segunda-feira, setembro 29, 2008

"Em essência nada distingue os extorsionistas profissionais dos bairros sociais das Quintas da Fonte dos oportunistas políticos que de suplicância em suplicância chegaram às Quintas do Lambert. São a mesma gente. Só moram em quintas diferentes. Por esse país fora."

Mário Crespo, Pactos de silêncio, in JN

sexta-feira, setembro 26, 2008

Hoje descobri este autor,William Isaac thomas, não conheço é os fundamentos da afirmação, mas...

que ela é deveras pertinente como objecto de análise (que o digam os relações públicas e os "spin doctors", lá isso é). E fascinante também.
Agora resta ainda saber quem são e como se caracterizam estes "men" aqui utilizado.


"It is not important whether or not the interpretation is correct--if men define situations as real, they are real in their consequences." - Thomas theorem

quinta-feira, setembro 25, 2008

É a política

Alguns analistas fazem coro com alguns políticos e dizem, como o presidente Lula da Silva, que é a hora da política (subentende-se sobre a economia). Ora como outros comentadores compreenderam, e com os quais eu partilho o seu ponto de vista, nunca deixou de ser a política sobre a economia, nunca. O que aconteceu foi uma política a favor de uma determinada economia. E quando hoje se ouve os discursos do Presidente Bush sobre o papel das nações na organização onde elas se encontram representadas como unidas, o que está em jogo não é uma nova visão política e económica, mas sim uma continuidade da mesma política, porque quando se ajuda a salvar interesses privados com dinheiro público, não se está só a pôr em prática o princípio de solidariedade social, no sentido em que a crise dos ricos será a tragédia dos pobres, mas a perpetuar a ideia de que a existir Estado, este deve estar ao serviço do interesse dos mais fortes, ou dos mais bem sucedidos em técnicas de negociação, que podem bem ser as que assentam na ideia que todas as pessoas da comunidade estão reféns do seu sucesso.
Ora a banca e as seguradoras que falharam (e eu própria como segurada da AIG filiada em Portugal tenho nesta interesses especiais) estão a ser de certa forma premiadas mesmo pelos seus erros de má gestão e de abuso de confiança dos dinheiros dos seus investidores, com recurso aos dinheiros públicos que estão a ser desviados de outras aplicações que poderiam até ser a médio-longo prazo, mais rentáveis: saúde, educação, justiça, infra-estruturas, etc. É claro que eu vejo que essa serve para atenuar ondas de choque mundiais, mas não deixa de ser a mesma mensagem política: não há interesses públicos que se sobrepunham aos interesses dos privados bem identificados, mesmo quando estes interesses afectaram os seus próprios recursos e lucros. A política é a mesma, e tanto os serve haver menos estado para lhes cobrar menos impostos e regular com frouxidão os seus negócios, como a presença de um Estado que no momento certo e conveniente os capitaliza. É o Estado oligárquico, disfarçado de social.

O que eu proponho: a responsabilização imediata dos envolvidos em cargos de decisões que conduziram os seus interesses, e o da sociedade, a este lugar; e a procura de novos teóricos económicos na defesa do Estado social, ainda que não tutelar, paternalista ou determinista.

terça-feira, setembro 23, 2008

A universidade e o forte 4

A universidade é a de Rio Grande do Norte. Uma universidade enorme, numa cidade de que fiquei a gostar. Os edifícios espalham-se pelo terreno em extensão. Edifícios utilitários a lembrarem-me um pouco a atmosfera arquitectónica de Berlim Leste antes da queda do muro, mais até do que a nossa arquitectura de Estado Novo. Mas só os edifícios são assim percepcionados, porque dentro deles faz-se luz e dá-se o constraste pela vivacidade de grupos de jovens faladores e animados, na sua grande maioria vestidos de forma muito prática sem grandes preocupações com as marcas da moda ou com o estilo.
Nada sei sobre as suas aulas. Estive de passagem por um congresso da Intercom. Ao almoço, na cantina geral, um reboliço pelas regras novas que toda a gente na fila explica pacientemente: entra-se com uma senha para um espaço central no átrio do edifício que fica numa zona mais elevada onde se encontram as mesas com a comida exposta, depois seleccionamo-la, "Vá, por favor, não fique meia-hora para se decidir", vamos pesá-la, e toca logo a procurar um lugar com o prato na mão em equilíbrio com os talheres.
À mesa, que escolhemos por ter o menor número de louça dos comensais anteriores e o menor número de migalhas na toalha, aliás cedida por gentileza por duas professoras que estavam a terminar o seu almoço, há-de vir um empregado perguntar o que queremos beber. Findo o prato principal o mesmo empregado virá propor-nos a sobremesa, e quando terminarmos iremos com o nosso papelinho a uma caixa registadora onde estará já a indicação do que consumimos, pela indicação do número. À saída entregamos a senha a outro empregado e terminámos o almoço.
Por todo o lado a festa do português, claro. É um orgulho imenso olhar todas aquelas caras jovens, desconhecidas, e até então inimaginadas, e ouvi-los falar português.
Por mim, não conheço melhor proposta para se entrar num país que não seja pela porta de uma escola. São gostos pela universalidade.

Entrei na livraria e comprei dois livros. Mas esta há-de ser outra história.

segunda-feira, setembro 22, 2008

O seu voto, não obrigada, em nome de...cidadania partidária.

José Pimentel Teixeira chamou-me a atenção para este assunto do qual eu andava completamente distraída: a alteração da lei eleitoral, desta feita para pôr fim aos votos dos emigrantes.
Numa Europa sem fronteiras à qual pertence Portugal, não há como pôr mais este travão à participação na política nacional dos cidadãos portugueses a trabalharem no exterior, é com certeza com boas intenções, é a mentalidade do poder português: a que se pode denominar de "a cerca" intelectual. Um filme que já vimos diversas vezes antes e que tem novo remake, desta feita com o partido socialista na cabeça de cartaz.
Viva a democracia participativa!

Uma conferência






organizada pela ADDHU .

sexta-feira, setembro 19, 2008

"epiniões" quem as não tem?

Texto curioso este sobre o fenómeno das "epiniões" - as opiniões divulgadas on-line por um conjunto alargado de pessoas que não são críticos profissioanais.
O trabalho A Comparative Study:Does the Word -of-mouth Communications and Opinion Leadership Model Fit Epinions on the Internet? de Yan Jin, Peter Bloch e Glen T. Cameron, procura identificar os dois tipos de "epiniões":1. As pagas e 2. As gratuítas.
Explora ainda os motivos que levam as pessoas a emitir opiniões na internet, sendo que uma das causas assenta na ideia de que os seres humanos têm uma tendência básica para prestar ajuda a outrem sobre matéria em que nos julguemos especialistas (John Shuler, Psychology of Cyberspace).
Veja-se como é que isto mina a teoria neo-conservadora centrada na ideia de auto-suficiência dos mais aptos. Claro que também não se escamoteia a hipótese de muitos dos supostos especialistas nada mais desejarem do que sentir a sensação de poder que consiste em dar opinião a outrem.
Esta linha de interpretação escapa às directivas da investigação clássica sobre a questão das influências, que, desde Lazarsfeld e Katz, assentam na aplicação de testes sociométricos e entrevistas, mais do que no escrutínio das intenções/motivações do sujeito que emite opinião. Penso eu que também estes autores não problematizaram a questão do "Speaker`s Corner ", que, nesta era digital ganha em quantidade, quer de participação quer de multiplicação de discursos que não são pedidos necessariamente por ninguém (ou serão, quando se faz uma busca por termo?).

segunda-feira, setembro 15, 2008

A Escola

Começou o novo ano escolar e o processo já assente de sujeitar os professores à função de terapeutas ocupacionais: acho que a isto chamaram ufanos os defensores deste Ministério, "A reforma da educação". Ninguém se apercebeu, ou quis aperceber-se, o que escondem as promessas tecnológicas (irrealizáveis no seu todo no quadro do orçamento de Estado para a educação, basta fazer as contas àquilo que se diz que há-de vir para a Escola), nem as amostras qualitativas da quantidade de alunos que os professores fizeram passar este ano, nem a sujeição científica às regras do compadrio da nova avaliação de professores.
O filósofo José Gil definiu bem a situação dos alunos portugueses, sobretudo o caos pedagógico que trouxe o vento das Novas Oportunidades, cujos programas têm uma linguagem esotérica: trata-se da atribuição legal de um diploma assente em bases de uma fragilidade académica que deixa todos os professores estupefactos pela inconsistência. Mas, como dizem os artistas, "The show must go on".

domingo, setembro 14, 2008

Ligações

Já saiu o nº 2 da revista "Sem correntes" editada por João Ferreira Dias, uma revista digital que toma por tema a lusofonia e onde tenho o gosto de escrevinhar, desta feita sobre as questões de insegurança social e pessoal.


No blogue A la Gauche, por convite de João Ferreira Dias, tenho deixado correr o pensamento sobre essa questão de "ser de esquerda". Como não sei bem o que significa essa pertença, tenho-me desdobrado na resposta à questão. Tenho um gosto imenso com o tema e com o meu parceiro de escrita.

sábado, setembro 13, 2008

A coruja nordestina


Obsidiou-me, mas não sei se voa ao entardecer. Não me diz, a malandra.


A obra é de Ana Selma.

O bode expiatório

Os Estados Unidos são a melhor salvaguarda discursiva de todas as figuras autoritárias no mundo, porque permitem que aqueles os dêem como a causa de todos os males que cai sobre o seu próprio povo. Assim, pode-se desgovernar um povo em nome do governo dos Estados Unidos.
Confesso que ser bode expiatório num mundo governado por pessoas como Chávez deve ser uma honra para os americanos, ainda que seja uma desgraça para os povos sob o jugo. Mas se for a votos, diz-me amiga Venezuelana, Chávez ainda ganha com uma margem parecida à da MPLA em Angola.
A democracia é linda. Disso não podemos nunca duvidar, sobretudo quando é difícil.

A universidade e o forte 3

Ana Selma é uma artista plástica de Natal que criou entre outras obras, um bicho , "a coruja", sendo que uma das quais me ocupou a mente durante um dia inteiro e da qual eu sou agora uma feliz proprietária.

-Ana, vocês têm uma cidade sui generis. Mistura de cidade americana com apontamentos europeus de influência arquitectónica portuguesa, visível sobretudo nos edifícios públicos.
- É. Nos últimos anos tem muito português vindo para cá e comprando casa. Dizem-me que se não fossem eles a recuperar os edifícios que eles estavam por aí ao abandono; eu pergunto-lhes então porque razão eles têm tantos edifícios abandonados no seu próprio país!

quarta-feira, setembro 10, 2008

A universidade e o forte 2

- Sr. Milton, vejo muitos e grandes cartazes a anunciarem que o governo central, o governo do estado ou a prefeitura está presente numa ou noutra zona da cidade.
-Pois há, agora que há eleições puseram cartazes por todo o lado.
-E eles fazem de facto alguma coisa?
- Que nada, é só promessa e anúncio bobo.
- Mas eu vi um cartaz desses ao lado de um terreno onde estavam de facto aí uns duzentos homens a construirem uma escola anunciada.
- Não, o que você viu foram homens a começarem a construir algo que logo depois das eleições vai ser abandonado. É só promessa mesmo de obra, sabe, não é obra não.



Conversa com motorista nodestino num destes últimos dias.

terça-feira, setembro 09, 2008

A universidade e o forte 1

- Diga-me, Sr. Francisco , o que representam as bandeirinhas à frente das casas?
- Então..., vermelha é do governo e amarela é da oposição.
-E a verde?
- Ah, essa é do povo mesmo.
- E a azul?
- Não tem.
-Não?! Mas eu já vi. E o que é isso de a verde representar o povo?

- !!
Olhe, as bandeiras estão lá para dizerem aos candidatos que as pessoas estão vendendo o espaço de mostrar bandeirinha.
-Ai é?! Mostra-se a bandeirinha a troco de dinheiro?



Uma conversa tida com um motorista brasileiro nordestino por um destes dias passados.

sábado, agosto 30, 2008

A ferida 4

Törless humilha um colega em nome de um princípio moral, da ideia de excelência e necessidade de magnificência do ser humano sem mácula, sem sinal de queda em labirintos pulsionais. Ele explora essa humilhação até ela se tornar tensão erótica e exploração da natureza de outrem ao procurar possuir e deixar-se possuir sexualmente por essa pessoa. A aparente indiferença, aquela marca de crueldade usada para com outrem que se percebe não estar a deixar traço num carácter que demonstrara já possuir impulsos inertes quanto ao valor de normas morais que orientam a sociedade, levou Törless a assumir o impensável: vou viver pela pele do outro o que aprendi a repudiar e sempre repudiarei para a minha própria pele. O outro cairá por mim no caminho que seguimos os dois.

A maldade dos outros colegas, que Törless considera bestial, sem finalidade a não ser a da utilização bruta do poder sobre uma vítima, responsável pelos seus actos, mas vítima acima de tudo da exibição arrogante da posse do seu destino por outrem, pelo concerto da sua existência num espaço social definido por hierarquias das quais ele era um peão moral (o crime cometido por um desafortunado na classe social não seria entendido da mesma maneira se ele fosse um herdeiro de uma família poderosa), não é inferior à violência de Törless. Ele pensa que sim, porque aquilo que sente, e o que experimenta, convoca-o perante si próprio de uma forma perturbadoramente nova, e temível pelo que abre de hipóteses sobre as hipóteses, sem redenção, de vidas sujeitas às mais ocultas e desonradas paixões, à luz dos princípios de uma vida moral e virtuosa. Não deixa de ser igualmente culpado. A aprendizagem da descida ao inferno não justifica que para isso se arraste alguém connosco, para nos servir de senha de entrada nesse universo.

Portugal, parece-me, anda a fazer consigo próprio demasiadas experiências de obscuridade, e não se vislumbra nenhuma lanterna que alumie duas vezes, para assinalar a porta de saída.

quarta-feira, agosto 27, 2008

A ferida 3

Por mais que leia sobre o assunto não consigo desenvolver uma opinião sobre o que se passa no Cáucaso, aliás a única referência que tinha deste nome remete-me para as aulas de cultura clássica, tendo-me deixado isso um maior conhecimento do registo mitológico e um grau menor acerca da realidade presente que envolve a geórgia de que nada sei.
O que poderei dizer além do discurso de cartilha e que assenta na defesa dos princípios das regras da Carta das Nações Unidas? Só posso repetir o mesmo de cada vez que surgem conflitos, pois não conheço outra forma de unificar a acção mundial em prol de atitudes de não agressão.

Na realidade, a permissividade relativamente ao mau uso que se faz desses princípios deixa-nos mais desamparados perante a adversidade sob a forma de interesses nacionais em expansão. Isto diz respeito a qualquer nação com instintos imperiais, e a Rússia tem uma longa história de interesses a defender, e de vontade de mostrar a força da sua nação. Pessoa conhecida contava-me como em conversas com um cônsul russo numa nação estrangeira se apercebeu dos ânimos nacionalistas exacerbados, e de um discurso ultranacionalista a varrer a nação, com os mais jovens a integrarem o processo. Vontade que o seu nome conte no mundo, sob qualquer pretexto.

O pupilo Törless recusa-se a compreender o sentimento da condescendência para com as faltas morais. Ele intuiu que a permanência de um acto que constitua matéria de punição no círculo habitual da vida, como se fora uma faceta mais da existência, abria a porta não para a excepção do acto em si, mas para a manipulação da vida como ela era dita dever ser. E a passagem entre o "mundo claro" do quotidiano e esse mundo "obscuro, ardente, de paixões, despido, aniquilador." era do mais fino papel de arroz, e coexistia como possibilidade sempre presente em cada acontecimento. p. 92

terça-feira, agosto 26, 2008

A ferida 2

Há uma personagem no livro que acabei de ler há dias As perturbações do Pupilo Törless que está num período da sua vida em que se encontra a transitar entre as várias percepções que possuia anteriormente acerca da existência, e as que lhe chegam agora de forma abrupta; aquelas tinham-lhe servido de aconchego na sua infância, enquadrando afectos e pertenças, estas outras manifestam-se no presente sob outra luz, sujeitando-o à experiência de viver uma fase de transmutação, quer sobre aquilo que a si próprio diz respeito quer sobre os que o rodeiam. Ele persegue atentamente esses estados que ocorrem sob " vertigem interior", onde gestos, histórias passadas, valores e pessoas, se representam novamente de uma forma enovolada mas sem nós, e que ele define como produto de um "brilho irisado do espírito". Nestes momentos diz-nos que se sente como um santo se deverá sentir com as suas visões ou um artista com as suas intuições. É um adolescente na posse das recordações suficientes que permitem à sua imaginação recriar um mundo paralelo tal como ele também poderá bem ser. A estes estados o autor da obra, Robert Musil, denomina-os de perturbações.
Törless pergunta-se:"Os adultos também serão assim? Será o mundo assim? Será uma lei universal o existir em nós qualquer coisa que é mais forte, maior, mais bela, mais apaixonada e mais obscura que nós? Qualquer coisa que dominamos tão pouco que apenas podemos espalhar milhares de sementes sem objectivo, até que subitamente saia de uma delas uma chama escura que cresce muito para além de nós? E em cada nervo do seu corpo vibrava, como resposta, um impaciente "sim"." p. 155

domingo, agosto 24, 2008

A ferida 1

De tanto falar mal de si próprio, Portugal aliena a consciência que tem de si, transforma o mal num fado, em entidade metafísica que nos suplicia reiteradamente em certos momentos históricos*, ao invés de o identificar essencialmente como uma falta material ou uma falta social que precisa de ser suprida e para tal há que saber qual a meta e qual o método a utilizar para o fazer acontecer.
Acreditar que a economia só por si dará o impulso necessário a uma reforma dos comportamentos e das atitudes é esquecer o que da nossa economia tem o selo dos próprios que dizem mal de si e dos seus, num equilíbrio de ébrios. Mas procurar uma história nova também sugere engenharia de povos, coisa de péssima memória.
Os valores antigos que o hino olímpico homenageia do" verdadeiro, o belo e o bom" não passam de nozes para esquilos no quadro mental que orienta as nossas instituições postas a nu nestes jogos, e se o voo de gazela de Évora ou a corrida de lebre de Rodrigues constituiu um bálsamo para a ferida comunicacional aberta, esta não devia fechar como se nada tivesse acontecido, como se as gentes lusas não tivessem ensandecido, pedindo aos atletas que fizessem aquilo que elas próprias não fazem com a sua vida: sejamos pois responsáveis e consequentes. Não é fácil, não.
*Patético o desabafo do poder, na pessoa do nosso primeiro-ministro, quando este assume que as circunstâncias históricas lhe são adversas, a ele que controla tão bem a auto-promoção como não consegue controlar a história.
P.S. Marco Fortes foi meu aluno. É um estudante do ensino nocturno que não utiliza o seu estatuto de atleta de alta competição para justificar a sua ausência às aulas. Um aluno inteligente e, como quase todos as pessoas que eu conheço deste país, com uma noção de valores éticos de trabalho e de sacrifício um pouco baralhados no discurso. Não é uma desculpa, é uma constatação. Não é um bode expiatório, é um vislumbre de realidade. Mas vamos ver como depressa se há-de pôr essa realidade para debaixo do tapete e se há-de ignorar como tudo isto é uma questão de falta da nossa educação.

segunda-feira, agosto 18, 2008

Ideias cata-vento procuram ponto fixo 2

E no entanto a atitude de cata-vento do ideal político contemporâneo gira sobre um ponto fixo. Reparo na estética festiva verdadeiramente imperial dos jogos olímpicos chineses (que só espantou a quem não acompanhou a linguagem do cinema chinês contemporâneo como é por exemplo o caso do belo "Milho vermelho", ou o soberbo "lanternas vermelhas" e o perfeito "adeus, minha concubina") que se cruza com um um comportamento social herdado no sentido de autoridade totalitária interiorizada com Mao, que repudiaria as representações destes jogos mas não os seus efeitos na comunicação mundial. Temos pois as máquinas imagéticas dos dois sistemas políticos mais longos e conhecidos da história da china a intrecruzarem-se para afirmação do poder da sua casa nacional, mas que concedem aos símbolos universais o seu lugar, o ponto fixo à volta do qual evoluem os actores e os acontecimentos diversos: senão veja-se a concessão à ideia de união planetária, o tomar a pomba por arquétipo colectivo de união e paz, numa cultura que por si privilegia um animal mítico como o dragão.
Quer isto dizer que todos os líderes do mundo sabem já de cor a cartilha das declarações universais e dos convenções internacionais, porque os seus povos a isso os instigam, a questão está agora em agir sabendo que se incorre em falta grave contra o espírito dos princípios universais, aproveitando o desvario, a inércia ou a impotência geral, seguindo o modelo dos poderosos que abrem excepções às regras a cada momento do seu exclusivo interesse particular. E o que é mais tenebroso é que muitas das vezes são as suas populações que lhes dão licença para o fazerem. Ninguém disse que a democracia é perfeita como sistema de governação. Ninguém o pode dizer. Mas menos que isto é que não, também, de todo.
Mas como melhorar o sistema político democrático?

domingo, agosto 17, 2008

Ideias cata-vento procuram ponto fixo 1

As ideias do século, da década, do ano, do mês, da semana, do dia e até da hora.
As ideias da superstrutura, da infra-estrutura, do id e do ego, da história universal e as da história nacional, a cultura do grupo, da família, dos amigos, da escola, da igreja e das associações. As ideias da moda e as ideias que se querem intemporais.
As ideias culturais e as estruturais, as do sistema e as individuais, as gerais e as particulares, as extensas e as intensas, as objectivas e as egocêntricas, as subjectivas e as desinteressadas, as materialistas e as imaginosas, as dialécticas e as maniqueístas.
As ideias pragmáticas e as ideias desinteressadas.
Ideias cata-vento que mesmo em convenções políticas internacionais não nos indicam o norte apenas nos mostram de que lado sopra o vento. Há-de ser importante, para quem é pescador.