sábado, fevereiro 24, 2007

igualdade em liberdade

Esta questão da igualdade. Nunca compreendi os detractores deste valor. Nem nunca compreendi porque há-de este valor entrar em conflito com esse outro da liberdade. Mas eu, tendo uma matriz de pensamento europeia, talvez possa compreender melhor essa conciliação e ver assim com mais facilidade como o argumento dos que identificam a igualdade com uniformidade é falacioso. Esta não é reversível naquela, e criticar a uniformidade não equivale a atacar a igualdade. Todavia, John Rawls, que viveu num país de grandes desigualdades sociais e que privilegia normativamente a liberdade como valor supremo para a acção humana, procurou rejeitar ao mesmo tempo uma imposição do valor de igualdade como objectivo político autoritário, mas também procurou rejeitar o valor da liberdade dos mais favorecidos explorarem aqueles que o são menos do ponto de vista económico, tendo como fim a eficácia económica. Uma tentativa de solucionar o problema da coexistência social destes valores.
A igualdade manifestar-se-ia no “princípio de igualdade de oportunidades” no sentido de criar uma maior justiça social, e, obviamente, segundo um “princípio de igual liberdade”. Se quanto a esta as questões, mais políticas, têm sido conduzidas a bom porto nas sociedades ocidentais, ainda que às vezes haja reservas, como no caso da liberdade de imprensa em Estado de guerra declarada, por exemplo, quanto ao primeiro, que mexe com o dinheirinho, é que as teorias e as práticas têm sofrido grandes ajustamentos e reformulações, pois caberá sempre perguntar pelos critérios do que se entende por igualdade de oportunidades, e como é que precisamente se pode proceder justamente à aplicação de uma política que faça todos os cidadãos beneficiarem igualmente das oportunidades, redistribuindo-as segundo as necessidades. Mas como definir o que é e como se deve fazer essa redistribuição? E como definir o que é equitativo sem cair no autoritarismo de regime?

Se me perguntar a mim mesma se acho que os ricos devem ajudar os pobres, eu respondo que os ricos não devem explorar os pobres. É uma atitude diferente, totalmente diferente.

A história dos sapatos de pele de porco.

Um tio, que não era meu mas podia bem sê-lo, sentou-se a meu lado. Contou-me histórias do Sul, de durante a guerra. A minha ascendência é beirã e do oeste ribatejano, tenho uma memória familiar diferente, porque diferente é a distribuição das terras nestas regiões. A pobreza não era tão avassaladoramente pobre como terá sido mais a sul, de cidadãos sem terras para subsistência, porque região de grandes concentrações de propriedades. O tio contou-me então que calçou os primeiros sapatos aos catorze anos, eram uns soberbos sapatos feitos pelo irmão, já mestre sapateiro, que tinha pedido uns restos de pele de porco para lhos confeccionar. Catita, só os tirava dos pés para dormir…o pior era no Verão, confidenciou-me, é que não havia nem cão nem gato lá na cidade que não lhe andasse ao encalço dos pés. O que nos rimos com a fantástica história. E desta vez nem sequer vou acrescentar nenhuma moral.

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

A EMEL e as suas trapalhadas

Quem quiser tratar de assuntos com a EMEL (Empresa Pública Municipal de Estacionamento em Lisboa), e consultar o seu site na internet, fica a saber apenas a morada da Loja do Munícipe e as horas de atendimento. Do mal o menos se a informação estivesse correcta, sendo certo que a página não permite obter quaisquer outras informaçães porque todos os links dão a indicação que estão "em actualização". Ora dirigindo-se o munícipe à morada ali indicada depara com um papel na porta avisando que os serviços mudaram para a Rua Pinheiro Chagas, numa loja que se chama "Ponto Verde". Distante o bastante da indicada Rua dos Douradores ao Rossio que é a morada que consta da informação on line. Chegados finalmente ao seu destino, e apresentada a devida reclamação, ficam os munícipes a saber que há um diferendo legal entre a empresa que criou o site e a EMEL, o que faz com que aquele se mantenha on line apesar de estar a dar indicações falsas. E para quem não vive nos bairros históricos da cidade a história acaba aqui.
Mas para os que lá vivem... um número sem fim de munícipes protesta pela confusão gerada ao nível das informações informáticas relativas à listagem dos automóveis aos quais é permitida a entrada nas ruas residenciais dos ditos bairros. Do Castelo ao Bairro Alto há um número crescente de munícipes que vêm a sua entrada no bairro ser impedida por manifesta ausência de informação actualizada. As pessoas saturadas protestam, dizem que têm os papéis todos em ordem, apresentam as respectivas licenças, e os serviços desculpam-se com a confusão gerada pelo tratamento informático dos dados. Mais uma face do poder camarário de Lisboa a mostrar a sua falta de profissionalismo. Mais pessoas a dizerem que mais vale ir morar para fora da cidade. Pois.

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Pragmatismo político

Estava aqui a pensar nas reacções ao documento entregue pelo MUNAF (Movimento de Unidade Nacional Antifascista) junto da Assembleia Geral das Nações Unidas a 8 de Dezembro de 1948, intitulado “Portugal e a ONU”. Na altura, a imprensa mais afecta ao regime do Estado Novo caustica o documento pelo seu carácter antipatriótico (argumento pífio do ponto de vista racional mas que emocionalmente deve ter deixado a sua mossa, não sei) e por nem sequer estar assinado. Pudera... Ironiza-se, na dita imprensa, com o tipo de apoio procurado, e encontrado, junto de países representados nas Nações Unidas e que impedissem a entrada de Portugal, evocando-se para o efeito o carácter ditatorial do nosso regime. Na realidade esse apoio foi dado pela união Soviética que vetou a entrada de Portugal na Organização.

Penso nos autores do documento e na sua vitória, que lhes deve ter dado um sabor amargo na boca, pois se realmente eram opositores de governos ditatoriais o que não lhes deve ter constrangido estar em semelhante companhia. Deve ser o tipo de situação de se estar entre a espada e a parede. Do ponto de vista pragmático a vitória assim conseguida contra o Estado Novo foi importantíssima, o governo sofreu uma derrota pesada no plano internacional, mas do ponto de vista da justificação da sua acção, o facto de a União Soviética estar a apoiar as suas exigências não lhes deve ter dado muito descanso.
Mas que diabo… estávamos entre nações democráticas, a pedir-lhes a sua atenção e apoio para pressionarem o nosso Estado, e todas elas aceitavam o nosso regime fascista, caucionando-o, nessa votação? E depois há uma nação que de democrática nem tinha sequer o nome e que apoia as alegações da oposição portuguesa? Não há aqui nenhuma contradição?
Bom, mas também de vitórias morais está a teoria cheia. Ou talvez não.

Quatro anos de conflitos no Darfur. Já faz quatro anos.


"This month marks the fourth anniversary of the start of the horrific violence in Darfur. Hundreds of thousands of innocent Darfurians have lost their lives, and millions more have been displaced from their homes.
Four years is far too long -- it is time to put a stop to this genocide."
David Rubenstein

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

duas histórias 1

A história do nada ou a dos sapatos de pele de porco?
Um-dó- li-tá.

Morrer por ideias ou…por pessoas

Ah, pois, porque quem não está preparado para morrer pelos seus ideais, não lhes dá o devido apreço, não os assume intransigentemente contra os seus inimigos. Como? Morrer por ideais? Quais? Sim, a liberdade, sim a justiça, sim a igualdade dos cidadãos perante a lei, sim à equidade, sim à solidariedade, sim a isto tudo e não a morrer por nenhum deles. Era o que mais me faltava. Mas custa-me um bocadinho admiti-lo, a réptil parte de mim está a fazer um esforço para não concordar com o facto de que há sim ideias pelos quais se deve morrer. É a parte panfletária do meu cérebro, figurada pela padeira com a pá alçada e pelo salivar de ratito de Hamelin sempre que ouve uma fanfarra militar.
Se eu vivesse numa sociedade militarizada ou doutrinada para combater com a morte tudo o que não fosse a vida que eu entendesse que era a verdadeira vida, admitiria esta luta, mais, consagrá-la-ia como a heróica humana forma de vida, ou continuaria a pensar que não era esse de todo o meio que me permitiria o fim almejado? Em democracia admitir a morte por ideais é o equivalente a um suicídio cívico. É sacrificar à liberdade com sangue. Mas que raio de liberdade é esta que se conquista com sangue? Sim, bom, mas o que fazer com os inimigos que nem sequer pressupõem outra forma de defender os seus próprios ideais a não ser pela imolação da sua própria vida? Que desprezam qualquer outra forma de dirimir o conflito de valores ou de formas de vida? Não se deve combater pela liberdade contra os seus inimigos? Eu não conheço outra resposta que não seja a que diz que existem pensadores, que existem políticos, que existem diplomatas, que existem leis e tribunais internacionais, que existem forças regulares de segurança e nenhuma destas ordens que garante um Estado de direito deve poder evocar a necessidade da consagração da vida dos seus cidadãos.
Na realidade conhecer até conheço outra resposta mas pôs-lhe açaimo e conto-lhe histórias de algumas revoluções, ou de algumas intervenções armadas no mundo em nome dos direitos consagrados no espírito das democracias, até que a resposta aprenda e se transforme numa pergunta. Esse não é um dever de cidadania, o dever é fazer um esforço e raciocinar e argumentar. E quando já não conseguirmos mais? Sermos substituídos por quem o saiba fazer melhor que nós.

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Por cima de mim um céu cheio de estrelas


Mais do que evocar um imperativo categórico que se impõe pela razão para controlar a vontade numa tentativa de neutralizar os interesses individuais em nome do interesse geral, a filosofia ética contemporânea procura justificar em primeiro lugar a possibilidade em continuar a defender pressupostos universais a regular a acção humana, assentando na ideia de que é possível compreender que há na humanidade um estado que é partilhável por todos e cada um: 1. A vontade de comunicar entre si regulada por critérios intrínsecos à própria natureza dessa comunicação que permite a visualização dessa realização discursiva em acção de mútua compreensão, e depois vai por aí fora com a defesa de critérios universais de regulação; 2. Ou pela evocação de uma experiência mental passível de ser realizada por todos os indivíduos, em que estes se aprenderiam a saber-se colocar no lugar da neutralização dos seus interesses privados e legislaria da melhor forma possível para todos os cidadãos. À excepção das filosofias que o negam de todo, numa linha de interpretação nietzscheana da evocação de princípios morais como princípios de poder dos dirigentes do momento, ou das teoria analíticas da linguagem, as outras filosofias orbitam à roda destas ideias de Apel e Habermas e de Rawls

Mas cada um de nós da humanidade só conhece o rosto daqueles com quem convive. São esses de quem gostamos ou detestamos, ou nem por isso. A doença e a morte atinge milhões de indivíduos por anos, mas eu sou chamada à cabeceira dos que conheço. É a ausência destes, pela sua morte, que perspectiva a ausência dos que eu não conheço. Mas aprendo a partilhar e a ser solidária com a dor de outrem pelas ideias, logo pelo reforço numa educação do comportamento, ou pela analogia que pressinto na nossa co-existência?

Não é no entanto o facto de eu me interessar pela existência dos outros de quem pouco ou nada sei que me faz mais solidária. Eu posso saber tudo sobre a dor de perder alguém e não querer saber que isso aconteça a outrem, ou não me importar em demasia. Posso saber tudo de como ser solidária e não arriscar um milímetro para além da satisfação da minha vontade do momento. Ouço dizerem-me frequentemente: ”Com a dor dos outros posso eu bem.” E porque não, realmente? Porque é isto um absurdo? Não será por uma explicação que excede a do interesse de cada indivíduo saudável que é o de querer tudo para si da forma que lhe for mais conveniente sem olhar ao como e à custa de quem? E onde se justifica uma explicação de aversão por este comportamento? No principio de cooperação entre sujeitos sem a qual não haveria sociedade, logo não haveria eu como identidade? Mas chega-se a esta constatação como? Pela nossa natureza, pela nossa civilização ou pela nossa imaginação?

Se um cidadão comum devia saber responder a si mesmo sobre o que o “faz correr” e porquê, um político nunca deveria exercer nenhum cargo público, ou apresentar nenhuma medida geral, sem saber responder explicitamente, mesmo se só de si para si, ao conjunto de questões que a filosofia ética contemporânea propõe.

De resto…morrer… bom, esperemos que seja ela a chegar-nos pela forma natural, e não por imaginação ou ideia de civilização de alguém. Mesmo assim sobre aquela já há muito a aprender como fazê-lo, quanto mais sobre a que vem por acréscimo da satisfação da vontade de alguém em defender interesses dos quais eu não vislumbre defesa possível no quadro dos direitos e dos deveres cartografados internacionalmente. Sem reservas.

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Diz-me que espírito tens.

Até que ponto a nossa adesão a uma ideia, um movimento ou uma instituição deve ser feita sem reservas? Até que ponto podemos dizer que somos de uma religião ou que partilhamos de um ideário político, ou que escolhemos um regime, sem afirmar isso e o seu contrário quando sentimos que o contrário também existe e explica melhor certos momentos? Será incapacidade de compromisso e de afirmação de identidade ou manifesta paixão pela liberdade de acção e de pensamento? Como saber quais as práticas, porque é mais fácil defender valores, a que concordaríamos sem reservas?
Que dever temos para com as nossas crenças? O de as manter sob revisão constante ou de as defender intransigentemente? Como viver a dialéctica? Com a poesia da entrega em absoluto, com o sentimento da inquietação pelo pressentir das ambivalências ou com o passo atrás dado pelo exercício da argumentação?

Os problemas de Lisboa. E que problemas...

Por via do blogue Duas Cidades ficamos a saber da organização destas conferências por Pedro Quartin Graça.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

epifenómeno ou epicentro da história: o meu problema profissional

"A ideia de que são homens, livres e iguais em direitos, que constituem o único fundamento da ordem política, graças a um contrato social, desenvolve-se a partir do meio do século XVII, alimenta o pensamento do século das Luzes e culmina nas proclamações e nas declarações americanas e francesas do século XVIII, que caracterizam a ideologia individualista e burguesa dos direitos do homem e do cidadão." Perelman, p.203
Comer uma fatia do melhor bolo de chocolate do mundo, ou combinar ir à Beira comer Chanfana, sabor que vem da infância, plantar um jardim de flores ou olhar uma árvore ou não poder olhar uma árvore. Sorrir, gostar muito, rir, contemplar e derramar uma lágrima. Inquietar-se.

Let's Dance

David Bowie

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Status e poder

Este texto parecerá muito afastado do tema anterior. Mas eu julgo que não é. Vejamos bem como funcionam os processos de entrada e progressão nos sistemas de poder, num artigo escrito por Elísio Estanque e que pode ser lido na íntegra no blogue BoaSociedade.

"Como afirmou recentemente o conhecido sociólogo Ralf Dahrendorf, mesmo aqueles (poucos) que chegam às elites pelo seu talento fecham as portas atrás de si logo que tenham alcançado o seu status. «os que lá chegaram por 'mérito’ passam a querer ter tudo o resto – não apenas poder e dinheiro, mas também a oportunidade de decidir quem entra e quem fica de fora». Assim, pode dizer-se que a retórica da «meritocracia» não passa, regra geral, disso mesmo, nomeadamente no acesso ao emprego de um jovem recém formado. Em vez disso, parecem cada vez mais fortes as redes informais e o «capital social», o que remete directamente para a questão das influências que a família de origem possui. Muito embora a formação superior e o diploma avançado seja um requisito fundamental, ele exige como complemento decisivo, não apenas o mérito e o conhecimento, mas sim conhecer quem vai abrir a porta. Como dizem os ingleses «the important is not what you know, but who you know». E isto é também uma questão «de classe»."
Sobre o autor Ralf Dahrendorf.
Uma entrevista com o mesmo, intitulada "Justiça Social não é feita em tribunais".
Hoje mesmo se poder ler no Jornal Público uma carta de uma leitora que fazendo parte do Conselho Executivo de uma Escola Secundária de Lisboa nos conta como se tornou perverso o novo sistema de contratação livre de docentes por parte da escola. A ausência de critérios pré-definidos que, em tempo útil, permitam a uma escola avaliar sobre a entrada de um professor para leccionar, com as consequentes pressões para escolher este ou aquele candidato, por motivos alheios aos da sua avaliação por comparação de mérito, está a dar a confusão que pessoas experientes ha´muito previam. Claro que uma lista ordenada nacionalmente por classificações e números de anos de trabalho perturbava as almas. Que almas?
Atente-se na citação de Joaquim Manuel Magalhães feita no Almocreve das Petas, num post intitulado "O Ministério da Educação":
"Mais do que o TLEBS ser bem ou mal em si, o que importa é quem tentou implementar isso. Se o Ministério da Educação fosse um lugar credível para os professores, estes, os principais envolvidos em todo o processo, seriam capazes de dialogar e de intervir de modo a que se modificasse muita aresta mais incómoda. Os professores não precisam de interventores culturais a falarem por eles. São gente, na sua maioria, informada, dedicada e habituada ao diálogo transformador. O problema está em que desacreditaram de tudo o que possa vir de um ministério que os apoucou, aviltou e desautorizou. Um ministério que elegeu como inimigo a abater, diga o que disser na sua demagogia, aqueles a quem devia servir. Sobre este assunto já o Padre António Vieira se pronunciou, como talvez nos ministérios se não saiba. Quotidianamente, a escola serve ao ministério para abater a autonomia do professor: nos horários em que o rouba, nas avaliações em que o conspurca, nas portarias em que o desumaniza. Perante esta situação de abate sistemático, esta via de desprezo pela vontade continua de aprendizagem e actualização, mesmo sem ter apoios económicos de lado nenhum, a que o professor geralmente gosta de se dedicar, esta espoliação do tempo para pensar e informar-se e ler e ir ao teatro e ao cinema e às exposições onde o melhor de si pode apreender o melhor dos outros, esta transformação do professor de educador e amigo dos seus alunos em criado de servir e bode expiatório do inevitável insucesso escolar: como há-de alguém querer interessar-se por qualquer proposta que surja de um declarado inimigo assim? TLEBS e outras situações existentes não perderam por causa das opiniões abalizadas que as atacam - e que eu estou longe de discutir aqui, tanto mais que em muitos casos concordo com essas opiniões. Perderam porque ninguém respeita nem pode respeitar um ministério como este que lhes caiu em sorte"[Joaquim Manuel Magalhães, in Algumas Palavras, Expresso-Actual, 9/02/2007]
A pensar é também o que nos convidam a fazer os artigos "Boicotes" do prof. Alberto Castro e "Histórias com final feliz" do Jornalista Sérgio Andrade no Jornal de Notícias.
E é de sublinhar a consciência de Pedro Correia no post "O dia seguinte" do blogue Corta-fitas que nos alerta para o que é agora verdadeiramente importante questionar no pós-referendo.

Veja lá se quer levar com 480 euros…veja lá…. Os direitos pensam-se para ser caros em Portugal. É a justiça como um privilégio.

A ameaça velada aos cidadãos que peticionaram o habeas corpus em nome de uma lei exibida com riso sardónico, a aquiescência subalterna de quem, sendo advogado, e tendo sido um dos primeiros subscritores, aprende que é um risco muito grande confrontar um juiz negando o valor de verdade das suas afirmações mesmo quando elas são falsas, ou pelo menos não rigorosas, e, quando repreendido pelo tom de autoridade que se sente irritada e molestada, encadeia um rosário de desculpas confrangedoras para quem ouve a espinha a dobrar-se até ao chão, gesto que é entendido pelo mesmo juiz como uma atitude que nem merece compreensão, de tão interiorizada como normal no seu quotidiano de decisor e aplicador mor da lei da República. Afinal de contas é o mesmo juiz que não recebe ordens de ninguém e acha supérfluo a manifestação de um direito de cidadania por parte de 10.000cidadãos seus, embora se ache uma figura vitoriosa na luta pelo poder dentro do seu sistema. Não ouve, não argumenta, não dá essa consideração senão a um número restrito de seus pares.


Eu não assinei nenhuma lista mas agora até tenho pena, pois, se o tivesse feito, diria que não comprariam o meu silêncio se eu sentisse que tinha necessidade imperativa de me manifestar. Não me assustava com a insidiosa indicaçãozinha. Nem com o sorrisinho. Não temeria a ameaça, nem a julgaria exemplar. Pelo contrário, insistiria na pressão social como forma de fiscalizar o que é dever de um povo fiscalizar: todos os assuntos que digam respeito à gestão dos assuntos públicos conduzidos em seu nome.

E a ninguém eu vi discutir a concepção filosófica/sociológica do corpo teórico que fundamenta o sistema de direito defendido e aplicado em Portugal, que, naturalmente em processo de continua revisão histórica porque não emana de nenhuma divina presciência mas da razão humana, ainda que a alguém eu tivesse visto propor uma alteração radical no sistema de ensino que propicia a existência de personalidades arrogantes e escudadas na concepção de direito privilegiado pelo sistema, como as que nos vamos apercebendo pululam no meio.
Escreveu Perelman para que nós todos pensemos:
“É o positivismo lógico quem insiste no facto de que a finalidade própria do direito, contrariamente à moral e à política, não é a realização da justiça nem a procura do bem comum, mas a segurança jurídica, garantida por4 uma ordem conhecida por todos.

Sabe-se que esse ideal de elaboração sistemática de um direito estático, análogo a um sistema lógico ou matemático, foi derrotada desde a segunda metade do século XX, graças à concepção teleológica do direito, tal como a encontramos em Von Jhering e Gény e sobretudo graças à concepção sociológica do direito que se impõe desde o primeiro quartel do século XX (Erlich, Roscoe Pound et Duguit).” p. 379
“Embora seja obrigado a aplicar a lei, o juiz dispõe, no entanto, de um conjunto de técnicas próprias do raciocínio jurídico que lhe permitem, na maior parte dos casos, adaptar as regras ao resultado procurado. A intervenção do juiz permite introduzir no sistema jurídico considerações relativas à oportunidade, à justiça e ao interesse geral que parecem, numa perspectiva positivista, estranhas ao direito. O recurso a noções vagas, tais como força maior, o estado de necessidade, a ordem pública nacional ou internacional, permitirão aos juízes limitar o campo de aplicação das regras reconhecidas com o intuito de chegar a uma solução mais satisfatória.

Notemos que essas técnicas de flexibilização e de adaptação dos sistema jurídico aos valores dominantes na sociedade se encontram, sob outras formas, noutros sistemas, que não o do direito europeu continental.” Chaïm Perelman, p. 382
E os portugueses que o atestem …

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

A política como acção simbólica

Um trabalho muito interessante sobre a questão da política como acção simbólica numa apresentação em "powerpoint" pelo prof. americano Allan Louden. Aliás todas as ligações e trabalhos dele são muito bons.

domingo, fevereiro 11, 2007

um referendo

Os referendos há oito ou 10 anos anos estavam na moda. Repetia-se à saciedade o seu valor cívico e participativo. Era o tempo em que os políticos evocavam as democracias do Norte da Europa e vendiam publicamente essa ideia. Desta feita a defesa da ideia do referendo como processo participativo dos cidadãos na política foi defendido de uma forma mais envergonhada. Não está na moda. O que está na moda em política neste Outono/Inverno é apresentar malabarismos com números da função pública e achar que todos os problemas do país se resolvem com a maximização das privatizações dos serviços públicos. È a ideologia do primado do económico sobre o politico. Uma ideologia social, portanto.
Eu comprei totalmente a ideia da importância do referendo, e não desisto dela mesmo quando os que fizemos até agora insistem em demonstrar que os portugueses não querem tornar vinculativas as decisões que daí venham a ser manifestadas. São expressões da vontade, e neste caso específico, da consciência moral de cada um.
Seria interessante que alguém pudesse fazer um estudo sobre os valores da sociedade Portugal em termos de desenvolvimento moral segundo os estádios de Kohlberg. Mas para isso era preciso sabermos as motivações e fundamentações de cada votante. Um estudo mais complexo mas não menos importante para a compreensão de quem somos como povo, do que o que é feito pelas apresentações de sondagens, por exmplo. Aliás, com cada empresa/canal a reivindicar êxitos na previsão. Também com o tipo de intervalos que os mesmos especialistas propõem… e depois há a questão levantada pelo sociólogo Patrick Champagne de que a sondagem é uma falsa ciência que dá a ilusão de um saber: a ilusão de que se sabe o que pensa o público ou, mais sério ainda, de que ao fazer-se sondagens se está a fazer uma consulta “democrática” ao eleitorado. Hei-de voltar a escrever sobre este tema.

As televisões pareceram também não se quererem vincular muito ao referendo e terminaram todas muito antes do tempo que tinham anunciado vir a dedicar à sua discussão. Mas, sinal de maturidade ou de desprendimento? , feitas as contas, e caindo-se na saturação da repetição dos argumentos dirimidos na campanha (em alguns casos a atingir a caricatura, como aconteceu com um representante do “Movimento pelo Não” que interveio a prever o apocalipse do sistema de saúde público e a reclamar como votantes no “Não” os abstencionistas, no movimento contorcionista da noite), e no vazio de uma lei ainda por fazer e sobre a qual ainda ninguém pode apresentar contornos (a entrevista ao Ministro da Saúde na RTP1 foi por isso confrangedora), os três canais de televisões generalistas terminaram todas as suas emissões muito mais cedo do que o que tinham programado e foi um aí vão elas para programas que garantam audiências, com a SIC a ser apanhada na mão e a propor em série de dois a série CSI.

A humilhação pelo acto da mulher em estado de não querer/poder prosseguir a sua gravidez espero que termine, pese embora dependa esta mais da humanidade dos técnicos de saúde escalonados para acompanhar as mulheres do que da bondade de uma lei, mas a dor … a dor, essa é que não desaparece por nenhum referendo, mesmo se vinculativo. E aí estarão sozinhas. E sozinhos. Um dia, na rotunda do Santo António em Alvalade, enquanto esperava que o sinal de trânsito abrisse, ouvi um carro parar bruscamente, de lá de dentro saiu um rapaz que gritava desesperadamente "Não faças isso, tu és uma assassina. Não vás." e agarrado à porta continuava a gritar. Quando finalmente bateu com a porta o carro arrancou e passou à minha frente. Segui o rapaz com os olhos, ele ia visivelmente alterado. Ao mesmo tempo eu consegui compreender o desespero dele, sem pôr em causa a decisão da rapariga. Ela saberia o que eu não sabia. Mas compreendi pela primeira vez a dor de um homem quando é obrigado a abortar. Algo que eu nem admitia. Imaturidade minha, ou excesso de neo-realismo existencial, nem consigo aqui explicar. A dor, pois. Essa maldita dor que não os largará por jurisdição.

sábado, fevereiro 10, 2007

O Estado1


Mas porque é que se baralham as funções de Estado com os ordenados que se pagam a quem exerce essas funções? Interessa a quem a confusão entre a concepção de Estado e a concepção defendida por um sistema capitalista de regular as transações económicas? E além disso, quem disse que as funções de Estado de um Estado europeu são as de defesa e de Relações Internacionais? Não é aí que precisamente a Europa devia falar como um Estado a uma só voz, tornando irrelevantes as posições de cada Estado-nação que nela estão integrados?

Paga-se para fazer, paga-se para desfazer, e há quem pague para ver

Embasbacaram as nossas ilustres almas lusitanas com o que Al Gore veio dizer. Só pode ser porque o ex futuro senhor presidente dos EUA (como aliás ele tem a graça de se saber apresentar, e a graça de vender a sua imagem como conferencista) tem um odor a poder imperial, porque de resto essas mesmas palavras andam há anos a ser ditas pelo Arq. Ribeiro Teles e pelo prof. Soromenho Marques, entre outros, e nenhuma dessas almas governativas e autárquicas pára em êxtase para os ouvir falar (e há até quem proponha a lei da pedra para os mesmos). E muitos desses autarcas compungidos com o futuro climático do mundo, desde que ombro a ombro com o Sr. Gore (que “frisson” senhores!) são responsáveis por decisões urbanísticas que contribuem para pôr em causa esse mesmo futuro. Contradição? Não, é só consciência (ecológica) de alguns autarcas/políticos portugueses colada a cuspo.

Há em François Lyotard um saber que reflecte sobre a questão do ajustamento entre o homem e o seu meio ambiente. Se eu me situo na linha de um pensamento do desenvolvimento, tal como na modernidade se concebeu a história social e a história da razão em particular, Lyotard, com as suas críticas ao tipo de programa desenvolvido na modernidade, é o autor que serve muitas vezes de contraponto às minhas teses. Quer isto dizer que o ouço, e com ele procuro argumentar, mas não defendo a sua teoria. No entanto, exactamente por não partilhar das suas conclusões, parece-me mais fiável distinguir os seus pontos de vista, porque exactamente me sinto mais distanciada relativamente aos mesmos. Assim quando ele escreve sobre as relações entre o capitalismo e a tecnologia eu paro para pensar, ainda que com alguma resistência. E o que diz ele? Que o ser humano não passa de um transformador de energia entre outros, que assegura, com as suas produções culturais, económicas, artísticas e tecno-científicas, a complexidade do universo. E à resposta que a comunidade humana deu à complexidade do universo com a criação de uma linguagem e de um método cognitivo extremamente sofisticado, e que dá origem às teorias científicas, reage o capital com a capacidade que tem de retribuir com essas teorias, porque as mesmas que dão resposta aos problemas científicos podem servir depois para produzir e distribuir novos produtos comercializáveis.
Ora não sendo no entanto para Lyotard o capital “um fenómeno económico e social”, pois apesar de ser o capitalismo um sistema que permite poupar tempo, trabalho e dinheiro, de intercâmbio, de aumentar as mais-valias, tudo isto é certo, tem a função de reforçar o que o autor chama de sistema de complexidade energética da “grande mónade”, um reforço conduzido por negentropia. Por esta entende-se um factor que organiza os sistemas físicos e humanos no sentido de evitar a desordem do sistema, fenómeno anterior à vontade e à inteligibilidade dos humanos e que os convoca. Ora o que poderia estar a acontecer, segundo Lyotard, é que a tecno-ciência não é um fenómeno decorrente do interesse e da vontade de cada indivíduo, ou de um grupo social, em conhecer e transformar a realidade, mas sim a reacção cósmica por necessidade de se complexificar utilizando a comunidade humana para o efeito, longe de um ponto de vista humanista. É bizarro, mas a degradação do nosso planeta, na soma geral dos sistemas existentes no universo, não interessa, mesmo que isso pressoponha, como pressupõe, o fim da própria espécie humana.

Não podemos deixar de perguntar então o que há a fazer? Para um pós estruturalista, este tipo de fenómenos, não dependem do domínio humano, os seres humanos não o podem dominar:”No estado actual das tecno-ciências e do capital acumulado nos países desenvolvidos, a identificação da comunidade por ela própria não necessita da adesão dos espíritos, não depende de grandes ideologias partilhadas, acontece pela mediação do conjunto dos bens e dos serviços trocados a um ritmo prodigioso, do equivalente geral destas trocas representado pelo dinheiro e do pressuposto absoluto deste equivalente que é a linguagem.”, p.127.
Se compreendo esta teoria como um novo impacto no narcisismo humano (no seguimento do que fora, como Freud os enunciara, os impactos narcisistas de o “homem não está no centro do Cosmos (Copérnico), não é o primeiro dos seres vivos (Darwin), não é dono do significado (Freud)”, o que obrigaria a compreender que mais não passaríamos de um átomo em movimento no sistema de energia universal), também compreendo que nos deixa sem a possibilidade de defender uma intervenção mais inteligente e cooperativa entre os humanos no sentido de criarem uma vida melhor. E a lição de humildade da tese ajuda-nos a defender-nos dos maus decisores? Ou apenas nos ajuda a compreendê-los irrelevantes na soma total da vida universal, mas relevantes para as comunidades afectadas directamente pelas suas acções e/ou pensamentos?

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Divulgo: SAGE Journals com acesso gratuito

O prof. João Pissarra Esteves enviou-me a referência de que as revistas da SAGE online estarão inteiramente acessíveis este mês de Fevereiro.

"To celebrate throughout February all content on SAGE Journals Online is accessible for free!
2) If your institution does not subscribe to any SAGE journals, please visit https://online.sagepub.com/cgi/register?registration=FT20074
<https://online.sagepub.com/cgi/register?registration=FT20074> to
register for free online access to the free trial today."

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

“Começar a ver” ou o papel de um professor como é suposto um professor ser

Nesta tarde de chuva tiro uma hora para ler os meus blogues favoritos. E no fim apetece-me transcrever:

“No dia seguinte Minnie devolve o livro a Theodora Bosanquet.
- Gostou? – pergunta Theodora.
- Bem, Miss Bosanquet, está muito bem escrito, isso deu para ver, mas…
- Mas?- Os grandes olhos castanhos de Theodora estão quase cintilantes.
- Bem, para ser franca, é um bocadinho de mais para mim.
- Pois é, Mr James é de facto um escritor difícil ao primeiro contacto. Exige muito dos leitores. Mas o esforço é compensador.
- Ah, sim, certamente, Miss Bosanquet. Mas p`ra isso é preciso ser culta.
- O que é que achou mais difícil de entender? - Theodora abre o livro e começa a folheá-lo.
Minnie hesita, tentada a responder: “Tudo!” Mas o que diz é:
- Bem, eu julgava que ia ser acerca da selva…
- Ah. A fera na selva é apenas uma metáfora. Um símbolo.
- Ah… – Minnie fitou-a boquiaberta.
- Marcher teve toda a vida um pressentimento…uma sensação…de que alguma coisa terrível e extraordinária lhe ia acontecer, e compara essa coisa a um animal selvagem à espera para saltar sobre a presa.
- Ah, estou a ver. - E Minnie está mesmo a começar a ver.
- E então ele conversa com May sobre o que poderá ser… interminavelmente, obsessivamente, egocentricamente, encontro após encontro, ano após ano. Até que ela morre e só então ele compreende, tarde de mais, que ela o amava. E compreende que nada jamais irá acontecer-lhe, porque ele é incapaz de amar.
- Ah, então é isso que a história quer dizer – murmurou Minnie, quase em êxtase, com o olhar desfocado.
Theodora salta para a última página da história e lê em voz alta: - ”Ela tinha vivido, quem poderia dizer agora com que paixão?, pois tinha-o amado pelo que ele era; ao passo que ele nunca tinha pensado nela (ah, como a verdade o fita acusadora) senão no gelo do seu próprio egoísmo e à luz da utilidade dela.” Percebe?
- Agora sim. Obrigada, Miss Bosanquet.”

David Lodge, Autor, Autor, pp. 32-33.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Timor a precisar ainda de assistência humanitária...até quando?

TIMOR-LESTE SECURITY SITUATION REMAINS 'VOLATILE,' WARNS SECRETARY-GENERAL
New York, Feb 5 2007 4:00PM


"The overall situation in Timor-Leste has improved, although the security situation in the country remains volatile and the political climate fluid… The judicial sector, a key component of the rule of law, remains weak in a number of areas, and UNMIT, together with many partners in the wider international community, stands ready to assist in strengthening it," he writes.
(...)
"In order to be sustainable in the long run, the efforts in the political and security sector spheres need to enjoy the full ownership and acceptance of the Timorese stakeholders. They also need to be underpinned by tangible progress and dividends in economic and social development."
"For the time being, however, the humanitarian challenge still exceeds the Government’s capacity. I welcome, therefore, the new consolidated appeal covering the first six months of 2007. The international donor community was generous in supporting humanitarian assistance to Timor-Leste in 2006. It is hoped that donors will consider contributing towards the 2007 appeal with the same generosity."

in http://www.un.org/news/

A situação de segurança é instável, o sistema judicial é instável, o sistema económico é instável, e as decisões das instituições estatais, serão estáveis?

David Lodge

Eu tinha acabado de sair de duas leituras muito más. Assim, de seguida. Lá me aguentei a ler o último livro de Isabel Allende, estupefacta com a má qualidade do romance que está ai no topo de vendas. É que é mesmo muito fraco o Inês da minha alma, a quem nem sequer as referências históricas conseguem salvar a face de uma escrita ao rés de um romance que podia ser de uma bela personagem literária feminina e não passou de um esboço grosseiro de uma mulherzinha e seus amantes com a revolta dos índios nativos do Chile como pano de fundo. Aguentei-me também a ler o livro de Lou Marinoff, Mais Platão, menos Prozac! A culpa é de Platão que se deixou pôr a jeito no título. O livro, do ponto de vista da reflexão filosófica, é uma desgraça, mas sendo um livro de auto-ajuda, é, como todos os livros de auto-ajuda, um livro de filosofia instantânea, e nada mais se lhe deve pedir que seja. Mas quando chegou a hora da minha submersão em vírus, eu já andava a ler um livro deliciosamente bem escrito, o Autor, Autor de David Lodge, daí que não possa afirmar em absoluto: - Diz-me que livro andas a ler, dir-te-ei que doença terás. Algo que teria conotações muito Humberto Eco, diga-se.

Foi o prof. João Carlos Correia quem mo tinha indicado, um dia em que eu me devia estar a sentir-me mais “Calimero” que o próprio “Calimero” no que a assuntos universitários diz respeito. “David Lodge? Sim?! Não conheço.” Fui conhecer. Comprei o livro, um dos dois que havia, e ao calhar, na livraria nova que abriu há pouco tempo na Rua Vasco da Gama em Lagos. O livro não tratou de me perspectivar em relação à universidade, mas em relação à construção de um ego cheio de matizes psicológicas do mundo literário, Henry James. É um portento de escrita com um toque de época e de meio, o que não é um defeito.

Afundada em sensações virais imaginava Lamb House, ou meneava a cabeça com a relação empertigada de James com os amigos escritores, sobretudo com o superior carácter da escritora Fenimore, ou deixava-me compadecer com a perseguição de si por si mesmo descrita pela mão de Lodge, e, sobretudo, sentia alívio com o ventinho fresco na cara quando dos passeios dados a pé e de bicicleta pela personagem principal. E agora convençam-me lá que eu nunca estive no East Sussex.

Divulgação

O meu colega Fernando Mouro enviou-me esta ligação que nos permite ter acesso a um grande número de vídeos de filósofos ou sobre filosofia, o Online videos of Philosophy . O link corresponde ao post de um excelente blogue de Filosofia que só agora fiquei a conhecer A brood comb ... philosophical and other notes...

De Portugal, e através de e-mail de kontrastes canhoto [kontrastes.blogue@gmail.com], chega a notícia de que já está em linha a revista VoxBlogs Magazine. Um projecto curioso a pretender fazer a ligação entre o jornalismo online com a edição/filosofia do espaço blogue.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

A ditadura da Birmânia

Gosto da palavra convalescença. Uma palavra que cheira a ar rarefeito e pólen. Lembra-me o livro Montanha Mágica de Thomas Mann ao mesmo tempo associado à imagem da nossa assombrosamente bela serra mágica do Caramulo com os seus esventrados, e elegantíssimos apesar de tudo, sanatórios. Tudo muito burguês, é verdade. Mas é como é. E como eu gosto.
Também gosto da palavra transumância. Mas aqui é a minha história genética familiar, ainda demasiado próxima, a falar, porque eu, este eu aqui sentado a escrever, nunca guardou rebanhos. Alberto Caeiro também não. Mas sobre isso escreve ele melhor.


Como é que Álvaro de Campos precisava de verdade na sua constipação, essa constipação que lhe alterou, como ele soube que todas as valentes constipações alteram, o estado do universo, é que me intriga. Que se precise de cama, sim, e de chás quentinhos, ajuda, de aspirinas, também, mas de verdade? Acho que mesmo que me tivessem dado verdade eu por estes dias não teria sido capaz de a percepcionar como tal.
Bom, mas as sensações disfuncionais e as percepções diluídas não me impediram de perceber que houve mais um atentado em Bagdad. Raios, estas notícias empurram-nos até a consciência, mesmo se feita em farinha, as assinalar.

Também vi no canal Hollywood um filme muito, muito, mau, sobre uma história muito importante num país bom em crise interna grave, com um regime ditatorial muito violento, e com menor visibilidade na cena internacional do que devia ter, apesar dos esforços conduzidos por Aung San Suu Kyi. Estou a falar da Birmânia. E já agora, com quem mantém a Birmânia laços de grande entendimento? Com o outro país campeão das liberdades e dos direitos civis e políticos lá da região, a não menos ditatorial China, pois claro. Os "grandes" espíritos encontram-se, não é?
“According to several organizations, including Human Rights Watch and Amnesty International, the regime has a poor human rights record.[22] There is no independent judiciary in Myanmar and political opposition to the military government is not tolerated. Internet access is highly restricted through software-based filtering that limits the material citizens can access on-line, including most political opposition, pro-democracy web pages, and pornography.[23][24] Forced labour, human trafficking, and child labour are common.”

Do que consegui ler escreverei depois. Agora vou ali convalescer mais um bocadinho, o mais aburguesada que souber.

quarta-feira, janeiro 31, 2007

11% de crescimento ao ano e o Estado da China transforma-se na bem apaparicada titi. Às malvas as liberdades públicas.

Teodorico é bem aconselhado pelo dr. Margaride, jurista sapiente destas coisas de heranças, a satisfazer a titi para que a fortuna do comendador Godinho venha parar a suas mãos: "_ Nem tudo está perdido, Teodorico. Não me parece que esteja tudo perdido... É possível que a senhora sua tia tenha mudado de ideia...Você é bem comportado, amima-a, lê-lhe o jornal, reza o terço com ela...Tudo isto influi. Que é necessário dizê-lo, o rival é forte!"
Eça de Queiroz, A Relíquia, ed. Livros do Brasil, p.42.

terça-feira, janeiro 30, 2007

Um povo e a liberdade

Ouve-se por aí mas sem se saber realmente (ao modo sussurrado do “diz que diz-se” do Estado Novo) que Salazar será a figura mais votada pelos portugueses no concurso televisivo, e evocam-se já explicações culturais, psicológicas e sociais para justificar essa tomada de posição de um povo que dizem retrógrado e sem consciência de liberdade, do seu valor e da necessidade da preservação deste valor em sociedade. Eu então recordo uma revolução democrática em 1974 por oposição a um concurso de televisão, recordo eleições disputadas e votadas com respeito e sentido de participação desde então, por oposição a votos em SMS, recordo um povo que num comício na fonte luminosa soube estar ao lado dos que disseram um basta à possibilidade de desvarios totalitários. E recordo que em 1928 o número dos que acompanharam os restos mortais de Sebastião Magalhães Lima, um dos meus grandes portugueses, assombrou todos os presentes ao ponto de vinte anos depois esse facto ser recordado como um acontecimento popular de dimensões nunca vistas, no apoio a um lutador pela liberdade e pela democracia, mesmo sob a ditadura de João Franco. Em França estaria no Panteão para dar corpo à memória e ao símbolo liberdade. Mas não faz mal, cá está na memória dos que o recordam e lembram como um lutador pela liberdade.

Sebastião Magalhães Lima fundou em 1922 a Liga Portuguesa dos Direitos Humanos
Tal como me perturba racionalmente a intervenção agitadada da igreja no debate sobre a lei do aborto, não a sua decisão ou a sua tomada de posição, claro, porque é uma instituição livre numa sociedade livre, também me perturba racionalmente que um governo que anda a economizar todos os tostões na saúde materno-infantil e que não apresenta um plano estruturado de apoio às mães trabalhadoras, venha agora a participar freneticamente em comícios/propaganda sobre a despenalização do aborto até às 10 semanas. Uma posição de força política que não prevê, ou contempla, o sofrimento das mães e pais que sentem que têm necessariamente que abortar, tanto quanto o das que não podem ter filhos por não terem uma sociedade socialmente organizada a favor da maternidade, é uma força que representa um Estado que não dignifica os filhos que sob ele nascem, e que age por força das circunstâncias não só económicas como ideológicas que melhor sirvam a sua ideia de sociedade no momento. Vale o que vale em política, e para mim vale pouco como ideia de sociedade. Já exprimi nestas páginas o meu sentido de voto. Não me envergonho dele, mas também não o considero reflexo do avanço civilizacional que por aí se apregoa. É um declarado sim por um mal que eu desejo, em consciência, que seja menor, e com o maior respeito por cada pessoa afectada. Sem que eu faça nada, porém, para ajudar mães que estejam em dificuldades. Assumo-o.

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Direito: conflito tradicional entre formalismo e pragmatismo 2

"Ora, em direito, toda a nova regra se inspira em alguns princípios mais gerais que ela particulariza e estrutura, e toda a decisão é fundada em alguma regra que a justifica: assistimos a uma dialéctica constante da razão e da vontade, das estruturas que determinam os quadros de uma acção, e das decisões que particularizam, adaptam, e até modificam esses quadros, se eles forem incompatíveis com regras mais fundamentadas. A razão e a vontade não se apresentam como uma dualidade irredutível, não sendo uma de nenhum auxílio na elaboração da outra, mas estão efectivamente em constante interacção. A prática do direito ensina-nos assim a não recorrer a uma separação nítida das faculdades. A metafísica absolutista, pelo contrário, quer seja racionalista ou voluntarista, quer se preocupe com elaborar uma ordem racional, que exclui todo o poder de decisão, quer com apresentar, por causa do seu dualismo radical, analogias impressionantes com uma sociedade sem juízes ou sem legisladores.", p. 334

Chaïm Perelman, Ética e Direito, Instituto Piaget, Lisboa, 2002.

A mim parece-me que os juízes caiem muitas vezes nesta armadilha teórica de embarcarem na defesa de uma metafísica absolutista quando alegam, para se defender, que se limitaram a cumprir a lei. É que assim podem ser substituídos por máquinas. Admitem que a sua presença é apenas a de reafirmarem a aplicação da lei, acima de qualquer poder de decisão baseada em regras que em cada caso se podem apresentar como mais bem fundadas.

O voto do sim ou do não no referendo

A Igreja, com mais de dois milénios de existência, ainda não sabe como dizer aos seus sacerdotes que não é no barulho e no discurso apopléctico em certas homilias numa missa que melhor se poderá defender uma sua posição? Não serão a ira e a soberba dos que mais se apresentam como inquestionáveis seguidores de Jesus menos boas conselheiras que a serenidade e a firmeza da suas posições? Quem os ouve, e não abandona a missa na igreja onde entrou, não encolherá os ombros pela falta de senso, e não lamenta a falta de postura de recolhimento e reflexão que a questão provoca em todos? E não lhes dirá que as suas palavras não devem atravessar os assuntos que são de César e cuidar atentamente das que admitem ser as de Deus?
Há uma grande confusão na cabeça de alguns sacerdotes que mais parecem vigilantes da virtude que amáveis guardiães. Quem querem aqueles que entre na sua igreja? Imaculadas criaturas registadas no livro do deve e haver do senhor prior? E quem são elas e como sabem eles que elas o são? Há tantas certezas. E no entanto há tanta miséria mesmo se com essas certezas. Também sentirão este paradoxo? Sofrerão por ele? Saberão até onde se poderá estender o seu braço e até onde deve ir o braço da política?

domingo, janeiro 28, 2007

Direito: conflito tradicional entre formalismo e pragmatismo 1

O que nos diz Chaïm Perelman sobre este conflito tradicional, latente, entre a “fidelidade à regra e à tradição” e a “tomada de consideração das consequências da interpretação”?

Na realidade que tipo de solução se poderá encontrar para um problema que é inerente ao próprio processo de decisão judicial? Tendo em conta, por exemplo, o caso de conflito de regulação do poder paternal da pequenina da Sertã, o que há para pensar?
No cumprimento da lei há ou não interpretação? E esta é ou não passível de induzir consequências graves? E deixar cair o respeito pela lei e tomar decisões só pensando nas consequências? Onde ficaria o sentido da equidade da lei?

Passo a citar Perelman que em Ética e Direito nos diz ser necessário a existência de uma dialéctica activa (processo interactivo) na vida do direito entre o formalismo e o pragmatismo. Mas este bom senso (pois é, pois é, todos e cada um o julgam consideravelmente presente sempre que tomam atitudes, diria Descartes) exige uma atenção redobrada por parte dos juízes sabendo estes que o "respeito da letra e das formas não constitui (...) um valor absoluto", e uma atenção cuidada pela sociedade em reconhecer que esse respeito pela letra e pela forma também não pode ser "um preconceito sem importância".

É nesse ponto de equílibrio que a ordem jurídica se pode estabelecer, entre o texto, a letra, e o contexto político e social da aplicação do texto: "Mas se os textos não forem redigidos com precisão, ou se deixarem de corresponder à ordem política e social em que se inserem, assistir-se-á ao primado do pragmatismo, ao triunfo do espírito sobre a lei."p. 333.

divulgo 2


O meu colega Rui Manuel pede-me para divulgar o seguinte:

"A Atalanta Filmes vai estrear no próximo dia 8 de Fevereiro o filme O GRANDE SILÊNCIO, documentário de Philip Gröning que ganhou o Prémio de Melhor Documentário Europeu. O GRANDE SILÊNCIO é o primeiro filme sobre a vida interior da Grande Chartreuse, casa-mãe da Ordem dos Cartuxos, uma meditação silenciosa sobre a vida monástica na sua forma mais pura. Dezassete anos depois de ter pedido autorização para filmar no mosteiro, é dada autorização para entrar ao realizador, que filmará a vida interior dos monges cartuxos. Sem música, à excepção dos cânticos do mosteiro, sem entrevistas, nem comentários, ou artifícios. É um filme sobre a presença do absoluto e a vida de homens que dedicam a sua existência a Deus.

O filme estará em exibição no Cinema Nimas (Av. 5 de Outubro, 42B), em Lisboa, e gostaríamos muito de contar com o vosso apoio na sua divulgação.
Com os melhores cumprimentos, "
e também isto:

*Divulguem, para não perdermos essa ferramenta!*
Mariza Russo Coordenadora do Curso de Biblioteconomia e Gestão de
Unidades de Informação - CBG/FACC/UFRJ
Por favor, leiam e repassem!
Convoco todos a lutar para impedirmos um desastre. Imaginem um
lugar onde se pode ler gratuitamente, as obras de Machado de Assis,
ou A Divina Comédia, ou ter acesso às melhores historinhas infantis
de todos os tempos.
Um lugar que lhe mostrasse as grandes pinturas de Leonardo Da Vinci.
Onde você pudesse escutar músicas em MP3 de alta qualidade.
Pois esse Lugar existe! O Ministério da Educação disponibiliza tudo
isso, basta acessar o site:
*http://www.dominiopublico.gov.br/*

divulgo 1

A minha amiga Ayetsa, de nacionalidade venezuelana, tem um blog "actos y consecuencias". Sei que ela há-de encontrar a liberdade dentro das suas obrigações e deveres profissionais para escrever o que pensa sobre o seu país. Será uma voz da Venezuelena. Não será a voz, claro, mas uma voz que eu reconheço como sendo íntegra e procurando a verdade.

sábado, janeiro 27, 2007

Mocho/gaivotas de Fiama Hasse Pais Brandão

Efectivamente algum mocho, embora não fosse
uma paisagem,
anunciou a noite. Nem era uma página, mesmo que os versos
soltos pela evocação pudessem descrever-se. Neste sítio tantos
[pios
se soltaram no azul.

Já não parece sincera enunciada tantas vezes a emoção
perante a emoção. Mas os mochos voavam regressando sobre
[distâncias que não eram
suas. Eu que receava reproduzir uma noite monótona
[recomecei
transferindo-me para o mar.

Tudo isto se confunde na minha representação do mar esvaído,
as mil gaivotas dispersas naquele chão arenoso. Tais pássaros
[sobre o mar
equivocaram-me: ora são sombras das suas formas, e ágeis
como a superfície, ora têm aquela voz cava toldando os céus de
[azul.

Vi-os desse modo, pela primeira vez, áugures. Os da imagem
actual são brancos, dependentes do nome que possuem na
[associação
com as imagens do mar. Só eu
quero abandonar as significações eternas,
o significado anterior que me arrastara, e estarrecera a minha
[simplicidade.
Perante a tradição literária, nada sou
sem artifício.

Esta confissão não é só minha. Seres de linguagem, ave ou
[outra estirpe
que fale com outra estirpe no Universo. São artífices
da realidade,
que aperfeiçoaram nos olhos vítreos um olhar semelhante ao
[mundo. Mundo
semelhante a uma obra. Deito-me na mansidão relativa do
[mar

como se fosse acolhida pela cachoeira de espuma que se
[desfaz. Tudo
o que está figurado nesta brancura lhes pertence, são sob a
[sua forma desfeita,
pássaros de azeviche. Dizer com exactidão a cor no espaço é
[a forma mais
vaga de incerteza. Antes redemoinhassem flocos de espuma
[sobre mim pensativa
do que eu perder na figuração do céu o sentido subtil da
[inverosimilhança.


Fiama Hasse Pais Brandão, Obra Breve, ed. Teorema, 1991, p.258.

sexta-feira, janeiro 26, 2007

"Político domesticável é do escalão dos animais domésticos"

“Já disse uma vez: político que se deixa domesticar, que na sua consciência não vê ofensa grave à expectativa que se pôs nele, deve ser remetido para o escalão dos animais domésticos.” João Cravinho em entrevista hoje no jornal “Público”.

Mas o político deve em sua consciência corresponder à expectativa de quem? À do líder parlamentar do partido do governo que precisa de manter um grupo coeso para fazer aprovar as leis sem criar instabilidade institucional, à de um líder partidário dos partidos de oposição que precisa de mentes inquietas que apresentem propostas e discursos que potenciem a presença de um contraditório na argumentação, a de um povo que quando vota nem sequer sabe quem é o seu representante no parlamento e muito menos o que dele deve esperar, ou à ideia de função de um político como uma pessoa que em consciência só responde perante o povo que o elegeu com a sua autónoma actuação e livre pensamento?

Um político a pensar pela sua cabeça é como um povo a participar civicamente, só é aceitável nos manuais, e nos discursos de jubilação pátria para almas idealistas ouvirem. Não corresponde a nada.
A nada, nada, não, corresponde a uma ideia. E aí é que Cravinho sabe onde começa a política. Ou onde devia começar. Ou não devia, porque senão o povoléu ainda pensava que chegava a parlamentar independente com a mania de pensar pela sua própria cabeça ou a discutir os intangíveis princípios de aplicação da justiça. Estrangeirices. Revolução.

Ninguém pode saltar sobre a sua própria sombra

Ninguém pode saltar sobre a sua própria sombra, dizem os alemães. E às vezes ela é ainda maior que nós mesmos. Como o sabe o povo alemão. E sabe-lo tu?
Eu acho que sei. Talvez saiba. Ainda me espanto, claro, com a minha sombra, com a que conheço; tanto quanto com a dos outros.

Sei de alguém que é tão bonito, tão excelente a escrever e a pensar, com uma ortografia e uma sintaxe esplêndidas, um vocabulário mais-que-perfeito que eu admiro como a uma coluna dórica, mas a quem basta a própria respiração para aterrorizar o seu coração.

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Historiador Oliveira Marques

Morreu o historiador Oliveira Marques . Ou devia dizer: morreu o pensador Oliveira Marques?

Um doutoramento como um PhD

Depois de duas horas a ouvir discutir sobre a importância das proteínas vegetais na estabilização do vinho por contraposição às habituais proteínas de origem animal usadas pela produção, e respectivas fórmulas químicas implicadas, discussão hermética para não iniciados, como era o meu caso, eis senão quando interveio um elemento do júri de doutoramento daquelas provas a que eu assistia. Júri de nacionalidade inglesa. Admirou-se com a extensão da tese (muito gosta a academia portuguesa de teses ao quilo), elogiou a capacidade de trabalho da candidata e depois perguntou-lhe:”Sabe que em Inglaterra um doutoramento representa aquilo a que se chama obter um grau em Filosofia. É assim que eu o entendo. Pressupõe-se por isso que o trabalho científico apresente uma filosofia nova, uma ideia que contribua para o avanço teórico na área. Diga-me pois, qual é a filosofia deste trabalho?” Silêncio expressivo naquele auditório de uma universidade técnica de Lisboa: “Filo…quê?!”
A minha amiga Helena prestou ontem as suas provas de doutoramento em engenharia agro-industrial. Unanimemente aprovada pelo júri e saudada por todos nós.

terça-feira, janeiro 23, 2007

A lei da adopção

O programa do Prós e Contras de ontem não foi sobre adopção mas sobre o caso de vida de uma menina que está no centro de uma luta de poder. Ela está a ser disputada pelo poder judicial, o poder de pertença paternal convencional, o poder dos que a amam incondicionalmente, o poder da segurança social, o poder de informar e influir dos meios de comunicação e o poder de tomada de posição popular. Com o devido respeito pelo caso da pequenina, mas quem me dera que o programa fosse realmente sobre o rotundo falhanço do nosso sistema de adopção e reflexão sobre o meio de o alterar. Mas como pedir a um programa de televisão o que o parlamento não é capaz de fazer? Ainda assim, ontem parece que toda a gente descobriu afinal os méritos de uma coisa chamada "adopção restrita" e que parecia que estava na lei mas não era aplicada, ou coisa que o valha, e que de certeza alguém vai querer ver a sua aplicação mais complicada para justificar o seu trabalho.

O que me parece que está a perturbar todos os intervenientes deste acontecimento em particular é facto do poder judicial, o paternal convencional e o da segurança social , tradicionalmente escudados na intangibilidade dos seus direitos, estarem a ser questionados pela tomada de posição popular que, dizem os interessados, está ser influenciada pelos meios de comunicação, como, numa expressão infeliz, declarou o juiz do tribunal da relação do Porto ao afirmar que “Não há opinião pública, há opinião publicada”, declarando como sendo autor da frase um outro senhor do Porto, que, obviamente, não o é, pois quem a proferiu foi Winston Churchill, que, aliás, sabia muito bem publicitar a sua opinião. É como se um jornalista dissesse “Não há justiça na aplicação da lei o que há é arrogância administrativa aplicada”. Frases sem qualquer interesse teórico ou prático e que servem para toldar a argumentação, e cuja legitimação está longe de ser justificada. Mas adiante. O que me parecia essencial, para além da resolução do caso a favor da menina, era esclarecer de uma vez para sempre, quanto tempo é admissível que uma resolução judicial destas possa demorar, quando é que se passa a ter exclusivamente juízes formados em direito de família para analisar estes casos, quando é que o processo de adopção acelera e deixa de ter excessos de proteccionismo de um sistema de segurança social que tem vindo a provar à saciedade que é tudo menos seguro (e não me venham dizer que é o tempo necessário de o sistema garantir a protecção de uma criança, porque eu não acredito, e não tem fundamentação psicológica, legal e filosófica), quando é que a justiça deixa de falar sobranceiramente com o povo que, numa democracia, a financia e a legitima no seu poder, quando é que os directores, do Observatório sobre a adopção, e o do Instituto da Segurança Social, por exemplo, se deixam de conversa mole?

Ontem foi dito que Portugal não é o Brasil em termos de adopção. Portugal não é realmente o Brasil, de quem dão uma má imagem em termos de sistema de adopção, mas também não é os Estados Unidos que tantos gostam de exibir em credenciais noutras matérias. Portugal prefere então ser um país onde morrem crianças nas mãos de progenitores cruéis, e é um país com muitas crianças institucionalizadas, com uma lista imensa de pais desejosos de adoptar, com leis disfuncionais, e com muitos juízes a dormir descansados com o bom trabalho que fazem, e é isto que a opinião pública (que existe, como sabe os que estudaram estas coisas) reconhece, e, talvez tomando agora a parte pelo todo, não sei, quer poder evitar. Quer poder intervir, no limite da sua força e no restrito cumprimento da lei, ao invés de se limitar a receber de forma passiva as inúmeras notícias de crianças em risco. Se o faz é porque sente que quem de direito é incompetente para o fazer. E que chegou a hora de o afirmar. Isto é participação cívica. Não gostam? Pois a acção da democracia, como só na teoria se diz que a queremos, incomoda sempre as oligarquias. Sempre assim foi.

Exemplo prático (caso real). Eu conheço, infelizmente, muitos outros casos.

A casou com B. B tem dois filhos de um primeiro casamento já maiores de idade. A e B querem adoptar uma criança e vão a um Centro de Segurança Social, a funcionária comunica-lhes que para iniciarem o processo os filhos de B têm que ser chamados e declarar o seu consentimento. Mas A não quer a interferência dos seus enteados já adultos porque julga que se engravidasse também não lhes ia pedir autorização para ter a criança. Resultado, uma adopção de um casal estável e com imenso carinho e condições materiais para dar a menos, uma criança institucionalizada a mais. O sistema fica feliz porque garantiu a aplicação da lei.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

para pensar o editorial de hoje do JN

Ana & Cravinho

"tu vês avançar para ti a literatura"

Ziguezagueando entre a morte, a lei e o ego.

Num mês da minha vida trabalhei um mês na Biblioteca Nacional. Foi durante umas férias universitárias, num programa de ATL para jovens que então era promovido pelos governos da época. O dinheiro ia inteirinho para ajudar a pagar o meu bilhete de InterRail desse ano, e o lugar de trabalho era o meu preferido.
Estava um dia muito quente de entre o fim de primavera e o princípio de verão. No primeiro dia de trabalho levei um vestido cor-de-rosa. Tal qual. Recordo-me, claro, pois deve ter sido a áurea que aquela cor me dava que convenceu a senhora que ficava responsável pelo meu trabalho, pois quando ela chegou ao pé de mim fez um ar de agrado e disse-me que eu podia ficar no serviço de atendimento ao público. Quem gosta de vestir um vestido cor-de-rosa não se ofende com esta atribuição de prendas.
Qual ganso deslizei como um cisne, e, sentindo-me mimosa, planei até à minha secretária, sita na intimidante sala de consulta geral. Ao tempo só havia meia dúzia de computadores que obrigavam a uma consulta em pé. A informatização da biblioteca estava a começar e as pesquisas faziam-se então com base no arquivo de fichas e por consulta manual, sistema que ainda hoje se mantém apesar da crescente informatização. A mim competia-me aprender a interpretar os códigos das fichas de consulta, ajudar os leitores nas suas buscas e verificar a correcção dos dados nas fichas preenchidas pelas pessoas antes destas ingressarem na sala de leitura. As coisas, simples coisas, devem ter corrido bem porque nunca mais vi a minha chefe, e em poucos dias os meus colegas de secretária já me deixavam sozinha na sala. E aí eu pairava, qual soberana, nesse mundo de informação, de prestação de informação, de troca de informação. Um mundo perfeito.

Dos muitos episódios que aqui poderia contar, destaco um, hoje, em memória de.
Um dia, pela hora do almoço, uma senhora ao passar pelo nosso lugar parou um pouco para conversar com a minha colega. Eu levantei os olhos e vi-a. Nesse tempo lia poesia como quem come. E conhecia a sua obra porque a minha amiga de adolescência, a Cláudia, a minha grande referência para livros e autores, ma indicara como uma poetisa das maiores. Embasbacada fiquei. A senhora trocou comigo um olhar fugaz e sorriu-me levemente. Lembro-me de uma voz e de uma presença muito suaves. Mas nunca mais a voltei a ver.
Perguntei à minha colega, ainda sob o efeito hipnótico da sua presença: “Era a poetisa Hasse Pais Brandão, não era?” Era. Ó sensação de glória.

“Tu vês avançar para ti a literatura,
a resfolegar e a chiar.
Sabes vencer o monstro que te exalta.
Viste como se enrosca o Leviathan.

Mas conheces o hipogrifo, a ave Zizith
e o unicórnio? Este é benigno
e simboliza através do Conhecimento
a Criação. Portanto vê, exegeta,

que ao lado do Autor o chifre
luminoso corta o ar e a Via.
Ambos vêm com os livros e também
todas as figuras e pensamentos

alheios que em trânsito
atravessaram pelo meio de si o Autor.
Exegeta, o que tu viste,
com o teu único olho ciclópico,

é um paralelepípedo onde
a voz ou o silêncio da voz
adquiriram uma figura sólida.”
Fiama Hasse Pais Brandão, Obra Breve

Tell Bush: Darfur MUST Be a Top Priority


"Tell Bush: Darfur MUST Be a Top Priority
Please urge President Bush to make ending the crisis in Darfur a main point in his State of the Union address on Tuesday, January 23rd and one of his top priorities in 2007.There is no time to waste! President Bush must act NOW to prevent infamous Sudanese President Bashir from seizing control of the African Union.Fill out the fields below to add your name to send your urgent message to the President. "


Organização Save Darfur

domingo, janeiro 21, 2007

ziguezagueando1

Ziguezagueando entre a morte, a lei e o ego.



Cabelos pretos, grandes olhos castanhos, numa pele muito clara. Respondi eu à pergunta sobre como era Fiama Hasse Pais Brandão, ontem quando evocávamos a poetisa no dia da sua morte. “Não”, respondeu o professor Campos, “Cabelo preto, pele muito morena.”

ziguezagueando 2

Ziguezagueando entre a morte, a lei e o ego.



A lei nasce na vontade escrita do poder, ou na interpretação e aplicação de uma autoridade na escrita?

Esta discussão terá que ser muito bem respondida, e um modelo de responsabilização admitido, para que o lodaçal legal não se transforme em pântano social. Mas como encontrar espaço para pensar a prática e a teoria nesta exibição de produção de leis em catadupa que impõe uma certa ideia de realidade sem se conhecer a realidade, como tem sido prática histórica?

Já aqui escrevi algumas vezes sobre o continuado mastodôntico processo de adopção. Como se entre a ideia do interesse das crianças e o real interesse das crianças houvesse um muro de indiferença. Como é que os ilustres defensores da campanha pelo "não" à despenalização do aborto não estendem também a sua influência, poder e vontade, na defesa de uma lei de adopção mais célere, mais a pensar numa família que numa instituição?

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Admirável mundo da internet - site da musicovery e o Google answers

O meu amigo Fernando enviou-me este link de uma Webradio interactiva verdadeiramente incrível. Uma forma nova de ouvir música na rádio (por temas, estilos ou temperamento). Estou encantada. E a ouvir o concerto nº 1 para violino de Beethoven enquanto aqui escrevo.

Outro site que descobri no princípio da semana enquanto navegava na internet foi o o da Google answers. Uma ideia de sociedade como eu a entendo e defendo. Vinte e quatro horas de disponibilidade para nos perguntarmos o que quisermos, ou soubermos, com vinte e quatro horas de disponibilidade de vermos alguém responder-nos ou respondermos a alguém sobre um assunto que se domine. Infelizmente hoje soube que o serviço já não está aceitar questões. Fiquei desolada, porque ainda há poucos dias me fascinava a ver a frequência com que eram introduzidas questões pertinentes por pessoas de todo o mundo em cada segundo que passava. Bom, ficamos com os registos divididos por temas e a aguardar que o Google não desista da ideia.


Vou continuar a ouvir mais música. Agora passou à voz de Mahalia Jackson com o "What Then" que nunca eu tinha ouvido. Ena. E, já de seguida, David Bowie com o meu amado "Fill your heart".

quinta-feira, janeiro 18, 2007

os nós dentro de nós ou ressentimento 2


Ressentimento

Muitas das pessoas que eu conheço leram Nietzsche e sabem o que ele diz sobre esse afecto do ressentimento, a moral dos escravos como ele a descreveu no texto Para a genealogia da Moral.

Muitas das pessoas que eu conheço afirmam estar acima do ressentimento, porque nã0 querem ser identificadas com os escravos, seres servis, da filosofia de Nietzsche. Mas essas pessoas se evitam a afirmação do sentimento, não evitam a prática do ressentimento. E também não estão preparadas para assumir a radicalidade das consequências que a definição de um homem anti-ressentimento pressupõe no contexto filosófico apresentado.

Conhecer a teoria do anti-ressentimento, e afirmá-la, não é o mesmo que praticá-la, até poque ela exige pessoas ou muito distraídas de si e dos outros (como eu digo), ou pessoas cruéis (como o diz Nietzsche).
F. Nietzsche exaltou a moral do "Sim", do homem de acção, e contrapô-la ao do homem da reacção, no que subentende ser o ressentimento a "vingança do impotente". Mas o homem de acção não é apenas a incarnação de um tipo, é uma identificação precisa de um certo tipo de homem real que ele quer ver como senhor. O homem histórico,"assustadoramente brutal", que a aristocracia grega deu ao mundo, e que se opõe ao homem do ressentimento, é o exemplo de humanidade preferida. A outra, o povo passivo e sumisso, só produz pessoas temerosas, que defendem, por cobardia de assumirem os seus intintos, formas de diluição das forças de domínio e de subjugação.


Mas até que ponto os que sabem evitar a palavra ressentimento conseguem evitar a sua natureza de ser ressentidos? Seres que, anémicos, debatem assuntos ou pessoas que se lhes opõem, ou que escolheram o seu destino fora da esfera de influência dessas personalidades, como se fossem fantoches manuseados pela maledicência, espreitando, frouxamente, sobre o "ombro" de uma teoria que gostariam que lhes dissesse respeito, que os dissesse o super-homem poderoso de Nietzsche que sente o sabor doce da vingança na boca e o afirma exaltamente.

Eu confesso-me como o menos seduzida possível pela teoria moral de Nietzsche, pese embora reconheça a necessidade de uma investigação contínua sobre esse tipo de previsibilidade da acção moral que julgamos ser a que define a nossa sociedade. E que a investigação de uma genealogia da moral não sirva para defender uma ideologia social, mas nos faça pensar: "Como é que se faz uma memória dentro do homem-animal?", Como se cria uma consciência? Nietzsche diz-nos que só com terror e dor isso se consegue. Explica assim a história da consciência moral como uma "total hipnotização do sistema nervoso intelectual".

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Portugal de...

"PORTUGAL DE...
Documentários - Informação
Nuno Portas

Nº 10 de 12: "Portugal de Nuno Portas"

Um olhar de 12 portugueses sobre Portugal, em conversas reveladoras"

Já houve 10, 10!!, pessoas a falar sobre Portugal e eu só ouvi ontem a primeira?!

Ouvi Nuno Portas pela primeira vez. Não conhecia o urbanista e fiquei fascinada com os seus conhecimentos e com a sua personalidade. Soberbo.

Bela ideia, bem filmada e a deixar solto o entrevistado. Não vi logo desde o início, mas, do muito que vi, só uma vez o entrevistador interrompeu o discurso de Portas para o ajudar a esclarecer melhor uma questão. Excelente.

Faltam dois programas.
Agora vou ver se consigo saber quem foram os restantes autores, e como será possível ouvi-los. Estou expectante.

As palavras, o meio e a difusão da ideologia da violência

Os meios de comunicação e a sua subordinação a meios difusores de ideologias. São demasiado apetecíveis para serem deixados em auto-regulação. Daí que haja, de forma consentida ou não por parte dos jornalistas, no mundo inteiro, uma apropriação do meio para espalhar a "verdade". Desta feita analisa-se a Al Jazeera.




Another Perspective, or Jihad TV?



By JUDEA PEARL
Published: January 17, 2007
Los Angeles


"IN late 2001, three months before my son, the Wall Street Journal reporter Daniel Pearl, was kidnapped, he interviewed the influential Qatari cleric Sheik Yusuf al-Qaradawi, and asked him about suicide bombings against Israeli civilians. The sheik replied with a novel twist of logic. “Israeli society in general is armed,” he said, implying that Israeli civilians — including women and children, doctors and journalists — are legitimate targets.

At the time, it was still surprising to see an authoritative Muslim cleric give religious license to the ideology of terror — granting the faithful permission to elevate their own grievances above the norms of civilized society.

Daniel would fall victim to that same ideology when he was abducted and murdered in Pakistan. After his death, I discovered that Sheik Qaradawi is the host of a weekly program on the Qatar-based TV news network Al Jazeera called “Sharia and Life.” He uses this forum to preach his new morality to millions of Arabic-speaking viewers, including Hamas operatives, Al Qaeda recruits, schoolteachers and impressionable Muslim youths. “We have the ‘children bomb,’ and these human bombs must continue until liberation,” he told his audience in 2002. Consistent with this logic and morality, Sheik Qaradawi later extended his Koranic blessing to suicide bombing against American civilians in Iraq.

A few in the Arab world have taken issue with his calls for violence. Al Ittihad, a newspaper in the United Arab Emirates, editorialized in 2004 that the beheading of two American hostages in Iraq happened “in direct response to Qaradawi’s fatwa and incitement, which permits the killing of American civilians.” Yet few, in the Middle East or the West, seem willing to condemn Al Jazeera’s management for giving the cleric regular airtime.

None of this might seem to matter much to Americans except that for two months now Al Jazeera has been taking its mixture of news coverage and extremist propagandizing to our front door through an English-language station. Called Al Jazeera English, the network can be received via satellite or streamed over the Internet. It has bureaus in London and Washington, and has recruited such high-profile Western journalists as Sir David Frost as correspondents.
In part, this is promising. The Arabic version of Al Jazeera and its various spinoffs on satellite TV and the Internet are usually credited with having a positive influence on Arab society. True, Al Jazeera’s coverage has placed an emphasis on younger leaders, reformers and successful businessmen who may serve as role models for today’s Arab youth. And it has brought — as the press usually does — a degree of inquisitiveness and openness that could become a useful engine of reform in the region.

Westerners have been quick to point out these benefits. A critic for The Times said that “though Al Jazeera English looks at news events through a non-Western prism, it also points to where East and West actually meet.” Time magazine noted, “arguably nothing — including the Bush administration’s panoply of democratization programs — has done more than Al Jazeera to open minds and challenge authority in the Middle East.”

But what should concern Westerners is that the ideology of men like Sheik Qaradawi saturates many of the network’s programs, and is gaining wider acceptance among Muslim youths in the West. In its “straight” news coverage on its Arabic TV broadcasts and Web sites, Al Jazeera’s reports consistently amplify radical Islamist sentiments (although without endorsing violence explicitly).

For example, the phrase “war on terror” is invariably preceded by the contemptuous prefix “so-called.” The words “terror” and “insurgency” are rarely uttered with a straight face, usually replaced with “resistance” or “struggle.” The phrase “war in Iraq” is often replaced by “war on Iraq” or “war against Iraq.” A suicide bombing is called a “commando attack” or, occasionally, a “paradise operation.”
Al Jazeera’s Web site can be less subtle. On Dec. 12, after religious leaders and heads of state all over the world condemned President Mahmoud Ahmadinejad of Iran for staging a Holocaust denial conference in Tehran, the headline on the site read, “Ahmadinejad Praised by Participants of the Holocaust Conference in Tehran, but Condemned by Zionists in Europe.”


terça-feira, janeiro 16, 2007

nocturno português

"Toma lá que te dou eu,
rapariga da fortuna!
uma mão cheia de nada
outra de coisa nenhuma"

popular

O título de um livro de contos infantis de Irene Lisboa é precisamente "Uma mão cheia de nada outra de coisa nenhuma".

Disseram-nos que iam fechar maternidades porque as condições médico-clínicas em que as parturientes eram atendidas não estavam asseguradas. Que não, não era uma questão económica mas que, provava-se por relatórios de médicos profissionalmente irrepreensíveis, eram questões de saúde materno-infantil. Agora vimos a saber, quando sabemos, e quando não as mandamos para Espanha ter os seus bebés, que há um número elevado de mulheres a darem à luz em casa, sem assistência médica, ou em ambulâncias, assistidas por bombeiros de boa-vontade mas que nunca na vida fizeram partos. A média de partos do bombeiro deixa imediatamente de ser relevante, até porque ele pode fazer um parto por ano porque, como não ganha como um médico, a vida da parturiente deixa de estar automaticamente em risco por falta de experiência, ou lá o que era que alegavam os relatórios acerca de médicos com menos de mil partos por ano no currículo. Não, não era só por contenção financeira.

Disseram-nos que iam fechar escolas, reduzir o corpo docente e trazer mais alunos para o ensino, em nome da concentração de esforços e de oferecimento de recursos humanos com maior qualidade e por maior formação. Que não senhores, não era por motivos económicos. As escolas fecharam, o número de docentes diminui, vai instituir-se um estatuto de carreira docente que, quem vê de fora, julga ser a solução para a avaliação dos docentes, e só transformará o secundário numa instituição endogâmica à semelhança dos se passa nas universidades. Mas não, agora é que a avaliação a sério vai começar, dizem, e o ensino melhorará , qual milagre da redução.

Institui-se também a figura do super-sabichão professor no 2º ciclo, sendo que até agora o seu saber era dividido por 10 professores, vejam bem, que horror as crianças terem tantos professores, quando um pode perfeitamente ensinar aquilo que os outros dez ensinavam. E o aluno fica menos traumatizado por ter como docente essa figura que sabe de tudo, e não sabe de nada, licenciado e mestre nessas nossas novas e super eficientes universidades. Assim como assim, todos aqueles saberes juntos valem o quê? Tudo em nome da qualidade, e da protecção dos interesses do aluno, não em nome da contenção de custos. Não.

Dizem que muitos alunos regressaram à escola. É verdade, dizem os números. Mas quantos ficaram nessa escola, findo agora o primeiro período, nessa escola que lhes oferece tudo de forma gratuita, ao ponto de muitos entrarem com a antiga quarta classe directamente para o secundário (e os que têm mais de vinte e três anos entram directamente para a universidade sem passar pelo secundário), e depois perguntam aos professores se não os podem passar (mesmo que não tivessem feito nenhum exercício obrigatório de avaliação, ou mesmo que fossem avaliados negativamente) só porque estiveram presentes em algumas aulas? Porque não, realmente? Assim como assim. Tudo isto em nome da qualidade de ensino, e não, não tem nada a ver com números para “burocrata europeu ver” ou com contenção financeira do sistema. É pela qualidade da formação, garante essa mão que nos dão.

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Nocturno Indiano

“O que é que fazia em Calcutá?”.
“Fotografava a objecção”, respondeu Christine.
“Que quer dizer com isso?”.
“A miséria”, disse ela, “a degradação, o horror, chame-lhe como quiser”.
“Porque o fez?”.
“É o meu ofício”, disse ela, “pagam-me para isso”.

Fez um gesto que podia significar resignação à profissão da sua vida, e depois perguntou-me:”Já alguma vez esteve em Calcutá?”.


Abanei a cabeça. “Não vá lá”, disse Christine, “nunca cometa um erro desses”.
“Pensava que uma pessoa como você achasse que na vida é preciso ver o mais possível”.
“Não”, disse ela convicta, “é preciso ver o menos possível”.


Nocturno Indiano de Antonio Tabucchi, ed. Quetzal, p. 102.

Pouco tempo depois de sair o livro, soube de um casal conhecido que tinha ido para a Índia e seguido o itinerário sugerido pela personagem. “Que romântica delícia”, pensei eu na altura. Mas fiquei a saber demais desse casal para continuar a pensar assim. Quanto menos se sabe mais se pode efabular.

Naquele dia, perdido o comboio para Istambul, a Eunice eu ficámos sentadas no chão da estação ferroviária de Belgrado, encostadas às nossas mochilas e literalmente a ver passar os comboios. A Eunice propôs-me um jogo para ajudar a passar aquele longo tempo de espera: observar atentamente cada pessoa que passasse e comentá-la. Ao fim de um tempo eu tive que parar, nauseada e cheia de dores de cabeça. Já nos lavabos procurei reencontrar a minha natureza. Como a Eunice sabia, eu era a que tentava ver o menos possível.

Como é que a miséria humana, e a irrelevância/incongruência democrática de um sistema social de castas, podem passar ao lado de um crescimento de aproximadamente 9% ao ano?
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sexta-feira, janeiro 12, 2007

Imaginário político: Índia


A série "A Jóia da Coroa" (The jewel in the crown), de produção inglesa, dirigido porJim O'Brien e Christopher Morahan a partir de uma adptação do romance de Paul Scott, faz parte do meu imaginário quando penso na Índia. Mas a Índia foi só uma jóia da coroa inglesa? E as nossas jóias, Goa, Damão e Diu? Em que coroa, ou estandarte, brilharam elas?
A minha obsessão com o aspecto simbólico da política leva-me a dizer uma vez mais que Portugal desperdiça, em termos de discurso, uma ideia que reúna os portugueses não sob o abominável princípio da potência colonizadora, da dominação dos povos, mas do admirável princípio de que amámos tanto essas terras estrangeiras como se nossa se tratasse, mesmo se as amámos execravelmente. Há uma história por contar mesmo quando pode ser feia. O silêncio é que apaga a beleza ou a vilania dos acontecimentos, não o discurso. Mas quem conta a história dessa paixão, mesmo que tivesse sido infeliz? Quem não deixa esquecer essa existência partilhada entre portugueses e indianos? Quem narra esse tempo e o oferece ao imaginário de outros povos?
As visitas das comitivas presidenciais são grãos de areia no deserto, pois só o imaginário colectivo é que fixa as pessoas a um local ou a outras pessoas. Vão para lá só preocupados com a economia que modificar-se-á estruturalmente muito com isso em Portugal.
E no entanto... a economia move-se.