ensino, preparavam cada cidadão par desempenhar os seus cargos na vida pública. O círculo de participação era mais restrito, eu sei. A mediação política dos gregos era a da dimensão da sua voz na praça pública, certo. Mas existia essa ideia de necessidade de formação de cada cidadão nos assuntos públicos e da sua chamada a fazer escolhas, muito para além do momento cíclico eleitoral.



Na adolescência, lembro-me que não havia hipótese nenhuma da política real apaziguar qualquer dor. Era uma realidade paralela à nossa existência, quando não muito aquém dela. Da minha existência ou a do meu grupo de amigas, já que passávamos a vida a idealizar vidas privadas ou a de comunidades políticas públicas. Inventávamos cidades, estados e regras universais nossas, como inconsequentes pequenas deusas. Havia paixões e havia ideias, o objecto real dessas paixões ou da consequência dessas ideias era uma coisa não pensável ou sequer tomado em consideração. Ditadura da imaginação no poder. Liberdade de quem não tem que ganhar um salário para viver, nem tem que pagar impostos. O menosprezo pelo Estado e a exaltação da afectividade pelo país. Só quando percebemos, ou quando eu percebi que tinha percebido, que a política real não era uma distracção no que aos meus direitos e deveres como pessoa dizia respeito, mas sim garantia ou obstáculo para os mesmos, é que houve a concessão de um olhar mais atento.

Mas a política quando é um jogo do arrisca agora e paralisa o adversário antes que ele te paralise, um jogo de estratégia de sobrevivência de um indivíduo ou de um partido no poder, acaba por levar à paralisação do cidadão. E esta impotência não revela necessariamente uma concessão ao valor do governante, ou do decisor, pode revelar uma dor pública imensa, sem palavras para falar sobre o seu desgosto.

segunda-feira, novembro 19, 2007

Guerra e Paz

De Paris, mais propriamente da École des Hautes Études en Sciences Sociales, chega a notícia de um seminário no qual se vai pensar a guerra: « L'humanitaire, le politique et la guerre ».
De Coimbra, do Centro de Estudos Sociais, chega a informação de seminário organizado pelo núcluo de estudos para a paz: "As relações Político-comerciais Brasil-África em perspectiva (1985-2006)".

Nas universidades, pensar a acção que se deseja actualizar. Como está a acontecer nas universidades venezuelanas, onde os jovens de esquerda já compreenderam que Chávez não representa de forma alguma a esquerda que se deseja num mundo democrático e livre. Bom sinal.

Pensar a acção como Mario Vargas Llosa o fez em "La salida de Juan Carlos I, tras las interrupciones e insultos de Hugo Chávez, tuvo la virtud de rasgar el velo de hipocresía que rodea las Cumbres Iberoamericanas"


"(...)
Entonces, Rodríguez Zapatero pide la palabra a Michelle Bachelet -la presidenta de Chile dirige la sesión- y, extremando el respeto de las formas y buscando con verdadera angustia las palabras más prudentes, trata de dejar sentada su protesta por la "descalificación" que se ha hecho de un ex presidente "que fue elegido por los españoles". Digo "trata de" porque, pese a sus educadas maneras, hasta en dos oportunidades es groseramente interrumpido de nuevo por Hugo Chávez, quien, como la presidenta Bachelet le ha cortado el micro, levanta virilmente la voz a fin de que ninguno de los presentes se libre de escucharlo. A estas alturas, el Rey de España, al que literalmente hemos visto demudarse y enrojecer a lo largo de toda esta escena sin poder ocultar la irritación que le produce, irrumpe con su contundente "¿Por qué no te callas?" que, por un instante, deja al soldadote de marras quieto y mudo, como sin duda le ocurría en el cuartel cuando su superior lo aderezaba de carajos. La presidenta Bachelet introduce un inesperado toque de humor al sugerir con meliflua voz a los presentes "que eviten los diálogos". Otro tercermundista y comandante entra en escena, esta vez un Daniel Ortega maltratado por los años con una calvicie acelerada y una panza capitalista, para desgañitarse atacando a España por los bombardeos de Estados Unidos contra Libia, por las supuestas depredaciones de Unión Fenosa y contra los embajadores españoles por conspirar contra el Frente Sandinista... hasta que el Rey de España se levanta y deja sentada su protesta abandonando la sesión. La enseñanza más obvia e inmediata de este psicodrama es que hay todavía una América Latina anacrónica, demagógica, inculta y bárbara a la que es una pura pérdida de tiempo y de dinero tratar de asociar a esa civilizada entidad democrática y modernizadora que aspiran a crear las Cumbres Iberoamericanas. Esta será una aspiración imposible mientras haya países latinoamericanos que tengan como gobernantes a gentes como Chávez, Ortega o Evo Morales, para no mencionar a Fidel Castro. Que sean o hayan sido populares y ganaran elecciones no hace de ellos demócratas. Por el contrario, muestra la profunda incultura política y lo frágil que son las convicciones democráticas de sociedades capaces de llevar al poder, en libres comicios, a semejantes personajes. Ellos no asisten a las Cumbres a trabajar por el ideal que las convoca. Van a utilizarlas como una tribuna para internacionalizar la demagogia y las bravatas con que mantienen hipnotizados a sus pueblos y, por eso, esas Cumbres están condenadas al fracaso y al circo. Antes, la estrella indiscutible de ellas era Fidel Castro y sus espectáculos anti imperialistas, que enloquecían de felicidad a los gacetilleros amantes de escándalos. Ahora que Castro dejó de ser caudillo para convertirse en analista internacional -el único que en Cuba habla y despotrica con envidiable libertad- el histrión preferido de la prensa amarilla es Chávez, émulo y ventrílocuo de aquél. Claro que hay otra América Latina, más decente, honrada, culta y democrática que la representada por estos energúmenos. Estaba allí, en esa sesión de clausura, invisible y muda, como siempre en estas ocasiones en la que los caudillos, hombres fuertes, "comandantes" y payasos se apoderan de las candilejas. ¿Por qué callan y se dejan ningunear y eclipsar de esa manera si ellos son infinitamente más respetables y dignos de ser escuchados que aquéllos? No sólo porque algunos están sobornados por los petrodólares que derrocha el venezolano a diestra y siniestra. A menudo lo hacen porque temen ser víctimas de las diatribas y descalificaciones de aquellos matones, que les pueden soliviantar a sus extremistas criollos y, también, aunque parezca mentira, porque ellos, que sólo son gobernantes civiles que tratan mal que bien o bien que mal de ajustarse a las limitaciones que les señalan las leyes y constituciones, se sienten mandatarios de segunda frente a esos dioses omnímodos que no tienen otro freno para sus excesos y bellaquerías que su soberana voluntad. La salida del Rey de España tuvo la virtud de rasgar el velo de hipocresía que circunda las Cumbres Iberoamericanas a las que, en apariencia -no en la realidad- asisten jefes de Gobierno y de Estado dignos del mismo respeto y consideración. Falso de toda falsedad: el señor Chávez tiene unas credenciales que lo exoneran de toda respetabilidad civil y democrática, pues, el 4 de febrero de 1992, traicionó su uniforme y actuó con felonía intentando un golpe militar contra un Gobierno constitucional y legítimo en el que decenas de oficiales y soldados venezolanos murieron defendiendo el Estado de derecho. Levantarse contra un Gobierno constitucional es el peor crimen que pueda cometer un militar y por eso el comandante Chávez fue juzgado, condenado y enviado a la cárcel. Que en lugar de pasarse allí muchos años fuera amnistiado por el presidente Rafael Caldera y luego premiado por una mayoría de venezolanos con la Presidencia de la República no lo absuelve, sólo muestra hasta qué punto estaba turbado ese electorado que se dejó seducir por los cantos de sirena de un demagogo y que está ahora lamentándose amargamente de su error. Lo absurdo, lo delirante de lo ocurrido en Santiago de Chile es que el comandante Chávez eligiera, para descargar sus iras y convertir en blanco de su mojiganga tercermundista, a España, un país cuyo Gobierno ha hecho esfuerzos denodados para llevarse en paz con él, e, incluso, echarle una mano internacionalmente cuando todo el Occidente democrático lo censuraba por sus atropellos a los derechos humanos y sus complicidades con las satrapías fundamentalistas. ¿Alguna otra enseñanza que sacar de todo esto? Que, como es evidente que a los tigres y a las hienas no se las aplaca con venias y sonrisas y echándoles corderos, conviene mucho más a un país democrático como España privilegiar en sus relaciones a países que representan la civilidad, la libertad, la legalidad, y con los que tiene la seguridad de una cooperación real y de largo plazo, que tratar por todos los medios de ganarse la amistad de quienes representan las antípodas de lo que, afortunadamente para los españoles, es hoy España. Ni la Cuba de Fidel Castro ni la Venezuela de Chávez merecen ser, hoy, los amigos dilectos del Gobierno español, y sí, en cambio todos esos discretos y esforzados gobiernos que, en el resto del continente latinoamericano trabajan por sacar a sus pueblos de esa barbarie del subdesarrollo que representan no sólo los bajos índices de crecimiento y las vertiginosas desigualdades de ingreso, educación y oportunidades, sino, también, la demagogia y la matonería políticas encarnadas en Ortega y Chávez que las televisiones de todo el mundo pusieron en evidencia en la clausura de la Cumbre Iberoamericana. Es posible que, al reaccionar como lo hizo, el Rey de España transgrediera el protocolo. ¡Pero qué alegría nos deparó a tantos latinoamericanos, a tantos millones de venezolanos! ¿La prueba? Que he escrito este artículo arrullado por los animados compases del flamante pasodoble que ahora entonan y bailan en todas las universidades venezolanas, que se titula ¿Por qué no te callas? y cuya tonadilla y letra llueven sin tregua sobre mi computadora."
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