segunda-feira, julho 07, 2008

emaranhado

Uma pessoa pode querer alargar o seu modo de vida por partilha. Alguém que tem uma paixão querer partilhá-la com outrem, ou fazê-la manifestar-se em quem podia passar a vida inteira sem (se) conhecer. Um professor da Universidade da Beira Interior, um bibliómano, contava-me como ao bater à porta de David Lodge e fazendo-se anunciar, este o veio receber à ombreira, o convidar a entrar e pedir-lhe para falar de livros. O professor português começou a falar dos livros do autor inglês de, entre outros, Autor, Autor, sendo que logo Lodge o interrompeu, "Não, não me fale dos meus livros, porque esse conheço-os eu bem, fale-me de outros livros dos quais gosta." É com estas formas de vida que eu me maravilho. Alguém bate à porta, alguém partilha, algures.

"Quem bate a uma porta de folhas na noite
uma porta de folhas na noite
Quem toca a dura casca do teu nome na noite
a uma porta de folhas

Uma porta de folhas uma porta
Quem bate a essa porta de folhas
Quem bate a essa porta de folhas na noite
Quem bate a essa porta sou eu" , recitava a amiga que me deu a ler António ramos Rosa, por cuja poesia aprendi a respirar também.

Mas se a paixão for uma paixão por um objecto caro, ou pelo menos uma paixão que tem que ser reservada, maneirinha, frugal; não, frugal é uma palavra poética, e a miséria não é poética, nunca o foi, também não o é agora que se mistura o olhar de fadista de esconso com o boné de rapper, a desejar uma vida à teledisco, sem segunda opção, fascinado com mística do delinquente americano ficcionada, também amoroso para com a águia do Benfica e vistoso ao exibir a bandeira nas varandas de prédios baratos.
Se a paixão for cara, e a quisermos partilhar, há que dividi-la, que concentrar esforços ou recursos. Os livros numa biblioteca pública ganham estatuto de objectivo político desta civilização, a escola, sendo pública, é recurso empenhado dos que pensam no bem comum como formação colectiva na ideia de cultura desta cultura mais bem sucedida (há quem fale do interesse privado na criação da escola pública, e daí? Se o meu interesse privado tiver por efeito a realização do interesse público...). Mas eu não sei quando é que isso acontece, ou se sempre assim acontece, sei que muitas das vezes tal não acontece. Procurar a lei e a ordem fixa na sociedade histórica pode ser tanto um pesadelo totalitário como um devaneio cultural que elege os "pilares da sabedoria". Quantos são os pilares? Porque o são?

No livro de Al Gore ele recorre sistematicamente à figura dos "fundadores". Idealiza os que idealizaram os pilares do governo americano. Nos tempos amargurados que vive a América, e cujo fel deu a provar por várias partes do mundo e em especial no Iraque, deve ser curador ter uma ideologia que recompõe uma ordem mais benfazeja para o mundo no passado histórico. Ouvi o pai de um dos sequestrados pelas FARC, o luso americano, anunciar o seu amor pela América, afirmando-a como uma grande nação, e entusiasmado com a celebração próxima do 4 de Julho na companhia do filho. Independentemente da América muito provavelmente não ter sequer contribuído com um parafuso para o caso de resgate, algo que um colega me diz para que eu não tenha quaisquer ilusões, pois os EUA estão metidos em qualquer assunto que diga respeito à América do Sul, mas independentemente disso, o discurso ainda do povo americano é o de fazer fé na América. Ora esta força não vem desta ou daquela administração, é um discurso profundo, social e histórico.
Nós, os portugueses, imaginemos um opositor desta política tipo "chuva de tolos", recorremos ao quê ou a quem para dirimir fraquezas? Quem fundou a nossa democracia? Foi há demasiado pouco tempo para os podermos fantasiar. Não não os respeitamos, porque os dizemos não serem veneráveis anciãos a começarem uma nova forma de governar contra um inimigo comum, mas jovens mancebos cheios de projectos políticos velhos, como ainda os enlameamos acusando-os de vendidos a capitais ou a ideias estrangeiras.
Maria de Medeiros bem procurou através do cinema reclamar a concentração no formoso (a palavra é catita) e excelente Salgueiro Maia, de uma ideia bela de revolução que satisfazesse as carpideiras de direita e os apaniguados de esquerda. Qual o quê! Preferimos enaltecer a dúvida na entrega aos ideais, denigrir os carácteres, seleccionar as figuras controversas, ao invés de nos concentrarmos na energia assombrosa dessas acções. Justificamos a hesitação em relação a 74 por causa de 75. Andamos sempre à procura de esfriar uma paixão, de a amesquinhar. Como a pessoa casada que tem vergonha do seu cônjuge, que lhe aponta o defeitinho com a elegância de uma cirurgiã, que esconde a sua errância no olhar cosnpícuo para com os outros de outro sexo.
Mas que raio, inventar a democracia não acontece a todas as civilizações, nós temos o quinto império. Eu preferia ter uma nação que embandeirasse com a criação de um governo "do povo para o povo e em nome do povo", mas o quinto império também não é de desprezar, não senhor. Não estou a brincar, embora esteja a sorrir.

Hoje houve flores para os mortos nos atentados de Londres. Eu penso também nos mortos iraquianos. É claro que deponho flores pelos mortos de Londres. É claro. E baixo a cabeça, e sinto a sua morte, e reclamo pela insensatez dos actos que provocaram o seu destino e tudo e tudo. Mas penso nos milhares e milhares e milhares e milhares de mortos a quem ninguém oferece flores em rituais públicos de mágoa. E Al Gore, bem haja, lembra-os, com um livro muito interessante.

quinta-feira, julho 03, 2008

"sinais"

"A libertação da ex-candidata à presidência colombiana e de outros reféns, na quarta-feira, são "boas notícias", indicou a AI num comunicado, acrescentando: "mas não podemos esquecer as outras centenas de reféns que permanecem detidos em diversos locais na Colômbia", in Jn

..

"As mãos que, após o toque da sineta, faziam girar a roda e acolhiam a criança exposta foram substituídas por um Estado que, como se viu em Portugal, deixa impunemente que as crianças sejam usadas e abusadas. A condição humana é imutável e a sua pseudo-sofisticação parece não ter resultado.
Prova disso mesmo está no recente relatório do Conselho da Europa sobre as novas Rodas ou as "Caixas de Bebés", que proliferam oficialmente em países europeus como a Suíça, Itália, Alemanha e Bélgica, nos Estados Unidos e, mais recentemente, no Japão. Aos argumentos contra, assentes no incitamento a práticas criminosas e à desresponsabilização dos progenitores que estas Caixas podem fomentar, surgem os argumentos a favor, da preservação da integridade física e da vida destas crianças. Acresce que as novas rodas acarretaram uma salutar alteração legislativa: criança deixada na Caixa é imediatamente registada e, decorrido um curto período em que os pais a podem reclamar, é entregue sem mais formalidades aos candidatos à adopção.
Este realismo lúcido confortou-me. Tanto, devo dizê-lo, como me tem inquietado a cartilha oficial do abandono, em Portugal. Muitas crianças, poucos sinais..."
Maria José Nogueira Pinto, OS SINAIS DOS EXPOSTOS in DN
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"Cientistas da Universidade de Ohio, nos Estados Unidos, descobriram como fortificar a planta da mandioca com vitaminas, minerais e proteína suficientes para dar aos pobres e subnutridos nutrientes suficientes para um dia inteiro em uma única refeição.
"Este é o mais ambicioso projeto de engenharia genética de vegetais já tentado", afirmou o chefe da equipe internacional, Richard Sayre, professor de biologia molecular e celular de vegetais da Universidade de Ohio. " in O Globo

quarta-feira, julho 02, 2008

terça-feira, julho 01, 2008

intervalo

As eleições servem para legitimar posições ideológicas no que à política económica e social diz respeito. Se alguém concorrer com o propósito de divulgar os méritos da teoria," não há interesse público" e convencer o seu eleitorado acerca desses méritos, o que há de errado? Em princípio nada, desde que as pessoas estejam na posse não só da definição precisa do que é enunciado através desse princípio, como também possuam conhecimentos da história e dos efeitos que teorias semelhantes terão trazido para a humanidade.
Porém, pode discutir-se sim, não só as vantagens gerais dessa teoria para um maior número de pessoas, tanto quanto o benefício que esses acontecimentos históricos que de alguma forma por esse princípio, ou análogo, foram produzidos trouxeram, e a quem os trouxeram. Maior foco de discussão deve concentrar-se na questão da forma como esse princípio foi divulgado. A mensagem era clara, perceptível e inequívoca ou vinha escamoteada numa forma de discurso que predisponha o auditório para a aceitação do que normalmente jamais aceitaria em nome de um qualquer receio ou esperança não racional?
Isto é, quando as pessoas escolhem uma posição ideológica fazem-no em nome do quê ou de quem? Que meios estão ao seu serviço ou ao serviço dos que querem deter o poder através da proposição de ideias e sentimentos? Reconhecem ou não o valor da honestidade intelectual presente nessas propostas?
Não deixa de ser deveras singular na nossa cultura, que quanto mais se discute politicamente a falência do estado social, sendo que a esquerda mais pragmática por aqui tem vindo a voltear, acabe por se querer retirar da política essa questão e passe para a esfera do direito. A ânsia de procurar uma garantia mais sólida, menos contextualizada e mais contínua (ainda que um estado de direito possa solidificar até a mais ditatorial das acções) do que aquela que resulta da legitimação democrática por sufrágio universal. Veja-se o esforço da jurista Catarina Albuquerque e da sua equipa em tornarem aceitável o conceito de vítimas lesadas nos seus direitos todos os seres humanos que não vejam respeitados os seus direitos sociais, económicos e culturais. Bom, a retórica que tem acompanhado os direitos que há muito estavam reconhecidos com um estatuto superior, os direitos civis e políticos, faz-nos compreender o caminho looongo que espera quem inicie uma queixa contra o seu estado pelos seus direitos sociais e económicos, mas na verdade este protocolo é uma forma de sitiar a política. Um pouco à semelhança do que faz o discurso da democracia no mundo político.

Mas volto à questão da ideologia, ou da moda das ideias. Na década de 80 a moda discursiva passava pela defesa da tese de que era necessário aos países criarem grandes conglomerados empresariais e comerciais para competiram melhor no mercado global - mesmo o economista John Kenneth Galbraith ia nesta linha apesar das suas preocupações sociais com os assuntos públicos. Há quem anda agarradinho a esta ideia ainda hoje. E é este um falso problema político? Sim, se deixar de ter como solução o interesse da comunidade à qual diz respeito.
..
p.s. Ouvi o agente responsável no caso Maddie falar sobre as suas dúvidas relativamente ao uso de um assessor de comunicação pelos pais da criança. Eu é que fiquei com dúvidas pela falta do uso de assessor de comunicação no caso da PJ. Não porque se precise de um técnico que controle a agenda dos Media a partir do interesse particular dos seus clientes, longe disso, mas por não terem ninguém que articule de forma acessível, profissional e rigorosa a mensagem de uma equipa de investigação criminal, no que há de interesse social nessa desordem da vida familiar que é o caso sempre, de horror palpável, de um qualquer desaparecimento, ademais de uma criança. Quem explica criminalmente o vazio da pequenina Madeleine? Pelo menos uma explicação convincente para as falhas e/ou incapacidades de fazerem prova.

segunda-feira, junho 30, 2008



Este título revela a impotência da Grã Bretanha quanto ao assunto em causa. Se soubesse como o mandar embora já o tinha feito há uns anos, se soubesse como proceder agora não se questionava sobre o método.
Na verdade depende mais da própria África saber responder a esta questão que os ingleses não deixam cair. Para bem do povo do Zimbabué é bom que a África do século XXI encontre depressa uma resposta politicamente legítima para resolver esta questão. Há quem acredite na força de orientação geral de exemplos de acção particulares. Uma espécie de directriz civilizacional. Eu acredito, obviamente. Não acredito em tom estridente, nem olho de esguelha quando o faço, nem aceno com nenhum livrinho, não evoco a expulsão de impuros da minha comunidade, mas não tenho dúvidas da defesa de princípios de governação que se baseiam na ideologia do bem comum.
É curioso que apesar de achar o livro já aqui citado de Al Gore como um livro oportunista (para que eu lhe rendesse homenagem sem reservas era preciso que ele tivesse publicado o livro uns três anos antes de o ter feito, pois quer a causa de reflexão quer o material que potencia a mesma já estava todo lá), não deixo de aplaudir a leitura da acção política de Bush. Um homem deveras inteligente a servir a sua ideologia dominante: "o interesse público" é coisa que não existe. E agora? Como se responde a esta filosofia de acção política?
Tenho para mim que muitos dirigentes do mundo, da esquerda à direita, entraram em processo de mimetizarem esta postura ideológica.
Do ponto de vista de uma sociedade fraterna é uma perversidade, do ponto de vista de certas elites é um lugar comum. E agora, como se fica?

quinta-feira, junho 26, 2008

Esta questão, a da natureza humana comum relacionada com a afirmação "We stand united on Sudan"

Séculos de discussão filosófica sobre o tema da (in)existência de uma natureza humana. Mais séculos virão que continuarão a desenvolver o problema. E no entanto há uma compreensão relativamente absoluta quando nos dizem coisas como: "Darfur - Our common humanity demands an urgent response."
Relativamente absoluta porque não deixa de ser uma perspectiva, relativa, sobre uma questão de direitos humanos, questão civilizacional, e absoluta por vontade política e social. A absoluta escolha de uma forma de vida no planeta e que passa pela defesa dos direitos e da necessidade de proteger o povo de Darfur.
Curioso o apontamento que nos dá conta que "The recent joint statement on Darfur from Senators Clinton, McCain, and Obama was historic—the first time since World War II that presidential rivals have come together on a foreign policy issue." Save Darfur Coalition
O que quererá dizer na prática que os concorrentes à presidência americana têm a mesma posição acerca do Darfur? Quanto tempo será o tempo deles de agir, diferido em relação ao tempo necessário para uma efectiva acção?
E quem atende aos outros fogos sociais no mundo?
E a questão da nossa criminalidade ou da pequena e generalizada traficância de valores? Acredito na hipótese social de inclusão dos delinquentes que habitam na minha comunidade ou considero--a uma irrecuperável forma de perdermos socialmente tempo e de gastarmos erário público com essas tentativas? Até que ponto estou disposta a considerar a má educação, a arrogância alarve, ou a agressividade um valor existencial da contemporânea natureza humana? É tão mais cómodo falar dos habitantes do Darfur e encontrar uma solução política/social do que daqueles habitantes portugueses que nos nossos bairros pululam encostados com o rabo nas paredes e encostando a família ao abono.
Sem pensar na cama de rede da ideologia social, e mesmo da assistência social, quem, na verdade, gosta do lugar social que ocupam? Se não fossem as ideias, às vezes como tudo seria mais difícil em política.
O meu filho leu em voz alta, "Olhei à volta e não vi nada. Nada de nada. Nadinha de nada." de um livro de Geronimo Stilton. Eu muitas vezes também fico assim, sem ver nadinha.. Ainda hoje.

quarta-feira, junho 25, 2008

Subscrevo. Só agora algumas almas estremecem de espasmo e nem sabem verdadeiramente da missa a metade.

"Exames ou o choro desvalido dos comentadores
No começo da regência do eng. Sócrates, logo na primeira reunião do directório ministerial da educação, Maria de Lurdes Rodrigues mostrou ao que vinha: tomar medidas economicistas para a tutela de acordo com o plano socrático de "mercearia" financeira para o controlo do défice, limitação do poder educacional dos docentes via novo Estatuto da Carreira Docente e restituir a "dignidade" estatística do sucesso escolar dos nossos educandos – para Europa ver – estimulando a quase "passagem administrativa" dos alunos. Tudo isso estava ligado e tinha de ser feito em conjunto. Durante a insigne reunião e nos tempos seguintes, não teve pejo em insultar e caluniar os docentes, as famílias, a comunidade educativa e alguns investigadores em história da educação. Tudo a bem da escola, dizia.
Poucos entenderam aonde tudo isso levava. A não ser os docentes, como excelentes profissionais que são, e alguns poucos investigadores (o poder atemoriza, sempre, tais vates) do ensino e educação em Portugal, poucos mais se podem orgulhar de ter levantado a voz contra o desastre que se avizinhava. Pelo contrário, muitos desses carpinteiros da educação, sempre em tom desconchavado, não só não entenderam criticar as medidas preconizadas como apoiaram a putativa luminosidade disso tudo. O "cantar de amigo" funciona sempre muito bem entre nós.
Com apoio do bloco central dos interesses – veja-se como engorda a privada à custa da destruição do ensino público, note-se quem são estão esses senhores e os amigos que os sustentam –, mais a tumultuosa horda liberal que declamou na ocasião sonetos lurdianos e outras frases de efeito mercantil e de uma mão-cheia de ressabiados da vida e da coisa pública que escrevinham nos jornais ou abancam no ISCTE (caso do anarquista reformado João Freire que veio à praça pública fazer o mise-en-scéne sociológico que nos habituou e outros que tricotam em blogues), a opinião pública e publicada embriagou-se de eduquês. As famílias, com o pai dos pais em notas de aplauso, adocicadas e sensibilizadas pelo espírito da dissertação de todos eles, aplaudiram.
E pouco importava se a subtil estratégia que Maria de Lurdes prosseguia e a gravidade que adquiria a hecatombe colocasse em causa a linha educacional pública do partido socialista. O desaforo volante do trio do ministério da educação foi tal, que alguns dos seus antigos gestores foram ignominiosamente insultados e arrastados para a lama pública, apodados, também, como culpados da péssima (de facto!) prestação do ensino e educação em Portugal. A estratégia seguida foi (é) de uma ingenuidade pasmosa. Primeiro avança-se com medidas avulsas, desgarradas (sem visão global) e a existir convulsões há que passar imediatamente para outra medida e assim sucessivamente. Criar factos políticos quando o alarido é exibido na comunicação social é, convenhamos, uma bravata pouco pedagógica mas, desde o que o prof. Marcelo entronizou tais episódios, poucos a não utilizam.
Assim, ao longo da lista de mazelas, chegamos agora ao debate curioso dos exames, da sua manifesta pouco qualidade e exigência, das suas consequências presentes e futuras. O tom, o azedume e a reprimenda da resposta de Lurdes Rodrigues aos castos comentadores e outrora adeptos do lindismo educacional da ministra, não se fizeram esperar. Habituem-se! Até porque, a partir de hoje (quarta-feira) e com a reunião do ministério com os conselhos executivos das escolas, novo facto político será declarado: a figura do director escolar. Suspeita-se que não há tempo mais para debates sobre os exames, que serão esquecidos, como tudo o resto anteriormente. A espuma, o choro e o letrismo dos ex-amigos da senhora ministra, obscenamente, mudará. O país e a educação não. A destruição é já total! E para ficar!" in blogue Almocreve das Petas

terça-feira, junho 24, 2008

insustentável/sustentável

"(...)
Acresce que a polemologia do milénio não conta apenas com o uso da força militar.

De facto o globalismo económico destacou a agressão económica como um instrumento estratégico da maior importância e perigosidade. Neste caso, a Europa está numa situação de vulnerabilidade aguda, como subitamente se tornou evidente com a crise dos combustíveis.

A expansão colonial do século XIX foi justificada pelas democracias europeias da frente atlântica, nos respectivos parlamentos, pela necessidade de dominar as fontes de matérias-primas e garantir mercados de produtos acabados. Destruído esse império, a realidade, demonstrada pelas manifestações que desfilam pelas capitais europeias, é que a Europa é um espaço com debilidades, carente de matérias-primas, carente de energia, carente de mão-de-obra, e começa a dar sinais de carência de confiança.

A globalização implica sistemas abertos que sofrem as intervenções cuja origem a lei da reflexividade situa nas antigas dependências coloniais, e os sinais de que a capacidade europeia de reformular e reanimar o sistema está em dificuldades são eloquentes. A falta actual de lideranças poderosas e confiáveis também não ajuda a inverter a tendência.

Os noticiários parecem mais empenhados em abordar os debates sobre as mudanças dos modelos de comportamento social, ou sobre os vários circos de entretenimento dos tempos livres, incluindo a agenda de tempos livres de líderes políticos, do que os debates cívicos e políticos sobre a relação da Europa com a circunstância que a envolve de maus augúrios e de más notícias.

A crise que traz multidões para a rua em protesto pelas dificuldades de vida causadas pela disfunção do sistema económico globalista, que foi instalado com oferecida abonação científica e pouca governança, não é amenizada pelo recurso a semânticas paliativas porque a pobreza crescente, o desemprego, e a fome, incitam ao exercício de direitos naturais pouco condescendentes. Esses direitos naturais exigem uma sociedade de confiança para que a contenção recíproca, necessária para assegurar a coexistência efectiva de todos, seja um regulador natural. A pouco amiga circunstância externa, exige uma sólida mobilização cívica a que a UNESCO de longe apela, para que a política retome o comando confiável e oriente o rumo para horizontes menos inquietantes. Por isso, a busca de um projecto de governança confiável não pode ser fixada e dramatizada na rejeição de uma proposta de Tratado, como se apenas houvesse para cada futuro uma visão de método sem alternativa. Também não é o prestígio dos proponentes do método de Lisboa que está em causa: continua a ser o futuro, muito mais difícil de prospectivar e harmonizar do que encontrar depois o método apropriado.

Uma escolha de método que, para respeitar a comunidade europeia de direito, e não agravar a fragilidade, também não pode aceitar transpor a avaliação do exercício do direito da Irlanda para o plano dos imperativos de uma coligação política maioritária."

A FRAGILIDADE EUROPEIA in DN
Adriano Moreira, professor universitário

segunda-feira, junho 23, 2008

Enquanto eu digo e não digo

Cito: "Quando o consentimento dos governados é fabricado e manipulado por operadores de marketing e propagandistas, a razão desempenha um papel diminuto". p. 157

domingo, junho 22, 2008

Entre um ataque de vírus, muitas horas de cuidado e um longo suspiro de alívio e de cansaço aqui fica

uma citação do livro que ando a ler ( e que se revelou uma agradável surpresa, apesar dos meus preconceitos sistemáticos contra o autor), livro que me ajudou a focalizar após alguns dias de nevoaça: "Tal como disse Alexander Hamilton no nº 73 do The Federalist, "Ter poder sobre o sustento de um indivíduo é ter poder sobre a sua vontade." in O ataque à razão, p. 71

Pergunto-me, quando é que se deixa de querer ter poder sobre a vontade dos indivíduos? Não parece a existência uma luta de vontades, muito mais do que um confronto de argumentos? É como se o comportamento infantilizado e infantilizador se mantivesse eterno na cabeça e atitude de muitos. Nesse virote que é a luta entre o domínio das vontades e a força de ganhar por discussão racional, é como se de facto não houvesse solução à vista. Uma creche imensa é como pode parecer um país.
E no entanto há aquela esplanada sobre Lisboa ao lado do Mercado do Loureiro, a subir para o castelo, onde o encontro entre a beleza e a luz nos redime de qualquer desgosto que nos andasse a abocanhar. Há o nosso lugar no canto do universo, e não estamos sozinhas. E nenhuma perda no campeonato de futebol abate o desafio da multiplicação da bandeira com a qual os bairros populares de Lisboa engalanam as suas ruas nas festas dos Santos. E volta-se a comer sardinhas maradas que nos dão volta ao estômago, numa esquina qualquer, e o fado faz-se ouvir, mesmo sofrível, mesmo desalmado, até que a voz nos doa a todos. Uma vez, e outra, e mais uma vez ainda.

domingo, junho 15, 2008

Certo. Mas que falsos problemas? 1

« La politique est l'art de généraliser les faux problèmes, de donner des faux objectifs et d'engager de faux débats », professait Jacques Ellul.



E ao invés de me interessar pelo dilema que o povo irlandês apresenta para resolução às cabecitas europeias em geral, e à do nosso Primeiro em especial, passei muitas horas do meu fim-de-semana a pensar em duas coisas: no sorriso forçado que se colou à cara da Senhora Nixon quando o seu marido publicita a sua candidatura ao cargo de Presidente dos EUA sem a consultar (que excelente documentário este "NIXON, O HOMEM QUE AMAVAM ODIAR") e em comida. A cada um os seus problemas.

quarta-feira, junho 11, 2008

Ética pública: ela existe e nós buscamo-la. Podia ser pior...

podia nem haver o esforço.


CLAD

A minha amiga venezuelana participou na reunião que houve em 2004 em Lisboa e declarou-me o seu interesse. Eu só soube disto hoje.

terça-feira, junho 10, 2008

Segredinhos 2

Mas as pessoas não podem escolher para funções da mais diversa ordem aquelas que pululam nos próprios grupos que constituem, e com quem tenham proximidade de interesses? Não é natural que assim seja?

Katz afirmou que uma pessoa influente sê-lo-á pela força de três formas de vida orientadores da sua existência: 1. Pelo que ela é (os valores que a estruturam); 2. Pelo que ela conhece; 3. Pelas relações sociais que estabelecer.

Convidada por uma amiga a ir falar do tema "Líderes de opinião política", na sua cadeira de agendamento, ouvi-a desabafar: “Até ele defende essa circunstância da vida como determinante?” Pois.
Os dados têm vindo a ser coincidentes desde a década de cinquenta: as pessoas mais influentes, aquelas que são ouvidas com atenção, apresentam como características determinantes a sua capacidade de se relacionarem em rede alargada, e desse factor vir a contribuir por sua vez para a manutenção dessa propensão.
Os conhecimentos contam. Mas porque é que contam? Por aquilo que se é e sabe, competências básicas que irão depois atrair e desenvolver a capacidade de manter ou procurar relacionamentos? Ou, pelos relacionamentos que a sua posição no grupo social lhe dá à nascença, ou por meio de favores, ou por ser o protegido de alguém que por sua vez é influente, que irão depois contribuir para a formação daquilo que se é e sabe? Há distinções no processo relativo ao modo de se aceder a um ou outro benefício dos relacionamentos que se têm, embora a conclusão se mantenha inalterável: aqueles que nós conhecemos dispõem de certa forma de nós, e condicionam-nos na ordem social.

Não é propriamente uma novidade. Nem tem que ser uma constatação sobre o poder de um padrinho que dá a bênção e proporciona a cunha. Eu expliquei que a competência social é um factor de avaliação como outro qualquer, e que não se é escolhido para as funções de liderar a opinião, por exemplo, por se ser aquele que alguém conhece, mas em primeiro lugar pelo que se é.

Mas então e num grupo coeso onde membros partilham dos mesmos ideais e pactuam para se promoverem mutuamente chegada a circunstância? Há algum malefício para a sociedade que eles se escolham e se projectem para a governação dos assuntos públicos? Não. Desde que possam ser avaliados pelo público e não se escudem nas escolhas inter pares.

Antes do jogo de futebol os dois aniversariantes puderam escolher as suas equipas. Quando chegou a hora de seleccionar o menino não hesitou, preferiu só os que considerava melhores jogadores e deixou alguns dos seus amigos serem trocados por outros meninos que não conhecia de lado nenhum. Um deles, amiguinho desde a infantil, gritava: “Escolhe-me a mim! Escolhe-me a mim!”
Desapontada com a atitude do pequeno seleccionador perguntei ao rapazinho mais tarde: “Achaste que foste um bom amigo?” Ao que o rapazinho respondeu: “Mas mamã, os meninos que eu não escolhi não sabem jogar futebol e com eles íamos perder de certeza.”
Amigo é amigo, e dever de anfitrião é sagrado, retorqui liminarmente. Pois. Mas então como fica a ideia de que qualquer escolha das pessoas deverá ser feita pelas suas competências para o lugar exigível e não pela força do seu relacionamento connosco? Que valores passam para uma criança a quem ensinamos que os amigos devem ser sempre escolhidos para as brincadeiras das quais somos os líderes? E como ensiná-lo pela vida fora a distinguir o que é uma brincadeira e não é?
Um dia uma grande amiga disse-me que nunca me escolheria para ministra de nenhum governo que ela pudesse constituir, durante um desses exercícios de experiência pensada a que nos entregávamos. Fez bem. Eu não partilhava com ela senão uma profunda amizade, pois em comum não tinhamos nenhuma ideia política. Magoei-me profundamente. Aprendi sobre a distância entre mim e a amizade por mim. Eu tê-la-ia escolhido, claro, porque a julgava capaz de desempenhar funções competentemente, apesar de tão distinta ideologicamente. Mas o caso é que a recusa dela me fez pensar na equivocidade de uma escolha que a mim me parecia inquestionável. Um progresso no aprofundamento das ligações.

Um cargo político não é um jogo de futebol entre crianças. Talvez não. Se eu tiver a oportunidade de escolher quem irá trabalhar comigo irei fazê-lo em nome de que valores?
Como deixar isto ao critério de cada um é assunto muito complexo para uma democracia, esperando-se pela incógnita que é a formação cívica e pessoal de cada um pode-se ter belas surpresas, o melhor é que as instituições elas próprias tenham os seus princípios de selecção e que no maior número possível de lugares públicos, inclusive as chefias, só se possa aceder por concurso público com regras claras e objectivas.
Ainda que no final a igualdade de oportunidades continue a ser um caso de "Um violino no telhado".

segunda-feira, junho 09, 2008

Os segredinhos 1

Segredos só se compreendem se forem íntimos ou sob pedido de quem os partilha connosco por razões de pudor ou de segurança pessoal ou colectiva, pois no que diz respeito a assuntos da esfera da vida pública nem os concebo.
Andam a moer-me há dias umas declarações, publicadas em jornal, de certas personalidades identificadas como membros da maçonaria sobre o desvalor de um governo que não terá, supostamente, convidado nenhum dos seus membros para ministro. Incomodou-me o tom de intimação de uma frase, que, a ser verdade como princípio da organização e não uma mera leviandade de certos alguém que gostam de brincar em idade adulta à aventura dos cinco, é uma ameaça ao poder da democracia; li, então, em excerto de uma conversa gravada, que este governo iria sofrer grandes dificuldades em paga dessa omissão selectiva para com a organização propriamente dita. Poderia discutir aqui a questão das escutas em Portugal e ainda mais o problema relacionado com a sua publicitação, mas agora só vou discutir o conteúdo daquelas conversas publicadas.

Vamos lá ver, eu até acho que este governo nos dá razões de sobra para que lhe criemos dificuldades: é um governo inchado de presunção, cujo grande erro de “casting” começa logo por ser o primeiro-ministro. Eu disse-o naquele Verão, poucos meses depois da eleição legislativa, quando Campos e Cunha foi afastado após uma entrevista dada a um jornal, por já suspeitar, depois do discurso de tomada de posse que tanto aplauso mereceu então, que vinha aí um governo dirigido por um justiceiro com o mando de um regente de banda. E não comecei por ser contra o pragmatismo das ideias, era mesmo contra a forma de transmitir essas ideias.

Então ainda em férias, eu tive o primeiro desapontamento com um governo que eu própria ajudara a legitimar, e que mesmo durante esse período não deixei de seguir com preocupação. Seguiram-se outros momentos, com outros ministros a procederem pelo mesmo diapasão discursivo e de atitude no trato público, tal qual o seu líder. Deviam receber um prémio no ordenado do fim do mês se fossem discursivamente umas cópias, ou coisa que o valha.

Quando em Novembro de 2005 colegas e amigos, fascinados com a atitude pragmática de um ministro que entrou numa roda viva de reformas, me questionaram sobre a minha previsão eleitoral para 2009, eu disse-lhes que o sistema social não ia aguentar tanta pressão, sobretudo porque o discurso do primeiro ministro não era nacionalmente motivador, não instigava a sociedade a fazer uma inflexão profunda nos seus hábitos de produção e de vida de forma coesa, mas apostara nas rivalidades das classes profissionais entre si e criando divisões entre estas e a população que deviam servir, e tudo para fazer passar uma mensagem em que se estava a utilizar mal o modo e o tom. Mais tarde acrescentou-se ao tom desfasado a verdade desfasada. O que agravou a situação do governo. Avisei então para um sobreaquecimento da opinião e para um crescente afastamento dos eleitores do governo e do PS. Nunca quis ter razão. Nem sei se as eleições confirmarão esta previsão. Pouco me importa. Era uma intuição.

Um governo que tinha uma opinião pública bem preparada pelos media sobre a gravidade da situação no défice quando começou a governar e um povo convencido da inevitabilidade das medidas duras que aí vinham, só tinha que respeitar para ser respeitado, e para cumprir o seu dever para com uma população preparada para ver limitados ou suspendidos os seus direitos.
Se houvesse claramente intenções de mudar estruturas ao invés de actuar forte e feio nas conjunturas, era isso que tinha que acontecido. Mas não, era psicologicamente impossível a certos ministros, da cultura à agricultura, da saúde à educação, da economia ao ambiente, dos assuntos parlamentares ao das obras públicas, da defesa nacional à justiça não porem o dedinho em riste e desmandarem em “tal gente”, como parece ser o modo de existir do mestre Sócrates, o da filamórnica. Erraram.

Todavia, dito aquilo, também afirmo que o governo não deve ser atrapalhado por grupos de pressão que se apresentem como parceiros de poder mas sem se predisporem a fiscalização pública e sem qualquer legitimidade democrática, no seu método ou nas suas intenções de condicionarem o comportamento do governo. Não há, nem pode haver, viveiros privilegiados a criarem os funcionários para o governo da nação, a não ser os que publicamente dão conta da sua acção, em universidades, empresas ou serviços, em formas de vida partilhadas.
Que nenhuma instituição se julgue acima da liberdade de escolha popular assente, preferencialmente, em prova por serviço público e publicitado. E aí o primeiro-ministro pode e deve escolher quem entender, sem medo das acções de cortesãos socialmente bem relacionados a desejarem manipulá-lo.

domingo, junho 08, 2008

Uma questão de paixão

A editora Guimarães dedicou todo um pavilhão a Agustina Bessa Luís, a grande. Lindo!

A ideia é maravilhosa, mas a execução é horrível. Os muitos livros que a escritora publicou não chegam para atapetar toda a área do stand, que expõe assim as fragilidades estéticas da estrutura. Eu julgo que seria melhor ter optado pela profusão, pelo sentimento barroco, de expor em séries repetidas os volumes de Agustina até encher as bancadas e os expositores. As dezenas de livros de Agustina a replicarem-se em centenas e até em milhares como uma biblioteca de vertigem. Tal como está, a bela ideia mais parece uma cópia daqueles bazares de fim de feira, em que a quermesse resume-se a meia dúzia de objectos que deixam à vista o papel de decoração baratito e mal cortado, os papelotes das rifas a desmancharem-se, as luzes a piscarem em curto-circuitos, tudo num ambiente de certa desolação de alma.

Salvou-se a inexcedível boa vontade do velho senhor que nos atendeu, ainda a frase da autora em azul a falar do azul que decora a área, e a entrega final de mercadores de livros a apelarem à nossa atenção para a Birmânia.

Gosto deste tipo activo de publicitação: eu mostro-lhe que vendo um livro, por exemplo este Do outro lado do mundo, de laura Vasconcellos, e você pode ainda consultar o site burma campaign e apoiá-los nas suas iniciativas contra o governo de Myanmar. Pague um livro e leve duas coisas para fazer. Eu gosto. Mas eu já se sabe!

A paixão por Agustina devia ter-se mostrado absoluta, avassaladora na sua manifestação. Tal como está, está… benzinho. Parece mais um gesto de amor de um homem casado e acomodado à segurança que a presença da sua senhora lhe dá.
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Qual é o editor no mundo que não cobriria de homenagem, sobre homenagem, sobre homenagem, esta obra?

Assim como assim, prefiro a ideia editorial de exposição de livros da Guimarães à da Leya. Esta última parece-me um bebé birrento a espernear no meio da feira.
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Comprei os seguintes livros de Agustina: As chamas e as almas (não conheço essas obras da década de setenta e que falam desse tempo de pós revolução, agora aqui reunidas neste volume), Ordens menores e Contemplação Carinhosa da Angústia.

quarta-feira, junho 04, 2008

Aprendi que sim, porque não?


Há duas noites, entretida que estava a iniciar uma viagem para casa e a fazer uma inversão de marcha numa rua da cidade, ouço na rádio proferir o nome Heliodoro Salgado. A antena que estava a ouvir nessa hora era ocasionalmente a Antena 2.
Mudo de frequência de rádio mais vezes do que mudo de camisa.
Mais do que na televisão, a cuja imagem me rendo muitas vezes de forma passiva dando-lhe a subliminar ordem: entretém-me, na rádio procuro activamente o que me convém em cada minuto dos meus percursos motorizados.
Às vezes, sobretudo ao fim-de-semana em que se desfiam relatos atrás de relatos, ou de comentários desportivos sobre comentários desportivos, não encontro quase nada que me diga nada, nos outros dias tenho tido sorte. O género musical certo para o humor do momento, as palavras que me interessam ou que me intrigam ao ponto de ensurdecer para a realidade exterior, enfim. Só pode ser sorte que o acaso dos momentos e da sintonização baseada na impressão circunstancial me dê felizes ocorrências. Por exemplo: ouvir falar de Heliodoro Salgado no preciso momento em que inicio uma viagem nessa rua. É claro que a repetição do nome, pelo autor do programa no decorrer do mesmo, aumenta a probabilidade de mais pessoas estarem a passarem, em momentos diferentes, e pensarem: Olha, cá estou eu, e cá está a rua com uma placa a homenagear um dito cujo, da existência do qual se está agora mesmo a falar aqui na rádio.
Sobretudo se alguma dessas pessoas nessa rua tivesse morado, com uma casita sobre o miradouro a espreitar a cidade.
Não há nada de metafísico, mas há um momento de simpatia.

E ontem, ainda com o sortilégio da noite anterior nas ondas do ar, ouvi falar de um livro que me pareceu ser interessante o Uma janela para o infinito, mas o que me fez continuar a ouvir, já depois de ter chegado ao lugar por debaixo da minha janela, foi a entrevista dada pelo autor, um matemático e escritor francês. A certa altura o entrevistador pergunta-lhe sobre a importância da matemática, sobre o lugar da matemática na vida das pessoas, e eu, que esperava ouvir os clichés sobre a importância da matemática para a formação da pessoa profissionalizada contemporânea, e bla bla, ouço, ao invés, alguém dizer que não é importante não se gostar de matemática, que é possível dela gostar tanto quanto não se gostar, e que daí não advém particularmente nenhum mal, pois não é essencial para a vida que se goste de matemática, pese embora a vida dele de amante da matemática lhe seja muito querida. Tudo isto dito num tom sereno, nem panfletário, nem cínico ou sequer irónico. Um curador de paixões.
Não foi tanto a liberalidade valorativa do autor para com o objecto da sua paixão e pesquisa, foi antes a minha percepção de algo que me causa mal-estar acerca de uma certa postura na discussão de ideias em Portugal que nos leva (a mim seguramente me leva) a cruzar armas constantemente, de pôr sal em feridas, por uma dama: a nossa. Agora, eu que muitas vezes devo parecer uma cruzada em terra de infiéis a lutar contra um qualquer dragão quando dou aulas, envergonhei-me.
Gostar de Cantor não é expô-lo em praça pública para que todos lhe rendam a mesmíssima e obrigatória homenagem, como a que lhe é prestada por quem dele gosta. É antes dá-lo a conhecer, dizer como é, e depois não ser arrivista, deixar gostar dele quem gosta com amesma naturalidade com que se deixa não gostar. Assim, simplesmente em liberdade.
Falei de Cantor por causa do autor Denis Guedj. Podia dar qualquer outro exemplo. Certo, Isabel?

terça-feira, junho 03, 2008

O (nosso?) lugar nesta história

leio na blogosfera:
"Manuela Ferreira Leite, nesta sua comédia doméstica, não foi mais que um Sócrates em "tailler" e sob medida. Não tendo uma única ideia sobre a crise económica em curso (que aliás não entende nem pode entender), esquivando-se a qualquer proposta de estratégia política (assunto que sempre lhe tolheu a mente), sem fazer circular qualquer ideologia (social-democrata ou liberal) que agregue espíritos e vontades, Ferreira Leite apresentou o pregão eleitoral que as corporações e os interesses instalados no seu partido esperavam: discurso claro para chegar às "migalhas" que o poder político (por ora socialista) generosamente distribui entre os seus. O "bloco central" (clientela PS+PSD) dos interesses corporativos foi bem ensaiado e está a chegar. Até mesmo o sábio Cavaco, em ânsia inédita, a isso se referiu em doce pastiche. Ao que parece a profecia de Sá Carneiro está prestes a cumprir-se: "uma maioria, um governo e um presidente".
(...)
É só esperar para ver o que Ferreira Leite dirá das avultadas medidas anti-sociais que o eng. Sócrates e os seus boys tomam na economia, na saúde, na educação, na justiça, para ver a hipocrisia disso tudo. Até se entender que, mais que fazer frente a uma situação económica e social caótica (que seria um exercício académico respeitável), se promove a guarda do "rebanho" para o futuro e pavoroso bloco central em 2009. Até lá, não há milagre que nos salve. Que vos salve!"
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"Um é socialista democrático da ala direita do PS que gostaria de ser semelhante a Blair, quando estamos no tempo de Gordon Brown poder ser derrotado pelos conservadores, com uma Europa marcada por Sarkosy e Berlusconi. A outra, encostou-se a intervenções semanais na Rádio Renascença que não ficaram registadas em papel de jornal e não podem ser objecto de pesquisa no Google, pelo que tem sempre na memória os dossiers do Estado que lhe vieram de ser Directora-Geral da Contabilidade e dirigente do Instituto de Participações do Estado, por onde também andou Guterres."
Adelino Maltez no blogue "Sobre o Tempo que passa"
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"O nosso situacionismo, onde volta a dominar o conflito entre o partido dos funcionários e o partido dos fidalgos, como nas rixas de Campo de Ourique de 1803, não repara que falta um adequado partido dos trabalhadores e dos criadores de riqueza, pela mão de obra, pela cabecinha ou pela organização empresarial. Os defensores da feudalidade ou da mera tecnocracia estadual não deixam espaço para os sonhadores do novo reino e do melhor regime, nem que seja o império do espírito, do poder dos sem poder, para podermos coroar as criancinhas. Agostinho da Silva nunca percebeu nada de finanças públicas. O passado e o presente esmagam as saudades de futuro."
Adelino Maltez no blogue Sobre o Tempo que Passa

"Elogio ao amor"

Uma aluna enviou-me este texto por e-mail do prodigioso articulista Miguel Esteves Cardoso. Não sei quando foi escrito, só sei que vou buscar a minha satisfação profissional na atitude que os meus alunos revelam dentro e fora da minha sala de aula. E a escolha que a Cidalina fez deste texto deixa-me feliz.
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ELOGIO AO AMOR - Miguel Esteves Cardoso in Expresso
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Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática.Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões.
O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá tudo bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona?
Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma coisa, a vida é outra.
O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima.
O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal.
Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.
Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.A vida é uma coisa, o amor é outra.
A vida dura a vida inteira, o amor não."

domingo, junho 01, 2008

E a guerra dos pavilhões Leya pariu... uma ideia quadrada.

Porque o grupo Leya fez tanto barulho pela originalidade e pela individualidade na feira do livro é que eu não percebo. Tanto alarido e depois saem-se com aquilo!

Não tomei partido na questão que opunha a Leya à APEL aqui há umas semanas. Pensei esperar, ver, para depois tomar a minha decisão. Pois se o editor não estava a cometer nenhuma ilegalidade, então só podia restar um juízo estético, já que fazer daquilo um caso político de conflito entre a esquerda e a direita é carregar de naftalina o discurso.

Hoje, dia mundial da criança, bom pretexto para ir à feira. Entremos pois na área da Leya. Como? É isto?! Foi por isto?!


Vamos lá ver, as pobres editoras que fazem parte do grupo ficaram num quadrado que toma como centro as caixas registadoras, e por sua vez os livros estão fechados noutros quadrados: as caixas. Não só são pavilhões feios, o que seria de somenos para o objectivo do capital, como não permitem a fluidez de circulação. Mais de cinco pessoas dentro das "caixas" já é uma multidão a acotovelar-se e a tapar os livros expostos. Acanhados.
Espaço feio, fortaleza a enclausurar-se, previsível. Uma concepção de espaço medieval se comparada com a abertura, a linearidade, a geometria de espaço que os outros velhos pavilhões oferecem.
Se aquele espaço Leya é o melhor que o dinheiro e a criatividade individual dão como venda de livros... então não sei com que arquitectos o capitalismo português anda a falar! E isso é muito preocupante, porque se o dinheiro é privado já aquele espaço é público. Se fosse no jardim do editor, pronto, era lá com ele e com a dita câmara do lugar, agora, é aquela a ideia para o urbanismo de alguns dos detentores de riqueza?

Fiquei com uma pena dos diabos pelos livros expostos, e pelo nome das editoras que reconheço de sempre e que ali se anulavam entre si de tanto as querem a fazer forçada combinação.

Eu comprei a biografia literária de O`Oneill, editado pela D. Quixote, num dos feios caixotes. Talvez seja só isso que conte para o vendedor. Ou talvez não. Para mim, consumidora, decididamente, não.

sexta-feira, maio 30, 2008

Quando leio uma notícia como esta, o meu cérebro vai a correr procurar fôlego em outras, como esta cuja referência me chegou via Nuno Rogeiro no seu artigo desta semana na Sábado.

quinta-feira, maio 29, 2008

propaganda política, diz ele

A propósito do livro de Scott McClellan sobre a administração Bush fica aqui este artigo ao qual cheguei via Drudge report. A questão permanecerá durante muitas décadas: o que estava o jornalismo americano a fazer na altura? A tentar dar cabo da sua função de apresentar factos e de questionar os que lhes são apresentados como produzidos?

comunicação política

Por via do blogue Insomnie cheguei a este interessante artigo "Political Hyperlinking in South Korea: Technical Indicators of Ideology and Content" de
Han Woo Park, Mike Thelwall and Randolph Kluver da YeungNam University, University of Wolverhampton; Nanyang Technological University e também a este, mais generalista, The Internet Effect on News.

Pacheco Pereira no seu artigo desta semana da revista Sábado chama também a atenção, numa atitude que já lhe é conhecida, para os efeitos perniciosos do cruzamento entre a actividade do jornalista e a sua exposição pessoal em blogues, numa encruzilhada de interesses que deixam aquém a mera consideração da qualidade do trabalho prestado. O poder da Web na nossa maneira ainda caseira de a investigar.

Às vezes é verdade que aquilo que arde também cura

Na realidade o que eu sou capaz de dizer sem uma análise criteriosa da fonte, ou sobre a análise crítica que está na origem da formação da crença que demonstro, tem vindo a começar a mostrar-se-me como factor de obscurecimento de mim para mim própria.

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Vem esta conversa a propósito de uma informação que me fez passar num instante da atenção distraída que estava a dedicar uma noite destas ao programa do último Daily Show de Jon Stuart exibido na televisão portuguesa, a um pico de atenção. Brincava-se com as notícias e as imagens recolhidas aquando das reacções à passagem da tocha olímpica em França por parte dos defensores dos direitos do povo tibetano, sobretudo ironizava-se com o facto do atleta ter entrado dentro de um autocarro rodeado de seguranças e com a dita tocha… apagada!
A dada altura Stuart galhofa ainda mais e declara que realmente é muito preocupante em termos civilizacionais andar a investir contra um ritual que tem como patrono, veja-se bem, esse campeão da humanidade, e líder político que propiciou a união pacífica entre os povos, e que se dá pelo nome de Hitler.

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Ora eu, que tomei o símbolo pelo seu valor clássico e assumi, erradamente, a marcha por estafetas do transporte da tocha como algo que o comité olímpico contemporâneo teria recuperado da tradição, fiquei em desequilíbrio argumentativo. Afinal tinha invectivado as resistências tibetanas por escolherem reagir contra um símbolo de pacificação entre os povos, quando este era uma invenção moderna de um propagandista mor da ideologia nazi. Realmente a estética pensada por Carl Diem, fiquei agora a saber, servia propósitos de divulgação do ideário estético e ideológico totalitário. Espavento!

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Depois pensei que sendo certo que a origem histórica da cerimónia do transporte da tocha não é politica e eticamente correcta, também não deixou de se transformar num símbolo ético universal. Quer-me parecer que é como se a chama pudesse soerguer-se dos interesses privados de um regime e estabelecer uma ideia para além das intenções propagandísticas iniciais desse mesmo terrível estado, um pouco à semelhança daquela inesperada amizade entre iguais que se respeitam para além dos interesses políticos, como a ligação de Owens e Long. E essa transcendência das circunstâncias fá-lo, ao símbolo, uma representação da humanidade, e reitero o que escrevi antes: pode servir de bandeira a questionáveis conveniências ideológicas, mas também as supera, e na conta final parece-me que qualquer resistência social contra ditaduras ou governos autoritários ganha mais em deixar acesa aquela chama.

Mal explicada a analogia, mas avanço para ela: para mim é como a questão de não querendo verdadeiramente importar-me com a sobrevivência dos actuais partidos políticos portugueses, estando pouco interessada em quem vai ganhar as próximas eleições, e destacando apenas nos partidos, com consideração, as pessoas ou as ideias que avalio como excelentes no meu quadro interpretativo desta experiência que é a minha vida em sociedade, não poder deixar de os pensar como instrumentos que numa democracia são mais um factor de organização e de serviço à pátria do que meios para a auto-satisfação de egos. Enfim.
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E no meu quadro de intrepretação só entram governantes que saibam ter do exercício do seu poder uma ideia de exclusivo e absoluto serviço público à população que os elege, e isto é mais do que fazer dizer que se está a cumprir um programa sufragado por maioria absoluta, pois é saber da realidade diariamente, corrigindo um programa não ao serviço das flutuações discursivas históricas, mas ao serviço das necessidades históricas de cada povo. Porque se o discurso político fala para o futuro, para o possível, como deve ser, a sua acção é sentida no presente, e é para este que há que ter a sensibilidade e a humildade de desejar compreender, alterando estratégias, procurando soluções.
Se governar for investir o governante de um poder iluminado, qualquer que seja a sua proveniência partidária, então despeçamo-nos da necessidade/possibilidade de aprofundar o regime democrático.

quarta-feira, maio 28, 2008

Só hoje li o suplemento de economia do Expresso. Retirei logo de manhã, para benefício dos meus alunos, o artigo sobre as piores crises em Portugal, para lhes contextualizar o tom arrastado dos discursos contínuos da crise que não esta pela qual estamos a passar, e porque os sinto seduzidos por uma argumentação catastrófica. Convencida que estou que é sobretudo com a circulação de informação e pela posse de conhecimento que poderemos alterar crenças e atitudes.
Mas depois passei ao artigo de Nicolau Santos e fiquei mentalmente emparedada com esta conclusão: "Ou seja, acabou a comida barata, a energia barata, os combustíveis baratos ou a água barata. Por outras palavras: bens democráticos, a que a generalidade dos cidadãos tinha acesso, como a água, pão, electricidade, gasolina ou gasóleo estão a tornar-se bens de luxo ou quase, a que cada vez terão mais dificuldade de acesso as classes médias e de menores rendimentos.

As razões são várias, mas a mais decisiva é que a subida vertiginosa dos preços do petróleo e a ascensão de milhões de cidadãos dos países emergentes a níveis de vida que nunca tiveram antes está a produzir uma enorme transferência planetária de riqueza, estimada anualmente em três biliões de dólares, da Europa e Estados Unidos para a Ásia, África e América Latina.

As consequências também serão várias - e todas elas potencialmente explosivas, porque a fome, a sede e a miséria não são boas conselheiras. A primeira é que a possibilidade de violentas convulsões sociais, com impactos fortíssimos a nível político e mesmo riscos para os sistemas democráticos é fortíssima. A segunda é que, à luz da História, situações destas acabam por resolver-se através de conflitos bélicos mundiais, que dizimam milhões de pessoas e reequilibram as condições de vida no planeta. 210 anos depois, Thomas Malthus volta a estar na moda." in Expresso, p. 5.
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Nem o excelente, uma vez mais, artigo de Baptista-Bastos "O hediondo sorriso" no DN, nem o apelativo artigo de Rui Tavares, "o ano da desigualdade" no Público, conseguiram fazer-me recuperar do torpor. Torpor este que se sentiu coadjuvado por notícias como as que dão conta de abusos de crianças por forças dos capacetes azuis. Isto é o que dá os países ocidentais falarem de direitos humanos e de protecção mas depois não corresponderem com os seus próprios militares, deixam a porta a aberta para que países sem respeito por direitos civis e políticos enviem em massa os seus exércitos a troco de dólares, deixando a organização nas suas mãos.
E depois, eu que até me tinha rido com a boa ironia do artigo "Só ares" de João Paulo Guerra no Diário Económico, fiquei sem conseguir pensar: é que a teoria da necessidade de morte de milhões de pessoas para reequilibrar os sistemas sociais não é uma teoria só hedionda, é defendida por muitos e poderosos governantes que se definem como realistas. É transformar o horrível em facto natural da vida em sociedade. Espero que não seja nenhuma profecia auto-realizável; que este discurso não venha preparar-nos mentalmente para aceitarmos acções que conduzam a tal desfecho na história.

domingo, maio 25, 2008

Churchill:uma leitura 6

Leio Alberto Gonçalves dizer a Ana Gomes: "Primeiro, a dra. Ana Gomes acusa-me de "desvalorizar o sofrimento dos birmaneses". Decerto deixou-se influenciar pelo meu escasso optimismo. É compreensível. Dado que não alimento crenças na bondade panfletária, não atafulhei o texto com invocações de esperança ou lamentos de pesar. Porém, juro: se me garantissem que cada palavra indignada salvaria a vida de um birmanês e abalaria aquele tenebroso regime, eu preencheria mil páginas com gritos de "Basta!". Por incrível que pareça, também a mim me ofende a dor alheia. Não acho é que confessar a ofensa de dez em dez minutos ajude alguém."
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Faço um grande sorriso à ideia que critica a "bondade panfletária" e uma careta à ideia de que cada palavra indignada nada fará. Mas, esgares à parte, era aqui que podia começar uma proveitosa discussão: podem ou não os discursos de pessoas figuras públicas dispor da realidade reproduzindo-lhe os seus valores?
A minha posição é que se as palavras não arrastassem uma prática atrás de si, então também nunca teríamos tido sucesso com a implementação dos direitos civis e políticos em escala globalizada.
Nestas coisas dos valores democráticos, a realidade antes de o ser já o era em discurso. Mas o discurso que não é o do poder que legisla ou executa, mas tem pretensões a ser normativo, tem esta desvantagem, arrasta atrás de si a ideia de impotência lírica, de vazio argumentativo e até de impudência para com a dor dos acontecimentos presentes. É verdade. O equilíbrio... o equilíbrio entre as palavras da convicção e da luta por uma realidade pensada e a realidade ela mesma apresentada por outra linguagem ou por outro acontecimento que em tudo dominam a primeira, não é uma tarefa clara. Quem dera que soubéssemos sempre que a nossa teoria ou crença ou palavra era mais próxima da verdade. Que de alguma forma o que pensamos é mais próprio para o bem estar da comunidade ou que as ideias que escolhemos e as pessoas em quem votamos são as que podem solucionar melhor os problemas de insegurança, de falta de objectivos sociais, de protecção das pessoas e do seu território. Quem dera!
Conquanto que entre nada dizer e continuar a dizer há ainda um espaço para a filosofia política. Eu gostava realmente de saber qual era a filosofia política dos nossos governantes.
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Sem querer incensar a figura de Churchill, algo a que psicologicamente me vejo até limitada em fazê-lo, pois não compreendo como se pode ter paralelo entre essa admiração que se tem por uma obra artística ou filosófica, e de que eu sou definitivamente capaz, com a admiração pela acção de um homem público, que dificilmente deixará que momentos da sua vida não obscureçam a existência de outros, mas, sem soçobrar à sua influência, registo com satisfação, o conjunto de questões que contêm a sua filosofia política. E disto, destas questões, eu tenho saudades, e destas palavras eu sei que decorrem estados civilizacionais que não se comparam em luta contra o sofrimento social com nenhum outro sistema de governação:
"Com o governo actual há o direito de livre expressão e de crítica?
Tem o povo o direito de derrubar um governo que desaprovam, e estão estabelecidos meios constitucionais por meio dos quais possam expressar a sua opinião?
Os seus tribunais de justiça estão isentos de violência por parte do pode executivo e de formas de violência por grupos de pressão, e de qualquer forma de associação com partidos políticos?
Esses tribunais administram leis abertas e bem estabelecidas, associadas, pelo espírito humano, com amplos princípios de decência e justiça?
Serão justos tanto para os pobres como para os ricos, tanto para as pessoas particulares como para os funcionários governamentais?
Serão os direitos dos indivíduos, obrigados a cumprir os seus deveres para com o Estado, mantidos, afirmados e exaltados?
Está o vulgar camponês ou trabalhador, que ganha a sua vida com esforço diário e que tenta criar uma família, livre do medo de que qualquer cruel organização policial, sob o controlo de um único partido como a Gestapo, inaugurado pelos partidos nazi e fascista, lhe bata no ombro e o meta na prisão sem um julgamento justo e aberto e o condene à escravidão e à tortura?" pp.575-576.
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Cada conceito destes pode merecer discussão. Eu sei. Mas há uma ideia de sociedade. São palavras que eu reconheço como propiciadoras de realidade civilizacional.
Porque será que eu as reconheço assim?

quinta-feira, maio 22, 2008

Todos os meios são bons se para uma boa causa?

Pode-se mentir para provocar uma intervenção militar que reequilibre as forças em conflito?

Pode-se divulgar impunemente imagens de pessoas a correrem atrás de um camião de uma ONG que clandestinamente põe os seus voluntários a atirarem comida enquanto prosseguem em grande velocidade com vista a provocar uma reacção emocional nas populações mundiais a favor de uma intervenção?


Em tudo de acordo com as palavras do ministro francês dos negócios estrangeiros, mas sei de formas pouco honrosas utilizadas por ele no passado para, na prática, fazer concentrar a atenção mundial sobre as suas causas.
Não é só uma questão de não querer sujar as mãos da minha parte? Ou de estar sentada comodamente no meu gabinete enquanto a realidade sobre a qual se fala é outra, exigindo medidas menos virtuosas ou procedimentos menos legais, em nome da protecção da vida?
Penso que é antes uma questão de salvaguarda da verdade e de coerência das coisas como elas são, e sendo-o já suficientemente más, independentemente dos estrategemas comunicacionais que para elas se arranjem, como tal devem ser vistas e analisadas, e como tal se deve proceder à necessidade de intervenção. Não é preciso encenar o mal, ele já fala por si de forma suficientemente audível.
E a ONU é mesmo covarde, quando a alguns países lhe dá jeito tê-la assim.

quarta-feira, maio 21, 2008

Devia ter começado o dia por respirar este ar para ter um acordar melhor : "(...) Vivemos, desde a década de 80, um novo período de sufocação, que se manifesta em vários sectores: desemprego, emigração, esvaziamento ideológico e ausência da política, economia, justiça, cultura, educação. Há, hoje, dificuldade em escolher o que se julga ser o lado certo onde se deve estar. E essa dificuldade serve de pretexto para as mais vis renúncias, e de condescendência para com sórdidas traições.

Inculcaram-nos a ideia de que Portugal é inviável e de que somos um povo de madraços. Como já poucos lêem o que deve ser lido, a afirmação fez fé. Mas não corresponde à verdade. Recomendo aos meus dilectos alguns autores antagonistas da absurda tese: Vitorino de Magalhães Godinho, José Mattoso, Luís de Albuquerque, António Borges Coelho e, até, António José Saraiva. Todos interpelam o País, criticam-no porque o amam, e ensinam-nos que o passado altera-se de todas as vezes que o lemos e interrogamos.

O lado certo está, creio-o bem, quando recusamos a indiferença e não admitimos a resignação."
Baptista-Bastos, escritor e jornalista no DN
b.bastos@netcabo.pt
Não é que não tenha assunto, ou vontade de desenvolver um ou outro tema que me anda a importunar, mas não consigo. Nem é o excesso de leituras ou de compromissos profissionais, parece-me que é mais algo parecido com o sentimento de Sísifo quando está a descer a montanha, qualquer coisa entre a impotência e a lucidez sobre a causa dessa impotência.
Ou era aquela referência mitológica ou era a palavra "malhadiço" que eu podia escolher para exemplificar esta apatia. É uma palavra que descreve o governo e o povo que é governado deste país. Estamos todos a ficar malhadiços. Um malhadiço com outro se paga.

sexta-feira, maio 16, 2008

Leio um livro para crianças com uma história que começa assim: "Toda a gente sabe que há sonhos que nunca se realizam". Pasmei. Ai sim?!
Alguém se esqueceu de escrever isto na minha infância e eu esqueci-me de acreditar. Vou sempre a tempo, claro. Acho que chamam a isto o princípio da realidade. Eu chamo o princípio da queda do imaginário.


Agora, agora no preciso momento em que escrevi "imaginário" lembrei-me daquele livro de Bachelard. Há que tempos que não me lembrava de Bachelard. Estou cheia de saudades desse livro que emprestei e que nunca mais recebi de volta: L`eau et les rêves. Que saudades!Trabalhei o texto para a cadeira de Cultura Clássica a propósito do Mito de Narciso em Ovídeo. Sobressaltos estéticos.
"-Boa noite, senhor Bachelard."

quinta-feira, maio 15, 2008

"cartas a uma ditadura"

Um bom documentário. Gostei muito. Mas sai-se a pensar onde é que os líderes democratas falharam, pois que não conseguiram criar um imaginário tão poderoso, ou mais ainda, como o do fascismo, e que tivesse sido capaz de reunir em defesa das suas ideias a força de todas aquelas senhoras num pós vinte e cinco de Abril.
Não temos a certeza que sejam atavismos sociais pela sua parte ou antes uma defesa pessoal, caminhando para os lugares de conforto que conheciam e onde ideias grandiosas as embalavam, mesmo se ideias pseudo grandiosas. Repare-se como há uma senhora que revela a sua vontade de sempre ter crido que estava destinada a fazer algo pela pátria; como essa concepção é fecunda para o seu imaginário político.
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A democracia portuguesa envergonhou-se desse sentimento (a bandeira, entendida como apelo emocional e identificativo de um desejo e de uma comunhão nacional à volta desse desejo, só vai aparecer nas janelas décadas depois e por razões de futebol), a sociedade civil deixou aos militares a defesa desses valores e envergonhou-se de falar na pátria. Escondeu esses sentimentos. Ora quem vinha fortemente marcada por esses valores, ou por essa linguagem, não encontrou lugar depois, nem se deixou seduzir pela nova linguagem e o que ela antevia de realidade criativa na sociedade. E devia ter-se pensado na socialização dos que tinham vindo com fortes estruturas mentais enquadradas pelo antigo regime, devia ter havido um cuidado maior em explicar a revolução e os seus valores civilizacionais aos que a temiam ou aos que estavam enquadrados por uma linguagem e por uma acção que lhes dava uma espécie de segurança, aos que a desconheciam, enfim.

Atente-se no cuidado com a iconografia que o anterior regime tinha, não falo de propaganda coadjuvada por censura, mecanismo forte de condicionamento mental, mas na própria ideia cénica à volta do ditador. Aquela cena de Salazar a despedir-se das suas pupilas no meio de um campo de milho(?), afastando-se depois pelo meio de um caminho rural com o seu chapéu de chuva aberto a protegê-lo do sol, filmado ao longe e de costas, é uma imagem fortemente cinematográfica. É uma projecção de ideia de homem que toca o imaginário (e deve ter sido isso que a realizadora nela viu, ao mantê-la como registo no seu próprio documentário).
Aquelas mulheres não eram tolinhas, como podemos apressadamente julgar, pois para além de muitas terem escrito cartas por razões estratégicas (veja-se o caso da senhora costureira de província que percebeu que há actos sociais numa ditadura que têm que ser cumpridos mesmo sem se saber para quê, para que outrem nos deixe em paz a prosseguir uma vida de trabalho), houve aquelas que efectivamente temiam a agitação causada pela campanha de Delgado, como se teme o que não se conhece e se pensa ser o anúncio do fim da única ordem reconhecida ou se ama o poder que submete e domina.

Foi pena não se ter falado com aquelas outras mulheres que aproveitaram para escrever mais sobre elas do que sobre a sua adesão à causa. Impressiona a carta da mulher que se oferece como em sacrifício ao Deus cristão pela vontade de ter um filho. Sobreviveu à gravidez de risco? Encontrou o sentido da sua vida na vida do/a seu filho(a)?

Excepto a senhora com que termina o programa, a trabalhadora que se descreve como vencedora na vida, estando bem sintonizada com a realidade presente, todas as outras mulheres vivem ainda como que encapsuladas, em gestos recatados (é comovente ver a senhora que puxa o seu vestidinho para cobrir os joelhos, é aflitivo ver aquela outra que cicia, meio temerosa, contida nos gestos). Há depois a bela senhora que observa o mundo do seu magnífico edifício solarengo e que sonha ainda com uma entrega heróica da sua pessoa a uma ideia de grandeza pátria, sem se decidir a agir nas formas que o mundo hoje lhe dá. Cheia de reticências dentro de si. Como se eternamente ficasse em suspiro. Ou aquela, a mais idosa, que não tem complacência para a nossa época e com energia a nega, ressentida.

É um documentário bem enquadrado historicamente, de grande simpatia pessoal para com estas mulheres, ainda que se procure compreender com algum distanciamento teórico o que viam elas num homem e numa causa que tanto contribuiu para a subalternização do poder político do papel da mulher e para a paralisação de um país.

A evocação das energias de uma nação é uma das qualidades que qualquer discursos democrático terá que contemplar, para que a democracia não seja apenas uma forma de governo, um mal menor na história do poder, mas antes uma forma vivificadora da existência do indivíduo no mundo enquanto cidadão. Se a democracia não dá por si só a felicidade a ninguém na sua vida íntima, terá que lhe dar a base suficiente para ser reconhecida como a única forma verdadeiramente defensável e pela qual vale a pena imaginar mundos e vidas públicas.


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Uma colega de sessenta anos que assistia comigo ao filme saiu muito irritada porque não conseguiu ver onde estavam retratadas as mulheres que durante a ditadura clamavam por mais cultura, mais educação, mais liberdade. Tive que lhe explicar que não era um filme sobre mulheres da oposição ao regime, mas um sobre mulheres apaixonadas pelo regime, e que era essa estranha paixão que se tentou compreender, não só porque tinha existido, mas saber se ainda se mantinha acesa. E, como vimos, está longe de estar extinta. O que para a democracia portuguesa é um pouco menos que uma limitação imensa da sua energia, é um grande desperdício social.

quarta-feira, maio 14, 2008

"Sem Correntes"

Tive a honra de ser convidada por João Ferreira Dias a escrever para a revista "Sem Correntes" uma edição em formato digital da Associação Portuguesa de Cultura Afro-Brasileira.
A revista está graficamente com uma bela apresentação e os artigos são muito interessantes. Assinam textos os autores Augusto R. da Silva Jr. Carla Faleiro, Carlos Manuel Castro, Carlos Vilaza, Ênio José da Costa Brito, Flávio Gonçalves, Francisco Chaveiro Reis, Guilherme Roesler, Helena Félix, Heloisa Pires Lima, João Ferreira Dias, Raquel Patrício, Yvonne Maggie e , com muito gosto, eu própria.

terça-feira, maio 13, 2008

A natureza do mal natural

Ontem preparava uma aula e reflectia sobre o denominado paradoxo de Epicuro e sobre a natureza do mal:"Ou Deus quer impedir o mal e não pode, ou pode mas não quer. Se quer mas não pode, é impotente. Se pode, mas não quer, é malévolo. Mas se quer e pode, de onde vem então o mal?"
A propósito do mal natural sob a forma de catástrofes que afectam milhares de pessoas no mundo, parece-nos que só nos resta reflectir sob a ordem humana da capacidade de prever, resolver ou solucionar os efeitos destes fenómenos, minorando o sofrimento das povos. Como se as reflexões sobre a natureza do mal estivessem datadas, como se as inquietações metafísicas se apaziguassem no mundo com uma linguagem jurídica ou criminal. Mesmo na questão da discussão da natureza do mal moral avança-se logo com uma panaceia penal.
Não quero ser confusa. É claro que os sistemas jurídicos internacionais e nacionais têm que dar uma resposta social e prática à questão do mal, mas essa forma de pensá-lo, se exclusiva, torna-o um acontecimento pensado, de certa forma até esperado, integrado numa determinada ordem.
É como aceitar sem sobressalto (algo que eu não consigo fazer) que quando estamos a sair de casa para iniciar uma viagem longa haja alguém que na rádio nos fale de estatística e de previsão de um número determinado de acidentes, com mortos e feridos, por exemplo. Então já está naturalmente previsto e contabilizada a morte ou o ferimento na estrada de um agente que agora acorda quentinho, que inspira com gosto o cheiro do pão e do café, que se ri, se entristece, se zanga ou se regozija, que prepara a mala e se apressa para ir morrer no asfalto?
Por outro lado, as previsões sobre o que pode acontecer em situações de catástrofe iminente também se ligam com as obrigações dos nossos governantes saberem assegurar a nossa protecção. Liga-se à política. Mas eu recordo como houve um tempo em que os filósofos europeus reflectiam sobre a natureza do mal a partir, por exemplo, do terramoto de Lisboa em 1755. Como se forçassem o pensamento a debruçar-se sobre o abismo do que é dificilmente consciencializado, como se obrigassem a acção humana a olhar de frente o horror, numa preparação inevitável, embora perversa, para a luta contra forças do mal que se iriam juntar em concertos de horror durante o século XX.
Teóricos há que responderam ao dilema de Epicuro advogando que só assim se compreende a faculdade do livre-arbítrio, sendo o mal uma consequência, apesar de tudo menor, dessa liberdade de escolha humana, de autonomia e responsabilidade. Se não houvesse que escolher o que fazer em cada segundo para quê a liberdade da pessoa? Eu não sei se é preciso que morram milhares de pessoas, se é preciso escravizar uma pessoa, para que eu possa saber o que fazer em cada momento, que atitudes devo escolher. As experiências pensadas não seriam suficientes para ajudarem a compreender, é preciso sermos confrontados com a morte e o sofrimento de outrem para sabermos quem somos nós de verdade?
As explicações fundamentalistas também são uma infelicidade. Dizer-se que as catástrofes ou o horror de uma pessoa são uma espécie de castigo divino, é algo que quem tem uma cultura cristã impregnada na ideia de existência, ou de uma ideia de uma ideia de existência, de um Deus benévolo, não lembra de todo. Mas no mundo "existem" deuses malévolos. Existem religiões que não consideram como fundamental ter um deus com traços amorosos, preferindo-lhe o traço de agente punitivo.
Mas isto remeterá para a idiossincrasia antropológica, quanto muito psicológica e social dos povos, se pensarmos que a teoria das representações sociais de Moscovici tem legitimidade como explicação das origens das crenças. Mas não explica a existência do mal.
E explicar as causas dos fenómenos naturais ou dos psicológicos que estão na origem do mal, explicam o mal?
Pelo menos que as ajudas cheguem a tempo.

O Prof.. A. Moreira está a escrever sobre o Iraque, eu estou a pensar na antiga Birmânia.

"(...) Foi em 1988 que a Assembleia Geral da ONU consagrou o dever de "assistência humanitária às vítimas de catástrofes naturais e de situações de urgência da mesma ordem".
Nesse princípio se filiaram, com assentimento do Conselho de Segurança, a intervenção de 1991 a favor dos curdos destroçados pela violência do Governo iraquiano, e também a pouco feliz acção na Somália em 1993, com o nome de Restore Hope. Rapidamente a intervenção foi alargada no sentido de acudir aos Estados falidos (collapsed state), iniciando uma deriva que viria a dispensar a intervenção da ONU, designadamente com a intervenção da NATO no Kosovo em 1999.
A responsabilidade de proteger encontrou doutrinação jurídica de validação para esses casos, desenvolvendo a vertente - coalitions of the whilling - para suprir designadamente a decisão ou incapacidade de um Estado proteger os seus cidadãos contra as catástrofes ou políticas ou naturais.
Que o alargamento do conceito, aliado ao unilateralismo das soberanias mais poderosas, fez tornar frequentemente equívoca a distinção entre intervenção ética e ingerência ilícita, tornou-se evidente, uma evidência que fortaleceu as argumentações contra o unilateralismo americano no Iraque, ou contra os limitados êxitos da intervenção da NATO no Afeganistão.
À medida que as debilidades das intervenções baseadas apenas no poder vão inspirando nos EUA discretas manifestações de políticas de retirada, a secretária de Estado Condoleeza Rice começa a ver recordado o conceito, que em 2006 anunciou na Universidade de Georgetown, de uma nova doutrina chamada diplomacia transformacional. Esta política, não necessariamente apoiada em intervenção militar, procurando até dispensá-la, consistiria em acções multilaterais destinadas ou a construir a democracia ou a mantê-la em casos de risco, para que o bom governo seja uma garantia da boa participação na ordem internacional.
(...)
Talvez uma das debilidades da doutrina esteja na versão missionária do discurso presidencial americano, na como que sacralização da nação indispensável, referências ideológicas que apoiam a lembrança de doutrinas coloniais, e por vezes inspiram decisões, como a reinvenção do protectorado para o Kosovo, que dificilmente escapam a essa caracterização.
A circunstância de a população iraquiana não ter explodido na esperada gratidão por ter sido libertada de um regime tirânico traduz-se numa indicação de pesados custos no sentido de que, antes de tocar na vida interior do Estado, é conveniente ter informação das convicções patrióticas e identitárias.
(...)
Uma coisa é a ingerência legitimada pela comunidade internacional, oposta à indiferença para com as calamidades que atingem os outros povos e Estados: outra bem diferente são as derivas de face missionária e interesse próprio.
Porque estas derivas esquecem que a primeira exigência aos Estados é a do respeito pelo ordenamento internacional: intervir porque a ordem interna não corresponda aos princípios exige respeito pela definição ética e jurídica do direito-dever de intervenção, que não consente nenhuma deriva unilateralista. (...)" Adriano Moreira in DN
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Como o Prof. argumenta, "uma coisa é a ingerência legitimada pela comunidade internacional (...) outra bem diferente são as derivas de face missionária e interesse próprio", daí que eu não compreenda porque Alberto Gonçalves no jornal DN de Domingo atacou a posição de Ana Gomes que defende uma intervenção na Birmânia segundo o estatuto "obrigação de proteger", como resposta às circunstâncias de deficiente prestação de ajuda do estado de Myanmar ao seu povo. É querer comparar o que não tem comparação, nem consegue ter por mais voltas que queiramos dar ao assunto. O que se passa na antiga Birmânia não é o que se passava no Iraque, ainda que com toda a mediocridade do sistema plítico lá montado.
As necessidades de intervenção que se reclamaram para o Iraque e que se reclamam agora para Myanmar não são de todo da mesma natureza. Ana Gomes tem toda a razão.

segunda-feira, maio 12, 2008

O que estamos dispostos a fazer por aquilo em que acreditamos?

E qual o valor universal daquilo daquilo em que acreditamos?
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Ontem no programa de Mário Crespo sobre Maio de 1968 na SIC Notícias, ouvi Barata-Feyo dizer como eram, o que defendiam e como se comportavam os maoístas portugueses que estavam em Paris em 1968, afirmando que nenhum deles, dos que agora se disseminaram na vida partidária da direita à esquerda, lhe merece, pelo que testemunhou, confiança. E pensando-se, entre outros, no presidente da comissão europeia... bom.
Não se pode dizer o que ele disse de ânimo leve.
A mim o que mais me interessa seria saber as respostas às seguintes perguntas: O que terá mudado numa mente formada pela moldura e pela violência de uma política como a maoísta? Ou será que no essencial as pulsões totalitárias, sob outra linguagem, continuam as mesmas? Ou não? Há aspectos de maturação e crítica que prmitem superar essas ancoragens iniciais? Como se opta, se em consciência e na posse de todas as informações, por ideologias discriminadoras, exclusivas e repressivas?

domingo, maio 11, 2008

A luta há-de continuar com as senhoras que se seguem

A mensagem no exterior, quem a controla?

Uma amiga fez-me chegar este artigo sobre o relacionamento entre os diplomatas venezuelanos e o seu governo. As designações dos diplomatas passaram a ter como critério... serem apoiantes da política governamental, "mandando-se às malvas" o exercício da diplomacia por profissionais de carreira.
Nada como criar a classe dos "amigos do executivo". Tentações de poder ou tentações de poder à polvo. Resultado? Será um bom golpe publicitário para o governo que garante fidelidade ideológica? Não, claro. Leio: "El politólogo Aníbal Romero advirtió que los diplomáticos son muy estrictos en sus normas y castigan las vacilaciones y el desconocimiento: "Hay un acuerdo de interpretación y protección mutua. Cuando un embajador no domina los códigos y protocolos, el país es el que pierde credibilidad en el extranjero"."
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Pois, há um saber que se aprende, uma aprendizagem com tempo de linguagens e códigos que não se coadunam com o executar de funções em nome da amizade ideológica..
A qualidade no exercício de um cargo público não é transmissível aquando da entrega do cartão de um partido. Nunca.

Quem ouve os senhores deputados? "Quem me leva os meus fantasmas?"

Na quarta-feira levei um pequeno grupo de alunos meus a assistir à intervenção dos senhores Ministros da Justiça e da Segurança Interna. Não foi premeditado, porque a visita estava marcada há tempos, mas no dia, sabendo qual era a agenda de trabalho, instruí-os sobre o que o tema em debate e chamei-lhes a atenção para o que estava em questão. Quando entrámos as galerias estavam cheias de adolescentes multicolores e ferventes que seguiam com um interesse distraído o que se passava no plenário. E o que se passava?
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Um deputado do Bloco de Esquerda, provavelmente no exercício dos seus dez minutos de intervenção anual por iniciativa própria, discursava sobre a notícia do dia que dava conta do baixo número de portugueses que afirmavam usar o preservativo de forma recorrente. O plenário zumbia. A desatenção era o mote. Esforçado, a lembrar alguns professores, ele lia o seu discurso fingindo que alguém o estava a ouvir, fingindo que não se importava que quase ninguém o estivesse. Eis que termina e cumpre, eis que é aplaudido exclusivamente pelos deputados da sua bancada. Responde a deputada socialista mais familiarizada com o assunto e debita números, enfim, é aplaudida por alguns deputados da sua bancada menos distraídos.

Os meus alunos são adultos. Tínhamos falado sobre o papel do parlamento numa democracia, sabiam que a maior parte do trabalho parlamentar é feito nos bastidores, nas comissões, mas o seu espanto inicial e depois as críticas aos deputados foi emocionalmente consentânea com o que se escutava aos adolescentes que nos rodeavam: - "Então nós não podemos levar o telemóvel para as aulas e eles podem ter o deles a tocar e podem atender enquanto os colegas discursam?"; "-Ninguém presta atenção ao que estão a dizer os colegas deputados?"; "- Olha o que eles conversam!"; - "Só batem palmas ao deputado que é da sua própria bancada!".
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A primeira impressão de um debate parlamentar destrói toda a teoria que um professor lhes queira passar sobre a importância e necessidade do debate público como método de resolução de conflitos e orientação de políticas. Há mais de vinte anos (na altura era o jornal aberto sobre a bancada mais do que o portátil l ou o telemóvel ligados) como hoje, a imagem que fica é de uma grande falta de disciplina de trabalho e de respeito mútuo. E a imagem, no caso em apreço, cola-se como sendo a única verdade, por ser também verdade, de uma realidade legislativa que excede aquele espaço e aquele tempo, mas que não sendo do âmbito da esfera pública, logo não é percepcionada como forma de trabalho parlamentar. O que se vê é aquilo. Lamentável comportamento.
Eu, que não permito que aluno algum se entretenha em amena converseira com o vizinho enquanto eu lecciono, se fosse deputada, e estivesse a falar literalmente para o boneco, acho que fazia uma loucura qualquer.
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A dado momento levanta-se um deputado da CDU, com voz bem colocada, com autoridade e projecção de tom, conseguiu com que o plenário baixasse o vozear uns decibéis. O assunto era dos mais graves: o aumento do preço dos cereais. Pensei que era a altura para a assembleia se fixar no assunto e de as pessoas evocarem as suas competências colectivas para aplicarem o seu saber na resolução/proposta, num assunto que ultrapassa já em muito a esfera exclusiva da comissão parlamentar para os assuntos económicos. Pelo menos os que não tinham estado reunidos com o dito deputado e gostassem de o ouvir agora, ou de discutir ideias, o tema que fosse. Ilusão.
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A voz bem articulada, com uma ideologia clara de interpretação anti-capitalista da questão, mas apesar de tudo, um modelo a seguir ou a desmontar, mas sempre de ouvir, não mereceu mais que uma resposta estereotipada da bancada socialista. Como se o assunto não fosse suficientemente sério para congregar vontades e arrimar lutas ideológicas que apontassem caminho. Como se qualquer acto de presença suficiente baste, como se tudo estivesse cansado de ali estar, como se a realidade fosse passível de ser compartimentada em bancadas. E ao mesmo tempo, como se nem soubessem encenar bem o seu relacionamento num espaço de discussão dos assuntos públicos, como se não estivessem num teatro, a ser vistos, apreendidos e a servirem de exemplo.
Pelo menos que houvesse aprumo na hora de estar ali sentado a ouvir. Que se escutasse mesmo os outros com interesse e não com esse ar de quem pensa: daquele já sei o que vai sair. Chato! "Cassete"! Senão que imagem fica colada ao seu trabalho em plenário?
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Lamento sempre a desilusão nos olhos dos meus alunos de cada vez que lá vou. Às vezes penso que devia ser mais realista e aplicar-me em descrever o que se passa na política com os exercícios pessoais do poder, mas prefiro sempre falar-lhes de instituições, de atitudes e valores. E estes conseguem sempre ser mais perfeitos na sua natureza, mesmo quando não cremos neles, ou naqueles, mas temos o dever de os explicar ou compreender.
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O ministro da Segurança Interna teve um bom discurso. Aplicou-se em defender, de forma suave, sem crispação, a sua Proposta de Lei. Ouvindo-o, podíamos a ficar a pensar em como éramos malévolas criaturas a pensar o pior de tão funcional proposta da criação de uma figura coordenadora de todas as forças de segurança, um secretário-geral com equiparação a secretário de estado, sujeita a fiscalização do Conselho Superior de Segurança. Que não temêssemos pois pelas liberdades, direitos e garantias, que estes estavam acautelados.
Suavemente pergunto-me: Mas o primeiro-ministro precisa de tutelar esta figura porquê? Porque razão há que passar a depender directamente do primeiro-ministro? E o que podem ser consideradas situações excepcionais de segurança por parte de um primeiro-ministro? Porque se concentra tanto poder quando aprendemos na história que é melhor para uma democracia dispersar o poder e delinear depois articulações funcionais, e logo um poder personalizado numa figura que passa a ser pessoa dependente do primeiro-ministro?! E porquê politizar uma carreira profissional como a da investigação e acção contra o crime?