sábado, setembro 13, 2008

A coruja nordestina


Obsidiou-me, mas não sei se voa ao entardecer. Não me diz, a malandra.


A obra é de Ana Selma.

O bode expiatório

Os Estados Unidos são a melhor salvaguarda discursiva de todas as figuras autoritárias no mundo, porque permitem que aqueles os dêem como a causa de todos os males que cai sobre o seu próprio povo. Assim, pode-se desgovernar um povo em nome do governo dos Estados Unidos.
Confesso que ser bode expiatório num mundo governado por pessoas como Chávez deve ser uma honra para os americanos, ainda que seja uma desgraça para os povos sob o jugo. Mas se for a votos, diz-me amiga Venezuelana, Chávez ainda ganha com uma margem parecida à da MPLA em Angola.
A democracia é linda. Disso não podemos nunca duvidar, sobretudo quando é difícil.

A universidade e o forte 3

Ana Selma é uma artista plástica de Natal que criou entre outras obras, um bicho , "a coruja", sendo que uma das quais me ocupou a mente durante um dia inteiro e da qual eu sou agora uma feliz proprietária.

-Ana, vocês têm uma cidade sui generis. Mistura de cidade americana com apontamentos europeus de influência arquitectónica portuguesa, visível sobretudo nos edifícios públicos.
- É. Nos últimos anos tem muito português vindo para cá e comprando casa. Dizem-me que se não fossem eles a recuperar os edifícios que eles estavam por aí ao abandono; eu pergunto-lhes então porque razão eles têm tantos edifícios abandonados no seu próprio país!

quarta-feira, setembro 10, 2008

A universidade e o forte 2

- Sr. Milton, vejo muitos e grandes cartazes a anunciarem que o governo central, o governo do estado ou a prefeitura está presente numa ou noutra zona da cidade.
-Pois há, agora que há eleições puseram cartazes por todo o lado.
-E eles fazem de facto alguma coisa?
- Que nada, é só promessa e anúncio bobo.
- Mas eu vi um cartaz desses ao lado de um terreno onde estavam de facto aí uns duzentos homens a construirem uma escola anunciada.
- Não, o que você viu foram homens a começarem a construir algo que logo depois das eleições vai ser abandonado. É só promessa mesmo de obra, sabe, não é obra não.



Conversa com motorista nodestino num destes últimos dias.

terça-feira, setembro 09, 2008

A universidade e o forte 1

- Diga-me, Sr. Francisco , o que representam as bandeirinhas à frente das casas?
- Então..., vermelha é do governo e amarela é da oposição.
-E a verde?
- Ah, essa é do povo mesmo.
- E a azul?
- Não tem.
-Não?! Mas eu já vi. E o que é isso de a verde representar o povo?

- !!
Olhe, as bandeiras estão lá para dizerem aos candidatos que as pessoas estão vendendo o espaço de mostrar bandeirinha.
-Ai é?! Mostra-se a bandeirinha a troco de dinheiro?



Uma conversa tida com um motorista brasileiro nordestino por um destes dias passados.

sábado, agosto 30, 2008

A ferida 4

Törless humilha um colega em nome de um princípio moral, da ideia de excelência e necessidade de magnificência do ser humano sem mácula, sem sinal de queda em labirintos pulsionais. Ele explora essa humilhação até ela se tornar tensão erótica e exploração da natureza de outrem ao procurar possuir e deixar-se possuir sexualmente por essa pessoa. A aparente indiferença, aquela marca de crueldade usada para com outrem que se percebe não estar a deixar traço num carácter que demonstrara já possuir impulsos inertes quanto ao valor de normas morais que orientam a sociedade, levou Törless a assumir o impensável: vou viver pela pele do outro o que aprendi a repudiar e sempre repudiarei para a minha própria pele. O outro cairá por mim no caminho que seguimos os dois.

A maldade dos outros colegas, que Törless considera bestial, sem finalidade a não ser a da utilização bruta do poder sobre uma vítima, responsável pelos seus actos, mas vítima acima de tudo da exibição arrogante da posse do seu destino por outrem, pelo concerto da sua existência num espaço social definido por hierarquias das quais ele era um peão moral (o crime cometido por um desafortunado na classe social não seria entendido da mesma maneira se ele fosse um herdeiro de uma família poderosa), não é inferior à violência de Törless. Ele pensa que sim, porque aquilo que sente, e o que experimenta, convoca-o perante si próprio de uma forma perturbadoramente nova, e temível pelo que abre de hipóteses sobre as hipóteses, sem redenção, de vidas sujeitas às mais ocultas e desonradas paixões, à luz dos princípios de uma vida moral e virtuosa. Não deixa de ser igualmente culpado. A aprendizagem da descida ao inferno não justifica que para isso se arraste alguém connosco, para nos servir de senha de entrada nesse universo.

Portugal, parece-me, anda a fazer consigo próprio demasiadas experiências de obscuridade, e não se vislumbra nenhuma lanterna que alumie duas vezes, para assinalar a porta de saída.

quarta-feira, agosto 27, 2008

A ferida 3

Por mais que leia sobre o assunto não consigo desenvolver uma opinião sobre o que se passa no Cáucaso, aliás a única referência que tinha deste nome remete-me para as aulas de cultura clássica, tendo-me deixado isso um maior conhecimento do registo mitológico e um grau menor acerca da realidade presente que envolve a geórgia de que nada sei.
O que poderei dizer além do discurso de cartilha e que assenta na defesa dos princípios das regras da Carta das Nações Unidas? Só posso repetir o mesmo de cada vez que surgem conflitos, pois não conheço outra forma de unificar a acção mundial em prol de atitudes de não agressão.

Na realidade, a permissividade relativamente ao mau uso que se faz desses princípios deixa-nos mais desamparados perante a adversidade sob a forma de interesses nacionais em expansão. Isto diz respeito a qualquer nação com instintos imperiais, e a Rússia tem uma longa história de interesses a defender, e de vontade de mostrar a força da sua nação. Pessoa conhecida contava-me como em conversas com um cônsul russo numa nação estrangeira se apercebeu dos ânimos nacionalistas exacerbados, e de um discurso ultranacionalista a varrer a nação, com os mais jovens a integrarem o processo. Vontade que o seu nome conte no mundo, sob qualquer pretexto.

O pupilo Törless recusa-se a compreender o sentimento da condescendência para com as faltas morais. Ele intuiu que a permanência de um acto que constitua matéria de punição no círculo habitual da vida, como se fora uma faceta mais da existência, abria a porta não para a excepção do acto em si, mas para a manipulação da vida como ela era dita dever ser. E a passagem entre o "mundo claro" do quotidiano e esse mundo "obscuro, ardente, de paixões, despido, aniquilador." era do mais fino papel de arroz, e coexistia como possibilidade sempre presente em cada acontecimento. p. 92

terça-feira, agosto 26, 2008

A ferida 2

Há uma personagem no livro que acabei de ler há dias As perturbações do Pupilo Törless que está num período da sua vida em que se encontra a transitar entre as várias percepções que possuia anteriormente acerca da existência, e as que lhe chegam agora de forma abrupta; aquelas tinham-lhe servido de aconchego na sua infância, enquadrando afectos e pertenças, estas outras manifestam-se no presente sob outra luz, sujeitando-o à experiência de viver uma fase de transmutação, quer sobre aquilo que a si próprio diz respeito quer sobre os que o rodeiam. Ele persegue atentamente esses estados que ocorrem sob " vertigem interior", onde gestos, histórias passadas, valores e pessoas, se representam novamente de uma forma enovolada mas sem nós, e que ele define como produto de um "brilho irisado do espírito". Nestes momentos diz-nos que se sente como um santo se deverá sentir com as suas visões ou um artista com as suas intuições. É um adolescente na posse das recordações suficientes que permitem à sua imaginação recriar um mundo paralelo tal como ele também poderá bem ser. A estes estados o autor da obra, Robert Musil, denomina-os de perturbações.
Törless pergunta-se:"Os adultos também serão assim? Será o mundo assim? Será uma lei universal o existir em nós qualquer coisa que é mais forte, maior, mais bela, mais apaixonada e mais obscura que nós? Qualquer coisa que dominamos tão pouco que apenas podemos espalhar milhares de sementes sem objectivo, até que subitamente saia de uma delas uma chama escura que cresce muito para além de nós? E em cada nervo do seu corpo vibrava, como resposta, um impaciente "sim"." p. 155

domingo, agosto 24, 2008

A ferida 1

De tanto falar mal de si próprio, Portugal aliena a consciência que tem de si, transforma o mal num fado, em entidade metafísica que nos suplicia reiteradamente em certos momentos históricos*, ao invés de o identificar essencialmente como uma falta material ou uma falta social que precisa de ser suprida e para tal há que saber qual a meta e qual o método a utilizar para o fazer acontecer.
Acreditar que a economia só por si dará o impulso necessário a uma reforma dos comportamentos e das atitudes é esquecer o que da nossa economia tem o selo dos próprios que dizem mal de si e dos seus, num equilíbrio de ébrios. Mas procurar uma história nova também sugere engenharia de povos, coisa de péssima memória.
Os valores antigos que o hino olímpico homenageia do" verdadeiro, o belo e o bom" não passam de nozes para esquilos no quadro mental que orienta as nossas instituições postas a nu nestes jogos, e se o voo de gazela de Évora ou a corrida de lebre de Rodrigues constituiu um bálsamo para a ferida comunicacional aberta, esta não devia fechar como se nada tivesse acontecido, como se as gentes lusas não tivessem ensandecido, pedindo aos atletas que fizessem aquilo que elas próprias não fazem com a sua vida: sejamos pois responsáveis e consequentes. Não é fácil, não.
*Patético o desabafo do poder, na pessoa do nosso primeiro-ministro, quando este assume que as circunstâncias históricas lhe são adversas, a ele que controla tão bem a auto-promoção como não consegue controlar a história.
P.S. Marco Fortes foi meu aluno. É um estudante do ensino nocturno que não utiliza o seu estatuto de atleta de alta competição para justificar a sua ausência às aulas. Um aluno inteligente e, como quase todos as pessoas que eu conheço deste país, com uma noção de valores éticos de trabalho e de sacrifício um pouco baralhados no discurso. Não é uma desculpa, é uma constatação. Não é um bode expiatório, é um vislumbre de realidade. Mas vamos ver como depressa se há-de pôr essa realidade para debaixo do tapete e se há-de ignorar como tudo isto é uma questão de falta da nossa educação.

segunda-feira, agosto 18, 2008

Ideias cata-vento procuram ponto fixo 2

E no entanto a atitude de cata-vento do ideal político contemporâneo gira sobre um ponto fixo. Reparo na estética festiva verdadeiramente imperial dos jogos olímpicos chineses (que só espantou a quem não acompanhou a linguagem do cinema chinês contemporâneo como é por exemplo o caso do belo "Milho vermelho", ou o soberbo "lanternas vermelhas" e o perfeito "adeus, minha concubina") que se cruza com um um comportamento social herdado no sentido de autoridade totalitária interiorizada com Mao, que repudiaria as representações destes jogos mas não os seus efeitos na comunicação mundial. Temos pois as máquinas imagéticas dos dois sistemas políticos mais longos e conhecidos da história da china a intrecruzarem-se para afirmação do poder da sua casa nacional, mas que concedem aos símbolos universais o seu lugar, o ponto fixo à volta do qual evoluem os actores e os acontecimentos diversos: senão veja-se a concessão à ideia de união planetária, o tomar a pomba por arquétipo colectivo de união e paz, numa cultura que por si privilegia um animal mítico como o dragão.
Quer isto dizer que todos os líderes do mundo sabem já de cor a cartilha das declarações universais e dos convenções internacionais, porque os seus povos a isso os instigam, a questão está agora em agir sabendo que se incorre em falta grave contra o espírito dos princípios universais, aproveitando o desvario, a inércia ou a impotência geral, seguindo o modelo dos poderosos que abrem excepções às regras a cada momento do seu exclusivo interesse particular. E o que é mais tenebroso é que muitas das vezes são as suas populações que lhes dão licença para o fazerem. Ninguém disse que a democracia é perfeita como sistema de governação. Ninguém o pode dizer. Mas menos que isto é que não, também, de todo.
Mas como melhorar o sistema político democrático?

domingo, agosto 17, 2008

Ideias cata-vento procuram ponto fixo 1

As ideias do século, da década, do ano, do mês, da semana, do dia e até da hora.
As ideias da superstrutura, da infra-estrutura, do id e do ego, da história universal e as da história nacional, a cultura do grupo, da família, dos amigos, da escola, da igreja e das associações. As ideias da moda e as ideias que se querem intemporais.
As ideias culturais e as estruturais, as do sistema e as individuais, as gerais e as particulares, as extensas e as intensas, as objectivas e as egocêntricas, as subjectivas e as desinteressadas, as materialistas e as imaginosas, as dialécticas e as maniqueístas.
As ideias pragmáticas e as ideias desinteressadas.
Ideias cata-vento que mesmo em convenções políticas internacionais não nos indicam o norte apenas nos mostram de que lado sopra o vento. Há-de ser importante, para quem é pescador.

segunda-feira, agosto 11, 2008

convenção

Partindo do princípio que a nossa linguagem é uma convenção, o que há então da nossa linguagem pessoal que não seja em si uma convenção imposta por um dos múltiplos grupos da nossa socialização? O que há então de original, de pessoal e de único num ser que fala mas não inventa conceitos, apenas os repete e para mais num cruzamento reduzido entre si de vocábulos? Quem somos de facto, nós os que falamos e proclamamo-nos como de uma identidade, para além do que socialmente é expectável que sejamos? E o que de rebeldia relativamente a esse facto não passa de propensão para a delinquência por preguiça, obstinação na contrariedade como marca, ou mera sujeição a outra forma de existir, dita alternativa? Que parte do meu eu, por exemplo, não é o de todos os outros que possam reclamar um relacionamento comigo? Quem me dá as palavras para a voz da minha consciência? Qual a fonte que me permite dizer que concordo, ou que não aceito, que sei, ou que ignoro? Mais... quem tem o poder de mudar o meu comportamento, de alterar o meu estado de espírito e de exacerbar as fraquezas e vilanias ou as consistências benfazejas do meu carácter?

Naquele tempo tínhamos que ler o Vol de nuit de Saint-Exupéry em francês. Eu lia o livro como que tem uma dor de dentes mansa que mói mais do que dói. Um dia, no intervalo das aulas alguém do liceu me passou para as mãos a tradução do livro em português. Lia as sensações do piloto sobre uma fuselagem tremente e o meu cérebro tremente de prazer pelo ganho de sentido.
É em português que eu sinto o que os outros dizem que sentem. Mas não preciso da língua para entender a dor que pode afligir outrém. E sobre a dor das pessoas eu não me questiono pela sua legitimidade. Será verdade isto? E se eu ousar e afirmar a natureza convencional da dor? Eis como se pode praticar o mal, ou justificá-lo. O atrevimento sem causa.

sábado, julho 19, 2008

Formulação tão precisa, confesso, não conhecia. Hoje já não consigo, mas preciso de pensar sobre esta frase no livro Pensamentos secretos de David Lodge: "Pelo menos Messenger tinha-se dado ao trabalho de votar(um voto táctico, no candidato liberal-democrata de Cheltentham), mas para ele o resultado não passava do menor dos males possíveis. Sentia um profundo desprezo pela política e pelos políticos. Os políticos, defendia ele, eram a maldição da idade moderna, tal como a religião o foi em tempos passados. Pense-se só na patente imensidão de miséria humana causada pela política ao longo deste século - na Europa central, na Rússia, na China, em África - sustentava retoricamente." p.287

Quem o "diz" é uma personagem de Lodge, Ralph Messenger, do livro supracitado, um cientista e académico de renome na área da filosofia da mente que, dirigindo um laboratório de pesquisa da área, não se coíbe de pressionar a universidade a atribuir um doutoramento honoris causa ao ministro da defesa que financiava uns projectos do centro. Seja como for, e apesar desta duplicidade de entendimento sobre os políticos, a ideia merece mais conversa.

quinta-feira, julho 17, 2008

Sim, sim, sim, não , não, não

Mas então qual a solução para que deixemos de nos sentir constrangidos com a memória daqueles cãozinhos de pelúcia que nos olhavam a partir do vidro de trás dos Austin Mini, por exemplo, e acenavam com a cabecita para cima e para baixo numa submissão ao movimento de deslocação do carro onde estavam postados, lá pelo fim dos anos setenta?
Ou então, há que interromper o fluxo noticioso com artigos de fundo que permaneçam no tempo mais do que o tempo de uma notícia, mesmo se nisso só haja interesse de um grupo reduzido no auditório a quem possa dirigir-se? Não.
Os media não têm que comportar-se como meios institucionais na defesa ou promoção de valores ou de acontecimentos cívicos. Eles não são promotores de crenças civilizacionais, a não ser a de que (re)produzem produtos noticiosos para consumo. Que depois neste processo se ganhe algo mais do ponto de vista da política e da sociedade para além do que o que estava previsto inicialmente, se ganhe, por exemplo, consciência da importância da liberdade de expressão, se ganhe gosto interesse pela coisa pública e se abalance para o desenvolvimento da vontade da participação política, tal já é outra coisa.
Caberá aos grupos de cidadãos reunirem-se e fazer com que os assuntos que os interessa tenham um tempo de visibilidade junto das comunidades superior ao tempo que decorre da apresentação do acontecimento noticiado. É daí a importância dos meios digitais na actualidade. Um grupo pode permanecer com o tema Darfur, por exemplo, ou Tibete, ou Ruanda, mais tempo do que o tempo que interessa aos cidadãos que por esses temas não têm senão um interesse relativo.
Mas esta existência de facto de instituições que pegam em temas e os trabalham de forma sistemática e ininterrupta, não retira a pressão sobre o cérebro de que escuta os media. Pois mesmo que se saiba que por detrás de cada acontecimento há a possibilidade de encontrar uma equipa que investiga e trabalha com precaução e saber esse tema, na verdade o nosso tempo não chega para os conhecer, ou para acompanhar pacientemente a resolução das crises ou das dificuldades apontadas, e que pode durar décadas.
No tempo das crises inopinadas quer-se, eu quero, soluções imediatas. Mas depois fico estupefacta com a "supimpa" falta de vergonha dos que vêm ligeiros aproveitar esta necessidade infantil e acreditam, ou querem fazer alguém acreditar, que sem esforço, trabalho, pesquisa e muita discussão quanto à validade da conclusão, se pode chegar à resposta certa. E quando as coisas correm mal, não é o seu método de de agir e pensar que está errado, não, a realidade é que está louca.
E não é que às vezes ela troca mesmo os passos aos sistemas? Eu gosto de gostar de Hegel, não é? Ou não?

quarta-feira, julho 16, 2008

Os acontecimentos. A vida política parece ser feita de solavancos, empurrada pelas notícias dos media, ou empurrando os media de acordo com as suas notícias. Alguém me dizia que sempre que lia uma notícia se perguntava: "Quem lucra com esta notícia? Quem a pôs cá fora?"
É óbvio que cabe a um político estar atento à realidade e esta chega a maior parte das vezes através dos media, uma realidade que já é em deferido, mas que de certa forma colmata a nossa falta no que a um dom de ubiquidade diz respeito. É óbvio que cabe a um político transmitir a sua mensagem e isso faz-se através dos meios disponíveis, hiperfigurados nos media. Mas, se cada um fizesse bem o seu trabalho não me pareceria haver tanto solavanco conversacional, mediático e político. É como se um fosse a Nêmesis do outro, ou, menos trágico, a memória um do outro. Ora, esse movimento é desconcertante no que ao estabelecimento de modelos de pensamento e de acção diz respeito: demasiada informação para ser compreendida, demasiada cedência ao tempo descontínuo das notícias, demasiada similitude do discurso político ao discurso que cabe num título de jornal.
Assim arrastamo-nos para a notícia do jovem criminoso preso em Guantánamo, como se nunca tivéssemos tido notícias de Guantánamo que configuravam abusos jurídicos e éticos, depois giramos para as notícias de violência urbana, como se nunca tivéssemos sabido que esse tipo de confrontos é frequente, sobretudo num bairro que tem uma escola onde continuadamente os professores são "convidados" a silenciarem-se sobre a violência que sobre eles recai, e dos quais só se interessa o país das notícias quando um deles, por acidente ou por saturação aparece finalmente em primeiro plano, depois saltamos para a questão da proposta de produção de energia nuclear que entra na agenda por causa do preço do crude, mas, mesmo a propósito porque a crise é global, temos a notícia de que os portugueses gostam de brincar com um carrinho novo em folha, e vai daí dão que fazer à indústria automóvel e concessionários, depois cai um prédio ou arde outro e fala-se da falta de urbanismo como se não estivéssemos fartos de o saber, ou dos abusos dos dinheiros públicos em empresas privadas ou públicas, ou do enceramento do caso da pequenina Madeleine, como se não soubéssemos que as práticas de investigação dependem da sorte que se tem com a equipa que nos calha em destino, mais os seus humores, e menos o respeito por protocolos rigorosos e universais sobre os procedimentos habituais, isso mesmo acontecendo com a equipa médica quando chegamos ao hospital, ou com o advogado ou o juiz, o professor ou o senhor da repartição que nos vai atender, andamos sujeitos à lei da tômbola existencial.
Hoje li como o Deus monoteísta sobrevalorizou as suas qualidades, assemelhando-se à ideia de um Deus. Tão engraçada a ideia de um deus à procura da sua personalidade.
As notícias têm que ter este ritmo, para nos darem a ilusão que nos dão uma visão periscópica da realidade, mas ou nós lhe ficamos indiferentes, como quem olha sem reagir a areia a passar de um cone para o outro da ampulheta, ou como burro que não reage às zurzidelas da chibata nas orelhas, ou temos que exigir uma outra continuidade na solução dos problemas e no tratamento da notícia que não se compraz com a velocidade da informação-
Li hoje no Público uns textos muito simpáticos sobre Bronislaw Geremek. Não o conhecia, nem de nome. Escreveram que era um grande medievalista e um europeísta convicto. Teria pois uma noção de tempo de acção político curiosa. E tenho pena de não saber mais nada.
Al Gore, no livro já aqui citado, relaciona a perda do pensamento crítico com a perda de influência da imprensa se tomada proporcionalmente com a forte divulgação da mensagem por outros meios de comunicação. Mas eu julgo que nem será por aí, pois se é verdade que na palavra imprensa é-nos dado um tempo mais longo de reflexão, abrir um jornal pejado de opiniões, sem que estas remetam para as respectivas teorias que as fundamentam, podem ter igualmente um efeito suspensivo da razão.
Mas não é isso que também faço aqui neste espaço, contribuindo com mais desordem no universo do significado? É.

terça-feira, julho 15, 2008

Conhecer o facto de que se pratica o mal não é, infelizmente, impeditivo dessa prática. Quem nos dera que assim fosse.
Porém, reconhecer que se pratica o mal, e prová-lo, é algo que ajuda muito.
Quando certos líderes retrocedem no universo dos direitos e das liberdades, conhecendo bem os efeitos que isso possa ter, outros há que não desistem. Hoje por Darfur, amanhã pelas vítimas de qualquer outro entulho moral.
Este senhor anda a contar as "armas" com que há-de preparar a sua continuidade, sem que se oiça da sua boca nada mais a não ser generalidades e ideias feitas sobre a lei da imigração (ou sobre as centenas de mortos de jovens pessoas que sonham com a Europa embarrilados pela escassez material da sua sociedade e pela ganância de exploradores pouco escrupulosos do seu sofrimento), sobre o processo social nos países muçulmanos, ou sobre a crise da economia e da política europeia, de que o Tratado de Lisboa é apenas a ponta do icebergue.

segunda-feira, julho 14, 2008

"É preciso não ficar indiferentes", diz-nos a jornalista Alexandra Borges quando fala sobre o destino dos meninos escravos do Gana, em reportagem que se repetiu hoje à noite na TVI. É preciso fazer o quê para não ficar indiferentes e que na realidade consubstancie o sentimento de não ficar indiferente?

E se para além das penalizações criminais e jurídicas só nos restar como armas os modelos de cultura que reprovam essas ignomínias, o que fazer quando os próprios líderes dessas comunidades põem em causa o trabalho de décadas na construção de atitudes que se baseiem na frágil fundamentação da universal rejeição da exploração da pessoa pela pessoa, e, ainda mais grave, da exploração de uma criança por um adulto?


Se as ideias que defendem a reprovação social da escravatura forem postas a par de outras, enquanto conceitos negociáveis, com as quais certos dirigentes jogam de acordo com as circunstâncias e os interesses do momento, então a confusão e a vacuidade passam entre si, como se por osmose.
Como construir instituições contra os líderes de sociedades as quais já atingiram elas próprias um nível moral superior aos daqueles e que lhes custou décadas de aprendizagem pelo sofrimento?

Hoje nasceu o belo e amável Gonçalo, em Portugal. Sorte a nossa, sorte a dele.

domingo, julho 13, 2008

Dentro do pequeno lago de plástico quatro peixes vermelhos volteiam harmoniosamente. Põe-se-lhes comida e um ensandece e persegue durante minutos os outros três num frenesim que não dá descanso. Não come nem deixa comer.

A ida à cooperativa agrícola é uma colagem aos cheiros e à vivência do passado, não só porque muitos insistem, por nenhuma razão ideológica assim o entendo mas sim por apego inerte a um nome, a chamar-lhe "grémio", como ainda por os produtos estarem todos aos molhos como sempre estiveram, e cheiram como sempre cheiraram os adubos e os pesticidas, as madeiras e os plásticos, dos fitomarcêuticos às mangueiras e alfaias, passando pelas rações para animais ou pelas sementes embaladas em carteirinhas vistosas, abandonado que está o gavetão de madeira a abarrotar de futuras semeaduras; tudo aquilo se ajeita num caos funcional, enquanto são inspeccionados por homens entendidos, muitos deles agricultores de fim-de-semana, de meia idade, barrigudos, quase todos, muitos de boné a condizer com a camisa de riscas aberta até meio do peito. Um mundo que está de passagem.
..
Os artigos que se escreveram na imprensa sobre o livro de Margarida rebelo Pinto a dizer mal do livro de Margarida Rebelo Pinto! Se o livro tivesse sido bem recebido pela crítica a autora não poderia ter maior visibilidade do que a que teve nos media portugueses. Para mim é um mérito. Se não um elogio à sua arte como escritora pelo menos à sua arte com relações públicas que se representa enquanto determinada personagem na cultura portuguesa, como dizer?, uma personagem incontornável. Ah, pois, a palavra é incontornável para o ciclo de críticos.
..
Numa coisa, que ouvi em entrevista na rádio Clube, não concordo eu com Rebelo Pinto: dizia a autora que o facto de Portugal ter escapado a uma grande guerra terá de certa forma coartado o nosso ímpeto reformista ou transformador da realidade. É no entanto claro que esta teoria é defendida por pessoas urbanas, provenientes da classe média, média-alta. Qualquer rural mais velho sabe que a Grande Guerra se não trouxe a morte e a destruição dos edifícios de vilas e aldeias portuguesas, trouxe igualmente a fome e a ansiedade, tanto quanto às restantes populações europeias. Qual paz, qual o quê? E em Espanha onde a guerra civil atirou para as fronteiras de Portugal milhares de deserdados, com que a população portuguesa procurava colaborar, mitigando a sua fome em muitos casos? Relatos há, não sei o absoluto grau de veracidade pese embora quem mos contou fosse um oficial da GNR, que dão conta de pessoas a irem buscar os alimentos aos cochos dos porcos.
E nos anos sessenta, enquanto o resto da Europa se ponha em remanso, Portugal entrava em guerra em várias frentes, com os seus rapazes a morrerem por um pedaço de terra que já deixara civilizacionalmente, e como está certo, de poder ser dita ou sentida como deles? Isto tudo não é realidade destruição e morte para a sociedade portuguesa? Foi então o quê?

quinta-feira, julho 10, 2008

Estado da nação

Passamos a vida a copiar. A copiar modelos, teorias, discursos, comportamentos, como objectos manufacturados.
Eu defendo, em todas as áreas, a necessidade de estudos comparativos. E defendo até, em áreas que relevam da ausência de estudos, como a produção de opiniões baseadas no senso comum, que se confrontem essas percepções da realidade com o conhecimento da existência de outras realidades distintas. Aqui, mais do que comparar opiniões, comparam-se a justeza das opiniões quando comparadas com realidades diferentes sobre as quais elas julgam poder descrever. Por exemplo, a qualidade do comércio e o talento dos balconistas portugueses em comparação com a de outros países europeus. Quanto mais conheço certas formas de comportamento dos comerciantes na Europa mais aprecio o estilo português, mas esta opinião não invalida uma outra, a de que o meu conhecimento dessas realidades é ainda, mesmo que relativamente alargado, insuficiente para constituir uma opinião fundamentada sobre o assunto.
Mas aquilo a que se chama "ter mundo", não advém exclusivamente do facto de ter que se possuir dinheiro para se poder viajar, há sociedades que têm essas possibilidades e até viajam mas para se encontrarem exactamente com os valores do seu mundo, pois o resto é paisagem.
Deriva talvez de uma predisposição natural, ou forçada exteriormente, para viver no "fio da navalha" de quando em quando, para sopesar a sua passagem por esta existência. Absorver todos os outros valores sabendo quais são os que no fim vai deliberadamente defender.
Esta conversa toda para que eu possa reclamar sobre a ausência de autores portugueses que influenciem as opções teóricas, ou pelo menos as estratégias comunicacionais, dos nossos políticos e economistas. Onde estão os grandes teóricos sobre a cultura portuguesa? Só vejo seguidores de pensadores anglo-saxónicos, ou franceses ou alemães (como? eu?!), de teorias de autores autores de países fortes. Admito claramente que para mim o pensamento não tem pátria. Mas já creditei mais profundamente nisto de forma intuitiva e não racionalizada, sobretudo se em certos autores que excluem na sua doutrina enquanto critério avaliador dos valores o da própria universalidade. Daí que a adopção de certos modelos internacionais sobre a nossa sociedade me desorientem.
É certo que os resultados de inquéritos internacionais terão que dar conta de realidades semelhantes entre si, não se poderá falar de resultados na educação, por exemplo, se uns países se aplicam em oferecer aos seus alunos exames de escolha múltipla em que ao aluno se pede apenas que ponha uma cruz no quadrado certo, enquanto outros têm um tipo de exigência analítica e discursiva superior; mas a questão está em saber porque é que esses países que têm por esse método um número mais elevado de sucesso, hã-de servir de modelo para todos os outros? Que outras provas nos dão que são eles que estão no caminho correcto e não nós, por exemplo? A economia, dir-me-ão. Outra vez o número, está bem, nem tudo contra. Mas a economia está, mesmo nesses países, em trânsito constante entre o sucesso e a crise profunda, porque não haveremos nós de encontrar então as teorias e os modelos certos para a realidade portuguesa, que nos dê uma justa percepção do nosso valor?
E os nossos políticos pensarão na realidade portuguesa para depois irem procurar explicações internacionais para a mesma, nos últimos gurus dos últimos eleitos com mais exposição mediática, ou saberão encontrar para esta mesma realidade a explicação que ela de uma forma ou outra fará ouvir?
Eu como teórica também cometo o mesmo erro. Primeiro faço a pergunta, depois vou para os livros e só mais tarde olho a realidade...através da perspectiva que li. Mas a minha explicação é que preciso de conhecer a literatura sobre o tema. E a daqueles que adoptam a terminologia do processo de governo dos outros países, qual será?
Estado da nação, pois sim! Quem são os seus conselheiros sobre o estado do país? E dirão eles aos portugueses que fora a possibilidade de criar um governo e umas autarquias de gestão da coisa pública, quem define o estado da nação são as instituições internacionais? E esses fazem-no em nome de que teorias? Ah, pois, ninguém nos diz quais são, como são e de quem são as ideias que mandam em nós.

quarta-feira, julho 09, 2008

e na origem das crenças pode estar...

um livro que se leu.

Aqui há uns posts lá para trás fiquei de escrever sobre os livros que Churchill teria lido e que lhe teriam formado as crenças, ou pelo menos ajudado a legitimá-las, já que muitas vezes a crença decorre de uma certa forma de vida cultural que se desmultiplica socialmente em dado período histórico na linguagem e no pensamento.
Uma das minhas curiosidades é saber se as pessoas lêem certas obras de ensaios para que estas coadjuvem as suas escolhas prévias, ou se pelo contrário a leitura lhes provoca um novo tipo de pensamento, se dá origem a uma nova forma de compreender e agir sobre o mundo. Provavelmente dar-se-á os dois fenómenos, sendo que o segundo será mais raro, porque isso implicaria a leitura de algo que fosse simultaneamente uma realidade em que o leitor jamais pensara, uma explicação nova, ou uma interpretação original, com uma subsequente adesão racional e afectiva a essa teoria que provocasse por sua vez uma forma de vida nova.
Penso em Kant, por exemplo, que evoluiu para uma teoria própria no que a uma filosofia do conhecimento diz respeito, ao pensar na forma como a teoria heliocêntrica copernicana revolucionara o conhecimento sobre o cosmos, diz-nos ele, ou como Eça explica a paixão adúltera de Luísa pelo rapazola seu primo, o Basílio, pela leitura intensa de romances a que ela se dedicava, pois até tinha, para preencher as horas da sua ociosa existência, uma "assinatura, na Baixa, ao mês".
Mas nunca poderemos saber então porque afecta uma pessoa mais do que a outra a obra que se lê sendo a mesma obra? Porque há dezenas de outros factores a influirem na nossas escolhas, claro: a saúde mental e física, a educação, a personalidade, o estado social, a ocupação profissional, o grau de satisfação familiar, os relacionamentos, a existência de instituições cívicas fortes no nosso meio social, etc. O que nos deixa sem lei para declarar ciência sobre a real influência das ideias impressas sobre o indivíduo.
Mas enquanto isto, registo aqui as obra que Sir Martin Gilbert declarou ter Churchill lido após a sua formação académica ter terminado, e que o próprio define como tendo sido fundamentais para ajudarem a desenvolver o seu engenho oratório, nesse período que antecedeu de perto a sua entrada na vida política activa: o Annual Register of World Events, e as obras históricas de Macaulay e de Gibbon, assim bem como a obra filosófica de Platão. Procurava então o moço criar uma formação sólida em episódios sociais, histórico e filosóficos com que pudesse polir as suas ideias, mas na realidade a sua evolução ideológica faz-se a partir dos pressupostos partidários do próprio pai, até que àqueles se sucederão outras opções que serão ditados pela necessidade decorrente da sua experiência como político.
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Também Al Gore terá identificado o livro que Bush utilizou para fundamentar as suas intuições ideológicas, o livro de Terry Eastland, Energy in the Executive: The case for the strong Presidency, e que o seu conselheiro e assessor de comunicação, Karl Rove, lhe proporcionará ler em 1999; p. 268.
Ora, os livros encontram a pessoa certa (sem conotação moral) para os ler, ou produzem essa pessoa que os há-de transformar em acção?