quarta-feira, abril 09, 2008

É engraçado, e é engraçado porque não encontrei outra forma de o dizer, como Robert Walser se despede da sua personagem fazendo-a viver até á última linha o drama de uma existência dividida entre o impulso para o intelecto e a denegação ou desejo de resistência a essa actividade. Entre a imolação da individualidade através da reflexão sobre o que há de demasiado pequeno em si, intuindo, ou desejando, uma outra dimensão que o liberte do que experiencÍa mentalmente. Lembra-me a poesia de Alberto Caeiro, mas com um Alberto Caeiro mais atormentado pelo seu efectivo, e testemunhado ao longo do livro, saber pensar.

Descobri em Jakob Von Guten um possível irmão mais novo da personagem Ulrich em O homem sem qualidades de Robert Musil, e o irmão um pouco mais velho da personagem Törless do livro O jovem Törless do mesmo autor, sendo que muitas passagens descritivas que remetiam para descrições de pesadelos ou de perturbações nos estados de ânimo me parecem ter tido eco naquela torrente de imagens/sensações captadas aquando da passagem da personagem Virgílio no livro A morte de Virgílio de Hermann Broch, em que Virgílio, já doente, deitado na sua liteira*, é submetido a um processo de iniciação à influência das massas, no percurso que o levou, desvalido e exposto, pelas ruelas estreitas da cidade portuária de Brindisi onde o seu návio fundeara.

Imagino estes autores juntos, naquilo que já era um tempo sombrio, usando livremente o título de Annah Arendt. Mas é engraçado, à falta de outra palavra, como o refazer ou o reconstituir de uma memória é incomensuravelmente mais difícil do que as sensações que nos colhem no presente.
“-Espelho, espelho meu, onde houve tempo histórico mais sombrio que o meu?”
Como é que dizia Júlia ao despedir-se de Charles em Recordar o passado em Brideshead e citando algo do Livro de Eclesiastes? Ah, sim...
“Vaidade, vaidade, tudo é vaidade”

Hoje é um bom dia para revisitar o documentário sobre “Recordar o passado em Brideshead”, de facto.

*Por lapso escrevi ontem "leitora" ao invés de liteira. Tão engraçado... O lapso quero eu dizer.

terça-feira, abril 08, 2008

Quem brinca com o fogo?

Os símbolos não são mais importantes que as pessoas, mas são mais importantes do que certas acções das pessoas contra eles, sobretudo se os símbolos forem criados para defesa dos direitos universais das pessoas.
A tocha olímpica e todo o simbolismo que com ela está relacionado não é mais importante que a defesa dos direitos dos tibetanos a um Estado justo e legítimo, mas na verdade é tão importante a defesa da manutenção da sua chama, pelos valores políticos que ela representa, tanto quanto o direito à reacção dos defensores da causa tibetana. Não são causas adversárias ou concorrentes, são causas comuns. Como é que activistas dos direitos humanos confundem o transporte do símbolo olímpico com a ideia de branqueamento de uma política?
É algo perturbador sabermos que existe o pensamento de instrumentalização do símbolo na defesa de interesses particulares , da China, tanto quanto é perturbador sabermos que esse símbolo também é instrumentalizado precisamente por quem diz estar a defender a sua autonomia política.

O símbolo pode estar a ser usado pela China para mostrar ao mundo o seu poder, algo que na contemporaneidade e desde Mao tanto almejou e não conseguiu através das suas opções geo-estratégicas, mas está igualmente a ser usado por todos os que tentam apagá-lo. E apagar a chama olímpica é recusar não a sua passagem de testemunho à China, mas a própria passagem de testemunho de valores que deviam ser consagrados pelas políticas dos países por onde a tocha passa, inclusive na China, como forma de fazer vivificar a democracia.
É sempre fácil dizer aos outros como deviam fazer as suas coisas, mas parece-me que as instituições de defesa dos direitos humanos estão mais que habilitadas para pensarem de forma estratégica e controlarem a logística e a organização de manifestações globais de repúdio que, por exemplo, um cordão humano, sem festejar, mas também sem invectivar atletas que transportam o símbolo olímpico, representaria uma acção mais espectacular, não necessitando de legitimar com a sua complacência quaisquer acções a roçar comportamentos de delinquência.
Razão tem o Dalai Lama que sabe que os fins não justificam todos os meios. Nunca, se não quisermos perder a razão das nossas razões que são precisamente feitas em nome de valores civilizacionais que não podemos recusar ou suspender quando isso nos dá mais jeito, ou com os quais não podemos entrar em confronto porque isso baralha o sentido do direito universal já reconhecido para os povos.
Podemos pensar que a civilidade do governo da China labora na irrisão, e que a atitude de prepotência e de violência só pode ser respondida com ainda mais violência e prepotência, porque essa é a linguagem decifrada entre as partes. Mas o que parece não ter outra solução, até pela atitude que põe de cócoras perante a China muitos líderes políticos ocidentais o que pode frustrar aqueles dos seus cidadãos que gostariam de ver defendidos politicamente e de forma activa os valores democráticos, não parecendo estarem eles a resolver politicamente uma questão que é política, dando azo a que certas pessoas tomem para si a defesa dos valores políticos, acaba por nos fazer cair todos em contradição ao atacarmos símbolos que representaram a seu tempo um salto civilizacional inquestionável.
A iconoclastia pode ser meritória como processo de evolução de um indivíduo ou de um criador, mas como método propedêutico, não como forma de vida de uma sociedade que não tem sempre que estar a inventar a roda, logo não tem sempre que estar a inventar os mesmos valores que a história já provou serem os mais recompensadores para os povos.

Numa política internacional com compulsão generalizada para a regressão democrática em nome de valores como os da segurança, com líderes políticos trémulos de vontade de poder, e de enriquecer à custa da política, com laivos acentuados de autoritarismo para compensarem as fragilidades das suas formações cívicas e intelectuais, se começamos então a combater o que restam de símbolos que manifestam valores reconhecidos como uma mais valia civilizacional, caímos na casuística política: reino do vale tudo. E é isto que quem defende a existência de princípios universais de regulação do comportamento humano que sejam invioláveis tem que compreender, que quem brinca com o fogo sai queimado, e se isso como experiência individual é um problema que só diz respeito a cada um, numa sociedade, quando o fogo queima, arde sobretudo sobre os mais desprotegidos.

segunda-feira, abril 07, 2008

"Notícias de uma morte não noticiada"

"Victor Ramalho disse há dias num debate na SIC que os números, quando devidamente torturados, acabam sempre por confessar aquilo que se quer. E tem toda a razão. Os números apurados pela ERC para avaliar a isenção da RTP dizem tudo aquilo que se quer que eles digam. Dão ao PSD o sudário de mártires crucificados por uma máquina de propaganda orientada para os esmagar. Ao PS dão a preciosa oportunidade de se apresentar dorido pelo cilício do órgão controlador que criou e que pode agora exibir como uma entidade realmente independente que não hesita em criticar e morder a mão que a fez nascer e a alimenta. Portanto todos saem a ganhar. Uns com o seu Miserere Nobis que, à falta de melhor é o que vão conseguindo, os outros no Gloria in Excelsis que tanto gostam de entoar. Só que relatórios como o último levantamento da ERC sobre pluralismo na RTP não valem nada. Por muitas horas de transmissão que tenham sido analisadas, a propaganda nunca se mediu a metro e a sua eficácia não é traduzível em percentagens. Quem compila estas inutilidades estatísticas sabe isso muito bem.
Há uns 40 anos, por alturas do Vietnam, Daniel Hallin, Professor de Ciência Política em Berkley, arrumou o jornalismo televisivo em três prateleiras distintas. Na prateleira de cima, Hallin coloca tudo o que é discurso de consenso. O jornalista aí é um mero defensor dos valores sociais e políticos já incontestados na sociedade (no nosso caso patriotismo, democracia, integração europeia etc.). Na prateleira do meio aparecem as áreas de controvérsia consentida. Sem afrontas fala-se de tudo aquilo que o sistema admite poder ser contraditado. Sempre só argumentos contidos na correcção política. Estão aqui as coberturas jornalísticas que decorrem dos debates na Assembleia da República. Este último debate sobre o estado da democracia é um excelente exemplo.
O jornalismo da prateleira do meio, dominante em Portugal, deu-lhe a ressonância necessária, indiferente a pequenos pormenores curiosíssimos que apareciam no levantamento da ERC. Por exemplo, o PS como partido ter uma cobertura televisiva ínfima na RTP quando comparado com o PSD. Um detalhe sintomático deste regime que não mereceu análise apesar do nosso sistema de governo decorrer do número de lugares no parlamento. "Bagatelas!" dirá o jornalismo das águas mornas da sua prateleira do meio, rematando "o governo é PS não é"? "Olhe que não", diriam talvez Manuel Alegre, João Cravinho, António José Seguro e tantos outros. Assim, o retrato e a análise do fenómeno ficam para a prateleira mais baixa, a do jornalismo desviante (foi assim que Hallin lhe chamou) que acaba sempre por ser sufocado na formidável aglutinação de consensos mediáticos que a prateleira do meio origina, porque é aí que actuam subrepticiamente as agências de comunicação avençadas por tudo e todos na nossa vida pública (até pela ERC). Com telefonemas, e-mails, pequenos convites e prendinhas caricatas convencem, entre bájulas e ameaças, este jornalismo mediano das questões que merecem cobertura e das que não a merecem. Estes operacionais tentam por todos os meios criar consensos de opinião tão amplos quanto possível em redor dos seus interesses para esmagar com o seu peso a prateleira dos perguntadores desviantes, neste momento quase vazia em Portugal. Foi assim que a morte do PS parlamentar denunciada pela ERC ficou sem registo jornalístico. O obituário está lá, claríssimo, lavrado no relatório da insuspeita ERC. Mas é preciso querer lê-lo arrumado como foi na última prateleira de Hallin. Uma nota académica Daniel Hallin utilizou a metáfora de esferas concêntricas no seu grafismo. Por experiência pessoal, acho que prateleiras é mais adequado ao caso português."
Mário Crespo escreve no JN, semanalmente, às segundas-feiras

sexta-feira, abril 04, 2008

Política de identidade: paradoxo

Analisemos os dados mundiais para a população. No segundo em que fiz esta cópia estava em 6.696.393.474. Sabemos que estes dados são fictícios apesar das boas intenções estatísticas, pois a actualização rigorosa destes números ainda não é possível no mundo. São cálculos baseados em censos que extrapolam para uma determinada sucessão a que a demografia não dá total cobertura, pois sabe-se que mesmo em países com censos e registos actualizados nem sempre todos os indivíduos são assinalados, pelas mais diversas razões sociais que passam desde a emigração ilegal a pessoas sem residência ou trabalho declarados, quanto mais em países em vias de desenvolvimento que não têm meios para proceder ao devido apuramento.
Seja como for é um número bastante aproximado. Um número que nos faz pensar, não exclusivamente pela sua grandeza presente, mas pelo facto de só neste século se ter conseguido triplicar o número de habitantes no mundo, o que nos faz imaginar na hipótese de dentro um século, seguindo este aumento exponencial, estarmos com um número de habitantes verdadeiramente surpreendente, e alarmante, tendo em linha de conta os recursos disponíveis e o tipo de economia predadora como é a economia baseada no consumo individual das sociedades desenvolvidas.

É por isto que me rio sempre que se fala em problemas de natalidade em Portugal, ou na Europa. Com milhares de seres humanos em situação de pobreza extrema, com milhares de seres humanos com fome, e nós impedimo-nos de pensar numa política de imigração com efeitos reais sobre a taxa de natalidade, ou numa política de adopção verdadeiramente preocupada com crianças e pais adoptantes. É claro que poderemos pensar onde fica a questão da identidade portuguesa se houver um aumento exponencial de indivíduos cuja cultura e tradição seja de tal forma diferente que colidam com a dos nossos valores. Mas primeiro era preciso que eu acreditasse que Portugal tinha valores distintivos dos de qualquer outro povo, ainda que não almeje valores adversários aos dos princípios que regulam os direitos humanos, ou geradores de conflito, que necessitassem de ser defendidos, e em segundo lugar, era preciso que eu acreditasse que havendo esses valores eles estariam em perigo pela vinda de seres socializados de forma distinta e por isso se mantivessem estranhos aos mesmos. È claro que o radicalismo ideológico pode fazer sobraçar uma cultura, mas não uma cultura que se reconheça e que queira ser reconhecida utilizando todos os mecanismos de um Estado de Direito para se defender.

Assim, a circulação de indivíduos no mundo, não deve ser entendida como um negócio de corpos, mas como um contrato de crenças passíveis de serem partilhadas ou pelo menos reconhecidas e respeitadas. A vinda de imigrantes para as nações faz-se em nome da vontade de ganhar dinheiro e ter uma vida materialmente mais desafogada para si e seus descendentes, mas também em nome dos valores que essa terra, passando a ser sua, vai ter que exigir como contrapartida. Não me interessa se as pessoas são verdes e azuis, interesse-me saber se se reconhecem em Portugal e no mundo como portugueses. Mas que valores são os de Portugal? São os dos países ocidentais por mimetismo, por vontade assumida ou inércia cívica, ou temos algo distintivo na nossa sociedade que nos faça singulares e que nos dê orgulhe transmitir a todos os indivíduos em processo de cultivação/socialização?
A identidade está nos livros de história e nas artes? Está na língua? Nas formas de manifestação e convívio populares? Onde? E o que estamos a fazer, no caso de sabermos identificá-la, para a divulgar e conluiar as pessoas à sua volta de forma emocional e intelectual?
Pelo que observo nas festividades institucionais deste país, parece-me haver ideia de colagem da identidade portuguesa à imagem do navegador renascentista que quebrou com o paradigma antigo de pensar o mundo, não sei se por interiorização de um movimento social anímico da nossa consciência pública se por influencia estratégica da propaganda do estado Novo.
A verdade é que é uma bela imagem, e que foi consagrada por Camões, é uma imagem da pessoa interessada no que a rodeia, em explorar métodos e técnicas de locomoção e de comunicação novos, em ir ao encontro de novos povos, mas também é uma imagem crítica, que não quisemos, felizmente, branquear, pois está ligada à defesa de interesses de certas classes de uma determinada fase da nação que colidiram tragicamente com os interesses dos nativos dessas terras. Há uma espécie de vergonha em associar o sem dúvida grandioso movimento da expansão marítima, com o processo da aniquilação dos seres que se lhe oponham como obstáculos ou que foram utilizados como meios para esse efeito. Será esta hiper-consciencialização que nos impede de embandeirar em arco uma exclusiva forma de estar no mundo, reconhecendo-se essa a marca de água que qualquer cidadão português procurará colar a si? E será esta a nossa marca de água?


Por estes dias a França também anda a discutir a sua identidade. Parte dela acha que está a perder a sua liberdade de decisão internacional ao fazer adesão à OTAN. Cabe saber se é a França que perde ou a OTAN que ganha.

terça-feira, abril 01, 2008

Mais realistas que a realidade

"(...) duvido que subscreva a magnífica frase do nosso ministro dos estrangeiros, para quem o direito internacional é "um instrumento ao serviço de opções políticas", ao bom estilo do Manifesto Comunista de 1848. Apenas reconheço que, no Instituto Diplomático, não devem dar Antígona, Cícero, os jusnaturalistas de antes do Iluminismo, os jusracionalistas kantianos e os actuais defensores do direito da razão.(...)
Adelino Maltez em "Sobre o tempo que passa"
Pedro Magalhães já ontem no seu artigo do "Público" dava conta desta deriva interpretativa dos "realistas" deste mundo. E ainda pensamos que não há retrocessos civilizacionais no Ocidente?

" You spend your whole life looking for answers. Because you think the next answer will change something, maybe make you a little less miserable."

Jakob Von Guten investiga. Tem por objecto aquilo que os filósofos contemporâneos puserem em causa e que se pode convencionalmente chamar por "natureza humana".
O que a personagem faz é constituir um friso ao longo do livro sobre a personalidade e a acção dos seus professores e dos seus colegas, e enquanto o faz vai revelando-se a si mesmo. Sabe que todo o movimento de descrição, definição, circunscrição dos outros remete inevitavelmente para a ideia que temos da nossa própria descrição, definição e circunscrição. A questão está que nem sempre nos vemos através do ricochete do nosso olhar sobre os outros: é mais fácil crer que ao defini-los de uma vez para sempre o estamos a encerrar num universo que não nos afecta, de que somos imunes e convenientemente afastados observadores. Como se o fossemos alguma vez… como se não ficássemos quer na sombra que sobre nós projecta o objecto observado quando ele se interpõe entre nós e o foco de luz (a teoria, ou a opinião, ou o hábito à luz dos quais analisamos as coisas), ou quando sem subterfúgios nos prestamos a vermo-nos a nós mesmos com a luz que usamos para ver os outros.
Jakob investiga-se. Faz perguntas sobre si e para si póprio. Não as faz só para saber dos outros à sua volta, para os prender em ideias concebidas. Todo o conhecimento do que o rodeia é um pretexto para profundar o que sabe ou intui acerca de si. Não é uma redução do mundo ao eu, é uma expansão do eu através do mundo.
Não é a firmação do egoísmo solipsista do comentador de filósofo que precisa de interpretar deficientemente a teoria que o precede para não se deixar aprisionar na resposta e produzir ele a sua própria resposta, como a criança malcriada que pensa que só o sendo ganha a autonomia e impõe as suas regras, é a ideia de que ao falar sobre os outros eu estou sobretudo a revelar-me a mim própria, não pelo que eu digo, mas porque o digo, porque me interesso, logo me comprometo com o sentido da inquirição.

"And you know that when you run out of questions, you don't just run out of answers, you run out of hope. You glad you know that? "


Ontem, no episódio de Dr. House, onde me refugiei do desespero intelectual que a parte visionada do programa “Prós e Contras” me estava a provocar, a assistente/colega do médico tem esta conversa com ele:

“/Cut to 13 walking into House's office with an envelope.]
13: What the hell is this? [Puts the envelope on House's desk.]
HOUSE: [Picks it up and looks at it.] Looks like an envelope with the results of the genetic test for Huntington's inside.
13: Did you look?
HOUSE: I thought it'd be fun to find out together.
13: I don't want to know.
HOUSE: No, you're afraid to know.
“13: I might die. So could you, you could get hit by a bus tomorrow. The only difference is you don't have to know about it today, so why should I?
HOUSE: I don't have to know the lottery numbers, but if someone offered them to me, I'd take them.
13: You spend your whole life looking for answers. Because you think the next answer will change something, maybe make you a little less miserable. And you know that when you run out of questions, you don't just run out of answers, you run out of hope. You glad you know that?
[13 leaves. House thinks for a few seconds then drops the envelope in the bin unopened.]”
..
Texto retirado do site "Clinic duty"
O episódio ontem visionado com legendagem em português é o da 4ª temporada, o nº 408.

segunda-feira, março 31, 2008

Estados internos e externos

"(...) Nos Estados Unidos, o ambiente intelectual nos estudos sobre a democratização quase parece ter regressados aos anos 60: a ênfase voltou a ser colocada na "ordem" e no "realismo" políticos, nos pré-requisitos estruturais para a democratização e no pessimismo sobre a probabilidade de progressos a este nível. (...)"
Pedro Magalhães, "Cinco anos depois" in Público
"Acho espantoso que sobre a ocorrência na Carolina Michaelis várias opiniões insistam que a professora não devia ter entrado em "braço-de-ferro" com a aluna por causa do telemóvel. Não houve "braço-de-ferro" nenhum. A Professora recusou-se a capitular. Não deixou que lhe tirassem à força algo que, no exercício das competências em que está investida, tinha achado por bem confiscar. E não cedeu face a pressões selváticas. E não capitulou face a agressões verbais. E manteve-se digna no posto que lhe foi confiado pela sociedade, com elevação e consistência, cumprindo as expectativas depostas na sua missão. A Dra. Adozinda Cruz é um modelo de coragem que o país tem que aplaudir. Que a nossa confusa sociedade precisa de aplaudir porque é uma sociedade carente de pessoas como ela. A Professora de francês fez aquilo que tinha que ser feito. Sozinha. Porque trabalha numa escola onde o Conselho Directivo tolera que a placa com nome do estabelecimento, baptizado em honra de uma excepcional pedagoga que foi a primeira mulher portuguesa a conseguir leccionar numa universidade, esteja conspurcada, num muro com inenarráveis graffitis que mandam cá para fora a mensagem que lá dentro tolera-se a bandalheira. (...)"
Mário , Crespo, Jornalista,
"Não houve braço-de-ferro nenhum" in JN

sábado, março 29, 2008

Individual 3

Jakob é dado a estados de espírito. Sabe-se orgulhoso, não quer pedir ajuda. Da sua educação espera que lhe traga a beleza da lealdade e da dependência. As mesmas qualidades que viu manifestarem-se no mordomo da família que se arrojou aos pés da sua mãe a pedir-lhe clemência por um erro doméstico que lhe iria custar o emprego. Jakob Von Guten vai contar a dois colegas de escola o sucedido, sublinhando o momento sublime da cena do perdão da patroa. Os dois rapazinhos, dois pequenos republicanos, ficaram horrorizados com esse acto que entenderam ser de uma tirania patronal e de classe, camuflada sobre o manto das palavras: misericórdia pessoal.

Os colegas com quem partilhara a história deixam de falar a Jakob, repugnados pelo acontecimento que este vivera de forma estética sem questionar o estado social das coisas. E Jakob aprende para que direcção se encaminha a história: “Assim é: as atitudes aristocratas já não são toleradas. Já não há aristocratas, nem homens nem mulheres, que possam livremente fazer o que queiram.” Mas será que esse espírito do tempo está a perturbar a vida de Jakob? Tornar-se-á um reactivo aos novos ideias da sociedade? Ou juntar-se-á às massas nesse dealbar de um tempo social e político novo?
Nem uma coisa nem outra; a nossa introspectiva personagem Jakobiana diz-nos: “Aceito o tempo como ele é, e tenho apenas o cuidado de fazer as minhas observações em silêncio.” p. 70

Mas às vezes não é verdade que Jakob faça as suas observações em silêncio. Ele não utiliza apenas o seu diário para escrever sobre os mestres, os directores, os camaradas e sobre si próprio durante a estada no Instituto Benjamenta; estada que coincidirá com o percurso já perto do fim de uma vida desse círculo, e em tudo coincidente com o fim do próprio Instituto. Não. Ele provoca frequentemente o taciturno e aplicado Kraus, o aluno contável do instituto para todo o serviço que envolva responsabilidade e obstinação: provoca-o com as imagens por ele observadas ou que lhe passam pela cabeça. Ele provoca o director do Instituto, Herr Benjamenta, com o seu comportamento ora absolutamente controlado das suas emoções, ora em confissões francas sobre os seus desejos. Ele terá provocado a Fraulein Benjamenta com a sua civilidade, pois esta fá-lo única testemunha da sua verdadeira existência por detrás da postura da mestra rigorosa e exigente, fá-lo um ouvinte e assistente de uma dor profunda.

E quais eram os valores que o Instituto transmitia aos seus alunos e que levou Jakob a querer matricular-se neste estabelecimento de ensino em especial? Ele responde-nos com o traço que mais carecteriza a titude desenvolvida nos alunos da escola: “Uma coisa sei com certeza: esperamos! É este o nosso valor. Sim, esperamos, mantemo-nos alerta na vida, sobre esta superfície a que chamam mundo, sobre o mar com as suas tormentas.” p. 92

Enquanto esperam por uma colocação, por um emprego ao serviço de um cavalheiro ou de uma casa, o que lhes é leccionado nesta escola? Pouca coisa. Levam uma vida letárgica, com longas horas de ócio. As aulas concentradas de manhã, umas teóricas outra práticas, sendo que em todas a actividade privilegiada é a de desenvolver a capacidade de aprender o que quer que seja de cor, por isso se ensinam poucas coisas. O lema da escola é: “Pouco mas bem”. p. 63
Nas aulas práticas ensinam-se comportamentos de cortesia social, nas teóricas aprendem-se as regras, a obedecer às leis e a aceitar as restrições que uma futura vida de servente exigirá.
Mas.. e para Jakob, o indivíduo que se sente acima desta atitude? O que ganha ele com este amesquinhar da natureza singular que o Instituo parece querer fazer impor aos seus alunos, quebrando-lhes o orgulho? Este rapaz que descreve o mundo e a si próprio como poucos, o que espera ganhar com esta educação restrita e empobrecida de conteúdos?

quinta-feira, março 27, 2008

Individual 2

Jakob Von Guten inscreve-se no Instituto Benjamenta, propriedade dos irmãos com o mesmo apelido: o senhor director Benjamenta e a Fräulein Lisa Benjamenta, mestra na escola.

O rapaz não é rico, mas podia ter vivido placidamente como se deveras o fosse, por reflexo em si de uma situação desafogada economicamente dos seus pais, ainda que não tão extensiva que desse garantia de segurança financeira ao futuro da sua prole, no caso de esta ter resolvido viver de rendimentos familiares. Guten não o faz. Pega no dinheiro necessário para o pagamento das propinas e dirige-se ao Instituo Benjamenta para se educar a si próprio num registo ao rés-do-chão do espírito social.
Guten, tu não estás aí para aprender a ser um líder, um patrão, um homem de sucesso na escala social burguesa, mas um criado? E assim, aprendendo o que terás que interiorizar para cumprires com perfeição o teu mister, que te compelirá para o apagamento dos teus traços mais alcandorados à vaidade, à empáfia ou à imodéstia, alcançarás um conhecimento real sobre ti. É o que pensas, Jakob?

Eu considero que esta inscrição de Jakob Von Guten no Instituto Benjamenta representa o método que a personagem de Walser encontra para cumprir o desígnio socrático: “Conhece-te a ti mesmo.” Ele vai à procura desse objectivo de vida.

Mas o conhecimento de nós próprios não é coisa que se possa iniciar ou retomar ou empreender de ânimo leve, e jamais de uma vez para sempre é dado e adquirido o que dizemos conhecer de nós. Não o era em Atenas do século V. aC, não o era na primeira década de vinte. E ainda os tempos estavam oscilantemente serenos no palco político internacional nesse ano de 1905; pressupondo que Guten se estará inscrito no Instituto Benjamenta no ano em que o seu autor editou o livro, façamos esta simpatia literária.

O rapaz oscila entre o desejo de servir outrem, como meio de aprendizagem, quem sabe, de poder vir finalmente a conhecer-se relativamente ao que é mais próprio da sua natureza, realizando o seu próprio percurso de iniciação ao auto-conhecimento assente em modelos de paciência e de anulação da vontade personalizada, e esse outro desejo ser rico e de se libertar definitivamente dessa tarefa em que se inscreveu e que às vezes o faz tremer de medo e de asco perante a hipótese de vir a ter um futuro irrisório, servindo medíocres senhores, que lhe provocariam asco e tudo isso pela sua opção tomada num dia em que estava consciente do seu objectivo de vida.
O rapaz é um enigma para ele próprio, como nos diz. É uma coisa e deseja outra, tem a outra e quer ser aquela, não tem nada e não deseja nada, não sabe o que tem e o que deseja, sabe e quer o que tem e o que é. Por dias. E não, não é coisa para ser explicada pelo spleen de Monsieur Baudelaire. Então o que é?
....
Ouvi Amin Maalouf a ser entrevistado no programa "Sociedade das Nações" e pensei: - Sempre há intelectuais de grande ingenuidade argumentativa...
Ora ainda bem, no meio do realismo pragmático que pulula, alguém nos faz sorrir. Sem paternalismo no juízo. Não sei porque senti necessidade de acrescentar isto.

Nosso leal, bravo povo, sempre pronto a cumprir o seu dever a qualquer custo

Li na página quatrocentas e quarenta e duas da biografia de Churchil, já aqui profusamente citada (e nem sempre pelos melhores motivos), o seguinte: “Não guardo ressentimentos ao nosso leal, bravo povo, sempre pronto a cumprir o seu dever a qualquer custo (...)”. Parei imediatamente de ler, impedida por qualquer sentimento forte, logo após o parágrafo que aqui cito de forma incompleta.

Churchill escrevia aquelas palavras após constatar a alegria exibida nas ruas e nos fóruns do povo britânico pelo acordo que Chamberlein, que ocupava então o cargo de primeiro-ministro, alcançara com Hitler e que permitira a este anexar partes de Checoslováquia sem a reacção inglesa a comandar uma possível punição via Liga das Nações, tal como Churchill defendia.
Reparo e penso : - “Há quanto tempo os portugueses não ouvem palavras de apreço, sobretudo se ditas por alguém que viu em tudo ser contrariado por esse mesmo povo, alguém na oposição mais solitária, palavras que não visam apenas o voto em período eleitoral, mas ditas com verdadeiro sentido do estado e do povo em que se está? Há quanto tempo?”

Fosse Churchill um comentador político português da nossa época e tinha zurzido moralmente no carácter de tal povo que se entregava a folguedo em vésperas de um desenlace trágico na política internacional para o qual não estava a preparar-se nem a querer fazê-lo. Teria elevado o seu dedinho indicador e em voz grave, ou com pena moralista, socando o povo com epítetos bem castiços e ácidos. E no entanto, este, como qualquer outro povo, faz exactamente o mesmo quando lhe é pedido sacrifício, lealdade e bravura. Quem lho diz?

O que nós temos são discursos propagandeados e falseados da realidade social e política vivida , via gabinetes de agências de comunicação, ditos por uns, ou discursos de maledicência contínua, de menosprezo constante, de apoucamento sistemático, pejados de ressentimento por tudo, até por respirarem neste canto ocidental, por outros.

E noto que não nutro uma especial simpatia pelo fenómeno Churchill, apenas sublinho com apreço o registo discursivo e a acção em relação ao seu povo que contra si se manifestava. Relevo a diferença, pois a passagem dos tempos não ajuda a explicar este diferendo entre governantes e governados. Pelo contrário.

quarta-feira, março 26, 2008

Individual 1


Não sei como não tinha conhecido antes Robert Walser. Não é propriamente como não conhecer um autor contemporâneo. Walser escreveu Jacob Von Guten na primeira década do século passado. E este livro influenciou autores que eu li e conheço, talvez possa dizer que bem, como Musil, Benjamin ou Kafka, como nos indica a editora em contracapa.
Então porque não o tinha lido? E se este autor escapou, quantos milhares deles não terão igualmente escapado ao meu cânone? Não é que eu tenha a pretensão de ser uma excelente leitora ou de sistematicamente conhecer as obras e os autores que podemos já hoje considerar clássicos e que escreveram no fim do século dezanove princípio do século XX; não. Ah, pois não! É certo que qualquer leitor mais metódico daria conta em poucos segundos da minha ignorância, mas na realidade vivo na semi ilusão de que li e reconheço as principais obras dessa época e que foram traduzidas em português. Daí que Robert Walser seja o Copérnico do meu sistema literário. Quando um afiambra-se com as ilusões que mais o pacificam.

A mim surgiu-me pela mão desse extraordinário rapaz, Von Guten, ecos do texto de Broch, A morte de Virgílio, e de Musil, O homem sem qualidades. Não sei quem escreveu primeiro o quê, e não vou querer saber porque não estou aqui a fazer crítica literária, nem a escrever um ensaio, estou a reconhecer as afinidades linguísticas e temáticas que o livro de Walser me provocou, e cujas ressonâncias procurarei dar conta em tempo oportuno. Porém, para dar conta dessas ressonâncias vou ter que saber quem influenciou quem, ou que formas de vida circulavam nesse espaço de fim de século e primeiras décadas de outro. Pronto, é mais um post sobre mim e as minhas dúvidas, aviso no caso de haver alguma fantasia de que vou escrever sobre o livro.
E no entanto é precisamente sobre o livro que vou escrever.

Jakob Von Guten é um filho de famílias afortunadas socialmente, a quem ele intitula de parentes honrados, mas um filho que rapidamente reclama por uma educação que ele próprio seguisse. Não é que Jacob conteste a tradição, as leis ou Deus, mas entende ser sua missão na vida procurar a educação que melhor o pregaria para a vida, e essa, entendeu-o ele, não seria a educação académica, assente em conhecimento livresco, nem a educação dos salões que seduziam a sua sensibilidade estética mas baralhavam a sua tarefa ética, também não seria a de manter-se sob o jugo das influências dos conhecimentos sociais ou do poder económico. O jovem Von Guten aspira por seguir um percurso de vida determinado por si. E como o faz ele? Pondo-se na posição de aprendiz numa instituição vocacionada para ensinar rapazinhos a serem servidores de cavalheiros. Um aprendiz de serviçal, para se poder, sobretudo, tornar senhor de si.

Hegel, o bom filósofo da dialéctica do par senhor/escravo, percebê-lo-ia muito bem.

colectivo

Há a esquerda e a direita ideológica em termos de valores relacionados com o poder administrativo e económico, mas verdadeiramente parece-me que só existem democratas e não democratas no que a valores civilizacionais e sociais diz respeito.
Cada vez me parece mais que pessoas com valores cujo eixo existencial gire à volta do conceito de liberdade e de equidade, podem ser de esquerda, de direita ou de Marte, porque a linguagem é a mesma, e um mesmo sentido pode nascer da sua acção. Um jogo de linguagem não é só um código partilhado, é uma forma de vida que não pode assumir-se como excepção na vida pública, porque a debilidade ou o improviso ou a hesitação de um indivíduo é alancada por toda a vaga seguinte que reforça a coesão à volta de uma prática idealizada numa linguagem e que algumas comunidades a afectaram colando-a à sua tradição, dizendo-a de sua natureza, quando ela é transnacional, porque criada como princípio universal de regulação da acção social dos povos sem excepção: à liberdade, digo eu.
Quando Portugal tem um peso internacional relativo, quando as políticas económicas, agrícolas, financeiras, ambiente, de defesa e segurança, são impostas pelo parlamento europeu, o que nos fica é a gestão de assuntos de economato doméstico, de regularização dos comportamentos que promovam a corrupção, de logística financeira, e sobretudo, de exploração da nossa identidade. Como essa tarefa está por cumprir, como sempre o estará enquanto houver tempo, Portugal continua a precisar de visionários que empurrem os técnicos para a jornada seguinte da nossa existência colectiva, sendo que o método de investigação não tem que inventar de novo o que já foi inventado e deu bons resultados em termos de satisfação geral da existência. Para onde se poderá encaminhar eu não sei, não sou visionária, mas fico à escuta das razões que possam surgir, e não serão razões tecno-buracráticas de definirão o nosso lugar no mundo tendo os pés bem assentes nesta terra.

Um dia destes, no 2º canal, o Arquitecto Ribeiro Telles foi entrevistado a falar com um dos agricultores urbanos que aproveitam os terrenos baldios para, às portas das urbanizações massificadas, semearem, plantarem e colherem da terra alguns produtos que muitos, mais pelo gosto de cultivar que de necessidade, outros muito mais por necessidade do que por gosto, se dedicam a fazer. Quando o senhor se aproximou de um cavador, este que ali estava a cavar, conheceu-o imediatamente, atirou a enxada para o lado, endireitou-se e parou para o cumprimentar. Falam a mesma linguagem, respeitam-se.
Já os outros arquitectos convidados falaram desses terrenos do alto da sua sapiência, um no seu gabinete, outra no meio de uma rua aberta ao trânsito.
Uns falam de ouvir dizer e de ver de longe, outros falam com os pés na terra a olhar os olhos de quem conhecem as práticas e os hábitos. É mais do que uma questão de confiança que o arquitecto criou com esses cidadãos, é uma lição de política.

terça-feira, março 25, 2008

Uma questão de poder e do seu questionamento

"(...)
O Dalai Lama do Tibete tem sido um mensageiro mundial da paz e reconciliação, para além da destruição desmedida que foi causada pela invasão chinesa em 1959, uma atitude consagrada no Ocidente pela atribuição do Prémio Nobel.
Mas a autenticidade ocidental nesta questão tem sido muito discreta.
Foi necessária a defesa da concorrência leal nos mercados para que a crítica às condições dos trabalhadores na China aparecesse a exigir respeito pelos direitos sociais.
O mesmo não aconteceu quando do massacre de Tiananmen, que orientou para as discretas inquietações em privado, da parte de líderes ocidentais ao visitar Pequim.
A atitude afoita que reinventou e lançou o protectorado para o Kosovo vai continuar a semear inspirações separatistas em vários lugares, talvez presentes nesta insurreição dos tibetanos.
Mas essa criatividade vai seguramente ser refreada, mesmo no Conselho de Segurança, se a questão chegar à agenda. O poder tem uma relação desequilibrada entre a arrogância e a prudência, dependente da identidade do agressor."

Adriano Moreira, "A questão do Tibete", no Dn online

Pois, a identidade do agressor em acções em que o direito internacional está a ornamentar dicursos faz variar muito a reacção à sua pessoa. Lá isso faz. É a ideia de poder como equivalente a impunidade. Um sonho para ditadores e para irresponsáveis.

sexta-feira, março 21, 2008

A criação maniqueísta de realidade: um tipo de governo

Parece que o país dos comentadores políticos, os mesmos que se grudaram no tipo de acção do poder em acção, como Constança Cunha e Sá tão bem escreveu no Público desta semana, só hoje descobriu o tipo de comportamento continuado dos infantes portugueses na sala de aula para o qual os professores tanto têm alertado e sobre o qual só o Procurador Geral da República teve uma palavra a dizer, porque este Ministério da Educação, exclusivamente interessado com as questões laborais e económicas, nunca teve uma orientação sequer sobre os valores cívicos a serem aplicados, nem se mostrou implacável na defesa do trabalho dos docentes como o fez atacando o seu poder.

O que o vídeo hoje exibido à exaustão mostrou é apenas uma leve amostra do que acontece quotidianamente em todas as escolas deste país. Já aqui o disse, mas vale sempre a pena repetir, até porque, como se viu, muitos professores calam publicamente a indisciplina de que são vítimas, interiorizando muitos deles uma qualquer culpa no desempenho do seu papel. A oposição também parece só acordar para estes assuntos em cima deles. Que tristeza está o nosso parlamento. Que atrofio.

Escreve o filósofo José Gil na revista Visão desta semana: "O corte com a realidade leva à convicção de que há só uma razão (a do chefe: as suas razões são a Razão), uma só via ("não há alternativas"), um só mundo (o mundo sonhado da efectivação da política única). A teimosia gera intolerância, a intolerância alimenta-se de um pensamento pobre e maniqueísta: ou preto ou branco, ou comigo ou contra mim. Clinicamente, estamos perto do delírio. Com múltiplas tentações paranóides. Governa-se como se a vontade do povo descontente quisesse a morte (a queda) do Governo. Como se a população fosse contra, radicalmente contra o poder. O que leva, por reacção, a governar contra o povo.
Um exemplo claro: quem examina seriamente, em pormenor, este modelo de avaliação dos professores e as condições da sua aplicação fica com a forte impressão de que os seus conceptores estão fora da realidade. Da realidade do que é a escola, do trabalho dos professores, da sua relação de aprendizagem com os alunos. E, depois da manifestação, não houve "recuo da ministra": a rigidez continua, apesar dos "ajustamentos" prometidos. (...)", p. 28.
Já cheguei a ouvir um psiquiatra e um jornalista muito conhecidos que evocavam o livro de José Gil Portugal Hoje - O medo de existir, precisamente contra as actividades dos professores logo após a manifestação. Como se a ausência do carácter da inscrição, que Gil destaca como sendo um traço da debilidade social e individual de Portugal, estivesse na qualidade da manifestação dos professores que estariam a subtrair-se perfidamente ao poder do poder legítimo, e não a lutar por outro tipo de orientação política, de outro tipo de exercício de poder, que não fizesse da realidade um simulacro da lei feita em gabinete à margem de todo o conecimento efectivo do que é a escola/sociedade portuguesa.

quinta-feira, março 20, 2008

Um estado do mundo temperamental

Um ano, cinco anos, um século, um dia, nove meses, quatro anos.
Os seres humanos a darem sentido ao tempo, agindo ou reagindo àquilo que a pessoa ou a pessoa dos outros faz nesse tempo.
Para que a acção individual seja entendida como força de intervenção efectiva as instituições terão que acordar entre si, reflectindo-a. É isso que as organizações nacionais devem fazer nos assuntos internos de cada país democrático, e as internacionais no que diz respeito às questões de relações entre países; surgindo até a hipótese de pela primeira vez, e no contexto de direito internacional, as organizações não nacionais poderem intervir em cada país em nome precisamente de princípios reconhecidos internacionalmente.
Quando se põem em causa esses princípios ficamos à mercê dos temperamentos dos nossos governantes, e estamos sujeitos às suas arbitrariedades mais ou menos legitimadas pelo voto. Mais, porque o voto tem força de legitimação inquestionável, menos porque essa legitimidade não é suficiente para suportar qualquer acção administrativa/política.
Deste lado pacífico do mundo, cinco anos da minha vida não equivalem a cinco anos da vida de uma iraquiana, um dia dos meus não equivale a um dia da vida de uma habitante do Darfur, ou do Quénia, ou da Coreia do Norte, ou do Tibete ou da Birmânia, e o mais que há. Aliás, nem uma hora das minhas equivale à hora de uma mulher que viva aqui mesmo ao meu lado e esteja em sofrimento por razões de ordem pública.
De reacção em reacção, perdemo-nos do sentido de intervenção democrática, começamos a reagir aos acontecimentos como os líderes: temperamentalmente, em círculos.

terça-feira, março 18, 2008

A arte de negociar

Uma amiga dizia-me que Sócrates é o homem mais bem preparado tecnicamente para governar, e dava-me como exemplo a rigorosa pretação discursiva de todas as suas intervenções públicas, assim bem como o controlo evidenciado sobre toda a informação emanada dos diferentes ministérios. Mas eu perguntei-lhe se os portugueses tinham votado num director-geral para gerir uma empresa pública ou num político. Discutimos o conceito de política e acordámos que Sócrates é um péssimo político, desde que por este se entenda um negociador para dirimir conflitos e diferendos que o exercício e o uso do poder inevitavelmente provocam. Mas acordámos que o primeiro-ministro é um óptimo gestor, sobretudo da sua imagem. Reflexos e cruzamentos entre uma certa ideia de estado, de governo e de poder.

A minha amiga é capaz de olhar a realidade de frente. Pelo menos eu acho, penso até que ela está muito melhor preparada metodologicamente para o fazer do que eu alguma vez estarei, que a olho, frequentemente, a caminho de nem sei o quê. Eu na realidade a maior parte das vezes não queria era saber da realidade para coisa nenhuma, desta descrição política e social tal como ela me é servida nas notícias. E no entanto, também não consigo fazer de conta que não vivo aqui. E penso: - só devia pensar sobre literatura, ou poesia, ou cinema, sobre teoria filosófica e sobre história, e ler poesia e as crónicas de Lobo Antunes. Só.
Mas qual o quê, esborracho o nariz contra a vitrine aberta para a nossa realidade política-social e fico ali em palpitações, oscilando entre a náusea e a crença, entre a negação e a afirmação, entre o cansaço e a acção, entre a impotência e a sensação que não se é capaz de compreender o que tem que ser compreendido. Daqui só se sai por comoção forte ou empenho criativo direccionado. Eu fico a olhar. Qual estudo empírico, qual o quê.
É engraçado como imagens diferentes se cruzam no cérebro quando se escreve uma coisa e se intercepta uma outra forma de ter sentido o mesmo. Agora lembro-me de muitas das histórias que li ou vi de seres completamente desprotegidos no mundo, histórias que se cruzaram comigo: e que me fizeram? Imagens fugazes do que imaginei quando li sobre a menina vendedora de fósforos, sobre os operários perseguidos de Gorki, ou ainda sobre os judeus desalojados de suas casas e separados das suas famílias, e também sobre os pequenos dos Esteiros, ou ainda sobre o Zezé e o seu pé de laranja lima.

-Queres que eu te leia a história do Zezé?
-Não mamã, essa história é muito triste.

domingo, março 16, 2008

Três anos de Sócrates no governo

Há muita gente que vocifera contra o sistema italiano, instável por natureza, segundo o seu registo histórico. Eu sempre disse, quando nos acusavam de estarmos a seguir o modelo transalpino, que ainda iria ter muitas saudades desse estado de coisas absurdamente democrático. Absurdamente democrático.
Como este sentimento já o manifestei, que me lembre, durante os mandatos de Cavaco Silva, só pode ser um problema meu com certas figuras/atitudes políticas. Ainda bem que é um problema meu e não um problema do país, como revelam as sondagens. Assim como assim, eu que resolva a questão comigo mesma.
Mas será um problema só meu? Cinco meses após a tomada de posse deste governo e eu já achava que não. Enfim, pode não ser absurda, mas sempre é uma democracia, apesar de tudo. Uma espécie de democracia. Com algum desprimor. Mas também reconhecer é mais difícil que maldizer. O problema é quando não é um maldizer mas um sentimento forte de rejeição pelas teorias e práticas apresentadas. E depois? Não há eleições? Há. E eu já só penso nelas. Mas também... talvez se apresente alguma forma absurda da democracia se promover.
Isto só pode ser um problema meu, afinal não temos estabilidade? Temos. Não ando sempre à procura dos fundamentos para tudo e mais alguma coisa? Sim. Logo...
Mas eu posso questionar os fundamentos que fundamentam esta política. Assim eu o soubesse.
..
Pessoa amiga conta-me o que se passa com os programas Polis deste país. Embasbaco. Eu embasbaco sempre com a inteligência privada a servir-se de dinheiros públicos de forma despudorada. Devia dizer de forma desonesta. Não é só uma questão imoral, porque esta coitadinha mal sai dos livros antigos de filosofia e dos catequismos, é uma questão de ilegalidade. Um dia há-de resolver-se, e o contínuo há-de ir preso. Já me esquecia, isto pode ser um exercício de absurdo de uma democracia oligárquica. Pode.

sexta-feira, março 14, 2008

Resposta a uma observação crítica: os professores e o sistema económico e social

Através do meu/minha interlocutor/a do blog DIACRIANOS pude ler pela primeira vez um texto do autor Dany-Robert Dufour, autor que eu não conhecia e cuja referência agradeço desde já.

O excerto ali transcrito é interessante sobre todos os pontos de vista. De certo modo é um texto inscrito na linha das análises sociais desenvolvidas pela Teoria Crítica das acções sociais. E qualquer pedagogo o deveria poder ler, sobretudo porque Dufour não se limita a descrever e a interpretar as causas e os efeitos das pseudo teorias da educação que têm destruído a escola pública de massas, não se fica portanto pela reflexão sobre as coisas como elas estão a querer ser e a diagnosticar as origens desse fenómeno, mas porque insiste na ideia que aquela escola que quer ser entendida como a que forma as “elites” continua a manter exactamente aquele modelo de ensino “arcaico” que as teorias pós-modernas da educação propõem alterar em absoluto nas escolas de massas.

Logo, não foi o modelo de educação antigo que se esgotou, foi a vontade de alguns governantes com responsabilidades nas áreas que propuseram a alteração do modelo para que melhor se respondesse aos interesses económicos-culturais da época presente, e isso através de uma moldagem absoluta de todos os meios de socialização em função dessa finalidade, sendo que depois, paradoxalmente, esses mesmos interesses precisam de continuar a formar e a integrar as elites que venham aplicar e desenvolver o modelo, sendo elas no entanto formadas de “fora” desse modelo social e cultural implementado.

Como não estamos num registo teórico que se reconheça pertencente ao domínio das teorias da conspiração, só podemos registar que o sistema de educação actual tende a ser reorientado para satisfazer o mercado de trabalho, ou, enquanto destas forças não houver necessidade, para as manter enquadradas e entretidas numa instituição, por uns quantos a quem este modelo de socialização convém, mas aqui entra-se no limite da intriga paranóica reflexiva, ou , alternativa mais plausível, este modelo é defendido por todos os que crêem nas virtudes do actual modelo económico/social e defendem de facto ser este o caminho para o futuro da sociedade, adaptando-se assim às circunstâncias históricas, ajudando à sua divulgação e implantação universal. Isto é, crêem profundamente que a escola de massas, geralmente a escola pública e muitas das instituições privadas, devem mudar de paradigmas de educação, deixando ficar para uma meia dúzia de instituições o trabalho de continuar a reproduzir o sistema antigo que forma alunos com capacidade crítica e reflexiva

Reconhecendo o fenómeno pela experiência que tenho do sistema de educação público, e constando que muitos dos nossos alunos são realmente “filhos da televisão” e que desejam que nós professores continuemos a ser os seus entretenimentos, eu pergunto-me: a escola dita “arcaica” poderia realmente a ser uma resposta para esses alunos?

Vamos lá a ver, não é que eles nasçam com competências cognitivas atrofiadas, não é que o sistema cultural dominante os determine como incompetentes para um sistema baseado no modelo clássico de ensino-aprendizagem comprometido com o modelo que pressupõe a autoridade científica do professor numa consequente transmissão de saber, o que eu me pergunto é o que fazer com a elevada taxa de abandono ou de reprovações que afectam realmente esse sistema? A solução passaria pelo quê, a montante: desligar o televisor? Incentivar outras formas primárias de socialização (manter a criança em idade pré-escolar num grupo reduzido de crianças com um ou dois adultos presentes para orientarem a formação social)? Restabelecer regras de disciplina mais formais nas instituições ou nas famílias? Responsabilizar as famílias pelo comportamento dos alunos? Mas como? Culpabilizando-os? Formando-os? Como?

E a jusante, passa a solução por manter o sistema “arcaico” para todos e distingui-los depois num determinado momento do seu percurso escolar (como se faz no exigente estado da Baviera) entre as várias escolas com níveis de exigência diferentes? Mas não estará aqui também em causa as desigualdades da origem social a condicionar esta decisão?


Critica-me o/a a interlocutor/a a minha ingenuidade quando eu reclamo para a escola portuguesa a continuação do papel central do professor como sujeito de trnasmissão de conhecimentos e de saber, como se isso fosse possível numa sociedade que pretende copiar todos os modelos de um capitalismo desregulado, e num sistema que trucida a qualidade e o esforço, a diferença e o mérito de todos aqueles que se lhe opõem, ou que contariam o seu movimento. É certo que o sistema é nivelador, e que com esta nova reforma da educação ainda mais rasteiro se manterá a formação de consciência dos alunos que tenderão a compreender que façam o que fizerem terão sempre um certificado na mão e que os melhores de entre eles, os que mais se esforçaram nem sequer terão garantias de que o seu trabalho será recompensado, numa sociedade que se estratifica cada vez mais numa rede social de conhecimentos e de influências familiares ou de meio social que dificulta a progressão económica e social. Eu sei. Lecciono em vários níveis do ensino, e sei o que os meus melhores alunos, e alguns são estrangeiros, muitos vêm das nossas antigas colónias e querem estudar connosco, não conseguem fazer quase nada com o seu mérito em Portugal.

Porém, sabendo tudo isto, não posso concordar que a escola seja ainda uma pequena parcela no processo de aculturação, não ainda, ou não de forma absoluta. Quem lá está sabe que muitos dos alunos, do básico ao secundário até ao universitário, estão lá para ver “passar o comboio”, mas muitos outros estão presentes e aprendem com os seus professores, ainda os reconhecem como autoridades no saber.
Serão cada vez menos, mas ainda os há que trabalham muito, que querem aprender. Eu conheço-os, passam alguns à minha frente, e sei que este sistema de educação, esta reforma, mesmo a universitária, não é feita em seu nome. Eu sei que é pouco significativa esta minha experiência, ainda para mais porque eu lecciono maioritariamente para adultos, mas ela não é única no meio onde circulo, e não pode ser por si uma expressão sem significado ou sem valor estatístico.
Porém, como me disse, a verdade é que: “Os docentes apanham os papéis que lhes atribuem os intermediários das burocracias locais.” E sobre isto eu tendo a não conseguir ponderar de forma suficiente.
Esta crítica reconheço-a como válida. Somos actores (sou) num sistema que não dominamos e que de certa forma ajudamos até a perpetuar em nome de um emprego para a vida. Reconheço.
Mas ainda assim, ou será por isso mesmo?, e com quase todos os ditos "líderes de opinião" a fazerem uma campanha cerrada contra o movimento dos professores, com quase todos os editores de jornais a manifestarem-se a favor da ministra, os professores movimentam- se diariamente à procura de formas de discutir estas reformas, dizendo o que sobre elas entendem. E não nos esqueçamos que os professores não têm uma Ordem profissional, mal têm associações, sendo a maior parte criadas recentemente, e que são muito individualistas pela força do seu trabalho que os torna especialistas numa determinada área do saber/actividade e não os faz propriamente políticos da educação, apesar de muitos terem mais anos de formação e de competência científico-pedagógica do que qualquer um dos seus governantes na área.
É claro que nada disto obsta a que já devessem ter tomado uma posição relativamente aos valores que (não) estão a ser reproduzidos por si. É claro.

Uma notícia preocupante

"Pequim, 14 Mar (Lusa) - A tensão no Tibete aumentou hoje com dois monges a tentar o suicídio e as autoridades chinesas a fechar mosteiros após três dias de manifestações contra a administração chinesa na capital, Lhasa, divulgaram organizações internacionais pró-Tibete."

Por um Tibete Livre!