Não temos a certeza que sejam atavismos sociais pela sua parte ou antes uma defesa pessoal, caminhando para os lugares de conforto que conheciam e onde ideias grandiosas as embalavam, mesmo se ideias pseudo grandiosas. Repare-se como há uma senhora que revela a sua vontade de sempre ter crido que estava destinada a fazer algo pela pátria; como essa concepção é fecunda para o seu imaginário político.
A democracia portuguesa envergonhou-se desse sentimento (a bandeira, entendida como apelo emocional e identificativo de um desejo e de uma comunhão nacional à volta desse desejo, só vai aparecer nas janelas décadas depois e por razões de futebol), a sociedade civil deixou aos militares a defesa desses valores e envergonhou-se de falar na pátria. Escondeu esses sentimentos. Ora quem vinha fortemente marcada por esses valores, ou por essa linguagem, não encontrou lugar depois, nem se deixou seduzir pela nova linguagem e o que ela antevia de realidade criativa na sociedade. E devia ter-se pensado na socialização dos que tinham vindo com fortes estruturas mentais enquadradas pelo antigo regime, devia ter havido um cuidado maior em explicar a revolução e os seus valores civilizacionais aos que a temiam ou aos que estavam enquadrados por uma linguagem e por uma acção que lhes dava uma espécie de segurança, aos que a desconheciam, enfim.
Atente-se no cuidado com a iconografia que o anterior regime tinha, não falo de propaganda coadjuvada por censura, mecanismo forte de condicionamento mental, mas na própria ideia cénica à volta do ditador. Aquela cena de Salazar a despedir-se das suas pupilas no meio de um campo de milho(?), afastando-se depois pelo meio de um caminho rural com o seu chapéu de chuva aberto a protegê-lo do sol, filmado ao longe e de costas, é uma imagem fortemente cinematográfica. É uma projecção de ideia de homem que toca o imaginário (e deve ter sido isso que a realizadora nela viu, ao mantê-la como registo no seu próprio documentário).
Foi pena não se ter falado com aquelas outras mulheres que aproveitaram para escrever mais sobre elas do que sobre a sua adesão à causa. Impressiona a carta da mulher que se oferece como em sacrifício ao Deus cristão pela vontade de ter um filho. Sobreviveu à gravidez de risco? Encontrou o sentido da sua vida na vida do/a seu filho(a)?
Excepto a senhora com que termina o programa, a trabalhadora que se descreve como vencedora na vida, estando bem sintonizada com a realidade presente, todas as outras mulheres vivem ainda como que encapsuladas, em gestos recatados (é comovente ver a senhora que puxa o seu vestidinho para cobrir os joelhos, é aflitivo ver aquela outra que cicia, meio temerosa, contida nos gestos). Há depois a bela senhora que observa o mundo do seu magnífico edifício solarengo e que sonha ainda com uma entrega heróica da sua pessoa a uma ideia de grandeza pátria, sem se decidir a agir nas formas que o mundo hoje lhe dá. Cheia de reticências dentro de si. Como se eternamente ficasse em suspiro. Ou aquela, a mais idosa, que não tem complacência para a nossa época e com energia a nega, ressentida.
É um documentário bem enquadrado historicamente, de grande simpatia pessoal para com estas mulheres, ainda que se procure compreender com algum distanciamento teórico o que viam elas num homem e numa causa que tanto contribuiu para a subalternização do poder político do papel da mulher e para a paralisação de um país.
A evocação das energias de uma nação é uma das qualidades que qualquer discursos democrático terá que contemplar, para que a democracia não seja apenas uma forma de governo, um mal menor na história do poder, mas antes uma forma vivificadora da existência do indivíduo no mundo enquanto cidadão. Se a democracia não dá por si só a felicidade a ninguém na sua vida íntima, terá que lhe dar a base suficiente para ser reconhecida como a única forma verdadeiramente defensável e pela qual vale a pena imaginar mundos e vidas públicas.
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