sábado, dezembro 08, 2007
O esquecimento
sexta-feira, dezembro 07, 2007
Cimeira UE/África: Lisboa é quase, quase uma festa
É uma alegria ouvir falar não só dos problemas de África, mas de África política e económica e dos seus valores morais e culturais, das suas pessoas, das suas propostas e dos seus êxitos. De repente vejo e ouço analistas políticos que nunca tinha ouvido, jornalistas africanos que raramente têm espaço na nossa rede mediática. Discursos inteligentes sobre África. Gosto que me falem do êxito do Mali, do modelo político de Cabo Verde, da adaptação aos modelos culturais europeus e das ricas tradições orais africanas e a sua relação com o poder político, numa redescoberta de normas assentes na honra e na palavra. Gosto que procurem explicações novas para os seus problemas, ao invés da incontornável, mas já estafada, porque daí já nada se pode fazer a não ser reconhecer os erros graves do passado, desculpa com o colonialismo.
Aspectos negativos: todas as ONG os estão a realçar muito bem. Lisboa é por estes dias não só um desfile de vaidades de líderes corruptos, autoritários e antidemocráticos, mas também um espaço de encontro de boas vontades e de consciências. Lisboa seria uma festa não fora os muitos milhões que não podem sentar-se a uma mesa para festejarem connosco.
quinta-feira, dezembro 06, 2007
quarta-feira, dezembro 05, 2007
"Padrões mínimos de vida, trabalho e tempos livres"
Bom, entre as obrigações familiares, o sono intermitente, e nas horas em que o sino electrónico lá do campanário da aldeia, que tanto atazanou os meus dias de descanso e que se mudara agora para dentro de mim, me deixava o cérebro em silêncio, lá consegui avançar mais umas páginas na biografia de Churchill. Espanto. Eu que ignorava quase tudo da vida do biografado, que não tinha tido até ao momento nenhuma afeição especial pela pessoa, e que historicamente não me era, como nenhuma outra figura política o é também, muito querida, entro no capítulo “O campo social”. Entro e espanto-me. O que até aí me parecia uma personalidade oportunista, excessivamente centrada no seu voluntarismo, ainda que inegavelmente trabalhadora, intuitiva e corajosa, revela-se uma personalidade determinada por uma ideia de justiça social completa e inovadora, numa tentativa de equilíbrio na procura de uma política entre a prática capitalista e a prática socialista.
Churchill revelou-se um político original. Não que não leia os académicos, e se prepare no sistema de ideias novo, até porque é-nos dito como ele se encontrou com o prof. William Beveridge que dedicava a sua vida ao estudo de reformas sociais (p.158), mas é original no sentido em que aproveita realmente os cargos políticos que ocupa para fazer mudar a realidade a partir de ideias de reforma social até então nunca testadas ou aplicadas. Leia-se: “O seu funcionário mais velho, Sir Edward Troup, recordou mais tarde:”Uma vez por semana, por vezes mais de uma vez por semana, o Sr. Churchill chegava ao Ministério trazendo com ele um projecto venturoso ou impossível; mas depois de meia hora de discussão tinha-se desenvolvido qualquer coisa que continuava a ser aventurosa, mas já não impossível.” (p.178)
E estou a fazer batota, porque ainda não respondi a uma questão que ficou em aberto num outro post lá para trás, sobre quem tinham sido os autores de influência ideológica do Churchill, e como é que a experiência da guerra o forma numa perspectiva nova sobre a sociedade. E também porque já tendo terminado a leitura do livro de Delpech, era deste livro que devia estar aqui a escrever. Está a marinar, digo eu como eufemismo para o acto de preguiça.
segunda-feira, dezembro 03, 2007
E no entanto...eles movem-se.
A carta, assinada por escritores como Vaclav Havel, Wole Soyinka, Nadine Gordimer, John M. Coetzee e Günter Grass, critica os políticos dos dois continentes por não enfrentarem "duas das piores crises mundiais" na cúpula de chefes de Estado e de Governo que será realizada nos próximos dias 8 e 9 em Lisboa. (...)" Ler o resto aqui.
Pela democracia
E que a voz não lhe doa!
quinta-feira, novembro 29, 2007
Ainda sobre os líderes europeus...e a sua cobardia política.
O mundo dentro de uma carta
Ainda que os esclarecimentos não abundem e seja o Chade, que é contra o processo de adopção como processo de filiação, a ter levantado a hipótese, cada vez mais plausível, de rapto de crianças, a verdade é que a notícia como a que a ONG francesa protoganizou, a Arche de Zoé, deixa-nos num estado de torpor. Porque de uma boa intenção se consegue criar o caminho para o inferno: raptar crianças é acto de maldade. Daí que não sublinhemos as vezes que são necessárias a importância de programas como o da reidratação oral ou os da distribuição de Plumpy'nut às crianças famintas de África.
E façamos por confiar nos produtores e distribuidores desses produtos, evitando pensar: a quem é que este consumo elevado de produtos financiados pela UNICEF interessará além dos mais importantes e óbvios interessados que são as crianças? Não quero enveredar por aqui. Quero assinalar a importância dos programas em causa.
Também não quero enveredar pela questão de estarmos em 28 ou 29 na lista apresentada pelo relatório do Desenvolvimento Humano de 2007 (que li através do endereço disponibilizado online pelo jornal Público). Uma discussão bizantina se comparada com a discussão que a Europa, que vai realizar uma cimeira com África, deverá preparar para conseguir exigir resultados políticos e técnicos a si própria e aos seus interlocutores, no quadro da análise do relatório PNUD que aponta África como o continente onde o índice de desenvolvimento humano é baixíssimo. Não se pode ignorar o desgoverno de muitas lideranças africanas, nem a semi-indiferença de uma Europa boazinha mas com comportamentos pouco consistentes no que a uma política externa exigente com África diz respeito. Se têm má consciência colonizadora resolvam a questão, mas não ignorem as arbitrariedades de líderes corrompidos, e estejam sobretudo acima de si próprios.
Mas com o tipo de líderes europeus que se vergam aos interesses comerciais ou nacionais antes dos interesses da paz internacional e da salvaguarda dos direitos humanos (exceptuando aqui e ali a senhora Merkel, mas nem sempre), estamos mesmo a ver cada Estado desta nação Europa à procura com uma lupa do seu lugarzinho na lista, e o resto são hieróglifos ou discursos para consumo de pasta de papel em jornal.
quarta-feira, novembro 28, 2007
Quem é que os dirigentes europeus andam a ler? Quem são os seus conselheiros?
terça-feira, novembro 27, 2007
Uma aula para governantes para que compreendam o que está em causa quando se aceita ou recusa fazer um referendo europeu
domingo, novembro 25, 2007
Bill Kristol | The Daily Show | Comedy Central
Em quem devemos confiar, nós os que somos considerados maraquinhas?
Vi isto hoje à noite, enquanto tentava acompanhar os gatos na RTP1. Humores ou intelecto?
25 de Novembro
sábado, novembro 24, 2007
Um par de horas com as bárbaras acções do mundo
Turquia: percepção/realidade pelas palavras do presidente.
sexta-feira, novembro 23, 2007
quarta-feira, novembro 21, 2007
Impotência
indiferença/impotência
O silêncio sobre o que se passa em sociedade, na política, em Portugal como no mundo pode ser representativo da estupefacção e o da impotência. O silêncio não tem que ser sinal de indiferença.
Habermas, não consigo agora precisar em que texto, fala precisamente sobre este estado de estupefacção que paralisa o agente quando compreende que a mediação entre a sua vontade ou desejo de participar, com o espaço e o momento para o fazer efectivamente, e o resultado prático desse desejo ou dessa participação, é de uma tortuosidade para a qual a teoria democrática não o prepara. O que leva à frustração e ao abandono da vontade de participar, prostrando o indivíduo.
Na prática, as sociedades democráticas protegem-se da formação da personalidade cívica multidireccional e concorrente, fazendo enquadrar essa constituição através dos processos académicos ou partidários, propondo uma ordem. Será nas escolas, com programas restritos, e nos partidos, com programas restritos, que os indivíduos aprendem a pensar a política. Muito diferente seria assumir uma actividade extra curricular e extra partidária que preparasse os indivíduos para a vida pública. Nas sociedades contemporâneas para além do grupo familiar ou de amigos de cada um, só a existência de uma imprensa livre permite esta estrutura de formação política paralela. Mas a imprensa é também um produto que tem que se vender. Entre essa dupla existência (é um objecto comercializável e é um objecto de formação, através da divulgação de informação imparcial e idónea) ela produz efeitos na criação da personalidade pública de cada um de nós. Mas na antiguidade clássica, por exemplo, os filósofos, com um método de investigação mais dialéctico e mais orientado para a procura da verdade, e os sofistas, mais atinentes aos efeitos práticos do seu ensino, preparavam cada cidadão par desempenhar os seus cargos na vida pública. O círculo de participação era mais restrito, eu sei. A mediação política dos gregos era a da dimensão da sua voz na praça pública, certo. Mas existia essa ideia de necessidade de formação de cada cidadão nos assuntos públicos e da sua chamada a fazer escolhas, muito para além do momento cíclico eleitoral.
Na adolescência, lembro-me que não havia hipótese nenhuma da política real apaziguar qualquer dor. Era uma realidade paralela à nossa existência, quando não muito aquém dela. Da minha existência ou a do meu grupo de amigas, já que passávamos a vida a idealizar vidas privadas ou a de comunidades políticas públicas. Inventávamos cidades, estados e regras universais nossas, como inconsequentes pequenas deusas. Havia paixões e havia ideias, o objecto real dessas paixões ou da consequência dessas ideias era uma coisa não pensável ou sequer tomado em consideração. Ditadura da imaginação no poder. Liberdade de quem não tem que ganhar um salário para viver, nem tem que pagar impostos. O menosprezo pelo Estado e a exaltação da afectividade pelo país. Só quando percebemos, ou quando eu percebi que tinha percebido, que a política real não era uma distracção no que aos meus direitos e deveres como pessoa dizia respeito, mas sim garantia ou obstáculo para os mesmos, é que houve a concessão de um olhar mais atento.
Mas a política quando é um jogo do arrisca agora e paralisa o adversário antes que ele te paralise, um jogo de estratégia de sobrevivência de um indivíduo ou de um partido no poder, acaba por levar à paralisação do cidadão. E esta impotência não revela necessariamente uma concessão ao valor do governante, ou do decisor, pode revelar uma dor pública imensa, sem palavras para falar sobre o seu desgosto.
segunda-feira, novembro 19, 2007
Guerra e Paz
De Coimbra, do Centro de Estudos Sociais, chega a informação de seminário organizado pelo núcluo de estudos para a paz: "As relações Político-comerciais Brasil-África em perspectiva (1985-2006)".
Pensar a acção como Mario Vargas Llosa o fez em "La salida de Juan Carlos I, tras las interrupciones e insultos de Hugo Chávez, tuvo la virtud de rasgar el velo de hipocresía que rodea las Cumbres Iberoamericanas"
"(...)
sexta-feira, novembro 16, 2007
Churchill:o rigor de uma preparação intelectual 1
quinta-feira, novembro 15, 2007
Phimopo: grupo de discussão em língua francesa sobre filosofia moral e política
Para nos inscrevermos: phimopo-subscribe@yahoogroupes.fr
quarta-feira, novembro 14, 2007
Tudo isto é triste e nem sequer é fado
Ontem foi também o dia em que com pompa e circunstância se atribuíram prémios a meia dúzia de professores, com um Ministério da Educação a receber recados do presidente do Júri Daniel Sampaio sobre a existência de mal estar entre os professores e a sua tutela, e a fingir que não os ouvia ou que nós, estúpidos, é que não estávamos a compreender a mensagem que afinal não dizia respeito a nenhum problema interno do país e não passava de um exercício de estilo.
Querem fazer-nos tão parvos como o presidente da Câmara de Lisboa quis fazer à florista da praça do Rossio que aproveitou a oportunidade para lhe dizer: -"Veja lá, senhor presidente, se esta limpeza da praça é para manter, olhe que aqui há muito "inglês a ver", todos os dias". Ao que ele lhe ofereceu como resposta as anafadas costas.
Mesmo este tipo de acções é que é de democracia em acção: vamos lá arranjar um grupo de cinco ou seis autarcas para irem ver dois operários da limpeza camarária fazerem um trabalho que devia ser normal, contínuo e eficaz em qualquer cidade, mas que aqui é preciso destacar, avisando os meios de comunicação.
E além disso só temos que fingir que ouvimos o povo quando em campanhas eleitorais, de resto ponham-se lá no lugar deles.
Mesmo se há uma câmara de televisão a gravar.
Mensagem política:estudo
terça-feira, novembro 13, 2007

E não é só na Venezuela que os povos podem pedir aos seus líderes que se calem quando insistem na enunciação de banalidades, mentiras ou provocações. Outras regiões do mundo devem seguir o exemplo.
ver análise de reacções em:
http://www.noticierodigital.com/forum/viewtopic.php?t=286333
e
http://www.noticierodigital.com/forum/viewtopic.php?t=286099
A imagem e os endereços são uma cortesia da minha amiga venezuelena.
segunda-feira, novembro 12, 2007
biografia
domingo, novembro 11, 2007
" ¡¿Por qué no te callas?!"
Noto, sem ironia, como uma republicana como tu está tão deliciada com a intervenção do rei de Espanha.
Eu também penso como tu, que são estas interpelações que dignificam as reuniões políticas. Obviamente, não por um rei poder sugerir a quem quer que seja que se cale quando este está no uso legítimo da sua palavra pública, mas por se dar ao trabalho de ensinar que quando alguém interpela outrem, como estava a acontecer com Zapatero, é bom que o interlocutor ouça, reflicta e contra-argumente no seu tempo. Ao presidente Chavéz já se lhe varreu a noção do tempo. Ele acha que pode usar o público mundial como usa o povo venezuelano, como um grande e passivo auricular. Não pode.
A Espanha deve estar gratificada com o momento daqueles seus governantes.
Os venezuelanos é que ficam com um presidente ressentido, e todos sabemos que esse sentimento não augura nada de bom no que a serenidade e bom senso de decisões futuras internacionais diz respeito. Esperemos para ver como irá reagir tão ensimesmada criatura política.
Boa sorte para o teu povo.
sexta-feira, novembro 09, 2007
Mas a barbárie alguma vez nos deixou?
Hoje pensei, quando ia a passar numa rua: se vagar um lugar de estacionamento em frente daquela livraria que ali está, vou lá dentro comprar o livro de Delpech. Fui lá dentro comprar o livro O Regresso da Barbárie. Detesto o título. Menos mau no original L`Ensauvagement.
quinta-feira, novembro 08, 2007
Alguns assassinos têm as obras todas de Nietzsche. Alguns não assassinos também as têm a todas. O que se pode concluir?
Subscrevo
quarta-feira, novembro 07, 2007
A vida Nova: o indivíduo e a colectividade vistos pela perspectiva de um caramelo
E o livro que Osman leu? Vale o que cada um projectar de si nele ou deixar que ele projecte em si. Como acontece com quase com todos os livros que as pessoas dizem ter-lhes servido para lhes mudar as vidas. Agora devia explicar a excepção que a palavra "quase" significa. Mas não explico. Assim como assim.
É um livro escrito nos tempos livres de um ferroviário, o Tio Rifki, que o intitula de "Vida Nova". Este livro dá conta da presença, entre os homens, de um anjo. Mas é sobretudo um livro que glosa todos os livros que Tio Rifki lera e que falaram de anjos. De Rilke a Ibn Arabi, passando por livros como o Corão, ou aquele escrito por Dante, o Vita Nova, os de Júlio Verne ou os de Nesati Akkalem, entre centenas de outros.
"O que é a vida? Um lapso de tempo. O que é o tempo? Um acidente. O que é um acidente? Uma vida. Uma vida nova. Era isso o que o meu estribilho me repetia." p.291.
O livro que Osman lê é um livro que recria todos os livros que o seu autor já lera. E quando Osman não desistindo de encontrar mesmo assim um sentido, uma continuidade mística entre todos esses autores mundiais, procura compreender como é que a imagem do anjo que ele persegue se substanciou no livro, procurando um mapa para o significado daquela sua vida, encontra o homem que produzira uns caramelos que se vendiam em todas as lojas do país quando ele era garoto pequeno. Uns caramelos que se chamavam precisamente "Vida Nova", embrulhados num papel onde estava sempre desenhado um anjo, e no qual estava escrita uma lengalenga que se queria quase sempre diferente de caramelo para caramelo.
"Süryya bey, pelo meu silêncio, adivinhou a minha tristeza, graças a essa intuição própria dos cegos, e quis consolar-me: era assim a vida; havia o acaso, a sorte, havia o amor, havia a solidão, a alegria, a melancolia, havia a luz, havia a morte, mas também uma vaga felicidade; o que era necessário, sobretudo, era não esquecer; (...)", p. 284-285
O que resulta do livro de Pamuk? A confirmação da ideia de que "quem procura sempre encontra". Osman afadigou-se quase até à insanidade na procura de um sinal de presença de uma realidade metafísica que ele só entrevira através da leitura de um livro. E encontra-a.
terça-feira, novembro 06, 2007
Dilaceração
segunda-feira, novembro 05, 2007
Dilaceração
É verdade que eu não aprendi a temer a polícia, vivi quase sempre em democracia, por isso olho-os nos olhos, e acato sem reclamar as suas ordens se eu as considerar, como adulta e cidadã livre e responsável, que há razões para o fazer, senão reclamo e protesto e contra argumento e... acabo multada. Como tudo se passa num plano de respeito mútuo de direitos sempre achei que estava muito bem assim: é um direito meu o de protestar com educação, é um direito do polícia, no estrito sentido do seu dever, multar ou repreender. Já não é um direito mútuo o de fazermos uso de tons de voz arrogantes ou permitir abuso de poder. E está, e não está.
De entre as histórias hilariantes com as brigadas de trânsito deste país que podia contar, vou escolher uma de tom trágico, e que nem sequer se passou comigo directamente. E isto numa forma de homenagear aquele polícia que um dia se sentiu subvalorizado pela minha atitude, ainda que de uma forma que não compreendo como a sentiu intencional (afinal eu só fiz uma manobra de marcha atrás na rua da minha mãe e que por acaso até é de sentido único, mas é que não vinha lá nenhum carro a circular e eu nem sequer reparei que estava ali perto um polícia de plantão: está certo, as regras existem para serem aplicadas, é simples).
A brigada de acidentes respondeu a uma de muitas chamadas. Era uma coisa pouca, quase nada, um toque leve entre dois carros num parque de estacionamento. Passa uma mota na Avenida ao lado em excesso de velocidade. Estava uma noite amena neste Novembro que vai desaforadamente quente. O polícia mais velho levanta os olhos e segue a mota, meneia a cabeça e começa a desfilar os horrores que o seu olhar já teve que ver, as suas mãos já tiveram que sentir, os seus ouvidos já tiveram que ouvir. “E eu que nem podia ver sangue... um homem habitua-se a tudo, não é? Muitas vezes julgo que não aguento. Ainda há noites em que não consigo dormir, imagens que não me saem da cabeça. Custa-me sobretudo quando os corpos ficam num estado tal que só podem ser recolhidos para dentro de um saco de plástico. Hoje mesmo vi imagens que resultaram de um acidente em que uma das vítimas apareceu decapitada.”
O horror de morrer dilacerado dentro de um carro, por debaixo de um carro, de encontro a um carro, de ficar estendido no chão. O horror de ter de assistir a essa violência. O horror de ter que permanecer de plantão, ainda que ninguém o veja. E o dever de ter que multar para ajudar, quem sabe, a apagar esse horror. Ou de o adiar um pouco, propiciando o fintar da morte numa estrada qualquer.
No A Vida Nova este horror é exemplarmente compreendido.
subscrevo
O ensino - nomeadamente a ideologia que está por detrás de todas as decisões do ministério em matéria pedagógica e científica - está entregue a esse monstro corporativo que supõe ter toda a verdade do seu lado. O estatuto do aluno e o seu regime de faltas é apenas mais um episódio lamentável a acrescentar a tantos outros. É, geralmente, gente que não conhece a escola real, que não tem contacto com o dia-a-dia das escolas, que imagina os professores como meros instrumentos ao seu dispor para as experiências mais descabidas. As vítimas dessas experiências descabidas são os nossos filhos - e é o seu futuro. Por isso, o sinal dado pelo Ministério é definitivamente mau e constitui um erro grave, desculpabilizando os alunos faltosos, penalizando os alunos cumpridores e sobrecarregando os professores e as escolas com outra categoria de "desprotegidos" os que, deliberadamente, faltam às aulas. Tudo para adulterar e manipular as estatísticas, o que é grave demais."
Francisco José Viegas, Escritor, É mau de mais para ser verdade no Jornal de Notícias online
quarta-feira, outubro 31, 2007
Interno/Externo
Joaquim Manuel Magalhães, "Derrocada" no jornal Expresso Actual, 67.
"Generalizar e reformular a avaliação é uma das tarefas mais urgentes do nosso sistema de ensino. Conte-se com os professores que gostariam de ver o resultado do seu trabalho honestamente medido. Conte-se com as famílias que começam a perceber o logro dos progressos fictícios. Não se conte com o "eduquês".
Nuno Crato, "o eduquês envergonhado" no jornal Expresso Actual, p. 27.
"O engano de alguns políticos é outro. É pensarem que o mundo está à espera que a Europa lhe dê orientação moral e exemplo de convívio entre as nações. (...) Não é para assegurar hegemonia moral do seu "soft power" que a Europa precisa de se unir. É para se defender melhor do poder ("soft" e "hard") de outros que lhe dão luta sem quartel. Quem assim não o entender deve evitar a política e procurar conforto numa ONG complacente."
José Cutileiro, "Dois grandes enganos", jornal Expresso, p. 42.
terça-feira, outubro 30, 2007
Ena tantos!
segunda-feira, outubro 29, 2007
Plano nacional de leitura?
Li o recomendado livro Três Histórias do Futuro de Luísa Ducla Soares. E de repente vi-me num universo linguístico de grande excelência, com palavras escritas na perfeição e no entanto o livro…não tinha um grama de interesse. Nenhuma história encantou a leitora ou o ouvinte da história, o mais importante. Cumpriu-se com sacrifício o ritual de terminar a história e com um suspiro o acto de o guardar na prateleira.
Mas não é só da literatura portuguesa para crianças, que dó, que se alimenta o inferno das boas intenções, pois o livro de Gabril Garcia Marques O feliz verão da senhora Forbes é outro exemplo da loucura com dom desnorteado que pode afectar um escritor ao escrever para crianças. O livro é quase todo um conto soberbo sobre a vida de dois rapazinhos de férias grandes numa praia. A certa altura eles começam a viver até ao desespero uma relação de ódio com a preceptora que lhes surgira, a meio termo, como agente de castração dessa grandiosa liberdade inicial que marcava as suas existências. O pior é o término da história, as palavras que são contadas para descrever esse fim são desavindas num imaginário infantil. Como eu o penso, pelo menos.
Deve ter sido por ter lido três livros de seguida a falarem sobre livros que estavam na origem dos acontecimentos narrados, e se tornaram livros orientadores de acção das personagens, multiplicando os seus efeitos performativos, que senti vontade de escrever sobre a questão dos livros e da educação.
Três romances seguidos nos últimos meses: um bestseller do qual não gostei quase nada de Carlos Ruiz Zafón, A Sombra do Vento, que apesar de ter um belo tema entre mãos o deixou mastigar num discurso por vezes sem graça, e assim contou a história de um rapazinho que durante um ritual de iniciação ao amor por um daqueles livros já esquecidos, abandonados em armazém, torna esse livro e a vida do seu autor o centro da sua própria vida (uma bela capa); um outro livro mais bem escrito que o anterior mas com personagens que não chegaram nunca a convencer-me do seu profundo interesse em seguir-lhes quer as vidas domésticas quer o seu trágico desenlace existencial, provocado por uma traição familiar consagrada na entrega de um livro proibido ao Santo Ofício incriminado assim os seus proprietários que irão ser submetidos à maldade de uma ordem religiosa inquisitória, que buscava a redenção dos que considerava pecadores em espírito, como os judeus, na humilhação, na dor e morte sistematicamente infligidos. Tudo isto no livro Goa ou o Guardião da Aurora de Richard Zimler; o terceiro livro, o enigmático A Vida Nova de Orhan Pamuk, deixou-me sem possibilidades de dizer se gosto ou não gosto. Não sei se gosto do Vida Nova. Ainda não me decidi. Gosto muito da escrita, do tema, mas…
Hei-de voltar a escrever sobre o Vida Nova.
Entrei na pequena livraria da pequena cidade. Por todo o lado cartazes a anunciarem os livros de Miguel Sousa Tavares e de José Rodrigues dos Santos. Perguntei à competente vendedora: “Então, nem um livro de Doris Lessing na montra?” Explicou-me que as pequenas editoras que a publicam não estavam a disponibilizar as suas obras porque não estavam preparadas para o fazer rapidamente.
Pequenas editoras? A editora livros do Brasil, por exemplo, publicou as grandes obras da literatura anglo-saxónica das primeiras décadas do século XX, tem também obras de referência alemãs e francesas!
Refilei - "Há editoras francesas e ingleses que não mudam de grafismo das capas desde sempre, e vendem.”
Bom, concluí, em Portugal as capas das Edições do Brasil não vendem.
Ainda pensei para que raio se quer mais a uma capa que a um conteúdo de um livro. Mas eu não sou exemplo para ninguém no que a apresentação de trabalhos diz respeito.
Sai da livraria com a biografia de Churchill por Martin Gilbert debaixo do braço. Na realidade comprei-a para completar um fresco de biografias de políticos do princípio do século XX a que tenho dado atenção, sem qualquer lastro de afectividade por esta personalidade, como aliás acontecera com as escolhas de biografias de todos os outros já lidos (Lenine, Estaline, Mao).
A páginas tantas leio: “As canções escolares que Churchill cantou no Dia da Distribuição de prémios animaram-lhe o espírito. “O vibrante patriotismo que estes versos evocavam”, escreveu mais tarde o seu filho Randolph, “permaneceu com ele para sempre, e foi a mola principal da sua conduta política.” p. 36
Diz-me o que andaste a ler dir-te-emos que político serás?
sábado, outubro 27, 2007
Direitos humanos: a teoria do poder com mais difusão no princípio do séc. XXI
Os sinais da Rússia e da China não são só para "inglês" ver, será para a Europa ver - e comprar, e se tornar parceira, defensora e ainda se tornar simbolicamente mais representativa da defesa das liberdades no mundo do que os EUA. Ora o que ganham os povos chineses e russos em especial com isso, e todos os outros em geral, é o que iremos ver. E também até onde está disposta a Europa a ir na defesa das liberdades.
Mas que a difusão está a funcionar, lá isso está.
A Rússia ontem:
"A Cimeira União Europeia-Rússia terminou com boas intenções das duas partes. A Rússia propôs e a União aceitou: criar um instituto de promoção e acompanhamento dos direitos humanos e da democracia entre as duas potências. Os pormenores – disseram – só para mais tarde.", Primeiro de Janeiro
A China há quatro dias atrás:
"O governo chinês disse hoje estar empenhado na continuação do Diálogo União Europeia (EU)-China sobre Direitos Humanos, pouco dias depois da presidência portuguesa da União ter criticado Pequim sobre o tratamento que a China dá aos direitos fundamentais.
«Com base na igualdade e no princípio do respeito mútuo, poderemos continuar a promover o diálogo dobre Direitos Humanos», disse Liu Jianchao, porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, reagindo às críticas europeias.
Liu Jianchao, que falava em conferência de imprensa de rotina, classificou também como «útil», o diálogo bilateral sobre o tema." Portugal Diário
sexta-feira, outubro 26, 2007
"public reason"
"Nenhum aluno chumba por faltas."
Quando os portugueses em geral souberem o que os professores sabem desde há muito, que este ministério da educação não tem uma única ideia sobre a qualidade da educação e que planificou a sua acção em nome da quantidade e não da qualidade (aumento de taxas de sucesso para exportação à custa da exigência e do rigor, diminuição do número de professores à custa de um desmoralização sistemática da profissão e pelos cortes substanciais à entrada de novos docentes com o encerramento, injustificado, de muitas das escolas), hão-de compreender que a educação é o retrato do país que temos: escolas públicas com os melhores professores que o sistema produz (que ninguém duvide que os professores com melhor formação científica e profissional estão, no secundário, e até agora, todos no sector público) e que não conseguem que essa excelência se substancie em resultados gerais, e escolas privadas que se revelam extremamente eficazes pela estrutura disciplinar que a sua autonomia produz (escolhem as regras e aplicam-nas duramente, sem contemplações para a rebaldaria comportamental dos infantes).
Diga, diga, sr. Putin?
terça-feira, outubro 23, 2007
Minha amiga.
segunda-feira, outubro 22, 2007
O indivíduo2
O clube de caçadores lá da aldeia regula o tipo de violência que nunca se quer excessiva, sobretudo se vinda de uma qualquer pessoa com uma arma carregada na mão e com dois ou três cães a latirem de excitação junto dos seus pés. Tenho a certeza de que se não fossem as reuniões consecutivas e uma forte regulação sobre a actividade, o pessoal ainda entraria ébrio de alegria pelos quintais das casas dentro à procura da caça e manteriam, de forma mais agressiva, longe dos pinhais todos os que procurem ir só dar um passeio e ver os cogumelos.
Pinto Monteiro não é um cidadão que ande só a dar uma volta no pinhal a ver cogumelos, é um cidadão com uma arma na mão. E pode usá-la, com regras, mas pode. Algum dia alguém em Portugal terá que assumir todas as consequências do lugar que ocupa e dizer toda a verdade, não para nos estarrecer com ela, mas para nos permitir agir e melhorar como sociedade, à qual nos possamos congratular por lhe pertencermos.
O indivíduo
O problema, como foi sempre um problema, trata-se se saber onde está esse ponto fixo, como se apresenta e em nome de que valores, ou do que regras civilizacionais, se pode fazer representar.
É verdade que há sociedades que preferem ver-se como comunidades, e entenderem-se socialmente segundo regras comunitárias, onde o indivíduo é menos importante que a família, ou o seu grupo comunitário. O ponto fixo que prende o balão das ideias e das acções sociais destas pessoas encontrar-se-á noutro tipo de socialização ou de consciencialização sobre as formas dessa socialização. Mas havendo mais do que um ponto fixo, isso deixar-me-á feliz pela diversidade de formas de viver e sigo tranquilamente a vida ou provocar-me-á desejos de comparar a solidez dessas formas para de alguma forma poder escolher a melhor que me aprouver, subalternizando a preterida? Mas que pontos fixos vamos escolher quando toda uma tradição, sob todas as formas de autoridade, me alimentou e encaminhou para essas formas de entender a realidade?
E no entanto as pessoas escolhem fora do quadro de referências da sua comunidade, mesmo se pequena, mesmo se quiser manter-se à parte. Porque não existem ideias de comunidades não transformáveis, existem ideias de indivíduos que querem ver as suas comunidades segundo ideias não transformáveis. E os processos que impedem a transformação são quase todos violentos, implicam sempre restrições à liberdade de expressão e um forte policiamento que assegure a restrição e puna a transgressão. E no entanto, nenhuma sociedade, mesmo a democrática, pode facilitar o processo de transformação, nenhuma pode precipitar-se numa ordem social de participação nos assuntos públicos.
É por isso que a sensação de nariz colado ao vidro a ver os riscos de luz que um carro a rolar aceleradamente nos dá de uma paisagem urbana nocturna é ainda a sensação do indivíduo que olha o processo democrático em andamento.
terça-feira, outubro 16, 2007
Quebrar cadeias e as razões porque e quando o devemos fazer
Argumentam os autores do "break the chain" que qualquer petição deve ser submetida a sete testes que eles denominam de"Seven Tests of Armchair Activism for Petitions". Esses testes são os seguintes:
1. "Expiration. Does the letter give a timeline for the collection of signatures or a target number of signatures? E-petitions can linger online for months, even years. My experience shows this to be the case, even if the originator put a target date on it to begin with. Petitions that are allowed to circulate indefinitely are seldom compelling and very often continue to circulate long after any usefulness they may have once had has passed. (For example, the Jamie Bulger petition.)
2. Focus. Does the message have a well-defined target and mission statement? Does it clearly spell out what steps or results are desired? Does it solicit and allow signatures only from constituents of the party it's meant to influence? Most e-petitions get you worked up, but make no real statement or demand (For example, the Bonsai Kitten petition), or target an individual who has no authority to make the desired change (for example, the petition to President Bush to reinstate prayer in schools).
3. Integrity. Is someone coordinating the petition to make sure it gets to the proper party in the proper format? Most ask you to send them directly to the party whose actions you are trying to influence. This amounts to an "e-mail attack," costs the recipient time and money and does more to hurt the cause than promote it. (For example, the appeal to the United Nations to stop a war against Iraq.)
4. Privacy. Is there an alternative method for signing, such as a Web site, phone number or snail-mail address? Does the message explain clearly what will be done with the information it collects and by whom? If you are directed to a Web site to sign, does the site include a privacy statement? Remember that there are absolutely no privacy protections for information sent via e-mail.
5. Reliability. Does the message explain clearly who will collect and compile the signatures - and can you trust them? While some petitions actually give you an address to send copies to, most of the creators fail to check with their e-mail provider first and, as a result, their account is usually shut down within a few days. Most e-mail providers prohibit chain letters and petitions in their terms of service. (For example, the petition to stop the Taliban's War Against Women.)
6. Sponsorship. Does the petition's author/originator clearly identify himself or herself and give some way to contact him or her. A well-planned political or social cause will usually have a web site or phone number you can contact for more information on the issue and to volunteer to help. Unfortunately, most e-petition creators prefer to hide behind the anonymity of e-mail. (For example, this campaign to stop a non-existent film about Jesus.)
7. Validity. Does the petition contain facts and statistics with a cited source? In other words, can the claims be easily backed up or do you have to take them at face value? In many cases, the thing you're trying to stop no longer exists or never existed to begin with. (For example, any of the collection of petitions to keep Instant Messengers free.)
If a petition fails two or more of the above, dismiss it as Armchair Activism"
Ora aplicando eles estes sete testes à análise da petição "Protect Children in South Africa" que me tinha sido enviada e que corre on-line desde 2001, chegaram à conclusão que a petição falhava em todos os testes, havendo forte recomendação para quebrarmos a cadeia. As razões, que podem ser lidas aqui, convenceram-me.
