O excerto ali transcrito é interessante sobre todos os pontos de vista. De certo modo é um texto inscrito na linha das análises sociais desenvolvidas pela Teoria Crítica das acções sociais. E qualquer pedagogo o deveria poder ler, sobretudo porque Dufour não se limita a descrever e a interpretar as causas e os efeitos das pseudo teorias da educação que têm destruído a escola pública de massas, não se fica portanto pela reflexão sobre as coisas como elas estão a querer ser e a diagnosticar as origens desse fenómeno, mas porque insiste na ideia que aquela escola que quer ser entendida como a que forma as “elites” continua a manter exactamente aquele modelo de ensino “arcaico” que as teorias pós-modernas da educação propõem alterar em absoluto nas escolas de massas.
Logo, não foi o modelo de educação antigo que se esgotou, foi a vontade de alguns governantes com responsabilidades nas áreas que propuseram a alteração do modelo para que melhor se respondesse aos interesses económicos-culturais da época presente, e isso através de uma moldagem absoluta de todos os meios de socialização em função dessa finalidade, sendo que depois, paradoxalmente, esses mesmos interesses precisam de continuar a formar e a integrar as elites que venham aplicar e desenvolver o modelo, sendo elas no entanto formadas de “fora” desse modelo social e cultural implementado.
Como não estamos num registo teórico que se reconheça pertencente ao domínio das teorias da conspiração, só podemos registar que o sistema de educação actual tende a ser reorientado para satisfazer o mercado de trabalho, ou, enquanto destas forças não houver necessidade, para as manter enquadradas e entretidas numa instituição, por uns quantos a quem este modelo de socialização convém, mas aqui entra-se no limite da intriga paranóica reflexiva, ou , alternativa mais plausível, este modelo é defendido por todos os que crêem nas virtudes do actual modelo económico/social e defendem de facto ser este o caminho para o futuro da sociedade, adaptando-se assim às circunstâncias históricas, ajudando à sua divulgação e implantação universal. Isto é, crêem profundamente que a escola de massas, geralmente a escola pública e muitas das instituições privadas, devem mudar de paradigmas de educação, deixando ficar para uma meia dúzia de instituições o trabalho de continuar a reproduzir o sistema antigo que forma alunos com capacidade crítica e reflexiva
Reconhecendo o fenómeno pela experiência que tenho do sistema de educação público, e constando que muitos dos nossos alunos são realmente “filhos da televisão” e que desejam que nós professores continuemos a ser os seus entretenimentos, eu pergunto-me: a escola dita “arcaica” poderia realmente a ser uma resposta para esses alunos?
Vamos lá a ver, não é que eles nasçam com competências cognitivas atrofiadas, não é que o sistema cultural dominante os determine como incompetentes para um sistema baseado no modelo clássico de ensino-aprendizagem comprometido com o modelo que pressupõe a autoridade científica do professor numa consequente transmissão de saber, o que eu me pergunto é o que fazer com a elevada taxa de abandono ou de reprovações que afectam realmente esse sistema? A solução passaria pelo quê, a montante: desligar o televisor? Incentivar outras formas primárias de socialização (manter a criança em idade pré-escolar num grupo reduzido de crianças com um ou dois adultos presentes para orientarem a formação social)? Restabelecer regras de disciplina mais formais nas instituições ou nas famílias? Responsabilizar as famílias pelo comportamento dos alunos? Mas como? Culpabilizando-os? Formando-os? Como?
E a jusante, passa a solução por manter o sistema “arcaico” para todos e distingui-los depois num determinado momento do seu percurso escolar (como se faz no exigente estado da Baviera) entre as várias escolas com níveis de exigência diferentes? Mas não estará aqui também em causa as desigualdades da origem social a condicionar esta decisão?
Critica-me o/a a interlocutor/a a minha ingenuidade quando eu reclamo para a escola portuguesa a continuação do papel central do professor como sujeito de trnasmissão de conhecimentos e de saber, como se isso fosse possível numa sociedade que pretende copiar todos os modelos de um capitalismo desregulado, e num sistema que trucida a qualidade e o esforço, a diferença e o mérito de todos aqueles que se lhe opõem, ou que contariam o seu movimento. É certo que o sistema é nivelador, e que com esta nova reforma da educação ainda mais rasteiro se manterá a formação de consciência dos alunos que tenderão a compreender que façam o que fizerem terão sempre um certificado na mão e que os melhores de entre eles, os que mais se esforçaram nem sequer terão garantias de que o seu trabalho será recompensado, numa sociedade que se estratifica cada vez mais numa rede social de conhecimentos e de influências familiares ou de meio social que dificulta a progressão económica e social. Eu sei. Lecciono em vários níveis do ensino, e sei o que os meus melhores alunos, e alguns são estrangeiros, muitos vêm das nossas antigas colónias e querem estudar connosco, não conseguem fazer quase nada com o seu mérito em Portugal.
Porém, sabendo tudo isto, não posso concordar que a escola seja ainda uma pequena parcela no processo de aculturação, não ainda, ou não de forma absoluta. Quem lá está sabe que muitos dos alunos, do básico ao secundário até ao universitário, estão lá para ver “passar o comboio”, mas muitos outros estão presentes e aprendem com os seus professores, ainda os reconhecem como autoridades no saber.
Esta crítica reconheço-a como válida. Somos actores (sou) num sistema que não dominamos e que de certa forma ajudamos até a perpetuar em nome de um emprego para a vida. Reconheço.
