domingo, junho 22, 2008

Entre um ataque de vírus, muitas horas de cuidado e um longo suspiro de alívio e de cansaço aqui fica

uma citação do livro que ando a ler ( e que se revelou uma agradável surpresa, apesar dos meus preconceitos sistemáticos contra o autor), livro que me ajudou a focalizar após alguns dias de nevoaça: "Tal como disse Alexander Hamilton no nº 73 do The Federalist, "Ter poder sobre o sustento de um indivíduo é ter poder sobre a sua vontade." in O ataque à razão, p. 71

Pergunto-me, quando é que se deixa de querer ter poder sobre a vontade dos indivíduos? Não parece a existência uma luta de vontades, muito mais do que um confronto de argumentos? É como se o comportamento infantilizado e infantilizador se mantivesse eterno na cabeça e atitude de muitos. Nesse virote que é a luta entre o domínio das vontades e a força de ganhar por discussão racional, é como se de facto não houvesse solução à vista. Uma creche imensa é como pode parecer um país.
E no entanto há aquela esplanada sobre Lisboa ao lado do Mercado do Loureiro, a subir para o castelo, onde o encontro entre a beleza e a luz nos redime de qualquer desgosto que nos andasse a abocanhar. Há o nosso lugar no canto do universo, e não estamos sozinhas. E nenhuma perda no campeonato de futebol abate o desafio da multiplicação da bandeira com a qual os bairros populares de Lisboa engalanam as suas ruas nas festas dos Santos. E volta-se a comer sardinhas maradas que nos dão volta ao estômago, numa esquina qualquer, e o fado faz-se ouvir, mesmo sofrível, mesmo desalmado, até que a voz nos doa a todos. Uma vez, e outra, e mais uma vez ainda.

domingo, junho 15, 2008

Certo. Mas que falsos problemas? 1

« La politique est l'art de généraliser les faux problèmes, de donner des faux objectifs et d'engager de faux débats », professait Jacques Ellul.



E ao invés de me interessar pelo dilema que o povo irlandês apresenta para resolução às cabecitas europeias em geral, e à do nosso Primeiro em especial, passei muitas horas do meu fim-de-semana a pensar em duas coisas: no sorriso forçado que se colou à cara da Senhora Nixon quando o seu marido publicita a sua candidatura ao cargo de Presidente dos EUA sem a consultar (que excelente documentário este "NIXON, O HOMEM QUE AMAVAM ODIAR") e em comida. A cada um os seus problemas.

quarta-feira, junho 11, 2008

Ética pública: ela existe e nós buscamo-la. Podia ser pior...

podia nem haver o esforço.


CLAD

A minha amiga venezuelana participou na reunião que houve em 2004 em Lisboa e declarou-me o seu interesse. Eu só soube disto hoje.

terça-feira, junho 10, 2008

Segredinhos 2

Mas as pessoas não podem escolher para funções da mais diversa ordem aquelas que pululam nos próprios grupos que constituem, e com quem tenham proximidade de interesses? Não é natural que assim seja?

Katz afirmou que uma pessoa influente sê-lo-á pela força de três formas de vida orientadores da sua existência: 1. Pelo que ela é (os valores que a estruturam); 2. Pelo que ela conhece; 3. Pelas relações sociais que estabelecer.

Convidada por uma amiga a ir falar do tema "Líderes de opinião política", na sua cadeira de agendamento, ouvi-a desabafar: “Até ele defende essa circunstância da vida como determinante?” Pois.
Os dados têm vindo a ser coincidentes desde a década de cinquenta: as pessoas mais influentes, aquelas que são ouvidas com atenção, apresentam como características determinantes a sua capacidade de se relacionarem em rede alargada, e desse factor vir a contribuir por sua vez para a manutenção dessa propensão.
Os conhecimentos contam. Mas porque é que contam? Por aquilo que se é e sabe, competências básicas que irão depois atrair e desenvolver a capacidade de manter ou procurar relacionamentos? Ou, pelos relacionamentos que a sua posição no grupo social lhe dá à nascença, ou por meio de favores, ou por ser o protegido de alguém que por sua vez é influente, que irão depois contribuir para a formação daquilo que se é e sabe? Há distinções no processo relativo ao modo de se aceder a um ou outro benefício dos relacionamentos que se têm, embora a conclusão se mantenha inalterável: aqueles que nós conhecemos dispõem de certa forma de nós, e condicionam-nos na ordem social.

Não é propriamente uma novidade. Nem tem que ser uma constatação sobre o poder de um padrinho que dá a bênção e proporciona a cunha. Eu expliquei que a competência social é um factor de avaliação como outro qualquer, e que não se é escolhido para as funções de liderar a opinião, por exemplo, por se ser aquele que alguém conhece, mas em primeiro lugar pelo que se é.

Mas então e num grupo coeso onde membros partilham dos mesmos ideais e pactuam para se promoverem mutuamente chegada a circunstância? Há algum malefício para a sociedade que eles se escolham e se projectem para a governação dos assuntos públicos? Não. Desde que possam ser avaliados pelo público e não se escudem nas escolhas inter pares.

Antes do jogo de futebol os dois aniversariantes puderam escolher as suas equipas. Quando chegou a hora de seleccionar o menino não hesitou, preferiu só os que considerava melhores jogadores e deixou alguns dos seus amigos serem trocados por outros meninos que não conhecia de lado nenhum. Um deles, amiguinho desde a infantil, gritava: “Escolhe-me a mim! Escolhe-me a mim!”
Desapontada com a atitude do pequeno seleccionador perguntei ao rapazinho mais tarde: “Achaste que foste um bom amigo?” Ao que o rapazinho respondeu: “Mas mamã, os meninos que eu não escolhi não sabem jogar futebol e com eles íamos perder de certeza.”
Amigo é amigo, e dever de anfitrião é sagrado, retorqui liminarmente. Pois. Mas então como fica a ideia de que qualquer escolha das pessoas deverá ser feita pelas suas competências para o lugar exigível e não pela força do seu relacionamento connosco? Que valores passam para uma criança a quem ensinamos que os amigos devem ser sempre escolhidos para as brincadeiras das quais somos os líderes? E como ensiná-lo pela vida fora a distinguir o que é uma brincadeira e não é?
Um dia uma grande amiga disse-me que nunca me escolheria para ministra de nenhum governo que ela pudesse constituir, durante um desses exercícios de experiência pensada a que nos entregávamos. Fez bem. Eu não partilhava com ela senão uma profunda amizade, pois em comum não tinhamos nenhuma ideia política. Magoei-me profundamente. Aprendi sobre a distância entre mim e a amizade por mim. Eu tê-la-ia escolhido, claro, porque a julgava capaz de desempenhar funções competentemente, apesar de tão distinta ideologicamente. Mas o caso é que a recusa dela me fez pensar na equivocidade de uma escolha que a mim me parecia inquestionável. Um progresso no aprofundamento das ligações.

Um cargo político não é um jogo de futebol entre crianças. Talvez não. Se eu tiver a oportunidade de escolher quem irá trabalhar comigo irei fazê-lo em nome de que valores?
Como deixar isto ao critério de cada um é assunto muito complexo para uma democracia, esperando-se pela incógnita que é a formação cívica e pessoal de cada um pode-se ter belas surpresas, o melhor é que as instituições elas próprias tenham os seus princípios de selecção e que no maior número possível de lugares públicos, inclusive as chefias, só se possa aceder por concurso público com regras claras e objectivas.
Ainda que no final a igualdade de oportunidades continue a ser um caso de "Um violino no telhado".

segunda-feira, junho 09, 2008

Os segredinhos 1

Segredos só se compreendem se forem íntimos ou sob pedido de quem os partilha connosco por razões de pudor ou de segurança pessoal ou colectiva, pois no que diz respeito a assuntos da esfera da vida pública nem os concebo.
Andam a moer-me há dias umas declarações, publicadas em jornal, de certas personalidades identificadas como membros da maçonaria sobre o desvalor de um governo que não terá, supostamente, convidado nenhum dos seus membros para ministro. Incomodou-me o tom de intimação de uma frase, que, a ser verdade como princípio da organização e não uma mera leviandade de certos alguém que gostam de brincar em idade adulta à aventura dos cinco, é uma ameaça ao poder da democracia; li, então, em excerto de uma conversa gravada, que este governo iria sofrer grandes dificuldades em paga dessa omissão selectiva para com a organização propriamente dita. Poderia discutir aqui a questão das escutas em Portugal e ainda mais o problema relacionado com a sua publicitação, mas agora só vou discutir o conteúdo daquelas conversas publicadas.

Vamos lá ver, eu até acho que este governo nos dá razões de sobra para que lhe criemos dificuldades: é um governo inchado de presunção, cujo grande erro de “casting” começa logo por ser o primeiro-ministro. Eu disse-o naquele Verão, poucos meses depois da eleição legislativa, quando Campos e Cunha foi afastado após uma entrevista dada a um jornal, por já suspeitar, depois do discurso de tomada de posse que tanto aplauso mereceu então, que vinha aí um governo dirigido por um justiceiro com o mando de um regente de banda. E não comecei por ser contra o pragmatismo das ideias, era mesmo contra a forma de transmitir essas ideias.

Então ainda em férias, eu tive o primeiro desapontamento com um governo que eu própria ajudara a legitimar, e que mesmo durante esse período não deixei de seguir com preocupação. Seguiram-se outros momentos, com outros ministros a procederem pelo mesmo diapasão discursivo e de atitude no trato público, tal qual o seu líder. Deviam receber um prémio no ordenado do fim do mês se fossem discursivamente umas cópias, ou coisa que o valha.

Quando em Novembro de 2005 colegas e amigos, fascinados com a atitude pragmática de um ministro que entrou numa roda viva de reformas, me questionaram sobre a minha previsão eleitoral para 2009, eu disse-lhes que o sistema social não ia aguentar tanta pressão, sobretudo porque o discurso do primeiro ministro não era nacionalmente motivador, não instigava a sociedade a fazer uma inflexão profunda nos seus hábitos de produção e de vida de forma coesa, mas apostara nas rivalidades das classes profissionais entre si e criando divisões entre estas e a população que deviam servir, e tudo para fazer passar uma mensagem em que se estava a utilizar mal o modo e o tom. Mais tarde acrescentou-se ao tom desfasado a verdade desfasada. O que agravou a situação do governo. Avisei então para um sobreaquecimento da opinião e para um crescente afastamento dos eleitores do governo e do PS. Nunca quis ter razão. Nem sei se as eleições confirmarão esta previsão. Pouco me importa. Era uma intuição.

Um governo que tinha uma opinião pública bem preparada pelos media sobre a gravidade da situação no défice quando começou a governar e um povo convencido da inevitabilidade das medidas duras que aí vinham, só tinha que respeitar para ser respeitado, e para cumprir o seu dever para com uma população preparada para ver limitados ou suspendidos os seus direitos.
Se houvesse claramente intenções de mudar estruturas ao invés de actuar forte e feio nas conjunturas, era isso que tinha que acontecido. Mas não, era psicologicamente impossível a certos ministros, da cultura à agricultura, da saúde à educação, da economia ao ambiente, dos assuntos parlamentares ao das obras públicas, da defesa nacional à justiça não porem o dedinho em riste e desmandarem em “tal gente”, como parece ser o modo de existir do mestre Sócrates, o da filamórnica. Erraram.

Todavia, dito aquilo, também afirmo que o governo não deve ser atrapalhado por grupos de pressão que se apresentem como parceiros de poder mas sem se predisporem a fiscalização pública e sem qualquer legitimidade democrática, no seu método ou nas suas intenções de condicionarem o comportamento do governo. Não há, nem pode haver, viveiros privilegiados a criarem os funcionários para o governo da nação, a não ser os que publicamente dão conta da sua acção, em universidades, empresas ou serviços, em formas de vida partilhadas.
Que nenhuma instituição se julgue acima da liberdade de escolha popular assente, preferencialmente, em prova por serviço público e publicitado. E aí o primeiro-ministro pode e deve escolher quem entender, sem medo das acções de cortesãos socialmente bem relacionados a desejarem manipulá-lo.

domingo, junho 08, 2008

Uma questão de paixão

A editora Guimarães dedicou todo um pavilhão a Agustina Bessa Luís, a grande. Lindo!

A ideia é maravilhosa, mas a execução é horrível. Os muitos livros que a escritora publicou não chegam para atapetar toda a área do stand, que expõe assim as fragilidades estéticas da estrutura. Eu julgo que seria melhor ter optado pela profusão, pelo sentimento barroco, de expor em séries repetidas os volumes de Agustina até encher as bancadas e os expositores. As dezenas de livros de Agustina a replicarem-se em centenas e até em milhares como uma biblioteca de vertigem. Tal como está, a bela ideia mais parece uma cópia daqueles bazares de fim de feira, em que a quermesse resume-se a meia dúzia de objectos que deixam à vista o papel de decoração baratito e mal cortado, os papelotes das rifas a desmancharem-se, as luzes a piscarem em curto-circuitos, tudo num ambiente de certa desolação de alma.

Salvou-se a inexcedível boa vontade do velho senhor que nos atendeu, ainda a frase da autora em azul a falar do azul que decora a área, e a entrega final de mercadores de livros a apelarem à nossa atenção para a Birmânia.

Gosto deste tipo activo de publicitação: eu mostro-lhe que vendo um livro, por exemplo este Do outro lado do mundo, de laura Vasconcellos, e você pode ainda consultar o site burma campaign e apoiá-los nas suas iniciativas contra o governo de Myanmar. Pague um livro e leve duas coisas para fazer. Eu gosto. Mas eu já se sabe!

A paixão por Agustina devia ter-se mostrado absoluta, avassaladora na sua manifestação. Tal como está, está… benzinho. Parece mais um gesto de amor de um homem casado e acomodado à segurança que a presença da sua senhora lhe dá.
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Qual é o editor no mundo que não cobriria de homenagem, sobre homenagem, sobre homenagem, esta obra?

Assim como assim, prefiro a ideia editorial de exposição de livros da Guimarães à da Leya. Esta última parece-me um bebé birrento a espernear no meio da feira.
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Comprei os seguintes livros de Agustina: As chamas e as almas (não conheço essas obras da década de setenta e que falam desse tempo de pós revolução, agora aqui reunidas neste volume), Ordens menores e Contemplação Carinhosa da Angústia.

quarta-feira, junho 04, 2008

Aprendi que sim, porque não?


Há duas noites, entretida que estava a iniciar uma viagem para casa e a fazer uma inversão de marcha numa rua da cidade, ouço na rádio proferir o nome Heliodoro Salgado. A antena que estava a ouvir nessa hora era ocasionalmente a Antena 2.
Mudo de frequência de rádio mais vezes do que mudo de camisa.
Mais do que na televisão, a cuja imagem me rendo muitas vezes de forma passiva dando-lhe a subliminar ordem: entretém-me, na rádio procuro activamente o que me convém em cada minuto dos meus percursos motorizados.
Às vezes, sobretudo ao fim-de-semana em que se desfiam relatos atrás de relatos, ou de comentários desportivos sobre comentários desportivos, não encontro quase nada que me diga nada, nos outros dias tenho tido sorte. O género musical certo para o humor do momento, as palavras que me interessam ou que me intrigam ao ponto de ensurdecer para a realidade exterior, enfim. Só pode ser sorte que o acaso dos momentos e da sintonização baseada na impressão circunstancial me dê felizes ocorrências. Por exemplo: ouvir falar de Heliodoro Salgado no preciso momento em que inicio uma viagem nessa rua. É claro que a repetição do nome, pelo autor do programa no decorrer do mesmo, aumenta a probabilidade de mais pessoas estarem a passarem, em momentos diferentes, e pensarem: Olha, cá estou eu, e cá está a rua com uma placa a homenagear um dito cujo, da existência do qual se está agora mesmo a falar aqui na rádio.
Sobretudo se alguma dessas pessoas nessa rua tivesse morado, com uma casita sobre o miradouro a espreitar a cidade.
Não há nada de metafísico, mas há um momento de simpatia.

E ontem, ainda com o sortilégio da noite anterior nas ondas do ar, ouvi falar de um livro que me pareceu ser interessante o Uma janela para o infinito, mas o que me fez continuar a ouvir, já depois de ter chegado ao lugar por debaixo da minha janela, foi a entrevista dada pelo autor, um matemático e escritor francês. A certa altura o entrevistador pergunta-lhe sobre a importância da matemática, sobre o lugar da matemática na vida das pessoas, e eu, que esperava ouvir os clichés sobre a importância da matemática para a formação da pessoa profissionalizada contemporânea, e bla bla, ouço, ao invés, alguém dizer que não é importante não se gostar de matemática, que é possível dela gostar tanto quanto não se gostar, e que daí não advém particularmente nenhum mal, pois não é essencial para a vida que se goste de matemática, pese embora a vida dele de amante da matemática lhe seja muito querida. Tudo isto dito num tom sereno, nem panfletário, nem cínico ou sequer irónico. Um curador de paixões.
Não foi tanto a liberalidade valorativa do autor para com o objecto da sua paixão e pesquisa, foi antes a minha percepção de algo que me causa mal-estar acerca de uma certa postura na discussão de ideias em Portugal que nos leva (a mim seguramente me leva) a cruzar armas constantemente, de pôr sal em feridas, por uma dama: a nossa. Agora, eu que muitas vezes devo parecer uma cruzada em terra de infiéis a lutar contra um qualquer dragão quando dou aulas, envergonhei-me.
Gostar de Cantor não é expô-lo em praça pública para que todos lhe rendam a mesmíssima e obrigatória homenagem, como a que lhe é prestada por quem dele gosta. É antes dá-lo a conhecer, dizer como é, e depois não ser arrivista, deixar gostar dele quem gosta com amesma naturalidade com que se deixa não gostar. Assim, simplesmente em liberdade.
Falei de Cantor por causa do autor Denis Guedj. Podia dar qualquer outro exemplo. Certo, Isabel?

terça-feira, junho 03, 2008

O (nosso?) lugar nesta história

leio na blogosfera:
"Manuela Ferreira Leite, nesta sua comédia doméstica, não foi mais que um Sócrates em "tailler" e sob medida. Não tendo uma única ideia sobre a crise económica em curso (que aliás não entende nem pode entender), esquivando-se a qualquer proposta de estratégia política (assunto que sempre lhe tolheu a mente), sem fazer circular qualquer ideologia (social-democrata ou liberal) que agregue espíritos e vontades, Ferreira Leite apresentou o pregão eleitoral que as corporações e os interesses instalados no seu partido esperavam: discurso claro para chegar às "migalhas" que o poder político (por ora socialista) generosamente distribui entre os seus. O "bloco central" (clientela PS+PSD) dos interesses corporativos foi bem ensaiado e está a chegar. Até mesmo o sábio Cavaco, em ânsia inédita, a isso se referiu em doce pastiche. Ao que parece a profecia de Sá Carneiro está prestes a cumprir-se: "uma maioria, um governo e um presidente".
(...)
É só esperar para ver o que Ferreira Leite dirá das avultadas medidas anti-sociais que o eng. Sócrates e os seus boys tomam na economia, na saúde, na educação, na justiça, para ver a hipocrisia disso tudo. Até se entender que, mais que fazer frente a uma situação económica e social caótica (que seria um exercício académico respeitável), se promove a guarda do "rebanho" para o futuro e pavoroso bloco central em 2009. Até lá, não há milagre que nos salve. Que vos salve!"
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"Um é socialista democrático da ala direita do PS que gostaria de ser semelhante a Blair, quando estamos no tempo de Gordon Brown poder ser derrotado pelos conservadores, com uma Europa marcada por Sarkosy e Berlusconi. A outra, encostou-se a intervenções semanais na Rádio Renascença que não ficaram registadas em papel de jornal e não podem ser objecto de pesquisa no Google, pelo que tem sempre na memória os dossiers do Estado que lhe vieram de ser Directora-Geral da Contabilidade e dirigente do Instituto de Participações do Estado, por onde também andou Guterres."
Adelino Maltez no blogue "Sobre o Tempo que passa"
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"O nosso situacionismo, onde volta a dominar o conflito entre o partido dos funcionários e o partido dos fidalgos, como nas rixas de Campo de Ourique de 1803, não repara que falta um adequado partido dos trabalhadores e dos criadores de riqueza, pela mão de obra, pela cabecinha ou pela organização empresarial. Os defensores da feudalidade ou da mera tecnocracia estadual não deixam espaço para os sonhadores do novo reino e do melhor regime, nem que seja o império do espírito, do poder dos sem poder, para podermos coroar as criancinhas. Agostinho da Silva nunca percebeu nada de finanças públicas. O passado e o presente esmagam as saudades de futuro."
Adelino Maltez no blogue Sobre o Tempo que Passa

"Elogio ao amor"

Uma aluna enviou-me este texto por e-mail do prodigioso articulista Miguel Esteves Cardoso. Não sei quando foi escrito, só sei que vou buscar a minha satisfação profissional na atitude que os meus alunos revelam dentro e fora da minha sala de aula. E a escolha que a Cidalina fez deste texto deixa-me feliz.
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ELOGIO AO AMOR - Miguel Esteves Cardoso in Expresso
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Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática.Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões.
O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá tudo bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona?
Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma coisa, a vida é outra.
O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima.
O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal.
Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.
Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.A vida é uma coisa, o amor é outra.
A vida dura a vida inteira, o amor não."

domingo, junho 01, 2008

E a guerra dos pavilhões Leya pariu... uma ideia quadrada.

Porque o grupo Leya fez tanto barulho pela originalidade e pela individualidade na feira do livro é que eu não percebo. Tanto alarido e depois saem-se com aquilo!

Não tomei partido na questão que opunha a Leya à APEL aqui há umas semanas. Pensei esperar, ver, para depois tomar a minha decisão. Pois se o editor não estava a cometer nenhuma ilegalidade, então só podia restar um juízo estético, já que fazer daquilo um caso político de conflito entre a esquerda e a direita é carregar de naftalina o discurso.

Hoje, dia mundial da criança, bom pretexto para ir à feira. Entremos pois na área da Leya. Como? É isto?! Foi por isto?!


Vamos lá ver, as pobres editoras que fazem parte do grupo ficaram num quadrado que toma como centro as caixas registadoras, e por sua vez os livros estão fechados noutros quadrados: as caixas. Não só são pavilhões feios, o que seria de somenos para o objectivo do capital, como não permitem a fluidez de circulação. Mais de cinco pessoas dentro das "caixas" já é uma multidão a acotovelar-se e a tapar os livros expostos. Acanhados.
Espaço feio, fortaleza a enclausurar-se, previsível. Uma concepção de espaço medieval se comparada com a abertura, a linearidade, a geometria de espaço que os outros velhos pavilhões oferecem.
Se aquele espaço Leya é o melhor que o dinheiro e a criatividade individual dão como venda de livros... então não sei com que arquitectos o capitalismo português anda a falar! E isso é muito preocupante, porque se o dinheiro é privado já aquele espaço é público. Se fosse no jardim do editor, pronto, era lá com ele e com a dita câmara do lugar, agora, é aquela a ideia para o urbanismo de alguns dos detentores de riqueza?

Fiquei com uma pena dos diabos pelos livros expostos, e pelo nome das editoras que reconheço de sempre e que ali se anulavam entre si de tanto as querem a fazer forçada combinação.

Eu comprei a biografia literária de O`Oneill, editado pela D. Quixote, num dos feios caixotes. Talvez seja só isso que conte para o vendedor. Ou talvez não. Para mim, consumidora, decididamente, não.

sexta-feira, maio 30, 2008

Quando leio uma notícia como esta, o meu cérebro vai a correr procurar fôlego em outras, como esta cuja referência me chegou via Nuno Rogeiro no seu artigo desta semana na Sábado.

quinta-feira, maio 29, 2008

propaganda política, diz ele

A propósito do livro de Scott McClellan sobre a administração Bush fica aqui este artigo ao qual cheguei via Drudge report. A questão permanecerá durante muitas décadas: o que estava o jornalismo americano a fazer na altura? A tentar dar cabo da sua função de apresentar factos e de questionar os que lhes são apresentados como produzidos?

comunicação política

Por via do blogue Insomnie cheguei a este interessante artigo "Political Hyperlinking in South Korea: Technical Indicators of Ideology and Content" de
Han Woo Park, Mike Thelwall and Randolph Kluver da YeungNam University, University of Wolverhampton; Nanyang Technological University e também a este, mais generalista, The Internet Effect on News.

Pacheco Pereira no seu artigo desta semana da revista Sábado chama também a atenção, numa atitude que já lhe é conhecida, para os efeitos perniciosos do cruzamento entre a actividade do jornalista e a sua exposição pessoal em blogues, numa encruzilhada de interesses que deixam aquém a mera consideração da qualidade do trabalho prestado. O poder da Web na nossa maneira ainda caseira de a investigar.

Às vezes é verdade que aquilo que arde também cura

Na realidade o que eu sou capaz de dizer sem uma análise criteriosa da fonte, ou sobre a análise crítica que está na origem da formação da crença que demonstro, tem vindo a começar a mostrar-se-me como factor de obscurecimento de mim para mim própria.

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Vem esta conversa a propósito de uma informação que me fez passar num instante da atenção distraída que estava a dedicar uma noite destas ao programa do último Daily Show de Jon Stuart exibido na televisão portuguesa, a um pico de atenção. Brincava-se com as notícias e as imagens recolhidas aquando das reacções à passagem da tocha olímpica em França por parte dos defensores dos direitos do povo tibetano, sobretudo ironizava-se com o facto do atleta ter entrado dentro de um autocarro rodeado de seguranças e com a dita tocha… apagada!
A dada altura Stuart galhofa ainda mais e declara que realmente é muito preocupante em termos civilizacionais andar a investir contra um ritual que tem como patrono, veja-se bem, esse campeão da humanidade, e líder político que propiciou a união pacífica entre os povos, e que se dá pelo nome de Hitler.

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Ora eu, que tomei o símbolo pelo seu valor clássico e assumi, erradamente, a marcha por estafetas do transporte da tocha como algo que o comité olímpico contemporâneo teria recuperado da tradição, fiquei em desequilíbrio argumentativo. Afinal tinha invectivado as resistências tibetanas por escolherem reagir contra um símbolo de pacificação entre os povos, quando este era uma invenção moderna de um propagandista mor da ideologia nazi. Realmente a estética pensada por Carl Diem, fiquei agora a saber, servia propósitos de divulgação do ideário estético e ideológico totalitário. Espavento!

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Depois pensei que sendo certo que a origem histórica da cerimónia do transporte da tocha não é politica e eticamente correcta, também não deixou de se transformar num símbolo ético universal. Quer-me parecer que é como se a chama pudesse soerguer-se dos interesses privados de um regime e estabelecer uma ideia para além das intenções propagandísticas iniciais desse mesmo terrível estado, um pouco à semelhança daquela inesperada amizade entre iguais que se respeitam para além dos interesses políticos, como a ligação de Owens e Long. E essa transcendência das circunstâncias fá-lo, ao símbolo, uma representação da humanidade, e reitero o que escrevi antes: pode servir de bandeira a questionáveis conveniências ideológicas, mas também as supera, e na conta final parece-me que qualquer resistência social contra ditaduras ou governos autoritários ganha mais em deixar acesa aquela chama.

Mal explicada a analogia, mas avanço para ela: para mim é como a questão de não querendo verdadeiramente importar-me com a sobrevivência dos actuais partidos políticos portugueses, estando pouco interessada em quem vai ganhar as próximas eleições, e destacando apenas nos partidos, com consideração, as pessoas ou as ideias que avalio como excelentes no meu quadro interpretativo desta experiência que é a minha vida em sociedade, não poder deixar de os pensar como instrumentos que numa democracia são mais um factor de organização e de serviço à pátria do que meios para a auto-satisfação de egos. Enfim.
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E no meu quadro de intrepretação só entram governantes que saibam ter do exercício do seu poder uma ideia de exclusivo e absoluto serviço público à população que os elege, e isto é mais do que fazer dizer que se está a cumprir um programa sufragado por maioria absoluta, pois é saber da realidade diariamente, corrigindo um programa não ao serviço das flutuações discursivas históricas, mas ao serviço das necessidades históricas de cada povo. Porque se o discurso político fala para o futuro, para o possível, como deve ser, a sua acção é sentida no presente, e é para este que há que ter a sensibilidade e a humildade de desejar compreender, alterando estratégias, procurando soluções.
Se governar for investir o governante de um poder iluminado, qualquer que seja a sua proveniência partidária, então despeçamo-nos da necessidade/possibilidade de aprofundar o regime democrático.

quarta-feira, maio 28, 2008

Só hoje li o suplemento de economia do Expresso. Retirei logo de manhã, para benefício dos meus alunos, o artigo sobre as piores crises em Portugal, para lhes contextualizar o tom arrastado dos discursos contínuos da crise que não esta pela qual estamos a passar, e porque os sinto seduzidos por uma argumentação catastrófica. Convencida que estou que é sobretudo com a circulação de informação e pela posse de conhecimento que poderemos alterar crenças e atitudes.
Mas depois passei ao artigo de Nicolau Santos e fiquei mentalmente emparedada com esta conclusão: "Ou seja, acabou a comida barata, a energia barata, os combustíveis baratos ou a água barata. Por outras palavras: bens democráticos, a que a generalidade dos cidadãos tinha acesso, como a água, pão, electricidade, gasolina ou gasóleo estão a tornar-se bens de luxo ou quase, a que cada vez terão mais dificuldade de acesso as classes médias e de menores rendimentos.

As razões são várias, mas a mais decisiva é que a subida vertiginosa dos preços do petróleo e a ascensão de milhões de cidadãos dos países emergentes a níveis de vida que nunca tiveram antes está a produzir uma enorme transferência planetária de riqueza, estimada anualmente em três biliões de dólares, da Europa e Estados Unidos para a Ásia, África e América Latina.

As consequências também serão várias - e todas elas potencialmente explosivas, porque a fome, a sede e a miséria não são boas conselheiras. A primeira é que a possibilidade de violentas convulsões sociais, com impactos fortíssimos a nível político e mesmo riscos para os sistemas democráticos é fortíssima. A segunda é que, à luz da História, situações destas acabam por resolver-se através de conflitos bélicos mundiais, que dizimam milhões de pessoas e reequilibram as condições de vida no planeta. 210 anos depois, Thomas Malthus volta a estar na moda." in Expresso, p. 5.
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Nem o excelente, uma vez mais, artigo de Baptista-Bastos "O hediondo sorriso" no DN, nem o apelativo artigo de Rui Tavares, "o ano da desigualdade" no Público, conseguiram fazer-me recuperar do torpor. Torpor este que se sentiu coadjuvado por notícias como as que dão conta de abusos de crianças por forças dos capacetes azuis. Isto é o que dá os países ocidentais falarem de direitos humanos e de protecção mas depois não corresponderem com os seus próprios militares, deixam a porta a aberta para que países sem respeito por direitos civis e políticos enviem em massa os seus exércitos a troco de dólares, deixando a organização nas suas mãos.
E depois, eu que até me tinha rido com a boa ironia do artigo "Só ares" de João Paulo Guerra no Diário Económico, fiquei sem conseguir pensar: é que a teoria da necessidade de morte de milhões de pessoas para reequilibrar os sistemas sociais não é uma teoria só hedionda, é defendida por muitos e poderosos governantes que se definem como realistas. É transformar o horrível em facto natural da vida em sociedade. Espero que não seja nenhuma profecia auto-realizável; que este discurso não venha preparar-nos mentalmente para aceitarmos acções que conduzam a tal desfecho na história.

domingo, maio 25, 2008

Churchill:uma leitura 6

Leio Alberto Gonçalves dizer a Ana Gomes: "Primeiro, a dra. Ana Gomes acusa-me de "desvalorizar o sofrimento dos birmaneses". Decerto deixou-se influenciar pelo meu escasso optimismo. É compreensível. Dado que não alimento crenças na bondade panfletária, não atafulhei o texto com invocações de esperança ou lamentos de pesar. Porém, juro: se me garantissem que cada palavra indignada salvaria a vida de um birmanês e abalaria aquele tenebroso regime, eu preencheria mil páginas com gritos de "Basta!". Por incrível que pareça, também a mim me ofende a dor alheia. Não acho é que confessar a ofensa de dez em dez minutos ajude alguém."
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Faço um grande sorriso à ideia que critica a "bondade panfletária" e uma careta à ideia de que cada palavra indignada nada fará. Mas, esgares à parte, era aqui que podia começar uma proveitosa discussão: podem ou não os discursos de pessoas figuras públicas dispor da realidade reproduzindo-lhe os seus valores?
A minha posição é que se as palavras não arrastassem uma prática atrás de si, então também nunca teríamos tido sucesso com a implementação dos direitos civis e políticos em escala globalizada.
Nestas coisas dos valores democráticos, a realidade antes de o ser já o era em discurso. Mas o discurso que não é o do poder que legisla ou executa, mas tem pretensões a ser normativo, tem esta desvantagem, arrasta atrás de si a ideia de impotência lírica, de vazio argumentativo e até de impudência para com a dor dos acontecimentos presentes. É verdade. O equilíbrio... o equilíbrio entre as palavras da convicção e da luta por uma realidade pensada e a realidade ela mesma apresentada por outra linguagem ou por outro acontecimento que em tudo dominam a primeira, não é uma tarefa clara. Quem dera que soubéssemos sempre que a nossa teoria ou crença ou palavra era mais próxima da verdade. Que de alguma forma o que pensamos é mais próprio para o bem estar da comunidade ou que as ideias que escolhemos e as pessoas em quem votamos são as que podem solucionar melhor os problemas de insegurança, de falta de objectivos sociais, de protecção das pessoas e do seu território. Quem dera!
Conquanto que entre nada dizer e continuar a dizer há ainda um espaço para a filosofia política. Eu gostava realmente de saber qual era a filosofia política dos nossos governantes.
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Sem querer incensar a figura de Churchill, algo a que psicologicamente me vejo até limitada em fazê-lo, pois não compreendo como se pode ter paralelo entre essa admiração que se tem por uma obra artística ou filosófica, e de que eu sou definitivamente capaz, com a admiração pela acção de um homem público, que dificilmente deixará que momentos da sua vida não obscureçam a existência de outros, mas, sem soçobrar à sua influência, registo com satisfação, o conjunto de questões que contêm a sua filosofia política. E disto, destas questões, eu tenho saudades, e destas palavras eu sei que decorrem estados civilizacionais que não se comparam em luta contra o sofrimento social com nenhum outro sistema de governação:
"Com o governo actual há o direito de livre expressão e de crítica?
Tem o povo o direito de derrubar um governo que desaprovam, e estão estabelecidos meios constitucionais por meio dos quais possam expressar a sua opinião?
Os seus tribunais de justiça estão isentos de violência por parte do pode executivo e de formas de violência por grupos de pressão, e de qualquer forma de associação com partidos políticos?
Esses tribunais administram leis abertas e bem estabelecidas, associadas, pelo espírito humano, com amplos princípios de decência e justiça?
Serão justos tanto para os pobres como para os ricos, tanto para as pessoas particulares como para os funcionários governamentais?
Serão os direitos dos indivíduos, obrigados a cumprir os seus deveres para com o Estado, mantidos, afirmados e exaltados?
Está o vulgar camponês ou trabalhador, que ganha a sua vida com esforço diário e que tenta criar uma família, livre do medo de que qualquer cruel organização policial, sob o controlo de um único partido como a Gestapo, inaugurado pelos partidos nazi e fascista, lhe bata no ombro e o meta na prisão sem um julgamento justo e aberto e o condene à escravidão e à tortura?" pp.575-576.
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Cada conceito destes pode merecer discussão. Eu sei. Mas há uma ideia de sociedade. São palavras que eu reconheço como propiciadoras de realidade civilizacional.
Porque será que eu as reconheço assim?

quinta-feira, maio 22, 2008

Todos os meios são bons se para uma boa causa?

Pode-se mentir para provocar uma intervenção militar que reequilibre as forças em conflito?

Pode-se divulgar impunemente imagens de pessoas a correrem atrás de um camião de uma ONG que clandestinamente põe os seus voluntários a atirarem comida enquanto prosseguem em grande velocidade com vista a provocar uma reacção emocional nas populações mundiais a favor de uma intervenção?


Em tudo de acordo com as palavras do ministro francês dos negócios estrangeiros, mas sei de formas pouco honrosas utilizadas por ele no passado para, na prática, fazer concentrar a atenção mundial sobre as suas causas.
Não é só uma questão de não querer sujar as mãos da minha parte? Ou de estar sentada comodamente no meu gabinete enquanto a realidade sobre a qual se fala é outra, exigindo medidas menos virtuosas ou procedimentos menos legais, em nome da protecção da vida?
Penso que é antes uma questão de salvaguarda da verdade e de coerência das coisas como elas são, e sendo-o já suficientemente más, independentemente dos estrategemas comunicacionais que para elas se arranjem, como tal devem ser vistas e analisadas, e como tal se deve proceder à necessidade de intervenção. Não é preciso encenar o mal, ele já fala por si de forma suficientemente audível.
E a ONU é mesmo covarde, quando a alguns países lhe dá jeito tê-la assim.

quarta-feira, maio 21, 2008

Devia ter começado o dia por respirar este ar para ter um acordar melhor : "(...) Vivemos, desde a década de 80, um novo período de sufocação, que se manifesta em vários sectores: desemprego, emigração, esvaziamento ideológico e ausência da política, economia, justiça, cultura, educação. Há, hoje, dificuldade em escolher o que se julga ser o lado certo onde se deve estar. E essa dificuldade serve de pretexto para as mais vis renúncias, e de condescendência para com sórdidas traições.

Inculcaram-nos a ideia de que Portugal é inviável e de que somos um povo de madraços. Como já poucos lêem o que deve ser lido, a afirmação fez fé. Mas não corresponde à verdade. Recomendo aos meus dilectos alguns autores antagonistas da absurda tese: Vitorino de Magalhães Godinho, José Mattoso, Luís de Albuquerque, António Borges Coelho e, até, António José Saraiva. Todos interpelam o País, criticam-no porque o amam, e ensinam-nos que o passado altera-se de todas as vezes que o lemos e interrogamos.

O lado certo está, creio-o bem, quando recusamos a indiferença e não admitimos a resignação."
Baptista-Bastos, escritor e jornalista no DN
b.bastos@netcabo.pt
Não é que não tenha assunto, ou vontade de desenvolver um ou outro tema que me anda a importunar, mas não consigo. Nem é o excesso de leituras ou de compromissos profissionais, parece-me que é mais algo parecido com o sentimento de Sísifo quando está a descer a montanha, qualquer coisa entre a impotência e a lucidez sobre a causa dessa impotência.
Ou era aquela referência mitológica ou era a palavra "malhadiço" que eu podia escolher para exemplificar esta apatia. É uma palavra que descreve o governo e o povo que é governado deste país. Estamos todos a ficar malhadiços. Um malhadiço com outro se paga.

sexta-feira, maio 16, 2008

Leio um livro para crianças com uma história que começa assim: "Toda a gente sabe que há sonhos que nunca se realizam". Pasmei. Ai sim?!
Alguém se esqueceu de escrever isto na minha infância e eu esqueci-me de acreditar. Vou sempre a tempo, claro. Acho que chamam a isto o princípio da realidade. Eu chamo o princípio da queda do imaginário.


Agora, agora no preciso momento em que escrevi "imaginário" lembrei-me daquele livro de Bachelard. Há que tempos que não me lembrava de Bachelard. Estou cheia de saudades desse livro que emprestei e que nunca mais recebi de volta: L`eau et les rêves. Que saudades!Trabalhei o texto para a cadeira de Cultura Clássica a propósito do Mito de Narciso em Ovídeo. Sobressaltos estéticos.
"-Boa noite, senhor Bachelard."