quinta-feira, setembro 24, 2009

A náusea

Perdi totalmente a objectividade e a neutralidade com que devia, por razões profissionais, acompanhar os actos eleitorais. Sinto náusea quando me obrigo a pensar este sistema e em muitos destes actores e, no entanto, sei também como a minha náusea é sintoma de passividade e de pouca capacidade de participar de forma inteligente ou criativa ou empenhada. Qualquer coisa de maior do que eu. Sinto náusea, e isso de certa maneira é um escudo para a minha impotência.
Não quero, ou não posso, compreender sociologicamente o que leva alguém a admirar e a querer para este país, dando-lhe intenções de voto claras, um estilo de governança que começa na auto promoção de uma personalidade que se acha o alfa e o ómega da vida política e pública, e que, no entanto, tem o país com indicadores tão baixos quanto ao que verdadeiramente interessa: nível de vida económica, cívica e cultural.
Apetece-lhe perguntar como faz aquele dr. Phil americano às pessoas que vão ao seu programa e se acham os critérios supremos do comportamento dos outros: "Se você é assim tão superiormente inteligente, se é a mais capaz, porque tem a sua vida e a da da sua família neste nível tão desesperado de existência?" Pois é.
Se este tipo de personalidade conseguir fazer com que todas as outras se achem umas estúpidas comparadas com o grande líder, se conseguir fazer passar a ideia de que somos ingovernáveis porque incompetentes, pouco produtivos e corporativistas, e de que ele tem o saber, e o poder, para nos pôr no bom caminho, então estamos ao nível da estupidez que ataca povos do mundo inteiro e que elegem pessoas como Bush, Sarkozi ou Berlusconi, para só falar em dois ou três.
É a democracia representativa, pá. Certo, eu aceito-a e respeito-a no seu formalismo e nos seus princípios, não quero é ser imparcial e deixar de achar que às vezes, como eleitores, sempre somos muito estúpidos. Sobretudo quando os outros não são esclarecidos como eu acho que deviam ser. Pois, a arrogância intelectual é um mal que se pega.

Eis uma questão

"Serei hoje uma pessoa tão amarga que não consegue ver a bondade, o carácter e a competência nem dos que nos governam, nem daqueles que nos querem governar?", João Miguel Tavares, in DN

terça-feira, setembro 22, 2009

Carrilho a permitir-nos respirar em Portugal, nestes tempos de figuração política

"Portugal decidiu apoiar a candidatura egípcia, uma decisão que Carrilho procurou contrariar, tendo acabado por se recusar a comparecer na eleição. O ex-ministro da Cultura, que fez parte de um grupo de embaixadores que tentou, sem sucesso, patrocinar a candidatura de Al Gore, não quis ontem a comentar a sua posição, mas é de crer que tenha alegado razões de consciência para não votar em Hosny, um político acusado de praticar abertamente a censura no seu país, e que ainda recentemente afirmou que queimaria pessoalmente todos os livros israelitas que encontrasse na Biblioteca de Alexandria. " in Jornal Público

quarta-feira, setembro 16, 2009

É possível, é. Não é certo é que se esteja a falar do estado de coisas, mas do ego.

: Legislativas Adriano Moreira diz que luta entre candidatos "obriga a escolher não o melhor mas o menos péssimo" - Notícias - Especial Eleições Legislativas 2009: "Adriano Moreira, que falava durante a sessão de apresentação do seu livro 'A Circunstância do Estado Exíguo', no Instituto da Defesa Nacional, considerou 'inquietante' que 'assuntos fundamentais para o futuro do país estejam ausentes do debate eleitoral'.
'Será possível debater a actual conjuntura sem referir o programa para a sociedade civil aprovado pela União Europeia (UE)? É possível falar sobre economia nacional sem ter em conta as relações da UE com a China ou a Rússia?', questionou."

Mas então...há política com ética? Almas lusas dizem, e praticam, a negação da mesma.

Lehman: a falência que mudou o mundo - PUBLICO.PT: "Barack Obama, num discurso realizado em Nova Iorque, criticou o regresso a comportamentos imprudentes por parte dos banqueiros. “Há alguns no sector financeiro que estão a interpretar mal o actual momento. Em vez de aprenderem as lições trazidas pelo Lehman e pela crise – de que ainda estamos a recuperar –, eles estão a escolher ignorá-las”, afirmou, avisando que “não vamos voltar aos dias dos comportamentos imprudentes e dos excessos não regulados que estão no coração da actual crise”."

Um excelente texto sobre o "Interesse Geral" vs o interesse particular

A Educação do meu Umbigo

segunda-feira, setembro 14, 2009

Quem não tem dinheiro não tem ideias?

Pedro Norton, na revista Visão, Henrique Monteiro, no Expresso e, ainda que de forma ideológica mais enviesada, João César das Neves e Manuel Maria Carrilho , ambos no Diário de Notícias, fazem aquilo que todos os eleitores portugueses deviam estar a fazer. Eles questionam-se sobre o tipo de Estado que temos, que claramente não parece satisfazer ninguém, e que por isso tem que ser urgentemente repensado, discutido, proposto e reinventado, no quadro dos valores pluralistas de um estado democrático de direito. E nós, o que estamos a fazer? A ver os tiques de cinco líderes partidários para confirmar uma crença ou iludir a descrença que cada um, ou todos à sua vez, aportem nos nossos sentimentos? Fazemos de conta que é verdade esta realidade política e social que se circunscreve à participação exponenciada nos media de cinco pessoas? Não há mais por onde escolher, nem outro meio como escolher?
Era aqui que se devia insistir no debate político: no tipo de cultura política que queremos criar em Portugal. As questões financeiras, as económicas e as jurídicas decorrem desta ideia definida de cultura política desejada. Claro que um governo tem que responder a questões de tesouraria, de resolução de problemas sociais imediatos, de manutenção institucional e obras públicas, enfim, um governo tem que dar resposta a toda uma necessidade de bricolage dos campos que constituem a manutenção da ordem social, e muitas vezes fá-lo com as ideias do passado, os hábitos sociais dos mandantes e dos actores, com as propostas assentes nas últimas conversas que se tiveram ou do último livro que se leu, procurando copiar modelos de campanha ou discursos e posições políticas de outras capitais na moda, ou porque sim.
Fica-nos por pensar Portugal, e o mundo, e Portugal no mundo.
Não consigo deixar de pensar nos EUA. Sorrio e digo: "Estes americanos são loucos", quando os vejo desfilar contra a reforma do sistema de saúde. Mas essa discussão, a do papel do Estado, é tão legítima como a que opôs, por motivos contrários, os cidadãos portugueses ao fecho de urgências hospitalares e de maternidades em Portugal, e como a que opôs os professores à dita reforma da Educação. Quem pode garantir que cidadãos e professores, ao defenderem claramente interesses privados e de comunidade, não estavam a defender o interesse geral, ao defenderem essa ideia de obrigatoriedade do Estado social em garantir a quantidade e a qualidade dos serviços? Todavia, se as funções do estado social não satisfazem, haverá que ter a coragem de perguntar se a questão se prende com a má gestão dos sistemas (como pessoalmente creio), se se trata de um deficiente uso do modelo de gestão escolhido, ou se este necessita de ser alterado. Precisamos de saber bem onde anda o nosso dinheiro, se é pouco ou o suficiente para responder às aspirações sociais deste povo, o que pode ser feito para o gerir melhor.
Os contribuintes americanos não parecem acreditar que saúde universal seja sinónimo de eficiência social e tarefa do Estado, sem que tal implique um aumento e um desperdício dos impostos. Nós por cá não parecemos acreditar que o aumento efectivo dos nossos impostos esteja a ser bem empregue. E sentimos que acreditando no Estado social, querendo defendê-lo como marco civilizacional europeu, este rapidamente se transforma num Estado tentacular, inoperante e sugador das energias individuais e colectivas. Como encontrar o equilíbrio entre um Estado que tem e deve garantir como tarefa sua a instrução, saúde, apoio social aos mais carenciados, obras públicas, justiça, segurança e defesa e sem se intrometer na vida dos seus cidadãos, em que os direitos e os deveres de cada um um sejam simples e claros, sem cair no paternalismo, ou na orientação da existência privada e dos serviços públicos autónomos como coisa própria sua?
Começando por separar totalmente os cargos políticos dos cargos administrativos seria uma boa coisa por princípio, e depois criar uma Escola de excelência e dignificação dos agentes públicos, não era uma má medida para começar. Mas para isso era preciso mais participação da chamada sociedade civil para esta pôr um travão, eleitoralmente desinteressado, na forma como opera o nosso sistema político-partidário.

quinta-feira, setembro 10, 2009

realismo político ou a idiotia dos tempos 2

1. Paralisa-me ouvir comentadores/jornalistas que dizem coisas como, "As reformas nunca se fazem por consenso", sem terem ninguém que os contradiga.
Já não digo que alguém os questione em nome de teorias de filósofos que no mundo inteiro provam à saciedade que só através de discussão que envolva todos os afectados pelas políticas se pode aprofundar o sistema democrático, com ganhos para todos os cidadãos da comunidade em causa, mas pelo menos que alguém perguntasse de todas as vezes: E porquê? E porquê? Até os obrigar a consciencializar a fraqueza dessa ideia feita.

segunda-feira, setembro 07, 2009

Uma das razões

Opinião - Jornal de Notícias: "Não interessa nada que de Espanha não venha nem boa brisa nem boa Prisa porque a criação do clima para este monumental acto censório é da exclusiva responsabilidade do próprio Sócrates.
É indiferente se a censura o favorece ou prejudica. O importante é ter em mente que, quem actua assim, não pode estar à frente de um país livre. Para Angola, Chile ou Líbia está bem. Para Portugal não serve."

Mário Crespo

quinta-feira, setembro 03, 2009

remonopolização ideológica em processo

Jornal de Negócios Online: "A concentração do poder não é uma maquinação do primeiro-ministro, esse poder é-lhe dado pelos empresários, diligentes em prestar vassalagem a qualquer novo inquilino de São Bento. Não há negócio em que não se vá pedir benção ao Governo! E é esse circuito fechado, de um poder político retaliador mas efémero e de empresários medrosos mas perenes, que perpetua o ciclo que prejudica a economia, as empresas, a concorrência, os consumidores - e os contribuintes.

Fernando Mamede dizia que só tinha medo de ter medo. Quem tem medo do Lobo Mau vê-o em cada cachorro. Sim, o Estado é retaliador, sim há um clima de desrespeito pelo livre funcionamento da economia, da igualdade de oportunidades entre as empresas, da liberdade de crítica e de imprensa. Nunca foi tão mau? Enquanto a sociedade se amochar, será cada vez pior. Ganhe Sócrates, ou ganhe Ferreira Leite."

E agora, o que é que os críticos têm a dizer? A nossa democracia é ou não o recurso à disposição ao logro de certos governantes'

Manuela Moura Guedes explica ao JN porque se demite da direcção da TVI - JN: "Manuela Moura Guedes contou ao JN que a administração comunicou, esta manhã, a João Maia Abreu que 'iriam acabar com o noticiário das sextas-feiras, que não haveria mais 'Jornal Nacional' das sextas. Mediante tal medida, os responsáveis resolveram apresentar a demissão dos cargos que exerciam, explica Manuela Moura Guedes."

Remonopolização do poder ideológico.

Diz Noberto Bobbio: "(...) mesmo que o parlamento ainda fosse o orgão do poder real, a participação popular limita-se a legitimar, a intervalos mais ou menos longos, uma classe política restrita que tende à própria autoconservação, e que é cada vez menos representativa;", p. 151

terça-feira, setembro 01, 2009

quando é um jornalista a dizê-lo

Ricardo Costa - Expresso.pt: "No fundo nunca sabemos grande coisa do país em que estamos. Achamos umas coisas. Votamos porque achamos isto ou aquilo. E nunca ninguém nos presta contas de coisa alguma. Os partidos acham que só nos têm que dizer umas coisas quando vão a votos. Enchem páginas e páginas de palavras, de medidas e projectos. E falam connosco daqui por uns anos."

segunda-feira, agosto 31, 2009

Programa eleitoral: acrescido de duas ou três tarefas exequíveis à frente de cada alínea. Ideia cartesiana.

Constituição da República Portuguesa: "Artigo 9.º

Tarefas fundamentais do Estado

São tarefas fundamentais do Estado:

a) Garantir a independência nacional e criar as condições políticas, económicas, sociais e culturais que a promovam;
b) Garantir os direitos e liberdades fundamentais e o respeito pelos princípios do Estado de direito democrático;
c) Defender a democracia política, assegurar e incentivar a participação democrática dos cidadãos na resolução dos problemas nacionais;
d) Promover o bem-estar e a qualidade de vida do povo e a igualdade real entre os portugueses, bem como a efectivação dos direitos económicos, sociais, culturais e ambientais, mediante a transformação e modernização das estruturas económicas e sociais;
e) Proteger e valorizar o património cultural do povo português, defender a natureza e o ambiente, preservar os recursos naturais e assegurar um correcto ordenamento do território;
f) Assegurar o ensino e a valorização permanente, defender o uso e promover a difusão internacional da língua portuguesa;
g) Promover o desenvolvimento harmonioso de todo o território nacional, tendo em conta, designadamente, o carácter ultraperiférico dos arquipélagos dos Açores e da Madeira;
h) Promover a igualdade entre homens e mulheres."

sexta-feira, agosto 28, 2009

"As pessoas são cruéis, mas às vezes também dão beijinhos."

"Portugal vive muito de chicote e de caridade."
Ou uma soberba interpretação de Paula Rego sobre o mito político com o qual estamos a construir, neste imediato períod histórico, a nossa identidade no mundo .

Lendo 1

"Há muito que reconstrui a minha biografia intelectual: antes da cadeira de filosofia, as trevas; depois da cadeira de Filosofia , a luz."

Memórias de Raymond Aron, p. 21

segunda-feira, agosto 03, 2009

E os parvos somos nós?

Mal passo fora da (falsa, mas presumida) letargia mental que o calor em tempo de férias me dá e logo começo por sublinhar esta ideia de Sílvia de Oliveira, no jornal I: "É uma sensação - não chega a ser estranha - de que, frequentemente, os políticos me tratam como parva."

Regresso ao estado de letargia (presumidamente falso).

sexta-feira, julho 10, 2009

"when did the idea of peace become a radical concept? Isn't this what decent people all over the world are striving for?"

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Situações que me deixam apopléctica

1. Um colega: "Sabes que no outro dia, numa grande cidade de Portugal, num jantar de homenagem à eleição de um director de Escola, já estavam presentes líderes da política local e líderes de clubes, a dar-lhe palmadinhas na escola?"
Não me admira. As escolas tornaram-se, a par dos clubes de futebol e das empresas camarárias, montras apeticidas e possíveis para políticos e seus apaniguados se mostrarem. Politizar ainda mais o ensino, para quebrar, pensam eles, o poder dos professores nas escolas. Que bela decisão deste governo PS!
2. Um velho senhor sindicalista:" A Isabel é sindicalizada? Não é?! Então, procure tornar-se rapidamente. Escolha um sindicato qualquer e deixe-se desses argumentos batidos de que eles não passam de um instrumento dos partidos políticos. Ouça, um sindicato existe para garantir os direitos dos trabalhadores, e pode ter a certeza que todos os trabalhadores portugueses, e a Isabel, no seu mundo, não vai ser uma excepção, vão necessitar de defesas fortes. No seu caso, atente que o caos ainda só agora está chegar às escolas, pois quando começar a fazer-se sentir o poder das arbitrariedades das chefias entregues à satisfação dos seus interesses políticos e pessoais é que se compreenderá a necessidade de um bom conhecimento da lei e de uma boa defesa pública. E não me venha dizer que já está habituada às politiquices das universidades. Garanto-lhe que nada a prepara para o que irá acontecer com estas gestões unipessoais à solta."
3. Um colega: "A minha escola acabou de fazer obras onerosas para instalarem cabelagens para a colocação de quadros electrónicos e de data shows (que nunca chegámos de facto a ver), e já sabemos que ela vai para obras de remodelação total no próximo ano. Imagina o desperdício."
4. Um representante de uma instituição ministerial: "O concurso para directores de escola demonstrou o que de pior as pessoas tinham em si. Temos testemunhos que atropelam todos os princípios éticos. Tenho a certeza que o legislador nunca tal previu."
..
Pergunto-me: não previu, como? Então o legislador faz uma colagem dos processos finlandenses para a realidade portuguesa, sem tempo para analisar resultados e avaliar o processo de forma faseada, empurrou a legislação com a barriga para as escolas, ameaçou-as no caso de não cumprimento do propósito final (porque quanto à legitimidade do processo em si está-se nas tintas), estabeleceu um poder imenso das instituições exteriores à escola sobre a gestão da mesma, ao ponto de começar já a tê-los por interlocutores quando quer dirigir-se aos dirigentes da escola, permitindo negociatas políticas de toda o género entre o ministérios, as freguesias, as câmaras, e depois ainda diz que não previu? A única coisa que não previu foi manter a consideração pública pela função de professor, tal como ela existe institucionalmente na Finlândia. Isso é que não previu.
Quem defende o papel do Director/a da escola, para além de estar agarrado a um vocábulo serôdio da gestão, ignora que: 1. Na sua grande maioria serão as mesmas pessoas que estavam a assegurar as gestões das escolas desde sempre, e antes eleitas democraticamente por toda a comunidade escolar, só que agora vão ganhar muito mais para fazer o mesmo (ora, fecham-se escolas no interior, não se colocam professores a tempo e a horas para se pouparem uns meses de vencimento, já que os outros asseguram essas aulas, à conta de fórmula de aulas de substituição, mas existe dinheiro para para pagar muito mais às futuras equipas, para fazerem... exactamente a mesma função e serviço!); 2. A responsabilidade de uma gestão não nasce de ser esta unipessoal. É um argumento falso, porque bastava implicar cada presidente com essa responsabilidade legal; 3. O processo de selecção permite todas as manipulações, porque se restringe ao número de votos de um conselho de vinte e dois indivíduos que, na sua grande maioria, nem sequer lêem, discutem ou se interessam pelos projectos dos candidatos que concorrem à sua Escola, pelos documentos que são produzidos, e mantêm tudo ao nível da negociata eleitoral e das relações de poder pessoal, quando não da ignorância e no clássico "fazer-se de morto", que garanta uma paz podre, sem se preocuparem com a qualidade das propostas apresentadas.
À excepção do sempre invocado, e de facto milenar, respeito de muitos alunos pelos seus professores, que eu tenho visto em tantas celebrações públicas pelas escolas deste país, tudo o mais no ensino, e na gestão do ensino público, é uma farsa.

quarta-feira, julho 08, 2009