quarta-feira, outubro 22, 2008

Sobre a Ossétia do Sul...

eu pouco ou nada sabia.

A casa que me acolheu e ao meu trabalho de investigadora organizou um debate sobre "As implicações do conflito georgiano na conjuntura internacional", e eu achei que era uma bela oportunidade de me informar. Tinha razão. O debate, vivo e bem fundamentado, entre Isabel David e Marcos Ferreira, elucidou quanto baste.
A sessão até nem começou bem, pois ao entrar no auditório, que minutos depois da hora marcada viria a estar repleto, deparei-me com os estofos das cadeiras vandalizados, sendo que todos apresentavam desenhos, assinaturas e outras "artes" de jovens universitários sem pingo de educação.(!!!!)
..
De forma mais académica (mais crítica e ponderada, portanto) Marcos Ferreira explanou sobre a tentativa de recuperação do poder imperialista russo, numa época em que o preço dos combustíveis lhe dá toda uma nova sustentação económica e estratégica que não tinha nos anos noventa, sendo ainda que à frente dos destinos da Rússia temos dois homens com objectivos políticos internacionais bem definidos, sendo conhecidos, sobretudo o Sr. Putin, como um homem que olha para um mapa e sabe interpretá-lo.
Expôs Marcos Ferreira as linhas gerais do problema do "dilema de segurança", mas sugeriu que esse dilema não era irresolúvel e que derivava de sistemática renúncia ao entendimento sobre a real natureza dos movimentos defensivos/ofensivos dos Estados, sendo por isso um pretexto menor aquele que a Rússia terá evocado por considerar ter um carácter ofensivo a colocação do escudo antí-missil na Polónia e na República Checa, países à procura de uma entrada em instituições internacionais que de forma efectiva se comprometam com a sua segurança e defesa de soberania, numa tentativa de solucionarem o erro histórico de não terem tido ninguém a defendê-los aquando de todas as invasões sofridas durante e depois da Segunda Grande guerra.
Não defendeu porém a decisão imprudente do nacionalista e autoritário presidente da Geórgia, com a invasão dos tanques na Ossétia do Sul, ainda que este território fosse na realidade pertença do estado georgiano, sendo este gesto a desculpa perfeita para a intervenção russa no território, e para um presidente russo à procura de uma legitimação interna e externa do seu poder que, na Rússia, é sempre sustentado através de uma guerra. Nenhum presidente russo passou sem fazer uma guerra (Putin, contra a Tchetchénia, até conduziu duas guerras).
Na verdade, evocando direitos iguais para casos iguais, a Rússia vinha defender a independência da Ossétia dos Sul, na linha do que fora feito para o Kosovo. Ora o Kosovo, lembrou o prof. Marcos Ferreira, tinha desde o inicio recebido um tratamento de excepção, pela intervenção da NATO aquando da sua defesa contra os ataques da Sérvia, e ainda que contra a decisão do Conselho de Segurança da ONU, por voto contra da Rússia. Em estado de protectorado desde 1999, a região do Kosovo não foi pensada para vir no futuro a reintegrar o Estado Sérvio, mas foi sempre entendido fazer-se aprovar a sua independência tendo em conta o tipo de reacção agressiva, psicológica e física, manifestado entre os diferentes povos que constituíam o Estado sérvio.
O mais curioso em todo o pensamento de M. Ferreira foi a sua defesa de uma política internacional cuja acção não se tem que reger inevitavelmente à volta do conceito, e da defesa desse conceito, a saber o de "esfera de influência" de certas potências, pelo que isso subalterniza soberanias transformando a maioria dos países em peões dos interesses dos imperialistas de certos Estados.
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Já a profª Isabel David, de forma frontal, ainda que aqui e ali um pouco excessiva pelo uso de linguagem pouco rigorosa, e fazendo apelo à sua adesão aos valores e cultura russas, defendeu sistematicamente as opções político-militares russas, afirmando que aquela mais não fora que a reacção natural a uma política unilateral e belicista por parte dos EUA.
Chamou ainda a atenção para o facto da Geórgia ser um Estado falhado, composto por território fragmentado por várias minorias étnicas, que tem um interesse acrescido para a comunidade internacional porque pelo seu espaço passam vários "pipelines". Para Isabel David há uma tentativa clara por parte do poder americano de criar um "cordão sanitário" à volta da Rússia, registando-se aquilo que o ministro dos Negócios Estrangeiros francês chamou de "necessidade de controlar os russos", e que o "Burro de Tróia", que foi o sistema anti-míssil, torna legítimo que a Rússia queira impor o seu espaço de influência nos países da região, à semelhança do que os americanos têm procurado fazer, e manter, com a sua intervenção sistemática nos governos da América do sul.
Defende ainda a professora que a "caixa de Pandora" que foi aberta com o reconhecimento internacional do Kosovo, justifica agora a tomada de posição sobre a Ossétia do Sul, sendo ambas as regiões conhecidas por possuírem estruturas económicas semelhantes, baseados no contrabando de armas, droga e combustíveis.
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Conclusão: Ambos os oradores concordaram que pela linha de intervenção e argumentação adoptada por si própria, a Rússia fica sem razões e modelo de acção, para continuar a reprimir os movimentos independentistas Tchetchenos, mas que também a diabolização da Rússia não contribuirá em nada para a paz internacional. Ambos consideram igualmente que o futuro poder americano terá que estudar com cuidado o pedido de adesão à Nato por parte da Geórgia e da Ucrânia e que há que ter a rússia como parceira do Ocidente. Mas em tudo o mais discordaram.
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No final decidi que os argumentos dirimidos por Marcos Ferreira eram consistentes com uma interpretação da realidade que avaliei como mais objectiva, e que o imbróglio do Kosovo, muito bem explicado por este último, é uma razão necessária, mas não suficiente, para ajudar a compreender a atitude dúplice da própria Rússia quanto à Geórgia.
..
Claro que no futuro, a unipolaridade, bipolaridade ou multipolaridade nas tomadas de decisões em política internacional, é capaz de depender mais da cotação do crude no mercado internacional, do que do número de tanques, ou de teorias influentes.
Helás, no que diz respeito à defesa de uma ideia de multipolaridades na condução dos assuntos universais. Esta devia ser defendida pela razão humana e não pelas cotações do mercado com preços flutuantes.

terça-feira, outubro 21, 2008

Não me querem lá ver...

que aquilo que estes políticos europeus não conseguiram fazer divulgar e aceitar através da palavra, o vão fazer agora com a imposição, acenando com o medo, do número?

segunda-feira, outubro 20, 2008


Algo que os parlamentares portugueses deixaram de saber fazer:
(...)
"Cuando en el seno de las sociedades que aspiran a concretar el ideal
democrático se instala el juego retórico del verbo como persuasión,
comienza a operarse “el paso de los espacios prepolíticos a aquellos
políticos”, y ello supone “la transmutación de la violencia en palabra,
de la palabra en discurso, del discurso en deliberación, de la deliberación
en consensos, de los consensos en normas justas y eficaces” (Pino,
2004, p. 124). En consecuencia, se abandona paulatinamente toda práctica
de exterminio del otro (lo que puede ir de un simple insulto al uso
de las armas), y en su lugar aparece la práctica dialógica y polifónica
del verbo, la asunción conjunta de desacuerdos en voces acordadas
que, como en el caso de una sinfonía, logran construir desde su particular
distinción el producto final armonizado."
..
Algo que os parlamentares portugueses só parecem saber fazer, da discussão sobre os planos económicos do governo aos votos de outras propostas de leis: obedecer à voz de comando do dono, sendo este dono, no caso dos representantes da maioria parlamentar, o governo.
(...)
"El discurso alcanza su máxima expresión de ardid suasivo cuando construye
la siguiente falacia: “He preguntado. Ustedes me han dado sus
respuestas. Ustedes son parte del pueblo, y sus respuestas son las respuestas
del pueblo alemán” (Goebbels, 2004). Esta falacia se conoce
como falacia ad populum, y es pretender, en este caso, que la decisión
de apenas quince mil alemanes pudiera ser vinculante y extensiva al
resto de la nación. Más adelante presenta un entimema truncado: “Yo
me paro ante ustedes no sólo como el vocero del gobierno, sino como
el vocero del pueblo” (Goebbels, 2004), y como la voz del pueblo es la
voz de Dios, Goebbels es la voz de Dios."
(...)

"Buraco 9"

Os jogadores passavam pelo buraco 9, e muitas pessoas aguardavam na bancada que a equipa final, a que ia na frente até ao momento, passasse por ali para a continuar a seguir até ao buraco 18. Estava vento, mas era um dia luminoso. O Ministro da Economia também lá estava, junto do Presidente da Federação Portuguesa de golfe, e de pé, junto do carrinho utilizado para o transportar, observava os movimentos dos atletas como toda uma multidão, maioritariamente de nacionalidade inglesa. Mas também havia muitos portugueses, felizmente, que acompanhavam a prova "Portugal masters".
Obviamente que é uma ideia errada que o golfe seja para gente rica, o golfe é para quem gosta de desportos praticados ao ar livre, e se há campos de golfe que são estupidamente caros e esses sim são para gente com posses, também os há acessíveis e muito bonitos. Na verdade devia haver em Portugal campos públicos, algo que nos países onde a modalidade é mais praticada existe, claro. Mas adiante.
Ao reparar no Ministro perguntei-me porque razão o senhor, que não é propriamente um homem idoso, nem me pareceu debilitado de saúde, não acompanhava a competição a andar a pé como todos os outros espectadores, num exercício de cidadania? Para mais sendo ele um praticante deste desporto.
Incomoda-me profundamente que os titulares de cargos políticos portugueses façam mau uso do seu poder e da sua visibilidade. Que tipo de exemplo é aquele? Sendo, é verdade, que a maioria das pessoas o ignorava olimpicamente, não passando de uma mancha que ocupava um certo lugar no ângulo da visão periférica dos súbditos de Sua Magestade, a rainha de Inglatera. Mas eu, portuguesa, acompanhada da família, gostava que neste, como noutros casos, os ministros adequassem a suas manifestações públicas aos interesses públicos. Não é inveja do senhor, pois se ele fosse o zé das petingas bem que se podia passear de carrinho se isso o fizesse feliz e não perturbasse os direitos de ninguém, mas ele não é o Zé das petingas, estava ali em exercício de um cargo público, foi eleito com o voto popular, para procurar, entre outras coisas, fazer com que o exercício do seu dever não seja um desfile de vaidade: "Olhem para mim, aqui paradinho junto do buraco 9, ao qual cheguei no meu carrinho...olhem para o ministro!"

A verdade é que é típico de certas pessoas comportarem-se como reizinhos do regime absolutista, pois eu recordo-me como o ministro da justiça Laborinho Lúcio, em funções, e acabado de sair de uma conferência da Gulbenkian, permitiu que o seu motorista praticasse uma manobra ilegal, e perigosa, a meio da AV. da Berna. Só com estupor os podemos ver a ter semelhantes atitudes de imaturidade cívica.
..
E não é que o dia estava lindo, a competição foi renhida, e o campo cheio de gente simpática e feliz que aplaudiu com entusiasmo a vitória do espanhol, como se fora um português a ganhar? Lindo.

O poeta

O poeta veio devagarinho acompanhado pela sua esposa, também ela homenageada, também ela com um belo nome, o de Agripina. Uma homenagem é uma homenagem. Acredito sinceramente que aquilo foi melhor que o nada, mas não é por isso que vou deixar de pensar que a homenagem pareceu-me um pouco para o pífio.
Então uma pessoa tem uma obra excepcional, é um grande poeta, enorme dentro da minha cabeça e coração, e depois atamancam um encontro entre pessoas ansiosas, despachadas e pragmáticas? Raio de coisa.

Aplaudi o poeta, tentei ouvir o poeta, e no fim deixei-o com quem o acompanha no seu dia-a-dia de homem e merece a sua intimidade, porque a mim só me interessa o artista. Eu tomo por companhia as suas palavras, António Ramos Rosa.

terça-feira, outubro 14, 2008

Mil poemas para um querido poeta. Mil poemas.

Para ignorar as mentiras compulsivas deste senhor nas suas actividades públicas, e ainda que em coisas tão prosaicas, nada como esta outra notícia:


"Dia 17, sexta-feira, 16.00, Lançamento do Livro"Um Poema para Ramos Rosa"Antologia de vários Autores, Editora Labirinto". Sei também que o senhor vai receber uma homenagem sob a forma de medalhita. Querido poeta, isso faz-me sorrir... tão vulgar... mas ainda assim uma homenagem, e "vai afagar-lhe a alma", dizem-me. Pronto.

E contra as palavras que remendam a realidade do nosso orçamento baseadas na ausência de efectivas leis do arrendamento justas, empréstimos bancários com critérios, de fiscalizada utilização do dinheiro público , moralização do papel da função pública dos servidores do Estado, boa credibilidade e eficiência da autoridade judicial, entre outras coisas, só estas palavras:


Escrevo-te com o fogo e a água


Escrevo-te com o fogo e a água. Escrevo-te
no sossego feliz das folhas e das sombras.
Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.
Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes.
Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde.O que procuro é um coração pequeno, um animal
perfeito e suave. Um fruto repousado,
uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado,
uma pergunta que não ouvi no inanimado, um arabesco talvez de mágica leveza.
Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma?
Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore.
As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos.
O vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu,
o grande sopro imóvel da primavera efémera.

António Ramos Rosa, Volante Verde - 1986 in Antologia Poética, Selecção de Ana Paula Coutinho Mendes

Poderá ser a isto que Nietszhe chamou de eterno retorno, não só para descrever uma teoria sobre o que aconteceu voltar a acontecer uma vez mais, mas uma que nos explique porque conseguimos tão bem suportar a realidade, pois entre o insustentável e do qual temos aversão, e o sustentável e desejável, há efectivamente um movimento de eterno retorno, numa tensão harmoniosa que nos permite de facto continuar aqui e continuar a acreditar.
..
PS. Engraçado. Escrevo a dezasseis e o relógio do blogue assinala dia catorze. Engraçado.

Isto, aquilo e aqueloutro , com atenção e um "arrepio na espinha"

Isto
"Ainda no seu último número a Visão informava que 14 das 20 maiores empresas portuguesas cotadas em bolsa têm antigos governantes nos lugares mais elevados de decisão. Tal deve-se certamente à leveza do Estado e à sua reconhecida competência na formação de gestores de topo. José Sócrates tem talento para a liderança, mas é um homem perigoso quando se deixa levar pelos encantos do poder. Ele preside a um dos governos mais controladores de que há memória em Portugal, com pouquíssimo respeito pelo papel de vigilância da comunicação social e uma armada de assessores com grande inclinação para a propaganda. Ouvi-lo louvar o papel do Estado e reclamar maior intervenção para si próprio causa suores frios e arrepios na espinha. Muito pior do que a mão invisível do mercado a afundar a bolsa seria a mão bem visível do Estado a sair do bolso. Caro "El Comandante": se é esta a sua cura, mais vale continuar doente."
A CHEGADA DE 'EL COMANDANTE' SÓCRATES de João Miguel Tavares in DN
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Aquilo
"Há duas décadas havia evidência concreta que Portugal não tinha nem a regulação adequada nem o bom senso para aplicar medidas que evitassem investimento jogador e ganancioso com dinheiro público. Não só não havia prudência como não havia vontade política de impor salvaguardas prudenciais. O populismo sempre se sobrepôs ao bom senso. Em Março de 1999 um governante veio a público anunciar aos portugueses endividados que o Governo tinha uma lei para equiparar as falências das famílias às falências das empresas, portanto com as mesmas garantias patrimoniais na administração de massas falidas. Traduzido, o que isso dizia era: comprem o carro, a playstation e as férias em Punta Cana com o cartão, porque quando não puderem pagar o governo dá uma ajudinha. Isto aconteceu há uma década e arauto deste maná era Ministro-adjunto no Governo de António Guterres e chamava-se José Sócrates. É bizarro e preocupante que estes actores do passado e do presente, acolitados por executivos de uma banca em dificuldades, nos venham de hora a hora dizer que está tudo bem. Não está. Deviam dizer-nos para deitar fora o cartão de crédito. Deviam obrigar os anúncios do Credito na Hora a ser exaustivos na explicação do que oferecem. Deviam sugerir que muitos de nós não temos dinheiro para ter nem plasma nem carro. Que, de facto, já não temos casa. Que temos que fazer opções entre aceitar o canto dos prestamistas que, com ou sem fraque, nos virão cobrar, e fazer economias para a educação dos nossos filhos, porque só essa nos pode garantir algo de sólido no futuro. E isso não vem com computadores à borla e "garantias" de segurança de quem nunca as assegurou. "
Mário Crespo, A valsa in JN
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Aqueloutro
"Todavia, não é a ONU que mais precisa de ser convidada a mudar para enfrentar os novos desafios da ameaçadora conjuntura mundial. É a atitude dos Estados membros, sobretudo dos que reservaram os privilégios correspondentes à hierarquia do poder, que tem de reflectir a realidade mundial que lhes reformulou as capacidades efectivas; é a atitude dos restantes Estados, ainda geralmente orientados pelo conceito da soberania absoluta que não poderão sustentar, que precisa de ser esclarecida; são os poderes fátcicos dominantes, especialmente os poderes financeiros em crise e os poderes da comunicação social sem regulação mundial, que necessitam códigos de boa conduta."
A MUDANÇA Adriano Moreira in Dn

domingo, outubro 12, 2008

sexta-feira, outubro 10, 2008

Santos ao pé da porta também fazem milagres

"PODGORICA (AFP) — Depois de Montenegro, a Macedônia reconheceu nesta quinta-feira o Kosovo independente, o que representa uma derrota para a Sérvia no dia seguinte ao seu triunfo nas Nações Unidas; a Assembléia Geral da ONU havia solicitado que a Corte Internacional de Justiça (CIJ) se pronunciasse sobre a legalidade da proclamação da independência de sua antiga província."
O problema, uma vez mais, é onde fica a autoridade da ONU? Ninguém acredita na justiça do tribunal Internacional, querem pressionar essa justiça de forma política, ou não admitem a intrimissão da justiça em assuntos considerados políticos? Nunca mais nos entendemos.

quinta-feira, outubro 09, 2008

Desviamos os olhos um segundo e...

coisas acontecem. Algumas risíveis: a nossa criança ganha cotão debaixo das unhas que se transformaram em garras, o cabelo cai-lhe esfarripado sobre as orelhas e os olhos, as calças que julgávamos limpas descobrimo-las, à luz crua da manhã, à porta da escola, que têm nódoas, que até já cresceu uns centímetros e adquiriu um vocabulário novo do qual não reconhecemos o léxico. A casa acumula livros e jornais, as roupas ficam por arrumar, o ar por arejar. Um segundo e a vida desatina. A vida que controlamos civilizadamente há séculos e nos permitiu sobreviver erectos, a vida segura dos rituais de conforto e de segurança. Outras vezes coisas acontecem de forma trágica. Alguém morre e uma ideia de nós com ela, ou mesmo nós com ela, ou um alívio pela sua morte que há-de um dia confundir-se com um alívio para alguém pela própria hora da nossa, e que começa então a insinuar-se connosco; alguém nos atraiçoa e uma ideia de eternidade vai com ela, ou, muito pior, atraiçoamos alguém, e nem uma ideia de culpa nos amortece a queda, porque não estamos mais por ela, ou não estamos mais por nós com ela.

Na crise económica, ou política, como podemos não desviar os olhos, nós que não sabemos olhar sequer para o que vemos? Sabemos nos entanto que os economistas que temos e os políticos que temos, os que ouvimos pelo menos, não estão a dizer nada que seja confiável, que seja uma linguagem nova, que invente uma solução, ou que exceda uma resolução que não passe pela do tempo que há-de correr. Porquê esperar na resolução que há-de vir com os outros? Deve ser o síndrome da princesa indefesa e aprisionada na torre à espera do seu princípe, alimentado por séculos de governos políticos que premeiam a menorização das gentes.
Não sei explicar o tempo, mas compreendo o que é o tempo, dizia-nos Santo Agostinho. É o sentimento semelhante da população, julgo eu, que não sabe explicar porque não acredita nas explicações e nas soluções dos economistas e dos políticos, mas sabe que não acredita.

Qualquer pessoa reconhece o trabalho infindo, mas eficaz para a estrutura de uma família ou de um indivíduo, que resulta da necessidade de manter uma casa limpa e arrumada, refeições equilibradas, actos sociais de convívio, um sistema qualquer em estado funcional, um ritmo previsível para a existência, pois que entre o caos e a ordem a fronteira é uma linha para o finito, um esforço individual e do grupo para assegurar a coesão, para resistir à indiferença, à frustração, ao desânimo, à impotência.
Al Gore refere os psicólogos que estudam o fenómeno dos vínculos do indivíduo ao grupo, para referenciar como um sistema que não premeia os seus concidadãos com o respeito pela sua perspectiva e/ou participação nas questões fundamentais está a preparar-se para ter como interlocutores indivíduos muito agressivos e violentos que porão em causa o próprio sistema democrático onde os dirigentes procuram encerrar-se.
Desviamos os olhos um segundo e... também nos acontecem coisas boas. O tempo relembramo-nos que não estamos no fim da história, pelo menos da colectiva. E às vezes até sabemos como pairar sobre os acontecimentos: Ai está a acontecer uma crise durante a qual os estupores dos gestores da AIG foram de férias com o dinheiro dos contribuintes americanos? Aí o meu governo continua a insistir num tom e num modo de governo monocórdico e que soa a falso? Ai o meu admirado escritor Baptista-Bastos está a braços com uma situação pouco ética? Ai, sim? É terrível, é, mas eu se calhar vou ali e já volto. Pelo menos uma coisa há-de acontecer entretanto: lá fora o tempo passou, cá dentro, só eu sei. Depois essa coisa de inscrição nos acontecimentos... bom, na prática como é?
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José Gil na semana passada e António Lobo Antunes esta semana escrevem textos memoráveis na revista Visão.

terça-feira, outubro 07, 2008

"Adjectivar a economia com (nova) política"

"No caso pendente /processo eleitoral para a escolha do presidente dos EUA/, é de não esquecer que a decisão do eleitorado americano vai ser um exercício de uma minoria nacional em face da maioria de Estados e povos que serão afectados pela decisão final do pleito, mal informados do que significa a preferência americana, agora, antes, e nos actos finais da disputa, por um dos candidatos. A primeira dúvida traduz-se na questão de saber qual é o critério da escolha que virá a ser feita pelo eleitorado em processo de captação. Talvez nesta altura já tenham perdido a referência que inicialmente centrou as dúvidas sobre a importância da etnia e do género entre os motivos que condicionariam a resposta final. Mas parece subsistir uma atenção, não apenas difusa, sobre as questões referentes à idade e experiência, circunstâncias relacionadas com o binómio passado e modernidade. Todavia, a agressão de autenticidade levada a efeito pelo desastre do sistema financeiro talvez tenha esclarecido que o debate é entre um candidato jovem, não comprometido com a governação que presidiu ao desastre unilateralista, e o próprio Presidente em fim de mandato, este a ser julgado por interposta pessoa, que em muito estará de facto impedido de ser inovador e alheio à herança republicana. Para o eleitorado, as coisas ficarão definitivamente mais claras, antes de chegarem ao voto, se entretanto a intervenção do aparelho judicial americano, com a impetuosidade tradicional, desenvolver a identificação dos juridicamente responsáveis pelo descalabro, para mostrar que o Estado está de volta aos domínios da mão invisível, e não apenas com recursos financeiros. Para assegurar que é necessário adjectivar a economia como política, para que a justiça não seja apenas a testemunha dos desastres. Por enquanto, o empate técnico é o nome da perplexidade dos surpreendidos americanos."
Adriano Moreira, DN online

segunda-feira, outubro 06, 2008

domingo, outubro 05, 2008

Este país não precisa de heróis

e como não precisa, arrasa a memória daqueles que procuraram ser uma espécie de heróis, mesmo se por procuração viciada por outrem.
Uma guerra não é motivo de orgulho para ninguém, não o é para os vencidos, mas não o deve ser também para os vencedores. Sobretudo para estes. É um saber feito de cumprimento de ordens, penso eu, de sacrifício por uma ideia que muitas vezes lhes é tão estranha como a realidade contada por uma língua que não se conhece. É um sentido ultra construído do cumprimento de um dever. Mas um cumprimento de dever, assim mesmo. E isto é um feito.
Mas se uma guerra não deve orgulhar ninguém, e se os combatentes não são na era moderna senão uma espécie de heróis, pela debilidade dos princípios ou das intenções que mascaram esses princípios pelos quais são levados a combater, todos e todas os que nela combatem não devem deixar de ser honrados pelos seus concidadãos.
Os cemitérios por essas pequenas cidades e vilas fora tinham os seus talhões de combatentes resguardados em eira de terreno assinalado com símbolos que os irmanava a todos uma vez mais, formando uma companhia de homens da terra que tinham representado Portugal em conflitos que este achara por bem resolver com armas, e que ao morrerem, em combate, ou mais tarde já civis na vida do dia-a-dia, ali encontravam um espaço de reserva e de excepção, um sinal de memória e de apreço. Um sinal vão, e ainda que fútil, eu sei, se tivermos em conta final os séculos, mas um sinal ainda assim.
Mas agora que se embandeirou o espírito do lucro e da posse como forma suprema de representar e assim se entender a forma legítima do governo da coisa pública, esses espaços vão sendo abolidos em nome da democratização do espaço.
O que se perde socialmente com essa realidade não se ganha em consciência pacifista, ou em valores democráticos por se escolher subalternizar os defensores de práticas bélicas na resolução de conflitos, como forma de destacar outras formas da civilidade responder às agressões. Era bom era.
Não, é tudo feito em nome dos interesses imediatos da desocupação dos terrenos, da contenção dos custos de manutenção, da ligeireza no passar um pano sobre as tradições e os costumes que provaram ser úteis para uma identificação das pessoas com o seu passado, com os seus conterrâneos, e com uma sabedoria acrescida para enfrentarem os seus projectos de futuro. Senão somos só virados para o presente. Sacos de plástico vazios a esvoaçar no vento das circunstâncias familiares, sociais, económicas e políticas do presente.
Enfunamos, esvaziamos, serpenteamos, enrolamo-nos, subimos, pairamos, retesamos, caímos e encolhemos. E quando acabar o vento? Onde ficamos nós? Ao lado de quem? E com quem pelo nosso lado?

sexta-feira, outubro 03, 2008

O que pararece ser a União Europeia? O que é: sem federalismo e sem constituição, cada um salva-se como pode.

"Votre avis:
Face à la crise financière, l'Union européenne vous paraît-elle constituer plutôt…

1. un atout, qui permet d'affronter la crise à plusieurs
2 … ou pas un atout, chaque pays tire de son côté
3 Sans opinion"

Pergunta o Le Monde em inquérito on-line ao qual os franceses que participaram respondem:
2... ou pas un atout, chaque pays tire de son côté . 56.8 %

E a capa do jornal traz na capa a seguinte constatação "Chacun pour soi: les Européens se divisent sur la crise financière". O que me espanta então? Não é que haja 56,8% que percepcionam a Europa dividida (uma vez mais) em assuntos de interesse global, mas sim que haja quem continue a acrditar (39, 4% à hora em que li os resultados) na Europa.

quinta-feira, outubro 02, 2008

Com um abraço

Agardeço profundamente a Paulo Carvalho do blog Arte do Perigo.

Raios de luz a cruzarem o meu céu de solilóquios.

Acerca da biografia de Arendt...talvez 1

Uma vez convivi com uma pessoa especialista em Relações Públicas. Ela dizia-me que não havia ninguém a quem não conseguisse sacar informações, e eu acreditava. Contava-me histórias de muita gente, sobretudo das pessoas do nosso meio de estudo, a academia. Eu passava demasiado tempo a ouvi-la, dividida entre o sentimento de náusea e de fascínio boçal. Mas ficava, e nem o "Ai que nojo que isto me mete!", me afastava liminarmente da sua presença. Eu gostava , apesar dos trejeitos como esboço de resistência.
Um dia, alguém que não gostava de mim resolveu subitamente explicar-me porque não gostava de mim, pois achou intrigante que aquilo que eu parecia ser não coincidir com o que ela julgava de certeza que eu era. E falou de mim como se falasse de uma pessoa que eu nunca tinha visto ou conhecido. Aquela pessoa que dizia ser eu, não o era de facto. Não por minha recusa psicológica na assunção das falhas de carácter apontadas, não, ora!, mas porque realmente aquela descrição de factos acerca da minha pessoa não correspondia à minha pessoa.
Vejamos, não era só uma questão de interpretação dos actos, porque aí ficar-se-ia no terreno pantanoso das múltiplas e possíveis versões dos acontecimentos, e isto é algo normal numa sociedade, são formas de convívio, nem ainda por reacção negativa à minha personalidade, porque isso, enfim, é uma questão decorrente da socialização. Mas não era isso, na realidade eram-me claramente imputadas acções que eu nunca realizara em tempo algum em estado de vigília.
Eu, ali, era outra pessoa, não simbolicamente, mas com um outro papel social de facto.
Indicaram-me a fonte e eu percebi que a mesma pessoa que dizia recolher a informação sobre outrem, afinal a estava a criar para a dar a um público ávido onde quer que ele houvesse, a mim, por exemplo, quando sobre os outros, e a alguns outros sobre mim.
Compreendi o poder que há em construir factos e personalidades no grupo social. E contra isso só há uma panaceia: alguém se dar ao trabalho de nos querer conhecer de facto, ainda que esse conhecimento não seja uma senha de entrada no círculo da amizade ou admiração mútua e eterna, mas de conhecimento o mais próximo da realidade possível, tão só, tanto, de resto...
..
Comecei as primeiras páginas da biografia de Arendt fascinada com a história do século XX que aquela mulher conseguiu incorporar no seu circulo existencial, e depois comecei a sentir aquela náusea já minha familiar: o livro desemboca na vontade de contar a vidinha da autora, aquela parte em que se fica no limiar do mexerico e da maledicência. E isso aí é responsabilidade de Laure Adler. Não estou a insinuar que ela tivesse criado os factos, mas que os iluminou excessivamente para a história de uma pensadora. Hei-de tentar explicar melhor isto.

quarta-feira, outubro 01, 2008

A universidade e o forte 5

Vamos então à história dos livros. Nas duas livrarias em que entrei na cidade de Natal os livros não têm o preço marcado. Na primeira, uma assistente leva e traz os livros de cada vez que queremos saber o preço do exemplar seleccionado, na segunda livraria percebi que nós mesmos temos a opção de podermos levar o livro ao sistema informático preparado para assinalar o preço. Questão de hábito. A mim tolhe-me.

No primeiro caso a empregada, simpática e disponível, resolveu pôr-se a uma distância confortável para poder assistir-me imediatamente. Ora para quem não está habituada a ter uma funcionária atrás de si, e para mais a pedir-lhe sistematicamente que leve e traga de volta livros dos quais queremos saber o preço, torna-se constrangedor. A partir de certa altura já tinha vergonha de lhe pedir que me elucidasse mais sobre os preços e dei por terminada a minha busca. Trouxe dois livros. Caros. Os livros no Brasil são mesmo caros. Fiquei a imaginar como é que as pessoas com os ordenados tão baixos conseguem comprar os livros a preços europeus! Sempre imaginei que aquele mercado gigantesco, com uma capacidade de tradução espectacular, conseguisse pôr no mercado livros mais acessíveis economicamente, mas qual o quê!

Bom, nessa altura um dos livros que adquiri foi a biografia de Arendt , escrita pela francesa Laure Adler. Comecei imediatamente a lê-lo, e nos dias brasileiros de sol, vento e água, Arendt na sua vida na Alemanha e nos Estados Unidos acompanhou-me.

Ir-me-ia arrepender de não ter comprado a edição em francês, mas mesmo se em francês penso que a perspectiva de Adler ir-me-ia sempre irritar. Passo a explicar a primeira afirmação.

A tradução aqui e ali dá conta do vocabulário coloquial brasileiro com as suas idiossincrasias, o que me burilou os nervos. O problema não está propriamente na tradução como acto, que na realidade respeitou o vocabulário comunicacional brasileiro, está é no facto de eu não conseguir imaginar Arendt a utilizar certo vocabulário do estilo "novela das nove". Não posso dar exemplos específicos porque não tenho o livro agora comigo, mas imaginamo-la a dizer por exemplo:"O cara quis me paquerar", ou coisa que o valha?


Não é tanto um preconceito contra a tradução brasileira em geral, mas contra o uso de um certo tipo de linguagem que é notoriamente cultural e remete para um registo que, aos ouvidos de um português, dos meus ouvidos pronto, denota um discurso pouco rigoroso e pouco fidedigno.
Na realidade, quando eu fiz a licenciatura éramos alertados para não comprarmos traduções brasileiras, não só porque era suposto lermos as obras na língua original, por questões hermenêuticas, mas também porque fomos ensinados a desconfiar da fiabilidade das traduções.
Hoje que o domínio de traduções em português do Brasil continua a expandir-se a uma grande velocidade, por contraponto à velocidade de caracol das nossas, e que os académicos e as universidades brasileiras ganham visibilidade e qualificação reconhecida globalmente, já não se anuncia da mesma forma esse aviso, mas permanece como um sinal de certo obstáculo cultural.
Há que não esquecer, como fez questão de lembrar o Prof. António Fidalgo da UBI, que só na cidade de São Paulo, por exemplo, há tantos investigadores em Cncias da Comunicação como em Portugal inteiro!! Mais gente, há muito mais tempo a trabalhar nesta área, e muito boa.


E depois também não gostei propriamente da biografia. Mas isso fica para amanhã.

segunda-feira, setembro 29, 2008

"Em essência nada distingue os extorsionistas profissionais dos bairros sociais das Quintas da Fonte dos oportunistas políticos que de suplicância em suplicância chegaram às Quintas do Lambert. São a mesma gente. Só moram em quintas diferentes. Por esse país fora."

Mário Crespo, Pactos de silêncio, in JN

sexta-feira, setembro 26, 2008

Hoje descobri este autor,William Isaac thomas, não conheço é os fundamentos da afirmação, mas...

que ela é deveras pertinente como objecto de análise (que o digam os relações públicas e os "spin doctors", lá isso é). E fascinante também.
Agora resta ainda saber quem são e como se caracterizam estes "men" aqui utilizado.


"It is not important whether or not the interpretation is correct--if men define situations as real, they are real in their consequences." - Thomas theorem

quinta-feira, setembro 25, 2008

É a política

Alguns analistas fazem coro com alguns políticos e dizem, como o presidente Lula da Silva, que é a hora da política (subentende-se sobre a economia). Ora como outros comentadores compreenderam, e com os quais eu partilho o seu ponto de vista, nunca deixou de ser a política sobre a economia, nunca. O que aconteceu foi uma política a favor de uma determinada economia. E quando hoje se ouve os discursos do Presidente Bush sobre o papel das nações na organização onde elas se encontram representadas como unidas, o que está em jogo não é uma nova visão política e económica, mas sim uma continuidade da mesma política, porque quando se ajuda a salvar interesses privados com dinheiro público, não se está só a pôr em prática o princípio de solidariedade social, no sentido em que a crise dos ricos será a tragédia dos pobres, mas a perpetuar a ideia de que a existir Estado, este deve estar ao serviço do interesse dos mais fortes, ou dos mais bem sucedidos em técnicas de negociação, que podem bem ser as que assentam na ideia que todas as pessoas da comunidade estão reféns do seu sucesso.
Ora a banca e as seguradoras que falharam (e eu própria como segurada da AIG filiada em Portugal tenho nesta interesses especiais) estão a ser de certa forma premiadas mesmo pelos seus erros de má gestão e de abuso de confiança dos dinheiros dos seus investidores, com recurso aos dinheiros públicos que estão a ser desviados de outras aplicações que poderiam até ser a médio-longo prazo, mais rentáveis: saúde, educação, justiça, infra-estruturas, etc. É claro que eu vejo que essa serve para atenuar ondas de choque mundiais, mas não deixa de ser a mesma mensagem política: não há interesses públicos que se sobrepunham aos interesses dos privados bem identificados, mesmo quando estes interesses afectaram os seus próprios recursos e lucros. A política é a mesma, e tanto os serve haver menos estado para lhes cobrar menos impostos e regular com frouxidão os seus negócios, como a presença de um Estado que no momento certo e conveniente os capitaliza. É o Estado oligárquico, disfarçado de social.

O que eu proponho: a responsabilização imediata dos envolvidos em cargos de decisões que conduziram os seus interesses, e o da sociedade, a este lugar; e a procura de novos teóricos económicos na defesa do Estado social, ainda que não tutelar, paternalista ou determinista.

terça-feira, setembro 23, 2008

A universidade e o forte 4

A universidade é a de Rio Grande do Norte. Uma universidade enorme, numa cidade de que fiquei a gostar. Os edifícios espalham-se pelo terreno em extensão. Edifícios utilitários a lembrarem-me um pouco a atmosfera arquitectónica de Berlim Leste antes da queda do muro, mais até do que a nossa arquitectura de Estado Novo. Mas só os edifícios são assim percepcionados, porque dentro deles faz-se luz e dá-se o constraste pela vivacidade de grupos de jovens faladores e animados, na sua grande maioria vestidos de forma muito prática sem grandes preocupações com as marcas da moda ou com o estilo.
Nada sei sobre as suas aulas. Estive de passagem por um congresso da Intercom. Ao almoço, na cantina geral, um reboliço pelas regras novas que toda a gente na fila explica pacientemente: entra-se com uma senha para um espaço central no átrio do edifício que fica numa zona mais elevada onde se encontram as mesas com a comida exposta, depois seleccionamo-la, "Vá, por favor, não fique meia-hora para se decidir", vamos pesá-la, e toca logo a procurar um lugar com o prato na mão em equilíbrio com os talheres.
À mesa, que escolhemos por ter o menor número de louça dos comensais anteriores e o menor número de migalhas na toalha, aliás cedida por gentileza por duas professoras que estavam a terminar o seu almoço, há-de vir um empregado perguntar o que queremos beber. Findo o prato principal o mesmo empregado virá propor-nos a sobremesa, e quando terminarmos iremos com o nosso papelinho a uma caixa registadora onde estará já a indicação do que consumimos, pela indicação do número. À saída entregamos a senha a outro empregado e terminámos o almoço.
Por todo o lado a festa do português, claro. É um orgulho imenso olhar todas aquelas caras jovens, desconhecidas, e até então inimaginadas, e ouvi-los falar português.
Por mim, não conheço melhor proposta para se entrar num país que não seja pela porta de uma escola. São gostos pela universalidade.

Entrei na livraria e comprei dois livros. Mas esta há-de ser outra história.

segunda-feira, setembro 22, 2008

O seu voto, não obrigada, em nome de...cidadania partidária.

José Pimentel Teixeira chamou-me a atenção para este assunto do qual eu andava completamente distraída: a alteração da lei eleitoral, desta feita para pôr fim aos votos dos emigrantes.
Numa Europa sem fronteiras à qual pertence Portugal, não há como pôr mais este travão à participação na política nacional dos cidadãos portugueses a trabalharem no exterior, é com certeza com boas intenções, é a mentalidade do poder português: a que se pode denominar de "a cerca" intelectual. Um filme que já vimos diversas vezes antes e que tem novo remake, desta feita com o partido socialista na cabeça de cartaz.
Viva a democracia participativa!

Uma conferência






organizada pela ADDHU .

sexta-feira, setembro 19, 2008

"epiniões" quem as não tem?

Texto curioso este sobre o fenómeno das "epiniões" - as opiniões divulgadas on-line por um conjunto alargado de pessoas que não são críticos profissioanais.
O trabalho A Comparative Study:Does the Word -of-mouth Communications and Opinion Leadership Model Fit Epinions on the Internet? de Yan Jin, Peter Bloch e Glen T. Cameron, procura identificar os dois tipos de "epiniões":1. As pagas e 2. As gratuítas.
Explora ainda os motivos que levam as pessoas a emitir opiniões na internet, sendo que uma das causas assenta na ideia de que os seres humanos têm uma tendência básica para prestar ajuda a outrem sobre matéria em que nos julguemos especialistas (John Shuler, Psychology of Cyberspace).
Veja-se como é que isto mina a teoria neo-conservadora centrada na ideia de auto-suficiência dos mais aptos. Claro que também não se escamoteia a hipótese de muitos dos supostos especialistas nada mais desejarem do que sentir a sensação de poder que consiste em dar opinião a outrem.
Esta linha de interpretação escapa às directivas da investigação clássica sobre a questão das influências, que, desde Lazarsfeld e Katz, assentam na aplicação de testes sociométricos e entrevistas, mais do que no escrutínio das intenções/motivações do sujeito que emite opinião. Penso eu que também estes autores não problematizaram a questão do "Speaker`s Corner ", que, nesta era digital ganha em quantidade, quer de participação quer de multiplicação de discursos que não são pedidos necessariamente por ninguém (ou serão, quando se faz uma busca por termo?).

segunda-feira, setembro 15, 2008

A Escola

Começou o novo ano escolar e o processo já assente de sujeitar os professores à função de terapeutas ocupacionais: acho que a isto chamaram ufanos os defensores deste Ministério, "A reforma da educação". Ninguém se apercebeu, ou quis aperceber-se, o que escondem as promessas tecnológicas (irrealizáveis no seu todo no quadro do orçamento de Estado para a educação, basta fazer as contas àquilo que se diz que há-de vir para a Escola), nem as amostras qualitativas da quantidade de alunos que os professores fizeram passar este ano, nem a sujeição científica às regras do compadrio da nova avaliação de professores.
O filósofo José Gil definiu bem a situação dos alunos portugueses, sobretudo o caos pedagógico que trouxe o vento das Novas Oportunidades, cujos programas têm uma linguagem esotérica: trata-se da atribuição legal de um diploma assente em bases de uma fragilidade académica que deixa todos os professores estupefactos pela inconsistência. Mas, como dizem os artistas, "The show must go on".

domingo, setembro 14, 2008

Ligações

Já saiu o nº 2 da revista "Sem correntes" editada por João Ferreira Dias, uma revista digital que toma por tema a lusofonia e onde tenho o gosto de escrevinhar, desta feita sobre as questões de insegurança social e pessoal.


No blogue A la Gauche, por convite de João Ferreira Dias, tenho deixado correr o pensamento sobre essa questão de "ser de esquerda". Como não sei bem o que significa essa pertença, tenho-me desdobrado na resposta à questão. Tenho um gosto imenso com o tema e com o meu parceiro de escrita.

sábado, setembro 13, 2008

A coruja nordestina


Obsidiou-me, mas não sei se voa ao entardecer. Não me diz, a malandra.


A obra é de Ana Selma.

O bode expiatório

Os Estados Unidos são a melhor salvaguarda discursiva de todas as figuras autoritárias no mundo, porque permitem que aqueles os dêem como a causa de todos os males que cai sobre o seu próprio povo. Assim, pode-se desgovernar um povo em nome do governo dos Estados Unidos.
Confesso que ser bode expiatório num mundo governado por pessoas como Chávez deve ser uma honra para os americanos, ainda que seja uma desgraça para os povos sob o jugo. Mas se for a votos, diz-me amiga Venezuelana, Chávez ainda ganha com uma margem parecida à da MPLA em Angola.
A democracia é linda. Disso não podemos nunca duvidar, sobretudo quando é difícil.

A universidade e o forte 3

Ana Selma é uma artista plástica de Natal que criou entre outras obras, um bicho , "a coruja", sendo que uma das quais me ocupou a mente durante um dia inteiro e da qual eu sou agora uma feliz proprietária.

-Ana, vocês têm uma cidade sui generis. Mistura de cidade americana com apontamentos europeus de influência arquitectónica portuguesa, visível sobretudo nos edifícios públicos.
- É. Nos últimos anos tem muito português vindo para cá e comprando casa. Dizem-me que se não fossem eles a recuperar os edifícios que eles estavam por aí ao abandono; eu pergunto-lhes então porque razão eles têm tantos edifícios abandonados no seu próprio país!

quarta-feira, setembro 10, 2008

A universidade e o forte 2

- Sr. Milton, vejo muitos e grandes cartazes a anunciarem que o governo central, o governo do estado ou a prefeitura está presente numa ou noutra zona da cidade.
-Pois há, agora que há eleições puseram cartazes por todo o lado.
-E eles fazem de facto alguma coisa?
- Que nada, é só promessa e anúncio bobo.
- Mas eu vi um cartaz desses ao lado de um terreno onde estavam de facto aí uns duzentos homens a construirem uma escola anunciada.
- Não, o que você viu foram homens a começarem a construir algo que logo depois das eleições vai ser abandonado. É só promessa mesmo de obra, sabe, não é obra não.



Conversa com motorista nodestino num destes últimos dias.

terça-feira, setembro 09, 2008

A universidade e o forte 1

- Diga-me, Sr. Francisco , o que representam as bandeirinhas à frente das casas?
- Então..., vermelha é do governo e amarela é da oposição.
-E a verde?
- Ah, essa é do povo mesmo.
- E a azul?
- Não tem.
-Não?! Mas eu já vi. E o que é isso de a verde representar o povo?

- !!
Olhe, as bandeiras estão lá para dizerem aos candidatos que as pessoas estão vendendo o espaço de mostrar bandeirinha.
-Ai é?! Mostra-se a bandeirinha a troco de dinheiro?



Uma conversa tida com um motorista brasileiro nordestino por um destes dias passados.

sábado, agosto 30, 2008

A ferida 4

Törless humilha um colega em nome de um princípio moral, da ideia de excelência e necessidade de magnificência do ser humano sem mácula, sem sinal de queda em labirintos pulsionais. Ele explora essa humilhação até ela se tornar tensão erótica e exploração da natureza de outrem ao procurar possuir e deixar-se possuir sexualmente por essa pessoa. A aparente indiferença, aquela marca de crueldade usada para com outrem que se percebe não estar a deixar traço num carácter que demonstrara já possuir impulsos inertes quanto ao valor de normas morais que orientam a sociedade, levou Törless a assumir o impensável: vou viver pela pele do outro o que aprendi a repudiar e sempre repudiarei para a minha própria pele. O outro cairá por mim no caminho que seguimos os dois.

A maldade dos outros colegas, que Törless considera bestial, sem finalidade a não ser a da utilização bruta do poder sobre uma vítima, responsável pelos seus actos, mas vítima acima de tudo da exibição arrogante da posse do seu destino por outrem, pelo concerto da sua existência num espaço social definido por hierarquias das quais ele era um peão moral (o crime cometido por um desafortunado na classe social não seria entendido da mesma maneira se ele fosse um herdeiro de uma família poderosa), não é inferior à violência de Törless. Ele pensa que sim, porque aquilo que sente, e o que experimenta, convoca-o perante si próprio de uma forma perturbadoramente nova, e temível pelo que abre de hipóteses sobre as hipóteses, sem redenção, de vidas sujeitas às mais ocultas e desonradas paixões, à luz dos princípios de uma vida moral e virtuosa. Não deixa de ser igualmente culpado. A aprendizagem da descida ao inferno não justifica que para isso se arraste alguém connosco, para nos servir de senha de entrada nesse universo.

Portugal, parece-me, anda a fazer consigo próprio demasiadas experiências de obscuridade, e não se vislumbra nenhuma lanterna que alumie duas vezes, para assinalar a porta de saída.

quarta-feira, agosto 27, 2008

A ferida 3

Por mais que leia sobre o assunto não consigo desenvolver uma opinião sobre o que se passa no Cáucaso, aliás a única referência que tinha deste nome remete-me para as aulas de cultura clássica, tendo-me deixado isso um maior conhecimento do registo mitológico e um grau menor acerca da realidade presente que envolve a geórgia de que nada sei.
O que poderei dizer além do discurso de cartilha e que assenta na defesa dos princípios das regras da Carta das Nações Unidas? Só posso repetir o mesmo de cada vez que surgem conflitos, pois não conheço outra forma de unificar a acção mundial em prol de atitudes de não agressão.

Na realidade, a permissividade relativamente ao mau uso que se faz desses princípios deixa-nos mais desamparados perante a adversidade sob a forma de interesses nacionais em expansão. Isto diz respeito a qualquer nação com instintos imperiais, e a Rússia tem uma longa história de interesses a defender, e de vontade de mostrar a força da sua nação. Pessoa conhecida contava-me como em conversas com um cônsul russo numa nação estrangeira se apercebeu dos ânimos nacionalistas exacerbados, e de um discurso ultranacionalista a varrer a nação, com os mais jovens a integrarem o processo. Vontade que o seu nome conte no mundo, sob qualquer pretexto.

O pupilo Törless recusa-se a compreender o sentimento da condescendência para com as faltas morais. Ele intuiu que a permanência de um acto que constitua matéria de punição no círculo habitual da vida, como se fora uma faceta mais da existência, abria a porta não para a excepção do acto em si, mas para a manipulação da vida como ela era dita dever ser. E a passagem entre o "mundo claro" do quotidiano e esse mundo "obscuro, ardente, de paixões, despido, aniquilador." era do mais fino papel de arroz, e coexistia como possibilidade sempre presente em cada acontecimento. p. 92

terça-feira, agosto 26, 2008

A ferida 2

Há uma personagem no livro que acabei de ler há dias As perturbações do Pupilo Törless que está num período da sua vida em que se encontra a transitar entre as várias percepções que possuia anteriormente acerca da existência, e as que lhe chegam agora de forma abrupta; aquelas tinham-lhe servido de aconchego na sua infância, enquadrando afectos e pertenças, estas outras manifestam-se no presente sob outra luz, sujeitando-o à experiência de viver uma fase de transmutação, quer sobre aquilo que a si próprio diz respeito quer sobre os que o rodeiam. Ele persegue atentamente esses estados que ocorrem sob " vertigem interior", onde gestos, histórias passadas, valores e pessoas, se representam novamente de uma forma enovolada mas sem nós, e que ele define como produto de um "brilho irisado do espírito". Nestes momentos diz-nos que se sente como um santo se deverá sentir com as suas visões ou um artista com as suas intuições. É um adolescente na posse das recordações suficientes que permitem à sua imaginação recriar um mundo paralelo tal como ele também poderá bem ser. A estes estados o autor da obra, Robert Musil, denomina-os de perturbações.
Törless pergunta-se:"Os adultos também serão assim? Será o mundo assim? Será uma lei universal o existir em nós qualquer coisa que é mais forte, maior, mais bela, mais apaixonada e mais obscura que nós? Qualquer coisa que dominamos tão pouco que apenas podemos espalhar milhares de sementes sem objectivo, até que subitamente saia de uma delas uma chama escura que cresce muito para além de nós? E em cada nervo do seu corpo vibrava, como resposta, um impaciente "sim"." p. 155

domingo, agosto 24, 2008

A ferida 1

De tanto falar mal de si próprio, Portugal aliena a consciência que tem de si, transforma o mal num fado, em entidade metafísica que nos suplicia reiteradamente em certos momentos históricos*, ao invés de o identificar essencialmente como uma falta material ou uma falta social que precisa de ser suprida e para tal há que saber qual a meta e qual o método a utilizar para o fazer acontecer.
Acreditar que a economia só por si dará o impulso necessário a uma reforma dos comportamentos e das atitudes é esquecer o que da nossa economia tem o selo dos próprios que dizem mal de si e dos seus, num equilíbrio de ébrios. Mas procurar uma história nova também sugere engenharia de povos, coisa de péssima memória.
Os valores antigos que o hino olímpico homenageia do" verdadeiro, o belo e o bom" não passam de nozes para esquilos no quadro mental que orienta as nossas instituições postas a nu nestes jogos, e se o voo de gazela de Évora ou a corrida de lebre de Rodrigues constituiu um bálsamo para a ferida comunicacional aberta, esta não devia fechar como se nada tivesse acontecido, como se as gentes lusas não tivessem ensandecido, pedindo aos atletas que fizessem aquilo que elas próprias não fazem com a sua vida: sejamos pois responsáveis e consequentes. Não é fácil, não.
*Patético o desabafo do poder, na pessoa do nosso primeiro-ministro, quando este assume que as circunstâncias históricas lhe são adversas, a ele que controla tão bem a auto-promoção como não consegue controlar a história.
P.S. Marco Fortes foi meu aluno. É um estudante do ensino nocturno que não utiliza o seu estatuto de atleta de alta competição para justificar a sua ausência às aulas. Um aluno inteligente e, como quase todos as pessoas que eu conheço deste país, com uma noção de valores éticos de trabalho e de sacrifício um pouco baralhados no discurso. Não é uma desculpa, é uma constatação. Não é um bode expiatório, é um vislumbre de realidade. Mas vamos ver como depressa se há-de pôr essa realidade para debaixo do tapete e se há-de ignorar como tudo isto é uma questão de falta da nossa educação.

segunda-feira, agosto 18, 2008

Ideias cata-vento procuram ponto fixo 2

E no entanto a atitude de cata-vento do ideal político contemporâneo gira sobre um ponto fixo. Reparo na estética festiva verdadeiramente imperial dos jogos olímpicos chineses (que só espantou a quem não acompanhou a linguagem do cinema chinês contemporâneo como é por exemplo o caso do belo "Milho vermelho", ou o soberbo "lanternas vermelhas" e o perfeito "adeus, minha concubina") que se cruza com um um comportamento social herdado no sentido de autoridade totalitária interiorizada com Mao, que repudiaria as representações destes jogos mas não os seus efeitos na comunicação mundial. Temos pois as máquinas imagéticas dos dois sistemas políticos mais longos e conhecidos da história da china a intrecruzarem-se para afirmação do poder da sua casa nacional, mas que concedem aos símbolos universais o seu lugar, o ponto fixo à volta do qual evoluem os actores e os acontecimentos diversos: senão veja-se a concessão à ideia de união planetária, o tomar a pomba por arquétipo colectivo de união e paz, numa cultura que por si privilegia um animal mítico como o dragão.
Quer isto dizer que todos os líderes do mundo sabem já de cor a cartilha das declarações universais e dos convenções internacionais, porque os seus povos a isso os instigam, a questão está agora em agir sabendo que se incorre em falta grave contra o espírito dos princípios universais, aproveitando o desvario, a inércia ou a impotência geral, seguindo o modelo dos poderosos que abrem excepções às regras a cada momento do seu exclusivo interesse particular. E o que é mais tenebroso é que muitas das vezes são as suas populações que lhes dão licença para o fazerem. Ninguém disse que a democracia é perfeita como sistema de governação. Ninguém o pode dizer. Mas menos que isto é que não, também, de todo.
Mas como melhorar o sistema político democrático?

domingo, agosto 17, 2008

Ideias cata-vento procuram ponto fixo 1

As ideias do século, da década, do ano, do mês, da semana, do dia e até da hora.
As ideias da superstrutura, da infra-estrutura, do id e do ego, da história universal e as da história nacional, a cultura do grupo, da família, dos amigos, da escola, da igreja e das associações. As ideias da moda e as ideias que se querem intemporais.
As ideias culturais e as estruturais, as do sistema e as individuais, as gerais e as particulares, as extensas e as intensas, as objectivas e as egocêntricas, as subjectivas e as desinteressadas, as materialistas e as imaginosas, as dialécticas e as maniqueístas.
As ideias pragmáticas e as ideias desinteressadas.
Ideias cata-vento que mesmo em convenções políticas internacionais não nos indicam o norte apenas nos mostram de que lado sopra o vento. Há-de ser importante, para quem é pescador.

segunda-feira, agosto 11, 2008

convenção

Partindo do princípio que a nossa linguagem é uma convenção, o que há então da nossa linguagem pessoal que não seja em si uma convenção imposta por um dos múltiplos grupos da nossa socialização? O que há então de original, de pessoal e de único num ser que fala mas não inventa conceitos, apenas os repete e para mais num cruzamento reduzido entre si de vocábulos? Quem somos de facto, nós os que falamos e proclamamo-nos como de uma identidade, para além do que socialmente é expectável que sejamos? E o que de rebeldia relativamente a esse facto não passa de propensão para a delinquência por preguiça, obstinação na contrariedade como marca, ou mera sujeição a outra forma de existir, dita alternativa? Que parte do meu eu, por exemplo, não é o de todos os outros que possam reclamar um relacionamento comigo? Quem me dá as palavras para a voz da minha consciência? Qual a fonte que me permite dizer que concordo, ou que não aceito, que sei, ou que ignoro? Mais... quem tem o poder de mudar o meu comportamento, de alterar o meu estado de espírito e de exacerbar as fraquezas e vilanias ou as consistências benfazejas do meu carácter?

Naquele tempo tínhamos que ler o Vol de nuit de Saint-Exupéry em francês. Eu lia o livro como que tem uma dor de dentes mansa que mói mais do que dói. Um dia, no intervalo das aulas alguém do liceu me passou para as mãos a tradução do livro em português. Lia as sensações do piloto sobre uma fuselagem tremente e o meu cérebro tremente de prazer pelo ganho de sentido.
É em português que eu sinto o que os outros dizem que sentem. Mas não preciso da língua para entender a dor que pode afligir outrém. E sobre a dor das pessoas eu não me questiono pela sua legitimidade. Será verdade isto? E se eu ousar e afirmar a natureza convencional da dor? Eis como se pode praticar o mal, ou justificá-lo. O atrevimento sem causa.

sábado, julho 19, 2008

Formulação tão precisa, confesso, não conhecia. Hoje já não consigo, mas preciso de pensar sobre esta frase no livro Pensamentos secretos de David Lodge: "Pelo menos Messenger tinha-se dado ao trabalho de votar(um voto táctico, no candidato liberal-democrata de Cheltentham), mas para ele o resultado não passava do menor dos males possíveis. Sentia um profundo desprezo pela política e pelos políticos. Os políticos, defendia ele, eram a maldição da idade moderna, tal como a religião o foi em tempos passados. Pense-se só na patente imensidão de miséria humana causada pela política ao longo deste século - na Europa central, na Rússia, na China, em África - sustentava retoricamente." p.287

Quem o "diz" é uma personagem de Lodge, Ralph Messenger, do livro supracitado, um cientista e académico de renome na área da filosofia da mente que, dirigindo um laboratório de pesquisa da área, não se coíbe de pressionar a universidade a atribuir um doutoramento honoris causa ao ministro da defesa que financiava uns projectos do centro. Seja como for, e apesar desta duplicidade de entendimento sobre os políticos, a ideia merece mais conversa.

quinta-feira, julho 17, 2008

Sim, sim, sim, não , não, não

Mas então qual a solução para que deixemos de nos sentir constrangidos com a memória daqueles cãozinhos de pelúcia que nos olhavam a partir do vidro de trás dos Austin Mini, por exemplo, e acenavam com a cabecita para cima e para baixo numa submissão ao movimento de deslocação do carro onde estavam postados, lá pelo fim dos anos setenta?
Ou então, há que interromper o fluxo noticioso com artigos de fundo que permaneçam no tempo mais do que o tempo de uma notícia, mesmo se nisso só haja interesse de um grupo reduzido no auditório a quem possa dirigir-se? Não.
Os media não têm que comportar-se como meios institucionais na defesa ou promoção de valores ou de acontecimentos cívicos. Eles não são promotores de crenças civilizacionais, a não ser a de que (re)produzem produtos noticiosos para consumo. Que depois neste processo se ganhe algo mais do ponto de vista da política e da sociedade para além do que o que estava previsto inicialmente, se ganhe, por exemplo, consciência da importância da liberdade de expressão, se ganhe gosto interesse pela coisa pública e se abalance para o desenvolvimento da vontade da participação política, tal já é outra coisa.
Caberá aos grupos de cidadãos reunirem-se e fazer com que os assuntos que os interessa tenham um tempo de visibilidade junto das comunidades superior ao tempo que decorre da apresentação do acontecimento noticiado. É daí a importância dos meios digitais na actualidade. Um grupo pode permanecer com o tema Darfur, por exemplo, ou Tibete, ou Ruanda, mais tempo do que o tempo que interessa aos cidadãos que por esses temas não têm senão um interesse relativo.
Mas esta existência de facto de instituições que pegam em temas e os trabalham de forma sistemática e ininterrupta, não retira a pressão sobre o cérebro de que escuta os media. Pois mesmo que se saiba que por detrás de cada acontecimento há a possibilidade de encontrar uma equipa que investiga e trabalha com precaução e saber esse tema, na verdade o nosso tempo não chega para os conhecer, ou para acompanhar pacientemente a resolução das crises ou das dificuldades apontadas, e que pode durar décadas.
No tempo das crises inopinadas quer-se, eu quero, soluções imediatas. Mas depois fico estupefacta com a "supimpa" falta de vergonha dos que vêm ligeiros aproveitar esta necessidade infantil e acreditam, ou querem fazer alguém acreditar, que sem esforço, trabalho, pesquisa e muita discussão quanto à validade da conclusão, se pode chegar à resposta certa. E quando as coisas correm mal, não é o seu método de de agir e pensar que está errado, não, a realidade é que está louca.
E não é que às vezes ela troca mesmo os passos aos sistemas? Eu gosto de gostar de Hegel, não é? Ou não?

quarta-feira, julho 16, 2008

Os acontecimentos. A vida política parece ser feita de solavancos, empurrada pelas notícias dos media, ou empurrando os media de acordo com as suas notícias. Alguém me dizia que sempre que lia uma notícia se perguntava: "Quem lucra com esta notícia? Quem a pôs cá fora?"
É óbvio que cabe a um político estar atento à realidade e esta chega a maior parte das vezes através dos media, uma realidade que já é em deferido, mas que de certa forma colmata a nossa falta no que a um dom de ubiquidade diz respeito. É óbvio que cabe a um político transmitir a sua mensagem e isso faz-se através dos meios disponíveis, hiperfigurados nos media. Mas, se cada um fizesse bem o seu trabalho não me pareceria haver tanto solavanco conversacional, mediático e político. É como se um fosse a Nêmesis do outro, ou, menos trágico, a memória um do outro. Ora, esse movimento é desconcertante no que ao estabelecimento de modelos de pensamento e de acção diz respeito: demasiada informação para ser compreendida, demasiada cedência ao tempo descontínuo das notícias, demasiada similitude do discurso político ao discurso que cabe num título de jornal.
Assim arrastamo-nos para a notícia do jovem criminoso preso em Guantánamo, como se nunca tivéssemos tido notícias de Guantánamo que configuravam abusos jurídicos e éticos, depois giramos para as notícias de violência urbana, como se nunca tivéssemos sabido que esse tipo de confrontos é frequente, sobretudo num bairro que tem uma escola onde continuadamente os professores são "convidados" a silenciarem-se sobre a violência que sobre eles recai, e dos quais só se interessa o país das notícias quando um deles, por acidente ou por saturação aparece finalmente em primeiro plano, depois saltamos para a questão da proposta de produção de energia nuclear que entra na agenda por causa do preço do crude, mas, mesmo a propósito porque a crise é global, temos a notícia de que os portugueses gostam de brincar com um carrinho novo em folha, e vai daí dão que fazer à indústria automóvel e concessionários, depois cai um prédio ou arde outro e fala-se da falta de urbanismo como se não estivéssemos fartos de o saber, ou dos abusos dos dinheiros públicos em empresas privadas ou públicas, ou do enceramento do caso da pequenina Madeleine, como se não soubéssemos que as práticas de investigação dependem da sorte que se tem com a equipa que nos calha em destino, mais os seus humores, e menos o respeito por protocolos rigorosos e universais sobre os procedimentos habituais, isso mesmo acontecendo com a equipa médica quando chegamos ao hospital, ou com o advogado ou o juiz, o professor ou o senhor da repartição que nos vai atender, andamos sujeitos à lei da tômbola existencial.
Hoje li como o Deus monoteísta sobrevalorizou as suas qualidades, assemelhando-se à ideia de um Deus. Tão engraçada a ideia de um deus à procura da sua personalidade.
As notícias têm que ter este ritmo, para nos darem a ilusão que nos dão uma visão periscópica da realidade, mas ou nós lhe ficamos indiferentes, como quem olha sem reagir a areia a passar de um cone para o outro da ampulheta, ou como burro que não reage às zurzidelas da chibata nas orelhas, ou temos que exigir uma outra continuidade na solução dos problemas e no tratamento da notícia que não se compraz com a velocidade da informação-
Li hoje no Público uns textos muito simpáticos sobre Bronislaw Geremek. Não o conhecia, nem de nome. Escreveram que era um grande medievalista e um europeísta convicto. Teria pois uma noção de tempo de acção político curiosa. E tenho pena de não saber mais nada.
Al Gore, no livro já aqui citado, relaciona a perda do pensamento crítico com a perda de influência da imprensa se tomada proporcionalmente com a forte divulgação da mensagem por outros meios de comunicação. Mas eu julgo que nem será por aí, pois se é verdade que na palavra imprensa é-nos dado um tempo mais longo de reflexão, abrir um jornal pejado de opiniões, sem que estas remetam para as respectivas teorias que as fundamentam, podem ter igualmente um efeito suspensivo da razão.
Mas não é isso que também faço aqui neste espaço, contribuindo com mais desordem no universo do significado? É.

terça-feira, julho 15, 2008

Conhecer o facto de que se pratica o mal não é, infelizmente, impeditivo dessa prática. Quem nos dera que assim fosse.
Porém, reconhecer que se pratica o mal, e prová-lo, é algo que ajuda muito.
Quando certos líderes retrocedem no universo dos direitos e das liberdades, conhecendo bem os efeitos que isso possa ter, outros há que não desistem. Hoje por Darfur, amanhã pelas vítimas de qualquer outro entulho moral.
Este senhor anda a contar as "armas" com que há-de preparar a sua continuidade, sem que se oiça da sua boca nada mais a não ser generalidades e ideias feitas sobre a lei da imigração (ou sobre as centenas de mortos de jovens pessoas que sonham com a Europa embarrilados pela escassez material da sua sociedade e pela ganância de exploradores pouco escrupulosos do seu sofrimento), sobre o processo social nos países muçulmanos, ou sobre a crise da economia e da política europeia, de que o Tratado de Lisboa é apenas a ponta do icebergue.

segunda-feira, julho 14, 2008

"É preciso não ficar indiferentes", diz-nos a jornalista Alexandra Borges quando fala sobre o destino dos meninos escravos do Gana, em reportagem que se repetiu hoje à noite na TVI. É preciso fazer o quê para não ficar indiferentes e que na realidade consubstancie o sentimento de não ficar indiferente?

E se para além das penalizações criminais e jurídicas só nos restar como armas os modelos de cultura que reprovam essas ignomínias, o que fazer quando os próprios líderes dessas comunidades põem em causa o trabalho de décadas na construção de atitudes que se baseiem na frágil fundamentação da universal rejeição da exploração da pessoa pela pessoa, e, ainda mais grave, da exploração de uma criança por um adulto?


Se as ideias que defendem a reprovação social da escravatura forem postas a par de outras, enquanto conceitos negociáveis, com as quais certos dirigentes jogam de acordo com as circunstâncias e os interesses do momento, então a confusão e a vacuidade passam entre si, como se por osmose.
Como construir instituições contra os líderes de sociedades as quais já atingiram elas próprias um nível moral superior aos daqueles e que lhes custou décadas de aprendizagem pelo sofrimento?

Hoje nasceu o belo e amável Gonçalo, em Portugal. Sorte a nossa, sorte a dele.

domingo, julho 13, 2008

Dentro do pequeno lago de plástico quatro peixes vermelhos volteiam harmoniosamente. Põe-se-lhes comida e um ensandece e persegue durante minutos os outros três num frenesim que não dá descanso. Não come nem deixa comer.

A ida à cooperativa agrícola é uma colagem aos cheiros e à vivência do passado, não só porque muitos insistem, por nenhuma razão ideológica assim o entendo mas sim por apego inerte a um nome, a chamar-lhe "grémio", como ainda por os produtos estarem todos aos molhos como sempre estiveram, e cheiram como sempre cheiraram os adubos e os pesticidas, as madeiras e os plásticos, dos fitomarcêuticos às mangueiras e alfaias, passando pelas rações para animais ou pelas sementes embaladas em carteirinhas vistosas, abandonado que está o gavetão de madeira a abarrotar de futuras semeaduras; tudo aquilo se ajeita num caos funcional, enquanto são inspeccionados por homens entendidos, muitos deles agricultores de fim-de-semana, de meia idade, barrigudos, quase todos, muitos de boné a condizer com a camisa de riscas aberta até meio do peito. Um mundo que está de passagem.
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Os artigos que se escreveram na imprensa sobre o livro de Margarida rebelo Pinto a dizer mal do livro de Margarida Rebelo Pinto! Se o livro tivesse sido bem recebido pela crítica a autora não poderia ter maior visibilidade do que a que teve nos media portugueses. Para mim é um mérito. Se não um elogio à sua arte como escritora pelo menos à sua arte com relações públicas que se representa enquanto determinada personagem na cultura portuguesa, como dizer?, uma personagem incontornável. Ah, pois, a palavra é incontornável para o ciclo de críticos.
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Numa coisa, que ouvi em entrevista na rádio Clube, não concordo eu com Rebelo Pinto: dizia a autora que o facto de Portugal ter escapado a uma grande guerra terá de certa forma coartado o nosso ímpeto reformista ou transformador da realidade. É no entanto claro que esta teoria é defendida por pessoas urbanas, provenientes da classe média, média-alta. Qualquer rural mais velho sabe que a Grande Guerra se não trouxe a morte e a destruição dos edifícios de vilas e aldeias portuguesas, trouxe igualmente a fome e a ansiedade, tanto quanto às restantes populações europeias. Qual paz, qual o quê? E em Espanha onde a guerra civil atirou para as fronteiras de Portugal milhares de deserdados, com que a população portuguesa procurava colaborar, mitigando a sua fome em muitos casos? Relatos há, não sei o absoluto grau de veracidade pese embora quem mos contou fosse um oficial da GNR, que dão conta de pessoas a irem buscar os alimentos aos cochos dos porcos.
E nos anos sessenta, enquanto o resto da Europa se ponha em remanso, Portugal entrava em guerra em várias frentes, com os seus rapazes a morrerem por um pedaço de terra que já deixara civilizacionalmente, e como está certo, de poder ser dita ou sentida como deles? Isto tudo não é realidade destruição e morte para a sociedade portuguesa? Foi então o quê?