No fim da aula, o meu colega Francisco atravessou o campo de ténis e perguntou-me :"A Isabel conhece o trabalho da AMI?" Que sim, sim senhor, conhecia razoavelmente, respondi-lhe. Perguntou-me então:"Não quer trabalhar como voluntária e ajudar no peditório a favor da organização?"
Balbuciei uma meia dúzia de desculpas e esbocei um meio sorriso, declinando a proposta. No olhar do Francisco instalava-se definitivamente um tom de desapontamento para comigo.
Mas, senhor Francisco, se até eu me consigo desapontar a mim mesma frequentemente, o que não acontecerá aos outros? Para si não passa da expressão de uma liberdade, a de me redefinir, para mim é o tormento de viver aquém do que espero de mim mesma. Nem é preciso chamar o diabo, até eu sei fazer esta escolha.
quarta-feira, outubro 10, 2007
terça-feira, outubro 09, 2007
«Um dia li um livro e toda a minha vida mudou.» 1
É absolutamente frustrante o esforço de ler Orhan Pamuk no seu livro A vida Nova e passar o tempo todo a impedir que o cérebro esteja a burilar as imagens recebidas outrora dos filmes americanos de viagens.
Conheço o país de Pamuk, conheço aldeias, cidades e camionetas que ligam essas cidades, sei qual é o cheiro do “cheirinho” que o assistente do motorista derrama nas nossas mãos, conheci muitos daqueles companheiros de viagem descritos por Pamuk e, no entanto, as imagens dos filmes americanos estão sempre a sobrepor-se às minhas percepções sobre a Turquia. A força do imaginário sobre o real.
Conheço o país de Pamuk, conheço aldeias, cidades e camionetas que ligam essas cidades, sei qual é o cheiro do “cheirinho” que o assistente do motorista derrama nas nossas mãos, conheci muitos daqueles companheiros de viagem descritos por Pamuk e, no entanto, as imagens dos filmes americanos estão sempre a sobrepor-se às minhas percepções sobre a Turquia. A força do imaginário sobre o real.
segunda-feira, outubro 08, 2007
uma cimeira que se quer de princípios
Angela Merkel “critica, mas não se opõe à ida de Zimbabué a Lisboa”
“O presidente sul-africano, Thabo Mbeki, afirmou estar confiante de que as eleições presidenciais e legislativas no Zimbabué, marcadas para Março de 2008, serão livres e justas e os resultados vão ser aceites por todos.” Agência Lusa
“O primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, afirmou que nenhum ministro do governo britânico vai participar da cúpula União Europeia-África se o presidente do Zimbabué, Robert Mugabe, estiver em Lisboa.” Agência Lusa
Quem vai ver a sua posição tomar mais força: a senhora Merkel (que sendo uma mulher a quem se reconhece fidelidade a princípios não tem no entanto o escolho de ter cidadãos alemães a reclamarem por justiça relativamente ao que um ditador fez com as suas vidas, facilitando a sua tomada de posição conciliatória) ou o senhor Brown (cuja legitimidade para ocupar o cargo de primeiro-ministro começa a ser questionada fortemente a nível interno, sendo ainda que tem que considerar o número considerável de cidadãos ingleses que foram maltratados por Mugabe e quereclamam, justamente, por solidariedade institucional, não podendo, para efeitos de imagem da soberana Inglaterra, aceitar sentar-se à mesma mesa do ditador africano).
Mas esta questão não se prende só com o dever da nossa diplomacia apoiar ou não um aliado como a Inglaterra, ou de fazer parceria com a politicamente forte Alemanha, pois há que ouvir também os líderes africanos, e estes parecem estar a dizer que o Zimbabué não deve ficar de fora da cimeira, não porque essa participação venha a servir de ratificação de um deplorável estado de coisas no que à gestão dos assuntos públicos diz respeito no Zimbabué, como em muitos outros países africanos, mas para enquadrar as acções, obrigando os seus dirigentes, pelo menos, a formularem explicações e prestarem-se a escrutínio dos seus congéneres europeus, pelo facto de estarem presentes. E é em África que se deve começar por resolver os problemas de África.
Nestas alturas o problema da natureza dos valores no que à questão de serem universais ou relativos diz respeito torna-se central. Mas evocar a universalidade sem argumentar contra a relativização, mesmo se numa mesa de uma cimeira, ou sobretudo numa mesa de uma cimeira, parece-me uma oportunidade que não se pode perder.
“O presidente sul-africano, Thabo Mbeki, afirmou estar confiante de que as eleições presidenciais e legislativas no Zimbabué, marcadas para Março de 2008, serão livres e justas e os resultados vão ser aceites por todos.” Agência Lusa
“O primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, afirmou que nenhum ministro do governo britânico vai participar da cúpula União Europeia-África se o presidente do Zimbabué, Robert Mugabe, estiver em Lisboa.” Agência Lusa
Quem vai ver a sua posição tomar mais força: a senhora Merkel (que sendo uma mulher a quem se reconhece fidelidade a princípios não tem no entanto o escolho de ter cidadãos alemães a reclamarem por justiça relativamente ao que um ditador fez com as suas vidas, facilitando a sua tomada de posição conciliatória) ou o senhor Brown (cuja legitimidade para ocupar o cargo de primeiro-ministro começa a ser questionada fortemente a nível interno, sendo ainda que tem que considerar o número considerável de cidadãos ingleses que foram maltratados por Mugabe e quereclamam, justamente, por solidariedade institucional, não podendo, para efeitos de imagem da soberana Inglaterra, aceitar sentar-se à mesma mesa do ditador africano).
Mas esta questão não se prende só com o dever da nossa diplomacia apoiar ou não um aliado como a Inglaterra, ou de fazer parceria com a politicamente forte Alemanha, pois há que ouvir também os líderes africanos, e estes parecem estar a dizer que o Zimbabué não deve ficar de fora da cimeira, não porque essa participação venha a servir de ratificação de um deplorável estado de coisas no que à gestão dos assuntos públicos diz respeito no Zimbabué, como em muitos outros países africanos, mas para enquadrar as acções, obrigando os seus dirigentes, pelo menos, a formularem explicações e prestarem-se a escrutínio dos seus congéneres europeus, pelo facto de estarem presentes. E é em África que se deve começar por resolver os problemas de África.
Nestas alturas o problema da natureza dos valores no que à questão de serem universais ou relativos diz respeito torna-se central. Mas evocar a universalidade sem argumentar contra a relativização, mesmo se numa mesa de uma cimeira, ou sobretudo numa mesa de uma cimeira, parece-me uma oportunidade que não se pode perder.
domingo, outubro 07, 2007
A guerra e os que se estão nas tintas
“(…) Usavas o quico no alto da cabeça, como se não te pertencesse, e quando ia visitar-te ao teu destacamento era uma festa de abraços debaixo daqueles eucaliptos enormes, onde se habitava em condições miseráveis, porque quem mandava em Luanda estava-se nas tintas para nós: bem se ralavam com a nossa sorte e a gente rodeados de inimigos e cães. (…)
Não conheço uma única pessoa que tenha passado por aquele horror na qual não exista uma parte que se mata devagar, em silêncio, numa discrição pungente que apenas os que passaram por aquilo sabem reconhecer. (…)”
António Lobo Antunes, “Zé”, in Visão, 4 de Outubro de 2007, p. 19.
Mas o que é, ontem, como hoje, dizer, como Weber o fez, que um Estado racional-legal se define por ser o depositário do monopólio do uso de uma força física legítima?
Se sempre se pôde demandar pelo tipo de legitimidade consignado para compreender a natureza da ordem evocada para usar a força, mais hoje, com a multiplicação das empresas de forças de segurança privadas a actuarem em cenários de guerra, faz sentido juntar-se à questionação filosófica uma outra da ordem pratico-jurídica: onde fica a delimitação da legitimidade dos Estados quando o monopólio da força por parte do Estado está à venda a retalho?
Como é que os Estados se atolam ainda mais no absurdo de se deslegitimarem perante o uso da força, já por si de fundamentação pouco pacífica?
Quando é que a dor privada do cidadão que cumpre o seu dever se transformou no pagamento privado do infligir e receber a dor? Quem controla o horror, e qual é o nome da instituição ou o nome dos indivíduos que pagam e que se podem estar nas tintas para essa dor?
..
"No Iraque assistiu-se a uma verdadeira proliferação de sociedades militares privadas, movimentando um número de funcionários equivalente ou mesmo superior aos efectivos militares no país, e a quem foram entregues importantes funções militares (nomeadamente logística e segurança), mas também funções de segurança e “para-militares” na prática, como a Blackwater, a DynCorp International e a Triple Canopy.
Não conheço uma única pessoa que tenha passado por aquele horror na qual não exista uma parte que se mata devagar, em silêncio, numa discrição pungente que apenas os que passaram por aquilo sabem reconhecer. (…)”
António Lobo Antunes, “Zé”, in Visão, 4 de Outubro de 2007, p. 19.
Mas o que é, ontem, como hoje, dizer, como Weber o fez, que um Estado racional-legal se define por ser o depositário do monopólio do uso de uma força física legítima?
Se sempre se pôde demandar pelo tipo de legitimidade consignado para compreender a natureza da ordem evocada para usar a força, mais hoje, com a multiplicação das empresas de forças de segurança privadas a actuarem em cenários de guerra, faz sentido juntar-se à questionação filosófica uma outra da ordem pratico-jurídica: onde fica a delimitação da legitimidade dos Estados quando o monopólio da força por parte do Estado está à venda a retalho?
Como é que os Estados se atolam ainda mais no absurdo de se deslegitimarem perante o uso da força, já por si de fundamentação pouco pacífica?
Quando é que a dor privada do cidadão que cumpre o seu dever se transformou no pagamento privado do infligir e receber a dor? Quem controla o horror, e qual é o nome da instituição ou o nome dos indivíduos que pagam e que se podem estar nas tintas para essa dor?
..
"No Iraque assistiu-se a uma verdadeira proliferação de sociedades militares privadas, movimentando um número de funcionários equivalente ou mesmo superior aos efectivos militares no país, e a quem foram entregues importantes funções militares (nomeadamente logística e segurança), mas também funções de segurança e “para-militares” na prática, como a Blackwater, a DynCorp International e a Triple Canopy.
Ora, as condições e a lógica de actuação dessas sociedades escapam ao controlo das instâncias políticas, tornando-se virtualmente inimputáveis em matéria de direito internacional ou de direitos humanos. "
Açoriano Oriental on line, "Democratas norte-americanos questionam privatização da guerra"
quinta-feira, outubro 04, 2007
"Não, sr. Secretário de Estado"
O meu colega Rui enviou-me um artigo de Maria Filomena Mónica publicado no passado Domingo, dia 30, no jornal Público, por via do blogue De Rerum Natura. Dele constam informações que é do conhecimento geral de muitos professores. Ficaram então públicas as percepções privadas de todos aqueles que sabem porque é que este Ministério da Educação confundiu posições de autoridade nas propostas legislativas com a grosseria dos ignorantes com poder.
"Valter Lemos nunca participou em debates parlamentares, nunca demonstrou possuir uma ideia sobre Educação.
A ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, tem aparecido na televisão e até no Parlamento, o mesmo não sucedendo ao seu secretário de Estado, Valter Lemos. É pena, porque este senhor detém competências que lhe conferem um enorme poder sobre o ensino básico e secundário. Intrigada com a personagem, decidi proceder a uma investigação. Eis os resultados a que cheguei.
Natural de Penamacor, Valter Lemos tem 51 anos, é casado e possui uma licenciatura em Biologia: até aqui nada a apontar. Os problemas surgem com o curriculum vitae subsequente. Suponho que ao abrigo do acordo que levou vários portugueses a especializarem-se em Ciências da Educação nos EUA, obteve o grau de mestre em Educação pela Boston University. A instituição não tem o prestígio da vizinha Harvard, mas adiante. O facto é ter Valter Lemos regressado com um diploma na "ciência" que, por esse mundo fora, tem liquidado as escolas.
Foi professor do ensino secundário até se aperceber não ser a sala de aula o seu habitat natural, pelo que passou a formador de formadores, consultor de "projectos e missões do Ministério da Educação" e, entre 1985 e 1990, a professor adjunto da Escola Superior do Instituto Politécnico de Castelo Branco.
Em meados da década de 1990, a sua carreira disparou: hoje, ostenta o pomposo título de professor-coordenador, o que, não sendo doutorado, faz pensar que a elevação académica foi política ou administrativamente motivada; depois de eleito presidente do conselho científico da escola onde leccionava, em 1996 seria nomeado seu presidente, cargo que exerceu até 2005, data em que entrou para o Governo.
Estava eu sossegadamente a ler o Despacho ministerial n.º 11 529/2005, no Diário da República, quando notei uma curiosidade. Ao delegar poderes em Valter Lemos, o texto legal trata-o por "doutor", título que só pode ser atribuído a quem concluiu um doutoramento, coisa que não aparece mencionada no seu curriculum. Estranhei, como estranhei que a presidência de um politécnico pudesse ser ocupada por um não doutorado, mas não reputo estes factos importantes.
Aquando da polémica sobre o título de engenheiro atribuído a José Sócrates, defendi que os títulos académicos nada diziam sobre a competência política: o que importa é saber se mentiram ou não. Deixemos isto de lado, a fim de analisar a carreira política do sr. secretário de Estado.
Em 2002 e 2005, foi eleito deputado à Assembleia da República, como independente, nas listas do Partido Socialista. Nunca lá pôs os pés, uma vez que a função de direcção de um politécnico é incompatível com a de representante da nação. A sua vida política limita-se, por conseguinte, à presidência de uma assembleia municipal (a de Castelo Branco) e à passagem, ao que parece tumultuosa, pela Câmara de Penamacor, onde terá sofrido o vexame de quase ter perdido o mandato de vereador por excesso de faltas injustificadas, o que só não aconteceu por o assunto ter sido resolvido pela promulgação de uma nova lei.
Em resumo, Valter Lemos nunca participou em debates parlamentares, nunca demonstrou possuir uma ideia sobre Educação, nunca fez um discurso digno de nota. Chegada aqui, deparei-me com uma problema: como saber o que pensa do mundo este senhor?
Depois de buscas por caves e esconsos, descobri um livro seu, O Critério do Sucesso: Técnicas de Avaliação da Aprendizagem. Publicado em 1986, teve seis edições, o que pressupõe ter sido o mesmo aconselhado como leitura em vários cursos de Ciências da Educação. Logo na primeira página, notei que S. Excia era um lírico. Eis a epígrafe escolhida: "Quem mais conhece melhor ama."
Afirmava seguidamente que, após a sua experiência como formador de professores, descobrira que estes não davam a devida importância ao rigor na "medição" da aprendizagem. Daí que tivesse decidido determinar a forma correcta como o docente deveria julgar os estudantes.
Qualquer regra de bom senso é abandonada, a fim de dar lugar a normas pseudocientíficas, expressas num quadrado encimado por termos como "skill cognitivos". Navegando na maré pedagógica que tem avassalado as escolas, apresenta depois várias "grelhas de análise". Entre outras coisas, o docente teria de analisar se o aluno "interrompe o professor", se "não cumpre as tarefas em grupo" e se "ajuda os colegas".
Apenas para dar um gostinho da sua linguagem, eis o que diz no subcapítulo "Diferencialidade":"Após a aplicação do teste e da sua correcção deverá, sempre que possível, ser realizado um trabalho que designamos por análise de itens e que consiste em determinar o índice de discriminação, [sic para a vírgula] e o grau de dificuldade, bem como a análise dos erros e omissões dos alunos. Trata-se portanto, [sic de novo] de determinar as características de diferencialidade do teste."
Na página seguinte, dá-nos a fórmula para o cálculo do tal "índice de dificuldade e o de discriminação de cada item". É ela a seguinte: Df= (M+P)/N em que Df significa grau de dificuldade, N o número total de alunos de ambos os grupos, M o número de alunos do grupo melhor que responderam erradamente e P o número de alunos do grupo pior que responderam erradamente.
O mais interessante vem no final, quando o actual secretário de Estado lamenta a existência de professores que criticam os programas como sendo grandes demais ou desadequados ao nível etário dos alunos. Na sua opinião,"tais afirmações escondem muitas vezes, [sic mais uma vez] verdades aparentemente óbvias e outras vezes "desculpas de mau pagador", sendo difícil apoiá-las ou contradizê-las por não existir avaliação de programas em Portugal".
Para ele, a experiência dos milhares de professores que, por esse país fora, têm de aplicar, com esforço sobre-humano, os programas que o ministério inventa não tem importância. Não contente com a desvalorização do trabalho dos docentes, S. Excia decide bater-lhes:"Em certas escolas, após o fim das actividades lectivas, ouvem-se, por vezes, os professores dizer que lhes foi marcado serviço de estatística. Isto é dito com ar de quem tem, contra a sua vontade, de ir desempenhar mais uma tarefa burocrática que nada lhe diz. Ora, tal trabalho, [sic de novo] não deve ser de modo nenhum somente um trabalho de estatística, mas sim um verdadeiro trabalho de investigação, usando a avaliação institucional e programática do ano findo."
O sábio pedagógico-burocrático dixit. O que sobressai deste arrazoado é a convicção de que os professores deveriam ser meros autómatos destinados a aplicar regras.
Com responsáveis destes à frente do Ministério da Educação, não admira que, em Portugal, a taxa de insucesso escolar seja a mais elevada da Europa. Valter Lemos reúne o pior de três mundos: o universo dos pedagogos que, provindo das chamadas "ciências exactas", não têm uma ideia do que sejam as humanidades, o mundo totalitário criado pelas Ciências da Educação e a nomenklatura tecnocrática que rodeia o primeiro-ministro."
Maria Filomena Mónica
terça-feira, outubro 02, 2007
Um Estado de Direito mal-educado
Não sei o que os psiquiatras presentes pensaram do comportamento dos juízes que ali estavam, supostamente, a esclarecer as posições jurídicas. Eu, que só consegui assistir à última parte do debate no Prós e Contras, fico paralisada de vergonha por ter em Portugal juízes com um comportamento sobranceiro, quando não menos arruaceiro, como o daqueles.
Quem é que andará a ensinar aos juízes como eles deverão comunicar as suas decisões aos cidadãos eu não sei, porque espero que aqueles tiques corporativistas , onde os esgares, a incapacidade de ouvir, ausência de autocrítica, recuo numa posição de defesa a partir da luz da lei, não sejam ensinados por ninguém e sejam assim uma espécie de comportamento de mimetismo inter pares, como se quisessem ser tratados como prima-donas. Comportamento aflitivo da parte de quem tem tanta responsabilidade e tanta formação académica e que, até agora, parece manchar a maioria dos juízes que são chamados a comentar casos mediáticos da justiça, e independentemente das razões que lhes assistem.
A legitimidade da aplicação da lei assenta no uso elevado do tom e no ar de enjoo para com as posições dos restantes concidadãos?
Quem é que andará a ensinar aos juízes como eles deverão comunicar as suas decisões aos cidadãos eu não sei, porque espero que aqueles tiques corporativistas , onde os esgares, a incapacidade de ouvir, ausência de autocrítica, recuo numa posição de defesa a partir da luz da lei, não sejam ensinados por ninguém e sejam assim uma espécie de comportamento de mimetismo inter pares, como se quisessem ser tratados como prima-donas. Comportamento aflitivo da parte de quem tem tanta responsabilidade e tanta formação académica e que, até agora, parece manchar a maioria dos juízes que são chamados a comentar casos mediáticos da justiça, e independentemente das razões que lhes assistem.
A legitimidade da aplicação da lei assenta no uso elevado do tom e no ar de enjoo para com as posições dos restantes concidadãos?
As elites do PSD
"Em geral, as elites portuguesas não se distinguem por nada que tenham feito.
Não têm o hábito de se elevar e, em consequência, resta-lhes empurrar o povo para baixo quando ele se chega muito perto.(...)
Rui Tavares, "Chorai elites" no jornal Público.
...
"Escrito por mim (Pacheco Pereira) no Diário de Notícias em Janeiro de 1998:
O desprezo nefelibata de alguns dirigentes social-democratas, que se consideram "barões" e serem a elite do partido, tem tido com a própria vida interna do PSD, com que não perdem tempo e consideram abaixo do seu standard, tem tido como consequência o entregar dessas estruturas intermédias aos pequenos interesses clientelares, mas também o abandono à sua sorte de muitos militantes sinceros e idealistas que se sentem cada vez mais perdidos. Este divórcio vai-se acentuando, aquele que separa o "partido de militantes" da fundação e dos anos difíceis, como um novo tipo de clientelas que vêem no PSD essencialmente o partido do poder, o partido que detinha o poder, logo os lugares.Basta consultar as biografias de alguns dirigentes locais vindos da JSD ou do aparelho partidário, para ver como nos anos em que o PSD esteve no poder se acentuou a ligação entre os cargos partidários, e os cargos de nomeação governamental, associados de um modo geral à ausência ou ao abandono de qualquer actividade profissional própria, ou seja à perda de independência económica em relação ao partido. Para essas novas clientelas o partido tornou-se o emprego e a carreira política a forma de ascender profissional e socialmente. Por muito que encham a boca como uma espécie de clubismo social-democrata, o partido enquanto realidade política e cívica significa para eles muito pouco. A sua motivação é essencialmente interna - e do poder interno que precisam para manter os lugares. Actuam como um sindicato e estão dispostos a tudo para manter o emprego, mesmo que isso signifique matar socialmente o PSD."
Pacheco Pereira no Abrupto
...
Não têm o hábito de se elevar e, em consequência, resta-lhes empurrar o povo para baixo quando ele se chega muito perto.(...)
(...) as elites do PSD, no fundo, não são tão elites quanto isso. Na tradição nacional, sempre esperaram que o seu lugar lhes fosse guardado e cedido: no conselho da administração como no conselho de ministros. Nos intervalos do poder escolhiam um caseiro para tomar conta do partido. Da mesma forma, estes legítimos representantes da respeitabilidade cavaquista continuam a achar que o PSD tem de ter lugar cativo na sociedade portuguesa, apenas porque sim. Sempre desprezaram a ideologia a favor de um suposto monopólio do "saber governar". Fizeram o elogio dos self-made man para depois os acusar de populismo. Fugiram das causas sociais e avisaram o seu povo para se manter afastado do "politicamente correcto" Repetiram durante anos que a iniciativa pública é incopetente e a iniciativa privada é virtuosa. Lembraram que se fizermos tudo para para beneficiar os investidores e os empresários, o mecanismo do mercado se encarregará de todos. (...) E agora choram: mas este foi o partido que eles fizeram."
Rui Tavares, "Chorai elites" no jornal Público.
...
"Escrito por mim (Pacheco Pereira) no Diário de Notícias em Janeiro de 1998:
O desprezo nefelibata de alguns dirigentes social-democratas, que se consideram "barões" e serem a elite do partido, tem tido com a própria vida interna do PSD, com que não perdem tempo e consideram abaixo do seu standard, tem tido como consequência o entregar dessas estruturas intermédias aos pequenos interesses clientelares, mas também o abandono à sua sorte de muitos militantes sinceros e idealistas que se sentem cada vez mais perdidos. Este divórcio vai-se acentuando, aquele que separa o "partido de militantes" da fundação e dos anos difíceis, como um novo tipo de clientelas que vêem no PSD essencialmente o partido do poder, o partido que detinha o poder, logo os lugares.Basta consultar as biografias de alguns dirigentes locais vindos da JSD ou do aparelho partidário, para ver como nos anos em que o PSD esteve no poder se acentuou a ligação entre os cargos partidários, e os cargos de nomeação governamental, associados de um modo geral à ausência ou ao abandono de qualquer actividade profissional própria, ou seja à perda de independência económica em relação ao partido. Para essas novas clientelas o partido tornou-se o emprego e a carreira política a forma de ascender profissional e socialmente. Por muito que encham a boca como uma espécie de clubismo social-democrata, o partido enquanto realidade política e cívica significa para eles muito pouco. A sua motivação é essencialmente interna - e do poder interno que precisam para manter os lugares. Actuam como um sindicato e estão dispostos a tudo para manter o emprego, mesmo que isso signifique matar socialmente o PSD."
Pacheco Pereira no Abrupto
Análise que se pode fazer igualmente para o PS tendo em conta a sua passagem pelo poder. Vamos ver quanto tempo ele vai demorar a trasformar-se num clube de empregados do poder de Estado.
...
"Cito Santana: "Acho que o País está doido, com todo o respeito. Por isso não continuo a entrevista. O País tem de aprender." Eu sei que a memória do pessoal é curta, mas ouvir Santana dizer "o País tem de aprender", em tom professoral, sabendo nós o estado em que deixou o País, é a mesma coisa que ver um talibã a discursar sobre a qualidade da estatuária budista - não bate certo. É verdade que a SIC se portou mal e que não foi lá muito esperta ao esconder as imagens do que se passou, mas a indignação de Santana é apenas uma mistura de marketing e sobranceria. Pessoalmente, dispenso. Embora numa coisa eu esteja de acordo com toda a gente: é sempre muito mais interessante ver Santana Lopes a sair de um estúdio de televisão do que a entrar nele."
João Miguel Tavares, "ACHO QUE O PAÍS ESTÁ DOIDO, COM TODO O RESPEITO", Jornalista, DN on line
segunda-feira, outubro 01, 2007
"Sê louco comigo quando eu estiver louco e sábio quando eu estiver sábio"
Às vezes penso na lógica dos defensores dos conflitos por via armada, nos partidários da guerra, que ficam tão perturbados quando os seus correligionários entram na política disputando o poder com as mais baixas das armas discursivas utilizáveis, como se nunca tivessem pensado no fenómeno da traição, como se não conhecessem o impulso para a destruição e queda que o seu discurso sobre a defesa da guerra como estratégia de resolução de conflitos faz pressupor.
Péricles, o imprevidente, ainda que sábio estadista, o desesperado amante de Aspásia, ainda que racional dirigente político, foi sucessivamente traído, e sucessivamente o cidadão acreditou na sua cidade e nas suas leis. Os senhores da guerra que lhe sucederam roubaram o esplendor do governo de Péricles e preparam-na, com o princípio do fim da sua glória, para ser dominada. Mas o sistema político iria ser lapidado e renasceria pedindo sabedoria quando a sabedoria é necessária e soltando, preferencialmente em comunhão, a sua loucura quando esta irrompe, como pedia a canção grega.
Péricles, o imprevidente, ainda que sábio estadista, o desesperado amante de Aspásia, ainda que racional dirigente político, foi sucessivamente traído, e sucessivamente o cidadão acreditou na sua cidade e nas suas leis. Os senhores da guerra que lhe sucederam roubaram o esplendor do governo de Péricles e preparam-na, com o princípio do fim da sua glória, para ser dominada. Mas o sistema político iria ser lapidado e renasceria pedindo sabedoria quando a sabedoria é necessária e soltando, preferencialmente em comunhão, a sua loucura quando esta irrompe, como pedia a canção grega.
Saudades, já, das análises no Bloguítica
Certamente que estou incomodada. Não gosto que Paulo Gorjão tenha terminado o seu Bloguítica. É inquietante esta perda de referência e de intuição na análise política. O poder fica menos escrutinado. Que pena.
Também hoje fiquei a conhecer mais dois blogues: o Alto Hama, do jornalista Orlando Castro e o A Escola de Ciência Política (via Revista de Teoria Política).
Fuxo e refluxo não se anulam.
Também hoje fiquei a conhecer mais dois blogues: o Alto Hama, do jornalista Orlando Castro e o A Escola de Ciência Política (via Revista de Teoria Política).
Fuxo e refluxo não se anulam.
sábado, setembro 29, 2007
valores universais
"Dear Minister
I am deeply concerned by the reports that hundreds of monks and other peaceful protesters, including well-known comedian Zargana and member of parliament Paik Ko have been detained. I strongly urge the Myanmar authorities to release them immediately and unconditionally, unless they are to be charged with recognizably criminal offences. I call on the authorities to ensure that, while they remain in custody, all the detainees are held only in official places of detention, and are given immediate access to lawyers, their families and any medical treatment they may require. I also call on the authorities to ensure that the detainees are not subjected to torture or any other ill-treatment. I call on the authorities to ensure that all people in Myanmar are able to peacefully exercise the rights to freedom of expression, association and assembly without fear of harassment, intimidation or arbitrary detention, in line with international human rights standards. "
Yours Sincerely
I am deeply concerned by the reports that hundreds of monks and other peaceful protesters, including well-known comedian Zargana and member of parliament Paik Ko have been detained. I strongly urge the Myanmar authorities to release them immediately and unconditionally, unless they are to be charged with recognizably criminal offences. I call on the authorities to ensure that, while they remain in custody, all the detainees are held only in official places of detention, and are given immediate access to lawyers, their families and any medical treatment they may require. I also call on the authorities to ensure that the detainees are not subjected to torture or any other ill-treatment. I call on the authorities to ensure that all people in Myanmar are able to peacefully exercise the rights to freedom of expression, association and assembly without fear of harassment, intimidation or arbitrary detention, in line with international human rights standards. "
Yours Sincerely
Os intelectuais e o liberalismo 5
“A mãe de família muçulmana que só pede paz e o militante que se coloca ao serviço da ideologia totalitária islamista receberam a mesma educação; isso quer dizer que os seus valores são idênticos?”(p. 57) pergunta R. Boudon, ao procurar com ela pôr em causa uma tese difundida de que o conceito de universalidade é um valor exclusivamente ocidental que teria, desde a antiguidade com Sócrates, sido imposto ao resto do mundo como norma. Esta e outras ideias, já que o anti-universalismo está para o culturalismo dominante em algumas análises sociológicas como a defesa das imposições sócio-sociais está para a caracterização do comportamento humano, têm resultados práticos nas teorias políticas. Boudon sabe que muitas das vezes estas teorias estão certíssimas nas seus diagnósticos acerca de realidades sociais e por isso, sendo úteis, e usadas com as melhores das intenções, a de lutar contra os abusos de poder ao lado dos mais desfavorecidos, acabam por ser tomadas como descrições verdadeiras da realidade, ou como mais próximas de uma verdade que afirmam não existir como valor em si.
Sendo a minha formação inicial em Filosofia eu própria refiz, como aluna e, mais tarde como professora, o caminho da história da razão ocidental. E eu própria tive que encontrar os autores que, na contemporaneidade, continuavam a argumentar contra os anunciantes da morte da filosofia, a filosofia como actividade intelectual pela qual se procura explicar as causas dos comportamentos e as crenças de cada um de nós a partir de razões passíveis de serem enunciadas. Fazendo-o sem deixar de ouvir os que defendem uma vertente mais estruturalista ou mais causalista ou mais marxista na compreensão da realidade.
Assim, reiterando as palavras de Max Weber, Boudon concluiu: “Se o actor social crê numa determinada verdade, isto é, regra geral, porque essa crença tem sentido para ele, porque tem razões para acreditar nela, e portanto essas razões representam a causa da sua crença”. p., 62.
É claro que aqueles que preferem teorias em que os conceitos de origem social, de natureza nacionalista, de género, enfim, se impõem como determinantes para a afirmação da personalidade e do comportamento, tenderão sempre a ver as manifestações populares, as escolhas dos outros quando não conformes às suas, como sinal evidente de que as pessoas não agem por razões mas por causas sociais e políticas que lhes podem provocar falsa consciência, os podem ludibriar e socializar a seu gosto.
É muito útil para a publicidade, e para a publicidade política em especial, que se pense assim. É o que permite alguém em certo momento de devario afirmar: "Eu posso vender um presidente tanto quanto um sabonete". E no entanto, este "assim" não é tudo o que se pode pensar sobre as adesões das pessoas. E é por isso que numa sociedade democrática quando alguém elege um grande estupor e não compreendemos as razões, simplificamos e falamos de eleitores estúpidos ou, se mais paternalistas, dizemo-los enganados, ou ingénuos. Em alguns casos pensamo-los mesmo incapazes de decidir por si, defendendo que a democracia não é para esses povos. É um clássico. Eu também acho que há razões estúpidas para se escolher alguém, e que há dominação ideológica. Não será de todo inútil procurar entender as relações de poder quando se dá uma formação ideológica. Não o discuto. Mas, como Boudon, sei que não se pode reduzir toda a análise a esta hipótese de trabalho. É-me muito útil dizer que as pessoas são fantoches enganadas por populistas quando estou zangada com as suas opções políticas e não quero pensar nas razões que as podem ter levado a preferir. É-me útil. É cómodo. Não me obriga a argumentar. Não tem que ser verdadeiro, porém.
É por isso que podemos continuar a pensar em valores universais, sem paralisarmos perante a diversidade de manifestações culturais, sociais ou económicas? Será uma das razões, sim.
Dá é muito mais trabalho ter que ouvir, estudar, compreender e explicar os outros. É mais fácil repetir até à insanidade lugares comuns que nos são cómodos.
Sendo a minha formação inicial em Filosofia eu própria refiz, como aluna e, mais tarde como professora, o caminho da história da razão ocidental. E eu própria tive que encontrar os autores que, na contemporaneidade, continuavam a argumentar contra os anunciantes da morte da filosofia, a filosofia como actividade intelectual pela qual se procura explicar as causas dos comportamentos e as crenças de cada um de nós a partir de razões passíveis de serem enunciadas. Fazendo-o sem deixar de ouvir os que defendem uma vertente mais estruturalista ou mais causalista ou mais marxista na compreensão da realidade.
Assim, reiterando as palavras de Max Weber, Boudon concluiu: “Se o actor social crê numa determinada verdade, isto é, regra geral, porque essa crença tem sentido para ele, porque tem razões para acreditar nela, e portanto essas razões representam a causa da sua crença”. p., 62.
É claro que aqueles que preferem teorias em que os conceitos de origem social, de natureza nacionalista, de género, enfim, se impõem como determinantes para a afirmação da personalidade e do comportamento, tenderão sempre a ver as manifestações populares, as escolhas dos outros quando não conformes às suas, como sinal evidente de que as pessoas não agem por razões mas por causas sociais e políticas que lhes podem provocar falsa consciência, os podem ludibriar e socializar a seu gosto.
É muito útil para a publicidade, e para a publicidade política em especial, que se pense assim. É o que permite alguém em certo momento de devario afirmar: "Eu posso vender um presidente tanto quanto um sabonete". E no entanto, este "assim" não é tudo o que se pode pensar sobre as adesões das pessoas. E é por isso que numa sociedade democrática quando alguém elege um grande estupor e não compreendemos as razões, simplificamos e falamos de eleitores estúpidos ou, se mais paternalistas, dizemo-los enganados, ou ingénuos. Em alguns casos pensamo-los mesmo incapazes de decidir por si, defendendo que a democracia não é para esses povos. É um clássico. Eu também acho que há razões estúpidas para se escolher alguém, e que há dominação ideológica. Não será de todo inútil procurar entender as relações de poder quando se dá uma formação ideológica. Não o discuto. Mas, como Boudon, sei que não se pode reduzir toda a análise a esta hipótese de trabalho. É-me muito útil dizer que as pessoas são fantoches enganadas por populistas quando estou zangada com as suas opções políticas e não quero pensar nas razões que as podem ter levado a preferir. É-me útil. É cómodo. Não me obriga a argumentar. Não tem que ser verdadeiro, porém.
É por isso que podemos continuar a pensar em valores universais, sem paralisarmos perante a diversidade de manifestações culturais, sociais ou económicas? Será uma das razões, sim.
Dá é muito mais trabalho ter que ouvir, estudar, compreender e explicar os outros. É mais fácil repetir até à insanidade lugares comuns que nos são cómodos.
sexta-feira, setembro 28, 2007
Os sapatos de António Lobo Antunes
Como brilham os sapatos de António Lobo Antunes na sua fotografia tirada para a Visão. Os sapatos que pertencem a um homem que é ou foi militar, penso. Ou as de um homem ainda vaidoso consigo próprio. E tem toda a razão para o ser, note-se. Só que entre os sapatos de um brilho perfeito e as palavras e a camisa meio amodorradas que ele escolheu usar há uma grande diferença, pois onde Lobo Antunes diz "Acho graça à maneira como, nas entrevistas, as pessoas se tentam compor, se penteiam para arranjar o cabelo, ajeitam a gravata, retocam a maquilhagem. Para quê? Para seduzir? Para tentar que gostem delas? Para fazer boa figura perante os leitores? Tudo isso já me é completamente indiferente", eu leio e digo: - Será ou talvez não.
Nada disto importa, claro e claro é, perante a sua escrita. Mas que os sapatos ali estão a provocá-lo, estão. Ou a mim.
Nada disto importa, claro e claro é, perante a sua escrita. Mas que os sapatos ali estão a provocá-lo, estão. Ou a mim.
Desde quarta-feira que ando a pensar na Clarinha. A Clarinha dizia-me, de dentro do seu corpo de uma beleza toda em filigrana, que só gostaria de se apaixonar por um homem que escrevesse sobre ela. Não sei o que eu, através do meu olhar lacustre e anguloso, lhe dizia, mas pressinto, conhecendo-me, que devo ter desejado que isso lhe acontecesse e terei certamente sorrido sem uma ponta de ironia pelo seu gosto a melodrama.
Ando a pensar desde quarta-feira na Clarinha por causa de uma notícia que li nessa manhã no jornal Público. O suicídio do casal André Gorz e Dorine. E sei que nesse dia longínquo estávamos a falar da existência um casal assim, de amor que ela pressentia existir em algum lado e que eu nem adivinhava então.
“Sur le papier, j’étais capable de montrer que l’amour est la fascination réciproque de deux sujets dans ce qu’ils ont de moins dicible, de moins socialisable, de réfractaire aux rôles et aux images d’eux-mêmes que la société leur impose, aux appartenances culturelles. Nous pouvions presque tout mettre en commun parce que nous n’avions rien au départ. Il suffisait que je consente à vivre ce que je vivais, à aimer plus que tout ton regard, ta voix, ton odeur, tes doigts fuselés, ta façon d’habiter ton corps pour que tout l’avenir s’offre à nous.”
André Gorz, Lettre à D.
Ando a pensar desde quarta-feira na Clarinha por causa de uma notícia que li nessa manhã no jornal Público. O suicídio do casal André Gorz e Dorine. E sei que nesse dia longínquo estávamos a falar da existência um casal assim, de amor que ela pressentia existir em algum lado e que eu nem adivinhava então.
“Sur le papier, j’étais capable de montrer que l’amour est la fascination réciproque de deux sujets dans ce qu’ils ont de moins dicible, de moins socialisable, de réfractaire aux rôles et aux images d’eux-mêmes que la société leur impose, aux appartenances culturelles. Nous pouvions presque tout mettre en commun parce que nous n’avions rien au départ. Il suffisait que je consente à vivre ce que je vivais, à aimer plus que tout ton regard, ta voix, ton odeur, tes doigts fuselés, ta façon d’habiter ton corps pour que tout l’avenir s’offre à nous.”
André Gorz, Lettre à D.
1,2,3, democracia mais uma vez.
Não compreendo duas ou três coisas que ouço por aí dizer a respeito das eleições directas no PSD :
1. A ideia de que estas eleições fazem mais mal que bem ao partido. Não vejo em que é que o processo electivo seja em que estrutura for, e por força de razão numa estrutura partidária, lhe possa fazer mal. As eleições são processos que sustentam o próprio processo de escolha democrática e mal andarão os partidos cujo secretário-geral seja preferencialmente eleito por manobras do aparelho e não por sufrágio dos seus militantes depois de uma campanha. A eleição não foi bem conduzida pelos candidatos? Paciência. Anote-se e vote-se em conformidade. Também há votos de protesto. É o que há, e será melhor saber como se comportam os candidatos em eleições, agora, do que descobri-lo, tarde de mais, nas legislativas. No PS a conquista das eleições por Sócrates ter-lhe-á dado uma legitimidade (política, sem descurar o seu reforço psicológico) acrescida no exercício das suas funções como primeiro-ministro. Obviamente isso não foi garantia de que ele seria um bom primeiro-ministro, mas foi garantia de que, pelo menos, sabe como convencer outrem a votar em si. E isto é o trampolim para o exercício do poder em democracia. E não é uma tarefa fácil. João Soares que o diga, ou Manuel Alegre.
2. A ideia, defendida ontem por Menezes, de que, depois das eleições, tudo o que se disse será eliminado como se por uma esponja, sendo então o momento de incluir e de se aceitar todos os adversários. Se as divergências fossem de ordem estratégica/ideológica faria sentido dizê-lo, mas os dois concorrentes acusaram-se mutuamente de faltas graves de carácter e, pior, de estarem a manipular dados e informações, o que é um caso para sanção disciplinar grave. Dizer que tudo se acalmará depois é não querer retirar consequências do que se afirmou, é reduzir tudo a um (mau) jogo de palavras. Desacredita quem proferiu as sentenças e quem delas foi acusado e não pode reagir com assertividade e exigindo reparação. É um mau hábito fingir que nada aconteceu e que ficamos todos amigos como dantes. Os partidos precisam de resolver crises e não de fingir que elas não existem.
Curiosa a analogia da iconoclasta Filomena Mónica ontem em comentário no Rádio Clube Português. Esta eleição lembra-lhe essas muitas outras eleições no século XIX, cheias de casos de “chapeladas eleitorais” e outras estórias de caciquismo e eleições viciadas. O que faz algum sentido num partido que se denomina como o mais português de Portugal, a comentadora o disse.
3. A ideia de que deve haver uma elevação especial no trato em campanhas entre adversários do mesmo partido para que não se ponha a unidade do mesmo em perigo. Sinceramente. Andámos tão ciosos a defender as realidades políticas dos outros países e quando a passamos a viver portas dentro comportamo-nos como vestais a guardar o fogo juvenil da nossa democracia. O único risco que um partido corre é de não ter vozes discordantes e candidatos dissemelhantes que elevem as discussões e o combate político pelos lugares. A democracia portuguesa pode não ter ganho muito com esta eleição, mas, sem ela, ainda ganhava menos. E alguma coisa os líderes futuros do PSD devem ter aprendido com a experiência. Espera-se. Que a mim só me interessa o futuro de Portugal e não o do PSD, entenda-se que não o confundo com o futuro dos partidos, e no entanto, não o confundindo, também não posso radicalizar na sua diferenciação. Não enquanto não houver uma democracia mais directa.
1. A ideia de que estas eleições fazem mais mal que bem ao partido. Não vejo em que é que o processo electivo seja em que estrutura for, e por força de razão numa estrutura partidária, lhe possa fazer mal. As eleições são processos que sustentam o próprio processo de escolha democrática e mal andarão os partidos cujo secretário-geral seja preferencialmente eleito por manobras do aparelho e não por sufrágio dos seus militantes depois de uma campanha. A eleição não foi bem conduzida pelos candidatos? Paciência. Anote-se e vote-se em conformidade. Também há votos de protesto. É o que há, e será melhor saber como se comportam os candidatos em eleições, agora, do que descobri-lo, tarde de mais, nas legislativas. No PS a conquista das eleições por Sócrates ter-lhe-á dado uma legitimidade (política, sem descurar o seu reforço psicológico) acrescida no exercício das suas funções como primeiro-ministro. Obviamente isso não foi garantia de que ele seria um bom primeiro-ministro, mas foi garantia de que, pelo menos, sabe como convencer outrem a votar em si. E isto é o trampolim para o exercício do poder em democracia. E não é uma tarefa fácil. João Soares que o diga, ou Manuel Alegre.
2. A ideia, defendida ontem por Menezes, de que, depois das eleições, tudo o que se disse será eliminado como se por uma esponja, sendo então o momento de incluir e de se aceitar todos os adversários. Se as divergências fossem de ordem estratégica/ideológica faria sentido dizê-lo, mas os dois concorrentes acusaram-se mutuamente de faltas graves de carácter e, pior, de estarem a manipular dados e informações, o que é um caso para sanção disciplinar grave. Dizer que tudo se acalmará depois é não querer retirar consequências do que se afirmou, é reduzir tudo a um (mau) jogo de palavras. Desacredita quem proferiu as sentenças e quem delas foi acusado e não pode reagir com assertividade e exigindo reparação. É um mau hábito fingir que nada aconteceu e que ficamos todos amigos como dantes. Os partidos precisam de resolver crises e não de fingir que elas não existem.
Curiosa a analogia da iconoclasta Filomena Mónica ontem em comentário no Rádio Clube Português. Esta eleição lembra-lhe essas muitas outras eleições no século XIX, cheias de casos de “chapeladas eleitorais” e outras estórias de caciquismo e eleições viciadas. O que faz algum sentido num partido que se denomina como o mais português de Portugal, a comentadora o disse.
3. A ideia de que deve haver uma elevação especial no trato em campanhas entre adversários do mesmo partido para que não se ponha a unidade do mesmo em perigo. Sinceramente. Andámos tão ciosos a defender as realidades políticas dos outros países e quando a passamos a viver portas dentro comportamo-nos como vestais a guardar o fogo juvenil da nossa democracia. O único risco que um partido corre é de não ter vozes discordantes e candidatos dissemelhantes que elevem as discussões e o combate político pelos lugares. A democracia portuguesa pode não ter ganho muito com esta eleição, mas, sem ela, ainda ganhava menos. E alguma coisa os líderes futuros do PSD devem ter aprendido com a experiência. Espera-se. Que a mim só me interessa o futuro de Portugal e não o do PSD, entenda-se que não o confundo com o futuro dos partidos, e no entanto, não o confundindo, também não posso radicalizar na sua diferenciação. Não enquanto não houver uma democracia mais directa.
quinta-feira, setembro 27, 2007
"All humans be free from killing and torturing"

Página editada a partir da original: The Independent
..
"Buddhist monks are chanting: "All humans be free from killing and torturing, Our compassion and love spread all over country" and "Peace on earth".
Sein Khaloke
..
"Now the junta is reducing the internet connection bandwidth and we have to wait for a long time to see a page. Security forces block the route of demonstrations. Yesterday, the junta told people in Rangoon and Mandalay not to leave their houses from 9pm to 5am. I think if the junta decides, they will cut off communication."
David, Rangoon
..
"Myanmar: China não condena ataques a monges" - Pergunto-me porquê, quais serão as intenções do igualmente "democrático" governo da China?
..
"A posição chinesa é semelhante à da Rússia, que qualificou os acontecimentos em Myanmar de "assunto interno" que não ameaça a "segurança regional e internacional"."
Pois, a China e a Rússia também têm muitos destes problemas ditos "internos", daí o medo.
quarta-feira, setembro 26, 2007
Os intelectuais e o liberalismo 4
Boudon não vai aprofundar na sua obra a origem histórica da designação de intelectuais, limita-se a dizer-nos que eles se dividem em três tipos distintos: os produtores de ideias, os mediadores de ideias e os consumidores de ideias. É para o nível dos produtores de ideias que ele vai orientar sua atenção, pois será por eles, claro?, que se determinam formas de compreender ou explicar a realidade. O que o leva a querer saber sobre o tipo de motivações que levam esses intelectuais ao seu trabalho de produtores de ideias. Serão movidos pelo interesse de descobrir a verdade? Do saber pelo saber? Ou será que têm outros interesses pessoais e profissionais menos científicos e que passam pela promoção da sua pessoa? R. Boudon encontra três tipos (outra vez esta divisão tripartida) de produtores de ideias: 1. Os “intelectuais que são animados pela libido sciendi.”, p.46. Isto é, os que trabalham no concerto de uma comunidade científica que se apresente como tendo interesse em produzir modelos de explicação eficazes sobre o objecto estudado; 2. Aqueles que “são militantes”, isto é, os que de forma directa ou indirecta procuram legitimar as suas pertenças ideológicas, culturais ou filosóficas, através das suas teorias. Como diz Boudon: “Na linguagem de Max Weber, estes militantes – no sentido muito lato em que me proponho tomar aqui a palavra – obedecem principalmente a uma ética da convicção”, p. 46; 3. O terceiro tipo define os intelectuais que estão interessados sobretudo em tornarem-se visíveis, em “passar na TV”.
Na sua obra de 1892*, Simmel, di-lo Boudon, terá escrito que não há intelectuais que se movam exclusivamente impelidos por uma busca da verdade, sendo que a causa principal da sua produção é sempre o desejo de visibilidade. Eu não conheço esta obra de Simmel. Boudon considera no entanto que este desejo pela visibilidade está muitas das vezes subordinado à actividade do intelectual quer em nome da libido sciendi, quer, também, à actividade em nome de uma ética da convicção. Por sua vez, um intelectual que regule a sua produção científica em nome de uma ética da convicção, em que passe a legitimar com o seu pensamento determinadas formas de pensar e agir contra outras, cai, muitas vezes, no erro grosseiro de tomar a sua verdade pela a verdade. Abandona a atitude que Weber diz caracterizar toda a verdadeira investigação científica: a de manter uma neutralidade axiológica, valorativa, acerca do objecto estudado. Isto pode acontecer igualmente nas ciências sociais ou naturais, acrescente-se.
Na sua obra de 1892*, Simmel, di-lo Boudon, terá escrito que não há intelectuais que se movam exclusivamente impelidos por uma busca da verdade, sendo que a causa principal da sua produção é sempre o desejo de visibilidade. Eu não conheço esta obra de Simmel. Boudon considera no entanto que este desejo pela visibilidade está muitas das vezes subordinado à actividade do intelectual quer em nome da libido sciendi, quer, também, à actividade em nome de uma ética da convicção. Por sua vez, um intelectual que regule a sua produção científica em nome de uma ética da convicção, em que passe a legitimar com o seu pensamento determinadas formas de pensar e agir contra outras, cai, muitas vezes, no erro grosseiro de tomar a sua verdade pela a verdade. Abandona a atitude que Weber diz caracterizar toda a verdadeira investigação científica: a de manter uma neutralidade axiológica, valorativa, acerca do objecto estudado. Isto pode acontecer igualmente nas ciências sociais ou naturais, acrescente-se.
Para Boudon, os intelectuais estão num mercado de ideias em que a procura é maior que a oferta. Os meios de comunicação, vorazes na procura de informação para preencher as suas 24 horas de emissão, recorrem frequentemente aos intelectuais para estes explicarem, analisarem ou contextualizarem aspectos da realidade social, política ou económica. Ora o que acontece é que intelectuais com mais sensibilidade ao tipo de interesses da opinião pública, ao que as pessoas têm como factos marcantes da sociedade, tenderão a dar resposta a esse interesse, mantendo um discurso que vai ao encontro do que as pessoas esperam ouvir, aumentando assim a sua presença nos órgãos de comunicação, com a consequente influência mediática daí proveniente e com o alargamento social do seu espaço de intervenção.
Ora se os fenómenos marcantes de uma sociedade se prenderem com as reais questões económicas e sociais que possam ter trazido crises, desequilíbrios graves e injustiças sociais, então esses factos tenderão a ser explicados facilmente como uma consequência do liberalismo, e este será rejeitado tanto pelo homem da rua como pelo intelectual na televisão. O intelectual não se esforçará em contrariar a ideia corrente, em procurar apresentar factos que corroborem a sua análise, procurará antes responder conformemente aquilo que ele percebe que as pessoas querem ouvir, dizendo não haver possibilidade de correcção social e económica dentro do quadro de pensamento económico liberal. O que, acrescento eu, é um erro que os próprios intelectuais orgânicos defensores do liberalismo deixam que ocorra, pela sua própria incapacidade de explicarem e/ou compreenderem eles próprios a natureza do liberalismo político, em primeiro lugar, filosófico, em segundo, e, para terminar, até económico. Porque dentro dos defensores do liberalismo económico o espectro alarga entre os que exigem uma regulação social que imponha estruturas que realizem um estado de justiça social e, aqueles outros, mais radicais, que apelam a uma total autonomia e responsabilização do indivíduo na sua relação com a actividade económica. Não se explicam bem, daí, entendo eu, a agressividade intelectual, legítima, dos iliberais.
Mas qual é a fonte dos pensamentos iliberais? Porque são eles aceites por uma maioria da população? As pessoas andarão todas enganadas? Mas então não é o próprio Boudon a reclamar por uma cultura do real? Estarão as pessoas todas formatadas pelos iliberiais, ou haverá razões pertinentes para o serem?
*Einleitung in die Moralwissenschaft, 2 volumes, Berlin: Hertz, 1892-3 [Introdução à Ciência da Ética]
terça-feira, setembro 25, 2007
Os intelectuais e o liberalismo 3
O princípio filosófico do liberalismo, o da autonomia e responsabilização individual, parte do pressuposto de que o seu humano é um ser racional, e que por isso as suas acções e paixões podem ser compreendidas e explicadas. As explicações que recorrem a causas não explicáveis não fazem parte deste universo teórico. Claro que isto é extremamente útil em termos políticos. Se admitirmos que todas as acções públicas de imposição de uma ordem social podem ser explicadas, estamos a inferir quer todas as acções devem ser explicadas perante os afectados por essas acções, não havendo aqui lugar a registos discursivos desculpabilizantes ou desresponsabilizantes.
Mas esta compreensão dos indivíduos e dos fenómenos enquadrados pelo modelo da psicologia clássica (que entendia o ser humano como essencialmente um ser racional) não restringirão a compreensão mais aprofundada da acção humana, nem sempre consciente, nem sempre racional? Assim o pensaram todos os investigadores que preferiram sempre explicar a acção do indivíduo a partir de categorias psicológicas, de estruturas sociais ou culturais que determinavam a acção individual. Por outro lado, a nível da análise social o que se ganha na procura de causas irracionais por contraponto à explicação racional? Se nos ativermos exclusivamente às causas racionais, alguma coisa de fundamental do indivíduo se poderá perder, mas se privilegiarmos as causas irracionais da acção, curto circuitamos a nossa análise social, ou, mais grave, bloqueamos a nossa acção cívica de participação política (pois se nos ativermos a analisar extensivamente as nossas intenções mais profundas, não agiremos ou exigiremos uma acção pautada por critérios de selecção racionais, explicáveis e autónomos). Daí que sublinhe estas palavras críticas de Boudon: “Continua-se a considerar que os comportamentos e as crenças dos homens são efeitos mais ou menos mecânicos do seu meio envolvente.”, p. 40.
Ora, Boudon reforça o interesse em manter os métodos de compreensão e análise da acção humana provenientes do modelo clássico de psicologia racional desde Aristóteles, como regra, por contraponto aos métodos utilizados contemporaneamente em investigação pelas Ciência Sociais, que adoptaram o método de análise dos construtivistas e dos culturalistas nas diferentes áreas de estudo, no seguimento dos métodos de investigação propostos no início do séc. XX por psicanalistas, behavioristas e marxistas. Salvaguardando o papel real que estes últimos tiveram na expansão do conhecimento e da compreensão do ser humano e do mundo, Boudon reclama pelo recolocar no centro das investigações das ciências sociais o papel do indivíduo entendido como sujeito autónomo, uma matriz de pensamento liberal, propondo reconfigurar as explicações positivistas, marxistas, estruturalistas ou psicanalíticas que recorrem a causas psicológicas ou sociais não racionais.
Pergunto eu, mas então estas visões científicas, estes modelos explicativos não respondem bem às investigações que são conduzidas no seu campo? Boudon responderá que sim. Que esses modelos explicativos respondem a procuras, mas acrescenta ele, essas teorias sendo úteis, não serão necessariamente verdadeiras e, para mais, há teóricos que não procuram tanto a verdade quanto procuram obter um determinado efeito político através das suas teorias. Certo. Mas a questão é: qual é a teoria que não provoca um efeito político? Não conheço. Mesmo a do senhor Boudon, escrita em nome da verdade. Senão, também, da utilidade? Reconheço no entanto haver diferenças ao nível dos métodos e das intenções entre uns e outros. Por isso qual será o próximo passo? Pensar sobre quem são os intelectuais e como investigam eles?
Mas esta compreensão dos indivíduos e dos fenómenos enquadrados pelo modelo da psicologia clássica (que entendia o ser humano como essencialmente um ser racional) não restringirão a compreensão mais aprofundada da acção humana, nem sempre consciente, nem sempre racional? Assim o pensaram todos os investigadores que preferiram sempre explicar a acção do indivíduo a partir de categorias psicológicas, de estruturas sociais ou culturais que determinavam a acção individual. Por outro lado, a nível da análise social o que se ganha na procura de causas irracionais por contraponto à explicação racional? Se nos ativermos exclusivamente às causas racionais, alguma coisa de fundamental do indivíduo se poderá perder, mas se privilegiarmos as causas irracionais da acção, curto circuitamos a nossa análise social, ou, mais grave, bloqueamos a nossa acção cívica de participação política (pois se nos ativermos a analisar extensivamente as nossas intenções mais profundas, não agiremos ou exigiremos uma acção pautada por critérios de selecção racionais, explicáveis e autónomos). Daí que sublinhe estas palavras críticas de Boudon: “Continua-se a considerar que os comportamentos e as crenças dos homens são efeitos mais ou menos mecânicos do seu meio envolvente.”, p. 40.
Ora, Boudon reforça o interesse em manter os métodos de compreensão e análise da acção humana provenientes do modelo clássico de psicologia racional desde Aristóteles, como regra, por contraponto aos métodos utilizados contemporaneamente em investigação pelas Ciência Sociais, que adoptaram o método de análise dos construtivistas e dos culturalistas nas diferentes áreas de estudo, no seguimento dos métodos de investigação propostos no início do séc. XX por psicanalistas, behavioristas e marxistas. Salvaguardando o papel real que estes últimos tiveram na expansão do conhecimento e da compreensão do ser humano e do mundo, Boudon reclama pelo recolocar no centro das investigações das ciências sociais o papel do indivíduo entendido como sujeito autónomo, uma matriz de pensamento liberal, propondo reconfigurar as explicações positivistas, marxistas, estruturalistas ou psicanalíticas que recorrem a causas psicológicas ou sociais não racionais.
Pergunto eu, mas então estas visões científicas, estes modelos explicativos não respondem bem às investigações que são conduzidas no seu campo? Boudon responderá que sim. Que esses modelos explicativos respondem a procuras, mas acrescenta ele, essas teorias sendo úteis, não serão necessariamente verdadeiras e, para mais, há teóricos que não procuram tanto a verdade quanto procuram obter um determinado efeito político através das suas teorias. Certo. Mas a questão é: qual é a teoria que não provoca um efeito político? Não conheço. Mesmo a do senhor Boudon, escrita em nome da verdade. Senão, também, da utilidade? Reconheço no entanto haver diferenças ao nível dos métodos e das intenções entre uns e outros. Por isso qual será o próximo passo? Pensar sobre quem são os intelectuais e como investigam eles?
segunda-feira, setembro 24, 2007
As palavras que eu gostava que os editores tivessem escrito quando publicaram notícias sobre o conteúdo do diário de uma mulher sob investigação.
Kate por Francisco José Viegas no JN.
"Um dos epicentros desta tragédia aconteceu, no entanto, quando a polícia resolveu apreender - dando-lhe existência - o diário de Kate McCann. No extraordinário mundo do segredo de justiça português há sempre formas de os documentos chegarem à imprensa para proteger um dos lados do conflito - porque se trata de um conflito entre duas trincheiras armadas da sua fé. Quando a imprensa veste a pele de moralista, faz figuras ridículas; ao tentar um assassinato de carácter na figura de Kate McCann, o retrato foi absurdo. Não ocorreu apenas nos jornais portugueses. Os ingleses, espanhóis, franceses e brasileiros, davam largas à sua capacidade de indignação subtil ao afirmarem que, preto no branco, no segredo do seu diário, aquela mãe achava que as crianças eram histéricas, que Maddie era hiperactiva e que o marido não ajudava a tratar dos gémeos. Daí se inferia, na alma popular incitada pelos jornais, que estava tudo escrito e que a polícia ia deitar a mão (com base em quê?) àquela mãe cruel. Ora, todas as mães chamaram histéricos aos seus filhos e todas já acharam que eles eram hiperactivos. Todas já acharam que os maridos não as ajudavam. Todas elas, em algum momento, pensaram na sua vida sem filhos. Todas elas têm vida para além dos filhos e nenhuma delas está exclusivamente destinada, como se fosse carne para canhão, à carreira de reprodutora, puericultora ou educadora de infância. O que os jornais quiseram fazer com a "caracterização psicológica" de Kate McCann a partir de fragmentos escolhidos do seu diário é, francamente, uma filha da putice. O leitor conhece a expressão."
"Um dos epicentros desta tragédia aconteceu, no entanto, quando a polícia resolveu apreender - dando-lhe existência - o diário de Kate McCann. No extraordinário mundo do segredo de justiça português há sempre formas de os documentos chegarem à imprensa para proteger um dos lados do conflito - porque se trata de um conflito entre duas trincheiras armadas da sua fé. Quando a imprensa veste a pele de moralista, faz figuras ridículas; ao tentar um assassinato de carácter na figura de Kate McCann, o retrato foi absurdo. Não ocorreu apenas nos jornais portugueses. Os ingleses, espanhóis, franceses e brasileiros, davam largas à sua capacidade de indignação subtil ao afirmarem que, preto no branco, no segredo do seu diário, aquela mãe achava que as crianças eram histéricas, que Maddie era hiperactiva e que o marido não ajudava a tratar dos gémeos. Daí se inferia, na alma popular incitada pelos jornais, que estava tudo escrito e que a polícia ia deitar a mão (com base em quê?) àquela mãe cruel. Ora, todas as mães chamaram histéricos aos seus filhos e todas já acharam que eles eram hiperactivos. Todas já acharam que os maridos não as ajudavam. Todas elas, em algum momento, pensaram na sua vida sem filhos. Todas elas têm vida para além dos filhos e nenhuma delas está exclusivamente destinada, como se fosse carne para canhão, à carreira de reprodutora, puericultora ou educadora de infância. O que os jornais quiseram fazer com a "caracterização psicológica" de Kate McCann a partir de fragmentos escolhidos do seu diário é, francamente, uma filha da putice. O leitor conhece a expressão."
Os intelectuais e o liberalismo 2
Quais foram então os caminhos que Boudon abriu para a questão que o inquietou, a saber, o antagonismo expresso dos intelectuais às ideias do liberalismo?
É claro que Boudon distingue o liberalismo filosófico do político e estes do liberalismo económico, porém, resume que qualquer destas esferas pode ser unificada sob a égide da ideia liberal que defende “que as entidades colectivas, as classes sociais, as nações, o Estado e os Partidos, etc., são constituídos por indivíduos: rejeita o holismo.”, p. 15. Esta identificação ideológica é curiosa e é uma identidade filosófica, é uma ideia ocidental que tem uma história que não exclui as pessoas que se dizem de esquerda, nem, por si, identifica imediatamente as pessoas ditas de direita. Aliás, ainda há poucas semanas, já não recordo em que jornal, o socialista Mário Soares reforçava a sua ideia de inequívoca adesão aos ideais filosóficos do liberalismo, refutando tão só as ideias do liberalismo económico. Esta não é uma contradição ideológica, não num socialista de matriz ocidental. E o contrário também é verdade. Quantos liberais económicos não se sentiriam profundamente perturbados na construção da sua identidade quando se reclamasse para eles uma defesa de valores, igulamente denominados de liberais em termos filosóficos, de construção de uma ordem social mais assente na ideia de indivíduo e no reforço da ideia de uma “sociedade composta por indivíduos que procuram maximizar o seu bem-estar”, p.18, mais do que na ideia de coesão à volta das normas de grupo, na tradição familiar ou social, por exemplo.
Boudon parte também da definição filosófica de liberalismo. É sobre esta corrente do pensamento que ele investiga movimentos de aceitação ou negação, sendo que por ela se afirma “o indivíduo tem a aspiração de dispor de uma autonomia tão ampla quanto possível e quer ser respeitado na sua dignidade na mesma medida em que respeita o próximo”, p. 14. Dito isto, porque será então, segundo Boudon, que os intelectuais dos anos 50 aos nossos dias se têm mostrado tão adversos a seguirem as ideias liberais?
Porque:
a) Os princípios filosóficos do liberalismo terão sido frequentemente violados pelos preconizadores de uma sociedade liberal, defraudando assim as expectativas de toda uma gente que via nesses princípios uma boa teoria para ser aplicada numa prática social de regulação da ordem pública, onde a individualidade não implicava a defesa de acção do mais egoísta e do mais forte a promover desigualdades sociais sem legitimidade funcional.
b) Os modelos explicativos da sociedade segundo a teoria marxista continuam a ser utilizados pelos intelectuais, porque continuam a dar respostas úteis quando se procura explicar a sociedade. Daí o recurso a termos como os de “classe” ou “luta de classes” mesmo por parte de académicos que não advogam o marxismo como ideologia política. São termos que se sedimentaram melhor se os compararmos com as explicações das representações da sociedade em torno de ideias como as de estratificação social por "tipos ideais", “estatuto” e “teias de estatuto” (Weber e Pareto).
Na verdade, digo eu, a explicação de Gramsci permite uma análise curiosa da sociedade nas suas relações comunicacionais de poder. É um modelo que tem como pertinência teórica procurar uma resposta interessante, e culturalmente forte, para a questão de saber como as ideias se formam, se divulgam e se institucionalizam, por exemplo. Este modelo assenta na divisão da sociedade em duas classes que se opõem: a dos que têm poder de tornar homogénea a sua cultura e a sua ideologia (os detentores do capital financeiro e/ou capital de conhecimento e informação) por contraponto à classe dos trabalhadores. Hoje seria uma divisão entre os que detêm o poder de informar e os que procuram, ou estão sujeitos, ao processo de informação (reinvenção da clássica luta entre a classe dominante e a classe dominada).
Para Boudon, este fascínio teórico pela “luta de classes” explica-se por “o marxismo ter dado uma aparência erudita, e com ela legitimidade, a um modelo conspirativo eterno: a teoria da conspiração (conspiracy theory) De acordo com esta teoria , todos os males que se podem observar nas sociedades seriam devidos a uma conspiração dos poderosos, que dissimulariam os seus desígnios debaixo de nobres intenções”., p. 25.
Este argumento, sedutor, peca, quanto a mim, do mesmo defeito que ele apontou aos argumentos marxistas para a definição de sociedade. Boufon fica seduzido pela ideia de que é o gosto popular por uma teoria da conspiração que promoveu tão grande concordância à teoria marxista, quando a prática filosófica revela que a origem, ainda que dubitativa, não parte senão de uma observação das reais condições de vida de uma sociedade altamente estratificada como era a do século XIX, para mais tendo Marx lido e procurado assimilar o modelo filosófico de Hegel, que não é, nunca foi, um teórico da conspiração, senão um sistémico à procura de uma explicação para os movimentos de transformação (para a dialéctica) dos processos naturais, sociais, históricos ou ideológicos.
O que os neo-marxistas terão feito com as ideias de Marx, na década de sessenta e setenta, ou que eles tenham enveredado por defenderem ideias que, ao seguirem nessa linha de uma popularmente atraente explicação assente numa teoria da conspiração entre classes, tivesse levado a generalização dos diagnósticos marxistas de uma eterna luta de classes a acontecer em todos os domínios sociais, também me parece uma conclusão exagerada. Pese embora eu não saiba como contra argumentar contra a ideia decorrente da anterior e que leva Boudon a escrever que “A ideia de que a cultura é um veículo da reprodução das classes assumiu o estatuto de ideia feita. E continua a impregnar fortemente os meios do ensino e da cultura /Harouel, 1998 (1994)\”, p.27.
Mas se a cultura não é , de alguma forma, uma reprodução das classes, é o quê? E como se chega a essas conclusões? Com que métodos e assente em que teorias explicativas?
É claro que Boudon distingue o liberalismo filosófico do político e estes do liberalismo económico, porém, resume que qualquer destas esferas pode ser unificada sob a égide da ideia liberal que defende “que as entidades colectivas, as classes sociais, as nações, o Estado e os Partidos, etc., são constituídos por indivíduos: rejeita o holismo.”, p. 15. Esta identificação ideológica é curiosa e é uma identidade filosófica, é uma ideia ocidental que tem uma história que não exclui as pessoas que se dizem de esquerda, nem, por si, identifica imediatamente as pessoas ditas de direita. Aliás, ainda há poucas semanas, já não recordo em que jornal, o socialista Mário Soares reforçava a sua ideia de inequívoca adesão aos ideais filosóficos do liberalismo, refutando tão só as ideias do liberalismo económico. Esta não é uma contradição ideológica, não num socialista de matriz ocidental. E o contrário também é verdade. Quantos liberais económicos não se sentiriam profundamente perturbados na construção da sua identidade quando se reclamasse para eles uma defesa de valores, igulamente denominados de liberais em termos filosóficos, de construção de uma ordem social mais assente na ideia de indivíduo e no reforço da ideia de uma “sociedade composta por indivíduos que procuram maximizar o seu bem-estar”, p.18, mais do que na ideia de coesão à volta das normas de grupo, na tradição familiar ou social, por exemplo.
Boudon parte também da definição filosófica de liberalismo. É sobre esta corrente do pensamento que ele investiga movimentos de aceitação ou negação, sendo que por ela se afirma “o indivíduo tem a aspiração de dispor de uma autonomia tão ampla quanto possível e quer ser respeitado na sua dignidade na mesma medida em que respeita o próximo”, p. 14. Dito isto, porque será então, segundo Boudon, que os intelectuais dos anos 50 aos nossos dias se têm mostrado tão adversos a seguirem as ideias liberais?
Porque:
a) Os princípios filosóficos do liberalismo terão sido frequentemente violados pelos preconizadores de uma sociedade liberal, defraudando assim as expectativas de toda uma gente que via nesses princípios uma boa teoria para ser aplicada numa prática social de regulação da ordem pública, onde a individualidade não implicava a defesa de acção do mais egoísta e do mais forte a promover desigualdades sociais sem legitimidade funcional.
b) Os modelos explicativos da sociedade segundo a teoria marxista continuam a ser utilizados pelos intelectuais, porque continuam a dar respostas úteis quando se procura explicar a sociedade. Daí o recurso a termos como os de “classe” ou “luta de classes” mesmo por parte de académicos que não advogam o marxismo como ideologia política. São termos que se sedimentaram melhor se os compararmos com as explicações das representações da sociedade em torno de ideias como as de estratificação social por "tipos ideais", “estatuto” e “teias de estatuto” (Weber e Pareto).
Na verdade, digo eu, a explicação de Gramsci permite uma análise curiosa da sociedade nas suas relações comunicacionais de poder. É um modelo que tem como pertinência teórica procurar uma resposta interessante, e culturalmente forte, para a questão de saber como as ideias se formam, se divulgam e se institucionalizam, por exemplo. Este modelo assenta na divisão da sociedade em duas classes que se opõem: a dos que têm poder de tornar homogénea a sua cultura e a sua ideologia (os detentores do capital financeiro e/ou capital de conhecimento e informação) por contraponto à classe dos trabalhadores. Hoje seria uma divisão entre os que detêm o poder de informar e os que procuram, ou estão sujeitos, ao processo de informação (reinvenção da clássica luta entre a classe dominante e a classe dominada).
Para Boudon, este fascínio teórico pela “luta de classes” explica-se por “o marxismo ter dado uma aparência erudita, e com ela legitimidade, a um modelo conspirativo eterno: a teoria da conspiração (conspiracy theory) De acordo com esta teoria , todos os males que se podem observar nas sociedades seriam devidos a uma conspiração dos poderosos, que dissimulariam os seus desígnios debaixo de nobres intenções”., p. 25.
Este argumento, sedutor, peca, quanto a mim, do mesmo defeito que ele apontou aos argumentos marxistas para a definição de sociedade. Boufon fica seduzido pela ideia de que é o gosto popular por uma teoria da conspiração que promoveu tão grande concordância à teoria marxista, quando a prática filosófica revela que a origem, ainda que dubitativa, não parte senão de uma observação das reais condições de vida de uma sociedade altamente estratificada como era a do século XIX, para mais tendo Marx lido e procurado assimilar o modelo filosófico de Hegel, que não é, nunca foi, um teórico da conspiração, senão um sistémico à procura de uma explicação para os movimentos de transformação (para a dialéctica) dos processos naturais, sociais, históricos ou ideológicos.
O que os neo-marxistas terão feito com as ideias de Marx, na década de sessenta e setenta, ou que eles tenham enveredado por defenderem ideias que, ao seguirem nessa linha de uma popularmente atraente explicação assente numa teoria da conspiração entre classes, tivesse levado a generalização dos diagnósticos marxistas de uma eterna luta de classes a acontecer em todos os domínios sociais, também me parece uma conclusão exagerada. Pese embora eu não saiba como contra argumentar contra a ideia decorrente da anterior e que leva Boudon a escrever que “A ideia de que a cultura é um veículo da reprodução das classes assumiu o estatuto de ideia feita. E continua a impregnar fortemente os meios do ensino e da cultura /Harouel, 1998 (1994)\”, p.27.
Mas se a cultura não é , de alguma forma, uma reprodução das classes, é o quê? E como se chega a essas conclusões? Com que métodos e assente em que teorias explicativas?
quinta-feira, setembro 20, 2007
Os intelectuais e o liberalismo 1
Raymond Boudon parte do pressuposto que eu considero correcto ao analisar o seguinte problema: porque razão a maior parte dos intelectuais ( classe que ele divide os produtores de ideias, os consumidores de ideias ou os mediadores de ideias) atacam o liberalismo? E o pressuposto de que o autor parte é de que há razões cognitivas que expliquem essa opção ideológica, logo há que identificá-las e sistematizá-las. Convenhamos, é um progresso relativamente às análises que nos dizem que um intelectual é por força da razão um anti-liberal porque é… uma pessoa inteligente ou aquela outra explicação que advoga que o intelectual defende ideia iliberais porque é um ressentido economicamente, isto é, não recebe o dinheiro suficiente pelo seu trabalho, daí a reacção negativa ( ideia à senhor Nozick!). Estas duas espécies de resposta bloqueiam a argumentação, há que ir por outros caminhos. Boudon fê-lo.
Birmânia
"Na Birmânia a esperança começa a sair do ponto morto: "Milhares de bonzos de vários pagodes estão a manifestar-se nas ruas em protesto contra a junta militarl" [The Guardian]; "Os sacerdotes budistas, vestidos com as habituais túnicas avermelhadas e com o crânio reluzente ao sol implacável de Rangoon, marcham em longas colunas silenciosas pelas ruas onde são ladeados por milhares de laicos que os aplaudem. Os bonzos mostram à sua maneira tranquila e disciplinada que reprovam o modo como o regime militar comanda o país há 45 anos. O acto é simbólico, mas extraordinariamente poderoso neste país fechado, com 60 milhões de habitantes impregnados pelo budismo" [Mas Constant, repórter do Le Temps de Genéve].
(...)
"Estes tiranos que se impõem através do terror estão a ser abalados por alguns bravos. Infelizmente, o mundo permanece mudo. Há declarações de preocupação, apenas isso. É absurdo o mito de que a junta militar é insensível a pressões. Importa agir, com a União Europeia e a ONU à cabeça. Para começar, impor prazo para libertação de presos políticos. Se não cumprirem, aplicar-lhes sanções económicas. Não podemos continuar a abandonar o povo da Birmânia" [The Independent].
Seleccção de notícias sobre Myanmar (a Birmânia) por Sena Santos no Diário de Notícias on line
quarta-feira, setembro 19, 2007
Caracóis e imperiais bem geladas aqui para esta mesa, se faz favor.
Ando há semanas para escrever sobre um, ou dois ou mesmo três livros.
Li um livro nas férias do verão. Um livro pequenino que começava com uma pergunta. É, como eu gosto.
Ando há semanas também para falar das exposições sobre comunicação política que ouvi e registei na Universidade do Minho. Por isso, ando há semanas a tentar assestar os meus neurónios para aquilo que é e não para aquilo que eu julgo que deve ser. Nas cidades como nos sistemas institucionais, nas pessoas como nas casas.
Não vou falar dos cochichos e sorrisos larvares, a roçar o esgar, dos secretários de estado da Educação deste meu país durante um programa de debate na televisão, assim como assim entre as atitudes e comportamentos de indisciplina deste meu ministério e a atitude leviana do Ministro dos Negócios francês a falar de guerra eu aguento melhor com os nossos meninos tonecas. É o fado. E não vou falar do estado do sistema de educação no que à ausência de ideias, uma que fosse, para orientar o trabalho de formação da identidade do cidadão. Não, o ministério comporta-se como associação patronal que exige números para exportação e há-de atingi-los, e havemos de figurar nos relatórios da OCDE em lugares mais convenientes. E alguma coisa tinha que ser feita, não digo o contrário. Não vou falar disto. Nem vou dizer que nunca o ministério da educação me pareceu tão bem guardado com a duplicação de forças de segurança à porta, ou será tão acossado? Estamos todos a atingir o zénite educativo e não nos sentimos agradecidos, ingratos que somos. Não vou falar disto. Dos horários absurdos daqueles alunos que irão fazer em dois anos o ensino básico obrigatório, ou da multiplicação de cursos e cursinhos em cada Escola, nem da falsidade de se afirmar que fecharam escolas sem condições, ou que agora é que os professores estão a ser avaliados adequadamente, enfim. Nem daquilo, do debate dos pretendentes a líderes do maior partido de oposição. É porque se começar a falar sei que vou começar a defender mudanças de regime e outros temas quejandos que não domino a não ser com a emoção.
Vou falar de um livro, pequenito, que eu li nas férias. É um livro de Raymond Boudon. Não conhecia o autor de lado nenhum quando comprei o livro. Comprei o livro porque depois do título me chamar a atenção, a tabela de conteúdos me convenceu. E gostei de conhecer o senhor Boudon. É um francês que escreve sobre política e filosofia com a simplicidade de exposição de ideias anglo-saxónica, mas sem descurar a comparação com a filosofia continental. Mais abrangente, desde logo. Não concordo com tudo o que o filósofo/sociólogo escreveu, mas aprendi com ele, e, sobretudo, considero que ele procurou claramente responder a uma pergunta fundamental daquelas que cabe no objectivo mais vasto que é o de sabermos como se formam as nossas crenças/atitudes, do ponto de vista de uma sociologia das ideias, vamos lá, que nem sabia que esta área académica existia e já estou convicta da sua necessidade absoluta. Utilizando na sua análise a perspectiva da racionalidade cognitiva, e não a psicológica ou a de determinismo social, por exemplo. Método mais próximo do da filosofia, portanto. O livro intitula-se Os intelectuais e o liberalismo, e começa com uma pergunta: porque é que os intelectuais, entenda-se os produtores de ideias (ena, começamos logo com um vocábulo marxista a assinalar o trabalho do intelectual), na sua grande maioria, recusam o liberalismo?
Li um livro nas férias do verão. Um livro pequenino que começava com uma pergunta. É, como eu gosto.
Ando há semanas também para falar das exposições sobre comunicação política que ouvi e registei na Universidade do Minho. Por isso, ando há semanas a tentar assestar os meus neurónios para aquilo que é e não para aquilo que eu julgo que deve ser. Nas cidades como nos sistemas institucionais, nas pessoas como nas casas.
Não vou falar dos cochichos e sorrisos larvares, a roçar o esgar, dos secretários de estado da Educação deste meu país durante um programa de debate na televisão, assim como assim entre as atitudes e comportamentos de indisciplina deste meu ministério e a atitude leviana do Ministro dos Negócios francês a falar de guerra eu aguento melhor com os nossos meninos tonecas. É o fado. E não vou falar do estado do sistema de educação no que à ausência de ideias, uma que fosse, para orientar o trabalho de formação da identidade do cidadão. Não, o ministério comporta-se como associação patronal que exige números para exportação e há-de atingi-los, e havemos de figurar nos relatórios da OCDE em lugares mais convenientes. E alguma coisa tinha que ser feita, não digo o contrário. Não vou falar disto. Nem vou dizer que nunca o ministério da educação me pareceu tão bem guardado com a duplicação de forças de segurança à porta, ou será tão acossado? Estamos todos a atingir o zénite educativo e não nos sentimos agradecidos, ingratos que somos. Não vou falar disto. Dos horários absurdos daqueles alunos que irão fazer em dois anos o ensino básico obrigatório, ou da multiplicação de cursos e cursinhos em cada Escola, nem da falsidade de se afirmar que fecharam escolas sem condições, ou que agora é que os professores estão a ser avaliados adequadamente, enfim. Nem daquilo, do debate dos pretendentes a líderes do maior partido de oposição. É porque se começar a falar sei que vou começar a defender mudanças de regime e outros temas quejandos que não domino a não ser com a emoção.
Vou falar de um livro, pequenito, que eu li nas férias. É um livro de Raymond Boudon. Não conhecia o autor de lado nenhum quando comprei o livro. Comprei o livro porque depois do título me chamar a atenção, a tabela de conteúdos me convenceu. E gostei de conhecer o senhor Boudon. É um francês que escreve sobre política e filosofia com a simplicidade de exposição de ideias anglo-saxónica, mas sem descurar a comparação com a filosofia continental. Mais abrangente, desde logo. Não concordo com tudo o que o filósofo/sociólogo escreveu, mas aprendi com ele, e, sobretudo, considero que ele procurou claramente responder a uma pergunta fundamental daquelas que cabe no objectivo mais vasto que é o de sabermos como se formam as nossas crenças/atitudes, do ponto de vista de uma sociologia das ideias, vamos lá, que nem sabia que esta área académica existia e já estou convicta da sua necessidade absoluta. Utilizando na sua análise a perspectiva da racionalidade cognitiva, e não a psicológica ou a de determinismo social, por exemplo. Método mais próximo do da filosofia, portanto. O livro intitula-se Os intelectuais e o liberalismo, e começa com uma pergunta: porque é que os intelectuais, entenda-se os produtores de ideias (ena, começamos logo com um vocábulo marxista a assinalar o trabalho do intelectual), na sua grande maioria, recusam o liberalismo?
Será? Porquê, então? Ou, porque não?
segunda-feira, setembro 17, 2007
Lista lusófona de blogs de pesquisadores em comunicação
Do Brasil vem o trabalho de listar, e o interesse em divulgar, os blogs de investigadores na área das Ciências da Comunicação. A ideia foi de Rogério Christofoletti que assim apresenta neste seu directório uma lista lusófona de blogs de pesquisadores em comunicação, lista ainda em aberto, sob o título Monitorando. Uma boa ideia.
A investigação científica precisa de comunidade crítica que se conheça e se confronte no plano das ideias, dos métodos e das provas, em espaço público, pese embora muitos desses blogs não serem espaços de exclusiva intervenção académica dos investigadores seus titulares.
A investigação científica precisa de comunidade crítica que se conheça e se confronte no plano das ideias, dos métodos e das provas, em espaço público, pese embora muitos desses blogs não serem espaços de exclusiva intervenção académica dos investigadores seus titulares.
domingo, setembro 16, 2007
sábado, setembro 15, 2007
palavras
Há certas palavras que eu escolho, certas palavras que eu alinho, que têm o sentido de criaturas lanzudas enredadas sobre si próprias, com um efeito de badalo acrescido. Servem para me avisar onde é que eu estou. Palavras de maiúscula civilizadora: liberdade, igualdade, verdade, justiça, modernidade, universalidade, pátria, solidariedade, individualismo, democracia, filosofia. Palavras públicas, que sobre as outras talvez espere uma outra história. Que absurdo.
Mas as palavras são a minha dificuldade em pensar.
Sou impelida para certas palavras como as ovelhas umas de encontro às outras quando faz calor. Podemos pensar na razão porque é que criaturas cheias de lã, a arfarem sob um sol escaldante, não se afastam umas das outras e procuram uma sombra. Não as que eu conheço. Elas põem a cabeça junto ao chão e apertam-se umas contra as outras. As criaturas, e as palavras que eu conheço. Que absurdo. Ainda se eu finalmente aprendesse, ou soubesse para além desta música nas palavras que me comove mas não se pensa.
Mas as palavras são a minha dificuldade em pensar.
Sou impelida para certas palavras como as ovelhas umas de encontro às outras quando faz calor. Podemos pensar na razão porque é que criaturas cheias de lã, a arfarem sob um sol escaldante, não se afastam umas das outras e procuram uma sombra. Não as que eu conheço. Elas põem a cabeça junto ao chão e apertam-se umas contra as outras. As criaturas, e as palavras que eu conheço. Que absurdo. Ainda se eu finalmente aprendesse, ou soubesse para além desta música nas palavras que me comove mas não se pensa.
quinta-feira, setembro 13, 2007
Dalai Lama e o perecível
Um dia todos os governos hão-de mudar. O governo português há-de mudar. O governo chinês há-de mudar. E um dia há-de mudar até o regime político chinês. O Dalai Lama há-de ficar. O Tibete há-de ficar. As formas perecíveis têm toda a força do presente, mas o presente não é todo o tempo da vida, nem encerra nele a compreensão de todas as razões de um Estado. Daí o sorriso deste Dalai Lama, julgo.
terça-feira, setembro 11, 2007
as datas
Um dia vamos ter que largar a efeméride do 11 de Setembro de 2001. Não porque essa data não seja reconhecível na história da barbárie universal, mas porque ficarmos agarrada a ela nos vai levar de volta a um tempo civilizacional anacrónico, de más decisões políticas, de falsas explicações e de produção de deficiente informação jornalística que enquadrou as atitudes de uma administração, e tudo isso a partir de razões baseadas no desejo de acreditar e de defender uma ideia de pátria entendida como superior e única, quando não passou da defesa de uma parcela da ideia que de pátria se pode ter entre outras.
Um dia vamos ter que largar o dia 11 de Setembro de 2001 porque crescer implica olhar o dia 12 de Setembro. Há que evitar que o dia 11 mantenha como reféns do medo os cidadãos americanos e os do resto do mundo, reféns de uma ideia errada do estado da nação e dessa nação no mundo. O medo do que se passou no dia 11 de Setembro de 2001 já proporcionou muitas e questionáveis vitórias políticas e já determinou muitas e questionáveis decisões políticas. Cidadãos aterrorizados não são cidadãos livres de decidir. É como na vida pessoal. Um dia temos que deixar partir os nossos mortos e celebrar a vida como ela se nos apresenta no presente e pensando no melhor futuro para os que cá estão. E quem confunde esta atitude com o esquecimento é porque não sabe tudo.
E não me venham dizer que quem esquece a história está condenado a repeti-la no futuro, ou algo assim parecido. Estaline era um profundo e amantíssimo conhecedor da história da Rússia, e realmente, no entanto, de certa forma procurou ainda repeti-la. Procurou estar à altura dela quando ela lhe parecu maior, elevando-se em aparatos de violenta grandeza por uma ideia política e social que ombrearia com com outras ideias políticas passadas, à custa do próprio povo a quem essa ideia devia servir. Como no passado se fizera. Há que procurar procedimentos novos para realidades novas.
Um dia vamos ter que largar o dia 11 de Setembro de 2001 porque crescer implica olhar o dia 12 de Setembro. Há que evitar que o dia 11 mantenha como reféns do medo os cidadãos americanos e os do resto do mundo, reféns de uma ideia errada do estado da nação e dessa nação no mundo. O medo do que se passou no dia 11 de Setembro de 2001 já proporcionou muitas e questionáveis vitórias políticas e já determinou muitas e questionáveis decisões políticas. Cidadãos aterrorizados não são cidadãos livres de decidir. É como na vida pessoal. Um dia temos que deixar partir os nossos mortos e celebrar a vida como ela se nos apresenta no presente e pensando no melhor futuro para os que cá estão. E quem confunde esta atitude com o esquecimento é porque não sabe tudo.
E não me venham dizer que quem esquece a história está condenado a repeti-la no futuro, ou algo assim parecido. Estaline era um profundo e amantíssimo conhecedor da história da Rússia, e realmente, no entanto, de certa forma procurou ainda repeti-la. Procurou estar à altura dela quando ela lhe parecu maior, elevando-se em aparatos de violenta grandeza por uma ideia política e social que ombrearia com com outras ideias políticas passadas, à custa do próprio povo a quem essa ideia devia servir. Como no passado se fizera. Há que procurar procedimentos novos para realidades novas.
Madeleine é o seu nome 2
"Of course, the McCanns have many supporters. But some of us scribblers are well aware that there is also a large and punitive section of the public that has never liked the McCanns. They don’t like their looks, their class, their eloquence. And now the air is full of “I thought they were too good to be true”.
It’s all rubbish. There are always anomalies that can be exploited, sometimes for unconscious reasons. But Shakespeare wrote Hamlet, you can never stop misjudgments being made when tackling terrorists, and no one (bar the abductor or killer and perhaps the police) has the slightest notion what happened to Madeleine McCann. "
What links Shakespeare and the McCanns?
David Aaronovitch in Times on line
Comunicar factos e analisar factos é o que podemos pedir a um jornalismo sério e a uma investigação policial séria. O resto pode ser boa, ou muito má, literatura. Mas o jornalismo português fica prisioneiro dessa arcaica forma de comunicar que as estruturas judiciais em Portugal acumulam de um tempo de exacerbado controlo da palavra que só devia ser enunciada pelos executantes maiores do ritual, sem a deixarem cair em praça pública. Sempre foi uma ilusão essa espécie de círculo mágico onde se detém o poder de julgar, mas em tempos de liberdade de imprensa e de tempos onde o acesso e o interesse pela imprensa se generalizou exponencialmente, essa ilusão de controlo torna-se patética. Daí que para alimentar a sede de informação se comece a inventar. É inevitável, porque corresponde a um excesso de procura sem que haja a equilibrada oferta de qualidade. Perdemos todos com os maus processos de comunicação usados pelas instituições.
It’s all rubbish. There are always anomalies that can be exploited, sometimes for unconscious reasons. But Shakespeare wrote Hamlet, you can never stop misjudgments being made when tackling terrorists, and no one (bar the abductor or killer and perhaps the police) has the slightest notion what happened to Madeleine McCann. "
What links Shakespeare and the McCanns?
David Aaronovitch in Times on line
Comunicar factos e analisar factos é o que podemos pedir a um jornalismo sério e a uma investigação policial séria. O resto pode ser boa, ou muito má, literatura. Mas o jornalismo português fica prisioneiro dessa arcaica forma de comunicar que as estruturas judiciais em Portugal acumulam de um tempo de exacerbado controlo da palavra que só devia ser enunciada pelos executantes maiores do ritual, sem a deixarem cair em praça pública. Sempre foi uma ilusão essa espécie de círculo mágico onde se detém o poder de julgar, mas em tempos de liberdade de imprensa e de tempos onde o acesso e o interesse pela imprensa se generalizou exponencialmente, essa ilusão de controlo torna-se patética. Daí que para alimentar a sede de informação se comece a inventar. É inevitável, porque corresponde a um excesso de procura sem que haja a equilibrada oferta de qualidade. Perdemos todos com os maus processos de comunicação usados pelas instituições.
segunda-feira, setembro 10, 2007
Universidade do Minho 1
Do Minho vem fresquinho o estouvado vinho verde, a boa comida que finaliza cheia de doces pesados de doce e de sabor, um património arquitectónico inolvidável e uma história de levar em ombros.
os espaços urbanos e as pessoas
Há cidades que merecem os cidadãos que nelas habitam. Há cidades onde eu me imagino estar com aqueles de quem gosto, ali, em casa. Tenho uma mão cheia de cidades dessas. Braga é uma delas.
Madeleine é o seu nome
A nós portugueses deve-nos interessar: 1. O destino de uma criança desaparecida qualquer que ela seja; 2. Os correctos e inquestionáveis procedimentos de investigação de crimes de rapto ou de assassínio nas primeiras horas do acontecimento; 3. A capacidade de uma investigação policial ser conduzida com rigor científico e com a justeza legal mas sem descurar a comunicação com os familiares da vítima e, simultaneamente, com a sociedade.
Se a procura por Madeleine ajudar a polícia portuguesa a melhorar as suas competências comunicacionais e forenses, e se a opinião pública mundial compreender que muita coisa há que mudar ao nível da distribuição e aplicação de meios policiais, científicos e jurídicos que ajudem a combater os crimes contra crianças, então o nome dela não terá sido proferido apenas para ajudar a vender especulação sob a forma de tragédia contemporânea.
Se a procura por Madeleine ajudar a polícia portuguesa a melhorar as suas competências comunicacionais e forenses, e se a opinião pública mundial compreender que muita coisa há que mudar ao nível da distribuição e aplicação de meios policiais, científicos e jurídicos que ajudem a combater os crimes contra crianças, então o nome dela não terá sido proferido apenas para ajudar a vender especulação sob a forma de tragédia contemporânea.
quarta-feira, setembro 05, 2007
uma paixão civilizacional e uma opinião a discutir
"The (democratic) media and human rights
As it is, in recent years, the human rights dimension has become more pronounced
as a consideration by the media. The amount of coverage of human rights issues in
the media is likely to continue to rise. For similar reasons, too, there may be higher
expectations about the precision of that coverage, and the quality of that
transmission. Those expectations (e.g., separating systematically editorialising and
news-reporting, dealing with the velocity of coverage) are crucial because although it
is not necessarily more important than other forms of information, information on
human rights has specific characteristics. Similarly, since human rights information is
subject to constant struggles in the public sphere, the media stand at the centre of a
highly political process, which has to be understood in terms of a production cycle influenced by several actors (governments, NGOs, public relations firms, other media). Too, certain places have a more powerful influence on this process than others do. Influence tends to be concentrated in Northern capitals where powerful governments and influential media organisations are located.
8. In this evolution, two issues stand out. The first concerns the nature and scope of
the media coverage of human rights, and the second its quality. Although journalists
have expanded coverage of human rights into new areas (e.g., coverage of the notion
of universal jurisdiction in the aftermath of the arrest of Augusto Pinochet) — a
positive development that ought to be noted — a large number of stories that are
about human rights remain underplayed by the media (for instance, the effects of the
economic embargo on Iraq continue to be covered most of the time as a political,
diplomatic or military story rather than a human rights one). Moreover, it is difficult
to estimate whether the increase in coverage of human rights in conflict has been to
the detriment of coverage of human rights issues in less visible, slow or protracted
situations. Human rights are still taken largely to mean political and civil rights, and
1 This evolution seems to be slowing down since the September 11, 2001 attacks on the United States and their aftermath. For a full discussion of this issue, see International Council on Human Rights Policy, Human Rights, after September 11, Geneva: ICHRP, 2002.
6
economic, social and cultural rights remain absent from media coverage or
underreported.
9. Secondly, how well the media cover, explicate and analyse the human rights
apparatus is less apparent. Data on human rights violations and issues are not
lacking, but the impact of this information on the public is not as great as human
rights activists expect. Consequently, the media miss human rights stories because
they do not pay proper attention to human rights per se and because of inadequate
understanding of the material they are covering. The media also miss the context of
human rights stories. Hence, the professional value of the reporting is diminished by
these shortcomings."
THE MEDIA IN DEMOCRACIES: ROLE,
RESPONSIBILITIES AND HUMAN RIGHTS
ISSUES
Mohammad-Mahmoud Ould
Mohamedou
As it is, in recent years, the human rights dimension has become more pronounced
as a consideration by the media. The amount of coverage of human rights issues in
the media is likely to continue to rise. For similar reasons, too, there may be higher
expectations about the precision of that coverage, and the quality of that
transmission. Those expectations (e.g., separating systematically editorialising and
news-reporting, dealing with the velocity of coverage) are crucial because although it
is not necessarily more important than other forms of information, information on
human rights has specific characteristics. Similarly, since human rights information is
subject to constant struggles in the public sphere, the media stand at the centre of a
highly political process, which has to be understood in terms of a production cycle influenced by several actors (governments, NGOs, public relations firms, other media). Too, certain places have a more powerful influence on this process than others do. Influence tends to be concentrated in Northern capitals where powerful governments and influential media organisations are located.
8. In this evolution, two issues stand out. The first concerns the nature and scope of
the media coverage of human rights, and the second its quality. Although journalists
have expanded coverage of human rights into new areas (e.g., coverage of the notion
of universal jurisdiction in the aftermath of the arrest of Augusto Pinochet) — a
positive development that ought to be noted — a large number of stories that are
about human rights remain underplayed by the media (for instance, the effects of the
economic embargo on Iraq continue to be covered most of the time as a political,
diplomatic or military story rather than a human rights one). Moreover, it is difficult
to estimate whether the increase in coverage of human rights in conflict has been to
the detriment of coverage of human rights issues in less visible, slow or protracted
situations. Human rights are still taken largely to mean political and civil rights, and
1 This evolution seems to be slowing down since the September 11, 2001 attacks on the United States and their aftermath. For a full discussion of this issue, see International Council on Human Rights Policy, Human Rights, after September 11, Geneva: ICHRP, 2002.
6
economic, social and cultural rights remain absent from media coverage or
underreported.
9. Secondly, how well the media cover, explicate and analyse the human rights
apparatus is less apparent. Data on human rights violations and issues are not
lacking, but the impact of this information on the public is not as great as human
rights activists expect. Consequently, the media miss human rights stories because
they do not pay proper attention to human rights per se and because of inadequate
understanding of the material they are covering. The media also miss the context of
human rights stories. Hence, the professional value of the reporting is diminished by
these shortcomings."
THE MEDIA IN DEMOCRACIES: ROLE,
RESPONSIBILITIES AND HUMAN RIGHTS
ISSUES
Mohammad-Mahmoud Ould
Mohamedou
Uma paixão rural, chamou-lhe Ray Monk
Um dia Wittgenstein decidiu que queria ir para uma humilde aldeia nas montanhas austríacas dar aulas de instrução primária. Procurava a pureza de carácter e a bondade, dizia ele. Passado pouco tempo rebelava-se contra os seus pequenos, e, às suas mãos de pedagogo intransigente e rigoroso, sacrificados alunos, bem como se agoniava com os obnubilados progenitores, que não compreendiam realmente os elevados objectivos científicos do programa de Wittgenstein, e tanta aplicação e rigor nos métodos de ensino aplicados. Wittgenstein depreendeu que teria que escolher entre a bondade e a inteligência, e que a preferir esta última tinha que sair rapidamente daquela localidade.
Pelo que li sobre a sua vida, a inteligência ganhou o desafio, e Wittgenstein deixou a aldeia e foi para a Universidade de Cambridge. Alguns dos seus alunos, os escolhidos, no entanto, não vieram a ganhar tudo o que podiam com essa escolha do mestre que lhes dificultava a vida pessoal, profissional e académica a um grau difícil de suportar, quando não mesmo deprimente. Mas pelo menos eles tinham ainda um docente inteligente, com planos racionais, ainda que questionáveis, em filosofia ou sobre os palpites respeitantes à vida prática de cada um. Miserável mesmo seria se tivesem perdido ao mesmo tempo um docente inteligente e/ou bondoso.
Quem diz sobre este docente, di-lo de quaisquer outros docentes, e di-lo ainda sobre qualquer outro humano em qualquer outra actividade de relação com o público, como, por exemplo, sobre os governantes da educação. pp. 192 a 233.
Pelo que li sobre a sua vida, a inteligência ganhou o desafio, e Wittgenstein deixou a aldeia e foi para a Universidade de Cambridge. Alguns dos seus alunos, os escolhidos, no entanto, não vieram a ganhar tudo o que podiam com essa escolha do mestre que lhes dificultava a vida pessoal, profissional e académica a um grau difícil de suportar, quando não mesmo deprimente. Mas pelo menos eles tinham ainda um docente inteligente, com planos racionais, ainda que questionáveis, em filosofia ou sobre os palpites respeitantes à vida prática de cada um. Miserável mesmo seria se tivesem perdido ao mesmo tempo um docente inteligente e/ou bondoso.
Quem diz sobre este docente, di-lo de quaisquer outros docentes, e di-lo ainda sobre qualquer outro humano em qualquer outra actividade de relação com o público, como, por exemplo, sobre os governantes da educação. pp. 192 a 233.
segunda-feira, setembro 03, 2007
Quando se negoceia o mal
O mal. Esconjurado com palavras. Et voilà! Um país que veio ao redil. Melhor para o mundo, claro. Mas apetece rir com a entrada e a saída do mal da linguagem política americana. É uma variante da esconjura feita com armas. Usa-se o dinheiro. O mal tratado com pragmatismo é sempre um mal dominável, pacífico, apesar dele mesmo.
Dir-se-á que a ameaça, a pressão, de utilização das armas está presente como subtítulo e daí o êxito da palavra negociada. Mas isso é esquecer as análises de todos os que sabem que a guerra dos Estados Unidos no Iraque é um castelo de cartas e que desteceu uma administração até à linha, e no entanto, apesar de se temer esse enfraquecimento... conseguiu ainda com a negociação o que as ameaças não tinham conseguido desde 1987.
Os homens velhos já não se sentem ameaçados pelo excesso de rapazes nos Estados Unidos e podem agora negociar a paz na Coreia do Norte? Vi esta alusão num episódio do Ossos numa dessas tardes de Verão e não resisto a replicar a ideia. É uma razão dita antropológica para o fenómeno da declaração de guerra. Não sei se é uma razão verdadeira, ou científica, mas que é curiosa, é. A propósito, não há série americana que não tenha uma ou outra referência à guerra no Iraque. Para os americanos esse conflito não é só uma questão de cenário político num mundo dito global, é sim uma experiência quotidiana de ansiedade pela segurança dos seus soldados e descrença pelas razões que os fazem estar lá. A ficção di-lo, ao facto propriamente dito.
Claro que à mesa a falar não estiveram só “o negociador norte-americano Christopoher Hill e o seu homólogo norte-coreano Kim Gye-kwan”, mas muitos outros cujo nome não aparecerá, ou só se saberá, por exemplo, aquando da biografia do presidente chinês Hu Jintao.
Dir-se-á que a ameaça, a pressão, de utilização das armas está presente como subtítulo e daí o êxito da palavra negociada. Mas isso é esquecer as análises de todos os que sabem que a guerra dos Estados Unidos no Iraque é um castelo de cartas e que desteceu uma administração até à linha, e no entanto, apesar de se temer esse enfraquecimento... conseguiu ainda com a negociação o que as ameaças não tinham conseguido desde 1987.
Os homens velhos já não se sentem ameaçados pelo excesso de rapazes nos Estados Unidos e podem agora negociar a paz na Coreia do Norte? Vi esta alusão num episódio do Ossos numa dessas tardes de Verão e não resisto a replicar a ideia. É uma razão dita antropológica para o fenómeno da declaração de guerra. Não sei se é uma razão verdadeira, ou científica, mas que é curiosa, é. A propósito, não há série americana que não tenha uma ou outra referência à guerra no Iraque. Para os americanos esse conflito não é só uma questão de cenário político num mundo dito global, é sim uma experiência quotidiana de ansiedade pela segurança dos seus soldados e descrença pelas razões que os fazem estar lá. A ficção di-lo, ao facto propriamente dito.
Claro que à mesa a falar não estiveram só “o negociador norte-americano Christopoher Hill e o seu homólogo norte-coreano Kim Gye-kwan”, mas muitos outros cujo nome não aparecerá, ou só se saberá, por exemplo, aquando da biografia do presidente chinês Hu Jintao.
sexta-feira, agosto 31, 2007
Dizer o que é 2
Já em política a legitimidade das acções e das palavras foi-se ganhando no recurso a possibilidades terrenas e humanamente concretizáveis de vivermos em conjunto, passíveis de serem avaliadas, sufragadas e vigiadas. Nessa esfera de acção humana toda a palavra é pública, toda a acção é de interesse geral. Ao legislador já não se pede que represente um modo de ser por regra de uma graça divina, mas que nos represente da melhor forma que as suas faculdades, e o nosso mandato, lhe possibilitarem.
Diz-nos Arendt: " É evidente que os factos não estão seguros nas mãos do poder. Mas o importante é que aqui o poder, pela sua própria natureza, não pode nunca produzir um substituto para a sólida estabilidade da realidade factual que, por ser passado, cresceu até a uma dimensão fora do nosso alcance. (...) Na sua obstinação, os factos são superiores ao poder; são menos passageiros que as formações do poder, que surgem quando os homens se reúnem com um objectivo, mas desaparecem quando esse objectivo é alcançado ou fracassa." pp.52-53
É pois a natureza transitória do poder político que nos faz sossegar na ideia de que a defesa de ideias ou de acções realizadas em nome do interesse público serão, inevitavelmente, fiscalizadas por um público. Poderá é não vir a ser o mesmo público, aquele que sofreu as consequências dessas políticas, o que deixará em aberto a questão do castigo ou da recompensa terrena, da justiça aplicada. A não ser que consideremos as páginas escritas da história como método de avaliação suficiente. Para os que sofreram às mãos dos maus políticos não pode ser suficiente, mas já deve trazer alguma inteligibilidade à realidade a hipótese de que os factos perduram sob o manto pesado da impunidade e do desvario de quem julga tudo poder sem a ninguém o dever.
quinta-feira, agosto 30, 2007
duração 2
Quando alguém morre, e a fazer-se uma exortação sobre essa personalidade, o discurso de apresentação/aclamação da vida de outrem transforma-se muitas vezes numa exortação da nossa vida passada com o morto, por convivência social ou cultural. É preciso um grande espírito analítico ou um distanciamento académico ou social para que o discurso sobre o morto seja sobre a sua vida ou obra, e não sobre a nossa vida e o modo como sentimos que o morto passou por nós então.
Quando choramos uma morte, e um morto geralmente leva a um choradinho, fazemo-lo também por ele, mas muito por nós na ausência dele, também por uma ideia dele e de nós, por alívio, por saudade, ou o que for. Mas há um choradinho por algo que passou e já não volta: a nossa própria vida passada que a morte dos outros nos faz carpir. E esta experiência não requer conhecimento profundo, analítico, da obra, ressalvado tão-somente que a pessoa viva fale sobre si no modo como o foi quando o morto ainda era vivo e passou por si. Mas não sendo complicado também não é assunto fácil. Daí que a presença excessiva do eu em artigos que foram escritos para serem sobre a morte do outro seja uma forma de homenagem não menos cuidada ainda que pouco lúcida. Há quem se irrite com isso, quem ache tudo uma pirosice de egos que não sabem sentir nem sabem escrever o que sentem, apropriadamente. Eu vejo um bom momento para lamentar, quase o único no universo das lamentações que não nos cobrirá de vacuidade, um momento próprio para fazer um choradinho sobre o tempo que fez, para falar do outro falando também de nós que lhe sobrevivemos e o contamos em voz alta. E não deixa de ser uma forma de homenagem, nem deixa de ser sincera, é o que é, uma viagem mais por aquilo que geralmente nos interessa mais e melhor: nós mesmos.
Eu leio Séneca frequentemente. E tanto ensinamento de desapego também arrelia. Mas não deixa de ser uma forma de nos ensinar a ser mais livres perante essa coisa de se morrer.
Um destes dias fui visitar as casas onde viveram os pastorinhos de Fátima. As origens humildes, em tudo conformes ao modo de vida de toda uma imensa maioria de população no Portugal pobre e rural do início do século XX, não me surpreenderam, ou mereceram reparo sociológico. Eram formas de vida que sei de cor de um tempo que foi também o modo de viver partilhado com os meus antepassados. Vi as casinhas de Francisco e Jacinta, os irmãozitos, e a de Lúcia. Não são as casas como espaços museológicos curiosos que poderão interessar a quem ali vai, ou não isso apenas, mas interessará sobretudo a forma que as manifestações do sagrado pode tomar, e como irrompe em tais espaços. Não o sagrado que é contado ou investido em nós por outrem em rituais de actualização da presença de uma crença em nós, como acontece com todos os cristãos, por exemplo, no acto do seu baptismo, ou no momento da comunhão, mas o sagrado que se manifesta pela primeira vez no contacto directo com a pessoa, em tudo muito novo, mesmo havendo contornos religiosos de uma história conhecida previamente e que contextualiza a aparição.
Sobre a crença dos pastorinhos eu creio profundamente que eles criam, e mais não sei dizer. Não sei mesmo. Aleivosia dos que não crendo julgam que não aconteceu nada que leve os outros à crença. Sobre a aparição da Nossa Senhora de Fátima o que se poderá dizer mais para além das três hipóteses: “creio”, “não creio”, ou “não sei em que crer?”. Dizer que essa aparição é uma invenção fantasiosa daquelas crianças? E como sabe-lo que o foi? Dizer que ela nunca existiu? E quem o pode comprovar?
Sei que há uma história das religiões, e que ser-se cristão, ou budista, ou muçulmano, não é todavia equivalente a ser-se socrático, ou kantiano ou apeliano, mesmo havendo também uma história das ideias. É certo que eu concebo publicamente melhor o que é ser-se, por exemplo, aristotélico, porque sei que tipo de conceitos, de método de análise, de conhecimentos, alguém terá que invocar para se afirmar filosoficamente de tal ou tal corrente do pensamento. Sei que argumentos evocar para defender esta tese. Mas ser-se cristão, vamos lá, não é ser só aquele que segue as palavras de Cristo, ou o que se dedica à exegese da sua vida e obra, porque senão deixaria de haver crença num estado ou numa figura que fala em nome de um tempo e de um espaço que não é o tempo da história e o espaço da geografia humana, e passaria a estudar-se a teologia como mais um ramo da reflexão em filosofia. Não pode ser só isso, ainda que eu ache que isso já é muito, como acho muito que se saiba tudo sobra a obre de um Hegel ou de um Platão, entre outros. Mas, se eu conhecer uma obra, conhecer as palavras de Cristo, vamos lá, não significa por si que eu creia em Cristo. A crença na sua pessoa é uma possibilidade, não somente a crença naquele indivíduo que nasceu em Belém numa determinada época tendo andado a pregar por toda a Galileia, com um discurso ético e social novo, com conceitos extraordinários sobre a forma de vivermos a nossa vida uns com os outros, e tendo morrido nas circunstâncias que toda a cultura ocidental conhece profundamente, mas a crença na absoluta possibilidade ontológica de existir tudo aquilo que ele nos diz sobre a existência de (um) Deus e de um tempo e de uma vida para além desta vida neste mundo.
Que isto interesse a muitos, compreendo, que alguém alardeie a sua descrença, também, que publicamente e de todas as formas possíveis os que acreditam queiram mostrar aos outros a sua crença, igualmente, só não compreendo porque razão a crença não deverá ser do mais íntimo e pessoal que cada um saberá e deixará caber dentro de si. Porque se crermos na imposição de uma crença religiosa, como se de uma ordem social for, estaremos a dizer que a religião não passará de uma manifestação cultural e sociológica entre outras, e que crer, ou não crer, em Deus, dependerá exclusivamente do tipo de socialização que fizemos, do tipo de cultura em que estivemos inseridos aquando do nosso desenvolvimento. Mas então estaríamos a dar razão aos críticos da religião que a vêem como uma forma de dominar outrem em nome de uma ilusão, integrando-o numa espécie de lei, de regime comportamental, aquietando-o numa estrutura já conhecida e aceite pela comunidade. Ora a mim parece-me que a religião é revolucionária neste aspecto: ao reclamar-se herdeira de uma manifestação do divino ocorrido num tempo passado, tem que se dizer automaticamente permeável à presença de novas aparições desse divino no futuro, porque essa é sua razão de ser. Que depois se queira limitar, classificar, autorizar as formas como esse divino possa ocorrer, é que já me parece de uma arrogância ilimitada. E…no entanto, de alguma forma, as religiões presentes terão que se proteger das falsas manifestações, das pseudo aparições para se preservarem como guardiãs da palavra. Porém, nesta forma ingénua de pensar, há algo que não poderemos deixar de dizer: a crer nos que crêem, as aparições não se fazem por ordem ou vontade de ninguém. E isso é da ordem de que tipo de análise? Psicanalítica? Filosófica? Política? Ou pessoal, imensamente pessoal? É pessoal. Como é que eu sei? Não sei. Mas sei que afirmar o contrário é restringir a liberdade individual. A liberdade de acontecer um milagre, ou liberdade de escolher as palavras que melhor dizem a pessoa, incusive as palavras que digam o que viveu como um milagre.
Há um poço, onde os pequenitos afirmaram ter aparecido o anjo, um caminho para o penedo para onde dizem ter aparecido também um anjo, e há uma toca onde as crianças brincaram. Tudo muito estimado e bonito. E se fosse só isto que há a dizer.
Quando choramos uma morte, e um morto geralmente leva a um choradinho, fazemo-lo também por ele, mas muito por nós na ausência dele, também por uma ideia dele e de nós, por alívio, por saudade, ou o que for. Mas há um choradinho por algo que passou e já não volta: a nossa própria vida passada que a morte dos outros nos faz carpir. E esta experiência não requer conhecimento profundo, analítico, da obra, ressalvado tão-somente que a pessoa viva fale sobre si no modo como o foi quando o morto ainda era vivo e passou por si. Mas não sendo complicado também não é assunto fácil. Daí que a presença excessiva do eu em artigos que foram escritos para serem sobre a morte do outro seja uma forma de homenagem não menos cuidada ainda que pouco lúcida. Há quem se irrite com isso, quem ache tudo uma pirosice de egos que não sabem sentir nem sabem escrever o que sentem, apropriadamente. Eu vejo um bom momento para lamentar, quase o único no universo das lamentações que não nos cobrirá de vacuidade, um momento próprio para fazer um choradinho sobre o tempo que fez, para falar do outro falando também de nós que lhe sobrevivemos e o contamos em voz alta. E não deixa de ser uma forma de homenagem, nem deixa de ser sincera, é o que é, uma viagem mais por aquilo que geralmente nos interessa mais e melhor: nós mesmos.
Eu leio Séneca frequentemente. E tanto ensinamento de desapego também arrelia. Mas não deixa de ser uma forma de nos ensinar a ser mais livres perante essa coisa de se morrer.
Um destes dias fui visitar as casas onde viveram os pastorinhos de Fátima. As origens humildes, em tudo conformes ao modo de vida de toda uma imensa maioria de população no Portugal pobre e rural do início do século XX, não me surpreenderam, ou mereceram reparo sociológico. Eram formas de vida que sei de cor de um tempo que foi também o modo de viver partilhado com os meus antepassados. Vi as casinhas de Francisco e Jacinta, os irmãozitos, e a de Lúcia. Não são as casas como espaços museológicos curiosos que poderão interessar a quem ali vai, ou não isso apenas, mas interessará sobretudo a forma que as manifestações do sagrado pode tomar, e como irrompe em tais espaços. Não o sagrado que é contado ou investido em nós por outrem em rituais de actualização da presença de uma crença em nós, como acontece com todos os cristãos, por exemplo, no acto do seu baptismo, ou no momento da comunhão, mas o sagrado que se manifesta pela primeira vez no contacto directo com a pessoa, em tudo muito novo, mesmo havendo contornos religiosos de uma história conhecida previamente e que contextualiza a aparição.
Sobre a crença dos pastorinhos eu creio profundamente que eles criam, e mais não sei dizer. Não sei mesmo. Aleivosia dos que não crendo julgam que não aconteceu nada que leve os outros à crença. Sobre a aparição da Nossa Senhora de Fátima o que se poderá dizer mais para além das três hipóteses: “creio”, “não creio”, ou “não sei em que crer?”. Dizer que essa aparição é uma invenção fantasiosa daquelas crianças? E como sabe-lo que o foi? Dizer que ela nunca existiu? E quem o pode comprovar?
Sei que há uma história das religiões, e que ser-se cristão, ou budista, ou muçulmano, não é todavia equivalente a ser-se socrático, ou kantiano ou apeliano, mesmo havendo também uma história das ideias. É certo que eu concebo publicamente melhor o que é ser-se, por exemplo, aristotélico, porque sei que tipo de conceitos, de método de análise, de conhecimentos, alguém terá que invocar para se afirmar filosoficamente de tal ou tal corrente do pensamento. Sei que argumentos evocar para defender esta tese. Mas ser-se cristão, vamos lá, não é ser só aquele que segue as palavras de Cristo, ou o que se dedica à exegese da sua vida e obra, porque senão deixaria de haver crença num estado ou numa figura que fala em nome de um tempo e de um espaço que não é o tempo da história e o espaço da geografia humana, e passaria a estudar-se a teologia como mais um ramo da reflexão em filosofia. Não pode ser só isso, ainda que eu ache que isso já é muito, como acho muito que se saiba tudo sobra a obre de um Hegel ou de um Platão, entre outros. Mas, se eu conhecer uma obra, conhecer as palavras de Cristo, vamos lá, não significa por si que eu creia em Cristo. A crença na sua pessoa é uma possibilidade, não somente a crença naquele indivíduo que nasceu em Belém numa determinada época tendo andado a pregar por toda a Galileia, com um discurso ético e social novo, com conceitos extraordinários sobre a forma de vivermos a nossa vida uns com os outros, e tendo morrido nas circunstâncias que toda a cultura ocidental conhece profundamente, mas a crença na absoluta possibilidade ontológica de existir tudo aquilo que ele nos diz sobre a existência de (um) Deus e de um tempo e de uma vida para além desta vida neste mundo.
Que isto interesse a muitos, compreendo, que alguém alardeie a sua descrença, também, que publicamente e de todas as formas possíveis os que acreditam queiram mostrar aos outros a sua crença, igualmente, só não compreendo porque razão a crença não deverá ser do mais íntimo e pessoal que cada um saberá e deixará caber dentro de si. Porque se crermos na imposição de uma crença religiosa, como se de uma ordem social for, estaremos a dizer que a religião não passará de uma manifestação cultural e sociológica entre outras, e que crer, ou não crer, em Deus, dependerá exclusivamente do tipo de socialização que fizemos, do tipo de cultura em que estivemos inseridos aquando do nosso desenvolvimento. Mas então estaríamos a dar razão aos críticos da religião que a vêem como uma forma de dominar outrem em nome de uma ilusão, integrando-o numa espécie de lei, de regime comportamental, aquietando-o numa estrutura já conhecida e aceite pela comunidade. Ora a mim parece-me que a religião é revolucionária neste aspecto: ao reclamar-se herdeira de uma manifestação do divino ocorrido num tempo passado, tem que se dizer automaticamente permeável à presença de novas aparições desse divino no futuro, porque essa é sua razão de ser. Que depois se queira limitar, classificar, autorizar as formas como esse divino possa ocorrer, é que já me parece de uma arrogância ilimitada. E…no entanto, de alguma forma, as religiões presentes terão que se proteger das falsas manifestações, das pseudo aparições para se preservarem como guardiãs da palavra. Porém, nesta forma ingénua de pensar, há algo que não poderemos deixar de dizer: a crer nos que crêem, as aparições não se fazem por ordem ou vontade de ninguém. E isso é da ordem de que tipo de análise? Psicanalítica? Filosófica? Política? Ou pessoal, imensamente pessoal? É pessoal. Como é que eu sei? Não sei. Mas sei que afirmar o contrário é restringir a liberdade individual. A liberdade de acontecer um milagre, ou liberdade de escolher as palavras que melhor dizem a pessoa, incusive as palavras que digam o que viveu como um milagre.
Há um poço, onde os pequenitos afirmaram ter aparecido o anjo, um caminho para o penedo para onde dizem ter aparecido também um anjo, e há uma toca onde as crianças brincaram. Tudo muito estimado e bonito. E se fosse só isto que há a dizer.
sábado, agosto 25, 2007
Duração
Num tempo em que a influência dos meus professores sobre as minhas opções culturais era mínima, havia dois cronistas que me tinham sob influência: Miguel Esteves Cardoso e Prado Coelho.
Lia então as crónicas que Prado Coelho escrevia de Paris e que tão bons livros e tantos outros bons autores me ajudaram a conhecer. Amei a Criada Zerlina porque ele me ensinou a fazê-lo, e vi a Eunice Munhoz no teatro Trindade a proferir as palavras que Prado Coelho me ensinou a ouvir. Gostei tanto de Peter Handke e do seu poema traduzido em francês por Poème à la durée, porque Prado Coelho mo ensinou e muito depois de Prado Coelho gostar dele e “me” mostrar como gostar desse conceito novo, o da duração. E é essa a ideia que eu tenho: a de um homem que fazia os outros gostarem do que ele descobria e gostava.
É assim, uma forma de lamento pela sua ausência numa escrita que permitia aprender.
Lia então as crónicas que Prado Coelho escrevia de Paris e que tão bons livros e tantos outros bons autores me ajudaram a conhecer. Amei a Criada Zerlina porque ele me ensinou a fazê-lo, e vi a Eunice Munhoz no teatro Trindade a proferir as palavras que Prado Coelho me ensinou a ouvir. Gostei tanto de Peter Handke e do seu poema traduzido em francês por Poème à la durée, porque Prado Coelho mo ensinou e muito depois de Prado Coelho gostar dele e “me” mostrar como gostar desse conceito novo, o da duração. E é essa a ideia que eu tenho: a de um homem que fazia os outros gostarem do que ele descobria e gostava.
É assim, uma forma de lamento pela sua ausência numa escrita que permitia aprender.
quinta-feira, agosto 23, 2007
Dizer o que é 1
Aquela minha grande amiga de adolescência, cuja frequência de amizade por lá ficou, contava-me histórias passadas no Oriente, predizendo a escritora, a viajante e a futura sinóloga. Hoje confundo-as a todas. Há aquela do rapazinho puxador de riquexó que leva uma bofetada de uma bela dama perfumada que transportara, o qual sente verdadeiramente como se um beijo dado na face fora, aquela outra de um monge que derrama o liquido da chávena de um visitante a quem serve o chá e que lhe perguntara como poderia vir a tornar-se num sábio, há ainda aquela história do monge que prende a cabeça sob a água de um tanque de um incauto discípulo que ousara indagar ao mestre sobre o significado da vida, e há aquela sobre uma pedra de âmbar que se obriga a manter fechada na mão do discípulo que procurou querer saber tudo sobre o âmbar.
Sobre o âmbar há também a referência àquele maravilhoso colar que uma certa personagem do Os Thibault usa. Ai, se não for de âmbar onde fica a verdade do facto da minha intensa memória desse momento na narração? A luz do âmbar. É. É a luz do âmbar de certeza. A escrita conversada é como as cerejas. E “as raparigas falam muito” diz o Peter Pan à Wendy. Pateta do Peter Pan que não percebe nada de raparigas para além do minuto em que deixa de estar a vê-las.
Gosto da imagem do chá derramado por um monge imperturbável, vejo-o a vertê-lo do bule para a chávena. Ai queres saber como ser sábio, queres? E essa taça cheia de liquido que nem mais uma gota contempla? Verte em demasia.
Ontem à noite, de passagem pela frente da televisão para outra divisória da sala, ouvi o comentador desportivo Rui Santos. Normalmente, em momentos de excepção (a contradição é assumida), fico deliciada a ouvi-lo falar sobre as táctica dos treinadores ou das equipas ou dos dirigentes e ontem, mais uma vez, ele explicava, como se aquelas palavras fossem completamente novas, para uma situação completamente nova, no seu jeito de quem leva o futebol muito a sério, o empate da nossa seleção frente à Arménia. Enfado, náusea mesmo. Fugi dali rapidamente. E no entanto Portugal nunca antes tinha disputado aquele jogo de futebol, aquele momento merecia tanto quanto antes outros o mereceram, sem reacção de asco da minha parte, atenção e análise. Mas há qualquer coisa de insuportável em ouvir falar sempre com o mesmo interesse sobre algo que desapaixonadamente vemos como uma situação sempre igual e da qual já nada consideramos ser possível dizer. Falei deste caso do futebol, podia ter falado de política.
A chávena está cheia e há a percepção nítida de que nada de muito importante, de revelador, tem espaço para se acomodar. E no entanto esta percepção só pode estar errada. Porque cada caso que acontece tem uma existência única, reclama por atenção, mas a saturação, esse estado de exclusão de si na vida ou nos discursos e acções dos outros, põe-nos à deriva, é certo, mas também nos dá uma certa serenidade, mascarando a indiferença ou o cansaço ou a falta de paciência. E sem esta, dizem-nos as histórias orientais, não há sabedoria que chegue nem bem que sempre dure.
Sobre o âmbar há também a referência àquele maravilhoso colar que uma certa personagem do Os Thibault usa. Ai, se não for de âmbar onde fica a verdade do facto da minha intensa memória desse momento na narração? A luz do âmbar. É. É a luz do âmbar de certeza. A escrita conversada é como as cerejas. E “as raparigas falam muito” diz o Peter Pan à Wendy. Pateta do Peter Pan que não percebe nada de raparigas para além do minuto em que deixa de estar a vê-las.
Gosto da imagem do chá derramado por um monge imperturbável, vejo-o a vertê-lo do bule para a chávena. Ai queres saber como ser sábio, queres? E essa taça cheia de liquido que nem mais uma gota contempla? Verte em demasia.
Ontem à noite, de passagem pela frente da televisão para outra divisória da sala, ouvi o comentador desportivo Rui Santos. Normalmente, em momentos de excepção (a contradição é assumida), fico deliciada a ouvi-lo falar sobre as táctica dos treinadores ou das equipas ou dos dirigentes e ontem, mais uma vez, ele explicava, como se aquelas palavras fossem completamente novas, para uma situação completamente nova, no seu jeito de quem leva o futebol muito a sério, o empate da nossa seleção frente à Arménia. Enfado, náusea mesmo. Fugi dali rapidamente. E no entanto Portugal nunca antes tinha disputado aquele jogo de futebol, aquele momento merecia tanto quanto antes outros o mereceram, sem reacção de asco da minha parte, atenção e análise. Mas há qualquer coisa de insuportável em ouvir falar sempre com o mesmo interesse sobre algo que desapaixonadamente vemos como uma situação sempre igual e da qual já nada consideramos ser possível dizer. Falei deste caso do futebol, podia ter falado de política.
A chávena está cheia e há a percepção nítida de que nada de muito importante, de revelador, tem espaço para se acomodar. E no entanto esta percepção só pode estar errada. Porque cada caso que acontece tem uma existência única, reclama por atenção, mas a saturação, esse estado de exclusão de si na vida ou nos discursos e acções dos outros, põe-nos à deriva, é certo, mas também nos dá uma certa serenidade, mascarando a indiferença ou o cansaço ou a falta de paciência. E sem esta, dizem-nos as histórias orientais, não há sabedoria que chegue nem bem que sempre dure.
quarta-feira, agosto 15, 2007
Este povo português
"Os contemporâneos de Torga eram: Aquilino, Tomaz de Figueiredo, Jorge de Sena, Nemésio, Pessoa, Pascoaes, Miguéis, Almada, Raul Brandão, João de Araújo Correia, Ferreira de Castro, Régio, Casais Monteiro, Gaspar Simões, Branquinho da Fonseca, Domingos Monteiro, José Gomes Ferreira, Armindo Rodrigues, Eugénio de Andrade, Sophia, Redol, Carlos de Oliveira, Manuel da Fonseca, Irene Lisboa, Maria Judite de Carvalho, Abelaira, Mário Dionísio, Namora, José Cardoso Pires. Foram estes que, em diversos momentos, reafirmaram o perfil da pátria medular e cívica."
Baptista-Bastos, "TORGA: ESQUECIDO E PRESENTE" no DN
Baptista-Bastos, "TORGA: ESQUECIDO E PRESENTE" no DN
segunda-feira, julho 30, 2007
o universal e o particular. A teoria e a prática.
"Deves tratar deste modo um amigo, um concidadão, um companheiro." - Porquê? - "Porque é de justiça."
Ora todos estes casos particulares são-me proporcionados pelo estudo do que é a "justiça": através deste verei que a equidade é algo que, em si mesmo, devemos procurar, que não somos coagidos a ela pelo medo nem atraídos por prémios, e que não é justo quem, na prática desta virtude, tem outro objectivo para lá dela mesma. Se eu me tiver apercebido e embebido desta verdade, se eu já souber esta lição, para que me servirão os preceitos? Ministrar preceitos a quem já conhece a teoria é supérfluo, a quem ainda a ignora é insuficiente, porquanto não basta conhecer os preceitos, é necessário saber igualmente a respectiva razão de ser. Pergunto eu: os preceitos são necessários a quem possui uma opinião correcta sobre o bem e o mal, ou a quem não a possui? Quem a não possui nada beneficiará com os teus conselhos, já que tem os ouvidos atentos à opinião do vulgo, a qual é contrária à tua. Quem já possui uma noção correcta do que devemos evitar e procurar, esse sabe muito bem como há-de agir, mesmo que se lhe não diga nada. " (p. 482 do livro Cartas a Lucílio)
Assim argumentava Aríston.
Respondia-lhe Séneca, o filósofo das exortações e dos conselhos, mestre e conselheiro do imperador Nero, essa alma que acabou por escapar aos conselhos/preceitos do seu pedagogo.
Ora todos estes casos particulares são-me proporcionados pelo estudo do que é a "justiça": através deste verei que a equidade é algo que, em si mesmo, devemos procurar, que não somos coagidos a ela pelo medo nem atraídos por prémios, e que não é justo quem, na prática desta virtude, tem outro objectivo para lá dela mesma. Se eu me tiver apercebido e embebido desta verdade, se eu já souber esta lição, para que me servirão os preceitos? Ministrar preceitos a quem já conhece a teoria é supérfluo, a quem ainda a ignora é insuficiente, porquanto não basta conhecer os preceitos, é necessário saber igualmente a respectiva razão de ser. Pergunto eu: os preceitos são necessários a quem possui uma opinião correcta sobre o bem e o mal, ou a quem não a possui? Quem a não possui nada beneficiará com os teus conselhos, já que tem os ouvidos atentos à opinião do vulgo, a qual é contrária à tua. Quem já possui uma noção correcta do que devemos evitar e procurar, esse sabe muito bem como há-de agir, mesmo que se lhe não diga nada. " (p. 482 do livro Cartas a Lucílio)
Assim argumentava Aríston.
Respondia-lhe Séneca, o filósofo das exortações e dos conselhos, mestre e conselheiro do imperador Nero, essa alma que acabou por escapar aos conselhos/preceitos do seu pedagogo.
"Eu admito que, por si só, os preceitos não sejam eficazes para corrigir as convicções falsas do nosso espírito; são todavia, úteis, desde que aliados a outros métodos. Por um lado avivam a memória; por outro, questões que, vistas na globalidade, podiam parecer confusas são entendidas com maior clareza quando encaradas separadamente. Se assim não fosse teríamos de considerar supérfluas as consolações e as exortações; ora nem umas nem outras são supérflua; logo, os conselhos também o não são." (p. 485)
segunda-feira, julho 23, 2007
A paixão por um líder 2
A adesão a uma ideia, a uma acção, a uma pessoa assenta em que tipo de crença numa necessidade, ou em que tipo de necessidade transformada depois em crença? Lakoff envereda pela explicação mais simbólica/psicológica que se desenvolve à volta da ideia de parentalidade que cada um de nós viveu ou aspira viver: a ideia de pai autoritário mas protector ou a ideia de família organizada para se apoiar entre si de forma solidária. E de certa forma parece que na história da sociedade estes dois modelos, e seus diferentes graus de existência, explicam a identificação a ideias ou pessoas que mudando no acessório (origem, aparência, linguagem) corresponderiam sempre a um determinado arquétipo presente na sociedade sobrevivendo nas diferentes mutações históricas como uma mesma identidade, logo reconhecível por todos mesmo quando se apresenta sob uma forma revolucionária: completamente outra pela transformação operada.
Mas esta explicação da identificação a algo ou alguém a partir do tipo de socialização que se faz deixa ficar onde a capacidade de racionalizar e de deliberar racionalmente sobre uma questão de forma autónoma?
Mas esta explicação da identificação a algo ou alguém a partir do tipo de socialização que se faz deixa ficar onde a capacidade de racionalizar e de deliberar racionalmente sobre uma questão de forma autónoma?
sábado, julho 21, 2007
A paixão por um líder
Há uma certa paz na descrição, nesse acto que suspende o vício da complacência ou o ímpeto enfadonho e frequentemente mesquinho do contínuo ajuizar sobre o comportamento dos outros, mesmo com a explicação de que os outros são figuras públicas a precisarem de ser ajuizadas. Na descrição pode haver um despojamento emotivo que suaviza a personalidade. Descreve-se um último livro que se acabou de ler, ou o último filme visionado. Com o mínimo de adjectivos possíveis. Um bálsamo, uma qualquer discrição de um eu demasiadas vezes demasiado consciente de si, como se essa consciência dissesse a verdade da pessoa.
Terminada, finalmente, a leitura da biografia de Estaline. Na cabeça uma pergunta: Por que é que os potentados não mataram Estaline?
Na realidade, os companheiros/servidores de Estaline podiam tê-lo morto na última década da sua vida, eram assassinos experimentados, tinham oportunidade física, e sabiam que sobre a sua cabeça, e as das suas famílias e amigos, pendia a espada ou a sempre iminente exclusão do poder, porque não o fizeram então? A pergunta também é feita no excelente livro de Simon Sebag Montefiore, mas, único reparo que eu faço à obra, a resposta não me parece suficiente para descrever a pessoa de Estaline.
Escreve Montefiore na p. 620: ”Os quatro últimos homens de pé decidiram (Molotov, Mikoian, Khrushchev e Béria), segundo o filho de Béria, “não permitir que Estaline os atirasse uns contra os outros”. Por vezes, o Vozhd (Estaline) perguntava aos Quatro: “Estão a formar um bloco contra mim?” Num certo sentido estavam, mas nenhum deles, nem sequer Béria, tinha a força de vontade necessária. Mikoian discutiu provavelmente com Molotov, o assassínio de Estaline, mas, como mais tarde disse a Enver Hoxha: “Desistimos da ideia por recearmos que as pessoas do partido não compreendessem.”
Terminada, finalmente, a leitura da biografia de Estaline. Na cabeça uma pergunta: Por que é que os potentados não mataram Estaline?
Na realidade, os companheiros/servidores de Estaline podiam tê-lo morto na última década da sua vida, eram assassinos experimentados, tinham oportunidade física, e sabiam que sobre a sua cabeça, e as das suas famílias e amigos, pendia a espada ou a sempre iminente exclusão do poder, porque não o fizeram então? A pergunta também é feita no excelente livro de Simon Sebag Montefiore, mas, único reparo que eu faço à obra, a resposta não me parece suficiente para descrever a pessoa de Estaline.
Escreve Montefiore na p. 620: ”Os quatro últimos homens de pé decidiram (Molotov, Mikoian, Khrushchev e Béria), segundo o filho de Béria, “não permitir que Estaline os atirasse uns contra os outros”. Por vezes, o Vozhd (Estaline) perguntava aos Quatro: “Estão a formar um bloco contra mim?” Num certo sentido estavam, mas nenhum deles, nem sequer Béria, tinha a força de vontade necessária. Mikoian discutiu provavelmente com Molotov, o assassínio de Estaline, mas, como mais tarde disse a Enver Hoxha: “Desistimos da ideia por recearmos que as pessoas do partido não compreendessem.”
Ora porque não iriam compreender as pessoas do partido? Montefiore não explica. Deduzo que este falta de explicação seja intencional nesta rigorosa biografia. Montefiore procura apresentar Estaline, como qualquer outra figura históricoa que cruzou o seu caminho, num plano estritamente descritivo da personalidade e das suas acções, e não quis entrar numa linha de investigação que iria embocar em explicações pouco racionais dos comportamentos que definiam os apoiantes de Estaline, com o intuito, talvez, de não contribuir para a mistificação/divinização da figura. Mas a verdade é que esta personagem histórica, como outras, puseram-se a si próprias num plano superior ao da humanidade (pelo intelecto, pela acção estratégica, mas também por carisma e capacidade psicológica de darem de si uma imagem de excelência e superioridade humana que, aliada a uma grande narrativa ideológica, transforma a pessoa histórica numa figura divinizada). Parece-me que o temor dos correligionários por Estaline era o terror de saberem que apesar das políticas, dos planos económicos centralizadores, das perseguições, do terror e da morte sofridos arbitrariamente por milhões de pessoas, ele era uma figura na qual se acreditava, a qual se seguia, a qual se respeitava. E esta contradição, quando se quer ser objectivo na análise, não é fácil de explicar, senão mesmo difícil de compreender racionalmente, porque remete para o campo das emoções, das adesões a crenças ou a pessoas que, diz a razão pública, serão sempre pouco recomendáveis de um ponto de vista do que se quer para líderes da acção pública. Mas se não houver um esforço para compreender a paixão por Estaline não se conseguirá compreender, por exemplo, a paixão por figuras deste tempo que, também elas, entram em rota de colisão com os valores racionais do processo electivo, cíclico, de gerir a vida pública. Paixões a prazo pelos líderes na vida democrática versus paixões derradeiras e intemporais. Ou a lição da história humana versus a crença numa ilusão de liderança intemporal.
terça-feira, julho 17, 2007
interesse público e desinteresse privado
Alguns analistas já tinham avisado: logo na noite das eleições vão-se contabilizar cabeças, vão-se sentir desafiados nos seus lugares os líderes e os candidatos. E eu esperava que não, que nessa noite ir-se-ia falar dos projectos que tinham, ou não, merecido a atenção e aprovação dos eleitores lisboetas. Que se ia enunciar propósitos, reiterar planos, sublinhar intenções, mudar perspectivas, enfim, discutir as ideias que deviam ter estado, ou sobre as que de alguma forma estiveram, em discussão e que depois se procurariam aplicar pelos ganhadores e fiscalizar pelos adversários com responsabilidades directas porque eleitos vereadores. Ilusão, pensei eu. Ou não, sei eu. Como se não se soubesse já. Como se de repente algo de extraordinário acontecesse. Mas o que havia de extraordinário a acontecer quando sabemos que o que não é expectável não é da ordem da normalidade democrática?
Depois também erro, historicamente, noutra forma de pensar que me caracteriza. E nisso concebo a teoria de Rorty a ajuizar-me. Se passo o tempo a pensar na real possibilidade de se conduzirem os assuntos públicos sob a forma de discussões conduzidas em comunidades racionais, ao limite pensadas como ideais, e que manifestam a existência de valores universais e incontornáveis na regulação da ordem social, esqueço-me do papel dos indivíduos, da diferença no papel desempenhado por diferentes indivíduos para o mesmo assunto. É nesta inquietante situação que nos encontramos como cidadãos. Por um lado quero a esfera dos princípios universais, na lei e em quaisquer outros procedimentos que formalizam as relações sociais em geral e as de poder em particular, por outro lado todas as páginas da história mostram que os mesmos procedimentos e os mesmos princípios podem ser experimentados e dados a experimentar de formas distintas. Não ajuda nada, se quisermos um critério “claro e distinto”. Ajudará muito se quisermos ser, ou soubermos ser, biógrafos, ou sábios experientes e bondosos que aceitam as contradições da existência, assim mesmo.
De certa forma contamos só com a nossa memória, para contextualizar o futuro, e, sobretudo, com os humores, para dar conta do presente. E estes podem ser manipulados, podem ser mistificados, podem ser racionalizados, podem ser orientados e educados, mas não nos permitem que lhes escapemos. O humor que faz ir da ovação à vaia em espaço de poucos meses, da adesão à repulsa, da simpatia à indiferença. Uma coisa idealmente despropositada, uma força descontrolada a gerir a existência. O acaso e a minha ignorância a prevalecer sobre os meus interesses públicos. Como escapar? Como querer escapar? A quem interessa, assim que acaba o acto de depositar o voto na urna? Porque me devia interessar?
Depois também erro, historicamente, noutra forma de pensar que me caracteriza. E nisso concebo a teoria de Rorty a ajuizar-me. Se passo o tempo a pensar na real possibilidade de se conduzirem os assuntos públicos sob a forma de discussões conduzidas em comunidades racionais, ao limite pensadas como ideais, e que manifestam a existência de valores universais e incontornáveis na regulação da ordem social, esqueço-me do papel dos indivíduos, da diferença no papel desempenhado por diferentes indivíduos para o mesmo assunto. É nesta inquietante situação que nos encontramos como cidadãos. Por um lado quero a esfera dos princípios universais, na lei e em quaisquer outros procedimentos que formalizam as relações sociais em geral e as de poder em particular, por outro lado todas as páginas da história mostram que os mesmos procedimentos e os mesmos princípios podem ser experimentados e dados a experimentar de formas distintas. Não ajuda nada, se quisermos um critério “claro e distinto”. Ajudará muito se quisermos ser, ou soubermos ser, biógrafos, ou sábios experientes e bondosos que aceitam as contradições da existência, assim mesmo.
De certa forma contamos só com a nossa memória, para contextualizar o futuro, e, sobretudo, com os humores, para dar conta do presente. E estes podem ser manipulados, podem ser mistificados, podem ser racionalizados, podem ser orientados e educados, mas não nos permitem que lhes escapemos. O humor que faz ir da ovação à vaia em espaço de poucos meses, da adesão à repulsa, da simpatia à indiferença. Uma coisa idealmente despropositada, uma força descontrolada a gerir a existência. O acaso e a minha ignorância a prevalecer sobre os meus interesses públicos. Como escapar? Como querer escapar? A quem interessa, assim que acaba o acto de depositar o voto na urna? Porque me devia interessar?
Subscrever:
Mensagens (Atom)

