quinta-feira, dezembro 18, 2008

Vil Ministério da Educação

Papagueadas defesas do sistema de avaliação imposto por este ministério em nome da sacrossanta futura "qualidade do ensino português" assentes no maior ataque ad hominem perpetrado em Portugal contra uma classe profissional, ficam agora com que defesas para continuar a falar na sensatez destas medidas? Sendo de facto um sistema inexequível e inequitativo que até se afirma que vai ser suspenso no próximo ano, e que só por estupidez confrangedora do "Quero, posso e apetece-me dizer que devo mandar" se mantém; ao mesmo tempo, e já este ano, o famoso e imprescindível sistema que iria "moralizar" toda uma classe, vai deixar por avaliar entre cinco a dezassete mil professores: afinal parece que não é necessária a avaliação para termos qualidade no ensino nos próximos dois a três anos por parte de "Cinco a 17 mil professores livres de avaliação até 2011". Julgar-se-á assim calar as vozes dos professores mais antigos na carreira?
"Ao DN, uma fonte governamental garantiu que se trata de "uma rearrumação do tabuleiro de xadrez", em que se joga a batalha com os docentes".
Há uma batalha com os docentes em curso?! Gente vil a que nos coube em sorte gerir os destinos da educação desta nação!
Quanto à bondade da lei, ou à sua sensatez, se alguém razoável tivesse dúvidas, pode agora tirá-las.

quarta-feira, dezembro 17, 2008

E se Obama fosse africano? Pois é, a verdade dói, para os que se iludem.

Encontrei este texto de Mia Couto muito interessante aqui.

Destaco: "Foi então que me chegou às mãos um texto de um escritor camaronês, Patrice Nganang, intitulado: ” E se Obama fosse camaronês?”. As questões que o meu colega dos Camarões levantava sugeriram-me perguntas diversas, formuladas agora em redor da seguinte hipótese: e se Obama fosse africano e concorresse à presidência num país africano? São estas perguntas que gostaria de explorar neste texto.
E se Obama fosse africano e candidato a uma presidência africana?
1. Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto. E o nosso Obama teria que esperar mais uns anos para voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa, se tomarmos em conta a permanência de um mesmo presidente no poder em África. Uns 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbabwe, 28 na Guiné Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egipto, 26 nos Camarões. E por aí fora, perfazendo uma quinzena de presidentes que governam há mais de 20 anos consecutivos no continente.Mugabe terá 90 anos quando terminar o mandato para o qual se impôs acima do veredicto popular.
2. Se Obama fosse africano, o mais provável era que, sendo um candidato do partido da oposição, não teria espaço para fazer campanha. Far-Ihe-iam como, por exemplo, no Zimbabwe ou nos Camarões: seria agredido fisicamente, seria preso consecutivamente, ser-Ihe-ia retirado o passaporte. Os Bushs de África não toleram opositores, não toleram a democracia.
3. Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes. O nacionalista zambiano Kenneth Kaunda está sendo questionado, no seu próprio país, como filho de malawianos. Convenientemente “descobriram” que o homem que conduziu a Zâmbia à independência e governou por mais de 25 anos era, afinal, filho de malawianos e durante todo esse tempo tinha governado ‘ilegalmente”. Preso por alegadas intenções golpistas, o nosso Kenneth Kaunda (que dá nome a uma das mais nobres avenidas de Maputo) será interdito de fazer política e assim, o regime vigente, se verá livre de um opositor.
4. Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é mulato.Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu próprio rosto. Não que a cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um “não autêntico africano”. O mesmo irmão negro que hoje é saudado como novo Presidente americano seria vilipendiado em casa como sendo representante dos “outros”, dos de outra raça, de outra bandeira (ou de nenhuma bandeira?).
5. Se fosse africano, o nosso “irmão” teria que dar muita explicação aos moralistas de serviço quando pensasse em incluir no discurso de agradecimento o apoio que recebeu dos homossexuais. Pecado mortal para os advogados da chamada “pureza africana”. Para estes moralistas - tantas vezes no poder, tantas vezes com poder - a homossexualidade é um inaceitável vício mortal que é exterior a África e aos africanos.
6. Se ganhasse as eleições, Obama teria provavelmente que sentar-se à mesa de negociações e partilhar o poder com o derrotado, num processo negocial degradante que mostra que, em certos países africanos, o perdedor pode negociar aquilo que parece sagrado - a vontade do povo expressa nos votos.Nesta altura, estaria Barack Obama sentado numa mesa com um qualquer Bush em infinitas rondas negociais com mediadores africanos que nos ensinam que nos devemos contentar com as migalhas dos processos eleitorais que não correm a favor dos ditadores."

terça-feira, dezembro 16, 2008

Os direitos humanos

(...) a Declaração de Direitos da ONU, como as suas antecessoras, não deixou de ser frequentemente lida com as limitações impostas pela defesa da sede do poder. Quando em Filadélfia se proclamou que todos os homens nascem livres, e com igual direito à felicidade, a realidade acrescentou: todos, mas os índios, não, mas os escra- vos, não, mas as mulheres, não, mas os trabalhadores, não. A luta que foi apagando as negações está longe da abrangência global que a ONU proclamou. A celebração mais apropriada do aniversário da Declaração da ONU seria a de enumerar com rigor as situações em que a defesa da sede do poder impede a concretização das promessas, para que a estratégia do Milénio ganhe em consistência e perca em verbalismo." Prof. Adriano Moreira in DN

segunda-feira, dezembro 15, 2008

Ressonância do discurso de Manuel Alegre

Manuel Alegre pensa e escreve bem. Teve a melhor apresentação de um candidato presidencial das que eu recordo, por exemplo. E ontem voltou a dar alento a um certo espírito crítico e de afirmação de liberdade que vai bem com cada cidadão, mas que nele é verosímil e, no cenário dos políticos actual, reconfortante psicologicamente para muitos.
É um homem com o sentido dos símbolos (a pátria, a língua, os serviços públicos ao serviço dos cidadãos, o respeito pelo trabalho e pelo esforço), e nesse sentido é aglutinador de vontades e de emoções. Isto é fundamental num político. Mesmo a sua identificação, e vontade de reconstrução da esquerda, se percebe como consistente com o seu percurso ideológico de toda uma vida, sendo que para ele a palavra "esquerda" ressoa a solidariedade.
Tenho para mim que a inteligência das pessoas que se querem absolutamente de esquerda (ou de direita, pois a Paulo Portas acontece-lhe o mesmo) se prende excessivamente a certos aspectos do que será depois exigível como politicamente correcto num discurso ou acção de esquerda, quando nos devíamos preocupar sim com o que era politicamente correcto para a racionalidade pública e de acordo com princípios universais.
Isto é, podíamos dividir a política entre os que acreditam na existência de interesses públicos e os que defendem apenas uma acção social baseada no pressuposto dos interesses privados, e partir daí para a constituição de programas.
O discurso foi todo como eu, por exemplo, gosto de ouvir, mas algo ficou suspenso em mim, pois não aceito um discurso, ainda que belo, e ainda que ecoe pelos meus sentimentos, que depois não me venha explicar como entende na prática que os assuntos devam ser tratados (a influência do Estado, que eu não quero nem desejo centralizador ou dominante na esfera de vida pública e muito menos na privada; a racionalidade nos gastos com a Educação e a Saúde; programas de Educação e de cidadania; direitos, deveres e garantias dos trabalhadores; direitos, deveres e garantias dos interesses privados; programa de urbanismo; reforma da justiça; reforma dos sistema eleitoral e regionalização, entre outros).
Quando eu ler sobre um programa, ou pelo menos um texto com hipóteses de trabalho concretas, aí perceberei a importância do dia de ontem. Até lá, foi um exercício de amabilidade para com muitos cidadãos portugueses absolutamente desnorteados com a atitude e a acção comunicacional deste governo, e de permitir distender a tensão pública que se vinha a acumular
Ao contrário da maioria das pessoas, eu acho que Manuel Alegre fez um imenso favor ao governo e ao PS, ajudou a diluir a frustração social, desviando o seu percurso que se encaminhava para um beco sem saída e transformou-o numa possível esperança política. Mesmo que daí nada venha a resultar como movimento político em concreto, já ajudou a desviar a atenção do sentimento de raiva e confusão social generalizado.
De certa forma, Manuel Alegre e José Sócrates estão para o PS, como o par "polícia bom" e Polícia mau" durante um interrogatório de um suspeito. Ambos estão a contribuir para que o seu trabalho saia bem feito. Ambos querem que o trabalho do PS dê resultados: assim José Sócrates tenha visto filmes policiais suficientes, e os compreenda. Mas o homem parece-me mais do tipo "cavaleiro solitário" que dispara mais rápido do que a própria inteligência colectiva.
..
Marcelo Rebelo de Sousa rejubilou com o facto de uma futura divisão do PS permitir ainda a vitória ao PSD. A mim espanta-me que se acredite mais na fraqueza dos outros que na nossa força. Espanta-me.

sábado, dezembro 13, 2008

Não a uma maioria absoluta ou como a inteligência do indivíduo

homenageia a inteligência do seu povo. E isto porque eu ouvi, como o melhor comentário às recentes sondagens que fizeram um brilhozinho nos olhos a muita gente (e não era de alegria!), o próprio autor das sondagens afirmar que os portugueses quando perguntados individualmente se querem ser governados por maiorias absolutas respondem maioritariamente que não. Ora então, os portugueses sabem que as maiorias absolutas só interessam a políticos com interesses absolutos, não necessariamente os interesses dos seus eleitores e do público, que não gostam do trabalho difícil e desgastador, mas inerente ao processo democrático, da discussão pública, e que a maioria absoluta afecta absolutamente algumas almas lusas até à idiotia da concepção do exercício do poder.
É só pena que a inteligência individual não permita a comunicação universal de resultados estatísticos para assinalar quando um eleitor, paradoxalmente, para cumprir a sua vontade de não dar a maioria absoluta a nenhum partido, se devia abster de acrescentar o seu voto ao voto maioritário tendencialmente absoluto.
Aqui está como opinião pública, não materializada, e acto eleitoral, em exercício individual e sem possibilidade de se fazer um acrescento do tipo "declaração de voto", não coincidem.
A democracia formalmente contaria como nulo se eu acrescentasse uma nota no meu boletim de voto: caso o meu voto contribua para que o partido x, ou movimento, em que votei, fique com a maioria absoluta, declaro que quero que ele impluda em 3, 2, 1, 0 segundos.
Atentamente, a eleitora nº yz.


E por falar em governantes que se entendem iluminados, vou deixar aqui alguns excertos de textos sobre a política da actual "Educação" a que dou o meu total acordo.

in Almocreve das Petas

EDUCAÇÃO: dias amargos, gente inútil (I Parte)

"(...) A literatura sobre o tema "avaliação de desempenho dos professores" não permite argumentar positivamente o construído actual do modelo de Lurdes Rodrigues & João Freire. Muito pelo contrário, conforme os vários conflitos organizacionais patentes e que dia-a-dia ocorrem e teimam em desocultar. Mesmo o arrazoado conceito teórico de "profissão e profissionalidade docente" aplicado (uma justificação constante para a miséria do modelo) não permite inferir qual o perfil do professor (até pelo processo de fragmentação em curso) a avaliar e a sua regulação, apenas justifica os motivos da desqualificação e proletarização da profissão, por ora encetada. De facto, tal ideologia do profissionalismo (conforme, e bem, Lurdes Rodrigues critica no seu livro Sociologia das Profissões, Celta, 2002), que curiosamente mais parece ter saído de uma velha e desadequada "sociologia das ocupações", pelo modelo a implementar pretende apenas legitimar e efectuar a desprofissionalização docente, em tempos de emagrecimento do Estado (assunto que o pouco escrupuloso Mário Soares não relaciona com o actual ataque feito aos docentes, passe a sua intenção e graça política de combate ao insidioso neoliberalismo) e onde, via ECD, a avaliação tem lugar central."


in A Educação do meu umbigo

Um pouco mais de rigor, a ler todo, aqui

A Mistificação Dos Rácios

"
Já começo a ficar cansado com o recurso aos dados da OCDE para caracterizar a situação privilegiada dos docentes portugueses. Até parece que a OCDE não publica aquilo que o ME lhe envia e que, em boa verdade, deveria estar disponível publicamente no próprio site do Ministério.
Para os mais distraídos, a OCDE não recolhe dados de forma independente, apenas faz a compilação dos dados oficiais de cada país e compara-os, sendo que nem sempre as metodologias e contextos são comparáveis.
Mas mesmo que o sejam eu gostaria de deixar aqui uma pequena posta para explicar, por exemplo, porque o rácio alunos/professor é mais favorável entre nós na aparência do que em outros países.
O método usado é básico: divide-se o número de alunos pelo número de professores e já está. Temos um rácio. Vê-se que é operação sofisticada.
Mas o que é que isto não explica?
Não explica que em Portugal são os professores que desempenham muitas funções que em outros países estão atribuídas a outro pessoal qualificado, como assistentes sociais, psicólogos, terapeutas, etc."

sexta-feira, dezembro 12, 2008

Technology

A interessantíssima Helena Monteiro enviou-me este fantástico vídeo que pode ser visto aqui.

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Alguém o ouve? "Portugal corre risco de instabilidade social"

"Nós vivemos da notícia, não vivemos da realidade"
Oiço sobretudo o que diz acerca da nossa fiscalidade, das nossas contas públicas, da desigualdade social, da famosa reforma do ensino e das Novas Oportunidades, e sobretudo, o que diz da Justiça, e por que ninguém com o poder efectivo efectivamente quererá que ela funcione. Oiço.


Medina Correia, ontem, aqui.

Espero que alguém com o poder de mudar os partidos se preocupe de facto com a tensão social que, eu sei, está instalada: e isto com um endividamento de 2 milhões de euros por hora!

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Os direitos humanos...

são uma ideologia. Das melhores, não a definitivamente melhor, porque sobre isso teríamos que pensar num limite para a criatividade humana, o que é contra-factual. São uma força de coação social sobre as tiranias do pensamento e da acção, mas não são panaceia para a má política, nem para as deficientes estratégias utilizadas em democracias medíocres.
Uma democracia medíocre é aquela onde não há paridade, onde não há equidade social, onde não participação cívica e produtividade pessoal e colectiva que eleve o estatuto social do país, onde não há mobilidade social. Desta democracia desespera-se e desrespeita-se.

Quem ignora os sinais de conflito social deixa perder a estrutura formal onde assentam as práticas diárias da democracia. O regime treme, os direitos desvanecem-se. O poder pode, temporariamente, suspender a retórica dos direitos humanos; afinal a quantos retrocessos civilizacionais não se assistiram já?

Este governo português, onde para mal da minha capacidade de decidir e escolher, ou para mal da oferta eleitoral presente que me sugira algo, eu votei, experimenta, na pessoa do primeiro-ministro, o gosto da contenda política, não para negociar racionalmente, mas para atiçar os ânimos, fazer explodir as emoções. O primeiro-ministro parece aquele adolescente mimado e parvalhão que de forma atoleimada mandava bocas aos colegas e aos professores, esticando a corda da sua imaturidade cívica e comportamental, até à inoportunidade, e que todos conhecemos de certa forma no liceu.
Garotos afectados a governarem. Já cansa. A democracia tem estruturas suficientes para que o peso das personalidades dos governantes seja mínimo. Mas não, todos eles querem deixar a sua marca determinada no pavimento legislativo; até à frenética produção do nada e para ninguém.

terça-feira, dezembro 09, 2008

Os deputados, os pobrezinhos, foram à procura de soluções para os problemas nacionais

Leio: ISTO É UM PARTIDO OU UM FILME DE TERROR? de João Miguel Tavares e Deputados "da Nação" ? de Manuel antónio Pina

Depois leio também sobre os acontecimentos na Grécia e os conflitos sociais declarados que por lá vão, e só espero sinceramente que os políticos portugueses tenham a certeza absoluta que o povo português é sereno, porque com eles não se pode ter grandes expectativas para resolver conflitos.
Ressalve-se o que há para salvaguardar:

"Um acto de honestidade intelectual e política como o dos 6 (deputados) do PS que pensaram pela própria cabeça pode custar-lhes o lugar. Se não, veremos. "

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Raiva, caos, e o Natal a pôr-nos no caminho certo. Para crentes no Pai Natal.

Não podemos deixar de rir quando ouvimos algo como isto, mesmo após o dramatismo da notícia, ou por isso mesmo:
"Denny Crane: So, let me understand what we have here. I have an eighty percent chance of getting Alzheimer’s in six years?
Dr. Frank Wessmer: Yes. Alan and Denny let this sink in. If it’s any consolation at all, you’re seventy-five. You drink. You smoke. You probably won’t live that long."

E antes, não podíamos deixar de sublinhar esta ideia de Alan Shore:

"Alan, Clarence, Melvin and Noris are still in the CP&S conference room.
Attorney Melvin Palmer: My point is you can blame us all you want my friend. But nobody saw this coming. Even Alan Greenspan was saying there were no bubbles in the housing market.
Alan Shore: Is Alan Greenspan your good buddy too? I hear he can be quite the hoot.
Attorney Melvin Palmer: Al, I really don’t need you to make fun of me.
Alan Shore: No! You don’t.
Attorney Melvin Palmer: The simple fact is this was a negotiable contract. He’s a lawyer.
Alan Shore: Those are two facts actually.
Attorney Melvin Palmer: What happened to the sub-prime was unforeseeable. What happened to the housing market was unforeseeable.
Alan Shore: When do we get to the win-win part of this meeting?
Attorney Melvin Palmer: This man was never lied to. He made a deal. Now he doesn’t like it because it turned out to be a bad deal. So what? He just stops making his payments? It seems to me he deserves to lose the house. You think you can sue and win, Al, even though he flat out breached a contract? I’m asking myself, “What kind of a lawyer would think that?” That’s what I ask. But then I remember, you’re not so much a lawyer as you are a gigantic hoot. Am I right?

Alan Shore: I may not be much of a lawyer Mr. Palmer but I can see the obvious. Foreclose on Mr. Bell’s house and your client will be left holding an asset he can’t sell and a loan that will never be paid off. Over the next eighteen months two million of these teaser mortgages are going to expire. And a trillion dollars’ worth of loans are going to be called in as interest rates keep taking up and property values keep slipping down. That trillion dollars’ worth of debt is going to be secured by houses worth a fraction of that. Keep throwing people out on the street, taking their homes instead of their money and you’ll be left with a stock price of zero and a public that’s out for blood. Not mine, or his (Clarence) but yours (Noris) and yours (Melvin). You can smell it in the air. Anger and chaos. If Shakespeare were alive today he might say, “First thing. Let’s kill all the bankers.” Tell me, Melvin, what exactly do you plan to trade on in that courtroom? Your witless grin and home-style cookin’? Or perhaps the bank industry’s stellar reputation. The FBI has already claimed mortgage fraud as the fastest growing white-collar crime in America. In some cites even drug dealers have turned to mortgage lending. Profits are high. Death rate is low.
Until, of course, people start shooting the suits. I may not know much about law but even a gigantic hoot like me knows cases always come down to emotion. Who do you think the jury’s heart will go out to on this one? I’ve got a man who’s lost his home and his entire life’s savings. You’ve got a bank.
..
Não percebi a referência a Shakespeare. Mas percebo o seguinte, até por reacção de certas pessoas que vivem nos Estados Unidos da América; se os EUA não arrancarem com a sua economia dentro de pouco tempo, o famoso e real espírito de sobrevivência e de empreendorismo americano esfumar-se-á nas ondas do desespero em sobreviver, e a famosa ordem social como a conhecemos virar-se-á às avessas, lá como cá. E como ninguém está preparado para saber qual a outra ordem que a substituirá rapidamente, sem tragédia e sem raiva, evitando o caos, os Estados injectam dinheiro na ordem estabelecida esperando de algum modo que as instituições se recomponham rapidamente, com os devidos ajustes, e o caos não se instale. São panaceias de governante em pânico. Até agora o mundo ficou a ganhar com a imagem refrescante de um novo presidente americano que ainda pode (deixar) sonhar, e como que suspendeu o pessismo, ou as atitudes alucinadas, mas... e se ele não for suficiente por si?
..
E quase no fim, o episódio da série "Boston legal", de onde retirei tudo isto, termina a parte dramática do episódio com a expressão "Don’t you love Christmas? Anything goes wrong with the world, Christmas makes it go away." Pois, para quem acredita no Natal. Por memória afectiva, ou por tradição e costume, ou por prazer. E a democracia? Será o meu "pai Natal" que desce pela chaminê e me vem trazer os presentes? Será uma crença deste tipo?
Não falo de Cristo e na crença nEle, porque considero isso de outra ordem, não social mas espiritual. Uma crença de outra ordem.
..
E ainda há isto: "(ODC) Tecnicamente definida como Obrigação de Dívida Colateralizada, na realidade traduz-se na manipulação dos ingénuos que acreditam em galinhas dos ovos de ouro ou, já que estamos em avicultura, confiam que o tal ovo que se supõe esteja no oviducto do galináceo mas ainda ninguém viu, acabe por sair na forma de uma omeleta de espargos. Depois o ovo não sai e aumentam-nos os impostos e tiram-nos os empregos e retardam-nos a pensão de reforma e fecham maternidades e escolas e esquadras de polícia. Estamos a viver em Portugal uma destas monstruosidades. Preocupado com a crise financeira internacional o governo de Sócrates disponibilizou uma quantidade astronómica de dinheiro para "salvar o sistema". Todos assumimos que se tratava de apoiar algo que servisse o bem público. O primeiro acto detectado deste plano foi salvar, o Banco Privado que tem tanto a ver com o público como a Ferrari, a Bentley e a Louis Vuitton têm a ver com a Carris. Fiquei finalmente a compreender a lição do jornalista de economia em Valência. O Estado Português deu dinheiro à banca privada mas não se quis meter no Banco Privado. (...)" de Mário Crespo, in JN
E penso que tenho que ir para a rua ver as luzes de Natal na cidade com a família, mas depois lembro-me: "Vais levar com a publicidade alarve escarrapachada sem discrição ou elegância pelo meio das luzes de Natal!"
Que Natal mais vendido este nosso!

domingo, dezembro 07, 2008

Já esta notícia ...

assusta qualquer um que seja racional: "Economia: "Este é o momento em que o país precisa do Estado" - José Sócrates". Mas que Estado? O da visão do primeiro-ministro aprendida nos últimos dias da crise internacional? Alguém lhe conhece pensamento político? Ou a acção pela acção justifica os fins, pela imposição da sua presença na ausência de soluções fortes que se lhe oponham?

ora ainda há notícias

que confortam, esta que aqui trancsrevo, e que já tem três dias de vida, é uma delas: "Lançado o Dicionário Jornalístico Português
Há 116 anos que o Dicionário Jornalístico Português esperava para ser publicado. A obra corria o risco de se perder, mas foi digitalizada com o patrocínio de Francisco Pinto Balsemão. A versão em DVD está concluída no início do próximo ano."
E porque é boa notícia? Pela facilidade nos meios de quem investiga os períodicos antigos? Não. Pela acessibilidade da memória. É sempre melhor tê-la à mão, e isso, se não perturbarem excessivamente com chaves, com códigos e com registos ou mais sei lá o quê, está garantido com a digitalização dos ditos documentos.

sexta-feira, dezembro 05, 2008

Ah... afinal a mudança é necessária!

A senhora jornalista diz haver muita gente farta dos protestos dos professores e depois começa a fazer contas aos votos e a perguntar-se quem irá ganhar com esta agitação. E eu que tenho a certeza que os professores estão muito mais fartos do tipo errático/prepotente característico das razões apresentadas pelo Ministério desde que tomou posse, e que estão mais preocupados com os problemas do sistema de ensino do que em fazerem contas eleitorais sobre o deve e haver partidário.
É claro que o governo tem legitimidade para governar (absoluta em número relativo de votantes), não passa é por isso a ter legitimidade absoluta para governar mal. E quem o diz? Só uma pequena corporação, para mais parte interessada? Só meia dúzia de agentes? Olhem, não! Uma maioria absoluta de professores que querem ver posto um ponto final no modo como a sua autoridade e a sua força simbólica como agentes protectores da própria identidade cultural e social portuguesa veio a ser delapidada, por excelsas criaturas que dizem coisas como "Este ano o sistema de avaliação é para manter, para o ano podemos pensar em substituí-lo!". Um prodígio de inteligência e de sentido do trato com uma das classes profissionais com o maior grau de formação.

Continuem a explicar, insistam.

"(...) Já sobre os medos manifestados em relação ao voto preferencial, Freire demarcou-se do que tinha sido dito e sugeriu que a proposta apresentada segue os sistemas usados em muitos países europeus: "Somos o patinho feio que nunca podemos adaptar o que há em toda a Europa, que a esmagadora maioria da Europa tem, mas nós não podemos, porque os nossos deputados são uns malandros que vão oferecer frigoríficos", ironizou, para concluir: "Temos um grave problema, pois as nossas elites acham que não temos capacidade (...). Eu não encaro o meu país assim, porque, no limite, isso iria levar-nos ao 'somos incapazes para a democracia'."Freire lançou o alerta sobre o descrédito do tema:"Esta é uma reforma que se aguarda há 11 anos e as pessoas estão fartas de esperar. Adiar mais uma vez para esperar pela regionalização é adiar sine die." "Esta é uma reforma que se aguarda há 11 anos, as pessoas estão fartas de esperar", afirmou André Freire
In jornal Público, p. 12


quinta-feira, dezembro 04, 2008

Haja vontade e discernimento

«É altura de os líderes africanos derrubarem Mugabe»

Sabendo isto...

"La force de la croyance démocratique, qui n`est pas à proprement parler démontrable, consiste à transformer en "volonté génerale" des preferances individuelles agrégés, dès lors qu`elles atteignent une majorité arithmétique déterminée (absolue ou relative). En ce sens, la démocratie repose bien sur un mécanisme d`essence religieuse; elle se finde sur une croyance partagée, protegée d`une critique rationaliste trop poussée, respectable à la fois dans son principe et dans ses effets."
Philippe Braud, La démocratie politique, p.p.82-83.

E não podendo nós deixar de ter que reflectir criticamente na questão da democracia representativa como uma crença de essência religiosa, ainda que, como acrescenta o autor, respeitável quer nos seus princípios quer nos seus efeitos, teremos que continuar a pensar na forma de tornar essa representação o mais alargada possível pela participação dos cidadãos na tomada de decisão das questões políticas.
Claro que isto também é uma crença, provavelmente ingénua, e sem dúvida optimista, acerca da natureza da competência humana em compreender, manifestar-se, decidir e se responsabilizar pelas suas escolhas. Valha-nos a justeza dos efeitos da mesma.
Entre a ideia de que a educação política é de interesse e de aplicação universal, e a ideia de que o excessivo interesse pela política revela um comportamento de cidadãos de estados subdesenvolvidos, parece haver um hiato intransponível, e no entanto, uma boa educação política se usada por todos no processo de formação da sua personalidade social, pode libertá-lo exactamente no futuro até para o livre e assumido desinteresse pela política, porque nesse caso, os próprios procedimentos democráticos interiorizados e utilizados como hábito no trato social, o direito dos estados democráticos enfim, faz o seu percurso normal sem temer o voluntarismo de governantes sem intuição e sem sentido da boa governança, fascinados que estão com uma ideia de si como homens destemidos, reformadores imparáveis e personalidades dominantes.

quarta-feira, dezembro 03, 2008

A greve, a lei e os aprendizes em engenharia social

"Sócrates
(...) Quando uma pessoa concorda com outra sobre a justiça de uma acção a realizar, deve paraticá-la ou faltar à palavra?

Críton
Deve praticá-la."
Platão, Críton, Coimbra, INIC, 1984, secção 50, p. 80.

E pode haver justiça numa lei que tem contra si todos os os sujeitos a quem ela se dirige? e não serão mais defensores da justiça os que contra essa lei se revoltam?

quinta-feira, novembro 27, 2008

Os inimigos da democracia

não são de hoje, nem hão-de ser os últimos a agir.
Bombaim, 26 de Novembro de 2008.
Não consola sabermos que há uma longa história deste tipo de acções, muito menos nos consola a dificuldade em encontrar soluções que impeça o grau absurdo de violência física.


O facto de vivermos tempo destes no Ocidente, de descrença ou insatisfação com o modelo de governo democrático, também não ajuda a democracia no mundo.
Com um parlamento português manietado a um poder executivo qual marioneta em teatro burlesco, o que podemos esperar se não ataques dos inimigos da democracia? Falham os procedimentos no exercício da ideia, não a ideia ela mesma. Pois como é possível que os deputados, enquanto poder legislativo que se queria autónomo, se entendam um meio ao serviço do governo da nação. Eles representam quem? O executivo ou os seus eleitores? E pensam todos pela cabeça de um só? Os deputados da maioria têm medo do quê? De não saberem pensar por si?
...
"O ESS (na sigla em inglês), desenvolvido em 23 países europeus, comunitários e fora da União Europeia, indica que só os russos, húngaros, ucranianos e búlgaros estão mais descontentes que os portugueses com o funcionamento da democracia e politicamente mais desinteressados. No extremo oposto encontram-se a Dinamarca, a Suíça e a Finlândia."
..
Mais importante do que circunscrever a ideologia dos inimigos da democracia é atacar o papel dos professores em Portugal. Isso sim, é que é um papel civilizador! Santo Deus, tanta energia desperdiçada!

quarta-feira, novembro 26, 2008

Isto no caso de termos dúvidas...

"Para as elites o dilema é o seguinte: como controlar o elemento de participação popular, retirando os eventuais benefícios da ordem política, sem que isso se transforme numa inversão das hierarquias sociais e económicas?"
Philippe Braud, La démocratie politique, ed. Seuil, p. 29.
Ora há que saber: 1. O factor de legitimação das elites; 2. O factor de modificação ao longo da história das nações dos critérios que definem elite.
Será que os factores sociais que caracterizam as elites terão mudado assim tanto nos últimos séculos? Há quem duvide dessa ocorrência.
Mas a definição de elite no caso da antiga União Soviética ou da China não se apresenta de forma dissemelhante à comum, a que tem a riqueza suficiente para adquirir força intelectual e física? Talvez não.

terça-feira, novembro 25, 2008

Com sorrisos durante a campanha

http://www.peteyandpetunia.com/VoteHere/VoteHere.htm


E depois da campanha:

"(...) Para os que consideram importantes os valores ocidentais, e julgam que o diálogo das civilizações é o método capaz de impedir o recurso ao conflito, a nação americana é de facto indispensável. (...)
Factos como Guantánamo não podem manter-se, nem repetir-se. Os EUA foram indispensáveis em duas guerras mundiais, para dominarem os demónios interiores dos europeus: continuam a ser indispensáveis para redefinir a governança mundial, desta vez ajudando a dominar os demónios interiores do globalismo."

Adriano Moreira, A espera no DN

segunda-feira, novembro 24, 2008

Se o princípe não sabe, agora imaginemo-nos a nós...

Num documentário do BBC Panorama o herdeiro da coroa inglesa desabafava com um jovem militar quando soube que o aquartelamento onde este ía ficar no Iraque continuava a ser bombardeado com mísseis "rockets", "Nós não sabemos nada disso."
Pois não sabemos, mas ao contrário do mito a desgraça que não se vê ou de que não se fala não deixa de ocorrer. O silêncio nem sempre é a história de um povo feliz.

sábado, novembro 22, 2008

"O sol é novo cada dia", Heraclito


A capa do jornal Expresso de hoje sobre violência doméstica conseguiu transformar-se em 43 pedradas no charco jurídico, policial e social em Portugal.


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Obama escolheu Hillary para Secretária de Estado. Eu agora ando com imensa vontade de ler o livro Team of rivals. A mim essa escolha também me parece mais de génio político do que de asno.

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Há poucos dias anunciava-se que Portugal tinha o pior acesso aos cuidados de saúde dos quinze países europeus estudados, e que esse facto acentuara-se nos últimos anos; então não é que o Senhor Sócrates hoje vem dizer aqui à nossa aldeia que se quer global que os "portugueses começam a sentir bons resultados da reforma do serviço Nacional de Saúde"?


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"O sol é novo cada dia", Heraclito

sexta-feira, novembro 21, 2008

As deficiências de uma democracia representativa, e a ideia de democracia participativa

"Se promete portanto simplesmente obedecer, o povo desintegra-se através desse acto, e perde a sua qualidade de povo: no próprio instante em que há um senhor deixa de haver um soberano, e consequentemente o corpo político fica destruído."

Rosseau, Contrato social, livro II, cap. I

quarta-feira, novembro 19, 2008

Os deslizes linguísticos e a falta de crença democrática profunda

A nossa educação pós 25 de Abril falhou. E falhou precisamente por ter-se revelado ineficaz na passagem de valores democráticos que sublinhassem a crença no esforço individual para o seu sucesso pessoal e colectivo, o respeito e tolerância pela livre expressão das crenças dos outros, pelo fazer uso da sua faculdade crítica, de ter coragem e vontade de participar em acções cívicas e em defender em todas as circunstâncias o princípio de uma democracia participativa. Falhou. Não conseguiu socializar os seus alunos nestes últimos trinta anos como uma elite defensora dos direitos e garantias públicas em prol do bem comum. Formámos muitos indecisos, descrentes ou indiferentes, e não conseguimos fazer substituir na memória colectiva o afecto pelo líder que impõe a sua vontade, qual pai de toda a pátria, pela ideia forte de união e solidariedade inter pares, de deliberação pública das decisões. Faltou-nos o quê? Uma imagética forte que convocasse as forças de cada um? O quê? O que devíamos como professores ter feito? E que autores ou legisladores temos nós que nos provoquem a imaginação?
Temos mais censores da democracia do que seus defensores, mais apaniguados do regime assente em interesses particulares do que defensores de procedimentos que estruturem o interesse público.
Os tiques de autoritarismo são convertidos, na boca de muitos deslumbrados, em força de personalidade e reflexo de estado forte. Um Estado que conta com homens e mulheres que se escusam na ideia que é possível, se não mesmo desejável, suspender a democracia. O deslize (uso irónico?!) da líder da oposição é verdadeiramente algo que o governo em funções procura fazer na prática passando entre as gotas de chuva que é a Constituição portuguesa, mas assobiando em desafio ao discurso de Manuela Ferreira Leite. A eles ninguém os apanhará a dizer tal enormidade, a eles só os apanhamos a testar experimentar essa técnica de suspensão, ou pelo menos de retracção, de direitos democráticos. Usando métodos de pressão, de intimidação e trapaceando no discurso e nas pequenas tomadas de decisão que nos empurram a todos para um espaço de estupor, e, perigosamente, de inércia.
Alguma coisa estivemos a fazer mal, nós professores, para termos formado líderes destes. Por exemplo, um de entre nós esteve particularmente mal ao receber um fax de aluno seu a enviar um exercício escrito e legitimar o acto avaliando-o. Passámos a ideia de que tudo era possível fazerem com o nosso brio profissional. E então não é que quase sempre pareceu assim mesmo? Quem se conseguiu fazer ouvir sobre o Estatuto dos alunos? Quem se conseguiu fazer ouvir sobre os programas, horários e processos de avaliação nacional dos seus alunos? Quem? E sobre o processo de Bolonha?
Agora dizem-nos que nós não falámos em tempo próprio. Falar falámos, mas só nos concedem um mínimo de atenção quando gritamos.

terça-feira, novembro 18, 2008

A arte da desobediência civil

Sócrates diz que temos que cumprir a lei da cidade, mesmo se a sabemos injusta; Sócrates o filósofo, claro, aquele que tem legitimidade para o dizer. Mas que regime democrático era aquele? E o nosso? Pode este produzir uma lei entendida enquanto convenção debatida entre as partes interessadas e autónomas? Cair-se-á no relativismo? Ou terá que se recorrer a uma qualquer defesa da lei como heterónoma, para manter a ordem? Mas então qual o fundamento democrático para essa lei? A consciência do indivíduo não é com certeza.
Será um dos direitos dos povos a desobediência civil, mesmo se vive em democracia? Ou precisamente porque se vive em democracia torna tudo mais fácil, até desobedecer?

segunda-feira, novembro 17, 2008

domingo, novembro 16, 2008

Eu gosto tanto de ir a manifestações...

como de ir ao dentista. E já lá vão três por onde eu arribei a minha vontade e concentrei a minha solidariedade. Quer dizer que o abcesso da educação não deixa de alastrar. Para lástima pessoal e, acredito, sobretudo nacional.
Ontem, com a prática que vou tendo, ouvia aqui e ali as conversas dos meus colegas manifestantes, e que tinham sempre por ponto de partida o sentimento de estupefacção pela forma iníqua com que suas oposições vêm sendo entendidas por certos membros deste governo.
Uma colega, que eu não conhecia, e que se empoleirava numa base de candeeiro a meu lado, desabafou alto quando os organizadores da marcha falaram em greve: "Greve? Greve não, que sou eu sozinha que sustento a minha casa!". Olhei para ela e vi-lhe a aflição no rosto. Pois é, uma greve custa dinheiro (dois dias de greve levam mais de cem euros do vencimento) e há professores que não têm margem no seu orçamento doméstico e económico para o fazerem. É aqui, pensei eu, que devia entrar um sindicato forte e atento aos direitos dos trabalhadores. Com reservas financeiras, um sindicato podia ajudar os profissionais com mais dificuldades económicas a fazerem face a essa forma de luta cívica.
Eu não sei quantos éramos. A mim parecerem-me os suficientes para fazer passar a palavra (exceptua-se aquelas verbalizações infelizes contra a ministra na confusão emocional do momento e que não servem para nada). Todavia, o mais importante é que realmente aquele número mais que quintuplicava na sua base de representação, pois muitos colegas não estiveram presentes por desconhecimento (a convocação foi feita pessoa a pessoa, e o sistema é pouco sistemático) ou por julgarem que enfraqueciam posições fazendo duas concentrações seguidas.
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Ah, então é isso?
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Já me tinha perguntado a mim mesma que processo seria este que dava sempre a maioria ao PS quando todas as pessoas que eu conheço (pronto, também não conheço assim tanta gente!) e que votaram PS, mas mesmo todas, dizem-me que não o vão fazer nas próximas eleições.
Alberto Gonçalves explica o fenómeno no DN : "O aparente paradoxo explica-se. Se o povo percebe que o Governo roça o embaraço, supõe igualmente que não arranja melhor e, sobretudo, que não merece melhor. No fundo, e Deus sabe a que fundo desceremos, o Executivo do eng. Sócrates e as massas estabeleceram um acordo tácito e ideal, em que, para efeitos de alívio geral, o primeiro finge mandar e as segundas fingem insubordinar-se. De caminho, o país finge que existe, exercício que também não chega a convencer mas que decerto também consola."
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Eu, ingénua, procuro continuar a acreditar nas palavras de Patrick Champagne que me diz que as sondagens não passam de mais uma fórmula encontrada para fazer impor uma ideia de "opinião" pública" e não um meio de expressão dessa opinião pública.
A prova dos nove virá com as eleições, claro. Essa é a hora da verdade.

sexta-feira, novembro 14, 2008

Ainda sobre a avaliação de professores 2

(Continuação)

5. E porque não o conseguiu?

Porque a quantidade de reformas foram todas mal geridas desde o início.

A reentrada de alunos que tinham abandonado o ensino há muitos anos, ou que tinham práticas de absentismo, através da criação de cursos tecnológicos e profissionais, é excelente, mas perguntemo-nos novamente: as estruturas (programáticas, logísticas e humanas) estavam criadas para fazer com que esta reentrada no sistema fosse séria, fundamentada e efectiva? Não. Os alunos caíram em escolas que criaram à pressa estes cursos para dar resposta à necessidade das Novas Oportunidades e cursos de formação para jovens e adultos, com pouca autonomia para contratar professores, com recursos materiais reduzidos, sem especialização. Ao mesmo tempo as Escolas estão a competir com toda uma miríade de centros de formação, de empresas e de centros de emprego que leccionam e certificam eles próprios cursos que conferem diplomas de frequência.
Ora como foi tudo feito à pressa, misturou-se o que não se tinha que misturar, desnivelou-se o ensino, e passou-se a ter uma manta de retalhos conceptual no que a uma visão do ensino diz respeito, e uma deficiente preparação dos alunos que estão a obter em ritmo acelerado os seus certificados de conclusão do 9º ano e do 12º ano.
Muitos destes alunos não sabem sequer escrever, lêem e exprimem-se com dificuldades, e querem só obter um diploma para melhorar o seu currículo (o que obviamente é um direito que a actual lei lhes garante).
Ora o que temos? Um maior número de inscritos para terminarem os níveis de escolaridade obrigatória. É verdade. Mas também o estão a fazer com currículos, formas de avaliação e em tempos lectivos que não correspondem a nada do que até agora se admitiu ser o ensino (melhoramento das competências cognitivas, meio de aquisição de informação e de raciocínio, aprendizagem de aplicação dos saberes). Inverteu-se a prova: agora é o aluno que diz à escola como e em que condições deve ser avaliado e obter o seu diploma. A degradação da imagem do ensino público tem caído a pique.

A situação é muito mais grave do que a maioria das pessoas se consegue aperceber. E aqueles alunos que ainda têm expectativas de mudar de vida tendo por base a educação, hão-de aperceber-se que as actuais formas de ensino também não irão satisfazer (depressa se apercebem que o seu certificado não lhes serve para grande coisa para além do título).

6. O que devia ter sido feito?
Ter-se dividido o ensino em ramos distintos (e com escolas e cursos distintos e bem estruturados, com opções variáveis) entre técnico-profissionais, o ensino geral clássico e cursos para adultos que só querem uma formação em certas áreas da sua vida pessoal e profissional. A selecção far-se-ia logo no sexto ano de escolaridade, ou por opção do aluno por uma ou outra das vias. Em nenhuma dessas vias se devia premiar o facilitismo nas aprendizagens, nem dar a ideia de que "Basta ir à maioria das aulas e no fim tens o certificado", como eu já ouvi dizer.

7. Que tipo de avaliação dos professores seria a correcta?

a) Aquela que se prendesse com a sua formação científica contínua (só aprendendo mais se pode ensinar melhor), o que implicaria a realização de cursos específicos ou frequência de disciplinas de cursos de pós-graduações na sua área de interesse/formação nas universidades. Avaliados e creditados por estas. Um sistema de créditos que seria gerido e utilizado pelo professor sempre que fosse necessário fazer prova da sua formação para subir de escalão.
b) Análise formativa da sua competência pedagógica (avaliada por um formador especializado na área) avaliada com uma única aula assistida no período de passagem de cada escalão.
c) Avaliação pelo Conselho executivo da Escola quanto à pontualidade e assiduidade no que às suas tarefas diz respeito.
d) Casos de manifesto incumprimento dos deveres por parte do professor deveriam ter uma resposta imediata ao nível das sanções que qualquer trabalhador está sujeito e estão previstas no Código de trabalho.

8. O que se deve evitar?

Ter expressões abjectas como as que um senhor (!) comentador escreve sobre a necessidade de "partir a espinha aos sindicatos e aos maus professores", porque, que eu saiba, os maus professores devem ser despedidos, e os sindicalistas representam os seus membros e têm direitos numa sociedade democrática. Quem "parte espinhas" são os governos totalitários, que fazem as suas leis pondo-as acima do direito e da justiça. Portugal, que eu saiba, não vive em período totalitário.

Utilizar uma comunicação estratégica contra os professores. Pois não só se desprestigia quem a enuncia, como desorganiza toda uma estrutura social ainda assente na importância de um professor na vida comunitária: depois venham dizer que os alunos andam a ser instrumentalizados pelos professores e não estão a agir exclusivamente, e de forma mentecapta é certo, através das suas acções pouco dignas com o mesmo tipo de violênciaque este governo utiliza verbalmente contra os seus professores.

quarta-feira, novembro 12, 2008

Só nos faltava...

mais esta faceta do primeiro-ministro de Portugal: o "Calimero".


Noutra esfera diferente da realidade, a Associação de Professores de Filosofia recoloca essas e outras questões acerca dos "chefes momentâneos" ao nível do seu muito sofrível significado, e propõe-nos que vejamos o seguinte vídeo onde podemos descansar a mente: "Nós estamos aqui: o pálido ponto azul".

Não parece o futuro presidente americano a falar, o Sr. Sagan? Não é tão necessário ouvir?

O que alguns amigos que não são professores me perguntam sobre a avaliação dos professores...1

1. É mesmo verdade que os professores não são avaliados há mais de trinta anos como diz o primeiro-ministro?

R. Como não foram avaliados?!
Os professores do Secundário nas últimas duas décadas, pelo menos, tiverem que juntar aos seus cursos científicos de quatro anos, mais dois anos de uma pós-graduação em ramo educacional, sendo que o último desses dois anos era em estágio integrado, já remunerado, que lhes permitiria concorrer a um lugar na escola pública. Como entre o término do 4º ano e a entrada no 5º ano e novamente entre o 5º e o 6º havia numerus clausus, os candidatos a futuros professores foram sujeitos desde logo a uma selecção rigorosa.
Depois do estágio concorriam para todo o país e em igualdade de circunstâncias com todos os professores da nação, assim procedendo anualmente até entrarem em lugar de quadro e/ou ficarem numa Escola do seu agrado. Há quem ficasse efectivo ao fim de três anos e há quem ainda hoje, e desde então, não tivesse conseguido lugar em quadro. Em qualquer destas circunstâncias os professores eram obrigados a fazer cursos de formação (realizados em universidades ou por Centros de formação) que lhes atribuíam créditos para depois poderem mudar de escalão chegada a altura, e isso após a elaboração de um relatório de actividades avaliado pelo Conselho Executivo da Escola onde se encontrassem a leccionar no período em causa.
Além de tudo o mais, o número de professores com mestrado, doutoramento e em regime de pós-doutoramento, tem vindo a aumentar na última década, havendo Escolas Secundárias que já têm mais professores doutorados do que certos cursos em Universidades Privadas. Basta ver os programas.
Os professores lutaram sempre por entrar no ensino público, até recentemente, daí que a selecção tivesse como critério as melhores classificações obtidas na licenciatura e na pós graduação em ramo educacional. A competição era muito grande, e o critério era objectivo e nacional: confiava-se na avaliação universitária e nos orientadores de estágio das escolas escolhidas. Mas isso também aparece hoje posto em causa!
Professores de outros graus de ensino tiveram também que estar sujeitos a formações exigentes, já que a concorrência foi sempre muito alta para este tipo de funções. Mas ignoro as formas de legitimação das suas carreiras.
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2. Vocês negam qualquer tipo de avaliação?
R. Isso é inconcebível numa classe profissional que faz do saber e do conhecimento a sua ferramenta de trabalho (agora querem que nós digamos que somos educadores de competências e não de conhecimentos, "pós-modernices"...).
Qualquer professor de qualquer grau de ensino sabe que a avaliação directa dos seus alunos é a primeira etapa que tem que vencer no início de cada ano lectivo. E esse respeito pela sua pessoa não é dado de forma natural ou imediata nos dias que correm. Um professor tem que conquistar os seus alunos, e também os pais ou encarregados de educação daqueles, para a sua disciplina e para o seu método de trabalho, em primeiro lugar.
É claro que ninguém nega a importância de uma avaliação, aquela que já tínhamos ou uma outra mais fiscalizada, e que conte até com os resultados da escola tendo em conta o seu contexto sócio-cultural. Não me repugna. Mais à frente até vou ter a audácia de apresentar um modelo de avaliação.
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3. Qual é o problema desta avaliação proposta?
R. Assenta na ideia, desde logo errada e perniciosa, que a divisão da carreira docente foi meritória e permitiu distinguir os professores mais avaliados e mais competentes, ainda que eles tenham exactamente as mesmas funções e procedam de maneiras exactamente semelhantes (um trabalho igual para um título desigual): professores titulares e professores não titulares.
Ora como muitos professores titulares são-no por antiguidade e/ou dedicação a cargos administrativos, acabam por não ter muitas das vezes formação científica ou pedagógica superior à do seu avaliado, mas ainda mais grave, muitos desses professores titulares vão avaliar os seus colegas de disciplinas que não são as que eles leccionam normalmente (um exemplo, entre dezenas de outros, uma professora de moral vai ser avaliada pela directora do departamento que é licenciada em economia).
Por outro lado, o tipo de avaliação implica a perpetuação eterna do professor em ano de estágio. É a minimização da sua evolução como profissional, para não falar da pessoa. Todos os dois anos, independentemente de ter as melhores classificações, ou de ser o melhor professor lá da escola, terá três aulas assistidas, terá também que preencher um conjunto de fichas de avaliação de tamanho e extensão no conteúdo a ser analisado inenarrável (em que se pede uma classificação, por exemplo, para o item "consegue criar empatia com os alunos?"!), terá que se submeter a uma auto-critica e a uma análise de funções verdadeiramente paralisante e terá ainda, como é óbvio, que fazer cursos de formação científica e pedagógica avaliados pelas entidades formadoras.
Imaginem o que era um médico, ou um advogado, ou engenheiro, passarem o resto da sua existência profissional a serem submetidos todos os anos ao mesmo tipo de avaliação que tiveram durante o estágio profissional e que fizeram quando estavam a iniciar a sua vida de trabalho. E isso para ocupar um lugar que pode nunca a vir a ser seu por muito bom que seja, porque há cotas em cada escola para os Excelentes e os Muito Bons.
É um braço de ferro a qualquer actividade autónoma na esfera do ensino.
Se isto não é o mito de Prometeu que caiu sobre a actividade dos docentes, então não sei o que é.
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4. Para que serve então esta avaliação proposta?
R. Para fazer com que os professores do quadro diminuam, pela pressão absurda que o ministério exerce sobre eles. Aqueles que podem sair para a reforma estão a fazê-lo e vão continuar. É, sempre foi, uma questão do défice misturada com a ideia de fazer baixar o número de reprovações e /ou abandono escolar.
Seria o "ovo de Colombo" deste Ministério se o tivesse conseguido.
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5. E porque não o conseguiu?
(a continuar)
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PS. Este post foi escrito hoje, quinta-feira, dia 13. Ando com problemas de publicação no blogue.

terça-feira, novembro 11, 2008

Esta é a alegria desta terra...

Saber que existem ou existiram pessoas em Portugal que escreveram e agiram como José Ferreira Barroco e Sousa. Professor de Direito na Universidade de Coimbra, Presidente da Câmara de Coimbra entre 1905 e 1911, defensor de um socialismo municipal, partilhando a causa monárquica, ao ser convidado para Ministro da Primeira República não aceita o cargo. Mas é um homem que ultrapassa as divisões ideológicas simplistas.

Ontem, pela voz consequente do Senhor professor Rui Figueiredo Marques ouvi pela primeira vez falar nesta figura que defendia com a sua doutrina e com a sua acção prática na política que "As administrações públicas devem viver em casas de vidro".


Um homem que enquanto Presidente de um município introduziu reformas que conduziram imediatamente à melhoria das condições de vida do operariado em geral e sobre os trabalhadores municipais em particular, fazendo aprovar leis do trabalho em tudo inovadoras à época a qual se pautava por valores de defesa de um liberalismo económico selvagem, em Portugal e no mundo: introduziu o dia de 8 horas de trabalho, o descanso semanal de um dia, ao Domingo, a proibição do trabalho infantil, etc. É dele também a iniciativa da construção do bairro de operários em Coimbra que oferecesse condições dignas de vida, entre outras obras de interesse geral. Tudo isto a par de uma obra académica na área jurídica de grande interesse para Portugal.


No seguimento das teorias de Eduard Bernstein, o teórico alemão que defendia um socialismo não revolucionário que evoluísse para uma teoria social democrática, o nosso Barroco e Sousa defendia também que "O município constitui a maior alavanca para o desenvolvimento constitucional", naquilo que iria ser o prenúncio de uma política descentralizada do poder, mais próximo das necessidades e interesses das comunidades.
É uma alegria saber da existência deste tipo de pensadores e políticos em Portugal. Faz-me bem.

sexta-feira, novembro 07, 2008

Em nome da democracia

No blog Almocreve das Petas pode-se ler:
"O caso dos constantes "mimos" entre esses peritos do vitupério, sendo cómico ou trágico segundo os seus ledores, tomou hoje, porém, uma intolerância inaceitável. O grupo de deputados do PSD/Madeira decidiu "adiar as próximas sessões plenárias do Parlamento madeirense", em resposta às aleivosias de um deputado da oposição, como se o Parlamento fosse coisa sua. O grotesco desta decisão toma as raias de absurdo quando se assistiu ao impedimento físico de entrada no Parlamento do deputado prevaricador por um "comando" privado de seguranças (sem poder jurídico para tal), como se de uma casa privativa se tratasse.
Não se trata, já, de nos rirmos da bagunça constante no parlamento madeirense ou da sua repugnante agitação, mas sim de observar a existência de um vergonhoso abuso do poder, que confirma a mais completa inexistência de um estado de direito democrático. Que isso não incomode a sra. Ferreira Leite ou que possa merecer o silêncio do sr. Cavaco Silva, não se estranha nem surpreende. A coisa não é mais que a observância do enorme charco onde estamos atolados. Da prática política do sr. Sócrates à teoria política do dr. Cavaco, a diferença é nenhuma. As almas são, justificadamente, iguais. Santa miséria!"
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E ainda no DN de hoje:
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"Parece, pois, que quer o deputado do PND quer a maioria PSD resolveram fazer jus às palavras e exemplo de Alberto João Jardim e oferecer mais um edificante espectáculo ao País. Entretanto, há quem clame pela intervenção do Presidente da República (o mesmo que quando esteve na Madeira aceitou, sem um ai, a interdição da visita ao parlamento) e quem evidencie - o representante da República na Madeira, assim como vários juristas, incluindo o penalista Costa Andrade e os constitucionalistas Jorge Miranda e Vital Moreira - o óbvio: a Assembleia não pode suspender o deputado com o fundamento invocado (que nem se sabe ao certo qual é); tal só poderá suceder após uma acusação formal por parte dos tribunais.
Traduzindo, um deputado é representante eleito do povo, e não está sujeito a ordens e caprichos de uma qualquer maioria. Acresce que, por mais que se procure no Código Penal, não se encontra o crime de "desfraldar bandeira nazi", por mais que o gesto surja infeliz. E se apelidar de "nazi-fascista" um governo ou um partido pode ser considerado difamatório, trata-se de um excesso de linguagem (não tão incomum ultimamente, embora com outros destinatários, e tendo como protagonistas comentadores, políticos e sindicalistas avulsos), em princípio protegido pela famosa imunidade parlamentar e pelo princípio constitucional da liberdade de expressão. O que é mesmo crime é "o impedimento ou o constrangimento, por meio da violência ou da ameaça de violência, do livre exercício de funções de um órgão de soberania ou de um membro desse órgão". Está previsto no artigo 333.º do Código Penal, e no caso de um membro do "governo próprio dos governos regionais", susceptível de pena de prisão até três anos. Mas pelos vistos ninguém na Madeira, nem a polícia, sabe disso. É duvidoso que valha a pena explicar."

Fernanda Câncio, "Caso Perdido" in DN

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Já ontem o jornalista Ricardo Costa na SIC Notícias explicou detalhadamente este princípio elementar para qualquer democracia: um representante do povo (leia-se deputado) só pode ver o seu mandato suspenso por decisão judicial e não política, só pode ser sujeito a um processo judicial e não pode ser impedido de entrar no orgão de soberania onde exerce as suas funções de representante por motivo nenhum de ordem política ou de regulamento da instituição. A bondade do princípio é evidente para qualquer pessoa democrática: ao começarmos a definir o que é bom ou mal passível de ser feito por um deputado em funções, estamos a abrir a porta para a aleatoriedade da definição do que é bom ou mal em nome de interesses de uma maioria que, amanhã, não saberemos qual é, e qual o uso que desses conceitos quererá fazer para restringir a liberdade de pensamento e acção de um deputado. Este é eleito pelo povo e não pelos partidos ou seus dirigentes.


quinta-feira, novembro 06, 2008

Maioria absoluta? Só para quem não tiver memória.


Há uma lição sócio-política que todos os professores deste país já sabem de cor e salteado: maioria absoluta em Portugal é sinónimo de exercício de um espírito antidemocrático.
Para tudo o mais sobre a manifestação dos professores e a posição de certos comentadores e jornalistas completamente ignorantes sobre o assunto, leiam-se as palavras escritas no Almocreve das Petas.

Dear Mr. President: "Save Darfur" não brinca em serviço

"Congratulations on your victory, President-elect Obama.
Now it's time for action.
Be a voice for Darfur. Send a message today "



A associação Save Darfur, perfeita na sua acção e empenhamento, começa já a mandar um postal ao novo presidente dos Estados Unidos, a lembrá-lo das suas promessas para a resolução do problema no Drafur:


"Be a Voice for Darfur

President-elect Barack Obama has pledged "unstinting resolve" in pursuing an end to the Darfur genocide.
Be a voice for Darfur. Join one million people declaring with one voice: Obama must make Darfur a Day One priority.
Sign the postcard now urging our next president to keep his pledge—and take decisive action to help end the genocide.


Dear Mr. President,


As a candidate you promised "unstinting resolve" to end the genocide in
Darfur. I urge you to keep that promise by making Darfur a priority
from day one of your term to achieve: ** Protection of civilians from
violence, starvation and disease ** Sustainable peace for all Sudan **
Justice for victims and accountability for perpetrators.
Sincerely,"

quarta-feira, novembro 05, 2008

O senhor presidente

Em dia de vitória de Obama estive a ler o que o seu assessor para a economia dizia: nada de conceder à Europa continental uma melhor visão estratégica no que aos serviços financeiros diz respeito, afirmou que o seu candidato se mostra disponível para uma ideia de resolução da crise em parceria com a Europa e atento às soluções vindas de outras partes do mundo (uma novidade estratégica), mas sem condescender na prática à ideia de crítica do país. À maneira americana.

Os discursos de Obama são de grande beleza formal (daí a sua musicalidade), mas eu, sem paixão, vendo de longe, espero para ver os resultados que ele conseguirá apresentar neste ano tão difícil. Esperando que ele possa fazer-nos acreditar quando tiver que tomar decisões a sério.

Por cá, o governo procura continuar a descredibilizar os seus críticos, onde quer que eles surjam com um discurso opositor. Muito gostava eu de saber quem libertou as últimas informações sobre Cadilhe para os jornais. Tanto envenenam as fontes que um dia hão-de provar dessa água.

É uma pecha comum da nossa governamentalidade : ao invés de ter um discurso pela diferença e por acreditar em si, faz um discurso continuamente contra o "outro".
Pode ser que a nova moda em matéria de políticos internacionais, o senhor Obama, os faça mudar o modo e o tom com que este governo tem comunicado ou feito passar as suas mensagens. A bem dá nossa capacidade de sobrevivência ao desânimo.

terça-feira, novembro 04, 2008

Será que era um problema económico a necessitar de solução política, ou era uma solução económica que dispensava a intromissão política?

É que são esferas diferentes de entendermos a realidade do que se passou no BPN. E se até Miguel Cadilhe falar ainda podíamos ter a ilusão de que alguma forma a direcção do Banco compactuara com a solução política encontrada para o mesmo, depois disso competirá a quem de direito saber de que forma esta solução política era a desejada por todas as partes envolvidas, e a que melhor servia o interesse público, ou não passou de uma estratégia do governo para dar um sinal à banca que estava pronto para assumir o controlo mesmo se de forma hostil.

Espero vir a saber se Miguel Cadilhe tem ou não razão para falar em nacionalização desproporcionada, para compreender melhor se o governo português toma decisões de nacionalizar empresas em nome de estratégias políticas.

"Quem se mete com a gente leva"

"Quem se mete com o PS leva" de Jorge Coelho e o "Habituem-se" de António Vitorino, são as expressões de comunicação que julgo terem franqueado a porta ao estilo trauliteiro que se instituiu na acção política e social de um certo tipo de pessoas em Portugal. De repente, num desvario de prepotência, aprendizes e mestres que lidam com os assuntos públicos começam a achar normal coagir, ameaçar ou insinuar contra quem com eles não esteja de acordo. Já é muito mau que isso aconteça na esfera da comunicação política, mas torna-se verdadeiramente penoso para as instituições em geral que essa prática se tome como reflexo de uma cidadania empenhada. Pseudo factos e generalizações precipitadas assentes em dificuldades de compreender o sentido do diálogo dos outros, embrulhadas em discurso agressivo que mais não visa que intimidar, não fazem parte das atitudes coerentes de quem gosta de deliberações e negociações públicas, baseadas na boa fé dos interlocutores para se atingir um consenso.
É muito mais fácil soltar o pathos de um discurso que se quer exemplar, do que apresentar contra argumentos fundamentados. Neste ganha-se ou perde-se com razões, no outro vence-se quase sempre sem razão: basta pôr-se a falar como quem uiva. Perdemos todos com isto, mas a democracia, então, fica ferida de morte.
Mário Crespo, uma vez mais, não só contextualiza muito bem a questão que escolhe para reflectir, desta feita a questão da grosseria institucionalizada, como indica correctamente o tipo de efeito enquanto problema social que essa atitude promove.
"(...) A pergunta que se põe é como é que um estado democrático coexiste com esta visão de que "quem se mete com o PS leva" que Jorge Coelho, certamente por acidente, transportou para o mundo da estiva nos cais de Lisboa que o grupo a que preside administra.
Ameaças e coação entram directamente na classe dos crimes semipúblicos que o Estado acompanha mediante denúncia dos visados. Se muito graves, e pessoalmente acho que estes foram, podem mesmo ser crimes públicos, nos quais o Estado litigará por si contra suspeitos de autoria e instigadores.
Talvez fosse saudável num Estado de Direito Democrático mostrar que o ambiente de criminalidade estilo Al Capone, que a procuradora Cândida Almeida, do Departamento Central de Investigação e Acção Penal, tão bem denunciou como estando a querer instalar-se em Portugal, não é tolerado. Que não pode haver lodos nos cais de Portugal por muito poderosos que sejam política e financeiramente os grupos económicos. Que as ameaças de que quem se mete com "a gente" de Jorge Coelho leva não são toleradas. Um pormenor mais. A história de Elia Kazan sobre as máfias nos cais de Nova Iorque nos anos 50 era baseada em factos verídicos."
Mário Crespo, "Quem se mete com a gente leva", in JN

segunda-feira, novembro 03, 2008

A nacionalização anunciada ao Domingo

do BPN.
A este respeito só duas notas: 1. Um economista dizia ontem em programa de televisão que tivesse esta ocorrência acontecido o ano passado e dever-se-ia deixar cair o Banco em questão, com o intuito de penalizar os administradores, accionistas e até os depositantes, por terem confiado num banco que oferecia valores mais altos de juros que os restantes ; pergunto-me, "Então o comum dos aforradores é equiparado aos administradores, gestores e accionistas do banco? Aquele tem não só que desconfiar das capacidades fiscalizadoras do Banco de Portugal, como tem ainda que demonstrar possuir os conhecimentos, os meios e as intuições de um consultor económico?" 2. Por outro lado, a não ser um entrevistador na TVI, ontem ao fim da noite, e os sindicatos hoje, não houve uma palavra de mais ninguém a respeito de todos os trabalhadores do banco que, até ontem, não tinham conhecimento ou indícios de que estavam numa instituição vítima de gestão danosa.
Porquê esse silêncio por parte do governo, por exemplo, serão todos entendidos como culpados?

sexta-feira, outubro 31, 2008

A hipocrisia que move a política internacional, e a nacional

"(...) Não é provável que o extraordinário carisma de Barack Obama seja suficiente para inverter a hipocrisia que habitualmente (se) move a política internacional. Mas é ainda assim razoável esperar que exporte, para fora dos EUA, a sua crença e a sua ambição de mudança. Já será tarde para Asha. Mas pode ser que seja a tempo de salvar milhões de africanos da fome, da tirania, do extremismo e da violência. (...)"
Rafael Barbosa, Asha e Obama, JN.
(...)
"Mas aquilo que invoca Obama é o que invocou Reagan: o optimismo americano de que os problemas se podem resolver e que as divisões podem ser ultrapassadas", diz ainda. Ideologia de Obama, ao contrário do que a esquerda europeia diz, conhece-se, aliás, bem pouca..."
Manuel Queiroz, BARACK OBAMA COMO MESSIAS, DN.

"É como se estas mulheres nunca tivessem existido."


VISTO DO DEUTERONÓMIO
Fernanda Câncio Jornalista - dn

«Aconteceu um destes dias. "Os extremistas islâmicos da Somália executaram uma jovem de 23 anos, por lapidação. A mulher foi acusada por adultério na localidade Kismayu, no Sul do país." A mulher não tem nome, quem a matou também não, a história tem dez linhas. Não há imagens nem entrevistas, nada daquilo que faz "o interesse humano". Não é pois uma grande notícia, morrer à pedrada. Pedra após pedra da mão de gente que ainda ontem talvez nos dissesse olá, que ainda ontem era um vizinho ou um primo ou um irmão, que ainda ontem julgávamos amigo. Mas morremos ali, cercados como por lobos, golpe após golpe. Nenhum profeta para entrar no círculo e suster o massacre com uma parábola, nenhum sinal divino, nenhum raio a fulminar os monstros. E depois nenhum julgamento, nenhum castigo.

É como se estas mulheres nunca tivessem existido. É como se nunca tivessem sido exactamente como nós, a pensar no que vão fazer no dia seguinte, que vai haver um dia seguinte, que não é possível morrer assim, tão injusta e brutalmente, que o destino não pode ser aquele, que algo virá para mudar a sorte, que quem golpeia perceberá que não pode ser, que é demasiada dor, demasiado sangue, demasiado pavor, que não se imaginará a viver com a culpa, que nenhum deus poderá querer aquilo, em nome de quê uma morte assim. Mas a mulher de Kismayu está morta. Ainda hão-de ter-lhe cuspido o cadáver, arrastado os restos para um buraco onde a comerão os bichos. A mulher de Kismayu não existia para quem a matou senão como abominação e exemplo. A mulher de Kismayu é todas as mulheres, homens e crianças que um versículo satânico condenou à fogueira, à lapidação, à tortura mais atroz para glória de uma ideia de universo, de uma ideia de bem. (...)"