domingo, fevereiro 10, 2008

Crise 1

Dizem que as crises, pessoais ou sociais, são criativas. Mostram-me quadros pintados que nunca o teriam sido não fora a vivência do artista em períodos políticos de ditadura. E decifram, com alegria, uma linguagem velada de liberdade manifestada num meio de opressão.
Será verdadeira a ideia, para os que a fizerem verdadeira com o seu exemplo. Mas será uma ideia pedagógica?

Os deveres dos aliados

"NATO encerra reunião Lituânia com críticas ao governo afegão"

Enquanto os países tiverem um discurso de apoio às decisões e intervenções multilaterais para depois na prática procederem à perseguição de interesses de forma unilateral será difícil fazer com que as populações e alguns dos seus dirigentes acreditem na ideia de dividir sacrifícios e de prestar assistência. O jogo dos interesses, da tal política real, cai nisto: nas políticas de pressão ou capacidade de influência de individualidades. O jogo dos princípios, se conhecidas as regras, e aceites as mesmas, teria com certeza um outro nível de participação e exigiria um outro tipo de comportamentos. Mas não, pretende-se actuar de maneira diferente para o que se diz ser uma realidade diferente. Depois ficam muito surpreendidos com as reacções dos autóctones que escapam ao programa desejado.

O problema é que as sociedades não reconhecem os critérios de intervenção armada como sendo rigorosamente universais e estáveis, nem reconhecem autoridade à maioria dos dirigentes que falam em nome daqueles. Bom, pelo menos não o fazem de forma crítica, porque em situação de perigo iminente essa adesão à ideia de necessidade de uma defesa imediata e mais agressiva poderia facilmente vir a ser aceite por uma opinião pública inundada de notícias pró conflito.
Mas como estabelecer critérios que sejam aceitáveis por todos os envolvidos e que exijam um compromisso escrupuloso das suas ideias directrizes? Como transformar os interesses de cada nação, diferentes entre si, pelas histórias, desejos e vontade de dominar distintos, numa acção conjunta que tenha por primeiro objectivo o interesse geral?

Ele há imagens culturais com muita força

Hoje no teatro, no belíssimo teatro Tivoli, o Peter Pan pôs toda a gente em pé e a cantar que acreditava em fadas, e cada um saberá do seu próprio convencimento acerca do que cantava, mas todos, miúdos e graúdos, cantaram pela Sininho.

sábado, fevereiro 09, 2008

Três presidentes prováveis 2

O Website de McCain mostra-o numa fotografia em primeiro plano em pose de líder de audiências como apresentador de um talk show. Homem de sorriso aberto, simpático, em poses informais, dois braços abertos com polegares levantados a festejar e a fechar um círculo com os seus apoiantes. Não esquece obviamente de fazer uma chamada especial de atenção para a sua história de herói militar. Qualidade que rende dividendos políticos desde a antiguidade, o que não impediu muitos heróis de serem mortos ou maltratados pela sua cidade/sociedade, o filósofo Sócrates que o diga.

Obama tem uma página bem documentada da campanha e faz render bem as suas recentes vitórias e as suas conquistas procurando criar o efeito "onda de vitória". Ele quer convencer os indecisos e que tradicionalmente tendem a votar no candidato que mais hipótese tenha de ganhar (diz a teoria), a juntarem-se a esta equipa ganhadora considerando a hipótese mais que provável. Enfim, discurso de ocasião. A página tem bastante informação e estende-se por vários ecrãs. Ao lado de um símbolo que tem estilizadas as cores da bandeira americanas o senador apresenta-se a olhar para o "longe" rodando a cabeça ligeiramente sobre o ombro direito. A boca entreaberta não lhe dá um ar sonhador, pois o sobrolho ligeiramente franzido e que lhe fez semicerrar os olhos atribui-lhe a qualidade da atenção para algo que se passa ao longe e sobre a qual ele parece ir falar a seguir.
A página está bem estruturada e permite um fácil acesso à informação que a sua equipa considerou mais pertinente. Além disso muda frequentemente a imagem e a notícia a que quer dar destaque. É uma página muitíssimo dinâmica em termos de apresentação. E tem uma frase cheia de significado democrático, que sabe bem ouvir dizer: "Eu peço-lhe que acredite. Não apenas na minha competência para transformar realmente as coisas a partir de Washington...eu peço-lhe que acredite nas suas."

A página tem para mim um defeito: não permite que saíamos dela através do comando "retroceder". Detesto esta técnica, lembra-me logo as estratégias da publicidade manhosa, spam, que nos aparece às vezes no computador.

Clinton tem uma página com fotografia em pose presidencial, confiante sem ser confiada (não se foi primeira-dama em vão). Tudo nela muito em ordem. O cabelo, a maquilhagem, a roupa (ainda que pouco se veja porque a candidata é fotografada do pescoço para cima), o sorriso e um olhar amigável. As cores são as da bandeira, como todos os outros candidatos o fizeram, e sob o seu nome próprio (é curioso que se escolha um nome próprio para se propor à presidência, obviamente uma estratégia discursiva de fazer ver o que é obvio, ela não é mais um Clinton a candidatar-se, é ela, Hillary que até é casada com um antigo presidente americano.) uma linha de bandeira.

Na hora em que estive ligada à sua página o destaque maior era dado ao dinheiro que a candidata já tinha angariado e uma proposta para que a ajudassem a subir esse número. Uma página muito pragmática, orientada para as pessoas que a queiram auxiliar com o seu trabalho na campanha ou venham a financiá-la. Menos política e mais dinamizadora de campanha. Uma página menos idealista, com menos estilo pessoal, que a de Obama, mais formal e mais precisa que a de McCain.

Três presidentes prováveis

De todas as pessoas que leio ou ouço nos meios de comunicação que comentam as eleições americanas em Portugal, a única a quem dou total assentimento aos seus argumentos e concordância total com a perspectiva de análise é a José Cutileiro. Reparo no artigo deste sábado no Expresso “Terça-feira gorda nos Estados Unidos” e deixo-me cativar por uma escrita que destaca o fenómeno da participação elevada dos americanos nestas primárias (lá se vai a teoria política sobre o fenómeno de despolitização crescente das pessoas nas sociedades contemporâneas e a sua consequência num sempre crescente número de abstenções) e fala da Hillary Clinton como a senadora de Nova Iorque, e de Barack Obama como senador do Illinois e de John MacCain o senador do Arizona. Fala do candidato republicano e dos candidatos democráticos, não fala da mulher ou do negro ou do herói do Vietnam. Fala de senadores, de pessoas políticas com projectos para a América, fala e bem dessa sociedade que durante anos, e porque os Media lhe pediram, se entregou nas mãos de um líder e de um pensamento político que levou os Estados Unidos, e o mundo por arrasto, para mais uma encruzilhada ideológica perigosa imbuídos da crença que essa era a melhor estratégia para a nação e que agora, de forma empenhada, parece querer demonstrar com o número da sua participação nas eleições a bater recordes, que está atenta, que quer decidir e que quer escolher, porque despertou do torpor idiota que os terá adormecido embalados pela ideia de “quem não está por mim, está contra mim”.

A sociedade americana não está a escolher o negro ou a mulher ou o herói, está a escolher políticos, senadores com obra feita, está a seleccionar ideias, está a dizer o que prefere numa pessoa para o cargo de presidente. Não é o sexo ou a cor, ou por si um passado militarmente glorioso que são eleitos. Isto parece-me uma análise da sociedade do século passado, do tipo: “Olhem, incrível, um negro, ou uma mulher a poderem ocupar um cargo da natureza a que se encontram a concorrer!” É retirar à pessoa o que ela ganhou com as conquistas ideológicas promovidas e divulgadas pelas declarações dos direitos do homem. Não há que reparar no que é óbvio. São aquelas pessoas, com a experiência que acumularam, com o carisma que possuem, com o dinheiro que conseguiram angariar para as suas campanhas, com os apoios que conseguem obter, com as ideias que defendem e o comportamento que manifestarem, que vão ganhar. Não me parece que seja por serem ou mulheres ou negros ou só homens brancos a disputarem as eleições o que leva as pessoas às urnas numa américa do século XXI, mas sim o que essas pessoas têm a oferecer de diferente, ou a propor na governação do país, por serem candidatos credíveis numa América que tinha muitos candidatos por onde escolher.
Ali não há imposições dinásticas ou golpes de Estado, não há candidaturas únicas ou auto consagração. Existem propostas diferentes com pessoas diferentes. É por isso que se compreende que a mais mediática das mulheres americanas, Oprah, venha dizer que escolheu apoiar Obama por concordar com as suas ideias mais do que com as de Clinton, e isso sem a impedir de continuar a ter um papel fundamental na promoção dos direitos da mulher e de contribuir no mundo para impulsionar a conquista dos lugares de poder pelas mulheres. Mas impulsionar candidaturas de mulheres não equivale a assumir que só por ser mulher se deva deixa de poder estar em desacordo com o que ela diz ou faz. Dizer que as mulheres devem candidatar-se em número correspondente ao seu lugar na sociedade, e incentivar a que esse fenómeno se generalize, não é idêntico a garantir um lugar de poder só por ser mulher. O mesmo para a cor. Isso seria repetir o mesmo padrão de selecção dos últimos séculos e que em muitas sociedades continua a ser uma realidade: é homem, é branco e tem dinheiro? Então manda porque pode.




Paul Haggis, li no jornal Público de ontem, está a levantar com o seu filme “No Vale de Elah” (que ainda não vi) uma questão fundamental para o futuro dos americanos: o que pensam vocês que vai acontecer com os soldados que estão a vir do Iraque? Esta questão vai mais longe do que a mera constatação de uma realidade como é a de que esses soldados não estão a ser devidamente acompanhados pelo Exército no seu regresso. Isto é mau. Mas pior parece-me ser o que daqui possa advir no que a uma ordem interna dos Estado Unidos diz respeito. Dir-me-ão que as sociedades têm uma grande capacidade de resistência e de integração das pessoas. Que os soldados e as suas histórias serão devidamente escalpelizados pela indústria cinematográfica o que dará à imensa maioria um meio de sublimar a sua dor. Talvez haja uma pequena minoria a soçobrar, e que sendo lamentável não será inibidor da estrutura social tal como ela se conhece, mas eu duvido que estes milhares de soldados a chegarem, e tendo os meios de comunicação digitais ao seu dispor como nenhum outro soldado da história o teve, não tragam consigo uma mudança social, nos modelos sociais e no tipo de projectos políticos futuros. Infelizmente não sei prever em que direcção essa acção ou pensamento se encaminhará. Sou péssima a fazer previsões. Não sei se daqui sairá um maior reforço à Carta das Nações Unidas ou um outro documento internacional sobre conflitos, ou se, pelo contrário, se procurará fechar mais o país sobre si próprio e os seus problemas internos, suspendendo, ou invertendo as políticas externas mais agressivas. Seja como for, e como Cutileiro o destaca, o que se pode dizer é que, por agora, “os projectos de qualquer dos três presidentes prováveis em Janeiro de 2009 acabarão com os lados mais ofensivos, iníquos e ruinosos da política da administração actual e as relações dos Estados unidos com a Europa Melhorarão”.
Espero que a prática confirme esta hipótese.

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Agitação de águas à superfície

Houve um tempo em que o programa “Choque ideológico” que passava diariamente na RTPN contava com um filósofo, Paulo Tunhas. Nos dias em que Paulo Tunhas debatia os temas com Paulo Varela Gomes, pelo menos nos dias em que o ouvi, Tunhas, de forma lacónica, e não raras as vezes, dizia nada ter para dizer porque sobre o assunto não tinha opinião. Ao constrangimento que eu própria como espectadora comecei a sentir pela disposição evidenciada foi sucedendo o sentimento de surpresa que se transformou, com o tempo, em convicto assombro. O homem nada tinha para dizer, logo não dizia. É de filósofo. Foi de lá corrido rapidamente, ou deu-se a si próprio como corrido, porque afinal o programa alimentava-se da discussão entre pares e não de uma demonstração da exigência de um tempo longo de ponderabilidade intelectual. Eu dava comigo a pensar, parodiando Nani Moretti no seu filme Abril: “Ó homem diz qualquer coisa filosófica. Diz qualquer coisa, vá diz.”

Há muito tempo que queria escrever sobre este episódio. Não sei porque o faço hoje aqui. Podia dizer que é porque ando para falar de um conjunto de temas para os quais não encontro palavras. Não é que eu me queira comparar em atitude à de Tunhas, não, porque eu não sou filósofa e por isso opinião lá isso eu tenho sempre, tal como o cãozinho de Pavlov salivava quando ouvia a campainha eu boto faladora quando oiço a palavra opinião, a questão está em que não tenho é palavras. Ou disposição para me sentar e encontrar as palavras. Para falar do conceito de crise, ou de ética, ou de deontologia profissional, ou de análise política de eleições a partir da questão do género, ou das pessoas da minha pátria que ciciam, ou das outras que dizem bem alto o que deve ser dito, mas que depois da excitação inicial que as suas palavras provocam são tomadas de uma reserva cúmplice para com uma ideia de estabilidade social que ninguém sabe o que é, nem sob que virtudes públicas deve ser fundada. Agitação de águas à superfície. Como seria interessante saber o que dessas correntes é arrastado para o fundo e cria lastro cultural.

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Plataforma democrática

Hoje descobri este espaço de participação política: uma página belga com uma equipa editorial que faz as perguntas e medeia as respostas no La Libbre.be.
Atente-se no destaque dado às eleições americanas e o nível de participação dos internautas por comparação ao interesse dos mesmos sobre a questão relativa ao futuro da União Europeia em 2008. Os números dos participantes no debate não enganam. O interesse está no continente a Noroeste.

Na mesma página pode encontra-se este texto muitíssimo interessante de Jean-Jacques Delfour intitulado Les pousse-au-jouir du président Sarkozy , pese embora a referência aqui deixada seja a de outra página electrónica.
Aqui fica o texto de análise à personalidade do presidente francês o mesmo que se comporta como um adolescente fascinado com o exibicionismo que o dinheiro e o estatuto social dos papás lhe dá. O sublinhado é meu: "Les discours du président Sarkozy exaltent le travail, l’effort et l’autorité tandis que ses pratiques glorifient l’argent, la jouissance et le narcissisme. Étrange contradiction. Ses déclarations renvoient à des idéaux réfléchis, à des missions universelles ainsi qu’à des devoirs moraux ; mais ses actes semblent pulsionnels, particuliers et égoïstes. Curieuse incohérence. En réalité, la jouissance est la vérité du discours de l’effort, tout comme la tyrannie est la vérité du programme présidentiel.
Pendant des mois, le même slogan ressassé : « travaillez plus pour gagner plus ». Un éloge bienvenu du travail ? Bien plutôt l’annonce benoîte d’une adoration absolue pour l’argent (confirmée expressis verbis autant que de facto : yacht, jet privé, etc. – où l’on a vu que le président jouit surtout de l’argent des autres). Le but général : gagner de l’argent, à n’importe quel prix. Traduction : rien de moins qu’un esclavage, subjectif pour le riche, objectif pour le pauvre. Toujours plus d’argent, donc toujours plus de servitude, supposée vite oubliée devant la jouissance totale procurée par l’argent.
La tyrannie de l’activité (ou le simulacre de l’action) : le président ressemble à un enfant pathologiquement hyperactif, qui dissout son angoisse dans une agitation stérile et acéphale. Inquiet de l’amour qu’on lui porte, souffrant d’un complexe multiforme, il se dépense en efforts permanents de séduction. Séduire les électeurs des autres (Front National et centre droit), les militants des autres (les transfuges du Parti Socialiste), les femmes des autres. Un enfant œdipien en somme, mais qui est enfin parvenu à plier la réalité à l’empire de ses désirs. C’est pourquoi il ne peut s’empêche de s’exhiber : sa jouissance ne consiste pas seulement à posséder mais aussi à susciter l’envie. Je jouis, à la galerie, donc je suis. La morale est désormais désuète, la bienveillance politique caduque : reste la jouissance, le plaisir d’être adulé, obéi, admiré, envié. Triste tyrannie du désir insatiable d’être aimé.
Le fondamentalisme religieux personnel élevé au rang de politique de la République
: la foi catholique, intense sentiment intérieur, source d’une jouissance rendue supérieure par sa référence présumée à la transcendance et à l’infini (les leurres classiques de la folie mystique), doit donc devenir une règle publique. Jouissance de détourner le lourd appareil de l’État au profit de ses petites croyances personnelles. Plaisir de poser son séant sur la Constitution (pied de nez à de Gaulle). Tyrannie de la jouissance religieuse (éprouvée grâce à l’idée d’une valeur suprême, d’une vocation totalement noble – en vérité un héroïsme de bénitier).
Immédiatisme, hédonisme, activité morcelée et éruptive, désir d’être apothéosé, culte de la jouissance sans limite. Tel est le programme inconscient du président Sarkozy. D’où une fâcheuse proximité pulsionnelle entre le raptus du roi de la rupture, la jouissance onaniste et la délinquance ; le voleur en effet veut lui aussi une satisfaction immédiate : pas de travail, pas d’attente, pas de négociation avec le réel. Jouir hic et nunc.
En cela, nulle rupture avec les présidences antérieures qui, cependant, s’exhibaient moins. Une sorte de honte caractérisait les corruptions du président Chirac et le président Mitterrand dissimulait ses prévarications – ce qui laissait encore fonctionner publiquement la norme de la justice et du droit. Le président Sarkozy se distingue d’eux par une telle exhibition de la jouissance qu’elle en acquiert un statut politique, effectivement renversant. À la subalternation juste de la pulsion au pouvoir politique, il substitue une subordination réelle du pouvoir à la pulsion. À promouvoir politiquement la jouissance, on établit la tyrannie.
Dès lors, le discours récurrent de l’autorité, l’éloge interminable de l’ordre, deviennent nécessaires. Il faut masquer l’anarchie pulsionnelle à la fois pour contenir sa propagation et en assurer l’existence au lieu seul du pouvoir. C’est pourquoi la demande sociale d’ordre et d’autorité, originairement suscitée par l’illimitation du capitalisme et par l’extension de l’anomie, est accrue précisément par l’hédonisme présidentiel public.
Plus le président affiche la tyrannie de ses pulsions, plus le « peuple » désire cette jouissance par procuration et, simultanément, s’effraie de l’inquiétante abolition des limites impliquée par cette jouissance. L’excitabilité sociale augmentant du seul fait du statut normatif du chef de l’État, l’attente de contentions répressives s’en trouvera automatiquement accrue. Ainsi, loin d’être mystérieusement concomitantes, l’exaltation de l’ordre et la promotion de la jouissance forment un unique système, où la jouissance du maître a pour condition la frustration pour (presque) tous les autres."

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

As reformas e o seu povo

Levámos o rapazinho a ver um desfile de Carnaval. O acto em si já era demonstrativo de um estado de espírito nosso que pressuponha que a participação no Carnaval passava antes de mais por um acto de contemplação, para usar um termo menos perverso e mais filosófico para nos descrever nesses momentos em que nos quedamos a olhar as acções dos outros, como se de fora viéssemos e aí quiséssemos ficar. Ficar a olhar o Carnaval…dos outros. Como se o ritual nos incluísse exclusivamente pelo acto de ficar a olhá-lo. Aconteceu na Nazaré. O rapazinho fixou, boquiaberto, os grandes tractores, os bonecos pintados, as roupas extravagantes, arregalou os olhos com a música estridente, marchou à passagem dos grupos que se movimentavam em rodas de cor. O rapazinho gostou de ver.
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A mãe e o pai do rapaz suspiraram, fizeram um sorriso triste um para o outro e encolheram os ombros, e o menino nem notou as reticências. O desfile…o desconforto com a situação, a incapacidade de nos ligarmos, de criarmos empatia com o acontecimento, a sensação de alheamento e de tristeza que perpassava por toda aquela audiência que mesmo assim se amontoava para ver passar os carros alegóricos.
No seu conjunto todos nós fazíamos uma mole cinzenta e preta, com agasalhos excessivos para o dia que apesar de tudo ia agradável. Uma multidão prevenida, pois não vá chover, não vá fazer frio à noitinha, não vá vir a nortada que o mar está ali a meia dúzia de metros a lembrar que é mais que a gente toda junta a olhar para os bonecos. Um Portugal de gente prevenida, de quem sabe que o diabo gosta de tecer as suas coisas.
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Sossegados a olhar, pardos na forma do corpo e tolhidos no movimento que não lhe deixam vislumbrar, ali estava o público. Passa o conjunto de um grupo todo gaiteiro em cima de um camião. Tocam para animar e pedem palmas ou gritos de incentivo e de entusiasmo, a multidão olha-os, reservada. Está circunspecta como em dia de procissão do Senhor dos Passos. Hoje é quarta-feira de cinzas mas nós todos já cá estivemos, ontem dia de Carnaval. Mesmo os que procuravam contrariar a multidão circundante, gingando as ancas e cantarolando as musiquitas. Mais unidos pela inércia do que pela participação festiva.
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Quem desfila finge que não vê os forasteiros que ali no passeio os vêm passar, por desfastio uns e outros a encenarem os seus papéis, mas olha, olha, como ali à frente já se acena e se sorri à família e aos amigos.
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Uns mais que outros, os grupos compõem a sua coreografia, para chamarem a si as atenções, quase sempre pífia: as atenções e as coreografias. Por comodismo, por falta de brio, de profissionalismo diria eu se não soubesse que muitas horas de trabalho amador ali se manifestam, sobretudo por falta de paixão e entrega. De dinheiro também, claro. Mas não é a falta de dinheiro que leva a que se amontoem casacos e latas de cerveja sobre os carros do corso, não é falta de dinheiro que faz com que os grupos se encostem aos molhos de três ou quatro, parados a conversar, a beber ou a fumar de cada vez que o cortejo pára, não é a falta de dinheiro que cobre a radical ausência de imaginação ou de loucura criativa, num pouquinho de atrevimento que fosse. Tudo quase previsível no desleixo das apresentações, na ausência de dinâmica de grupo.
Os tractores a desfilarem como se em manifestação de agricultores zangados com o ministro, não ajudavam, os carros mal decorados e com os geradores a produzirem um som mais alto que o da música, também não, os movimentos mal estudados e pior pensados dos grupos de baile, igualmente mau, tanto quanto a cadência do desfile a raiar o estado de sonolência. As roupitas da maioria dos desfilantes…bom não vou por aqui.
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Claro que também havia momentos de júbilo aqui ou ali. Um grupo grande de jovens raparigas adolescentes, animadas, alegres e cheias de graça, encantavam com os seus meneios, e perdoava-se-lhes até o inebriamento de cada uma por si própria e o esquecimento do seu serviço ao grupo. Pareciam uma nuvem e o efeito era engraçado.
Um outro grupo de mulheres mais maduras dançava ininterruptamente um samba suave, obedecendo à coreografia e criando uma execução de grupo agradável. Houve até um carro que desfilava a evocar o filme infantil Ratatui, bem conseguido nos adereços e com boa projecção para o exterior. Também não recorreram à ideia fácil de porem mulheres nuas a dançarem o samba. O que para muito homens deve ter resultado num prejuízo para a festa. Eu considerei o facto positivo. O que mais me impressionou no entanto foi ver três mães a desfilar levando consigo bebés pequenos. Uma delas sobretudo marchava levando ao colo uma pequenita adormecida, igualmente trajada com o mesmo rigor que a sua mãe. Comoveu-me. E isto num Carnaval que devia ser a celebração da loucura e da folia e eu vou logo emocionar-me com a mãe que leva a sua menina ao ombro enquanto procurava acompanhar as suas colegas a cantar e a dançar. Eu bem disse que tudo aquele sentimento me parecia mais próprio ao sentido numa procissão das velas. Mas havia ali uma grandeza numa linguagem popular e emocional que eu entendi. Foi assim.
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E os homens? Confesso que me pareceram todos patéticos, ou então sem espaço para se me imporem pelo que quer que fosse: pelas roupas ou pelas coreografias, pelo arrojo ou pela virilidade, pela diferença ou pela loucura. Quase sem história, não fosse eu recordar o desvelo e o carinho com que três ou quatro “comandantes” já de meia-idade trataram uma jovem “hospedeira” que um imberbe “comissário de bordo” arrastara pelo chão no decorrer de uma cabriolice mais estúpida do que engraçada.
Um dia brinquei de encenadora com As Bacantes, e li o que Eurípedes fez com os seus homens. Sei assim como eles se podem metamorfosear. E não os vislumbrei por ali. Mania minha.
- "Olha, agora traz para aqui Eurípedes... já cá faltava o apontamento erudito!"

Não sei se se sentia o distanciamento entre o público e os participantes no espectáculo. Eu sei que senti esse distanciamento. Mas isto de percepções valem o que cada sujeito quiser que elas valham.

Não há empatia a circular por ali, sentem os pais do menino, e no entanto não pode deixar de haver simpatia, talvez uma certa piedade pelo destino comum de que não gostamos, que não desejamos mas que de alguma forma reconhecemos. Conhecemos aquele cansaço, aquele ar mortiço, as cores debotadas dos cabelos e dos sobretudos, a gordura a mais de muitos corpos sem ânimo, a parolice de ficar a olhar a fraca festa de Carnaval dos outros, ou o desleixo de um desfilar sem brilho pela avenida abaixo e rua acima. Conhecemo-nos de outros Carnavais.


Saí de lá com mais um argumento para o facto de estar profundamente convencida que Portugal precisa de referendar rapidamente o regionalismo. Da primeira vez votei contra. Imaginei Portugal governado por milhares de homenzinhos como Alberto João (com a minha devida vénia aos milhares bem gastos em infra estruturas na Madeira) ou ao Pinto da Costa (com a minha vénia às vitórias do FCP). Votei contra. Parva. Imaginei ser preferível um país centralizado a ser governado por homenzinhos como Barroso, Santana ou Sócrates. Pelo menos, pensava eu, estes podem ser mais fiscalizados pela imprensa e pelo público. Parva. Como se não houvesse ou não pudesse haver imprensa regional igualmente com vontade, que o poder talvez seja mais débil, de ser tão fiscalizadora quanto a outra. Como se o povo de cada região não soubesse exigir mais de cada político liberto da desculpa do governo central ser um empecilho à política regional. Como se o povo português, que no seu conjunto parece apagadito, temeroso ou inerte, feio mesmo com as suas roupas sempre escuras, não fosse formado por indivíduos que se olhados na sua singularidade revelam forças: um carácter esforçado, empenhado, um brio em fazer bem assim entenda como, um espírito de sacrifício, uma vontade de cumprir metas, assim saiba para que lado elas ficam.
O que falta aos portugueses não é vontade de aceitar ou de fazer reformas, o que lhes falta, como sempre lhes faltou, foi quem lhas explicasse com respeito pelas suas opiniões e pelas suas experiências de vida. Faltou sempre quem amasse as multidões não pelos votos que delas pudesse receber mas pela ideia de democracia que só elas podem fazer evocar. Quem amasse a democracia, tanto quanto o povo em nome do qual se exerce o poder, amasse tanto a liberdade de cada indivíduo tanto como compreendesse esse amor inquestionável por um princípio. O resto são sevícias sociais. Não são reformas.
Um banho de loja e uma ida ao cabeleireiro também ajudava, não resolvia tudo, mais ajudava a dar mais cor ao pessoal enquanto espera que o desfile passe. Na Nazaré como na vida. Parolices, isto também, eu sei.

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Estados caseiros que se reflectem no mundo

"A organização de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch (HRW) acusa a presidência portuguesa da UE de ter comprometido a posição assumida pela anterior liderança europeia (da Alemanha) face a violações dos direitos humanos na Rússia.

No seu relatório relativo a 2007, ontem divulgado, a HRW lamenta que a questão dos direitos humanos não tenha lugar de destaque na agenda UE-Rússia." in JN

"A HRW sublinha que a realização de eleições não basta para definir um regime como democrático e que pretender o contrário significa desvalorizar os direitos humanos.
A organização documenta, aliás, vários tipos de manipulação de eleições que vão da fraude ao controlo do aparelho eleitoral, do bloqueio de candidatos à censura dos media. "Muitas destas tácticas são ilegais, mas raramente as potências chamam os governos a responder por elas", diz a HRW. "
Ao permitir a autocratas apresentarem-se como democratas, sem lhes exigir respeito dos direitos cívicos e políticos que dão sentido à democracia, os EUA, a União Europeia e outras democracias influentes arriscam-se a minar os direitos humanos em todo o mundo."
Segundo a HRW, os interesses económicos, comerciais e de segurança têm levado vários países a aceitar "um simulacro de democracia" em países como o Paquistão, o Quénia ou a Rússia. "Parece que Washington e os Governos europeus aceitam a eleição mais duvidosa desde que o "vencedor" seja um aliado estratégico ou comercial", critica o documento. c Mundo, 18 in Público


E no dia da Cimeira UE-Rússia citei aqui aqui no post "Diga, diga, Sr. Putin?" as palavras de alguém a quem a nossa presidência não quis ouvir ou dar importância. E são tantas essas experiências que é difícil continuar a olhar para o lado.

quinta-feira, janeiro 31, 2008

As coisas como são e não como deviam ser

Na realidade este Ministério da Educação não tem mentido. Uma pessoa é que de tanto querer pensar no como as coisas deviam ser se esquece de analisar as coisas tal como elas são.
A resposta sobre o que se entende por escola está dada: 1. espaço de ocupação do tempo das crianças e dos jovens enquanto os pais cumprem as regras do mercado de trabalho ou dão vazão à sua preferência pela área profissional como factor identitário da sua personalidade (alargamento do horário escolar no ensino público); espaço de preparação para a vida económica (aprendizagem do inglês como língua de emprego universal seja a servir às mesas seja como programador informático ou neurocirurgião); espaço de mediação cada vez mais alargado da entrada dos jovens na vida activa e no reduzido mercado de trabalho das economias ocidentais (prolongamento da escolaridade obrigatória e incentivos financeiros às famílias); proletização do ensino, reduzindo os professores a meros vigilantes com alguma técnica de controle de grupos e superficiais conhecimentos sobre as matérias a leccionar, que deixam cada vez mais de corresponder ao cânone clássico das disciplinas a leccionar e procuram dar resposta aos supostos interesses dos jovens que na realidade são os meros interesses de uma sociedade de mercado que sabe que sai mais caro a tê-los como delinquentes fora das aulas do que pequenos delinquentes dentro das aulas e/ou da escola.

Para obrigar os professores a tornarem-se vigilantes, ou "professorzecos", o Ministério teve que desconstruir a imagem que ainda lhes podia restar de alguma autoridade ou poder num espaço profissional que conhecem melhor que qualquer teórico, ministro ou secretário de estado que andou a ler umas coisitas de educação segundo os códigos americanos ou do pós-modernismo francês. Até agora a formação humanista da maioria dos ministros da educação, ou a sua educação cívica, tinha-os impedido de afrontar a dignidade da posição institucional do professor (que este ministério deliberadamente confundiu com qualquer coisa como uma tentativa dos professores se subtraírem às suas obrigações em nome de uma coisa como direitos instalados).
A ideia social de uma classe não resulta só do reflexo do trabalho dessa classe sobre a sociedade, mais, como funcionários do Estado, os professores dificilmente se conseguiriam descolar da imagem que o Estado lhes atribuir, porque o seu papel individual se deve confundir, quando em exercício de actividade lectiva, com o seu papel social: representantes do Estado na reprodução de uma identidade social ou na criação de competências que o Estado requerer para si próprio.

Os professores passaram a ser como quaisquer outros assalariados sem formação especial, sem qualidades especiais, a quem o Estado concede uns salários para acompanharem as actividades que irão formar uma grande maioria de outros assalariados sem formação especial. Mas então, o sucesso imposto por decreto pela administração há-de colocar-nos à frente nos números de sucesso escolar da OCDE. Porque como em muitos países não há reprovações, como em muitos países o que se tem feito é adequar o ensino aos alunos, nós também o vamos fazendo, indo até ao nível onde os alunos se encontrarem e, como o senhor Bush dizia "Nenhuma criança será deixada para trás", e nenhuma criança será deixada para trás faça ela, ou não faça, o que quiser. Porém, e quando chegar o dia em que a mesma política de um qualquer outro senhor Bush disser: "Estes adultos não têm a formação necessária, vivemos numa sociedade em que as pessoas devem responsabilizar-se pelos seus destinos, não devem descansar as suas obrigações na ideia de um Estado paternalista, se têm formação universitárias mas isso só lhes garante um registo administrativo, defendam-se?"

Então o milagre da educação da Irlanda ou da Finlândia ou da Coreia do Sul ou ainda da Baviera, na Alemanha? Não é ele próprio um reflexo do milagre económico? E ainda, os professores não tiveram tempo para demonstrar as suas competência e capacidades para resolver os problemas do insucesso e o abandono escolar antes das desastrosas intervenções deste Ministério? Só agora é que acordam?
O milagre económico não surgiu antes do milagre da educação nesses países. Em todos eles se reforçou o papel de autoridade do professor no espaço aula e sobretudo o papel social do professor na comunidade, não se tratou só de uma aplicação de dinheiros públicos na educação (porque isso dizem os entendidos foi algo que se fez em Portugal sem obter resultados) mas instituiu-se uma política de ensino que diferenciou o que tinha que ser diferenciado: criar qualidade e exigir qualidade mas separar o ensino em ensino técnicoprofissional ou em ensino geral-universitário. Sendo este governo o dos licenciados em politécnicos admira não terem criado de forma universal, estruturada e consciente uma rede de escolas profissionais.
Depois, as regras de funcionamento das escolas ou dos processos educativos nunca foram criadas pelos professores. Ninguém lhes perguntava nada, iam acrescentando leis e decretos ao sabor das tendências governativas, e dava-se-lhes a ilusão de que se contava com eles como funcionários de excelência na regulação e manutenção do Estado português pela educação. Claro que muitos dos professores estão no sistema pelo emprego, como milhares de outras pessoas trabalham para ganhar um salário, e cumprem o mínimo. Mas a imensa maioria dos professores esteve sempre a cumprir escrupulosamente as legislações, a prestar-se a todos as fiscalizações. Eram poucas? Eram feitas com pouco sentido crítico? E a responsabilidade é do fiscalizado ou de quem tem o dever de fiscalizar? Vamos ver se o novo regime de progressão da carreira docente serve para melhorar a qualidade do trabalho a prestar ou serve, como eu julgo, exclusivamente os interesses economicistas do ministério em reter o maior tempo possível os professores em níveis salariais inferiores. Alguém acredita que havendo quotas, e havendo claramente um excesso de professores com boas classificações para ocupar esses lugares, os que ficarem de fora vão sentir o seu trabalho recompensado?
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Agora dizem-me que tudo vai mudar. Que no conselho de gestão das escolas vai finalmente passar a haver presidentes que irão pôr na linha os professores, porque não se lhes dá sequer a hipótese de estes poderem ser a voz dominante na escola. Para quê? Este ministério já lhes disse onde era o seu lugar: vigiem os alunos enquanto os anos passam e eles não se tornam adultos.
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Os professores que concorreram sistetamaticamente em concursos públicos desde o dia em que terminaram a sua licenciatura e com números clausus bem apertados, para ingresso nos ramos educacionais, para estágio, para a entrada na primeira escola, para a entrada em todas as escolas, para o quadro, para a mudança de escola, para fazer mestrados, doutoramentos, para fazerem cursos de formação, que deram constantamente provas públicas das suas habilitações e são diariamente avaliados pelos seus alunos, são agora remetidos ao lugar de subalternidade social profissional que permite a este governo, e deste para o futuro, fazer com os novos professores, pagos a recibos verdes, o que com eles bem entender, e com os outros hão-de tentar desprestigiá-los ao ponto de só os mais necessitados ou infortunados de entre eles se dedicarem ao ensino em Portugal.
E depois deixarão ser escolhidos por concurso público, porque, dizem, em cada Escola/autarquia alguém se encarregará de escolher os melhores. Ah, pois serão, serão mesmo os critérios de escolha, públicos e passíveis de serem fiscalizados. Ora aí, então, é que a objectivadade e a qualidade autonómica do ensino atingirá o seu zênite. Pois.
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À boa maneira do amigo americano, onde o papel subestimado do professor na maioria dos estados daquela nação só tem equivalência na ideia subestimada do saber e da disciplina. Mas depois a ordem capitalista há-de precisar de dar-lhes uma vassoura para as mãos e de ir recrutar os quadros ao exterior, assim como assim. E mesmo isto da vassoura é só no caso de não vir logo anexado às vassouras made in China um assalariado que fique mais barato e que manifeste melhores métodos de trabalho e de disciplina.

quarta-feira, janeiro 30, 2008

A escola por reformar ou uma ideia de reforma social para a escola

Para além da tremenda injustiça social que é o estatuto de carreira docente, dos abusos cometidos em nome de um Estado nitidamente em luta contra si próprio, não para se refazer, o que seria interessante num país de Estado monolítico há décadas, mas para se desfazer de si, e consigo levar a identidade social, ou ainda do que se está a querer fazer com as reformas absurdas para a direcção das escolas secundárias, o que mais me preocupa é a ideia de educação que gere o tempo presente. Dizem-me: "Esquece, não reajas, entra em greve de zelo crítico". Mas isso será como uma espécie de injecção de conformismo perante a inevitabilidade ou a arbitrariedade de leis que são simulacro de solução para o ensino. Como se não ousássemos pensar para além da imediata reacção às coisas por reflexo emocional.
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Mas o que há a pensar? Em primeiro lugar o que queremos reproduzir através da Escola, em segundo lugar o que queremos criar através da Escola. E não me digam que não é nada senão uma resposta espontânea às necessidades imediatas da realidade social, porque isso é uma mentira pós-modernista, e não me digam que têm um projecto iluminista de aperfeiçoamento da realidade social, porque eu também não acredito, sobretudo porque questiono a ideia de aperfeiçoamento ou o modo como se seleccionam e aplicam os critérios para avaliar esse aperfeiçoamento. É o quê? Uma sociedade mais livre, mais justa, mais equitativa, mais democrática, mais crítica, mais conformista, mais pragmática, mais funcional, mais economicista, mais produtiva ou mais coesa, mais soberana, mais sábia? E a Escola é o quê? Um centro de ocupação dos tempos livres, um centro social, uma clínica de apoio psicológico ou um centro de detenção ou um meio de atrasar a entrada no mercado de trabalho de milhares de seres humanos? O quê?

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Uma estrela dentro do bolso

Lido no blog Sobre o tempo que passa : "Por nós, gostaríamos que a justiça comandasse o direito e que os princípios gerais de direito conformassem leis e regulamentos, fecundando a lei posta na cidade, a que chamamos direito positivo e que é flagrantemente injusto em muitos dos respectivos segmentos, agora reduzidos à defesa dos interesses dos instalados.
(...) O Terceiro Estado tem que se livrar desta sucessão de corporações que explodiram em vitalidade, exactamente quando se declarou oficialmente extinto o corporativismo.
A propósito do bastonário, dez observações sobre a corrupção: 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10"
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Quem tivesse ido este fim-de-semana passear junto ao mar na Meia Praia encontraria centenas de pequenas estrelas-do-mar espalhadas pelo areal. A maior parte já seca. A tentação de pegar uma e pô-la no bolso só teve equivalência com a perturbação que a constatação do fenómeno nos induziu. E no entanto...nada ali parece ser desnecessário, nenhum acaso acidental de intervenção do homem. Apenas o ciclo da natureza que merecendo ser questionado não pode ser moralizado. Entra a ciência do mar e sai a moral. Ainda que não a ética, que vem a ombrear com a posição do cientista.

domingo, janeiro 27, 2008

As reformas sociais ideais existem

É claro que existem as reformas ideais, são aquelas que cumprem pelo menos uma das três condições aquando do seu exercício: 1. A maioria dos governados, e os que por ela são directamente afectados, acredita nessa reforma ; 2. A maioria dos governados, e os que directamente por ela são afectados, percepciona a utilidade da reforma; 3. A maioria dos governados, e os que por ela são directamente afectados, aceita essa reforma como algo desejável ou necessário. A história fala-nos de reformas assim em democracia, dão é muito trabalho aos políticos que as promovem e divulgam, ou necessitam de muita mais inteligência do que aquela que uma agência de comunicação consegue fazer vender, tal como aquela que ensinou a este governo: as reformas passam se puserem as classes profissionais todas umas contra as outras e a população toda contra a função pública.
Não foi trigo limpo aquela solução, pese embora durante um tempo tivesse funcionado quase perfeitamente. Agora que a população reage a este tipo de discurso, que o estratagema perdeu credibilidade ou utilidade, movimentam-se as mesmas forças. Como? Demonstrando os seus argumentos? Fazendo fé nas suas decisões através de uma atitude democrática do entendimento da opinião pública (que o fenómeno existe apesar de não estar completamente determinado)? Não, que isso implica que se queira realmente ouvir as posições que da nossa diferem. E mais, que respeitemos as pessoas que não concordam connosco. É muito melhor pois colocarmo-nos numa posição de iluminados que estão em marcha e trazem nas mãos um facho de luz à néscia população que se inquieta e tem a ousadia de, em democracia, protestar.
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Depois há as outras reformas, as que são impostas a golpes de soberba ou de falsa consciência sobre a necessidade, defensibilidade ou crença colectiva na reforma. A história também nos dá a conhecer muitas destas. São reformas com prazo de validade, e Portugal tem compêndios delas para mostrar a quem quiser. E de certa forma ainda bem, porque em democracia tudo tem um benéfico prazo de validade quanto às ideias que contra ela concorrem tanto quanto os ministros que dela fazem uso para impor as suas agendas pessoais.
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Utilizar uma linguagem "comicieira" para criticar uma linguagem dita "comicieira", não vejo onde esteja a justeza do apontamento dito crítico. Se as pessoas enunciassem a razoabilidade das medidas em situação, e não no papel, que as reformas aportam à sociedade, se conseguissem convencer pela argumentação, talvez alguma posição pessoal ou pública mudasse, assim através de relatos sentimentais de uma defesa do governo ou, mesmo que de um ataque ao governo fosse, ficasse com a sensação de se estar a fazer um frete a uma posição ideológica assente na adesão emocional de uma ideia de reforma deste governo pela ideia de reforma deste governo. Coisa pouca como argumento.

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Estados caseiros1

Hoje li no JN: "A profissão de professor é aquela em que os portugueses mais confiam e também aquela a quem confiariam mais poder no país, segundo uma sondagem mundial efectuada pela Gallup para o Fórum Económico Mundial (WEF). " Desgraçadamente para o país, a ministra que coube em sorte à educação não pensa de todo desta maneira. Não só combateu com armas desiguais e sem nobreza o magro prestígio dos professores, normalmente uma classe que sempre acatou conformadamente todas as ordens e desordens dos sucessivos ministros da tutela (porque não há que confundir, como esta ministra quis fazer, o hipotético poder dos sindicatos dos professores com o real pouco poder dos professores), pessoas que tentam passar as mensagens educacionais/culturais do momento e valores mais assentes na partilha de conhecimento, numa tentativa de equilibrarem a sua função com a sua ideia de função.
O que se está a preperar na educação é exactamente igual ao que se está a passar na saúde, reformas que serão necessárias mas feitas sem reflexão e sem se escutar os verdadeiros conhecedores dos problemas, numa tentativa de empurrar os diferendos com a barriga. As afrontas são diárias, as ordens cruzam-se no éter em tons agressivos, o vocabulário utilizado por secretários de estado e directores para responderem às críticas dos professores, em sede própria, é de tiranetes, eles próprios sem sem educação. E se às portas das escolas não há filas de espera de anos, há perda de consciência e de sentido de comunidade e de ideia de país para décadas. E as pessoas sabem-no. E de certa forma estes dados dão ânimo a uma das classes socio profissionais mais vilipendiadas nestes anos de poder socrático, porque mais dependente do Estado que devia legitimar com a sua transmissão de saber.
Disse desgraçada sorte coube aos professores com este ministério, mas devia ter dito antes: desgraçada sorte coube aos alunos.
E agora tenho a certeza que a senhora virá dizer naquele tom em que todos acreditamos tanto, o quanto ela se regozija com estes resultados sobre a imagem social do professor. A mesma senhora que os desrespeitou publicamente como ninguém dessa tutela o fizera explicitamente alguma vez.

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Estados do mundo 3

A ler a biografia de Churchill há meses e que durante a guerra de 1914-1918 me arrastou a leitura. Muitas coisa para escrever sobre o que leio, e sobretudo ainda a pergunta por responder, e que já aqui deixei registada neste espaço digital, da apresentação dos livros que o biógrafo diz terem sido requisitados com o intuito de formarem a personalidade política de Chrchill nos anos imediatos à sua entrada em cena como deputado.

Hoje deixo apenas aqui a seguinte nota: " A conferência* iniciou-se a 12 de Março. Entre os peritos encontravam-se Lawrence**, Cox e Gertrude Bell; em dez dias foram passados em revista todos os aspectos do futuro do Médio Oriente. A economia era o objectivo final, a estabilidade política era o meio. Uma das propostas apresentadas por Churchill visava a autonomia dos Curdos do Norte do Iraque. Ele era a favor desta solução porque temia um governante iraquiano que "ignorasse os sentimentos dos Curdos e oprimisse a minoria Curda", mas os seus conselheiros minimizaram estes receios acreditando que a Grâ-Bretanha teria sempre a possibilidade de exercer uma influência moderadora sobre Bagdade." (p.327).

Dez dias para se discutir o futuro do Médio Oriente... dez dias em 1921 que se tranformaram em semanas sangrentas, meses sangrentos, anos sangrentos, décadas sangrentas e está quase a fazer um século sangrento. Dez dias em que o futuro era sobretudo o futuro económico da Grã- Bretanha que estava em jogo, já que se queria fazer uma redução orçamental à custa das despesas militares no Médio Oriente e na Mesopotâmia. Dez dias. E o mundo ainda se admira de os acordos agora se multiplicarem sem soluções à vista. Ou ainda reclamam uma inquestionável visão dos governante ingleses sobre as suas colónias e sobre as suas relações exteriores com o mundo, por contraponto ao que muitos, e muitos brasileiros incluídos por exemplo, dizem ter sido a lastimável presença de Portugal no mundo. Pois sim. Façamos um balanço de visões, ou as coisas mal feitas não têm graduações?


* A Conferência do Cairo onde se discutiu a divisão e o governo dos territórios do Médio Oriente, dos dias 12 a 22 De Março de 1921.
** Lawrence da Arábia

Estados do mundo2

Agora que o partido nacionalista pró-China venceu as eleições em Taiwan, e que os Estados Unidos não estão propriamente muito entusiasmados com a possibilidade de vir a realizar-se um referendo sobre a adesão de Taiwan à Organização das Nações Unidas, o cerco da China, por via política e não pela retórica militar, aperta-se.
Se Taiwan se preparar para negociar a autonomia e deixar cair a questão da independência da China lá se vai mais um foco de tensão para o mundo. Mas o que é que os Estados Unidos têm a ganhar com a afirmação de que a realização do referendo é um erro ? Preferem um acordo com a China, a troco do quê? Não será com certeza a pensar no respeito pela opinião da população de Taiwan, pois não? Ou será que têm como moeda de troca o aquietar pela China da Coreia do Norte?

Estados do mundo1

"Nos países muçulmanos há o mesmo número de pessoas a dizer que respeita o Ocidente e que o Ocidente não os respeita. Entre estes, os iranianos são os que se sentem menos desrespeitados, apesar do diferendo sobre o programa nuclear. Já no Ocidente, a percepção mais comum é de que nenhum dos lados se respeita. Mas, apesar do pessimismo, também nenhum dos lados aceita a ideia de um confronto de civilizações inevitável.O estudo, Islão e o Ocidente: Relatório anual sobre o estado do diálogo, foi realizado com a colaboração da Universidade de Georgetown.
79% dos inquiridos na Dinamarca respondeu sentir-se "ameaçado" pelo aumento da interacção com os muçulmanos."
Pode-se ler no jornal Público de hoje.

Curiosas estas percepções. Sublinho:"Apesar do pessimismo, também nenhum dos lados aceita a ideia de um confronto de civilizações inevitável." O estudo parece revelar o que pensam as sociedades ocidentais e muçulmanas, e é muito interessante que as pessoas recusem a ideia de choques ou diferendos civilizacionais no que ao relacionamento social diz respeito, mas não nos esclarece sobre o que pensam os seus líderes políticos e, mais, não nos diz como essas populações tenderiam a comportar-se se submetidas a uma reconfiguração das suas certezas no que a um conflito aberto, dito de civilizações, sob a influência de uma ideologia terrorista. E o que estariam dispostas a defender de valores universais comuns contra as ideias mais radicais, do lado ocidental e islâmico? O estudo também não no-lo indica. Todavia o que sabemos já permite ter uma visão do nível de entendimento e de razoabilidade das sociedades ocidentais e islâmicas. É uma base comum de entendimento.

domingo, janeiro 20, 2008

Jogos de poder caseiros

Há duas coisas sobre as quais gostaria de escrever hoje, uma era sobre as mulheres no mundo, e a propósito da fotografia, que não deixa de ser muito bonita, de uma Simone Beauvoir nua numa capa de revista dita séria, e que vi no jornal Expresso, outra é sobre o artigo de Cintra Torres no jornal Público de sábado. Por agora o segundo tema ganhou ao primeiro, pois preciso de pensar melhor naquele assunto. Já Cintra Torres fala de um assunto que gosto de acompanhar: a liberdade de expressão e a democracia.

O argumento de Eduardo Cintra Torres é que este governo é voraz, e arrecada sucessos nessa sua voragem, na sua vontade de controlar a informação em Portugal, e dá o exemplo da agência nacional de notícias a Lusa. Ora o que aconteceu aí? Cintra Torres dá conta que a direcção da agência e os seus jornalistas estão em "guerra". E, acrescenta, essa luta está a ser travada por jornalistas que acusam a sua direcção de estar ao serviço dos interesses do governo de Sócrates.
Aqui Cintra Torres acrescenta ao nome do primeiro-ministro um outro apelido, o de "Putin", numa manobra linguística que eu julgo que desvirtua o tom e a seriedade do tema. Mas pronto. Ora em que é que a direcção é vista a fazer favores a Sócrates? Porque os jornalistas se apercebem que certos telefonemas vindos do exterior fazem alinhar convenientemente as notícias do dia. E ainda que os jornalistas temem a intervenção que possa vir a ser feita sobre as peças, e aqui não se percebe bem, os jornalistas temem que no futuro os seus textos sejam alterados por conveniência dos interesses do governo, ou os jornalistas já viveram experiências desse tipo e esse facto realmente lhes aconteceu? É que é diferente termos uma percepção de uma coisa que julgamos vir a ser possível acontecer ou estarmos a relatar um acontecimento vivido de facto. Bom, e de quem eram esses telefonemas? Telefonemas de agências de imagem, de assessores ou de órgãos todos eles afectos ao governo (a confirmar-se é uma acção muito grave, é claro, e com a qual nenhuma democracia pode ter grandes complacências senão à custa dos seus próprios procedimentos como rgime livre e não sujeito a pressões independentes das que são discutidas e aceites em sede de parlamento).


Factos parecem ser os que relatam os jornalistas da Lusa que dizem ser frequentemente destacados para dar cobertura aos fenómenos ditos propagandísticos do governo (eu também penso que o governo tem muitos actos propagandísticos, mas, por outro lado, se os jornalistas não estiverem presentes também não os podem desmascarar, como aconteceu daquela vez em que uma inteligente jornalista perguntou ao belo infante que tinha ido fazer de figurante na sala de aula de apresentação de novas tecnologias para o ensino, aquelas coisas de fogacho, quem é que o tinha convidado para estar ali, e se descobriu que o pimpolho estava a ser pago por uma agência). Ora se o governo obriga os jornalistas da Lusa a fazerem cobertura dos seus momentos, estes podem retribuir-lhes desempenhado o seu papel e questionando até à fímbria tudo o que com esse acontecimento se relacionar. Como moscardos, e aqui penso no grande Sócrates, o filósofo.
Mais sério é adiar ou não considerar a cobertura de acontecimentos importantes, como é o acompanhamento de uma greve, e fazer sobressair os actos governamentais. Isto sim, não depende dos jornalistas mas dos seus editores e aí... Se estes se impõem sobre o trabalho estrito do foro jornalístico, se há pressões, há que investigar. Mais, há que saber se a ERC sabia ou não que a nomeação de Luís Miguel Viana, o director da informação da Lusa, foi concertada pelo governo. Este assunto é da máxima importância para a democracia portuguesa: o serviço regulador para a comunicação é ou não de forma inequívoca e acima de toda a suspeita livre na sua acção fiscalizadora? Se não, mais vale pensarmos bem no que este governo está a fazer ao Estado português numa área que em princípio afecta menos a população do que a área da saúde, da justiça, da educação ou da economia, mas que tem um alcance mais pernicioso no que implica de falta de garantias e de insegurança quanto à ausência de estruturas fixas que representam uma sociedade livre, crítica e consciente.


No 5º congresso da SOPCOM, em Setembro de 2007 em Braga, um dos intervenientes num painel que tive o privilégio de moderar, o Prof. Vasco Ribeiro, da Universidade do Porto, apresentou uma comunicação subordinada ao título: "Fontes sofisticadas de informação – Análise do produto jornalístico político da imprensa nacional diária de 1995 a 2005". Tendo seguido a sua comunicação com atenção, conclui que as suas investigações apontavam todas para o facto de a informação portuguesa apresentar um grande equilíbrio na quantidade e na apresentação de notícias quer do partido que estiver no poder quer dos da oposição, e que o respeito pelas fontes é generalizado, sendo que em Portugal a maior parte das fontes são oficiais, 90% contra 10% das que são recolhidas de fontes não oficiais, em "off". Fiquei intrigada. Sabendo que Santos Silva é um homem que lê, e segue os estudos, porque é que as conclusões deste tipo de trabalho científico não o faz serenar e perseguiu, agora está mais quieto o que não quer dizer que esteja parado, com uma nova lei mais rígida para liberdade da comunicação social, quando a realidade, a prática dos jornais confirma-o, é que o sistema de comunicação tem um muito razoável exercício de auto-regulação?

Há vontades de submeter e de dominar que nunca perceberei. O que estará na origem, como ideologia, de concepções de reformas autoritárias e impostas em nome de uma realidade falsa ou de uma imagem deturpada de como fazer melhor as coisas, é algo que me aflige. E o pior é que não vemos a oposição preocupada com este tipo de representações sociais que se querem impor para Portugal, e Menezes, esse, até gostaria mais do que nomear um editor de informação, parece querer ser ele mesmo um editor de informação. Coisa triste para uma democracia. Coisa triste, minha nação.

sábado, janeiro 19, 2008

"jogos de poder"

Mike Nicholas apresenta um filme “Jogos de poder” que quanto a mim perde em toda a linha. Salvaguardada a legítima vontade de contar a história do ponto de vista do que terá sido efectivamente o papel da intervenção americana (mais propriamente o papel de três ou quatro indivíduos americanos) no Afeganistão aquando da invasão soviética, tudo o resto me pareceu rígido no estereótipo das personagens: a mulher rica imbuída da crença maniqueísta de uma luta a travar entre as forças do bem e do mal, com o mal a ser representado pelas forças militares comunistas ali encarnadas pelo exército e poder soviético; o cínico, competente e libidinoso agente da CIA; o mariola lúcido, com uma agenda de contactos sociais e políticos verdadeiramente trabalhada e influente, senhor de humor inteligente a representar a personalidade de um congressista americano, o qual irá ser o motor a pôr em marcha o plano americano de apoio à resistência afegã.

Não me convenceram as representações. O volte face dramático da adesão emocional do congressista Charlie Wilson à causa dos afegãos após ter visitado um campo de refugiados no Paquistão, está filmado, e é representado, de forma superficial e vulgar. Com aquelas imagens e aqueles testemunhos não nos conseguem dar provas sobre o imperativo da mudança de posição do congressista, sobretudo quando sabemos que as imagens e testemunhos reais devem ter tido realmente um peso e uma dignidade existencial muito superior à que aqueles segundos do filme conseguiram transmitir. É verdade que a imagem da vastidão do campo de refugiados nos esmaga. É certo, mas foi uma imagem mal aproveitada para nos dar uma amostra da real magnitude do sofrimento e do desespero do povo afegão (e depois pôr aquela mãe a chorar por detrás do congressista quando este sobe à colina…para quê?! Tudo tão redundante, tão sem chispa e alma!).
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Por outro lado, há ainda o recurso frequente à câmara a pôr-nos no lugar de voyeurs à força, a grudar-nos nos decotes e nos rabos bamboleantes das competentes profissionais, e atraentes, assistentes do senador Wilson. Já sabíamos o que queriam dizer nas personagens os seus decotes e as suas saias curtas, já percebíamos, pela reacção das personagens masculinas que passavam pelo gabinete, qual seria o efeito, não era necessário a câmara sublinhar o obvio. Há mesmo uma cena em que a câmara segue o rabo da assessora de Wilson enquanto ela caminha por um corredor do congresso, sem que nada na história ou no que se possa acrescentar à caracterização da(s) personagens(s) o justifique. Só porque sim. É uma razão que a mim não me diz nada.
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Há ainda a dança do ventre da bailarina americana, uma espécie de oferta de uma menina de luxo em versão Las Vegas aos altos dignitários do Egipto. Então, mas os homens que vivem num país com centenas de bailarinas do ventre, algumas com requintada arte de sedução e superior execução sensual, vão embasbacar com a vulgaridade da execução artística ali apresentada ou com a vulgaridade da pessoa ali apresentada? A mim também não convenceu a facilidade da adesão à proposta política de se conluiarem os egípcios com os israelitas, para mais no conturbado contexto das suas relações nos anos 80, sobretudo com a explicação dessa facilidade se ter potenciado numa reunião enquanto os presentes desfrutavam do vislumbre do corpo de uma bailarina que os terá…digamos… amaciado nas suas resistências a trabalharem todos juntos. A mim não me convenceu, mas se calhar é bem mais do que verdade que há certas reuniões assim, sei lá.

Finalmente a cena da destruição dos helicópteros soviéticos… aquela música, chico aquela música…, e ainda aquela cena extravagante de pôr os resistentes a manusearem uma arma como se fossem mimos numa cena burlesca, sem saberem bem como tinham atingido e abatido um helicóptero soviético nos primeiros segundos, para logo depois já aparecerem atiradores experientes e treinados (raios, tantos milhões gastos pelos americanos e pelos sauditas para se treinar os muhajedin, e eles vão logo aparecer no filme como se fossem o Charlot na guerra?). Há ainda aquela conversa ficcionada entre os pilotos soviéticos a raiar a estupidez, do tipo, “Olha, enquanto vamos matar velhos, crianças, mulheres e homens indefesos daquela aldeia ali à frente, aproveitemos para discutir sobre o conceito de fidelidade sobre o qual eu e a minha namorada estamos em vias de facto de divergir, sim?”
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Finalmente, reprovo a leviandade daquela lista de tanques, helicópteros, aviões, camiões de transporte abatidos ou destruídos sem uma única referência aos soldados mortos em combate. Os soldados soviéticos eram o inimigo a bater, mas não eram objectos, eram pessoas. O filme redu-los à não existência, sub representa-os ao evocar com euforia a destruição dos seus veículos ou das suas armas. Num filme de propaganda é compreensível que se anule o inimigo a menos que nada, num filme maduro e com tempo de distanciamento era possível o reconhecimento à dignidade dos combatentes militares soviéticos, mesmo que se lhes retirasse a possibilidade de justificação ou possibilidade de explicarem a sua acção, que, de um ponto de vista meramente dos interesses do império soviético até tinham uma explicação. Era uma explicação abominável no método proposto, para uma acção ainda mais execrável, mas tinham-na.

Quando é que o filme, do meu ponto de vista, ganha interesse? Nos últimos cinco minutos. Porque só aí as personagens envolvidas saem da excitação e da compulsão em que estiveram envolvidas durante todo o filme, porque em defesa frenética de um projecto de resistência e de independência para o Afeganistão, ou de uma ideia de contenção dos interesses comunistas no mundo, o que não é bem a mesma coisa, ainda que acredite que o congressista as tenha misturado nas suas decisões, e compreendem finalmente que esse projecto militar não terá continuidade no que ao apoio de uma sociedade destruída diz respeito. Compreendem, impotentes, então, que o povo afegão rapidamente saindo de um domínio estrangeiro totalitário se verá submetido ao poder totalitário do exército dos Taliban que a mesma América e seus aliados potenciara.
Esta impotência de mudar as coisas em paz, de atribuir alguns milhões para construir as instituições que permitam a um povo tornar-se soberano dos seus destinos, depois de terem sido derramados muitos milhões para prosseguir uma guerra, é que eu gostaria de ver filmado. Mas como o foi, o pouco que o foi, esteve bem. Pena tudo o resto.

sexta-feira, janeiro 18, 2008

ter ideias 1

Muitas pessoas pensam que fazer política é tomar decisões. Eu penso que fazer política é fazer ideias. Faz-se ideias para a saúde, para a educação, para a economia, para as relações externas e por aí fora. Ora fazer ideias é difícil, que o digam os grandes político-teóricos, e mais difícil ainda é impedir que essas ideias se transformem nuam espécie de engenharia social. As duas coisas juntas, isto é, não ter ideias próprias, andar ao reboque das ideias dos outros governantes ou ideólogos de outras nações que dão soluções para os seus respectivos problemas sociais, e querer transformá-las em mecanismos de controle ou transformação dos seus governado, é o diabo.
O equilíbrio, sempre à procura de um equilíbrio, entre o particular e o universal, o colectivo e o individual, é o que o político deve fazer. E já agora ter ideias próprias para resolver os problemas de cada comunidade e depois responsabilizar-se imediatamente pelos maus resultados que dessas ideias possam advir. É assim tão complicado?