Andam a moer-me há dias umas declarações, publicadas em jornal, de certas personalidades identificadas como membros da maçonaria sobre o desvalor de um governo que não terá, supostamente, convidado nenhum dos seus membros para ministro. Incomodou-me o tom de intimação de uma frase, que, a ser verdade como princípio da organização e não uma mera leviandade de certos alguém que gostam de brincar em idade adulta à aventura dos cinco, é uma ameaça ao poder da democracia; li, então, em excerto de uma conversa gravada, que este governo iria sofrer grandes dificuldades em paga dessa omissão selectiva para com a organização propriamente dita. Poderia discutir aqui a questão das escutas em Portugal e ainda mais o problema relacionado com a sua publicitação, mas agora só vou discutir o conteúdo daquelas conversas publicadas.
Vamos lá ver, eu até acho que este governo nos dá razões de sobra para que lhe criemos dificuldades: é um governo inchado de presunção, cujo grande erro de “casting” começa logo por ser o primeiro-ministro. Eu disse-o naquele Verão, poucos meses depois da eleição legislativa, quando Campos e Cunha foi afastado após uma entrevista dada a um jornal, por já suspeitar, depois do discurso de tomada de posse que tanto aplauso mereceu então, que vinha aí um governo dirigido por um justiceiro com o mando de um regente de banda. E não comecei por ser contra o pragmatismo das ideias, era mesmo contra a forma de transmitir essas ideias.
Então ainda em férias, eu tive o primeiro desapontamento com um governo que eu própria ajudara a legitimar, e que mesmo durante esse período não deixei de seguir com preocupação. Seguiram-se outros momentos, com outros ministros a procederem pelo mesmo diapasão discursivo e de atitude no trato público, tal qual o seu líder. Deviam receber um prémio no ordenado do fim do mês se fossem discursivamente umas cópias, ou coisa que o valha.
Quando em Novembro de 2005 colegas e amigos, fascinados com a atitude pragmática de um ministro que entrou numa roda viva de reformas, me questionaram sobre a minha previsão eleitoral para 2009, eu disse-lhes que o sistema social não ia aguentar tanta pressão, sobretudo porque o discurso do primeiro ministro não era nacionalmente motivador, não instigava a sociedade a fazer uma inflexão profunda nos seus hábitos de produção e de vida de forma coesa, mas apostara nas rivalidades das classes profissionais entre si e criando divisões entre estas e a população que deviam servir, e tudo para fazer passar uma mensagem em que se estava a utilizar mal o modo e o tom. Mais tarde acrescentou-se ao tom desfasado a verdade desfasada. O que agravou a situação do governo. Avisei então para um sobreaquecimento da opinião e para um crescente afastamento dos eleitores do governo e do PS. Nunca quis ter razão. Nem sei se as eleições confirmarão esta previsão. Pouco me importa. Era uma intuição.
Um governo que tinha uma opinião pública bem preparada pelos media sobre a gravidade da situação no défice quando começou a governar e um povo convencido da inevitabilidade das medidas duras que aí vinham, só tinha que respeitar para ser respeitado, e para cumprir o seu dever para com uma população preparada para ver limitados ou suspendidos os seus direitos.
Todavia, dito aquilo, também afirmo que o governo não deve ser atrapalhado por grupos de pressão que se apresentem como parceiros de poder mas sem se predisporem a fiscalização pública e sem qualquer legitimidade democrática, no seu método ou nas suas intenções de condicionarem o comportamento do governo. Não há, nem pode haver, viveiros privilegiados a criarem os funcionários para o governo da nação, a não ser os que publicamente dão conta da sua acção, em universidades, empresas ou serviços, em formas de vida partilhadas.
