Törless humilha um colega em nome de um princípio moral, da ideia de excelência e necessidade de magnificência do ser humano sem mácula, sem sinal de queda em labirintos
pulsionais. Ele explora essa humilhação até ela se tornar tensão erótica e exploração da natureza de outrem ao procurar possuir e deixar-se possuir
sexualmente por essa pessoa. A aparente indiferença, aquela marca de crueldade usada para com outrem que se percebe não estar a deixar traço num carácter que
demonstrara já possuir impulsos inertes quanto ao valor de normas morais que orientam a sociedade, levou
Törless a assumir o impensável: vou viver pela pele do outro o que aprendi a repudiar e sempre repudiarei para a minha própria pele. O outro cairá por mim no caminho que seguimos os dois.
A maldade dos outros colegas, que
Törless considera bestial, sem finalidade a não ser a da utilização bruta do poder sobre uma vítima, responsável pelos s
eus actos, mas vítima acima de tudo da
exibição arrogante da posse do seu destino por outrem, pelo concerto da sua existência num espaço social definido por hierarquias das quais ele era um peão moral (o crime cometido por um
desafortunado na classe social não seria entendido da mesma maneira se ele fosse um herdeiro de uma família poderosa), não é inferior à violência de
Törless. Ele pensa que sim, porque aquilo que sente, e o que experimenta, convoca-o perante si próprio de uma forma
perturbadoramente nova, e temível pelo que abre de
hipóteses sobre as hipóteses, sem redenção, de vidas sujeitas às mais ocultas e desonradas paixões, à luz dos princípios de uma vida moral e virtuosa. Não deixa de ser
igualmente culpado. A aprendizagem da descida ao inferno não justifica que para isso se arraste alguém connosco, para nos servir de senha de entrada nesse universo.
Portugal, parece-me, anda a fazer consigo próprio demasiadas experiências de obscuridade, e não se vislumbra nenhuma lanterna que alumie duas vezes, para assinalar a porta de saída.