
sábado, setembro 13, 2008
O bode expiatório
Confesso que ser bode expiatório num mundo governado por pessoas como Chávez deve ser uma honra para os americanos, ainda que seja uma desgraça para os povos sob o jugo. Mas se for a votos, diz-me amiga Venezuelana, Chávez ainda ganha com uma margem parecida à da MPLA em Angola.
A democracia é linda. Disso não podemos nunca duvidar, sobretudo quando é difícil.
A universidade e o forte 3
-Ana, vocês têm uma cidade sui generis. Mistura de cidade americana com apontamentos europeus de influência arquitectónica portuguesa, visível sobretudo nos edifícios públicos.
- É. Nos últimos anos tem muito português vindo para cá e comprando casa. Dizem-me que se não fossem eles a recuperar os edifícios que eles estavam por aí ao abandono; eu pergunto-lhes então porque razão eles têm tantos edifícios abandonados no seu próprio país!
quarta-feira, setembro 10, 2008
A universidade e o forte 2
-Pois há, agora que há eleições puseram cartazes por todo o lado.
-E eles fazem de facto alguma coisa?
- Que nada, é só promessa e anúncio bobo.
- Mas eu vi um cartaz desses ao lado de um terreno onde estavam de facto aí uns duzentos homens a construirem uma escola anunciada.
- Não, o que você viu foram homens a começarem a construir algo que logo depois das eleições vai ser abandonado. É só promessa mesmo de obra, sabe, não é obra não.
Conversa com motorista nodestino num destes últimos dias.
terça-feira, setembro 09, 2008
A universidade e o forte 1
- Então..., vermelha é do governo e amarela é da oposição.
-E a verde?
- Ah, essa é do povo mesmo.
- E a azul?
- Não tem.
-Não?! Mas eu já vi. E o que é isso de a verde representar o povo?
- !!
Olhe, as bandeiras estão lá para dizerem aos candidatos que as pessoas estão vendendo o espaço de mostrar bandeirinha.
-Ai é?! Mostra-se a bandeirinha a troco de dinheiro?
Uma conversa tida com um motorista brasileiro nordestino por um destes dias passados.
sábado, agosto 30, 2008
A ferida 4
A maldade dos outros colegas, que Törless considera bestial, sem finalidade a não ser a da utilização bruta do poder sobre uma vítima, responsável pelos seus actos, mas vítima acima de tudo da exibição arrogante da posse do seu destino por outrem, pelo concerto da sua existência num espaço social definido por hierarquias das quais ele era um peão moral (o crime cometido por um desafortunado na classe social não seria entendido da mesma maneira se ele fosse um herdeiro de uma família poderosa), não é inferior à violência de Törless. Ele pensa que sim, porque aquilo que sente, e o que experimenta, convoca-o perante si próprio de uma forma perturbadoramente nova, e temível pelo que abre de hipóteses sobre as hipóteses, sem redenção, de vidas sujeitas às mais ocultas e desonradas paixões, à luz dos princípios de uma vida moral e virtuosa. Não deixa de ser igualmente culpado. A aprendizagem da descida ao inferno não justifica que para isso se arraste alguém connosco, para nos servir de senha de entrada nesse universo.
Portugal, parece-me, anda a fazer consigo próprio demasiadas experiências de obscuridade, e não se vislumbra nenhuma lanterna que alumie duas vezes, para assinalar a porta de saída.
quarta-feira, agosto 27, 2008
A ferida 3
O que poderei dizer além do discurso de cartilha e que assenta na defesa dos princípios das regras da Carta das Nações Unidas? Só posso repetir o mesmo de cada vez que surgem conflitos, pois não conheço outra forma de unificar a acção mundial em prol de atitudes de não agressão.
Na realidade, a permissividade relativamente ao mau uso que se faz desses princípios deixa-nos mais desamparados perante a adversidade sob a forma de interesses nacionais em expansão. Isto diz respeito a qualquer nação com instintos imperiais, e a Rússia tem uma longa história de interesses a defender, e de vontade de mostrar a força da sua nação. Pessoa conhecida contava-me como em conversas com um cônsul russo numa nação estrangeira se apercebeu dos ânimos nacionalistas exacerbados, e de um discurso ultranacionalista a varrer a nação, com os mais jovens a integrarem o processo. Vontade que o seu nome conte no mundo, sob qualquer pretexto.
O pupilo Törless recusa-se a compreender o sentimento da condescendência para com as faltas morais. Ele intuiu que a permanência de um acto que constitua matéria de punição no círculo habitual da vida, como se fora uma faceta mais da existência, abria a porta não para a excepção do acto em si, mas para a manipulação da vida como ela era dita dever ser. E a passagem entre o "mundo claro" do quotidiano e esse mundo "obscuro, ardente, de paixões, despido, aniquilador." era do mais fino papel de arroz, e coexistia como possibilidade sempre presente em cada acontecimento. p. 92
terça-feira, agosto 26, 2008
A ferida 2
domingo, agosto 24, 2008
A ferida 1
segunda-feira, agosto 18, 2008
Ideias cata-vento procuram ponto fixo 2
domingo, agosto 17, 2008
Ideias cata-vento procuram ponto fixo 1
segunda-feira, agosto 11, 2008
convenção
Naquele tempo tínhamos que ler o Vol de nuit de Saint-Exupéry em francês. Eu lia o livro como que tem uma dor de dentes mansa que mói mais do que dói. Um dia, no intervalo das aulas alguém do liceu me passou para as mãos a tradução do livro em português. Lia as sensações do piloto sobre uma fuselagem tremente e o meu cérebro tremente de prazer pelo ganho de sentido.
sábado, julho 19, 2008
quinta-feira, julho 17, 2008
Sim, sim, sim, não , não, não
quarta-feira, julho 16, 2008
É óbvio que cabe a um político estar atento à realidade e esta chega a maior parte das vezes através dos media, uma realidade que já é em deferido, mas que de certa forma colmata a nossa falta no que a um dom de ubiquidade diz respeito. É óbvio que cabe a um político transmitir a sua mensagem e isso faz-se através dos meios disponíveis, hiperfigurados nos media. Mas, se cada um fizesse bem o seu trabalho não me pareceria haver tanto solavanco conversacional, mediático e político. É como se um fosse a Nêmesis do outro, ou, menos trágico, a memória um do outro. Ora, esse movimento é desconcertante no que ao estabelecimento de modelos de pensamento e de acção diz respeito: demasiada informação para ser compreendida, demasiada cedência ao tempo descontínuo das notícias, demasiada similitude do discurso político ao discurso que cabe num título de jornal.
terça-feira, julho 15, 2008
Porém, reconhecer que se pratica o mal, e prová-lo, é algo que ajuda muito.
segunda-feira, julho 14, 2008
E se para além das penalizações criminais e jurídicas só nos restar como armas os modelos de cultura que reprovam essas ignomínias, o que fazer quando os próprios líderes dessas comunidades põem em causa o trabalho de décadas na construção de atitudes que se baseiem na frágil fundamentação da universal rejeição da exploração da pessoa pela pessoa, e, ainda mais grave, da exploração de uma criança por um adulto?
Se as ideias que defendem a reprovação social da escravatura forem postas a par de outras, enquanto conceitos negociáveis, com as quais certos dirigentes jogam de acordo com as circunstâncias e os interesses do momento, então a confusão e a vacuidade passam entre si, como se por osmose.
Como construir instituições contra os líderes de sociedades as quais já atingiram elas próprias um nível moral superior aos daqueles e que lhes custou décadas de aprendizagem pelo sofrimento?
Hoje nasceu o belo e amável Gonçalo, em Portugal. Sorte a nossa, sorte a dele.
