segunda-feira, outubro 29, 2007

Plano nacional de leitura?

Ofereceram um livro de leitura, recomendado pelo Plano Nacional de leitura, à minha criança. Por experiência conheço bem o reduzido préstimo de planificações que servem para pouco mais que descansar consciências. As Escolas deste país estão cheias de planificações. São actos quase sempre burocráticos para cumprir objectivos de secretaria. Ainda se fossem planos de acção como: vamos lá pôr os alunos em contacto com os livros de todos os tamanhos e feitios, dar-lhes professores que saibam mediar entre o livro e o suscitar do interesse pelo livro, e depois acreditar que desse contacto nasça a sua capacidade de escolher o que lhes interessa ler.
Mas não, são planos com livros recomendados. Que irritação, o tom recomendado. Os livros não se recomendam a não ser por obrigação, numa disciplina necessária mas em contexto académico, já numa aprendizagem da leitura, os livros, se for o caso de um plano nacional de leitura, quanto muito, partilham-se, que aos demais descobrimo-los por acaso, com espanto pela sorte de o descobrirmos.

Li o recomendado livro Três Histórias do Futuro de Luísa Ducla Soares. E de repente vi-me num universo linguístico de grande excelência, com palavras escritas na perfeição e no entanto o livro…não tinha um grama de interesse. Nenhuma história encantou a leitora ou o ouvinte da história, o mais importante. Cumpriu-se com sacrifício o ritual de terminar a história e com um suspiro o acto de o guardar na prateleira.

Mas não é só da literatura portuguesa para crianças, que dó, que se alimenta o inferno das boas intenções, pois o livro de Gabril Garcia Marques O feliz verão da senhora Forbes é outro exemplo da loucura com dom desnorteado que pode afectar um escritor ao escrever para crianças. O livro é quase todo um conto soberbo sobre a vida de dois rapazinhos de férias grandes numa praia. A certa altura eles começam a viver até ao desespero uma relação de ódio com a preceptora que lhes surgira, a meio termo, como agente de castração dessa grandiosa liberdade inicial que marcava as suas existências. O pior é o término da história, as palavras que são contadas para descrever esse fim são desavindas num imaginário infantil. Como eu o penso, pelo menos.


Deve ter sido por ter lido três livros de seguida a falarem sobre livros que estavam na origem dos acontecimentos narrados, e se tornaram livros orientadores de acção das personagens, multiplicando os seus efeitos performativos, que senti vontade de escrever sobre a questão dos livros e da educação.

Três romances seguidos nos últimos meses: um bestseller do qual não gostei quase nada de Carlos Ruiz Zafón, A Sombra do Vento, que apesar de ter um belo tema entre mãos o deixou mastigar num discurso por vezes sem graça, e assim contou a história de um rapazinho que durante um ritual de iniciação ao amor por um daqueles livros já esquecidos, abandonados em armazém, torna esse livro e a vida do seu autor o centro da sua própria vida (uma bela capa); um outro livro mais bem escrito que o anterior mas com personagens que não chegaram nunca a convencer-me do seu profundo interesse em seguir-lhes quer as vidas domésticas quer o seu trágico desenlace existencial, provocado por uma traição familiar consagrada na entrega de um livro proibido ao Santo Ofício incriminado assim os seus proprietários que irão ser submetidos à maldade de uma ordem religiosa inquisitória, que buscava a redenção dos que considerava pecadores em espírito, como os judeus, na humilhação, na dor e morte sistematicamente infligidos. Tudo isto no livro Goa ou o Guardião da Aurora de Richard Zimler; o terceiro livro, o enigmático A Vida Nova de Orhan Pamuk, deixou-me sem possibilidades de dizer se gosto ou não gosto. Não sei se gosto do Vida Nova. Ainda não me decidi. Gosto muito da escrita, do tema, mas…
O mais fascinante em Pamuk, como nos grandes escritores, é que a sua nacionalidade tem por morada a humanidade. Não é um escritor turco a falar de problemas de pessoas turcos, é um escritor turco a falar de problemas das pessoas turcas cujos problemas são os da existência de qualquer pessoa. É certo que os turcos podem usar a muleta de “todos os nossos problemas nascem a ocidente” que os ocidentais não têm, mas ao invés estes podem procurar outros bodes igualmente expiatórios das suas existências sociais e políticas acanhadas demais para os sonhos de cada um. Se por sermos ocidentais não podemos dizer que a causa dos nossos problemas são os ocidentais, podemos dizer que a razão estará na existência de comunistas, ou de capitalistas, ou de religiosos, ou de ateus, ou dos homens ou de mulheres, ou dos políticos ou dos apolíticos. Enfim.
Hei-de voltar a escrever sobre o Vida Nova.


Entrei na pequena livraria da pequena cidade. Por todo o lado cartazes a anunciarem os livros de Miguel Sousa Tavares e de José Rodrigues dos Santos. Perguntei à competente vendedora: “Então, nem um livro de Doris Lessing na montra?” Explicou-me que as pequenas editoras que a publicam não estavam a disponibilizar as suas obras porque não estavam preparadas para o fazer rapidamente.
Pequenas editoras? A editora livros do Brasil, por exemplo, publicou as grandes obras da literatura anglo-saxónica das primeiras décadas do século XX, tem também obras de referência alemãs e francesas!
Pode-se questionar a qualidade das traduções, eu não questiono mas eu não sei nada sobre isso, mas não a qualidade dos editados. Mas aí fui interrompida: “As capas, sabe. As capas não vendem. Aquele grafismo antigo não convence ninguém.”

Refilei - "Há editoras francesas e ingleses que não mudam de grafismo das capas desde sempre, e vendem.”

Bom, concluí, em Portugal as capas das Edições do Brasil não vendem.

Ainda pensei para que raio se quer mais a uma capa que a um conteúdo de um livro. Mas eu não sou exemplo para ninguém no que a apresentação de trabalhos diz respeito.

Sai da livraria com a biografia de Churchill por Martin Gilbert debaixo do braço. Na realidade comprei-a para completar um fresco de biografias de políticos do princípio do século XX a que tenho dado atenção, sem qualquer lastro de afectividade por esta personalidade, como aliás acontecera com as escolhas de biografias de todos os outros já lidos (Lenine, Estaline, Mao).

A páginas tantas leio: “As canções escolares que Churchill cantou no Dia da Distribuição de prémios animaram-lhe o espírito. “O vibrante patriotismo que estes versos evocavam”, escreveu mais tarde o seu filho Randolph, “permaneceu com ele para sempre, e foi a mola principal da sua conduta política.” p. 36

Diz-me o que andaste a ler dir-te-emos que político serás?
Já tinha percebido este fenómeno da influência das leituras nas vidas práticas dos outros biografados. Não pode ser coincidência, isto dos livros a marcarem futuros.

sábado, outubro 27, 2007

Direitos humanos: a teoria do poder com mais difusão no princípio do séc. XXI

Vamos ver o poder prático deste poder teórico dos Direitos Humanos.
Os sinais da Rússia e da China não são só para "inglês" ver, será para a Europa ver - e comprar, e se tornar parceira, defensora e ainda se tornar simbolicamente mais representativa da defesa das liberdades no mundo do que os EUA. Ora o que ganham os povos chineses e russos em especial com isso, e todos os outros em geral, é o que iremos ver. E também até onde está disposta a Europa a ir na defesa das liberdades.
Mas que a difusão está a funcionar, lá isso está.

A Rússia ontem:

"A Cimeira União Europeia-Rússia terminou com boas intenções das duas partes. A Rússia propôs e a União aceitou: criar um instituto de promoção e acompanhamento dos direitos humanos e da democracia entre as duas potências. Os pormenores – disseram – só para mais tarde.", Primeiro de Janeiro


A China há quatro dias atrás:

"O governo chinês disse hoje estar empenhado na continuação do Diálogo União Europeia (EU)-China sobre Direitos Humanos, pouco dias depois da presidência portuguesa da União ter criticado Pequim sobre o tratamento que a China dá aos direitos fundamentais.

«Com base na igualdade e no princípio do respeito mútuo, poderemos continuar a promover o diálogo dobre Direitos Humanos», disse Liu Jianchao, porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, reagindo às críticas europeias.
Liu Jianchao, que falava em conferência de imprensa de rotina, classificou também como «útil», o diálogo bilateral sobre o tema." Portugal Diário

sexta-feira, outubro 26, 2007

"public reason"

Mais um blog a acrescentar à lista de favoritos. Este "Public reason" tem a vantagem de aliar a divulgação da informação relativa a congressos e "chamadas de textos" na área dos estudos políticos, com o comentário teórico/filosófico sobre política.

"Nenhum aluno chumba por faltas."

"Nenhum aluno chumba por faltas." no Diário de Notícias online.

Quando os portugueses em geral souberem o que os professores sabem desde há muito, que este ministério da educação não tem uma única ideia sobre a qualidade da educação e que planificou a sua acção em nome da quantidade e não da qualidade (aumento de taxas de sucesso para exportação à custa da exigência e do rigor, diminuição do número de professores à custa de um desmoralização sistemática da profissão e pelos cortes substanciais à entrada de novos docentes com o encerramento, injustificado, de muitas das escolas), hão-de compreender que a educação é o retrato do país que temos: escolas públicas com os melhores professores que o sistema produz (que ninguém duvide que os professores com melhor formação científica e profissional estão, no secundário, e até agora, todos no sector público) e que não conseguem que essa excelência se substancie em resultados gerais, e escolas privadas que se revelam extremamente eficazes pela estrutura disciplinar que a sua autonomia produz (escolhem as regras e aplicam-nas duramente, sem contemplações para a rebaldaria comportamental dos infantes).

Já não falo sequer da questão das escolas privadas terem alunos seleccionados de entre uma classe social já de si seleccionada pelas relações socio/profissionais que as caracterizam, o que, se não em termos afectivos, pelo menos em termos cognitivos, e no que a uma aprendizagem diz respeito, têm um extremo efeito.

Diga, diga, sr. Putin?

"Os dois homens pisaram-lhe depois as mãos (a Natália Petrova) dizendo «assim já não escreves mais», acrescentou."
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«Nós assistimos a uma limpeza na Rússia dos restos de democracia, a imprensa livre é destruída de forma sistemática, a sociedade civil é asfixiada por todos os meios», disse Mironov.
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"Andrei Mironov, membro da conhecida e respeitada ONG Memorial, assim como a organização Repórteres sem Fronteiras."
Excerto retirado do jornal Sol online

terça-feira, outubro 23, 2007

Minha amiga.

Eu, que não tenho idade para me aterrorizar com o epíteto poder popular mas já tenho mais que idade para saber o que aconteceu na história em nome do poder popular, fico consternada com as notícias que me tens enviado. Mais uma vez em nome do povo, desta feita do teu povo venezuelano, se faz experiências políticas ensaiando-se um totalitarismo novo, como se algo de novo houvesse para aprender nesta área.



Diz-me alguém: no aprofundamento da bondade ou da maldade pode-se sempre ir um lance mais longe, a qualquer momento. E eu a dizer que não, nesta pulsão para a negação que me caracteriza, e que porque já vimos acontecerem na história todas as ignomínias, todas as violências, todos os abusos, e que um dia há-de chegar o dia em que esqueceremos o cheiro de corpos queimados, do cheiro do sangue derramado, as imagens dos membros mutilados e dos pontapés na cara, dos espíritos quebrados e dos comportamentos de medo e de cobardia, que o esqueceremos como esquecemos o código daqueles línguas um dia faladas e das quais hoje ninguém sabe o significado e que olhamos, por defastio, através de uma vitrina de museu.
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Fraude Constitucional, ler aqui.




segunda-feira, outubro 22, 2007

O indivíduo2

Os indivíduos podem assemelhar-se no sentimento de regozijo ou de aversão, de alegria ou de desânimo relativamente a um qualquer acontecimento. É essa capacidade de partilha que permite a identificação a determinados grupos e que cria esferas de participação onde o indivíduo sublima os seus excessos de acção ou ideológicos. Mas os indivíduos não são iguais entre si, e não o são quer de forma ontológica quer no exercício de cargos de cidadania. Uns têm mais deveres do que outros.

O clube de caçadores lá da aldeia regula o tipo de violência que nunca se quer excessiva, sobretudo se vinda de uma qualquer pessoa com uma arma carregada na mão e com dois ou três cães a latirem de excitação junto dos seus pés. Tenho a certeza de que se não fossem as reuniões consecutivas e uma forte regulação sobre a actividade, o pessoal ainda entraria ébrio de alegria pelos quintais das casas dentro à procura da caça e manteriam, de forma mais agressiva, longe dos pinhais todos os que procurem ir só dar um passeio e ver os cogumelos.


Pinto Monteiro não é um cidadão que ande só a dar uma volta no pinhal a ver cogumelos, é um cidadão com uma arma na mão. E pode usá-la, com regras, mas pode. Algum dia alguém em Portugal terá que assumir todas as consequências do lugar que ocupa e dizer toda a verdade, não para nos estarrecer com ela, mas para nos permitir agir e melhorar como sociedade, à qual nos possamos congratular por lhe pertencermos.

O indivíduo

Nunca houve sistema nenhum até hoje que realmente pudesse suportar uma participação plena do indivíduo na vida pública. De uma forma ou de outra os sistemas, mesmo os democráticos que de participação plena vivem em estado de pensamento utópico, são exclusivos na admissão de ideias de governabilidade e na distribuição que fazem dos lugares autorizados para exercer esse governo. O indivíduo pode ser ensinado a apreciar esse processo, pode aprender a escolher os que quer ver como seus representantes, de aguardar pelos ciclos eleitorais para proceder a mudanças, de expressar a sua oposição de forma enquadrada pelas regras democráticas e pela lei da sua sociedade, mas não pode pensar que em qualquer momento e desde que para isso sinta vontade ou reúna recursos económicos ou militares, pode alterar um projecto político legitimamente sufragado. Por isso a questão do ensino da cidadania passa pela apresentação de uma lista de direitos devidamente enquadrados por uma lista de deveres, para manter o balão de ar seguro a um ponto fixo na terra.

O problema, como foi sempre um problema, trata-se se saber onde está esse ponto fixo, como se apresenta e em nome de que valores, ou do que regras civilizacionais, se pode fazer representar.

É verdade que há sociedades que preferem ver-se como comunidades, e entenderem-se socialmente segundo regras comunitárias, onde o indivíduo é menos importante que a família, ou o seu grupo comunitário. O ponto fixo que prende o balão das ideias e das acções sociais destas pessoas encontrar-se-á noutro tipo de socialização ou de consciencialização sobre as formas dessa socialização. Mas havendo mais do que um ponto fixo, isso deixar-me-á feliz pela diversidade de formas de viver e sigo tranquilamente a vida ou provocar-me-á desejos de comparar a solidez dessas formas para de alguma forma poder escolher a melhor que me aprouver, subalternizando a preterida? Mas que pontos fixos vamos escolher quando toda uma tradição, sob todas as formas de autoridade, me alimentou e encaminhou para essas formas de entender a realidade?

E no entanto as pessoas escolhem fora do quadro de referências da sua comunidade, mesmo se pequena, mesmo se quiser manter-se à parte. Porque não existem ideias de comunidades não transformáveis, existem ideias de indivíduos que querem ver as suas comunidades segundo ideias não transformáveis. E os processos que impedem a transformação são quase todos violentos, implicam sempre restrições à liberdade de expressão e um forte policiamento que assegure a restrição e puna a transgressão. E no entanto, nenhuma sociedade, mesmo a democrática, pode facilitar o processo de transformação, nenhuma pode precipitar-se numa ordem social de participação nos assuntos públicos.

É por isso que a sensação de nariz colado ao vidro a ver os riscos de luz que um carro a rolar aceleradamente nos dá de uma paisagem urbana nocturna é ainda a sensação do indivíduo que olha o processo democrático em andamento.

terça-feira, outubro 16, 2007

Quebrar cadeias e as razões porque e quando o devemos fazer

Recebi um e-mail de pessoa muito amiga a convidar-me a assinar uma e-petição. Ao tentar descobrir o site a que se fazia referência no e-mail descobri esta página do site "BreakTheChain.org" que nos esclarece sobre a necessidade de quebrarmos certas correntes de petições por mais nobres que sejam os seus temas ou preocupações.
Argumentam os autores do "break the chain" que qualquer petição deve ser submetida a sete testes que eles denominam de"Seven Tests of Armchair Activism for Petitions". Esses testes são os seguintes:

1. "Expiration. Does the letter give a timeline for the collection of signatures or a target number of signatures? E-petitions can linger online for months, even years. My experience shows this to be the case, even if the originator put a target date on it to begin with. Petitions that are allowed to circulate indefinitely are seldom compelling and very often continue to circulate long after any usefulness they may have once had has passed. (For example, the Jamie Bulger petition.)


2. Focus. Does the message have a well-defined target and mission statement? Does it clearly spell out what steps or results are desired? Does it solicit and allow signatures only from constituents of the party it's meant to influence? Most e-petitions get you worked up, but make no real statement or demand (For example, the Bonsai Kitten petition), or target an individual who has no authority to make the desired change (for example, the petition to President Bush to reinstate prayer in schools).


3. Integrity. Is someone coordinating the petition to make sure it gets to the proper party in the proper format? Most ask you to send them directly to the party whose actions you are trying to influence. This amounts to an "e-mail attack," costs the recipient time and money and does more to hurt the cause than promote it. (For example, the appeal to the United Nations to stop a war against Iraq.)


4. Privacy. Is there an alternative method for signing, such as a Web site, phone number or snail-mail address? Does the message explain clearly what will be done with the information it collects and by whom? If you are directed to a Web site to sign, does the site include a privacy statement? Remember that there are absolutely no privacy protections for information sent via e-mail.

5. Reliability. Does the message explain clearly who will collect and compile the signatures - and can you trust them? While some petitions actually give you an address to send copies to, most of the creators fail to check with their e-mail provider first and, as a result, their account is usually shut down within a few days. Most e-mail providers prohibit chain letters and petitions in their terms of service. (For example, the petition to stop the Taliban's War Against Women.)

6. Sponsorship. Does the petition's author/originator clearly identify himself or herself and give some way to contact him or her. A well-planned political or social cause will usually have a web site or phone number you can contact for more information on the issue and to volunteer to help. Unfortunately, most e-petition creators prefer to hide behind the anonymity of e-mail. (For example, this campaign to stop a non-existent film about Jesus.)

7. Validity. Does the petition contain facts and statistics with a cited source? In other words, can the claims be easily backed up or do you have to take them at face value? In many cases, the thing you're trying to stop no longer exists or never existed to begin with. (For example, any of the collection of petitions to keep Instant Messengers free.)

If a petition fails two or more of the above, dismiss it as Armchair Activism"


Ora aplicando eles estes sete testes à análise da petição "Protect Children in South Africa" que me tinha sido enviada e que corre on-line desde 2001, chegaram à conclusão que a petição falhava em todos os testes, havendo forte recomendação para quebrarmos a cadeia. As razões, que podem ser lidas aqui, convenceram-me.

Regulação centrada na internet ou nova proposta política

"Para Noam (Eli Noam do CITI da Columbia University) existem quatro modelos aplicáveis à regulação da comunicação actualmente: a centrada na “Internet”; a centrada na TV; a centrada na ideia de “camadas” (layers); e, por último, a centrada nas Telecomunicações. Todas essas análises partem de um principio base de carácter tecnológico, com a digitalização, todos os media (talvez, por enquanto, exceptuando os jornais que existam unicamente em papel) tendem a utilizar protocolos de transmissão dos seus conteúdos e, no actual momento histórico, o protocolo mais utilizado é originário na Internet, depois transposto para todos os media que comunicam com as audiências através de redes digitais: o TCP/IP.

A denominada regulação centrada na Internet, ou regulação zero, caracteriza-se pelo facto de ter evoluído de uma lógica totalmente libertária para a necessidade de ter presente um dado proteccionismo, não para os conteúdos (onde apenas os criminalizáveis devem ser excluídos do acesso por terceiros) mas sim para os que detêm os acessos: os gatekeepers. A lógica de raciocínio é simples, por exemplo, a televisão era um recurso escasso porque os governos decidiram atribuir-lhe um dado espectro. Mas se a televisão não fosse escassa? O que se passaria então? Para os defensores da visão “centrada na Internet” a regulação existe porque nos devemos preocupar com os gatekeepers, tão só. É uma regulação assente na manutenção da liberdade individual de todos face a todos. È uma regulação que possa implementar abertura aos conteúdos sexuais na América, à existência de programas violentos na Europa e anúncios com mulheres guiando automóveis na Arábia Saudita. Ou seja, liberdade de conteúdos. Embora teoricamente tentadora no quadro das liberdades, tal abordagem não se afigura como praticável no quadro de uma sociedade baseada num estado de direito, organizado em torno de consensos obtidos por representatividade e não pelo exercício directo da democracia." Ler mais aqui.

Gustavo Cardoso Director do OberCom

segunda-feira, outubro 15, 2007

A nossa vida

O padre não podia celebrar o casamento daquele casal meu amigo que ali vinha formalizar a sua união perante amigos e familiares naquela sublime ermida da Serra da Arrábida. Naquele amável fim de tarde, o padre estava lá para os abençoar e para nos contar algumas histórias.

Contou-nos o sacerdote o seguinte: chamaram uma vez um padre para assistir uma vítima de um acidente de viação que agonizava ali não muito longe do lugar onde se encontrava, porém o padre respondeu que não podia ir dar assistência ao moribundo porque na realidade já estava atrasado para uma conferência para a qual tinha sido convidado a falar sobre o amor.
A assembleia riu-se. E o nosso padre iniciou a peroração sobre aquele episódio.

Eu, tantas vezes fascinada pelas ideias e pelas palavras, tantas vezes em nome da humanidade, compreendo bem demais, bem demais para o que sinto ser desejável, comprendo aquele padre que prefere a bondade em título do amor à actualização do amor na bondade de um gesto para com uma pessoa. Dá um certo desgosto este privilegiar do universal. Mesmo que se argumente a favor do espaço de liberdade que o conceber um universal dá a cada indivíduo. Mesmo assim. É um desgosto.

Porque julgo eu que a bondade existe para além dos actos ou das palavras bondosas que se podem ter para cada um dos indivíduos com quem nos cruzamos? Porque julgo eu que é mais digno sacrificar-se por uma ideia de bondade do que por um gesto de bondade privado? Porque aquilo que se pode pensar é de uma natureza diferente daquilo que eu posso fazer.
Não nos tornamos bons por pensarmos na bondade, é certo, mas descurar essa reflexão também não nos torna por si mesma melhores.

Se eu estiver em sofrimento prefiro que a meu lado esteja alguém que me console, é verdade. A mim, não à humanidade. Que me tragam a justiça se for vítima de injustiça, que me ajudem a reconstituir a minha saúde se sofrer de algum mal físico, que assegurem a minha segurança se for agredida ou espoliada, que me dêem a mão se eu procurar uma mão. Mas se eu quiser todos os actos de bondade para mim, e cada um os quiser igualmente para si, que ideia de humanidade é esta composta por egos centrados em si? E quando aquilo que eu quiser tiver o efeito de folha de árvore caduca no Outono? Pior, quando aquilo que outro quiser como eu quero, que pense ser seu direito, como eu penso ser meu direito, não lhe for assistido por causa da sua pobreza, ou da sua cor, ou do género, ou da nacionalidade? Onde pode ele encontrar consolo para reparar feridas sociais, políticas e económicas senão numa ideia universal de actos bondosos, ou pelos que asseguram a equidade na aplicação dos direitos, exigidos aos seus governantes?

Por tudo isto o filme "A vida dos outros" conta a história de bondade entre um homem para com outro homem. É diferente da história de bondade de um homem para com um grupo alargado de cidadãos, ou para com a humanidade. E já foi tanto, claro. E se todos pelo menos tivéssemos um acto desses na vida. Mas tanto, e tão excelente, não foi tudo. Mas tudo foi para quem ele salvou. Eu sei.

Penso no capitão Wilm Hosenfeld e em Władysław Szpilman . E penso como tem sido difícil fazer reconhecer o primeiro como um homem a merecer o título de "justo". Houve a justeza de um acto, a ideia de bem centrada na protecção de um indivíduo, e no entanto...

domingo, outubro 14, 2007

A vida daqueles outros

Como eu o entendi ontem, depois da sua visualização pela primeira vez, o filme, que em português recebe o título "A vida dos outros", conta a história de um homem que muda a sua forma habitual de trabalhar não por influência directa das acções ou das palavras dos seus vigiados, mas por influência dos ideologicamente degenerados discursos dos seus camaradas superiores, que, no entender do operacional em causa, estariam a ser mais perniciosos ao regime que os próprios cidadãos indicados como destabilizadores da segurança interna do Estado.
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O filme não conta a história de um agente da Stasi, polícia secreta da então República democrática Alemã, que ao ser incumbido de vigiar um grupo de artistas e intelectuais muda a sua visão da política, e do seu trabalho, por influência directa das palavras ou das acções das pessoas vigiadas.
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É o agente, um operacional solitário, criterioso, estudioso, pragmático, exímio na arte do interrogatório e convencido da absoluta legitimidade da sua acção na defesa de um Estado comunista contra todos os seus inimigos, que inicia a sua própria queda pessoal e profissional, e a dos alvos da sua investigação, quando comunica acidentalmente as suas dúvidas, então ainda académicas, sobre a exemplaridade de comportamento de um escritor nacional famoso e aceite pela cúpula administrativa.

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Quando as suas desconfianças são repetidas por outrem junto do Ministro da Cultura, que tem o poder de interferir na vida dos outros, e o desejo, libidinoso, de o fazer em proveito próprio, a tragédia inicia-se.
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O agente Gerd Wiesler não descura nenhum pormenor técnico ou táctico na sua operação, e tem mesmo a sorte ao seu lado ao menosprezar uma acção de "sabotagem", deixando passar sem castigo uma acção que servira exclusivamente ao grupo vigiado para testar o grau de segurança do apartamento policiado, dando-lhes a ilusão de uma segurança e de uma privacidade que, de facto, não possuíam, contribuindo assim para uma melhor cobertura da espionagem.
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O escritor observado, um político marxista idealista, altera a sua visão acerca do poder discricionário do regime quando um seu grande amigo se suicida. Acontece que esse amigo era um conceituado encenador que o regime indiciara como proscrito impedindo-o de trabalhar. A reflexão iniciada então pelo escritor sobre a inexistência de um número para os suicídios cometidos na planificada Alemanha Democrática, e que irá ser publicada em artigo de jornal no Ocidente, podia resultar na sua detracção e afastamento da ordem social e cultural, mas, paradoxalmente, o agente que o vigia esconde da hierarquia essa acção. Porquê? Porque no dia em que vai entregar o relatório que incrimina o escritor, o seu chefe inicia uma peroração sobre os privilégios dos funcionários de Estado, sobrepostos aos princípios do Estado, e delicia-se na antevisão dos castigos aplicados a artistas, privados de um julgamento, mesmo que sumário, e submetidos a uma detenção em regime de solitária, através da qual se lhes minaria a vontade, destruindo a sua personalidade.
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O agente não está contra o castigo das acções cometidas contra o Estado que defende. Está contra aquele castigo específico, à margem da própria lei da segurança interna, e contra o tipo de legitimidade evocada: o da defesa dos interesses privados. No caso o interesse de subir na carreira, revelado pelo seu superior, e à custa da satisfação dos desejos de um Ministro por uma actriz, namorada do escritor. Como o ministro se queria ver sem concorrência, o processo de incriminação é altamente requerido, para melhor poder subjugar uma mulher confundida entre o dever de lealdade e sacrifício para com a sua arte, subestimando o seu real valor artístico ao aceitar, ainda que passivamente, os avanços sexuais do ministro, e o seu dever de lealdade e sacrifício para com o amor da sua vida.
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Quando no fim, o escritor, já depois da queda do muro de Berlim, dedica a sua obra ao agente que o salvou da detenção, eu julgo que nós não lho podemos dedicar juntamente com ele. E que não pode haver uma simpatia universal por aquele agente. O escritor deve-lhe algo, é certo, e é de um homem bom que reconheça os actos de bondade que para com ele foram cometidos, mas nós não lhe devemos nada, porque a acção do agente foi exclusiva para aquele caso e para aquele indivíduo e não uma acção por princípio contra as regras e os procedimentos gerais do seu próprio regime, não em nome de todos nós. Eu não dedico a visualização do filme ao agente.
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Mais do que uma reflexão sobre o modo como a arte pode incomodar a política, o filme mostra como a política, se exercida como um exercício do poder sem limites, pode perturbar até à insanidade a produção artística e os seus criadores.

quinta-feira, outubro 11, 2007

Filosofia política: eu também me pergunto.


No livro História Crítica da Filosofia Moral e Política, editado em 2004 pela Verbo, os directores da edição, A. Caillé, C. Lazzeri e M. Senellart, surpreendem-se com a ausência, até ao ultimo quartel do século XX, de grandes sistemas filosófico-políticos que servissem de modelo de explicação ou de acção relativos à ordem social. Dizem-nos eles que no século XX se esteve a reflectir sobre a prática política a partir de algumas teorias do século anterior (o marxismo, por um lado, e as teorias nietzschenas acerca do poder e da ordem moral, por outro lado), e, ou, a regular a acção a partir das doutrinas dos partidos, de teorizações económicas, da prática dos sindicalistas e de mudanças de mentalidade de funcionários. Tudo isto os leva a perguntarem-se se os filósofos políticos foram substituídos pelos economistas e sociólogos ou se a filosofia política chegou ao fim. Muito interessante.

Na pátria dela também eu moro, de vez em quando, quando sei o caminho para casa.

Doris Lessing ganhou o prémio Nobel da Literatura.

Um video de Doris Lessing a falar sobre a arte de escrever.


E penso tanto na nossa excelente Agustina. Tanto.

A sombra dos eucaliptos

Para contrabalançar a um momento de pessimismo profissional em excesso, e em riscos de cair num ciclo rebarbativo, procurei uma leitura que me distraísse completamente, fui ler, admito que num estado de enfado, as transcrições das escutas do caso Portucale publicadas pelo jornal O Sol. A náusea provocada pela leitura obrigou-me a tomar consciência do meu corpo que reclamava por ar fresco na cara, tamanha a impudência nos tratos dados aos assuntos públicos em mistura com os pequenos interesses de cada um dos agentes. Sempre é uma distracção para a consciência, o vento na cara.

Quando não servem para as investigações criminais, que quase sempre não servem, as transcrições servem ao menos para comprovarmos que a maior parte dos nossos governantes, ou aspirantes a sê-lo, não sabem falar português. O que nos devia levar a perguntar: quem serão as pessoas que lhes escrevem os discursos que, oficialmente, são enunciados por estas figuras em público? Que é como quem diz, quem é que anda a pensar por eles?

Olho a fotografia dos pequenos estudantes birmaneses. A beleza da imagem, a evocação preciosa de sentimentos bons que a imagem de uma criança a ler me provoca, não me aquieta todavia. Inquieta-me que crianças sejam monjes SEJA de que religião for, onde quer que seja. Já o estudo da religião, a catequese, é uma outra actividade diferente. Como desconheço os hábitos nacionais da Birmânia (Myanmar) admito má interpretação.

quarta-feira, outubro 10, 2007

AMI

No fim da aula, o meu colega Francisco atravessou o campo de ténis e perguntou-me :"A Isabel conhece o trabalho da AMI?" Que sim, sim senhor, conhecia razoavelmente, respondi-lhe. Perguntou-me então:"Não quer trabalhar como voluntária e ajudar no peditório a favor da organização?"
Balbuciei uma meia dúzia de desculpas e esbocei um meio sorriso, declinando a proposta. No olhar do Francisco instalava-se definitivamente um tom de desapontamento para comigo.
Mas, senhor Francisco, se até eu me consigo desapontar a mim mesma frequentemente, o que não acontecerá aos outros? Para si não passa da expressão de uma liberdade, a de me redefinir, para mim é o tormento de viver aquém do que espero de mim mesma. Nem é preciso chamar o diabo, até eu sei fazer esta escolha.

terça-feira, outubro 09, 2007

«Um dia li um livro e toda a minha vida mudou.» 1

É absolutamente frustrante o esforço de ler Orhan Pamuk no seu livro A vida Nova e passar o tempo todo a impedir que o cérebro esteja a burilar as imagens recebidas outrora dos filmes americanos de viagens.
Conheço o país de Pamuk, conheço aldeias, cidades e camionetas que ligam essas cidades, sei qual é o cheiro do “cheirinho” que o assistente do motorista derrama nas nossas mãos, conheci muitos daqueles companheiros de viagem descritos por Pamuk e, no entanto, as imagens dos filmes americanos estão sempre a sobrepor-se às minhas percepções sobre a Turquia. A força do imaginário sobre o real.

segunda-feira, outubro 08, 2007

uma cimeira que se quer de princípios

Angela Merkel “critica, mas não se opõe à ida de Zimbabué a Lisboa”

“O presidente sul-africano, Thabo Mbeki, afirmou estar confiante de que as eleições presidenciais e legislativas no Zimbabué, marcadas para Março de 2008, serão livres e justas e os resultados vão ser aceites por todos.” Agência Lusa


“O primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, afirmou que nenhum ministro do governo britânico vai participar da cúpula União Europeia-África se o presidente do Zimbabué, Robert Mugabe, estiver em Lisboa.” Agência Lusa






Quem vai ver a sua posição tomar mais força: a senhora Merkel (que sendo uma mulher a quem se reconhece fidelidade a princípios não tem no entanto o escolho de ter cidadãos alemães a reclamarem por justiça relativamente ao que um ditador fez com as suas vidas, facilitando a sua tomada de posição conciliatória) ou o senhor Brown (cuja legitimidade para ocupar o cargo de primeiro-ministro começa a ser questionada fortemente a nível interno, sendo ainda que tem que considerar o número considerável de cidadãos ingleses que foram maltratados por Mugabe e quereclamam, justamente, por solidariedade institucional, não podendo, para efeitos de imagem da soberana Inglaterra, aceitar sentar-se à mesma mesa do ditador africano).

Mas esta questão não se prende só com o dever da nossa diplomacia apoiar ou não um aliado como a Inglaterra, ou de fazer parceria com a politicamente forte Alemanha, pois há que ouvir também os líderes africanos, e estes parecem estar a dizer que o Zimbabué não deve ficar de fora da cimeira, não porque essa participação venha a servir de ratificação de um deplorável estado de coisas no que à gestão dos assuntos públicos diz respeito no Zimbabué, como em muitos outros países africanos, mas para enquadrar as acções, obrigando os seus dirigentes, pelo menos, a formularem explicações e prestarem-se a escrutínio dos seus congéneres europeus, pelo facto de estarem presentes. E é em África que se deve começar por resolver os problemas de África.

Nestas alturas o problema da natureza dos valores no que à questão de serem universais ou relativos diz respeito torna-se central. Mas evocar a universalidade sem argumentar contra a relativização, mesmo se numa mesa de uma cimeira, ou sobretudo numa mesa de uma cimeira, parece-me uma oportunidade que não se pode perder.

domingo, outubro 07, 2007

A guerra e os que se estão nas tintas

“(…) Usavas o quico no alto da cabeça, como se não te pertencesse, e quando ia visitar-te ao teu destacamento era uma festa de abraços debaixo daqueles eucaliptos enormes, onde se habitava em condições miseráveis, porque quem mandava em Luanda estava-se nas tintas para nós: bem se ralavam com a nossa sorte e a gente rodeados de inimigos e cães. (…)

Não conheço uma única pessoa que tenha passado por aquele horror na qual não exista uma parte que se mata devagar, em silêncio, numa discrição pungente que apenas os que passaram por aquilo sabem reconhecer. (…)”

António Lobo Antunes, “Zé”, in Visão, 4 de Outubro de 2007, p. 19.


Mas o que é, ontem, como hoje, dizer, como Weber o fez, que um Estado racional-legal se define por ser o depositário do monopólio do uso de uma força física legítima?
Se sempre se pôde demandar pelo tipo de legitimidade consignado para compreender a natureza da ordem evocada para usar a força, mais hoje, com a multiplicação das empresas de forças de segurança privadas a actuarem em cenários de guerra, faz sentido juntar-se à questionação filosófica uma outra da ordem pratico-jurídica: onde fica a delimitação da legitimidade dos Estados quando o monopólio da força por parte do Estado está à venda a retalho?
Como é que os Estados se atolam ainda mais no absurdo de se deslegitimarem perante o uso da força, já por si de fundamentação pouco pacífica?
Quando é que a dor privada do cidadão que cumpre o seu dever se transformou no pagamento privado do infligir e receber a dor? Quem controla o horror, e qual é o nome da instituição ou o nome dos indivíduos que pagam e que se podem estar nas tintas para essa dor?


..
"No Iraque assistiu-se a uma verdadeira proliferação de sociedades militares privadas, movimentando um número de funcionários equivalente ou mesmo superior aos efectivos militares no país, e a quem foram entregues importantes funções militares (nomeadamente logística e segurança), mas também funções de segurança e “para-militares” na prática, como a Blackwater, a DynCorp International e a Triple Canopy.



Ora, as condições e a lógica de actuação dessas sociedades escapam ao controlo das instâncias políticas, tornando-se virtualmente inimputáveis em matéria de direito internacional ou de direitos humanos. "
Açoriano Oriental on line, "Democratas norte-americanos questionam privatização da guerra"

quinta-feira, outubro 04, 2007

"Não, sr. Secretário de Estado"

O meu colega Rui enviou-me um artigo de Maria Filomena Mónica publicado no passado Domingo, dia 30, no jornal Público, por via do blogue De Rerum Natura. Dele constam informações que é do conhecimento geral de muitos professores. Ficaram então públicas as percepções privadas de todos aqueles que sabem porque é que este Ministério da Educação confundiu posições de autoridade nas propostas legislativas com a grosseria dos ignorantes com poder.

"Valter Lemos nunca participou em debates parlamentares, nunca demonstrou possuir uma ideia sobre Educação.
A ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, tem aparecido na televisão e até no Parlamento, o mesmo não sucedendo ao seu secretário de Estado, Valter Lemos. É pena, porque este senhor detém competências que lhe conferem um enorme poder sobre o ensino básico e secundário. Intrigada com a personagem, decidi proceder a uma investigação. Eis os resultados a que cheguei.
Natural de Penamacor, Valter Lemos tem 51 anos, é casado e possui uma licenciatura em Biologia: até aqui nada a apontar. Os problemas surgem com o curriculum vitae subsequente. Suponho que ao abrigo do acordo que levou vários portugueses a especializarem-se em Ciências da Educação nos EUA, obteve o grau de mestre em Educação pela Boston University. A instituição não tem o prestígio da vizinha Harvard, mas adiante. O facto é ter Valter Lemos regressado com um diploma na "ciência" que, por esse mundo fora, tem liquidado as escolas.
Foi professor do ensino secundário até se aperceber não ser a sala de aula o seu habitat natural, pelo que passou a formador de formadores, consultor de "projectos e missões do Ministério da Educação" e, entre 1985 e 1990, a professor adjunto da Escola Superior do Instituto Politécnico de Castelo Branco.
Em meados da década de 1990, a sua carreira disparou: hoje, ostenta o pomposo título de professor-coordenador, o que, não sendo doutorado, faz pensar que a elevação académica foi política ou administrativamente motivada; depois de eleito presidente do conselho científico da escola onde leccionava, em 1996 seria nomeado seu presidente, cargo que exerceu até 2005, data em que entrou para o Governo.
Estava eu sossegadamente a ler o Despacho ministerial n.º 11 529/2005, no Diário da República, quando notei uma curiosidade. Ao delegar poderes em Valter Lemos, o texto legal trata-o por "doutor", título que só pode ser atribuído a quem concluiu um doutoramento, coisa que não aparece mencionada no seu curriculum. Estranhei, como estranhei que a presidência de um politécnico pudesse ser ocupada por um não doutorado, mas não reputo estes factos importantes.
Aquando da polémica sobre o título de engenheiro atribuído a José Sócrates, defendi que os títulos académicos nada diziam sobre a competência política: o que importa é saber se mentiram ou não. Deixemos isto de lado, a fim de analisar a carreira política do sr. secretário de Estado.
Em 2002 e 2005, foi eleito deputado à Assembleia da República, como independente, nas listas do Partido Socialista. Nunca lá pôs os pés, uma vez que a função de direcção de um politécnico é incompatível com a de representante da nação. A sua vida política limita-se, por conseguinte, à presidência de uma assembleia municipal (a de Castelo Branco) e à passagem, ao que parece tumultuosa, pela Câmara de Penamacor, onde terá sofrido o vexame de quase ter perdido o mandato de vereador por excesso de faltas injustificadas, o que só não aconteceu por o assunto ter sido resolvido pela promulgação de uma nova lei.
Em resumo, Valter Lemos nunca participou em debates parlamentares, nunca demonstrou possuir uma ideia sobre Educação, nunca fez um discurso digno de nota. Chegada aqui, deparei-me com uma problema: como saber o que pensa do mundo este senhor?
Depois de buscas por caves e esconsos, descobri um livro seu, O Critério do Sucesso: Técnicas de Avaliação da Aprendizagem. Publicado em 1986, teve seis edições, o que pressupõe ter sido o mesmo aconselhado como leitura em vários cursos de Ciências da Educação. Logo na primeira página, notei que S. Excia era um lírico. Eis a epígrafe escolhida: "Quem mais conhece melhor ama."
Afirmava seguidamente que, após a sua experiência como formador de professores, descobrira que estes não davam a devida importância ao rigor na "medição" da aprendizagem. Daí que tivesse decidido determinar a forma correcta como o docente deveria julgar os estudantes.
Qualquer regra de bom senso é abandonada, a fim de dar lugar a normas pseudocientíficas, expressas num quadrado encimado por termos como "skill cognitivos". Navegando na maré pedagógica que tem avassalado as escolas, apresenta depois várias "grelhas de análise". Entre outras coisas, o docente teria de analisar se o aluno "interrompe o professor", se "não cumpre as tarefas em grupo" e se "ajuda os colegas".
Apenas para dar um gostinho da sua linguagem, eis o que diz no subcapítulo "Diferencialidade":"Após a aplicação do teste e da sua correcção deverá, sempre que possível, ser realizado um trabalho que designamos por análise de itens e que consiste em determinar o índice de discriminação, [sic para a vírgula] e o grau de dificuldade, bem como a análise dos erros e omissões dos alunos. Trata-se portanto, [sic de novo] de determinar as características de diferencialidade do teste."
Na página seguinte, dá-nos a fórmula para o cálculo do tal "índice de dificuldade e o de discriminação de cada item". É ela a seguinte: Df= (M+P)/N em que Df significa grau de dificuldade, N o número total de alunos de ambos os grupos, M o número de alunos do grupo melhor que responderam erradamente e P o número de alunos do grupo pior que responderam erradamente.
O mais interessante vem no final, quando o actual secretário de Estado lamenta a existência de professores que criticam os programas como sendo grandes demais ou desadequados ao nível etário dos alunos. Na sua opinião,"tais afirmações escondem muitas vezes, [sic mais uma vez] verdades aparentemente óbvias e outras vezes "desculpas de mau pagador", sendo difícil apoiá-las ou contradizê-las por não existir avaliação de programas em Portugal".
Para ele, a experiência dos milhares de professores que, por esse país fora, têm de aplicar, com esforço sobre-humano, os programas que o ministério inventa não tem importância. Não contente com a desvalorização do trabalho dos docentes, S. Excia decide bater-lhes:"Em certas escolas, após o fim das actividades lectivas, ouvem-se, por vezes, os professores dizer que lhes foi marcado serviço de estatística. Isto é dito com ar de quem tem, contra a sua vontade, de ir desempenhar mais uma tarefa burocrática que nada lhe diz. Ora, tal trabalho, [sic de novo] não deve ser de modo nenhum somente um trabalho de estatística, mas sim um verdadeiro trabalho de investigação, usando a avaliação institucional e programática do ano findo."
O sábio pedagógico-burocrático dixit. O que sobressai deste arrazoado é a convicção de que os professores deveriam ser meros autómatos destinados a aplicar regras.
Com responsáveis destes à frente do Ministério da Educação, não admira que, em Portugal, a taxa de insucesso escolar seja a mais elevada da Europa. Valter Lemos reúne o pior de três mundos: o universo dos pedagogos que, provindo das chamadas "ciências exactas", não têm uma ideia do que sejam as humanidades, o mundo totalitário criado pelas Ciências da Educação e a nomenklatura tecnocrática que rodeia o primeiro-ministro."

Maria Filomena Mónica

terça-feira, outubro 02, 2007

Um Estado de Direito mal-educado

Não sei o que os psiquiatras presentes pensaram do comportamento dos juízes que ali estavam, supostamente, a esclarecer as posições jurídicas. Eu, que só consegui assistir à última parte do debate no Prós e Contras, fico paralisada de vergonha por ter em Portugal juízes com um comportamento sobranceiro, quando não menos arruaceiro, como o daqueles.
Quem é que andará a ensinar aos juízes como eles deverão comunicar as suas decisões aos cidadãos eu não sei, porque espero que aqueles tiques corporativistas , onde os esgares, a incapacidade de ouvir, ausência de autocrítica, recuo numa posição de defesa a partir da luz da lei, não sejam ensinados por ninguém e sejam assim uma espécie de comportamento de mimetismo inter pares, como se quisessem ser tratados como prima-donas. Comportamento aflitivo da parte de quem tem tanta responsabilidade e tanta formação académica e que, até agora, parece manchar a maioria dos juízes que são chamados a comentar casos mediáticos da justiça, e independentemente das razões que lhes assistem.

A legitimidade da aplicação da lei assenta no uso elevado do tom e no ar de enjoo para com as posições dos restantes concidadãos?

As elites do PSD

"Em geral, as elites portuguesas não se distinguem por nada que tenham feito.
Não têm o hábito de se elevar e, em consequência, resta-lhes empurrar o povo para baixo quando ele se chega muito perto.(...)




(...) as elites do PSD, no fundo, não são tão elites quanto isso. Na tradição nacional, sempre esperaram que o seu lugar lhes fosse guardado e cedido: no conselho da administração como no conselho de ministros. Nos intervalos do poder escolhiam um caseiro para tomar conta do partido. Da mesma forma, estes legítimos representantes da respeitabilidade cavaquista continuam a achar que o PSD tem de ter lugar cativo na sociedade portuguesa, apenas porque sim. Sempre desprezaram a ideologia a favor de um suposto monopólio do "saber governar". Fizeram o elogio dos self-made man para depois os acusar de populismo. Fugiram das causas sociais e avisaram o seu povo para se manter afastado do "politicamente correcto" Repetiram durante anos que a iniciativa pública é incopetente e a iniciativa privada é virtuosa. Lembraram que se fizermos tudo para para beneficiar os investidores e os empresários, o mecanismo do mercado se encarregará de todos. (...) E agora choram: mas este foi o partido que eles fizeram."

Rui Tavares, "Chorai elites" no jornal Público.

...

"Escrito por mim (Pacheco Pereira) no Diário de Notícias em Janeiro de 1998:

O desprezo nefelibata de alguns dirigentes social-democratas, que se consideram "barões" e serem a elite do partido, tem tido com a própria vida interna do PSD, com que não perdem tempo e consideram abaixo do seu standard, tem tido como consequência o entregar dessas estruturas intermédias aos pequenos interesses clientelares, mas também o abandono à sua sorte de muitos militantes sinceros e idealistas que se sentem cada vez mais perdidos. Este divórcio vai-se acentuando, aquele que separa o "partido de militantes" da fundação e dos anos difíceis, como um novo tipo de clientelas que vêem no PSD essencialmente o partido do poder, o partido que detinha o poder, logo os lugares.Basta consultar as biografias de alguns dirigentes locais vindos da JSD ou do aparelho partidário, para ver como nos anos em que o PSD esteve no poder se acentuou a ligação entre os cargos partidários, e os cargos de nomeação governamental, associados de um modo geral à ausência ou ao abandono de qualquer actividade profissional própria, ou seja à perda de independência económica em relação ao partido. Para essas novas clientelas o partido tornou-se o emprego e a carreira política a forma de ascender profissional e socialmente. Por muito que encham a boca como uma espécie de clubismo social-democrata, o partido enquanto realidade política e cívica significa para eles muito pouco. A sua motivação é essencialmente interna - e do poder interno que precisam para manter os lugares. Actuam como um sindicato e estão dispostos a tudo para manter o emprego, mesmo que isso signifique matar socialmente o PSD."
Pacheco Pereira no Abrupto

Análise que se pode fazer igualmente para o PS tendo em conta a sua passagem pelo poder. Vamos ver quanto tempo ele vai demorar a trasformar-se num clube de empregados do poder de Estado.




...


"Cito Santana: "Acho que o País está doido, com todo o respeito. Por isso não continuo a entrevista. O País tem de aprender." Eu sei que a memória do pessoal é curta, mas ouvir Santana dizer "o País tem de aprender", em tom professoral, sabendo nós o estado em que deixou o País, é a mesma coisa que ver um talibã a discursar sobre a qualidade da estatuária budista - não bate certo. É verdade que a SIC se portou mal e que não foi lá muito esperta ao esconder as imagens do que se passou, mas a indignação de Santana é apenas uma mistura de marketing e sobranceria. Pessoalmente, dispenso. Embora numa coisa eu esteja de acordo com toda a gente: é sempre muito mais interessante ver Santana Lopes a sair de um estúdio de televisão do que a entrar nele."
João Miguel Tavares, "ACHO QUE O PAÍS ESTÁ DOIDO, COM TODO O RESPEITO", Jornalista, DN on line

segunda-feira, outubro 01, 2007

"Sê louco comigo quando eu estiver louco e sábio quando eu estiver sábio"

Às vezes penso na lógica dos defensores dos conflitos por via armada, nos partidários da guerra, que ficam tão perturbados quando os seus correligionários entram na política disputando o poder com as mais baixas das armas discursivas utilizáveis, como se nunca tivessem pensado no fenómeno da traição, como se não conhecessem o impulso para a destruição e queda que o seu discurso sobre a defesa da guerra como estratégia de resolução de conflitos faz pressupor.

Péricles, o imprevidente, ainda que sábio estadista, o desesperado amante de Aspásia, ainda que racional dirigente político, foi sucessivamente traído, e sucessivamente o cidadão acreditou na sua cidade e nas suas leis. Os senhores da guerra que lhe sucederam roubaram o esplendor do governo de Péricles e preparam-na, com o princípio do fim da sua glória, para ser dominada. Mas o sistema político iria ser lapidado e renasceria pedindo sabedoria quando a sabedoria é necessária e soltando, preferencialmente em comunhão, a sua loucura quando esta irrompe, como pedia a canção grega.

Saudades, já, das análises no Bloguítica

Certamente que estou incomodada. Não gosto que Paulo Gorjão tenha terminado o seu Bloguítica. É inquietante esta perda de referência e de intuição na análise política. O poder fica menos escrutinado. Que pena.

Também hoje fiquei a conhecer mais dois blogues: o Alto Hama, do jornalista Orlando Castro e o A Escola de Ciência Política (via Revista de Teoria Política).
Fuxo e refluxo não se anulam.

sábado, setembro 29, 2007

valores universais

"Dear Minister
I am deeply concerned by the reports that hundreds of monks and other peaceful protesters, including well-known comedian Zargana and member of parliament Paik Ko have been detained. I strongly urge the Myanmar authorities to release them immediately and unconditionally, unless they are to be charged with recognizably criminal offences. I call on the authorities to ensure that, while they remain in custody, all the detainees are held only in official places of detention, and are given immediate access to lawyers, their families and any medical treatment they may require. I also call on the authorities to ensure that the detainees are not subjected to torture or any other ill-treatment. I call on the authorities to ensure that all people in Myanmar are able to peacefully exercise the rights to freedom of expression, association and assembly without fear of harassment, intimidation or arbitrary detention, in line with international human rights standards. "

Yours Sincerely

Os intelectuais e o liberalismo 5

“A mãe de família muçulmana que só pede paz e o militante que se coloca ao serviço da ideologia totalitária islamista receberam a mesma educação; isso quer dizer que os seus valores são idênticos?”(p. 57) pergunta R. Boudon, ao procurar com ela pôr em causa uma tese difundida de que o conceito de universalidade é um valor exclusivamente ocidental que teria, desde a antiguidade com Sócrates, sido imposto ao resto do mundo como norma. Esta e outras ideias, já que o anti-universalismo está para o culturalismo dominante em algumas análises sociológicas como a defesa das imposições sócio-sociais está para a caracterização do comportamento humano, têm resultados práticos nas teorias políticas. Boudon sabe que muitas das vezes estas teorias estão certíssimas nas seus diagnósticos acerca de realidades sociais e por isso, sendo úteis, e usadas com as melhores das intenções, a de lutar contra os abusos de poder ao lado dos mais desfavorecidos, acabam por ser tomadas como descrições verdadeiras da realidade, ou como mais próximas de uma verdade que afirmam não existir como valor em si.

Sendo a minha formação inicial em Filosofia eu própria refiz, como aluna e, mais tarde como professora, o caminho da história da razão ocidental. E eu própria tive que encontrar os autores que, na contemporaneidade, continuavam a argumentar contra os anunciantes da morte da filosofia, a filosofia como actividade intelectual pela qual se procura explicar as causas dos comportamentos e as crenças de cada um de nós a partir de razões passíveis de serem enunciadas. Fazendo-o sem deixar de ouvir os que defendem uma vertente mais estruturalista ou mais causalista ou mais marxista na compreensão da realidade.
Assim, reiterando as palavras de Max Weber, Boudon concluiu: “Se o actor social crê numa determinada verdade, isto é, regra geral, porque essa crença tem sentido para ele, porque tem razões para acreditar nela, e portanto essas razões representam a causa da sua crença”. p., 62.

É claro que aqueles que preferem teorias em que os conceitos de origem social, de natureza nacionalista, de género, enfim, se impõem como determinantes para a afirmação da personalidade e do comportamento, tenderão sempre a ver as manifestações populares, as escolhas dos outros quando não conformes às suas, como sinal evidente de que as pessoas não agem por razões mas por causas sociais e políticas que lhes podem provocar falsa consciência, os podem ludibriar e socializar a seu gosto.

É muito útil para a publicidade, e para a publicidade política em especial, que se pense assim. É o que permite alguém em certo momento de devario afirmar: "Eu posso vender um presidente tanto quanto um sabonete". E no entanto, este "assim" não é tudo o que se pode pensar sobre as adesões das pessoas. E é por isso que numa sociedade democrática quando alguém elege um grande estupor e não compreendemos as razões, simplificamos e falamos de eleitores estúpidos ou, se mais paternalistas, dizemo-los enganados, ou ingénuos. Em alguns casos pensamo-los mesmo incapazes de decidir por si, defendendo que a democracia não é para esses povos. É um clássico. Eu também acho que há razões estúpidas para se escolher alguém, e que há dominação ideológica. Não será de todo inútil procurar entender as relações de poder quando se dá uma formação ideológica. Não o discuto. Mas, como Boudon, sei que não se pode reduzir toda a análise a esta hipótese de trabalho. É-me muito útil dizer que as pessoas são fantoches enganadas por populistas quando estou zangada com as suas opções políticas e não quero pensar nas razões que as podem ter levado a preferir. É-me útil. É cómodo. Não me obriga a argumentar. Não tem que ser verdadeiro, porém.

É por isso que podemos continuar a pensar em valores universais, sem paralisarmos perante a diversidade de manifestações culturais, sociais ou económicas? Será uma das razões, sim.


Dá é muito mais trabalho ter que ouvir, estudar, compreender e explicar os outros. É mais fácil repetir até à insanidade lugares comuns que nos são cómodos.

sexta-feira, setembro 28, 2007

Os sapatos de António Lobo Antunes

Como brilham os sapatos de António Lobo Antunes na sua fotografia tirada para a Visão. Os sapatos que pertencem a um homem que é ou foi militar, penso. Ou as de um homem ainda vaidoso consigo próprio. E tem toda a razão para o ser, note-se. Só que entre os sapatos de um brilho perfeito e as palavras e a camisa meio amodorradas que ele escolheu usar há uma grande diferença, pois onde Lobo Antunes diz "Acho graça à maneira como, nas entrevistas, as pessoas se tentam compor, se penteiam para arranjar o cabelo, ajeitam a gravata, retocam a maquilhagem. Para quê? Para seduzir? Para tentar que gostem delas? Para fazer boa figura perante os leitores? Tudo isso já me é completamente indiferente", eu leio e digo: - Será ou talvez não.

Nada disto importa, claro e claro é, perante a sua escrita. Mas que os sapatos ali estão a provocá-lo, estão. Ou a mim.
Desde quarta-feira que ando a pensar na Clarinha. A Clarinha dizia-me, de dentro do seu corpo de uma beleza toda em filigrana, que só gostaria de se apaixonar por um homem que escrevesse sobre ela. Não sei o que eu, através do meu olhar lacustre e anguloso, lhe dizia, mas pressinto, conhecendo-me, que devo ter desejado que isso lhe acontecesse e terei certamente sorrido sem uma ponta de ironia pelo seu gosto a melodrama.

Ando a pensar desde quarta-feira na Clarinha por causa de uma notícia que li nessa manhã no jornal Público. O suicídio do casal André Gorz e Dorine. E sei que nesse dia longínquo estávamos a falar da existência um casal assim, de amor que ela pressentia existir em algum lado e que eu nem adivinhava então.

“Sur le papier, j’étais capable de montrer que l’amour est la fascination réciproque de deux sujets dans ce qu’ils ont de moins dicible, de moins socialisable, de réfractaire aux rôles et aux images d’eux-mêmes que la société leur impose, aux appartenances culturelles. Nous pouvions presque tout mettre en commun parce que nous n’avions rien au départ. Il suffisait que je consente à vivre ce que je vivais, à aimer plus que tout ton regard, ta voix, ton odeur, tes doigts fuselés, ta façon d’habiter ton corps pour que tout l’avenir s’offre à nous.”
André Gorz, Lettre à D.

1,2,3, democracia mais uma vez.

Não compreendo duas ou três coisas que ouço por aí dizer a respeito das eleições directas no PSD :
1. A ideia de que estas eleições fazem mais mal que bem ao partido. Não vejo em que é que o processo electivo seja em que estrutura for, e por força de razão numa estrutura partidária, lhe possa fazer mal. As eleições são processos que sustentam o próprio processo de escolha democrática e mal andarão os partidos cujo secretário-geral seja preferencialmente eleito por manobras do aparelho e não por sufrágio dos seus militantes depois de uma campanha. A eleição não foi bem conduzida pelos candidatos? Paciência. Anote-se e vote-se em conformidade. Também há votos de protesto. É o que há, e será melhor saber como se comportam os candidatos em eleições, agora, do que descobri-lo, tarde de mais, nas legislativas. No PS a conquista das eleições por Sócrates ter-lhe-á dado uma legitimidade (política, sem descurar o seu reforço psicológico) acrescida no exercício das suas funções como primeiro-ministro. Obviamente isso não foi garantia de que ele seria um bom primeiro-ministro, mas foi garantia de que, pelo menos, sabe como convencer outrem a votar em si. E isto é o trampolim para o exercício do poder em democracia. E não é uma tarefa fácil. João Soares que o diga, ou Manuel Alegre.

2. A ideia, defendida ontem por Menezes, de que, depois das eleições, tudo o que se disse será eliminado como se por uma esponja, sendo então o momento de incluir e de se aceitar todos os adversários. Se as divergências fossem de ordem estratégica/ideológica faria sentido dizê-lo, mas os dois concorrentes acusaram-se mutuamente de faltas graves de carácter e, pior, de estarem a manipular dados e informações, o que é um caso para sanção disciplinar grave. Dizer que tudo se acalmará depois é não querer retirar consequências do que se afirmou, é reduzir tudo a um (mau) jogo de palavras. Desacredita quem proferiu as sentenças e quem delas foi acusado e não pode reagir com assertividade e exigindo reparação. É um mau hábito fingir que nada aconteceu e que ficamos todos amigos como dantes. Os partidos precisam de resolver crises e não de fingir que elas não existem.

Curiosa a analogia da iconoclasta Filomena Mónica ontem em comentário no Rádio Clube Português. Esta eleição lembra-lhe essas muitas outras eleições no século XIX, cheias de casos de “chapeladas eleitorais” e outras estórias de caciquismo e eleições viciadas. O que faz algum sentido num partido que se denomina como o mais português de Portugal, a comentadora o disse.

3. A ideia de que deve haver uma elevação especial no trato em campanhas entre adversários do mesmo partido para que não se ponha a unidade do mesmo em perigo. Sinceramente. Andámos tão ciosos a defender as realidades políticas dos outros países e quando a passamos a viver portas dentro comportamo-nos como vestais a guardar o fogo juvenil da nossa democracia. O único risco que um partido corre é de não ter vozes discordantes e candidatos dissemelhantes que elevem as discussões e o combate político pelos lugares. A democracia portuguesa pode não ter ganho muito com esta eleição, mas, sem ela, ainda ganhava menos. E alguma coisa os líderes futuros do PSD devem ter aprendido com a experiência. Espera-se. Que a mim só me interessa o futuro de Portugal e não o do PSD, entenda-se que não o confundo com o futuro dos partidos, e no entanto, não o confundindo, também não posso radicalizar na sua diferenciação. Não enquanto não houver uma democracia mais directa.

quinta-feira, setembro 27, 2007

"All humans be free from killing and torturing"


Página editada a partir da original: The Independent
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"Buddhist monks are chanting: "All humans be free from killing and torturing, Our compassion and love spread all over country" and "Peace on earth".
Sein Khaloke
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"Now the junta is reducing the internet connection bandwidth and we have to wait for a long time to see a page. Security forces block the route of demonstrations. Yesterday, the junta told people in Rangoon and Mandalay not to leave their houses from 9pm to 5am. I think if the junta decides, they will cut off communication."
David, Rangoon
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"Myanmar: China não condena ataques a monges" - Pergunto-me porquê, quais serão as intenções do igualmente "democrático" governo da China?
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"A posição chinesa é semelhante à da Rússia, que qualificou os acontecimentos em Myanmar de "assunto interno" que não ameaça a "segurança regional e internacional"."
Pois, a China e a Rússia também têm muitos destes problemas ditos "internos", daí o medo.

quarta-feira, setembro 26, 2007

Os intelectuais e o liberalismo 4

Boudon não vai aprofundar na sua obra a origem histórica da designação de intelectuais, limita-se a dizer-nos que eles se dividem em três tipos distintos: os produtores de ideias, os mediadores de ideias e os consumidores de ideias. É para o nível dos produtores de ideias que ele vai orientar sua atenção, pois será por eles, claro?, que se determinam formas de compreender ou explicar a realidade. O que o leva a querer saber sobre o tipo de motivações que levam esses intelectuais ao seu trabalho de produtores de ideias. Serão movidos pelo interesse de descobrir a verdade? Do saber pelo saber? Ou será que têm outros interesses pessoais e profissionais menos científicos e que passam pela promoção da sua pessoa? R. Boudon encontra três tipos (outra vez esta divisão tripartida) de produtores de ideias: 1. Os “intelectuais que são animados pela libido sciendi.”, p.46. Isto é, os que trabalham no concerto de uma comunidade científica que se apresente como tendo interesse em produzir modelos de explicação eficazes sobre o objecto estudado; 2. Aqueles que “são militantes”, isto é, os que de forma directa ou indirecta procuram legitimar as suas pertenças ideológicas, culturais ou filosóficas, através das suas teorias. Como diz Boudon: “Na linguagem de Max Weber, estes militantes – no sentido muito lato em que me proponho tomar aqui a palavra – obedecem principalmente a uma ética da convicção”, p. 46; 3. O terceiro tipo define os intelectuais que estão interessados sobretudo em tornarem-se visíveis, em “passar na TV”.


Na sua obra de 1892*, Simmel, di-lo Boudon, terá escrito que não há intelectuais que se movam exclusivamente impelidos por uma busca da verdade, sendo que a causa principal da sua produção é sempre o desejo de visibilidade. Eu não conheço esta obra de Simmel. Boudon considera no entanto que este desejo pela visibilidade está muitas das vezes subordinado à actividade do intelectual quer em nome da libido sciendi, quer, também, à actividade em nome de uma ética da convicção. Por sua vez, um intelectual que regule a sua produção científica em nome de uma ética da convicção, em que passe a legitimar com o seu pensamento determinadas formas de pensar e agir contra outras, cai, muitas vezes, no erro grosseiro de tomar a sua verdade pela a verdade. Abandona a atitude que Weber diz caracterizar toda a verdadeira investigação científica: a de manter uma neutralidade axiológica, valorativa, acerca do objecto estudado. Isto pode acontecer igualmente nas ciências sociais ou naturais, acrescente-se.


Para Boudon, os intelectuais estão num mercado de ideias em que a procura é maior que a oferta. Os meios de comunicação, vorazes na procura de informação para preencher as suas 24 horas de emissão, recorrem frequentemente aos intelectuais para estes explicarem, analisarem ou contextualizarem aspectos da realidade social, política ou económica. Ora o que acontece é que intelectuais com mais sensibilidade ao tipo de interesses da opinião pública, ao que as pessoas têm como factos marcantes da sociedade, tenderão a dar resposta a esse interesse, mantendo um discurso que vai ao encontro do que as pessoas esperam ouvir, aumentando assim a sua presença nos órgãos de comunicação, com a consequente influência mediática daí proveniente e com o alargamento social do seu espaço de intervenção.

Ora se os fenómenos marcantes de uma sociedade se prenderem com as reais questões económicas e sociais que possam ter trazido crises, desequilíbrios graves e injustiças sociais, então esses factos tenderão a ser explicados facilmente como uma consequência do liberalismo, e este será rejeitado tanto pelo homem da rua como pelo intelectual na televisão. O intelectual não se esforçará em contrariar a ideia corrente, em procurar apresentar factos que corroborem a sua análise, procurará antes responder conformemente aquilo que ele percebe que as pessoas querem ouvir, dizendo não haver possibilidade de correcção social e económica dentro do quadro de pensamento económico liberal. O que, acrescento eu, é um erro que os próprios intelectuais orgânicos defensores do liberalismo deixam que ocorra, pela sua própria incapacidade de explicarem e/ou compreenderem eles próprios a natureza do liberalismo político, em primeiro lugar, filosófico, em segundo, e, para terminar, até económico. Porque dentro dos defensores do liberalismo económico o espectro alarga entre os que exigem uma regulação social que imponha estruturas que realizem um estado de justiça social e, aqueles outros, mais radicais, que apelam a uma total autonomia e responsabilização do indivíduo na sua relação com a actividade económica. Não se explicam bem, daí, entendo eu, a agressividade intelectual, legítima, dos iliberais.

Mas qual é a fonte dos pensamentos iliberais? Porque são eles aceites por uma maioria da população? As pessoas andarão todas enganadas? Mas então não é o próprio Boudon a reclamar por uma cultura do real? Estarão as pessoas todas formatadas pelos iliberiais, ou haverá razões pertinentes para o serem?
*Einleitung in die Moralwissenschaft, 2 volumes, Berlin: Hertz, 1892-3 [Introdução à Ciência da Ética]

O medo dos que têm o poder de mudar o nome de um país

terça-feira, setembro 25, 2007

Os intelectuais e o liberalismo 3

O princípio filosófico do liberalismo, o da autonomia e responsabilização individual, parte do pressuposto de que o seu humano é um ser racional, e que por isso as suas acções e paixões podem ser compreendidas e explicadas. As explicações que recorrem a causas não explicáveis não fazem parte deste universo teórico. Claro que isto é extremamente útil em termos políticos. Se admitirmos que todas as acções públicas de imposição de uma ordem social podem ser explicadas, estamos a inferir quer todas as acções devem ser explicadas perante os afectados por essas acções, não havendo aqui lugar a registos discursivos desculpabilizantes ou desresponsabilizantes.

Mas esta compreensão dos indivíduos e dos fenómenos enquadrados pelo modelo da psicologia clássica (que entendia o ser humano como essencialmente um ser racional) não restringirão a compreensão mais aprofundada da acção humana, nem sempre consciente, nem sempre racional? Assim o pensaram todos os investigadores que preferiram sempre explicar a acção do indivíduo a partir de categorias psicológicas, de estruturas sociais ou culturais que determinavam a acção individual. Por outro lado, a nível da análise social o que se ganha na procura de causas irracionais por contraponto à explicação racional? Se nos ativermos exclusivamente às causas racionais, alguma coisa de fundamental do indivíduo se poderá perder, mas se privilegiarmos as causas irracionais da acção, curto circuitamos a nossa análise social, ou, mais grave, bloqueamos a nossa acção cívica de participação política (pois se nos ativermos a analisar extensivamente as nossas intenções mais profundas, não agiremos ou exigiremos uma acção pautada por critérios de selecção racionais, explicáveis e autónomos). Daí que sublinhe estas palavras críticas de Boudon: “Continua-se a considerar que os comportamentos e as crenças dos homens são efeitos mais ou menos mecânicos do seu meio envolvente.”, p. 40.

Ora, Boudon reforça o interesse em manter os métodos de compreensão e análise da acção humana provenientes do modelo clássico de psicologia racional desde Aristóteles, como regra, por contraponto aos métodos utilizados contemporaneamente em investigação pelas Ciência Sociais, que adoptaram o método de análise dos construtivistas e dos culturalistas nas diferentes áreas de estudo, no seguimento dos métodos de investigação propostos no início do séc. XX por psicanalistas, behavioristas e marxistas. Salvaguardando o papel real que estes últimos tiveram na expansão do conhecimento e da compreensão do ser humano e do mundo, Boudon reclama pelo recolocar no centro das investigações das ciências sociais o papel do indivíduo entendido como sujeito autónomo, uma matriz de pensamento liberal, propondo reconfigurar as explicações positivistas, marxistas, estruturalistas ou psicanalíticas que recorrem a causas psicológicas ou sociais não racionais.

Pergunto eu, mas então estas visões científicas, estes modelos explicativos não respondem bem às investigações que são conduzidas no seu campo? Boudon responderá que sim. Que esses modelos explicativos respondem a procuras, mas acrescenta ele, essas teorias sendo úteis, não serão necessariamente verdadeiras e, para mais, há teóricos que não procuram tanto a verdade quanto procuram obter um determinado efeito político através das suas teorias. Certo. Mas a questão é: qual é a teoria que não provoca um efeito político? Não conheço. Mesmo a do senhor Boudon, escrita em nome da verdade. Senão, também, da utilidade? Reconheço no entanto haver diferenças ao nível dos métodos e das intenções entre uns e outros. Por isso qual será o próximo passo? Pensar sobre quem são os intelectuais e como investigam eles?

segunda-feira, setembro 24, 2007

As palavras que eu gostava que os editores tivessem escrito quando publicaram notícias sobre o conteúdo do diário de uma mulher sob investigação.

Kate por Francisco José Viegas no JN.

"Um dos epicentros desta tragédia aconteceu, no entanto, quando a polícia resolveu apreender - dando-lhe existência - o diário de Kate McCann. No extraordinário mundo do segredo de justiça português há sempre formas de os documentos chegarem à imprensa para proteger um dos lados do conflito - porque se trata de um conflito entre duas trincheiras armadas da sua fé. Quando a imprensa veste a pele de moralista, faz figuras ridículas; ao tentar um assassinato de carácter na figura de Kate McCann, o retrato foi absurdo. Não ocorreu apenas nos jornais portugueses. Os ingleses, espanhóis, franceses e brasileiros, davam largas à sua capacidade de indignação subtil ao afirmarem que, preto no branco, no segredo do seu diário, aquela mãe achava que as crianças eram histéricas, que Maddie era hiperactiva e que o marido não ajudava a tratar dos gémeos. Daí se inferia, na alma popular incitada pelos jornais, que estava tudo escrito e que a polícia ia deitar a mão (com base em quê?) àquela mãe cruel. Ora, todas as mães chamaram histéricos aos seus filhos e todas já acharam que eles eram hiperactivos. Todas já acharam que os maridos não as ajudavam. Todas elas, em algum momento, pensaram na sua vida sem filhos. Todas elas têm vida para além dos filhos e nenhuma delas está exclusivamente destinada, como se fosse carne para canhão, à carreira de reprodutora, puericultora ou educadora de infância. O que os jornais quiseram fazer com a "caracterização psicológica" de Kate McCann a partir de fragmentos escolhidos do seu diário é, francamente, uma filha da putice. O leitor conhece a expressão."

Os intelectuais e o liberalismo 2

Quais foram então os caminhos que Boudon abriu para a questão que o inquietou, a saber, o antagonismo expresso dos intelectuais às ideias do liberalismo?

É claro que Boudon distingue o liberalismo filosófico do político e estes do liberalismo económico, porém, resume que qualquer destas esferas pode ser unificada sob a égide da ideia liberal que defende “que as entidades colectivas, as classes sociais, as nações, o Estado e os Partidos, etc., são constituídos por indivíduos: rejeita o holismo.”, p. 15. Esta identificação ideológica é curiosa e é uma identidade filosófica, é uma ideia ocidental que tem uma história que não exclui as pessoas que se dizem de esquerda, nem, por si, identifica imediatamente as pessoas ditas de direita. Aliás, ainda há poucas semanas, já não recordo em que jornal, o socialista Mário Soares reforçava a sua ideia de inequívoca adesão aos ideais filosóficos do liberalismo, refutando tão só as ideias do liberalismo económico. Esta não é uma contradição ideológica, não num socialista de matriz ocidental. E o contrário também é verdade. Quantos liberais económicos não se sentiriam profundamente perturbados na construção da sua identidade quando se reclamasse para eles uma defesa de valores, igulamente denominados de liberais em termos filosóficos, de construção de uma ordem social mais assente na ideia de indivíduo e no reforço da ideia de uma “sociedade composta por indivíduos que procuram maximizar o seu bem-estar”, p.18, mais do que na ideia de coesão à volta das normas de grupo, na tradição familiar ou social, por exemplo.

Boudon parte também da definição filosófica de liberalismo. É sobre esta corrente do pensamento que ele investiga movimentos de aceitação ou negação, sendo que por ela se afirma “o indivíduo tem a aspiração de dispor de uma autonomia tão ampla quanto possível e quer ser respeitado na sua dignidade na mesma medida em que respeita o próximo”, p. 14. Dito isto, porque será então, segundo Boudon, que os intelectuais dos anos 50 aos nossos dias se têm mostrado tão adversos a seguirem as ideias liberais?
Porque:
a) Os princípios filosóficos do liberalismo terão sido frequentemente violados pelos preconizadores de uma sociedade liberal, defraudando assim as expectativas de toda uma gente que via nesses princípios uma boa teoria para ser aplicada numa prática social de regulação da ordem pública, onde a individualidade não implicava a defesa de acção do mais egoísta e do mais forte a promover desigualdades sociais sem legitimidade funcional.

b) Os modelos explicativos da sociedade segundo a teoria marxista continuam a ser utilizados pelos intelectuais, porque continuam a dar respostas úteis quando se procura explicar a sociedade. Daí o recurso a termos como os de “classe” ou “luta de classes” mesmo por parte de académicos que não advogam o marxismo como ideologia política. São termos que se sedimentaram melhor se os compararmos com as explicações das representações da sociedade em torno de ideias como as de estratificação social por "tipos ideais", “estatuto” e “teias de estatuto” (Weber e Pareto).

Na verdade, digo eu, a explicação de Gramsci permite uma análise curiosa da sociedade nas suas relações comunicacionais de poder. É um modelo que tem como pertinência teórica procurar uma resposta interessante, e culturalmente forte, para a questão de saber como as ideias se formam, se divulgam e se institucionalizam, por exemplo. Este modelo assenta na divisão da sociedade em duas classes que se opõem: a dos que têm poder de tornar homogénea a sua cultura e a sua ideologia (os detentores do capital financeiro e/ou capital de conhecimento e informação) por contraponto à classe dos trabalhadores. Hoje seria uma divisão entre os que detêm o poder de informar e os que procuram, ou estão sujeitos, ao processo de informação (reinvenção da clássica luta entre a classe dominante e a classe dominada).

Para Boudon, este fascínio teórico pela “luta de classes” explica-se por “o marxismo ter dado uma aparência erudita, e com ela legitimidade, a um modelo conspirativo eterno: a teoria da conspiração (conspiracy theory) De acordo com esta teoria , todos os males que se podem observar nas sociedades seriam devidos a uma conspiração dos poderosos, que dissimulariam os seus desígnios debaixo de nobres intenções”., p. 25.

Este argumento, sedutor, peca, quanto a mim, do mesmo defeito que ele apontou aos argumentos marxistas para a definição de sociedade. Boufon fica seduzido pela ideia de que é o gosto popular por uma teoria da conspiração que promoveu tão grande concordância à teoria marxista, quando a prática filosófica revela que a origem, ainda que dubitativa, não parte senão de uma observação das reais condições de vida de uma sociedade altamente estratificada como era a do século XIX, para mais tendo Marx lido e procurado assimilar o modelo filosófico de Hegel, que não é, nunca foi, um teórico da conspiração, senão um sistémico à procura de uma explicação para os movimentos de transformação (para a dialéctica) dos processos naturais, sociais, históricos ou ideológicos.

O que os neo-marxistas terão feito com as ideias de Marx, na década de sessenta e setenta, ou que eles tenham enveredado por defenderem ideias que, ao seguirem nessa linha de uma popularmente atraente explicação assente numa teoria da conspiração entre classes, tivesse levado a generalização dos diagnósticos marxistas de uma eterna luta de classes a acontecer em todos os domínios sociais, também me parece uma conclusão exagerada. Pese embora eu não saiba como contra argumentar contra a ideia decorrente da anterior e que leva Boudon a escrever que “A ideia de que a cultura é um veículo da reprodução das classes assumiu o estatuto de ideia feita. E continua a impregnar fortemente os meios do ensino e da cultura /Harouel, 1998 (1994)\”, p.27.

Mas se a cultura não é , de alguma forma, uma reprodução das classes, é o quê? E como se chega a essas conclusões? Com que métodos e assente em que teorias explicativas?

quinta-feira, setembro 20, 2007

Os intelectuais e o liberalismo 1

Raymond Boudon parte do pressuposto que eu considero correcto ao analisar o seguinte problema: porque razão a maior parte dos intelectuais ( classe que ele divide os produtores de ideias, os consumidores de ideias ou os mediadores de ideias) atacam o liberalismo? E o pressuposto de que o autor parte é de que há razões cognitivas que expliquem essa opção ideológica, logo há que identificá-las e sistematizá-las. Convenhamos, é um progresso relativamente às análises que nos dizem que um intelectual é por força da razão um anti-liberal porque é… uma pessoa inteligente ou aquela outra explicação que advoga que o intelectual defende ideia iliberais porque é um ressentido economicamente, isto é, não recebe o dinheiro suficiente pelo seu trabalho, daí a reacção negativa ( ideia à senhor Nozick!). Estas duas espécies de resposta bloqueiam a argumentação, há que ir por outros caminhos. Boudon fê-lo.

Birmânia

"Na Birmânia a esperança começa a sair do ponto morto: "Milhares de bonzos de vários pagodes estão a manifestar-se nas ruas em protesto contra a junta militarl" [The Guardian]; "Os sacerdotes budistas, vestidos com as habituais túnicas avermelhadas e com o crânio reluzente ao sol implacável de Rangoon, marcham em longas colunas silenciosas pelas ruas onde são ladeados por milhares de laicos que os aplaudem. Os bonzos mostram à sua maneira tranquila e disciplinada que reprovam o modo como o regime militar comanda o país há 45 anos. O acto é simbólico, mas extraordinariamente poderoso neste país fechado, com 60 milhões de habitantes impregnados pelo budismo" [Mas Constant, repórter do Le Temps de Genéve].


(...)

"Estes tiranos que se impõem através do terror estão a ser abalados por alguns bravos. Infelizmente, o mundo permanece mudo. Há declarações de preocupação, apenas isso. É absurdo o mito de que a junta militar é insensível a pressões. Importa agir, com a União Europeia e a ONU à cabeça. Para começar, impor prazo para libertação de presos políticos. Se não cumprirem, aplicar-lhes sanções económicas. Não podemos continuar a abandonar o povo da Birmânia" [The Independent].

Seleccção de notícias sobre Myanmar (a Birmânia) por Sena Santos no Diário de Notícias on line

quarta-feira, setembro 19, 2007

Caracóis e imperiais bem geladas aqui para esta mesa, se faz favor.

Ando há semanas para escrever sobre um, ou dois ou mesmo três livros.
Li um livro nas férias do verão. Um livro pequenino que começava com uma pergunta. É, como eu gosto.
Ando há semanas também para falar das exposições sobre comunicação política que ouvi e registei na Universidade do Minho. Por isso, ando há semanas a tentar assestar os meus neurónios para aquilo que é e não para aquilo que eu julgo que deve ser. Nas cidades como nos sistemas institucionais, nas pessoas como nas casas.
Não vou falar dos cochichos e sorrisos larvares, a roçar o esgar, dos secretários de estado da Educação deste meu país durante um programa de debate na televisão, assim como assim entre as atitudes e comportamentos de indisciplina deste meu ministério e a atitude leviana do Ministro dos Negócios francês a falar de guerra eu aguento melhor com os nossos meninos tonecas. É o fado. E não vou falar do estado do sistema de educação no que à ausência de ideias, uma que fosse, para orientar o trabalho de formação da identidade do cidadão. Não, o ministério comporta-se como associação patronal que exige números para exportação e há-de atingi-los, e havemos de figurar nos relatórios da OCDE em lugares mais convenientes. E alguma coisa tinha que ser feita, não digo o contrário. Não vou falar disto. Nem vou dizer que nunca o ministério da educação me pareceu tão bem guardado com a duplicação de forças de segurança à porta, ou será tão acossado? Estamos todos a atingir o zénite educativo e não nos sentimos agradecidos, ingratos que somos. Não vou falar disto. Dos horários absurdos daqueles alunos que irão fazer em dois anos o ensino básico obrigatório, ou da multiplicação de cursos e cursinhos em cada Escola, nem da falsidade de se afirmar que fecharam escolas sem condições, ou que agora é que os professores estão a ser avaliados adequadamente, enfim. Nem daquilo, do debate dos pretendentes a líderes do maior partido de oposição. É porque se começar a falar sei que vou começar a defender mudanças de regime e outros temas quejandos que não domino a não ser com a emoção.

Vou falar de um livro, pequenito, que eu li nas férias. É um livro de Raymond Boudon. Não conhecia o autor de lado nenhum quando comprei o livro. Comprei o livro porque depois do título me chamar a atenção, a tabela de conteúdos me convenceu. E gostei de conhecer o senhor Boudon. É um francês que escreve sobre política e filosofia com a simplicidade de exposição de ideias anglo-saxónica, mas sem descurar a comparação com a filosofia continental. Mais abrangente, desde logo. Não concordo com tudo o que o filósofo/sociólogo escreveu, mas aprendi com ele, e, sobretudo, considero que ele procurou claramente responder a uma pergunta fundamental daquelas que cabe no objectivo mais vasto que é o de sabermos como se formam as nossas crenças/atitudes, do ponto de vista de uma sociologia das ideias, vamos lá, que nem sabia que esta área académica existia e já estou convicta da sua necessidade absoluta. Utilizando na sua análise a perspectiva da racionalidade cognitiva, e não a psicológica ou a de determinismo social, por exemplo. Método mais próximo do da filosofia, portanto. O livro intitula-se Os intelectuais e o liberalismo, e começa com uma pergunta: porque é que os intelectuais, entenda-se os produtores de ideias (ena, começamos logo com um vocábulo marxista a assinalar o trabalho do intelectual), na sua grande maioria, recusam o liberalismo?
Será? Porquê, então? Ou, porque não?

segunda-feira, setembro 17, 2007

Lista lusófona de blogs de pesquisadores em comunicação

Do Brasil vem o trabalho de listar, e o interesse em divulgar, os blogs de investigadores na área das Ciências da Comunicação. A ideia foi de Rogério Christofoletti que assim apresenta neste seu directório uma lista lusófona de blogs de pesquisadores em comunicação, lista ainda em aberto, sob o título Monitorando. Uma boa ideia.
A investigação científica precisa de comunidade crítica que se conheça e se confronte no plano das ideias, dos métodos e das provas, em espaço público, pese embora muitos desses blogs não serem espaços de exclusiva intervenção académica dos investigadores seus titulares.

sábado, setembro 15, 2007

Acções

por Darfur

coalition for Darfur

palavras

Há certas palavras que eu escolho, certas palavras que eu alinho, que têm o sentido de criaturas lanzudas enredadas sobre si próprias, com um efeito de badalo acrescido. Servem para me avisar onde é que eu estou. Palavras de maiúscula civilizadora: liberdade, igualdade, verdade, justiça, modernidade, universalidade, pátria, solidariedade, individualismo, democracia, filosofia. Palavras públicas, que sobre as outras talvez espere uma outra história. Que absurdo.
Mas as palavras são a minha dificuldade em pensar.

Sou impelida para certas palavras como as ovelhas umas de encontro às outras quando faz calor. Podemos pensar na razão porque é que criaturas cheias de lã, a arfarem sob um sol escaldante, não se afastam umas das outras e procuram uma sombra. Não as que eu conheço. Elas põem a cabeça junto ao chão e apertam-se umas contra as outras. As criaturas, e as palavras que eu conheço. Que absurdo. Ainda se eu finalmente aprendesse, ou soubesse para além desta música nas palavras que me comove mas não se pensa.

Alain Badiou. Democracy, Politics and Philosophy 2006 1/5