quarta-feira, maio 31, 2006

Factos e acontecimentos

“Os factos e os acontecimentos são coisas infinitamente mais frágeis que os axiomas, as descobertas e as teorias – mesmo as mais loucamente especulativas – produzidas pelo espírito humano; (…) Uma vez perdidos, nenhum esforço racional poderá fazê-los voltar."

Hannah Arendt (1967), Verdade e Política, trad. Manuel Alberto, Lisboa, Relógio d`Água, 1995, p. 15 .

“Os factos e os acontecimentos são coisas infinitamente mais frágeis que os axiomas, as descobertas e as teorias – mesmo as mais loucamente especulativas – produzidas pelo espírito humano; (…) Uma vez perdidos, nenhum esforço racional poderá fazê-los voltar.”

Será?

Bom, para quem vive em mentira, esse tempo de ausência da verdade será, existencialmente, irrecuperável. Mas será possível que a verdade, sob a forma de testemunhos, arquivos, monumentos, desapareça assim tão absolutamente que nenhum esforço a possa reconstruir? Será possível que uma história consiga cobrir todas as outras de forma tão dominadora?

Efeito perverso da comunicação política II

Ontem na discussão na Rtp 1 sobre a questão da violência nas escolas, o único político presente, o secretário de Estado para a educação, conseguiu ser o exemplo vivo do tipo de discurso que só tem como função enxotar responsabilidades (para as comunidades, para as escolas e até para os professores, com a insinuação de que algo no próprio comportamento destes revelava disfuncionalidade, por contraponto ao de outros, com base numa distinção que os alunos diziam fazer entre os "simpáticos" e aqueles que "estão ali mesmo a pedi-las"), promovendo ainda mais o enfraquecimento da autoridade dos professores com um discurso invertebrado quanto à gravidade das situações, que, não, não são excepções, e sim, acontecem frequentemente: basta ver porque não há professores a poderem afirmá-lo com a cara destapada.

A mim constrangeu-me aquela posição de reféns por parte dos professores, pelo vistos ao senhor secretário de Estado só ocorreu preocupar-se em minimizar os acontecimentos, e em singularizar o ocorrido, sem se envolver no debate sobre a questão do fracasso de modelo de disciplina implementado nas escolas portuguesas.

terça-feira, maio 30, 2006

Efeito perverso da comunicação política

"Because the terms we use to describe the world determine the ways we see it, those who control the language control the argument, and those who control the argument are more likely to successfully translate belief into policy. "

Kathleen Hall Jamieson and Paul Waldman, The Press Effect, Oxford, Oxford Univ. Press,2003.

trad.
"Sendo que os termos que usamos para descrever o mundo determinam o modo como o vemos, aqueles que controlarem a linguagem controlam o argumento, e aqueles que controlarem o argumento terão mais hipóteses de ser bem sucedidos em transformar a crença em política."



Esta é a suspeita clássica sobre o fenómeno do efeito perverso da comunicação política. Mas, como a própria K. Jamieson sabe, o controlo do argumento por parte de quem quer que seja não resulta de um processo fácil no que à determinação do comportamento diz respeito, nem é muito definitivo, em Democracia.

Pode-se aplicar às teorias do efeito negativo dos discursos a mesma definição que à dos enganos, i.e., que estes podem manipular uma vez, e podem fazê-lo relativamente a um grande número de indivíduos, mas não o podem fazer muitas vezes, nem para um número indeterminado de pessoas.

Jamieson sabe muito bem que é possível identificar as estórias, os enquadramentos, os argumentos enfim, utilizados para condicionar a percepção da realidade. Talvez não no tempo real de tomada de decisão, talvez não a tempo do público tomar consciência e penalizar com a sua votação o candidato que deliberadamente procura manipular o discurso, mas mesmo assim com muita pertinência social e em tempo razoável. Veja-se por exemplo o seu trabalho no Centro Annenberg da Universidade da Pensilvânia, como promotora da actividade de monitorização dos discursos políticos nos EUA, através da criação do serviço de verificação de factos políticos, o FactCheck.org.

segunda-feira, maio 29, 2006

Socialmente pertinente (e tecnicamente boa) a agenda política do presidente. Só ficamos todos a ganhar com esta iniciativa.

Muito bem, muito bem, senhor presidente da República portuguesa. Muito bem senhores deputados e governantes.
Não se esqueça agora o governo de continuar a desobstruir do caminho do cidadão os muitos entraves burocráticos que tolhem a acção social da comunidade.
É preciso, para evitar abusos de autoridade e desmazelos, fiscalização contínua, não são as proibições sistemáticas a qualquer iniciativa. Proibir em nome de um mal futuro que se quer evitar é uma atitude perversa, porque leva à inacção através do sentimento de impotência. E Portugal é exímio em criar proibições sob a forma encapotada das exigências burocráticas ou sob a figura de funcionários mal-educados e com poucos conhecimentos. Note-se que não acho que seja um problema dos funcionários públicos, mas sim um problema da ideologia de funcionário público que o Estado português sempre ajudou a promover: será tanto melhor o que melhor souber dificultar o acesso ao cidadão às informações, como se constituíssem uma frente, uma espécie de mecanismo de selecção natural para escrutinar o “bom” cidadão.

sexta-feira, maio 26, 2006

Victor Hugo 2 - As mulheres e a vida sexual

Ary SCHEFFER (Dordrecht, 1795 - Argenteuil, 1858), "Les ombres de Francesca da Rimini et de Paolo Malatesta apparaissent à Dante et à Virgile", 1855.


Escreve ainda Lynn Hunt no IV volume da História da Vida Privada: “Na obra de Sade a liberdade, a igualdade e até a fraternidade eram ao mesmo tempo glorificadas e desviadas. A liberdade era o direito à procura do prazer sem consideração pela lei, pelas convenções, pelos desejos dos outros (e esta liberdade, sem limites para alguns homens, significava em geral a escravidão das mulheres escolhidas). (…) Por uma espécie de falseamento tocqueviliano, a igualdade e a fraternidade entre os homens servem apenas o seu despotismo total sobre as mulheres. (…) Não podemos considerar Sade como o verdadeiro representante das atitudes para com as mulheres durante a Revolução; no entanto a sua obra chama a atenção para o papel desempenhado pelas mulheres como personagens privadas” (pp. 48 e 49).

Na biografia de Max Gallo não se escamoteia, nem se exalta, descreve-se, o comportamento desse "fauno" “après-midi”, Victor Hugo. O erotizado olhar no casto corpo do jovem Hugo vai transforma-se no olhar de um adulto sexualmente predador. Ponderei sobre o uso da palavra. Não deixa de ser perturbador, quer os ritos castradores da sua mesquinha nora Alice, sempre vigilante do comportamento sexual do ancião Hugo procurando limitar os eventuais estragos na sua imagem social, quer a concupiscência infatigável do escritor.

Não é a sucessão absolutamente alucinante de relações sexuais, com uma sucessão espantosa de mulheres, que relevo absolutamente, mas sim o facto de Hugo ter recorrido frequentemente à sedução das criadas da família, tivessem elas a idade que tivessem e independentemente da sua situação social. O facto de sistematicamente as procurar quando elas muitas das vezes já estavam a dormir, de se insinuar junto de pessoas que dependiam dos seus humores como patrão. O corrupio, entremeado por múltiplas relações com mulheres de outras classes sociais, é estonteante, num corpo que não se sacia com ninguém, e que nem a idade apazigua.

Até à revolução, este comportamento sexual fazia escola também em Portugal. É-nos fácil ainda hoje encontrarmos pessoas jovens que falavam do tempo em que pais e tios procuravam as criadas da casa, respondendo à nossa indignação com: “Elas gostavam, e esperavam que isso mesmo acontecesse!”. Acalmam com esta afirmação que tipo de consciência? Quantas porteiras, criadas de servir, mulheres-a-dias, assalariadas rurais e fabris não foram várias vezes postas, sem o desejarem ou preverem, perante este comportamento agressivo dos seus patrões? Quantas não tiveram que responder a desabusados convites, quando não mesmo desabusados avanços sexuais, sobre as suas pessoas? Fica no silêncio com que quase sempre as mulheres arrumam o seu passado, ajudando a ocultar a falta de responsabilidade social, e de dignidade no trato, de certos grupos sociais e económicos mais favorecidos para com os seus subalternos, em Portugal.

Em Victor Hugo, a sucessão de comportamentos sexuais compulsivos é delirante, o senhor é “voyeur”, é amante, é onanista, tudo ao mesmo tempo e em múltiplas relações. M. Gallo dá-nos conta de que o escritor tem rebates de consciência quanto ao poder estar a usar as jovens criadas, aproveitando-se da sua situação social mais frágil e dependente, sentimentos que, aliás, nunca são impeditivos de ele as tentar seduzir, mesmo que esteja sempre a dizer a si próprio que não as força nunca a nada, que elas lhe dão consentimento, que as gratifica monetariamente, que lhes dá atenção, que procura ensiná-las a ler, tirá-las da ignorância e dar-lhes um tecto numa casa com segurança.

E no entanto, como Gallo permite ver, não há uma separação entre o labor infatigável do artista, pois o escritor é prolixo na arte de escrever, e a manifestação da sua energia sexual. Um estado não sublimava o outro. Aqui a explicação freudiana da arte embateria na figura enérgica e vital de Hugo. O autor dedicava tanta vontade e energia ao exercício da escrita, como à activa procura de parceira para satisfação sexual.

Algumas jovens criadas, constata ele com regozijo e gratidão, voltavam mais tarde, já casadas e com filhos para o virem visitar, e enquanto os maridos e a prole esperavam no jardim, Hugo entregava-se ao prazer com a parceira a quem, escreve ele, tinha o cuidado de remunerar no fim da visita. Desconfiava ele que era a miséria das suas casas que as levaria ali uma vez mais? Quer não seria sobretudo pela troca de prazeres que elas o procuravam? E quantas dessas mulheres ao longo da vida não terão engravidado do escritor? Victor Hugo nunca parece ser assaltado por esse cuidado nos seus diários, e Gallo também não levanta a suspeita, mas eu surpreender-me-ia muito que a sua descendência não fosse mais alargada do que a que ele assume publicamente. No fim da vida, Hugo só tem viva uma de entre os cinco filhos que teve com a sua mulher Adèle Foucher. E quando morre, só os dois netos do seu filho Charles, crianças ainda, estão vivos para acompanhar e homenagear a sua figura. A filha há muito que não partilhava a sua intimidade doméstica, internada num hospício.

V. Hugo tem uma forte consciência social acerca dos desvalidos e da sua situação de miséria e de sujeição, ele conhece a realidade dos bairros pobres de Paris e da vida miserável dos aldeões franceses, belgas e britânicos por onde viveu, e para onde se exilou, sabe por isso que a origem social daqueles raparigas não lhes permite ter o mesmo grau na liberdade de escolha que qualquer outra com condições monetárias mais favoráveis. Sabe, mas não se coíbe de entrar no seu leito a qualquer hora da noite.

Mesmo assim nós percebemos que aquelas mulheres com posição social mais elevada, continuam dependentes dos dotes dados pelos pais, ou da fortuna dos maridos. Não têm autonomia financeira, não são verdadeiramente donas da sua vontade. Juliette, a jovem actriz por quem ele se apaixona ainda quando jovem marido, e com quem mantém uma relação íntima até à morte dela, pouco tempo antes da sua própria, é de uma fidelidade canina para com um homem que, sentindo-se sempre profundamente grato pelo desempenho que ela tem na sua vida, já não a ama com paixão. Mas como deixá-lo? Ela que o ama ilimitadamente, e de quem depende economicamente. Quem lhe pagaria as suas despesas domésticas? Quem lhe garantiria, e à filha, um tecto? Os sentimentos de submissão e revolta, de entrega e de desespero são uma constante na alma daquela mulher, que, porém, o segue obsessivamente por todo o lado, vigiando pela sua saúde, pelo seu bem-estar, pela sua obra e pela própria defesa da sua própria vida, quando esta fica em perigo por ordem de execução dada pelo ministro do Interior do governo de Luís Napoleão (“le petit”, como ele lhe chama, o pequeno tiranete), em Dezembro de 1851.

É verdade que Hugo as respeita intelectualmente, ele lê-as, ouve-as, há mulheres de quem se torna grande amigo, tomando-as por confidentes, por críticas do seu trabalho, por revisoras dos seus textos, mas não só as tenta sempre seduzir primeiro, quando se inicia o convívio, como não questiona o papel social que elas tomam na sociedade; sejam elas as suas amantes actrizes, senhoras bem casadas, prostitutas ou belas jovens, fascinadas com as obras literárias e com o prestígio de Hugo.

Já velho, e mesmo assim encantadoras ninfetas volteavam à sua volta, encantadas com o efeito que as suas graças naturais despertavam naquele homem que achavam maior que a vida, e que as cumulava de atenções.

Hugo não era um misógino. Nunca. Era apenas um homem que vivia literalmente de acordo com a última anotação do seu caderno minutos antes de morrer: “Amar é agir”. (p.423, Biografia de Victor Hugo por Max Gallo, Public. Europa-América). Amava e agia de facto, na política, na escrita, mas sobretudo no desejo pelas mulheres. Um desejo que agia sobre ele extensivamente, imperiosamente, sem se deter perante o que fosse, estranhamente num espírito livre, submetendo-o à sua tirania.



Conversa entre amigas:
- Estive a ler a biografia de César, por Max Gallo, e mais tarde li a de Victor Hugo, pelo mesmo autor. Bom, César, quando não andava a espadeirar Europa fora, estava na cama com o primeiro ser humano que passasse por perto. Victor Hugo quando não estava a escrever, estava na cama com a primeira mulher que encontrasse disponível. E ambos várias vezes ao dia, todos os dias.
Não… - respondeu-me admirada E., e logo acrescentou: “Tu não achas que essa é a fantasia de Max Gallo?”

quinta-feira, maio 25, 2006

Revoluções

O facto de repudiarmos o excesso de qualquer revolução, não nos deve impedir de vermos o que elas trouxeram, se o fizeram, de bom para a humanidade. Da revolução francesa trago a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789, e trago o instinto de resistência contra qualquer forma de tirania.

Portugal e o Irão estão a fazer quinhentos anos de manutenção de relações. Quinhentos anos.
Não era preciso fazer uma festa com confeitos, já que os governos saídos da revolução islâmica iraniana equivocaram-se no seu entendimento acerca do que é uma sociedade democrática, impondo formas de pensar e agir a toda uma população que não pode manifestar-se contra, e que merecem por isso mesmo um olhar mais solidário por parte dos cidadãos portugueses. Mas, mesmo assim, há que sublinhar a importância do acontecimento na vida destes dois Estados. Há que continuar a fazer contactos e a manter negociações. Ganham as duas nações, a Europa e o mundo, se conseguirmos tornarmo-nos parceiros de algum modo confiáveis, que podem ser ouvidos mesmo se tomando posições contrárias. De qualquer maneira já nos conhecemos há quinhentos anos.
Mas o que é que Portugal tanto precisa de planear para responder ao pedido de ajuda do Estado timorense, com o acordo da comunidade internacional?

quarta-feira, maio 24, 2006

filosofia


professor, eu penso assim:

"O sentido de incondicionalidade (aceite nos processos de entendimento mútuo) não significa o mesmo que um sentido absoluto que oferece consolo. Sob as condições de um pensamento pós-metafísico, a filosofia não pode substituir o consolo com o qual a religião empurra para uma nova luz, e ensina a suportar o sofrimento inevitável e a justiça não-expiada, as contingências de necessidade, solidão, doença e morte. A filosofia consegue, ainda hoje, explicar bem o ponto de vista moral perante o qual julgamos justo e injusto algo imparcial; dentro desta medida, a razão comunicativa não se encontra, em caso algum, igualmente distante da imoral. Contudo, algo bem diferente consiste em dar uma resposta motivadora à pergunta, com base nos nossos conhecimentos morais, e porque devemos ser, em geral, morais. A respeito disto, seria porventura possível dizer que querer salvar um sentido absoluto, sem Deus, é pretencioso. Pois faz parte da dignidade da filosofia insistir intransigentemente no facto de que nenhuma pretensão de verdade pode ter uma existência que não se encontre justificada no fórum do discurso que a fundamenta."

Jürgen Habermas, (1991), "Para uma frase de Max Horkheirmer: "Querer salvar um sentido absoluto sem Deus é pretencioso", in Textos e Contextos, trad. S. L. Vieira, Lisboa, Inst. Piaget, 2001. p. 117.

A busca pela verdade

Leonardo da Vinci, "A última ceia"1498. Fresco, 460 x 880 cm (15 x 29 ft). Convento de Santa Maria delle Grazie (Refeitório), Milão.


Bacoco o sentimento de que tudo o que vem do estrangeiro é automaticamente portador da aureola da excelência. Bacoco pelo que representa de falta de conhecimento, de orgulho e de amor-próprio, e não pelo acto de considerar e evidenciar o que se faz bem onde quer que seja no mundo, claro. É o que eu vou procurar fazer, bacocamente. Vem isto a propósito do documentário apresentado por Tony Robinson intitulado “O verdadeiro código Da Vinci”. Ali tivemos a pessoa que encarnou a inesquecível personagem “Baldrik” a procurar, com humor mas sem descurar por um minuto o rigor da investigação, por uma verdade. Neste caso a verdade sobre a legitimidade das teses do "Código da Vinci", sobretudo por o seu autor, Dan Brown , assumir publicamente que há na sua ficção muitos elementos históricos.

Investigou-se então nos documentos históricos, procurou-se os factos, olhou-se para eles com espírito crítico, sem arrogância intelectual ou vontade de humilhar outrem pelas suas posições diferentes, procurou-se ouvir e respeitar a autoridade dos que deram provas de trabalho e conhecimentos profundos nas suas áreas de conhecimento, e depois tomou-se uma decisão. Boa forma de se apresentar um documentário sob o signo da verdade.

terça-feira, maio 23, 2006

Impressões da realidade/realidade

Há ou não jornalistas avençados em empresas públicas? É uma questão pertinente, mas não será uma insinuação sensata. Mais para mais porque começam a surgir os desmentidos. Ganhamos todos com esclarecimentos, perdemos todos com sugestões infundadas.

Comunicação política no Prós e Contras

Prós:
Possibilidade de se discutir o fenómeno da comunicação política em Portugal, sendo que o tema foi olimpicamente ignorado nas academias portuguesas até há poucos anos.

Contras:
Discussão que não acrescentou um argumento sequer à tese de saber se existem, e como se apresentam, os mecanismos de distorção da mensagem política, no domínio da manipulação indirecta da comunicação, por parte de quem quer que seja.

Não podemos ignorar também que a teoria que sustentou a discussão de ontem assenta no pressuposto de que existem efeitos perversos na comunicação, no que a um acesso e tratamento desigual dos recursos da comunicação aos políticos diz respeito, o que motivaria uma distribuição, igualmente desigual, do poder político. Ora esta teoria baseia-se em pesquisas socio-linguisticas que não cobrem na totalidade o campo da investigação nesta área, já que há igualmente teorias, como as da Escola estruturalista-funcionalista , que avançam com a ideia de que a importância da comunicação em política não é suficiente para dar a compreender, de forma determinante, os aspectos políticos da representação, da formação da opinião pública e da escolha.

Se aceitarmos porém o princípio de que a comunicação política é o lugar de confronto dos discursos de todos os que procuram conquistar e dominar o poder político, será fácil perceber que os conflitos surgirão sempre que as pessoas sentirem que não são representadas ou que o são de forma distorcida, porque crêem que essa sub representação as impedirá de aceder a uma disputa pelo poder em condições equiparadas com todos os outros candidatos.

As sensações de se estar condicionado a poderes de influência pouco democráticos têm que ser justificadas, ou com raciocínios válidos, ou com a apresentação de provas concretas da existência de um tratamento desigual por parte dos media enquanto meios de comunicação, pois só então poderão ser tema de reflexão. Enquanto meras percepções de um indivíduo, sem uma análise exaustiva dos recursos utilizados para manipular as mensagem, e uma compreensão do processo comunicacional, estas de pouco valem para a discussão acerca da efectiva capacidade dos media condicionarem a agenda política.

Hoje tem-se vindo a provar que os media controlam efectivamente os recursos humanos na política, mas através da influência da opinião pública sobre os próprios media (porque perceberam que os votantes, como nos disse Simmel, têm mais facilidade em avaliar pessoas e relações, do que os seus programas ou realizações), daí que os media se centrem sobretudo num entendimento da política como um jogo de competição, mais proximo da noção que o público tem da discussão em política, hiperbolizando a imagem do candidato, os conflitos, os confrontos.

Mas os políticos controlam, também efectivamente, os recursos normativos dos media. Porque são estes que legislam e regulamentam a actividade dos media em todas as suas fases, do licenciamento à emissão. É por isso que o deputado Manuel Maria Carrilho ontem não me convenceu no seu papel de cidadão que reivindica um tratamento justo por parte dos media, mas convenceu-me como um actor político que quer continuar a discutir na praça pública o verdadeiro grau do seu poder de influência em face do dos media. Como projecto político não me parece muito promissor, como discussão teórica parece-me de uma pobreza conceptual e argumentatativa confrangedora.

boas-vindas

Boas-vindas a João Carlos Correia que passará a participar neste blogue. João Carlos Correia é professor na Universidade da Beira Interior na área das Ciências da Comunicação. Os seus posts serão devidamente identificados pelo próprio.

Victor Hugo: um pretexto....

Com a permissão da Isabel Morgado, sugiro a leitura da Biografia do André Maurois sobre o Víctor Hugo. Porém, melhor do que a ingrata tarefa de descobrir os secretos pecadilhos dos grandes homens, sugiro a esquecida re-leitura de todo aquele humanismo burguês que encantou este leitor faz mais de três décadas com livros como o "Burg-Jargal", "O Homem que Ri", "O Noventa e Três", "Vinte e Quatro Horas da Vida de um Condenado", "Os Pescadores da Islândia" entre outros que devorei com uma lanterna debaixo dos cobertores e nos quais se destacam os inevitáveis "Nossa Senhora de Paris" e "Os Miseráveis". Para perceber o que se passou entre o romantismo e o realismo, o conceito moderno de intelectual e de compromisso politico terá que se ler também as páginas que Eça dedicou ao autor e culminar no Jean Barois. Tudo isto é datado mas faz parte de uma velha questão em que a França desempenhou um papel fundamental: o compromisso do intelectual moderno.
Claro que a história teria de continuar: com Anatole France, Aragon, Éluard, Sartre e até Foucault. Seria apenas um breve capítulo de uma longuíssima tese sobre os intelectuais e a modernidade. Como todos sabem, haveria um excelente capítulo dedicado a Portugal.
JC

segunda-feira, maio 22, 2006

Victor Hugo 1 Revolução Francesa (1789)

Eugène DELACROIX - Le 28 Juillet : La Liberté guidant le people -(Charenton-Saint-Maurice, 1798 - Paris, 1863.
1989. São publicados em Portugal os cinco volumes da História da Vida Privada sob direcção de P. Ariès e G. Dubois. No IV volume, “Da Revolução Francesa à Grande Guerra”, podemos, a páginas tantas, ler o que Linn Hunt compilou acerca da Revolução no que à participação das mulheres na vida pública diz respeito:

”Como dizia Chaumette: “Desde quando se usa ver a mulher abandonar os cuidados devotos do seu lar, o berço dos seus filhos, para vir para a praça pública pôr-se na tribuna das arengas?”. As mulheres eram consideradas como a representação do privado, e a sua participação activa enquanto mulheres na praça pública era rejeitada praticamente por todos os homens”.

É em nome de uma “ordem natural” das coisas que a participação pública das mulheres nos clubes que tinham criado para se reunirem, discutindo os assuntos públicos, passa a ser proibida e os clubes são encerrados, e é em nome de uma politização extrema da vida privada por parte do Estado, que ao mesmo tempo se relega as mulheres para um espaço hiper privado dentro das suas casas. Quanto à questão de fraternidade e igualdade cívica entre os indivíduos, insígnias da Revolução, e no que a uma diferença entre os sexos dizia respeito, ficávamos falados por bem mais de um século.

Não que Edmund Burke (Reflections on the Revolution in France) tivesse razão na sua diatribe contra a Revolução, bom, não quanto às consequências que ele antevia serem catastróficas para a humanidade, que foram devidamente enquadradas como uma reacção apelando ao argumento do “perigo eminente”, como Thomas Paine (The Rights of Man) logo o verificou. Nem, ainda, quanto às profecias que fez para a Inglaterra, que dizia a salvo dessas ideias revolucionárias, desacreditando a Constituição francesa, ou até para a França (que descreveu como a causa para a “extinção da glória da Europa”, indeterminadamente imersa em conflitos intermináveis). Mas uma coisa se pode dizer da revolução de 1789, ela só se cumpriu muitas décadas depois, e entretanto milhares de seres humanos pagaram com a vida as contradições totalitárias vividas pelos homens do poder no momento. Atente-se no entusiasmo com que a bandeira é empunhada pela “Liberdade” e que anuncia “Sigam-me: Ou comigo ou a morte!”. Mas que entusiasmo pode ser aquele que calca a seus pés os corpos de indivíduos de quem nem sabemos o nome ou a vontade ou o conhecimento sobre o seu destino na história, que devia ser, em primeiro lugar, a vontade ou o conhecimento acerca do seu destino pessoal?

Victor Hugo (1802-1885). A biografia que li é de Max Gallo, numa tradução para a Europa-América, por J. Espadeiro Martins.

Victor Hugo, filho de um homem que é general do exército imperial, que combate portanto pela imposição das ideias revolucionárias e do poder francês na Europa, nas fileiras de Napoleão Bonaparte, e de uma mulher, Sophie, que renega a revolução e apoia convictamente a monarquia na pessoa de Luís XVIII, procurará toda sua vida, no largo espectro dos seus sentimentos e inteligência, obedecer à seguinte divisa:”os homens de elevado mérito devem compreender-se e estimar-se, mesmo que se oponham quanto às suas doutrinas.” (p.211). Não há um único momento da sua história pessoal, ele que assistiu às mais violentas erupções da revolução na conturbada França do início do século XIX, que não tenha presente esta ideia. Sem medo pela assunção de ideias perturbadores para a maioria, mas sem entender nunca quer a arrogância dos poderosos no mundo, quer o consequente menosprezo pela diferença de opiniões ou de acções.

Guerra ideológica

Há pouco, na RTP 2, no programa "Diga lá Excelência", uma jornalista interpelava o General Loureiro dos Santos acerca do terrorismo muçulmano, nomeadamente acerca dos operacionais ingleses, nascidos e criados no país e na sociedade contra a qual depois se antagonizam, atacando-a. Queria saber a jornalista se este terrorismo não era particularmente insidioso por resultar da acção de jovens nascidos e criados em Inglaterra, aparentemente herdeiros das prerrogativas sociais e cívicas do país de origem. Mas que admiração há com "este" tipo de terrorismo? Há alguma diferença entre a a acção destes jovens ingleses que matam e morrem em nome de uma ideologia fortemente anti-ocidental, e a acção dos jovens italianos ou alemães que, na década de setenta e oitenta, matavam e morriam por uma ideologia fortemente crítica dos valores predominantes na sua sociedade?
Como disse o General, é uma guerra ideológica que se trava com os terroristas. Quaisquer que sejam as teses que adoptam e que potenciam as suas acções, ontem ou hoje, porque têm em comum a afirmação, e a crença, de que a melhor defesa das suas ideias só poderá ser pela via da violência.

Acção social

Para encontrar uma síntese no que se deseja uma "filodemocracia", e encontrar argumentos que não invalidem a discussão pública, Hirschman parte da oposição dos dois juízos relativamente à acção social:

Juízos dos que defendem teses reaccionárias:
"A acção pretendida terá consequências desastrosas"
"A nova reforma porá em perigo a precedente."
"A acção pretendida tem por finalidade modificar as estruturas permanentes (ou leis) da ordem social, logo será de todo em vão e inoperante a sua aplicação."

Juízos dos que defendem teses progressistas:
"Renunciar à acção pretendida terá consequências desastrosas."
"A nova reforma e a antiga reforçar-se-ão mutuamente."
"A acção pretendida assenta em poderosas forças históricas que já estão em movimento, o que torna vã toda a acção que se lhe opõe". (p.167 RR)

Para os teóricos, mas ainda mais para os decisores democráticos, há esta tarefa de encontrar o ponto de equilíbrio entre teses. Todos terão que procurar usar de toda a lucidez para o saber distinguir.

sexta-feira, maio 19, 2006

Estado de providência 3 – argumento do pôr em perigo

Sir John Everett Millais. A Dream of the Past -1857The Nightmare. Frederick Sandys -1857


Argumento do pôr em perigo: argumento utilizado contra todas as novas reformas, no sentido em que por este se defende que os custos da adesão a uma nova ideia, programa ou acção, poderão ser, em muito, superiores aos benefícios. A mudança ou transformação de um determinado estado de coisas é entendido como ameaçador da ordem que já se conseguiu conquistar.

Em Inglaterra, as conquistas nas dimensões civis, políticas e sócio-económicas deram-se historicamente de forma continuada e sequencial (como T.H. Marshall esquematizou), daí que seja evidente a utilização deste argumento, de forma também sequenciada no tempo, tal como Hirschman o identificou: crítica ao programa da democracia, pelo que ele poria em perigo a liberdade individual, e crítica ao Estado de providência pelo que ele poria em perigo a liberdade, ou a democracia, ou as duas. Este argumento assenta no pressuposto de que todos os progressos que vêm de novo porão em risco de desaparecimento, ou suspensão, os progressos antigos.

Em Portugal, e no contexto de uma tradição cultural e literária deixada pela simbologia Camoniana, este argumento poderia ser entendido como o da “voz do velho do Restelo”. Não se deve tomar as conquistas antigas como garantidas quando se avança para a obtenção de novas formas de vida, estas poderão fazer perigar o que anteriormente já se conseguiu obter, e fazer-nos retroceder no tempo, poderia dizer o “velho do Restelo” aos nossos reformadores.

O argumento de Keynes a favor de uma maior intervenção estatal na economia, como resposta à crise económica vivida em Inglaterra no anos 30 do século passado, é fortemente contestado por F. Hayec, que em 1944 escreve o seu Road to Serfdom, procurando defender a tese de que a interferência do governo como regulador do “mercado” levaria à destruição da liberdade. Não que ele não defenda a necessidade de toda a gente poder contar com um mínimo para a sua subsistência, não, até porque a Inglaterra pós Primeira Grande Guerra manifestava fortes vínculos de solidariedade social e não o compreenderia se ele dissesse o contrário. A sua crítica ao Estado de providência é de outra ordem, revela-se contra o tipo de economia planificada a que um Estado assistencial teria que obedecer para assegurar a segurança a determinados grupos sociais. Hayec temia que o valor da segurança social prevalecesse sobre o valor da liberdade individual. O seu argumento justifica-se pelo raciocínio que continha 4 passos: 1. O acordo geral só é obtido relativamente a um número reduzido de temas; 2. para ser democrático, um governo tem que ser consensual; 3. como as pessoas têm um limitado número de tarefas às quais dão o seu acordo, o Estado democrático tem que confinar-se a esse número de tarefas; 4. quando o Estado procura exceder as suas funções nesses temas que são particularmente passíveis de ser alcançados por consenso, só o poderá fazer por coação, obrigando os seus cidadãos a aceitar o que não estavam preparados para fazer, sendo assim destruída a democracia e a liberdade.

Nos anos 60, com o seu The Constitution of Liberty, Hayec reforça a sua crítica, e rebela-se contra a concepção de economias planificadas de acordo com uma noção de justiça social que o autor considera ser particular a uma ideologia, e que não é extensível à forma de agir e pensar de toda a comunidade, pese embora esteja a ganhar uma adesão formidável junto da opinião pública mundial, com a adopção generalizada nos países ocidentais, de uma legislação marcada pela agenda do social. Facto este que o autor considera como forte indício de submissão acrítica dos indivíduos a uma ideia socialista da partilha dos rendimentos, que poria em perigo a sua liberdade de acção individual na escolha da sua forma de vida na sociedade.

Mas a crítica generaliza-se quando a popularidade às políticas do Estado de providência começa a baixar, por motivos de crise económica e social no fim dos anos sessenta. A guerra do Vietname, o choque petrolífero, as revoltas estudantis, são acontecimentos que vêm introduzir perturbações no sistema económico e no político, e o argumento do pôr em perigo surge com uma nova roupagem: o Estado social terá cavalgado o sucesso económico do período pós Segunda Grande Guerra, e terá deixado exangue o sistema económico. Qual moscardo no dorso do jumento, era agora necessário enxotar as amplas garantias do sistema de segurança social para renovar as forças da economia, pensam as forças mais conservadoras da direita; qual amiba sem manifestar intenções de pôr a nu as contradições e os limites do sistema económico provido pelo capitalismo, pensam as forças mais reformadoras da esquerda.

De ambos os lados do espectro político surgem as críticas ao Estado de providência. E a crise do capitalismo é explorada tanto pela esquerda, que põe a nu as contradições entre as duas funções do Estado moderno, a “acumuladora” e a “legitimadora”. A primeira que se desenvolve na esfera das relações capitalistas, a segunda que se manifesta pelas relações de assistência social que conseguir garantir junto da comunidade (primeiras obras de O`Connor e J. Habermas). Como é explorada pela direita, que evoca que a função legitimadora põe em risco a saúde da economia, da “acumuladora”, levando a uma crise que põe em jogo a própria democracia.

Mal chegados nós à nossa democracia, e num particularmente controverso ano na história da política portuguesa, é publicado em 1975 o relatório de especialistas na análise da crise política generalizada no mundo ocidental, da comissão trilateral formada por membros da Europa ocidental, do Japão e dos E.U.A , sob o título “The crisis of Democracy”. Deste documento destaca-se a opinião de S. Huntington, um americano que sublinha que o estado de crise das democracias se deve à falta de autoridade do Estado, e daí a crise no governos, que ao terem expandido as suas funções para campos cuja complexidade social excede a das suas competências, conhecimentos ou poderes, expõe a comunidade ao sentimento de insegurança social, policial e militar, que tem por efeito a degradação dos sistemas que já se tinham alcançado, provocando o declínio na concepção do que é uma boa acção política.

Hirschman termina por dizer que afinal os países que eram ditos como à beira do desgoverno total nos anos setenta, continuam hoje a ser referenciados como países com os mais elevados índices de qualidade de vida, a procurarem o aprofundamento das liberdades civis e políticas, a tentarem garantir meios de subsistência a todos os cidadãos.
Que as críticas ao sistema continuam, e, obviamente, são fundamentais para as necessárias reformulações ou transformações, não há dúvida. Mas há que ter cuidado com essas profecias acerca do que o que ganhamos com qualquer nova aplicação tecnológica, ou social ou política, que acrescenta mais direitos ou mais conhecimentos, é sempre de menor grau do que aquilo que temos a perder, porque:
1. The prophecies turn out to be absolutely correct – except for the occasions when they are not.
2. As the frequency with which such statements are made is considerable in excess of what occurs “in nature”, there must be some inherent intellectual attraction in advancing them.”
(p. 122, RR)
Qualquer reforma social poderá ser entendida como algo do género, “ceci tuera cela”, “isto mata aquilo”, como nos diz Hirschman, que visualiza como o único argumento avançado por todos os que ao analisarem sucessivas reformas no tempo, consideram sempre as últimas como as mais perniciosas. Mas também poderá ser entendida como, utilizando o argumento do apoio mútuo ou da complementaridade, já que uma “reforma ou instituição já estabelecida do tipo A pode ser reforçada , ao invés de enfraquecida, por um projecto de reforma ou de instituição do tipo B; sendo B actualizado para dar robustez e sentido a A; sendo B necessário como complemento de A” (p.124, RR)

Na realidade, quando B surgiu (tomando por B o Estado de providência) o que se procurava com ele era salvar o sistema capitalista dos seus excessos que o estavam a condenar (o desemprego, a emigração de massas, a desagregação das comunidades rurais, dos grupos familiares), por um lado, e, por outro, promover a educação geral e a capacidade financeira de todos os que tinham direito a votar, para que nem o sistema ficasse refém da sua incompetência na acção política, nem eles reféns de políticas que não servissem interesses gerais. Com B procurou-se complementar as reformas de A (liberdades e sufrágio universal) anteriormente conquistadas.

quarta-feira, maio 17, 2006

Estado de providência 2 – argumento da inanidade (ou futilidade)

Poverty and Wealth by William Powell Frith, RA. Signed and dated 1888 at lower left.
Argumento de inanidade: qualquer tentativa de modificar a ordem social não passa de perseguição de uma ilusão, já que, na realidade, a estrutura “profunda” da ordem social permanece imutável, independentemente das modificações superficiais que sofrer e independentemente das pressões nela exercidas para a transformar.

Como nos diz Hirschman, este argumento da inanidade é apresentado epigraficamente pela expressão francesa do pós 1789 “Plus ça change plus c`est la même chose”e artisticamente bem representado no livro O Leopardo de Giuseppe di Lampedusa.

No O Leopardo, Dom Fabrizio ou o príncipe Salina, conversa com o seu jovem sobrinho Tancredi que, quando se inicia o romance, está preparar-se para sair da villa Salina, em Palermo, e ir combater com as forças de Garibaldi, pela causa da reunificação da Itália. Corria o ano de 1860 e, no Reino das Duas Sicílias, os liberais, seguidores do republicano Mazzini, e os absolutistas, fiéis seguidores do rei, confrontavam-se. O tio Salina admoesta Tancredi dizendo-lhe: “Um Falconeri deve estar connosco, ao lado do rei.” Ao que o rapaz responde: “Ao lado do Rei, sim, mas de que Rei? E continua “Se não estivermos com eles, impingem-nos uma república.” Para concluir com as famosas palavras ”Se querermos que tudo continue como está, é preciso mudar tudo. Percebeste?”
E o aristocrata tio vai percebendo, ao longo do romance, que a morte de alguns jovens de ambas as facções é o preço a pagar para que a ordem social se volte a acomodar após aquele “estremecimento” que implicou, é certo, alguma movimentação social, com a ascensão de alguns burgueses ao poder, mas mantendo-se a estrutura de sempre. Pensa o príncipe.

Este paradoxo foi adoptado imediatamente por reformistas e por conservadores, quer os que manifestam desânimo pela inutilidade dos esforços aplicados para alterar um determinado estado de coisas na vida social e política, quer pelos que manifestam agrado pela manutenção de um estabelecido status quo, faça-se o que se fizer para o alterar.
Este argumento é insidioso, pelo que tem de instigador à inacção. Assim como assim, se nada muda na ordem social o melhor é poupar esforços e dedicar-me a outras actividades, e não pensar mais em reformas, industria-nos o argumento.

No que diz respeito ao tema Estado de Providência, o argumento de inanidade é profusamente utilizado por todos os que alegam que os recursos da assistência social não estão verdadeiramente a ser guiados para minorar a situação social dos pobres, mas a ser desviados para a classe que já possui mais recursos materiais, académicos e outros, já que esta ocupa o poder, e está na posse dos verdadeiros esquemas para atribuir a seu favor a ajuda destinada aos mais desvalidos, ficando estes na mesma situação de miséria como antes.

Diz-nos Hirschman que, em 1970, o economista Georg Stigler, num artigo enigmático intitulado “Director`s Law of Public Income” (“A lei de Director sobre a redistribuição dos dinheiros públicos”), alega que o seu colega universitário, de nome Director, terá concluído que as despesas publicas estão sobretudo ao serviço da classe média e não dos pobres, sendo que as taxas pagas por ricos e pobres eram orientadas sobretudo para financiar as acções a favor da classe média, como com a educação, com a saúde, com as reformas, etc. Stigler vai mais longe que Director, ele afiança que a proveniência fiscal desse dinheiro é sobretudo assente na transferência do que os mais pobres são obrigados a pagar, a favor da classe média que detém o poder e que selecciona o sistema fiscal que mais lhe convém, manobrando de forma a manter longe do sistema político os pobres, para que estes não tomem decisões que os favoreçam. Dá como exemplo o ensino universitário público na Califórnia que favorece sobretudo os filhos da classe média e alta, ou o pagamento das forças policiais que protegem sobretudo a propriedade dos que a possuem.
Dos marxistas aos conservadores foi utilizado este mesmo argumento. Já que o que se ataca de um lado ou do outro é a ideia que defende a possibilidade de reformar o sistema capitalista, de molde a que este inclua uma vertente mais solidária e com um maior cuidado na redistribuição dos dinheiros pela sociedade, através de regulações das actividades económicas ou sociais.
Mais à esquerda, o Estado de providência é atacado porque se continua a temer os interesses ocultos do Estado burguês, sobre o qual se diz não favorecer nunca os pobres, sendo que os seus programas sociais só servem para travar o avanço da verdadeira revolução social que poria em ordem os abusos e as pilhagens do Estado capitalista.
Mais à direita ataca-se o estado social porque se acredita que o sistema capitalista tem a possibilidade de auto-equilibrar-se, sendo que quaisquer tentativas exteriores introduzidas para o regular não terão realmente êxito e só contribuirão para confundir e atrapalhar a ordem social. Isso mesmo foi avançado por autores que procuravam provar que o pagamento de subsídios de desemprego, por exemplo, eram motivadores do aumento de desempregados não entre os mais desfavorecidos, mas entre os indivíduos da classe média (argumento do efeito perverso) que dele beneficiavam maioritariamente por melhor dominarem as regras da assistência social (argumento da inanidade), já que os mais pobres não teriam tido acesso a empregos cujos patrões os tivessem inscrito de forma legal no sistema social, podendo posteriormente usufruir desse direito.

No argumento da inanidade, os críticos do Estado de providência parecem pôr-se do lado dos desfavorecidos, contra os parasitas do sistema, sem deixarem de procurar minar os fundamentos do Estado social. Porém, este argumento é cada vez mais encarado como tendo um papel de “desconcentração” na discussão pública do tema. E isso porque os governos têm procurado tornar mais rigorosa a selecção dos indivíduos a quem deve ser atribuída a assistência pública, de modo a evitar que pessoas que verdadeiramente não necessitam desse apoio entrem no sistema.

Por outro lado, pretender que nenhuma lei poderá afectar a acção humana porque só na aparência esta é passível de ser modificada, traduz não só o reforço de uma atitude desmoralizadora relativamente à hipótese de ser possível proceder a uma melhor distribuição da riqueza e do poder, como ao mesmo tempo põe exclusivamente em evidência a ideia de que o poder é de natureza hipócrita, porque agrava
quotidianamente o fosso entre a teoria (distribuição crescente e continua da riqueza) e a prática (manutenção do estado de coisas tal como se passam há séculos).

Porém, o Estado de providência é ainda historicamente muito recente para se poder chegar a conclusões definitivas como o desejam os que defendem o argumento da inanidade, e depois, como acrescenta ainda Hirschman, o uso deste argumento implicaria a própria inanidade na acção de quem o profere. Se o sistema se auto regula per si, como dizem os conservadores, então nada do que façamos alterará essa ordem, mesmo os artigos ou acções que subscrevem. Se a revolução esperada não chegar, como dizem os marxistas, foi porque as reformas no sistema capitalista aparentemente satisfizeram as pessoas que não a procuram realizar no “amanhã que há-de vir”.

” (…) the appropriate metaphor (…) in that case the Nessus tunic of antiquity, which burns him who puts it on. In fact, through their denunciations of the gulf between announced policy objectives and reality, our conservative or radical critics are themselves busily weaving just such a garment.” (p. 80, RR)

terça-feira, maio 16, 2006

Estado de providência 1 – Tese do efeito perverso


Applicants to a Casual Ward by Sir Samuel Luke Fildes, R. A. (1844-1927).


Argumento do efeito perverso: Qualquer tentativa para direccionar a acção social num determinado sentido faz realmente com que o movimento se dê, mas em direcção oposta (“the attempt to push society in a certain direction will result in its moving all right, but in the opposite direction”, p. 11 do livro Rhetoric of Reaction de Hirschman).

Hirschman diz-nos que este argumento foi utilizado pela primeira vez no campo económico quando, em1795, as Poor Law inglesas são reforçadas com a lei Speenhamland. Estas leis visavam regular o mercado de trabalho de forma a minorar a miséria dos assalariados, sobretudo na agricultura, propondo um sistema complementar de salário sob a forma de “oferta” de alojamento.
O sistema permitiu que durante as guerras napoleónicas a Inglaterra produzisse os bens alimentares necessários à nação, mantendo concomitantemente, a paz social. Mas passado este período de guerra, um conjunto de autores começa a criticar violentamente estas leis, e em 1834, sob a influência de Malthus e Bentham , adopta-se um Poor Law Amendement Act. Estas leis, fortemente restritivas dos direitos adquiridos anteriormente, tiveram também o efeito de vir a criminalizar a mendicidade, sendo criadas para o efeito as WorkHouses, onde se detinham todos os indivíduos que não tinham formas de subsistir sem assistência.
As leis visavam dissuadir os pobres de recorrerem à assistência pública, porque se julgava que as Poor Law tinham contribuído, como efeito não previsto, para a transformação da mendicidade numa profissão, e dos vícios num valor social retributivo. Isto é, teria beneficiado a preguiça e a má-fé dos indivíduos, premiando a falta de iniciativa.

As consequências sociais deste Amendement Act foram de tal ordem gravosas para a ordem social, com a miséria profunda que se generalizou ao conjunto de trabalhadores agrícolas e fabris, que durante muito tempo as vozes que atribuíam efeitos perversos à assistência social se calaram, por falta de crédito.
Hirschman chama a atenção para a importância da intervenção de políticos como Disraeli, que, apesar da sua linha conservadora, adopta uma posição crítica relativamente ao Amendement Act, dizendo-o como um conjunto de leis do que mais envergonhava o Reino Unido, e de escritores como C. Dickens que, com o seu romance Oliver Twist, fez mais pelo combate contra as leis de repressão dos pobres e pela extinção do estigma da pobreza, junto da opinião pública, que todos os políticos juntos.
O Estado-Providência foi ganhando forma em Inglaterra no fim do século XVIII princípio do século XIX.
Será nos EUA que vão surgir novamente os argumentos do “efeito perverso” da política social, especialmente num livro publicado em 1985 por Charles Murray, o Losing Ground. A este autor juntam-se todos aqueles que enfatizam, mais uma vez, que “qualquer tentativa para melhorar a ordem social só tem como consequência torná-la pior”. Evocando o crescente estado de crise da economia social no mundo ocidental, estes autores tentam assim comprovar que os sistemas sociais são múltiplos e complexos, não passíveis de serem manipulados ou transformados segundo nenhuma ideologia ou acção económica ou social, já que eles registam uma evolução/movimento próprio sobre o qual qualquer intervenção externa só irá fazer mais mal que bem.

O que Hirschman irá procurar dizer é que esta concepção de efeito perverso assenta num preconceito intelectual enraizado, mas cujas bases de sustentação são frágeis, já que há tantos exemplos perversos de resultados não desejados e não previstos da acção humana, como resultados felizes. Dá como exemplo, um entre muitos, o efeito produzido pela lei que defendia a generalização do ensino obrigatório público que trouxe para o mundo do trabalho, com excelente formação, as mulheres, retirando-as de uma vida privada pouco esclarecida e pouco activa social e civicamente.
O autor sublinha o facto de toda a acção social deliberada ter que contar com dois possíveis tipos de efeitos: os perversos e os benéficos. É na procura deste equilíbrio que os políticos têm que ponderar muito bem acerca das suas medidas sociais e económicas, com responsabilidade e de acordo com um processo de deliberação que está integrado num processo de aprendizagem da história.
Ora como qualquer decisão comporta a avaliação dos factores que estão em jogo, no quadro de um processo de selecção que tem uma história, a aprendizagem com os erros do passado, ou com o dos outros Estados, ajuda a eliminar os riscos de efeitos perversos.
Hirschman termina este capítulo dizendo o seguinte: “Almost two and a half centuries ago, Voltaire wrote his celebrated novel Candide to mock the proposition that ours is the “best of all possible worlds”. Since then, we have been thoroughly indoctrinated in the power and ubiquity of the perverse effect in the social universe. Perhaps it is time for an Anti-Candide to insinuate that ours is not the most perverse of all possible worlds, either.” (p.42)

domingo, maio 14, 2006

Ordem social

Do Brasil chega-nos uma pergunta: O que fazemos quando as regras do jogo social são ultrapassadas com esta violência? Utilizamos que discurso quando se avalia, em confrontos nas ruas, a distribuição de poder entre as forças e as regras do Estado e as regras e a força de grupos criminosos?

sexta-feira, maio 12, 2006

filósofos 3

Manuel Maria Carrilho publicou ontem o seu livro "Sob o Signo da Verdade". Ainda não o li. O que é obviamente uma limitação ao meu comentário.
Ouvi a sua entrevista na RTP 1 conduzida por Judite de Sousa. Pensei três coisas: 1. É óptimo que se publique em Portugal as experiências das pessoas que participam directamente na vida política, social ou académica. É uma actividade que nos países anglo-saxónicos e em França é frequente e que pode contribuir, declaradamente, para uma discussão alargada das questões implicadas. É, pelo menos, uma diferença salutar em relação ao generalizado hábito de falarmos mal nas costas uns dos outros. 2. Fica bem a um filósofo que se preocupe com a questão da verdade. Mas, conhecendo o percurso filosófico de Carrilho, não estava à espera de uma asserção como: "Eis-me, aqui está a minha pessoa "sob o signo da verdade". Sempre me pareceu que devido à sua filiação intelectual tenderia a defender algo do género "eis a minha perspectiva da verdade". Mas pronto, registo o facto do filósofo aceitar que afinal se pode falar de "verdade" sem termos que proceder a uma relativização da mesma. Do meu ponto de vista é muito importante que os filósofos reconheçam que há estados de coisas verdadeiros, e estados de coisas falsos. 3. Passaremos a ter um exemplo prático para apresentar nas nossas aulas de "comunicação e política" sobre o poder dos media na selecção/agenda dos políticos, ou estaremos no universo de estudos da área do "infoentretenimento"? Só saberei depois de ler o livro.