domingo, abril 05, 2009

Contra as pressões, marchar, marchar!

"Lopes da Mota, o procurador-geral adjunto que preside actualmente ao Eurojust, fez já várias declarações públicas repudiando as suspeitas de que terá pressionado os responsáveis pelo inquérito, mas os dois procuradores, Paes Faria e Vitor Magalhães, reiteraram a ideia que nas conversas mantidas entre os três era claro o objectivo de os induzir ao arquivamento do processo na parte respeitante ao primeiro-ministro, José Sócrates, deixando pairar a ideia de que, não o fazendo, poderiam estar a comprometer o desenvolvimento futuro das suas carreiras." In Público
É nestas alturas que eu espero que a tão proclamada característica dos portugueses em não se deixarem governar, como muitos querem crer, por ouvir dizer a outros tantos, se torne de facto verdade (coitados, como se nós não nos deixássemos de facto de governar desde sempre por tantos e tão maus governantes!). Se não tivesse sido uma mão cheia de capitães e ainda hoje a sociedade civil portuguesa e a sua belíssima auto proclamada elite estariam modorrados sob a batuta de uma qualquer figura paternalista que convocasse razões do Estado para governar as terras lusas sem democracia.
Espero que não se deixem governar os jornalistas que sussurram que nunca tiveram os telefones a tocar nas redacções como nesta legislatura (e se eles tocaram sempre, por vontade de todos os passeantes pelo poder!), os magistrados que ameaçam que contam publicamente o que se passa, escudados nas boas relações sociais que os protegem (até agora!), os militares que sussurram sobre a falta de escrúpulos deste assalto de alguns cleptocratas ao poder. Os desafortunados do interior que viram escolas e hospitais a serem fechados abruptamente em nome de critérios científicos que esconderam a real ideia de poupança nos gastos. Os funcionários públicos que foram identificados como inimigos da grande ideia de progresso, e de entre eles, os mais ridicularizados, os professores. Que não se deixem governar por esta ou outra gente que igualmente use o poder para se promover e aos amigalhaços, que use rídiculos tons de voz de comando e se faça promover à custa do povo desta nação.
Resistência civil em defesa da democracia parlamentar e representativa, em nome de novas leis eleitorais e reforma do sistema político, e contra todas as maiorias absolutas venham elas da esquerda ou da direita, por parte de todos os que lêem as leis deste país e ficam estupefactos com muito mais do que com a perda de poderes do Presidente, mas sim com a perda real dos poderes dos cidadãos (também dirá ele que são interesses corporativos os que defende, e não de luta pela soberania e pelo futuro da ideia de Portugal os que agora o Presidente invoca para a questão dos Açores? E as outras más leis que pacificamente assinou, podem ser esquecidas?)

quinta-feira, abril 02, 2009

1.Nebuloso é a palavra.

"Qual destes homens e mulheres com os seus sorrisos afáveis e olhares de soslaio seria o seu amigo do dia, e qual seria o inimigo? Que comissão, ministério, credo religiosos ou partido político nebuloso era dono da fidelidade deles?" p. 268, John le Carré

"The show must go on"

Sem cinismo sempre pensei seriamente que em qualquer circunstância o espectáculo agendado deve continuar, mesmo que o circo esteja a pegar fogo.

O circo foi dos primeiros espectáculos feéricos que vi e de todos o maior. Eram circos itinerantes que acampavam nas feiras de província nas férias lá na aldeia da minha infância. Eu não recordo animais maltratados, que os devia haver, nem pobreza dissimulada pelas lantejoulas, que talvez houvesse, ou falta de jeito e de profissionalismo de alguns intérpretes, porventura visível. O que recordo era uma multidão a encher a tenda, em semicírculo à volta do recinto onde se fazia acontecer coisas, as luzes e os cheiros dos animais, a música e os palhaços - o deslumbramento.
Hoje em dia só escapa à política quem esteja muito apaixonado por alguém ou por qualquer outra coisa. Ela tornou-se o grande circo da aldeia global e convoca-nos a aplaudir, e em teoria a aceitar a legitimidade do apupo sem ressentimentos, mas também nos convoca para o número das feras amestradas em nome de sentenças sobre o estado da democracia por parte de seres amantes da doutrina do poder visível e musculado e que escondem os seus intuitos por entre as liberdades dadas pela própria democracia.
Também os há a procurarem soluções dentro do quadro que é previsível pensar: derramar dinheiro para deixar o mesmo estado de coisas a funcionar. O mesmo que nos tem protegido a nós no Ocidente, e na miragem do qual os que morrem afogados a caminho da Europa testemunham com a sua vida.
Obama passeou a sua elegância pelos corredores do poder dos G20. Caminha a dançar. É bonito de se ver, esse andar de menino do Havai. Deveras. Bom, e o que disse ele? Coisa que eu profundamente defendo e que fica bem em qualquer carácter político com imenso poder de facto "procurar o consenso ao invés de ditar os termos". Claro que os há-de ditar, mas sem um
M1 Abrams a sair-lhe ostensivamente da algibeira. Eles não precisam de ser mostrados para que saibamos que eles lá estão. Mas fica bem não ostentar esse, digamos, recurso argumentativo.
E disse também o presidente americano que há que reforçar a capacidade financeira do Banco Mundial, da Organização Mundial do Comércio e do Fundo Monetário Europeu. Tudo coisas que pensamos, eu penso, terem sido pouco recomendáveis e de servirem agendas que não as do interesse comum. Mas estas instituições estão para os economistas como a ONU deve estar para os teóricos da política dos direitos humanos: são males necessários, porque para sobrevivermos precisamos mais delas do que do seu vazio.
O espectáculo deve continuar, pois. Porque a vida é mais importante do que a morte em nome do que quer que seja, a não ser por amor a um ser.
Ontem uma aluna perguntava-me porque não eram os governantes portugueses como os presidentes americanos no que ao tipo de acção discursiva diz respeito. Fazendo notar a existência de diferenças entre eles, apesar de tudo sugeri três factores a contribuírem para uma possível caracterização comum: cultura e organização política da sociedade em causa; educação universitária a prepará-los para a defesa de ideias através de discursos argumentativos e a influência da tradição ideológica "recente" dos pais fundadores, fundo simbólico muito propiciador da criação política.
Esqueci-me de enunciar uma coisa: a possibilidade real de nesse país se poder falar com muitas pessoas inteligentes sobre os assuntos que interessam em política.
Lembrei-me hoje disto ao ouvir a resposta de António Damásio à pergunta de Judite de Sousa sobre a razão porque continuava a investigar nos EUA há já trinta anos. Dizia ele que era sobretudo porque lá podia falar e encontrar-se com pessoas inteligentes que se interessavam sobre os temas por ele estudados, e procurarem assim soluções para os problemas. Assim. Quer dizer, haver pares que se estimam, apesar da competição, e se ouvem.
Olho para a nossa escola e para a nossa universidade e penso...há que continuar, há que criar número e talvez um dia, o maior espectáculo do mundo, o da inteligência, se torne um dado adquirido nas equipas a constituir para a investigação portuguesa em qualquer área.
E, quem sabe, tenhamos um dia um presidente que anda como quem dança.

terça-feira, março 31, 2009

Há mais ameaças neste país do que estrelas sob a nossa cabeça

"(...)Ao ameaçar com processos disciplinares magistrados e demais indivíduos, Pinto Monteiro cai numa trovoada pouco respeitosa. O caminho por que enveredou não é o melhor trilho. Até porque o que a Procuradoria-Geral da República devia esclarecer de vez, em respeito ao estado de direito e aos contribuintes, seriam as razões porque o processo Freeport esteve em banho-maria este tempo todo. E sobre isso não há nenhum tipo de comércio intelectual. Os cidadãos têm todo o direito a saber para onde vão os seus impostos e ao mesmo tempo avaliar o estado da justiça em Portugal. É essa satisfação que Pinto Monteiro não pode declinar. De todo!", in Almocreve das Petas

A mentira repetida há-de dobrar a verdade?

Como era, naquele filme alemão, em que o governo da República Democrática não permitia que se escrevesse sobre o número de suicídios no deslumbrante "paraíso na terra" que era aquele, a ex RDA?

segunda-feira, março 30, 2009

A aventura no Vale de Enid Blyton. É uma das histórias de Blyton que recordo melhor. Tudo me impressionou então, as comidas em lata (!), a catatua Didi (na minha escola primária havia uma catatua), a gruta atrás de uma queda de água (um clássico juvenil e de filmes de matiné), as grutas com as suas estalactites e estalagmites (associada à minha imagem da gruta de Santo António, hoje em dia uma sombra da importância turística que já teve, quase abandonada, e no entanto ainda tão fascinante), as perseguições (a oposição clara entre adultos malvados e crianças espertas, autónomas e competentes: uma parábola possível para um ideal do estado de infância), e, sobretudo, a existência de um tesouro roubado que era preciso encontrar e proteger. A aventura, enfim.
É o livro que estou agora a ler ao meu filho. E das páginas amarelas com a capa a descolar-se (o livro já pertencera a outra criança antes de mim, e ela escrevera-lhe na contracapa ser ele pertença do "clube da arma secreta". A minha mãe tinha-mo comprado numa loja de livros usados que se vendiam num átrio ali para os lados do Saldanha, expostos no chão. Pelo menos é assim que me lembro), dessas páginas chega-me inteirinha uma ideia certa de mim no mundo, que agora seduz o meu filho e o recoloca no mundo da aventura, o mundo verdadeiro para qualquer criança habitar.
Passa-se por certos comportamentos datados (não me tinha apercebido então que, das quatro crianças, era às meninas que cabia preparar os piqueniques e as camas, e aos meninos era esperado que fizessem as acções que exigissem mais força física ou destreza manual!). Uma pena, mas Blyton não fugiu totalmente ao estereótipo. Salve-se o facto de ela não fazer distinções ao nível das soluções encontradas e da resolução de enigmas, na inteligência entre rapazes e raparigas.
O resto é toda uma linguagem certa e rigorosa para transportar para a história, sempre bem contada, simples, com capítulos curtos e fazer crescer o suspense.

Penso na linguagem e nos mundos que essa linguagem abre. Não conheço bons alunos que não sejam bons na posse de uma linguagem. Os vigaristas também. Possuir uma linguagem, torná-la aceitável e impô-la como modelo, é uma forma de fazer mundos.
Em cada género de expressão oral e escrita abre-se a existência real a uma existência possível, se verosímil for a ideia potenciada pela linguagem, se apresentar o desconhecido a partir de um anseio conhecido. A criança não quer, e ao mesmo tempo quer, perder-se num vale e afastar-se temporariamente do conhecido e do familiar. O adulto não quer e ao mesmo tempo quer acreditar que o discurso em política o possa fazer acreditar que dele se espera uma aventura: a do respeito pelo indivíduo no espaço dos direitos e dos deveres sociais.

Esperam ouvir isso de quem? Ou só esperam fórmulas de ganhar um dinheirinho extra com a credulidade alheia para prosseguirem com os seus projectos de projectos políticos?

Também se pode pensar nos cidadãos a serem perseguidos por políticos escroques enquanto procuram o tesouro da repartição do poder em democracia. Uma trágico-comédia.

Ah jornalista!

Perguntas, Mário Crespo. In JN

sábado, março 28, 2009

E?

Cenário nº 1. Primeiro-ministro Sócrates é inocente. Está ofendido na sua honra. Processa um canal de televisão por este mostrar que existem testemunhos que o dão como envolvido num crime de corrupção. Noto: passa-se a processar um meio de comunicação por aquilo que ele mostra? Ou pelo conteúdo daquilo que ele mostra? Mas os meios de comunicação não podem mostrar material do foro do conteúdo de informação? Então Sócrates, o inocente, não estará a insistir num precedente grave em democracia, insurgindo-se (uma vez mais) contra o mensageiro e não contra o autor da mensagem? Sócrates, o inocente, terá que levar quem ele considera que o injuria a tribunal. Ou será que a injúria vem da divulgação da comunicação e não da comunicação em si divulgada?

Cenário nº 2. Primeiro-ministro Sócrates é culpado. Está ofendido na ideia de intangibilidade que faz de si. Processa um canal de televisão por este mostrar que existem testemunhos que o dão como envolvido num crime de corrupção. Para quê? Para alimentar a ideia de "campanha negra" dando nome de forma definitiva a um adversário, a TVI, no caso? Para desviar a atenção do conteúdo da notícia para a punição da forma (e da ousadia) na forma como esse conteúdo foi divulgado? Para dar sinais a outros mensageiros que ainda tem sob controlo grande parte da forma como se deve apresentar a informação?

Cenário nº 3. Sócrates está inocente. Ataca mensageiro em momento de desnorte. Mas reconsidera e decide deixar a justiça funcionar apresentando provas que ajudem a mostrar a sua verdade. Os portugueses (mesmo os que o desconsideram) suspiram de alívio por não terem afinal de contas um primeiro-ministro corrupto, coisa de filme rasca da máfia, e deixam-no ir a votos com a honra limpa, e votando ou não votando nele pela sua acção governativa.

cenário nº 4. Sócrates é culpado. Ataca o mensageiro por estratégia e por hábito bem sucedido na sua governação de pressão sobre os grupos, pessoas ou instituições que não partilham com ele da sua visão do mundo e de si. Continua bem sucedido e chega às eleições aureolado de vítima de ataques à honra (sempre indignos quando o são) e vai-se votar num primeiro-ministro sob suspeita.

Conclusão: no cenário 1,2 e 4, Portugal perderá sempre. No cenário 3, perde a política portuguesa, porque assim qualquer indivíduo se julgará no direito de envolver em grave acusação o nome de um ministro ou primeiro-ministro sem pudor e sem temer consequências no decorrer de uma convera privada sobre o deslindar de um crime.
O que sairá daqui para o futuro? Melhores leis anti-corrupção? Como? Se ainda hoje ouvimos um juiz, especialista, dizer que nesta legislatura foram criadas leis ainda mais restritivas à investigação?
Melhor liberdade de imprensa e mais preocupação com os conteúdos informativos? Como? Se a tendência é criar mecanismos de controlo ou de pressão utilizando os media quando interessa transmitir mensagem, e refreando-os quando desagrada? E que liberdade existe realmente quando os meios de comunicação se concentram nas mãos de dois ou três grupos económicos que não são inocentes no que a uma agenda mediática diz respeito?
Melhor democracia? Como? Se o discurso de fuga para a frente e do desejo de criar pequenos autocratas em cada local de funcionamento popular é um tique governativo que se está a tornar numa ideologia?
E agora que a banca e a indústria estende a mão ao governo, alguém pensa que aqueles alguém querem saber da verdade acerca de uns "trocos" desviados, preferindo o certo ao incerto?


O senhor presidente deve vir agora dizer-nos que lamenta, mas não tem solução.
Não se lamenta mais do que eu me lamento por eles. E sabendo, como se percebe no vídeo, que ali se fala do clima de medo instaurado (e ainda só se estava em 2006, início da legislatura), o que sobra agora de verdade? Ora Sócrates sozinho não conseguiria assim tanta influência. Até onde vai esta espoliação? Quem quis assim tanto que os portugueses aprendessem a ter medo? Que nos habituássemos?

quinta-feira, março 26, 2009

"Coitadinhos, de todas as escolas, uni-vos!"

"(...) certos professores estalinistas, trotsquistas e maoístas, feitos ministros, deputados e candidatos a deputados, dando lições magistrais e autoritárias sobre a defesa da democracia constitucional, de que eles foram primitivos e assumidíssimos inimigos. (...)
Percebi ontem o ambiente, quando um senhor secretário de Estado veio a parlamento, mais uma vez, insultar os professores, dizendo que quem não cumprisse o regulamento decretino, emitido pelo verticalismo hierarquista, não passaria de um coitadinho que não poderia ser promovido. Por outras palavras, a ministerial figura do nosso burocratismo delegado tornou patente a cultura de que é consequência. Não lhe dou o nome de pedra, pedreira ou pedregulho, nem lhe respondo, de baixo para cima: coitadinho é Vossa Senhoria! Prefiro reverenciá-lo sem temor, com um hossana nas alturas, extensível à ministra rodriguinha e ao sousíssimo José, o Primeiro. (...)"

terça-feira, março 24, 2009

O meu fim-de-semana público foi salvo...

pelo filme "Boa noite, e boa sorte". No meu universo público de referências contraponho o discurso do jornalista Edward R. Murrow, frente ao "Radio and Television News Directors Association in Chicago", ao anúncio da jornalista Eduarda Maio. No meu plano público de referências, contraponho o comentário dos políticos nacionais com a entrevista dada por Rânia al Abdullah da Jordânia , no programa Sociedade da Nações. No meu universo público de referências, o livro de de John Le Carré, Um homem muito procurado, é contraposto às explicações dos nossos economistas e até a essa última cimeira europeia.
Ah, ele é um jornalista americano, uma monarca de revistas cor-de-rosa e um escritor inglês! Pois sejam. Eles são isso, e foram eles que salvaram o meu fim-de-semana de exposição aos líderes e comentadores da vida pública em Portugal. Foi com eles que eu caminhei. Como se eles precisassem de mim para alguma coisa...mas eu precisei deles.

A ignomínia do Darfur:consegue-se sempre descer a outro ciclo

Darfur

sexta-feira, março 20, 2009

Liderança política como meio de partilha de bens pelos governantes?

"Que esta partición de bienes, que es como seguramente los corruptos de este gobierno perciben al país, me recuerda una anécdota personal, tragicómica si se quiere, ocurrida en los prolegómanos de mi primer divorcio, cuando el marido de entonces aceptó finalmente mi petición de separación con una sentencia inolvidable, jurando que se estaba vengando de mi desamor: "Ok. Yo me voy para el coño... tú te quedas con la niña y yo con el Volkswagen"... Así están los chavistas hoy, celebrando puro presente, puro oportunismo, puro dinero recién llegado y contratos pendientes, mientras de este lado de la torta a nosotros nos dejan la mejor parte."

Elizabeth Fuentes, "La torta de Tibisay"

terça-feira, março 17, 2009

"Qual a relação entre o Governo e o Presidente da República?
É de responsabilidade institucional e política do Governo perante o Presidente da República. O Governo responde perante o Presidente da República através do Primeiro-Ministro."
..
"(...) Cavaco Silva, como profissional que é, regressa à política com uma longa e feroz luta pela presidência da República. Assumiu-se como a "boa moeda" que conseguiria resistir às investidas das "más moedas", na sua cruel pedagogia da Lei de Gresham, que foi determinante para aniquilar um governo do seu próprio partido e dar-lhe a chefia do Estado.
É um homem de acção impiedosa e firme, quando a quer ter.
Se o pronunciamento que fez de não ter soluções para esta crise foi uma tentativa de culpabilizar só o Governo, então foi de um insuportável, mas característico, tacticismo. Se foi sincero, então foi vergado pelo remorso, e anunciou que a sua longa carreira de político e de homem público chegou ao fim." Mário Crespo, Desculpem, não tenho soluções", in JN

segunda-feira, março 16, 2009

Uma boa ideia.

Portugal é de todos nós.

É uma bela ideia, mas a participação, se em massa, como se deseja, é igualmente respondida, como individual?
Isto é, a partir de um determinado número de respostas quem tem capacidade de ler e de dar continuidade à proposta?
A não ser que pensemos que as respostas são agrupáveis, e que o tratamento a fazer é estatístico. A democracia de massas é uma democracia estatística?
Bem pior era se a democracia de massas fosse indiferente. E não o será de facto, mesmo com estes jogos de participação?

sexta-feira, março 13, 2009

Eu não queria nada escrever sobre isto, mesmo nada. Queria escrever sobre os livros que leio, teorias que aprendo, ideias que se me tornaram claras. Sobre exposições que tenho visto, sobre as pessoas que aí tenho encontrado. E não queria escrever sobre aquilo. Mas não consigo escrever sobre os livros, as ideias e as teorias, de que gosto tanto, e de que não consigo escrever há tantas semanas, como se uma garra tolhesse a minha vontade, e vou falar sobre isto de que não quero escrever? Podia parar aqui. Pôr-lhe um ponto final. E não escrever mesmo sobre isto. Porque é demagógico, porque é pessoal, porque não tem interesse. Como este espaço é semi-público, a parte semi-privada que dele me é permitido usufruir, concede-me uma certa liberdade inconsciente na escolha dos temas e das palavras, mas a parte semi-pública impele-me à consideração dos eventuais indivíduos que possam circular pelo espaço, que é público.
Não me apetece falar sobre professores (maioritariamente professoras) mortos ou agredidos nas salas de aula, por esse mundo fora. Nem dos alunos mortos e agredidos na sala de aulas. Não quero. Mas eles continuam lá a morrer como se a escola se tivesse tornado um campo de batalha na cabeça de muitos indivíduos. Penso neles.
A escola é um espaço de frustração exacerbada (que o digam os nossos governantes), porque é nela que estão centrados todos os rituais de iniciação do indivíduo na cidadania. Hoje, pede-se à escola que substitua as figuras parentais, que responda a anomalias clínicas, que dê assistência social, que pratique a solidariedade, que promova o convívio, que forme o cidadão, que o eduque, que o ensine, que o regule e o vigie e o entretenha. A família, os vizinhos, os amigos, a comunidade, a igreja, os clubes desportivos e recreativos, as associações, tornaram-se satélites do grande planeta escola, e aguardam dela a ocupação da maior parte do espaço livre dos indivíduos em formação. Só quem passar a prova "Escola" entra na vida adulta, e nas promessas de mel e pão que os adultos dizem estar à espera de quem a termina.
Mas a escola impositiva, este ritual de passagem sem fim que a nossa sociedade instituiu, é mais um espaço social, e, como os demais, é um espaço agressivo, competitivo, relacionalmente exigente, mesmo quando os currícula se tornam simulacros de aprendizagem. Ou talvez mais agora. Se esvaziarmos os conteúdos ficamos com as formas. As formas de relacionamento. Ora lidar em relações humanas, gerir expectativas, como agora se usa dizer, ficar de frente com as nossas debilidades humanas e emocionais, dá explosões constantes.
Para mais, a universalização do ensino, juntamente com a prática de alguns governos em subverterem o princípio de autoridade do professor, assente no seu trabalho como pedagogo, obrigaram a que certos indivíduos se sintam encurralados na sua individualidade fazendo frente a outras tantas individualidades. Outrora, o menino ou a menina não queriam, ou não podiam, seguir a Escola, e tinham imediatamente actividades em que ocupar a cabeça e as mãos. A comunidade instituía rituais paralelos de aprovação do indivíduo que não o deixava cair na frustração de si perante o olhar dos outros.
A normalização do comportamento não vinha da frequência da escola, mas na capacidade de executar um trabalho, ou de namorar e casar, de ir à missa aos domingos, de saber jogar às cartas, ou de fazer umas calças ou croché, de ter uma casa arrumada e asseada, de beber umas cervejas com os amigos sem cair bêbado para o lado, enfim...uma multiplicidade de papéis, que um jovem podia iniciar cedo e dar-lhe estabilidade.
Hoje encafua-se tudo na escola desde os quatro meses de idade. Tudo para lá. As formas e os feitios a adaptarem-se a outras tantas formas e feitios, porque não há propriamente uma ideia de educação porque não há uma ideia de cidadão.
As classificações baixas são sobretudo vividas pelos pais dos alunos como fracassos familiares, e os alunos cedo se começam a comparar com os seus pares: comparam as roupas, os gadgets, mas também os neurónios. E para além da preguiça de alguns, a verdade é que a natureza privilegia de facto mais uns que outros, assim bem como a estrutura social em que se nasce favorece mais uns que outros. É assim. É a verdade. As pessoas nascem condicionadas e reagem em tempos diferentes à exigência do modelo cultural e social dominante, que os está a avaliar. A Escola é um prolongamento desse modelo dominante e não conseguirá nunca substituir-se à socialização parental, porque as primeiras palavras, os primeiros valores, a primeira forma de aprender a pensar se aprende em família, se vier a aprender isto na escola, aprende ou tarde ou mal. É a realidade. Isto não implica que nos desobriguemos da pública e política exigência de dar oportunidades iguais a todos os jovens. Mas não tenhamos ilusões, ninguém parte, no momento zero da existência, na mesma linha da meta de todos os outros.

Solução? Deixar aqueles alunos que querem trabalhar, começar a fazer essa aprendizagem mais cedo. Voltar à figura de aprendiz. A Escola deve manter-se como uma possibilidade para esses, mas quando for reconhecida como uma necessidade, ou quando for aceite como espaço de conflito de forma natural, não imposta.
Conflito porque há de facto uma luta do saber contra a ignorância, do poder do indivíduo professor contra o do seu aluno, da qualificação académica contra as formas de vida não académicas. De outra forma estaremos a incentivar à desistência, ou à violência, todos os que não conseguem suportar esta institucionalização. Estaremos a querer fazer com que a escola se assemelhe a a um campo de batalha de ódios e de vitimizações, ou de logro, para os que a trapaceiam e adquirem certificados sem consistência científica.

No Japão há indivíduos que se fecham em casa durante anos e se recusam a ir à escola, noutros países entra-se com armas e mata-se e fere-se. Em Portugal assiste-se à violência comportamental crescente.
Quem olha pelos professores e alunos que de facto estão a cumprir o seu dever na Escola? Não devia o governo estar ao lado destes cidadãos de forma inequívoca e frontal?

Mas não, no ensino , como noutras esferas de acção, prefere-se em Portugal dizer mal das pessoas, amesquinhá-las, torná-las ainda mais pequenas. Não sei quem ensinou os nossos líderes que atacar é a forma mais correcta de promover um trabalho correcto e rigoroso. Hão-de conseguir trabalhar com almas enfermiças, hão-de.

P.S. No cordão que os professores (maioritariamente professoras, gente corajosa e digna) fizeram no sábado passado, muito foram os transeuntes ou automobilistas que invectivaram os professores, num discurso e num palavreado digno de regimes totalitários e de ódio sexista e laboral. Fiquei a pensar na podridão existencial em que certa gente pulula. Coisa de escravos e que dura há séculos colada às suas peles.

quinta-feira, março 12, 2009

A China quer tapar o sol com a sua grande peneira. E lá continua a sua longa marcha.
Nós não podemos morder a mão de quem nos dá de comer. Mas, tal como a revista Visão fez, e bem, isso não nos impede de questionar o que está mal. E pelas terras de oportunidade há muita coisa mal para os seus cidadãos.
Eu recebo este vídeo muito bom e bem explicado. É de ver e ouvir a História das Coisas.
Na rua, as árvores cobriram-se em poucos dias de milhares de botões que desabrocham em pequenas flores. É uma esquisitice, parece, mas olhá-las faz-me pensar na dialéctica hegeliana, e esta traz-me uma profunda paz.
Semente, flor, fruto, semente, flor, fruto, semente, flor, fruto. É uma espécie de mantra. Uma ideia de paraíso.

terça-feira, março 10, 2009

9 milhões e meio menos uma, a não deixar de ouvir.

Excepto a questão do presidencialismo, uma ideia, mas uma ideia apesar de tudo que eu não reconheço, tudo o mais soa a verdade:
Mário Crespo entrevista Medina Carreira

sábado, março 07, 2009

Nem quando se faz aquilo que se tem que fazer, por obrigação, e por convicção, se fica impedido de pensar na contrariedade que essa acção provocará em alguém.
Eu admiro a assertividade de certas pessoas. Em certas mulheres, por exemplo, há sempre a ideia de uma imensa competência pela forma como fazem fluir o discurso de forma determinada. É curioso que geralmente são mulheres licenciadas em direito. Parecem-me quase sempre futuras promissoras ministras. Sem dispromor para elas.
As minhas amigas que vêm das ciências naturais, das ciências sociais e das humanidades, têm uma forma de falar e de se expor mais cheia de reticências, uma mais reflexiva forma de explicar as coisas, menos rigor na discussão sobre valores, um maior ziguezague discursivo.
Julgo que a competência das pessoas da esfera jurídica se deva à prática argumentativa que o Direito lhes dá, uma diferente competência linguística relativamente às demais, que as forma num discurso coerente, normalizado e escorreito sobre a vida política, mais próximo daquilo que é expectável ouvir-se. Aquilo que para as demais é uma vivência emocional ou reflexão teórica sobre a descrição da realidade social, para as pessoas de Direito parece uma compreensão da realidade normativa em que se vive.
Evidentemente, a assertividade surgirá em cada pessoa na sua área de saber, ou como reflexo da sua competência prática em algo, mas parecer-nos-á sempre, se em exercício da política, um arremedo de pensamento.
Quer dizer, parecem-me que as esferas do saber e da experiência por vezes são produzidas para se manterem encapsuladas. Se isto decorre de uma qualquer forma de entropia dos processos, como dizia, penso que neste sentido, Lévi-Strauss, ou se decorre de estratégia das lideranças, por inércia ou com intenção, isso não sei.

quinta-feira, março 05, 2009

E as quotas femininas no sufrágio universal?

Nem de propósito. Hoje vou fazer um breve apresentação sobre o assunto das quotas e da participação das mulheres na vida política.
Desde quando é que eu me interesso por isso especificamente? Deixa cá ver... desde que comecei a ler sobre o assunto para fazer a apresentação: desde há uns quinze dias.
O que é que eu posso dizer em minha defesa? Nada. Ou, talvez, digamos que sou de filosofia. É isso. Uma boa defesa. Em filosofia falamos de conceitos. Fazemos deduções, argumentamos, fazemos contra-argumentações, à volta de conceitos. As questões das influências sociais, as manipulações das acções e dos discursos, o estudo de atitudes e comportamentos não é, não foi, a minha área de formação. Pronto.
Para além do mais eu sou obtusa relativamente a certos temas. Acho que nunca me tinha apercebido da existência do tal tecto de vidro, porque na realidade o pensamento não tem que ter género. Esta é a minha defesa. Eu sou uma defensora da razão como faculdade universal.
E no entanto... bastava eu ter sido menos distraída, ou menos ingénua, e tinha percebido como as mulheres que conheço bateram uma, e muitas vezes, contra esse tecto de vidro. Em política ou na academia. Sempre com um sorriso e a comporem a roupinha. Que estúpida que eu consigo ser. E ainda sou capaz de, por cima, oferecer um ramo de flores e fazer uma discretíssima vénia a todos esses estupores.

Despotismo esclarecido

Este fim-de-semana fugi da socratização dos media. Desliguei.
Há muito tempo que não conseguíamos ir ver um filme sem ser animado para crianças. Este fim-de-semana deixei o sentimento de culpa de lado, convidei a avó a fazer companhia ao rapazinho, e abalei à procura de um cinema com o meu marido. Havia escolha. Seleccionamos o MilK. Não nos arrependemos.
Ao princípio estranha-se a interpretação de Sean Penn, e pensa-se:"Irá cair no estereótipo da personagem tipo?" Mas não, começa o actor a caminhar no fio da navalha em termos interpretativos e desequilibra-nos em relação ao tema. Faz-nos caminhar no fio da navalha da nossa adesão à pessoa de Milk.
A homossexualidade não foi, como muitos outros temas ditos fracturantes, uma causa pela qual eu desfraldasse uma bandeira. Até muito pouco tempo não via onde estava propriamente a questão em exigir-se que se respeite legal e civicamente os direitos das minorias, quando era mais que óbvio que só dessa forma se pode proceder em democracia. Quer dizer, não me apercebia que era preciso continuar a lutar por direitos que eu à partida julgava mais que estabelecidos na sociedade portuguesa, não para um grupo específico, para os cidadãos em geral. Obviamente, neste, como noutros assuntos, a minha perspectiva universalista impedia-me de ver a árvore na floresta. De facto havia cidadãos que se queriam casar civilmente e.., não podem. Pois. Também gostava de saber se são preteridos na vida política pelas suas opções. Mas sobre isso preferem nada dizer. Eu penso que era importante saber-se.
Com Milk, como noutros filmes de causas de minorias, o que se evidencia é o caminho de luta contra o status quo político e social estabelecido. Sobressai a estrutura mental do pioneiro. É um clássico do cinema americano. Desta feita o pioneiro era um activista (homem e branco) dos direitos sociais e políticos dos homossexuais americanos. É pouco? Claro que não. Mas é um facto que a sua vida corre a par da de outros tantos homens e mulheres que lutaram e morreram igualmente pela defesa de outras tantas garantias para as minorias que representavam então.
O que mais me seduz em Milk é de igual género ao que me seduz noutros filmes de causa centrados em pessoas: a sociedade civil (um indivíduo a provocar a sociedade civil), com um código ligeiramente diferente do da maioria (não tão diferente até ser irreconhecível, mas suficiente qb. para provocar rupturas), a percorrer um caminho de legitimação das suas exigências. Fascina-me ver os movimentos populares de reforma social.
Já os movimentos reformadores vindos do Estado, dos tais déspotas esclarecidos, cada vez me provocam mais náuseas. Essa força motriz que falta ao cidadão substituída pelo tom de voz do dono do poder que ocupa a cadeira do momento é verdadeiramente perturbador.
Mas isto também é um clássico: alguns detentores do poder, sobretudo quando sentem os adversários temerosos, transformam-se em paternalistas figuras da sociedade que representam. Abominável forma de viver a política.

sexta-feira, fevereiro 27, 2009

"Que fazemos aqui?"

"(...)Repare-se no rosto dos que estão no poder, e no daqueles que estão preparados para os substituir. Sempre aquelas caras que pouco se alteram. Sempre os mesmos hábitos. Sempre o mesmo sarro da aldrabice, da dissimulação, do desdém por todos nós. As eleições estão à porta. As sondagens fornecem-nos indicações arrepiantes. A mesma clique, a mesma casta, a mesma direcção e o mesmo sentido." Baptista-Bastos in Jornal de Negócios

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

cidadania?

Ontem desafiaram-me a responder a algo que resumidamente enuncio aqui:
1. Existe espaço público em Portugal?
2.Existe jornalismo cívico?
3. Que exemplos de participação cívica têm influência na vida social?

Hoje respondi à flor do pensamento:

1.Existe expressão pública de grupos de interesses mais ou menos estruturados (associações, sindicatos, grupos de cidadãos com intuitos profissioanis, recriativos, culturais, entre outros, fundações, empresas, ordens profissionais, em particular, e assembleias mais ou menos formais em geral, etc.).
A esfera pública é uma concepção volátil: tão depressa é consensual que se identifica o seu uso com o aparecimento dos media, como se declara ser ela um encontro de vontades que se universaliza num só movimento ou voz (manifestações, comícios, reuniões gerais com moção aprovada, etc).
O espaço público parece-me uma metáfora para um desejo social e político de uma realidade que nunca aconteceu na história. E porquê? Porque deliberar dá um trabalho imenso e, no nosso tempo, implica uma multiplicidade de escolhas que só os mais especializados ou mais infatigáveis cidadãos de entre nós está preparado para suportar.
2. Existe uma ideia de jornalismo cívico; mas como os valores parecem ferro fundido na nossa actual sociedade, o que hoje se entende por cívico amanhã pode mudar, em nome de uma relativo superior interesse da liberdade de definição, ou algo que o valha.
A indicar um jornalismo cívico eu diria o que se pratica com os espaços utilizados para recriminação pública (cidadão jornalista-polícia e advogado), como é por exemplo o programa "Nós por cá" da SIC. Não funcionando a justiça, o cidadão identifica o jornalismo como instituição que ajuda não só a promover como a defender os seus direitos.
Os blogues, muitos deles, têm o mesmo papel: servirem como espaço de publicitação/discussão de certos temas que agrupam diferentes pessoas sob o mesmo interesse e com conveniência em tornar públicas as suas posições.
3.Para quem ouve os espaços de intervenção do cidadão, com discursos pejados de lugares comuns (os fóruns na rádio e na TV), até parece que não houve evolução efectiva na nossa participação como cidadãos, mas de facto como comentadores em esfera pública os portugueses fizeram uma evolução considerável desde há trinta e cinco anos, pois são mais articulados e desembaraçados ao falarem em público, e conseguem manifestar-se sobre um número considerável de temas que não só sobre futebol.
Não fizeram evolução idêntica foi em produção de ideias/acções decorrente do associativismo cívico, ou em movimentos colectivos de reforma social dos costumes. Isto dá de facto muito trabalho e exige dedicação e empenho que o comum dos trabalhadores não consegue, ou quer, disponibilizar. Estes espaços foram sempre dirigidos pelo Estado através de leis coercivas (veja-se as leis do trânsito, dos fumadores, da ASAE, etc., tudo medidas a endurecerem os correctivos disciplinares sobre um povo que não busca para si a harmonia ou auto-controlo).
Demasiado Estado sobre o comportamento civil porque, penso eu, as esferas sociais de socialização como a família, o grupo de pares ou a escola o deixaram de fazer de forma contínua e integrada. A autoridade do Estado contra a autoridade do cidadão consciente dos seus direitos e dos seus deveres.

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

"Afinal, para que servem os sindicatos?"

"PARECER preliminar de Garcia Pereira – versão completa. Via Almocreve das Petas.


Bom, eu que tenho acompanhado o percurso dos sindicatos e dos movimentos de professores posso, para já, concluir duas coisas: os primeiros têm o poder de servir para mobilizar pela capacidade logística e comunicacional, os segundos têm o poder de acompanharem e de recriarem o espaço público de discussão ainda que muitas vezes sobre as iniciativas privadas de cada professor. Os primeiros uniformizam a reacção, os segundos contemplam a expressão privada da angústia e do desamparo institucional dos professores. E estes estão a fazer um excelente trabalho: às vezes ficam confundidos quanto aos seus papéis no contexto político, mas esta já é outra discussão que decorre precisamente da sua procura de uma forma de expressão em tudo muito nova, pelo meio escolhido, em Portugal.

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

O livro que trouxe da livraria, O século dos Intelectuais, era afinal uma tradução da Bertrand para o português do Brasil. Lá tive que ir trocar o livro, porque na realidade havendo uma tradução em Portugal não sinto necessidade de o ler numa escrita em que "tropeço" mentalmente em certos termos. Uma questão de hábito e de conforto.
Ainda em saldo, e pelo preço de um, trouxe um livro de Jon Meacham sobre Roosevelt e Churchill, e um´outro sobre as mulheres na política de Michael A. Genovese.
De certa forma esta minha necessidade de andar sempre a rectificar o que faço é uma metáfora para a minha cegueira parcial como uma forma de ser.
Um professor meu alertava-me para a tendência de fazer avaliações baseada no que é contado por outrem, sendo que para todos conta aquilo que as pessoas fazem realmente connosco em cada situação. Constatar factos mais do que recolher apreciações de terceiros.
O problema parece-me estar na impossibilidade de nos relacionarmos de forma efectiva com todas as pessoas de quem nos falam, e de não podermos testar como hipóteses aquilo que nos é dito sobre outrem.
Imaginemos que uma amiga me fala das falhas de carácter do ex-marido. Ele até pode ser correcto e gentil para comigo quando me encontra, mas essa apreciação não poderá sobrepor-se à minha total confiança acerca da avaliação feita pela minha amiga acerca da má prestação do sujeito enquanto marido, daí decorrendo que eu própria o julgo segundo essa perspectiva.
Onde fica então o limite daquilo que eu tenho que tomar como verdade? A suspeita sobre todas as formas de discurso é legítima?
Mas isso implica estar sempre atenta a formas de influência e de poder, e de os ter sob permanente suspeita o que, na vida privada, nos pode levar à desconfiança paralisadora, e na vida pública à paranóia, ou não?
Pois, é uma questão de equilíbrio. Eu sei.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Volto aos livros, de onde nunca saí, mesmo quando escrevi por reacção pessoal a estados de comunicação e de decisão que considero ignomínias numa democracia. Volto aos livros. E trouxe da livraria da universidade, em saldo, O século dos intelectuais, de Winock, e Political Philosophy and ideology de McDonald. A ler ainda, portanto.
Dos já lidos, e fora do contexto de trabalho darei conta em breve.
Vou importar a discussão mais teórica que estava a ter no blogue "A la Gauche" e deixar aquele para "Estados de leitura noticiosa",para exibir a minha auto-proclamada veia polemista. Aqui ficarão os textos que eu considero de "desenrolar a mente", como se um cavalo no picadeiro se tratasse.

terça-feira, fevereiro 10, 2009

A perfeição existe, e revela a nossa estreita vida democrática neste fabuloso texto

Está bem... façamos de conta
"Façamos de conta que nada aconteceu no Freeport. Que não houve invulgaridades no processo de licenciamento e que despachos ministeriais a três dias do fim de um governo são coisa normal. Que não houve tios e primos a falar para sobrinhas e sobrinhos e a referir montantes de milhões (contos, libras, euros?). Façamos de conta que a Universidade que licenciou José Sócrates não está fechada no meio de um caso de polícia com arguidos e tudo.
Façamos de conta que José Sócrates sabe mesmo falar Inglês. Façamos de conta que é de aceitar a tese do professor Freitas do Amaral de que, pelo que sabe, no Freeport está tudo bem e é em termos quid juris irrepreensível. Façamos de conta que aceitamos o mestrado em Gestão com que na mesma entrevista Freitas do Amaral distinguiu o primeiro-ministro e façamos de conta que não é absurdo colocá-lo numa das "melhores posições no Mundo" para enfrentar a crise devido aos prodígios académicos que Freitas do Amaral lhe reconheceu. Façamos de conta que, como o afirma o professor Correia de Campos, tudo isto não passa de uma invenção dos média. Façamos de conta que o "Magalhães" é a sério e que nunca houve alunos/figurantes contratados para encenar acções de propaganda do Governo sobre a educação. Façamos de conta que a OCDE se pronunciou sobre a educação em Portugal considerando-a do melhor que há no Mundo. Façamos de conta que Jorge Coelho nunca disse que "quem se mete com o PS leva". Façamos de conta que Augusto Santos Silva nunca disse que do que gostava mesmo era de "malhar na Direita" (acho que Klaus Barbie disse o mesmo da Esquerda). Façamos de conta que o director do Sol não declarou que teve pressões e ameaças de represálias económicas se publicasse reportagens sobre o Freeport. Façamos de conta que o ministro da Presidência Pedro Silva Pereira não me telefonou a tentar saber por "onde é que eu ia começar" a entrevista que lhe fiz sobre o Freeport e não me voltou a telefonar pouco antes da entrevista a dizer que queria ser tratado por ministro e sem confianças de natureza pessoal. Façamos de conta que Edmundo Pedro não está preocupado com a "falta de liberdade". E Manuel Alegre também. Façamos de conta que não é infinitamente ridículo e perverso comparar o Caso Freeport ao Caso Dreyfus. Façamos de conta que não aconteceu nada com o professor Charrua e que não houve indagações da Polícia antes de manifestações legais de professores. Façamos de conta que é normal a sequência de entrevistas do Ministério Público e são normais e de boa prática democrática as declarações do procurador-geral da República. Façamos de conta que não há SIS. Façamos de conta que o presidente da República não chamou o PGR sobre o Freeport e quando disse que isto era assunto de Estado não queria dizer nada disso. Façamos de conta que esta democracia está a funcionar e votemos. Votemos, já que temos a valsa começada, e o nada há-de acabar-se como todas as coisas. Votemos Chaves, Mugabe, Castro, Eduardo dos Santos, Kabila ou o que quer que seja. Votemos por unanimidade porque de facto não interessa. A continuar assim, é só a fazer de conta que votamos."

Mário Crespo in JN

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Este país não é para crianças 2

Uma amiga de amiga, pessoa cuja opinião estimo, discutia comigo a entrega da menina "Esmeralda" ao pai. Jurista de formação, ela defendia a superior decisão do tribunal, e alegrava-se por finalmente se ter feito justiça após todos estes anos de intoxicação da opinião pública por figuras alheias ao processo e que defendiam, diz ela, um crime de subtracção de menor.
Eu não duvido que a juíza do caso estivesse a fazer cumprir a lei, ainda que de forma sub-reptícia e ela própria digna de figurar no papel de uma subtracção de menor, mentindo aos presentes sobre a durabilidade da sua decisão; o que me perturba precisamente é este tipo de lei.
A minha amiga dizia-me que a partir do momento em que instado a fazer análises e confirmada que a criança era sua, o Senhor Baltasar requereu a guarda da filha. Mas eu perguntei-lhe como teria sobrevivo a bebé até ao dia em que isso aconteceu, se alguém não a tivesse acolhido, amado, alimentado e cuidado. Desde a gravidez até ao ano de idade da criança o pai não quis reivindicar direitos sobre a filha, ora como é que a lei permite este tipo de comportamento aos progenitores portugueses? Repito: Este país não é para crianças. Talvez seja para os proprietários de crianças.
..
Numas coisas estivemos de acordo: este caso não é um Benfica/Sporting da vida (embora ambas as partes tenham claques igualmente abusadoras) e existem dezenas de casos igualmente graves dos quais ninguém fala.
Pois, mas a lei não deixa de estar mal feita por isso mesmo. São péssimas as leis sobre adopção e cuidados de crianças em Portugal. Péssimas. E o Estado, em muitas das suas instituições, não é sequer um bom cuidador.

A perfeição existe. No texto escrito por Lobo Antunes, por exemplo.

"Deus, estou zangado contigo. (...)"


António Lobo Antunes, in Visão

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

Teste da boneca/percepção da cor


Vídeo enviado pela minha amiga Teresa Marques, a propósito de certas palavras minhas.

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Que belo título, nem de encomenda! Às vezes pensamos que fretes são estes. Às vezes não, sempre.

"Maioria dos professores já aceita ser avaliada"
in DN


Desde quando é que os professores não aceitaram (ou não foram) avaliados? E que maioria é esta para este tipo medíocre de avaliação, que já nem no Chile se defende? A dos contratados, cheios de medo?
"O buraco do BPN é do tamanho de um oceano, mas os que dele receberam prebendas e ofícios continuam a dar-nos lições de moral, pessoal, religiosa e pública, sem qualquer espécie de vergonha."
Sobre o tempo que passa

Crise negra ou palavras levianas

Ontem, após leitura dos objectivos do Pacto social Europeu, discutia com os meus alunos de Cidadania algumas consequências da actual crise financeira e económica que leva ao desemprego em massa ou à xenofobia e nacionalismo agressivo. Discutia sobre a legitimidade constitucional desses actos e perguntava-me da sua extrema necessidade; falava da diferença entre a teoria e a prática no discurso da globalização. De repente digo qualquer coisa como "anos negros vão continuar a avizinhar-se." Parei, atenta. Os meus alunos negros baixaram a cabeça. Só isso. E eu, estúpida, pensei, o que é que tu sentias se uma professora que habitualmente escutas, classificasse a crise como representando um "humor feminino"?
E isto não tem a ver com o buscar um vocabulário politicamente correcto, tem a ver com o vocabulário que constrói o mundo. E eu preciso de palavras sábias, mas é-me tão difícil encontrá-las, e, encontrando-as, saber utilizá-las.

Motivo de desassossego ou a questão central da divisão e independência dos poderes

"(...) no último e monocórdico "Prós e Contras" da RTP, Saldanha Sanches disse alto e bom som que, se o Ministério Público se encontra, a nível autárquico, "capturado" pelos poderes locais, no topo a situação é "ainda pior". E, que eu saiba, ninguém, designadamente a PGR, contestou essa afirmação. E isso, sim, é motivo de desassossego. Porque, assim sendo, se a autonomia do Ministério Público e a independência da acção penal são ficções, isto deixou de ser um país democrático e passou a ser uma ficção de Democracia."
Manuel António Pina in JN

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Sem dramas, choros ou ranger de dentes, sem clima de suspeições, mas sim de verificação dos poderes.

"(...) interrogar governos sobre se houve troca de favores por dinheiro. Seria insultuoso para todo o sistema democrático não o perguntar. É insultuoso o governo não responder. (...)" Mário Crespo, JN

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Essa questão da ingovernabilidade...

surge sempre que há uma crise, como se essa questão não dissesse respeito exclusivamente à classe política, que ela sim é que pode ser a causa e o objecto dessa ingovernabilidade, lá dentro da coutada.
O povo esse, chamado de quando em vez a depositar o seu voto na urna, serve para emoldurar um território, para o qual se quer encontrar um governador, e aprende a viver com as linhas com que as leis contingentes os pretendem cerzir. Fá-lo há séculos e há-de continuar a fazê-lo por muitos mais. Nem, para meu horror, o fim da democracia seria o fim da Portugal, embora fosse o fim do meu Portugal. Ao limite, nada terá muito importância se pensarmos em termos de história reprodutiva da espécie, ou mesmo desta população. Mas se pensarmos na história de um povo, ou ainda mais importante, na história dos indivíduos, veremos como a nossa capacidade de sobrevivermos não se coaduna com cobardia, silenciamento, adulteração dos factos ou perseguição dos que connosco não concordam. O pântano do país nasce da traição que fazemos a nós próprios e às nossas ideias, ou às pessoas e ideias com as quais nos comprometemos. Não é a verdade que é pantanosa. Essa só dói, mesmo no mecanismo do reflexo de espelho, mas cura.
No país, as pessoas são afectadas pelas políticas dessas lideranças, fracas ou fortes, e sabem na pele o que é sofrer com um sistema de justiça inapto para responder às questões dos mais desfavorecidos e dos mais velhos. Não há ninguém em Portugal que não saiba que alguém ofendido ao afirmar que "vai para tribunal" não ouça um riso ameaçador: "então vá, que eu depois quero ver quanto dinheiro e quanto tempo vai gastar até chegar a coisa nenhuma."
Não me venham dizer que a ingovernabilidade do país nasce das notícias nos jornais do Freeport. Esta nasce sim do modo como as instituições democráticas se relacionam com os seus cidadãos. O caso Freeport, se algum dia se chegar a uma conclusão, é apenas um bónus para a sociedade, e talvez então, nesse caso, se saiba se as notícias são matéria de facto ou de opinião. Mas isso não traz mais governabilidade, porque há milhares de processos parados, e há outros tantos que nunca existirão de pessoas espoliadas mas cheias de medo do próprio sistema criado para as proteger. Isto é que é ter um fraco governo.

sábado, janeiro 31, 2009

Bom, agora já estão esclarecidos quanto às medidas.

"11. Meios de comunicação social
Encontra-se no Anexo “3” um email datado de 21 de Novembro de
2008, do senhor Rui Araújo.
A política da Polícia da Cidade de Londres e da Serious Fraud Office
relativamente aos meios da comunicação social é actualmente a de não
efectuar comentários, ou de declarar que ‘ não nos é possível comentar”
no tocante a quaisquer pedidos de informação recebidos.
Agradecia que esclarecesse quais as medidas, se as houver, que estão a
ser tomadas relativamente à divulgação não autorizada de informação.
Agradecia que esclarecesse qual a política actual dos departamentos do
Ministério Público e da Polícia em Portugal em matéria dos meios de
comunicação social relativamente a este caso."
Carta rogatória

Não há nada de mais irritante numa sociedade do que desconhecermos continuamente as formas de proceder para atingirmos um objectivo. Se em cada instituição estivermos dependentes de humores ou de vontades dos agentes envolvidos, então estamos completamente cilindrados como cidadãos. É por isso que eu defendo a existência de protocolos, que dão estabilidade e confiança nas decisões e nos procedimentos aos sujeitos, que se tornam livres da contingência dos humores dos agentes.
Porque é que um procurador fala muito ou pouco ou nada? Não há procedimentos universais a ter em conta para cada caso? Ou justifica-se a existência de circunstâncias? e quem decide sobre essas circunstâncias? E se é verdade que um ministro tem direito ao seu bom nome, isso torna-se menos verdade no caso de uma Srª Belmira qualquer?
Eu só me sentiria completamente descansada se soubesse que para casos iguais haveria investigação igual, comunicação semelhante, procedimento coincidente, ainda que respeitando as características próprias de cada caso.
No outro dia precisei de tratar de um pagamento de uma viagem de trabalho de uma instituição em Portugal. Desisti e paguei do meu bolso. Não foi o excesso de confirmações ou de garantias que me pediram que me levou à desistência, acho bem que se exijam provas seguras, mas o facto de ao fim de negociações de duas semanas, eu compreender que estava nas mãos da boa ou má vontade da funcionária que me assistia e que exercia esse direito, consciente ou inconsciente, de forma arbitrária e discricionária, revelando prazer em ter-me sob o seu controlo e em conduzir o processo no seu pessoalíssimo entendimento de tempo. E isto nem sequer é um assunto que tenha alguma importância ou que envolva decisões fundamentais na existência de um indivíduo.
Imagino pois o drama de quem precisa de lidar com decisões policiais, judiciais, ou de quem quer ver aprovar um projecto ou um licenciamento, e depara com um funcionário que não segue regras! Ou então o horror de quem acaba por descobrir que as regras existentes são tão arbitrárias na sua aplicação quanto na sua criação, o que permitem a justificação para mais paralisia das decisões.
A falta de critérios e de fiscalização de critérios, e de julgamento célere aquando da quebra desses critérios, paralisa as iniciativas e põe-nos nas mãos de pequenos tiranos, quando não de corruptos.
Para alguma coisa o novo discurso que vem de Washington aponta na questão da "transparência": é porque em democracia, sobretudo as modernas democracias dirigidas por e para milhares de indivíduos, a única possibilidade de salvaguarda dessa mesma democracia é submetê-la a escrutínio de forma directa e eficaz.
Como as ideologias vêm e vão como desfiles de moda em cada estação, pode ser que em Portugal a nova colecção do novo discurso americano cá chegue; e um dia, quem sabe, se comece a praticar.
Pelo menos o discurso do eixo do mal do presidente Bush já chegou ao discurso de Sócrates, e se este acenar bem com esse perigo, o de um mal imanente e difuso que é preciso combater, vamos lá ver se todos aqueles que em Portugal sonham com "partir espinhas" não encontram armas de destruição maciça numa escola qualquer, numa redacção de jornal ou num gabinete de um juiz. A ver, senão.

sexta-feira, janeiro 30, 2009

"Pequenas diferenças"?! Onde ficam os "factos" por entre essas diferenças?

"O que para os ingleses são 'provas', em Portugal podem não passar de 'indícios'. E estes ainda podem ser fracos ou fortes. O que, em Inglaterra são suspeitas, em Portugal precisam de ser 'fundadas suspeitas'. Desde o ano passado, quando a polícia inglesa começou a ter contactos mais regulares com a portuguesa, é sobre estas pequenas diferenças que tem decorrido o caso Freeport. Agora, o DN revela o conteúdo do pedido feito pelas autoridades inglesas que solicitam dados às portuguesas." In DN

quinta-feira, janeiro 29, 2009

"Quási"

Chega o meu amigo Fernando Mouro à blogosfera em espaço próprio e a mensagem em que mo comunicava foi retida e só hoje chegou até mim. Bem-vindos, Fernando e companheira de escrita! O espaço é de liberdade. A mim, esta liberdade, inebria-me e comove-me.

E se...


conseguíssemos fazer oposição sem desejar que o opróbrio caia sobre os nossos opositores? Se conseguíssemos fazer oposição baseados em factos e em argumentos e não em insinuações ou em mentiras forjadas para o momento?
Eu votei neste primeiro-ministro que nos governa, eu desiludi-me absolutamente com este primeiro-ministro que nos governa, eu combato em fóruns próprios o primeiro-ministro que nos governa, defendendo que muitas das suas políticas, nomeadamente na área que conheço melhor, a educação e a investigação em Portugal, são um simulacro de políticas públicas. Mas jamais considerarei a insinuação, ou a ofensa pessoal, como princípio de luta legítima em política. Este governo utilizou-a contra toda uma classe profissional. Mas eu não tenho que fazer o mesmo contra este governo. E não sei porque razão estando nós a defender uma política de educação diferente temos que passar a dar notícias sobre o Freeport, a não ser por aplicação directa da falácia do envenenamento da fonte. Mas quem não conseguir convencer outrem com a verdade, e só com esta, não merece ser escutado por ninguém.
Eu não sei se o primeiro-ministro é ou não culpado de fraude. Espero que se o for possa ser julgado e penalizado pelo seu comportamento, e que tudo se esclareça o mais depressa possível, em nome da independência de poderes. E que se o não for, possa ser julgado pelas opções discursivas e atitudes revanchistas que adoptou na condução dos negócios deste país, aplaudido por extremistas que em tempos foram defensores de ideias totalitárias e que têm em si as sementes de uma política do confronto e da discórdia, pela regra da imposição de objectivos considerados superiores.
Mas se não compreendo os que se regozijam com o que está a acontecer a Sócrates, como se isso alterasse as razões das suas causas políticas contra ele, e não fosse um problema à parte (um gravíssimo e profundo problema dele, e nosso como país e como democracia, mas um problema à parte de outras questões, como as que se dedicam só à esfera das questões da educação, por exemplo), também não compreendo o toque a rebate dos militantes do PS. É como se no país só houvesse chafaricas para defender e não existissem princípios pelos quais lutar.
Que raio! Então eu que não concordo com as políticas do primeiro-ministro, que não as sufragaria em eleições, teria, caso tivesse um cartão do partido, ver em tudo isto uma cabala para atacar o PS? Porquê? Um partido só é atacado se perder identidade ideológica e se perder a realidade do país e do mundo de vista, pois líderes, esses, hão-de haver sempre muitos. As consequências dessas lideranças é que podem ser duradouras na história. O mais importante é o PS ou a verdade dos princípios ideológicos do PS. A não ser que estes princípios se reduzam a termos que ganhar eleições e estarmos no poder seja como for, de que forma for e com quem quer que for.
Neste caso do Freeport eu não tenho crença nenhuma sobre Sócrates. Não sou polícia, nem advogada, nem juíza, nem jornalista de investigação. Espero que a verdade se apure. O meu combate é contra políticas concretas das quais eu tenho conhecimentos e contra as quais eu posso argumentar. E é também pela mudança de comportamentos na hora de fazer política: para mim, as deliberações públicas são mais do que um direito, são um dever de qualquer cidadão. É isto que eu ensino nas aulas, é isto que eu tento cumprir.

quarta-feira, janeiro 28, 2009

A cada um o seu situacionismo

Recebi por e-mail este texto que aqui deixo registado. Não sei de quem é a autoria, mas os factos estão confirmados, daí eu a deixar aqui como símbolo do que um governo não deve fazer: mentir. E deste governo são tantas as mentiras que não sabemos que verdade lhes aplicar quando algo nos parece menos mau, e mesmo que algum de entre eles começar a ser atacado com possíveis mentiras, já ficamos insensíveis a essa verdade. Que venham os tribunais e decidam o que é de justiça penal, que venha o povo e decidia o que é de justiça política. E que venham novos princípios e novos comportamentos para a acção política, que promovam uma efectiva participação democrática.
..
"Sobre o relatório agora apresentado pelo governo:
Políticas de valorização do primeiro ciclo do ensino básico em Portugal (2005-2009)

· Apresentado pela Comunicação Social como Relatório da OCDE;

· Foi esta a “actuação” de Sócrates:

«Que dificuldades, que incompreensões. Foram quatro anos de governação difíceis, mas valeu a pena», salientou, felicitando directamente Maria de Lurdes Rodrigues pelos resultados.
«Foi um gosto trabalhar consigo», acrescentou, lamentando que seja preciso «alguém vir de fora», como os técnicos estrangeiros que elaboraram o relatório da OCDE, para dizer «bravo».
· Apresentado assim no Portal do Governo:
Avaliação internacional das reformas do 1.º ciclo elogia as melhorias introduzidas entre 2005 e 2008
http://www.governo.gov.pt/

A verdade:

1. Não é da OCDE. Segue os critérios ("metodologia e abordagem") da OCDE e foi solicitado (e pago) pelo governo;

2. Foi desenvolvido por um grupo de peritos: Peter Matthews, Elisabeth Klaver, Judit Lannert, Gearóid Ó Conluain e …. Alexandre Ventura (Presidente do Conselho Científico para a Avaliação de Professores (CCAP); realizou várias acções de formação sobre o modelo burocrático de avaliação de desempenho; subinspector geral da educação, em 2007, por proposta de Maria de Lurdes Rodrigues e colaborou activamente com o Governo PS durante a presidência portuguesa da União Europeia);

3. Foram consultados 4 peritos portugueses (João Formosinho, Isabel Alçada, Lucília Salgado e Rosa Martins ): todos próximos ou militantes do PS (os primeiros 3 favoráveis às políticas do governo);

4. Baseou-se num relatório prévio feito pelo Ministério da Educação;

5. Os autores ouviram 7 municípios (Guimarães (PS); Santo Tirso (PS); Amadora (PS); Ourique (PS); Lisboa (PS); Portimão (PS); Gondomar (Major Valentim Loureiro);

6. As fontes documentais:

• Galvão, M.E. (Ed.) (2004). Desenvolvimento da Educação em Portugal. Ministério da Educação e Secretaria de Estado dos Assuntos Europeus e Relações Internacionais.

• Ministério da Educação (2007). Educação e Formação em Portugal. Ministério da Educação, Portugal.

• Ministério da Educação (2008). Medidas Políticas Implementadas no Primeiro Ciclo do Ensino Obrigatório em Portugal: Relatório Nacional. Ministério da Educação, Portugal..

Serrazina, M.L. (2008). Programa de Formação Contínua de Professores de Matemática: recompensas e desafios. Escola Superior de Educação de Lisboa.

• Foram elaborados relatórios sobre a reorganização da rede escolar do primeiro ciclo em cada uma das cinco regiões, lavrados com objectivo da avaliação, e foram produzidos registos por alguns grupos de testemunhas entrevistados.

• As informações e dados produzidos por todos os Serviços Centrais

7. A linguagem utilizada é propagandística , tecendo rasgados elogios às políticas educativas deste governo:


“O Ministério pediu – e nós realizámos – uma avaliação totalmente imparcial e independente dos elementos mais importantes relativos à reorganização do primeiro ciclo do ensino básico. Queremos felicitar o governo pelo enorme sucesso alcançado nos últimos três anos…” (p 13)

“A abordagem de Portugal à reforma educativa está também a atrair a atenção internacional. O presente relatório merece ser estudado por outros países que enfrentam questões e desafios semelhantes, porque apresenta um excelente estudo de caso sobre como implementar uma reforma com êxito, e, simultaneamente, como conseguir melhorias efectivas dos resultados educativos.”(p8)

“ Foi um privilégio avaliar as mudanças que ocorreram na oferta escolar para o primeiro ciclo em Portugal durante os últimos três anos. Como é afirmado no relatório, a ambição e a rapidez demonstradas na reorganização da educação para os alunos mais jovens têm poucos, ou nenhuns, paralelismos internacionais. As reformas tiveram um grande apoio em todo o país e irão atrair um crescente interesse internacional. As mudanças no ensino básico trouxeram uma ampla melhoria à vida das crianças e dos respectivos pais, e existem indícios de que estão a contribuir para aumentar os níveis de qualidade do ensino básico em Portugal.” (p 13)

E esta pérola:

“As principais alavancas do processo, tais como a Ministra e os Directores Regionais, não são funcionários públicos independentes, mas políticos nomeados e sintonizados com os objectivos da política governamental. São apoiados por serviços de dados actualizados ao minuto, que permitem uma tomada de decisão inteligente e bem informada.” (p. 77)"

terça-feira, janeiro 27, 2009

Sem um bom sistema de justiça, e de interiorização da ideia de justiça, não há verdade que nos salve

"(...)Olha-se em volta, à procura de sinais. De optimismo e esperança, para uns. De castigo e autoridade, para outros. Não se vêem. Ou vêem-se mal. Todos se viram para o último reduto, o da justiça, aquele que nem sequer durante a revolução, por pudor ou receio, foi assaltado ou reformado. A expectativa não é satisfeita. A justiça não é pronta. Não é eficaz. Não parece isenta. Não mostra pertencer ao seu povo. Foge ao escrutínio. A sua autogestão sobrepôs-se à sua independência. O reconforto que deveria oferecer aos cidadãos não vem dali. Não se vive sem castigo ou recompensa, vegeta-se e faz-se pela vida. A qualquer preço.
(...) Mas nada permite compreender uns energúmenos que, de noite, furtivamente, fecham as fábricas, deslocam as máquinas e desaparecem. E a ninguém prestam contas, enquanto se preparam para mais um projecto, daqueles que têm subsídio europeu. De madrugada, quando os trabalhadores se apresentam ao serviço, estacam diante de portas fechadas. Sem explicação. Sem conversa. Ficam à chuva, à espera de instituições e de justiça que tardam. Há quem diga que “é fita” para a televisão. A verdade que essa é parte do problema. Temos olhos cansados, habituámo-nos a tudo, à miséria e à fraude, à corrupção e ao despotismo. A televisão, predadora de sentimentos, mostra imagens até à fadiga, à insensibilidade. Não se acredita, nem se vê o sofrimento dos outros, para não incomodar as nossas certezas ou para não revelar a nossa insegurança.
TODA A GENTE ESPERA pelos veredictos da Casa Pia (a qual, verdadeira culpada, nunca foi julgada...), do Apito Dourado, do Furacão, do Bragaparques, dos presidentes dos clubes de futebol, de vários autarcas e agora do Freeport, mas a verdade é que a debilidade da justiça é muito mais vasta e profunda do que esses casos ditos de primeira página. Na justiça de família e dos menores, no penal de todos os dias e na justiça económica e laboral: é aí que toma real dimensão a desorganização, a morosidade e a ineficácia do sistema judicial, de investigação e de instrução. O próprio primeiro-ministro pôs em causa a eficácia e a orientação ou do ministério público ou a de uma certa imprensa com acesso às “fugas” orientadas. (...)
As vítimas sem compensação. E os trabalhadores sem indemnização. É verdade que há milhares de casos resolvidos. E de processos acabados. Desses, ninguém fala. Mas é certo que o número dos que ficam para trás, dos que não se resolvem e dos que não reparam é excessivo. E suspeito.
(...)
Se tivéssemos uma justiça à altura, toda a crise actual seria mais suportável. Não haveria mais emprego. Mas a sociedade seria mais decente."
António Barreto In jacarandá

segunda-feira, janeiro 26, 2009

"Portugal é, depois da Holanda e de Israel, o país com menor liberdade de voto. A conclusão resultou de um estudo a 26 países que o economista Paulo Trigo Pereira apresenta no seu livro O Prisioneiro, o Amante e as Sereias, publicado pela Almedina."Isto não é opinião, é resultado de uma investigação" sobre uma "grande fonte de injustiça" da democracia portuguesa, diz o académico, que participou na comissão da reforma da administração central do Estado e presidiu à revisão da Lei das Finanças Locais.O índice de liberdade de escolha do cidadão foi construído tendo em conta o número de partidos, a dimensão média do círculo eleitoral e os índices de proporcionalidade; mede, na prática, a liberdade do eleitor, comparativamente com o partido, na escolha dos candidatos." in jornal Público

Junte-se a este facto o tipo de discurso político em Portugal ser dos que menos promove a ideia (já nem falo da realidade) de uma democracia participada, e ainda a existência de um sistema de justiça completamente inoperacional, em tempo útil, relativo às demandas dos cidadãos, e vemos porque está Portugal em recessão política e social. Mas os senhores economistas pensam que o únivo valor a atender e com efectivo poder é o dinheiro, por isso continuemos todos a caminho de coisa nenhuma. É uma roda livre de valores, mas à custa dos valores dos pequeno-burgueses que continuam a suster as bases sociais dos que vivem literalmente sem lei.

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Será que a maioria PS que hoje votou na Assembleia da República compreendeu bem o mal que estava a fazer ao seu próprio país, para não falar ao partido?
Manda a tradição que um investigador se mantenha afastado do objecto de observação. Se o objecto de estudo for a acção política (o comportamento comunicacional dos envolvidos nos processos de formação, tomada de decisões e recepção das mesmas, por exemplo) não é fácil fazer com que os resultados do trabalho de um investigador evitem ter influência sobre a própria realidade estudada, porque o discurso de um investigador faz oscilar o universo da acção política para o uso de determinados termos em detrimento de outros, e que é aquilo que se faz precisamente com os discursos. Ora as palavras afectam os sujeitos que as produzem, ou que as lêem, mesmo que o seu produtor prime pela equidistância entre todos os elementos de interesses ponderados na estruturada que está a analisar.
Pierre Bourdieu, para justificar o seu activismo político, saindo do gabinete da universidade para a rua, considerou que todo o impedimento que leva ao investigador a não envolver-se em interacção com o objecto estudado de forma intencional, é o equivalente a proceder à auto censura.
Eu penso que não é preciso avançar por este tipo de argumentação, porque a busca do conhecimento verdadeiro em qualquer área de investigação humana vale bem o investimento e o autocontrole de alguém toda uma vida, na exacta medida que a paixão pelo saber de qualquer pesquisador não tem que afectar o rigor na sua aplicação do método proposto como mais eficaz para se chegara conclusões verdadeiras. E na clara análise de provas devidamente publicitadas na comunidade de entendidos, primeiro, e na comunidade geral, de seguida.
No entanto, tal como nas ciências naturais, a divulgação de resultados afecta não só a comunidade que estuda a matéria ora comentada, como afecta a própria compreensão que as pessoas podem ter do objecto em causa: ora isso, no universo dos seres humanos, provoca alterações no sentido de representação que temos do objecto (do objecto enquanto conceito).
O que quer dizer que os investigadores em acção política estão a fazer política, ainda que seja correcto que os seus métodos não seja os da política mas os da ciência escolhida para analisar essa realidade.
No fundo é a clássica questão de saber se é o poder do conhecimento a contextualizar o discurso do político, ou se é o poder do político a contextualizar o discurso do cientista. O que tem a ver com o dinheiro dispendido para investigação, o modo como é utilizado, ou, em casas extremos, como o político silencia efectivamante as questões dos cientistas. Estas são as questões fáceis de responder. As outras, as dos efeitos dos sentidos/deveres implicitos, essas é que são difíceis.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

Todas as palavras têm consequências

Em política, as consequências das palavras proferidas têm efeitos durante décadas, e para algumas pessoas podem ter efeitos de vida ou de morte.
Eu já aqui escrevi, mas preciso de repetir de mim para mim estas palavras: podemos admirar o discurso (e a acção) de líderes políticos mundiais que não se renderam à retórica da defesa do uso do poder ideológico totalitário (os EUA saíram de um ciclo discursivo e conceptual do tipo autocracia interna e unilateralismo externo), que, em alguns países latinos e europeus se traduziu numa variável um tom abaixo, e que é o discurso de líderes "machos", mesmo sendo mulheres a desempenharem cargos.
É o fascínio pelo agente que faz a política de voz grossa, do respeitinho, do não contradigas o chefe que o enervas. E isto numa democracia, em tempos que devíamos estar a usá-la para saber como alargar a influência da sabedoria e do conhecimento humano para melhorar a vida dos cidadãos de forma participada.
Há quem tenha tradições de liberdade para se refazer, nós temos que ir buscar a nossa.



De volta a este meu lugar.

Aprendi duas coisas enquanto estive ausente: 1. O meu trabalho de investigação começa a cruzar-se cada vez com os interesses que estes monólogos interiores de algum modo aqui vão deixando algum sinal; 2. ao contrário do que pensava, sei que quando tiver que responder pela acção a cumprir os princípios que me formaram como pessoa, eu estarei lá com entusiasmo e não me refugio nos livros.
Sabia que não era cobarde, sabia que sempre me foi fácil ir embora dos sítios onde não me encontrava bem, sem condescendências a não ser com a da estrita observância dos meus compromissos, só não sabia quanto medo eu tinha na certa, e se calhar ainda não sei de todo. Mas tenho-o encarado de frente, e não morri.