terça-feira, outubro 31, 2006

Realismo político/idealismo político

“(…) Muitos europeus afirmam que são eles, e não os americanos, os verdadeiros defensores dos valores liberais universais, porque acreditam nesses valores independentemente da sua concretização em Estados-nação democráticos realmente existentes. As decisões tomadas por democracias liberais soberanas podem ser correctas nos seus processos sem que isso conceda a garantia de que são justas ou estão de acordo com esses princípios superiores. As maiorias democráticas podem decidir fazer coisas terríveis a outros países e podem violar os direitos humanos e as normas de decência nas quais se baseia a sua própria ordem democrática. Na verdade, os debates Lincoln-Douglas versaram precisamente sobre esta questão. Douglas afirmava ser-lhe indiferente se o voto popular era a favor ou contra a escravatura, desde que a decisão reflectisse a vontade do povo. Lincoln, pelo contrário, considerou que a escravatura viola em si mesma o princípio superior da igualdade humana no qual se baseia o regime americano. A legitimidade das acções de uma democracia não se funda, afinal, na correcção de procedimentos democráticos, mas sim nos direitos e normas prévios, provenientes de um domínio moral superior ao da ordem legal.”p. 122
A legitimidade das acções de uma democracia não se funda , afinal, na correcção de procedimentos democráticos, mas sim nos direitos e normas prévios, provenientes de um domínio moral superior ao da ordem legal. Acrescento eu.

segunda-feira, outubro 30, 2006

Maria Filomena Mónica e Miguel Sousa Tavares.



Salvador Dali, "Metamorfoses de Narciso",

1937.





Conheci Filomena Mónica e Sousa Tavares nas páginas do “Público”. Foi pelos artigos de opinião que escreveram durante anos neste jornal que aprendi a valorizar o pensamento, o humor e a ironia que cada um a seu jeito desenvolve.
Quando saiu a Biografia de Eça de Queirós de Filomena Mónica comprei e apreciei o livro. Quando editou o seu Bilhete de Identidade comprei e ri-me imenso com as reacções machistas de alguns leitores, eu que apreciei o estilo e a ousadia de escrever assim tão bem sobre si e sobre os seus, que me regozijei pelo mérito de uma mulher falar de sexo e de homens como as mulheres falam e se interessam e raramente têm coragem em Portugal de o dizer, sem por isso ficar a gostar mais da pessoa. Diria até que pelo contrário. Da qual aliás não tenho que gostar ou deixar de gostar.
Quando Sousa Tavares publicou o Equador, li e gostei bastante do livro, como se gosta dos livros de uma autora como Mary Renault ou de um escritor como Thomas Wolf. E eu gosto de ambos. Os livros são interessantes, lêem-se muito bem e não deixam de ser inteligentes.

Lembro-me de comentar com amigos mais críticos que tomara Portugal ter uma dúzia de Sousa Tavares a escrever livros com a qualidade deste. Que é uma literatura que cativa e que arrasta para a leitura os que andam em transportes públicos, como nos países que demonstram maor índice de leitura, pela sedução da história e da escrita que não exige excesso de concentração mas um interesse ou uma curiosidade que prende suficientemente ao livro.

Eu li o livro de uma assentada. Diverti-me e aprendi umas coisas, sem por isso ficar a gostar mais da pessoa que o escreveu. Da qual aliás não tenho que gostar ou deixar de gostar.

Mas, dito isto, os autores conseguiram surpreender-me pela negativa este fim-de-semana. Filomena Mónica no programa da RTP 2, “Câmara Clara”, na sexta-feira à noite, e Sousa Tavares no seu artigo de opinião semanal no Expresso.
A primeira porque fala com algum espírito sobre os portugueses, mas, vimos a descobrir, serem os portugueses, afinal, aqueles portugueses que com a senhora se cruzam nos corredores da academia ou nas ruas por onde circula, já que ficamos a saber que detesta sair de casa e não vai ao Porto há que séculos porque fica muito longe! Que portugueses conhece Filomena Mónica, então? Afinal, que universo de amostra tem a autora para vir a perorar tão absolutamente sobre o carácter português?

Sousa Tavares a propósito de uma história de um plágio que não o é ou nunca o foi ou é-o de uma forma explicável, sei lá, atenta contra a blogoesfera, com o direito que lhe assiste, claro, começando por dizer que nada conhece sobre ela, nem tem interesse em conhecer, mas sem que tal desconhecimento o impeça de ir desfiando um rosário de lugares comuns sobre o meio e sobre as pessoas. Com certeza que sabe este jornalista o que diziam os escritores e outros intelectuais portugueses quando se começaram a editar jornais em Portugal? Nem um deles queria escrever para tão desprestigiado e malfadado meio, ao contrário do que se passava por exemplo em Inglaterra. E isso até ao século XIX. E no entanto hoje parece ser o meio por excelência que separa os ignaros escribas da nação dos excelsos e bravos moços do pensamento e da palavra pública.
Afinal, que universo de amostra tem o autor para vir perorar tão absolutamente sobre o carácter da blogosfera?

sexta-feira, outubro 27, 2006

Mudam-se os tempo mudam-se os nomes. O Ministério da Educação e a sua fanfarra

Hoje diz o ME que vai ser obrigatório ter mestrado para se iniciar a carreira de professor. Muito bem.
Segundo o processo de Bolonha será entáo preciso uma licenciatura de 3 anos mais um mestrado de ano e meio a dois anos. O que perfaz no total 4,5 a 5 anos de aprendizagem. Muito bem.

Há quinze anos atrás para se iniciar a carreira de professor do Secundário, com a ideia de um dia conseguir o vinculo à famigerada função pública, era obrigatório possuir uma licenciatura de 4 anos, e uma pós-graduação científica-pedagógica de 2 anos, sendo que o acesso a este segundo ano comportava um "numerus clausus" havendo quem não acedesse, pelas classificações, ao contingente dos que estavam a iniciar então o estágio. Logo, estava-se 6 anos em formação. Vê-se a diferença? Mudou o nome e ... encurtou-se a formação. Mas ficamos todos a saber que agora sim, é que o ensino vai melhorar, pois se vêm aí os mestres! Agora é que vais ser exigência e rigor.

Agora enche-se a boca com o mestrado, tal como o ex Presidente Jorge Sampaio fascinado com uma visita qualquer a umas escolas do Norte da Europa enchia a boca com os mestrados dos "aqueles é que são bons professores". É ridículo. Tão ridículo quanto um actor em "overacting" que é o que este Ministério me está a parecer. Se nos mexermos muito, e todos os dias apresentarmos ideias antigas com nomes novos, pode ser que alguma coisa mude.
Não nos enganem, por favor.

administração pública e as normas sociais e profissionais

"O esforço para ser mais "científico" do que permite o objecto de estudo tem custos reais no facto de tornar cegos para as complexidades reais da administração pública tal como é praticada em sociedades diferentes."
p. 100

"As administrações públicas nos países em desenvolvimento estão contaminadas por compadrios e corrupção, e limpá-las, mediante a implementação de sistemas de serviços públicos "modernos", tem sido um objectivo central da reforma das instituições." p. 95

"No mundo desenvolvido, as administrações públicas "modernas" ostentam variações consideráveis na forma como recrutam, formam, promovem e disciplinam os funcionários. Os sistemas de "mandarins" que existe no Japão e em França são muito diferentes da abordagem feita pelos EUA e permitem aos sistemas francês e japonês envolver-se em actividades que dificilmente seriam levadas a cabo nos EUA. A incapacidade de notar estas diferenças conduziu no passado a importantes fracassos políticos." p.95
"As organizações criam e promovem normas por meio de socialização e treino, mas as normas também se derramam a partir da sociedade envolvente", p.92

"(...) as áreas mais difíceis de reformar são as actividades de baixa especificidade com altos volumes de transicção, como a educação ou o direito.
Não há nenhum sistema legal no mundo que possa ser "reparado" por dez tecnocratas, por mais brilhantes que sejam." p. 94

Fukuyama


E não há sistema de educação nenhum do mundo que seja "reparado" por dez tecnocrtas por mais brilhantes que eles sejam. Acrescento eu. O que é preciso? Pessoas que ao invés de só saberem analisar números, saibam que realidade estão a querer transformar, e cativar os agentes responsáveis por operarem essa transformação a compreenderem a necessidade, e a pertinência, se a houver, dessas reformas. Talvez os interesses desses agentes se confunda com os interesses públicos e não sejam exclusivamente egoístas. Há que conhecer a realidade. Estar envolvido nela e não se pôr a ditar regulamentos ancrónicos que só irão saturar a acção livre ensino-aprendizagem com mecanismos de controlo absolutamente burocratizados, inúteis e irrelevantes para as avaliações do sistema.

realismo/idealismo na análise social

Gostei muito deste artigo de Nuno Rogeiro no JN. Idealista quanto baste.

quinta-feira, outubro 26, 2006

Questões morais e normativas no funcionamento das instituições que materializam o poder do Estado

“Há quatro poderes do Estado, encadeados entre si, que é preciso tratar: 1) concepção e gestão organizacional, 2) concepção do sistema político, 3) base de legitimação, e 4) factores culturais e estruturais.” P. 36

“O grau de poder discricionário que uma organização concede a uma divisão subordinada, a uma filial, uma repartição ou um indivíduo está entre as decisões mais importantes a ser tomadas a nível da concepção institucional”. P. 83.

“É seguro afirmar que relativamente poucos economistas gastaram tempo a escrever, à maneira de Schein (1988), sobre o papel da liderança nas organizações, sobre como são treinados os líderes, e como comunicam com os trabalhadores e os inspiram. Uma excepção a esta regra é Gary Miller, que no seu livro Managerial Dilemmas (1992, 217) conclui que os líderes “modelam as expectativas dos subordinados sobre a cooperação entre empregados e entre empregados e superiores herárquicos. Isto é feito por meio de um conjunto de actividades que tradicionalmente têm estado no campo da política, e não no da economia: comunicação, estímulo e assumir de posições simbólicas”. Miller estava, infelizmente, a reinventar uma roda que tinha rodado pela primeira vez há mais de cinquenta anos. Tal é a natureza do progresso nas ciências sociais.” P. 89 Fukuyama


A saber: Quais são as questões morais e normativas que estruturam os nossos poderes em Portugal? Quem sabe responder acerca dos valores que os líderes portugueses defendem e através dos quais condicionam as práticas dos seus subordinados/pares? Como se processa o ritual de iniciação nas organizações/instituições de poder, e que tipo de subordinação e condicionamento no comportamento mais crítico, essa aceitação/reconhecimento implicará? Que normas/acção estamos a perpetuar? Quem? Como são treinados os líderes em Portugal? A família, sistema de educação, igreja, partidos políticos, organizações e associações culturais, civis e políticas de várias ordens. Quem condiciona a socialização portuguesa no início do século XXI?

Pelos menos em palavras os Estados sabem.


"Over the past 10 years, we have made some big steps forward in our common struggle for development, security and human rights.
Aid and debt relief have increased, making the world economy somewhat fairer.
At last, the world is scaling up its response to HIV/AIDS.
There are fewer wars between States than there used to be; and many civil wars have ended.
More Governments are elected by, and accountable to, the people whom they govern.
And all States have acknowledged, at least in words, their responsibility to protect people from genocide, war crimes, ethnic cleansing and crimes against humanity.
But, there is so much that still needs doing:
The gap between rich and poor continues to grow.
Very few countries are on track to reach all eight of the Millennium Development Goals by 2015.
Many people still face atrocities, repression and brutal conflicts.
The nuclear non-proliferation regime requires urgent attention.
Terrorism, and the reaction to it, are spreading fear and suspicion.
It seems we don't even agree which threats are most important. Those who live in small islands may see global warming as the biggest danger. Those who live in a city that has suffered terrorist attacks – like New York, or Mumbai, or Istanbul – may feel that confronting terrorism is more urgent. Others, again, may cite poverty, disease, or genocide.
The truth is, these are all global threats. All of us should be concerned about all of them. Otherwise, we may not succeed in dealing with any of them.


Long live our planet, and its peoples. Long live the United Nations! "



terça-feira, outubro 24, 2006

"Agenda-setting, opinion leadership and the world of web logs"

"Agenda-setting, opinion leadership, and the world of web logs"
Aaron Delwiche

"More than 350 studies have explored the agenda setting hypothesis, but most of this research assumes a clear distinction between reporters and their readers. Web logs erode this distinction, facilitating participatory media behavior on the part of audiences (Blood, 2003). The activities of journalistically focused web log authors give us new ways to understand and measure the agenda setting process. While previous researchers have explored issue salience by focusing on audience recall and public opinion, web logs invite us to consider hyperlinks as behavioral indicators of an issue’s perceived importance. This paper tracks news stories most often linked to by web log authors in 2003, comparing the results to stories favored by traditional media. Arguing that web log authors construct an alternative agenda within the admittedly limited realm of the blogosphere, I note that their focus has shifted from technology to broader political issues. My findings support Chaffee and Metzger’s (2001) prediction that “the key problem for agenda-setting theory will change from what issues the media tell people to think about to what issues people tell the media they want to think about” (375).

Estado forte estado nacionalista? 2

”Não existe, é claro, uma hierarquia consensual das funções do Estado, especialmente quando estão em causa questões como a redistribuição e as políticas sociais. (…) O Relatório sobre Desenvolvimento mundial de 1997 do Banco Mundial (World Bank 1997) fornece uma lista plausível de funções do estado, dividida em três categorias que vão de “mínima” a “intermédia” e “activista”. Esta lista não é, obviamente, exaustiva, mas fornece pontos de referência úteis para o âmbito do Estado.
(…)
Força inclui, neste sentido, e como já dissemos, a capacidade de formular e levar a cabo políticas e promulgar leis; administrar com eficiência e com um mínimo de burocracia; controlar os abusos de poder, a corrupção e o suborno; manter um levado nível de transparência e responsabilidade nas instituições públicas; e, o mais importante, fazer cumprir as leis.
(…)
Este novo reconhecimento da força sobre o alcance está reflectido num comentário feito em 2001 por Milton Friedman, decano dos economistas ortodoxos do mercado livre. Afirmou que uma década antes teria dado três conselhos aos países saídos do socialismo:”privatizem, privatizem, privatizem”. “Mas estava enganado”, prosseguiu, “sabemos agora que a primazia do Estado de direito é provavelmente mais importante do que a privatização” (entrevista com Milton Friedman, Gwartney e Lawson 2002).”

F. Fukuyama, A construção de Estados, pp. 23, 24 e 32.

segunda-feira, outubro 23, 2006

Estado forte e Estado fraco – a pensar


Escreve Fukuyama no seu livro A construção de Estados:”(…) a dilatação do Estado tinha infectado igualmente muitos países em vias de desenvolvimento não comunistas. (…)
Em resposta a estas tendências, o conselho dado por instituições financeiras (IFIs) como o Fundo Monetário Internacional (FMi) e o Banco Mundial, bem como pelo governos dos EUA, deu especial relevo a um conjunto de medidas destinadas a reduzir o grau de intervenção estatal nos assuntos económicos - este pacote foi designado por um dos seus criadores (Williamson 1994) como “consenso de Washington”, e como “neoliberalismo” pelos seus detractores da América Latina. O consenso de Washington tem sido implacavelmente atacado no início do século XXI, não só pelos manifestantes antiglobalização mas também por críticos académicos com melhores credenciais em economia (veja-se Rodrik 1997; Stiglitz 2002). (…) Mas o verdadeiro problema era que, se os Estados precisavam de ser reduzidos em certa áreas, precisavam simultaneamente de ser fortalecidos noutras. (…) A teoria da construção de Estados, que era pelo menos tão importante como a que defendia a sua redução, não recebeu metade da ênfase desta e não foi pensada ao mesmo nível. O resultado foi que a reforma económica liberalizadora falhou o cumprimento das suas promessas em muitos países. (…)”, pp.18, 19

Estado de coisas


De repente os semanários começam a contar-nos histórias de pessoas que estão a viver muito mal em Portugal. Dos que estão desempregados, dos que têm vencimentos magros e que não chegam para suprir as necessidades da família, os que têm dependentes com deficiências graves, os que não têm saúde e os que estão velhos e com baixas reformas.
Histórias de pobreza a regressar ou que, de facto, nunca foram definitivamente embora?

domingo, outubro 22, 2006

Um livro dentro do qual se pode viver




"O meu processo baseava-se numa série de observações feitas desde há muito em mim próprio: toda a explicação lúcida me convenceu sempre, toda a delicadeza me conquistou, toda a felicidade me tornou moderado. E nunca prestei grande atenção às pessoas bem intencionadas que dizem que a felicidade excita, que a liberdade enfraquece e que a humanidade corrompe aqueles sobre quem é exercida. Pode ser: mas, no estado habitual do mundo, é como recusar alimentação necessária a um homem emagrecido com receio de que alguns anos depois ele possa sofrer de super-abundância. Quando se tiver diminuído o mais possível as servidões inuteis, evitado as desgraças necessárias, continuará a haver sempre, para manter vivas as virtudes heróicas do homem, a longa série de verdadeiros males, a morte, a velhice, as doenças incuráveis, o amor não correspondido, a amizade recusada ou traída, a mediocridade de uma vida menos vasta que os nossos projectos e mais enevoada que os nossos sonhos: todas as infelicidades causadas pela divina natureza das coisas."


Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano, 5ª edição, trad. Maria Lamas, Lisboa, Ulisseia, 1974, pp. 98-99.
Naquele dia, a minha audiência era constituída por idosos que tinham feito a gentileza de me ir ouvir. O grande auditório da Junta de Freguesia estava cheio. Naquele tempo acabava sempre as minhas prelecções ou as minhas aulas com a leitura deste texto, que conhecia quase de memória. Digo quase porque nunca é mais do que quase. Quando comecei a ler, lembrei-me: são maioritariamente velhos os que me ouvem, gente informada, interessada e activa, mas velhos. Vou dizer-lhes que a velhice é um verdadeiro mal? Não faz sentido. E quando me aproximei dessa parte do texto, hesitei, suspirei e...saltei a palvra. Cobarde. Deixei de lado a velhice e entreguei-lhes a morte, as doenças incuráveis, o amor não correspondido e o mais de mal que há. Mas a velhice não. Porque a velhice só é um mal quando assoberba o indivíduo com todos os outros males. Não por si.
Não por si, justifico-me eu. E acredito.

sábado, outubro 21, 2006

Intelligentsia - definição por I. Berlin


"A palavra intelligentsia, como o conceito que designa, é de origem russa e foi inventada a certo momento algures entre a década de 1860 e 1870. Não significava simplesmente o conjunto de pessoas instruídas. E também não, sem dúvida, simplesmente os intelectuais nessa qualidade.


(…) Num momento de crise, as preocupações sociais podem tornar-se facilmente uma espécie de histeria, como acontece no caso daqueles que tentam proteger as nossas sociedades contra certas perversões reais ou imaginárias: trata-se de um fenómeno responsável por toda a espécie de dispositivos de censura, de cruzadas intelectuais, de esforços no sentido de organizar os escritores ou artistas em defesa do país, contra o comunismo ou o fascismo, contra o ateísmo ou contra a religião. (…) Assim, aqueles que se ocupam das ideias e outras formas de comunicação humana são obrigados a viver entre estes dois pólos em matéria de responsabilidade, procurando uma ou outra solução de equilíbrio aceitável.


(…) Mas no país em que a intelligentsia nasceu, o seu fundamento foi, a traço grosso, a ideia de uma oposição racional e permanente a um status quo considerado a todo o momento em vias de ossificação, tido por um obstáculo barrando o caminho do pensamento e do progresso humanos.


Eis o papel da intelligentsia, como ela o própria o vê, então como agora. O termo intelligentsia não designa simplesmente os intelectuais ou os artistas enquanto tais; (…) As pessoas instruídas podem ser reaccionárias, do mesmo modo que as desprovidas de instrução. (…)


O simples protesto, justificado ou injustificado, não torna automaticamente alguém membro da intelligentsia. Para tanto, é necessário que se verifique uma combinação da crença na razão e no progresso, juntamente com uma profunda preocupação moral pela sociedade. (…) A intelligentsia militans – e assim era a intelligentsia original, sendo o traço da militância parte integrante da sua essência – é engendrada por regimes efectivamente opressivos.”


Isaiah Berlin, O Poder das Ideias, trad. Miguel S. Pereira, Lisboa, Relógio d`água, 2006, pp. 147 a149.

sexta-feira, outubro 20, 2006

Parir um filho

Há um carácter torcionário patente em muitos dos técnicos hospitalares que acompanham uma mulher quando ela vai parir um filho.
A minha mãe contou-me que quando eu estava para nascer havia uma senhora que estava no mesmo quarto que ela e que a dada altura se descontrolou com as dores. Gritava, maldizia o marido, vilipendiava quem andava por ali. As enfermeiras fartas de a ouvirem gritaram-lhe: “Olhe lá, você quando o estava a fazer não gritou assim, pois não?”. Eu, que ouvi isto pela vida fora, entre risos condescendentes, achava que isso era o pior que se podia dizer a uma parturiente, e insurgia-me contra a falta de profissionalismo, julgando que essas palavras nunca mais poderiam ser proferidas e que, a terem-no sido, só o foram em momentos de pontual distracção.
Quando chegou a minha hora eu levava a lição bem estudada, quer das dezenas de livros que tinha lido sobre técnicas de relaxamento e assuntos quejandos (eu sou uma teórica) quer do aviso impresso na memória dessa história que a minha mãe me contou. Privilegiada, mas sem querer incomodar o meu obstreta às 3:00 da manhã, lá apareci no pequeno hospital acompanhada pelo futuro pai Amadeu, sem aviso prévio. Tudo parecia dormir naquele piso. Eu comecei por perturbar, pois claro. Rabugenta, a médica de serviço anunciou-me a novidade. Eu não queria fanfarra com pandeireta, mas alegria confesso que era coisa que estava pronta para ouvir e ver na voz e nos olhos de quem me anunciasse para breve o nascimento de um primeiro filho. Está bem, está, vai lá para o quartinho e aguarda pela hora da expulsão.
Fiz sempre por me dominar, com medo de aborrecer alguém, e mesmo sem a bendita da epidural, porque a senhora enfermeira por algum motivo considerou que eu iria levar muito tempo a fazer a dilatação e quando se chamou a anestesista já eu ia a caminho da sala de partos, até acho que não gritei muito. Excepto quando me cortaram para o pequeno nascer. Aí ouvi um “Cale-se!”, com um tom daqueles que se deve ouvir na tropa. E meio atordoada pela dor imensa de ter um filho lá consegui festejar esse filho que me puseram nos braços, enquanto pensava, ter um filho é uma tortura. Como é que uma mulher consegue pensar em ter mais do que um quando passa por isto?

Depois fui recolhendo histórias de mulheres que tinham parido. E percebi que há uma história de dor e humilhação por contar. Por vergonha, por desinteresse da maioria dos ouvintes, porque isso é um assunto de mulheres, porque “ai filhinha que vale a pena quando nos põem os anjinhos nos braços”, porque as “mulheres sempre pariram e tu não foste a primeira nem hás-de ser a última”. Por medo que digam que as mulheres não amam suficientemente o bebé, ao pensarem assim. Enfim…
É por isso que não suporto ouvir dizer que fecham maternidades, que circunscrevem os cuidados de saúde às grávidas, que não se alarga a formação científica mas também humana aos técnicos de saúde, de ouvir discursos de pessoas que engravidaram outras sem a responsabilidade, ou as que nunca pariram, nem acompanharam a dor das que engravidam sem o desejar.

Estado social

Albino Aroso, G. Ribeiro Teles e Medina Carreira, nas suas respectivas áreas de conhecimento eu consigo dar-lhes a palavra. Isto é ser de direita ou de esquerda?
Um pensador deve pensar a esquerda ou a direita, logo não deve ser importante que se defina como sendo de direita ou de esquerda, a não ser que isso contribua para ser mais bem escutado pela área ideológica que se lhe opõe, já que de certa forma os seus correligionários têm menos paciência para escutar propostas de modelos que vão contra o status quo. Eu assim o julgo.
A questão é que as últimas décadas introduziram tantas varáveis para se reflectir sobre o papel do Estado que ser de direita ou de esquerda parece mais uma questão ficcional do que de ideologia correspondente a uma realidade de facto.
Por exemplo, se queremos manter a hipótese de existência de um estado social, ainda que não totalizador, como eu o entendo ser fundamental à sociedade, há que encontrar novas formas de o garantirmos. Como? Não sei.

quinta-feira, outubro 19, 2006

Coisas que eu ouvi 6. Doutor João Almeida Santos evocando as análises de Zaki Laidi

A candidatura de Ségolène Royal ao Eliseu foi pensada como fazendo parte de um fenómeno que os especialistas denominaram de efeito “bolha mediática”. Passando a ideia de que ela era o tipo de candidato que através da imagem simula a existência de uma ideia, e que tal como aparecera o fenómeno Royal também desapareceria.
A deputada socialista francesa viu-se em confronto com o discurso tradicional dos seus pares socialistas tanto quanto com os discursos dos candidatos da oposição. Isto mesmo é analisado por Zaki Laidi.
Ségolène estará a fazer um discurso político enquadrado pela sua mundivivência no seguimento do que é entendido ser a filosofia dos blogues (meio mediático que ela privilegiou no primeiro contacto com os seus eleitores), abandonando nos seus discursos os grandes conceitos da teoria política clássica, mais programática, chamando à discussão temas do mundo da vida.
A candidata à presidência francesa está a levar a uma nova vaga de inscrições no partido socialista francês mesmo tendo contra ela figuras importantes dentro do partido. Logo, há estudos a fazer relativamente ao tipo de escolhas das narrativas que as pessoas em geral parecem estar interessadas em ouvir.
Recorde-se, e isto sublinho eu, que o facto de a maioria das pessoas parecer estar a preferir essas narrativas políticas da senhora Royal, isso não as torna por si mais verdadeiras. Indica apenas que as pessoas as preferem. Diz alguma coisa acerca da acção comunicacional em política, não diz tudo acerca da realidade discursiva política.

Tive pena que Almeida Santos não falasse na questão do discurso orientado para o género, como se torna evidente quando os jornalistas perguntam à candidata: “Quem vai tomar conta da sua família?”.
Alguém ouviu alguma vez perguntar coisa semelhante a um homem que tenha filhos e se candidate?

quarta-feira, outubro 18, 2006

Coisas que eu ouvi 5 – Doutor João Almeida Santos

Como foi possível que Berlusconi detendo uma elevadíssima capacidade de fazer aceder a sua imagem e mensagem ao público por via dos meios comunicacionais, tendo usufruído de um número de horas muito superior aos outros candidatos, nomeadamente a Prodi do “Centro Esquerda”, quer na categoria espaço e atenção, quer na categoria de exposição directa, vem a perder com a sua coligação “Força Itália” as últimas eleições legislativas em Itália? Com os votos vindos do círculo de emigração que deram essa vitória ao “Centro Esquerda”.
Isto nos foi dito por J. Almeida Santos. Mais um dado a confirmar o condicionamento do voto de todos os que se mantêm sob a influência da mensagem mediática organizada como um produto publicitário, independentemente da orientação ideológica e da história pragmática do governo do candidato?

Orçamento de Estado e Educação

Estive a assistir uns largos minutos à discussão da proposta de Orçamento de Estado para 2007 organizada pelo Diário Económico/Sapo no âmbito do Observatório sobre a proposta de Orçamento que nos chegou em directo sobre a forma multimédia na página do motor de busca "Sapo". A imagem do que nos chegava era má, mal conseguiamos perceber quem eram os intervenientes na discussão, mas a qualidade do som era razoável.
Ouvi falar as senhoras economistas Teodora Cardoso e Manuela Ferreira Leite e ouvi parte da intervenção de Pina Moura relativamente aos cortes a fazer nos serviços da Função Pública. Ficou ali claro que é financeiramente incomportável a um qualquer governo continuar a deixar aceder por promoção automática os professores aos últimos escalões. E que será no 7º escalão que terá que se reter a maioria dos docentes. Ora esta explicação, e esta preocupação com o dinheiro para pagar os ordenados aos professores, não nos é apresentada como a causa para as novas reformas no novo Estatuto da Carreira Docente apresentado pelo governo. Este ilude, e pretende passar a mensagem de que está sim é preocupado com a qualidade do ensino, quando, na realidade, o que o preocupa é o número elevado de docentes que estão a atingir os últimos escalões de vencimento.

Sejamos claros.
Porque é que os governantes não falam claro e tentam consecutivamente atirar areia para os olhos da opinião pública? Porque infantilizam as pessoas? Não seria melhor dizer-lhes: "Meus amigos, não há dinheiro que chegue para pagar estes ordenados todos. Vamos lá encontrar uma solução de forma a manter a qualidade de ensino mas controlar os custos?"

Ontem gostei de ver o senhor secretário-adjunto da educação a falar num tom mais respeitoso e menos fanfarrão com um dos representantes da frente de sindicatos no jornal das 22:00 na Sic Notícias. Confesso que acho as intervenções públicas do dito governante uma lástima. E desgosta-me profundamente que os decisores públicos utilizem a arrogância para falar com quem se lhes opõe. A oposição é garantia de existência de democracia.
O que eu aí ouvi foi que os sindicatos concordam com a realização de avaliações exigentes e rigorosas aos docentes, não negam a importância destes processos de selecção, o que negam e pretendem ver explicado, é a razão pela qual se irá impedir muitos daqueles que atinjam os patamares de excelência, de aceder então ao topo de carreira, não lhes sendo reconhecido o mérito, o trabalho e o esforço, em nome do número elevado dos que já lá estão.

Dir-me-ão que no ensino superior também há um processo de selecção rigoroso, o que faz com que, por exemplo, só uns quantos sejam titulares de uma cátedra. E que é um título inteiramente alcançado tendo por base critérios de avaliação universais e objectivos, que não se prendem nada com o tipo de relação que o docente foi tecendo ao longo da sua vida académica com os membros do júri que o irá avaliar. Pois sim. Um dia hei-de acreditar.

terça-feira, outubro 17, 2006

construir a educação a partir dos políticos

"Se encararmos o problema central da administração pública como o de criar um sistema institucional formal que alinhe os interesses dos subordinados com os dos chefes, então os casos mais difíceis ficarão todos no quadrante IV (volume de transacção elevado e especificidade baixa. ex. sistema judicial, ensino básico, medicina profilática, aconselhamento profissional). O ensino público básico e secundário são claros exemplos disso. Os resultados educacionais são difíceis de medir, e é praticamente impossível responsabilizar individualmente os professores. O ensino público é uma actividade de elevado volume de transacção que pode ser muito visível em grandes cidades mas que fica escondida nas áreas rurais. Mesmo num país rico e com grande quantidade de informação acumulada como os Estados Unidos, tem sido muito difícil desenvolver mecanismos de responsabilização. Boa parte da tendência para a adopção de testes estandardizados em muitos Estados visa responder a esta necessidade, mas conta com a resistência feroz de professores, administradores escolares e comunidades locais que não querem ter de lidar com as consequências de um fraco desempenho." Francis Fukuyama, A Construção de Estados, trad. F.J. Azevedo Gonçalves, Lisboa, Gradiva, 2006, p. 70

Mas em Portugal já há testes estandirzados há anos, já há listas classificativas de escolas, já há muito que obrigaram os professores a doptarem todos o mesmo manual, a cumprirem rígidos planos de aulas iguais entre si, a ser classificados internamente para progressão de carreira. O que mais querem estandardizar? Será que os políticos ainda não perceberam que o sucesso escolar em Portugal tem a ver com as suas políticas de facilidade e de desresponsabilização em relação ao trabalho, assim bem como de incentivo à desautorização do professor, e não com o desempenho de uma vasta maioria de professores?

Alguém sabe neste país como se procede à avaliação dos alunos no ensino nocturno por comparação com o que era há dez anos? Tudo por via do sucesso.

Fazer ou não fazer greve, eis a questão.


Incomoda-me tomar atitudes políticas quando sinto que há atitudes pessoais a resolver relativamente a essas políticas. Igualmente me desagrada tomar atitudes que se prendem com a minha vida profissional quando sinto que estou a deixar interferir emoções que se prendem com a minha vida pessoal. Há quem diga que estas distinções são puras abstracções. Não são. É difícil equilibrá-las mas elas existem e podem ser actualizadas na nossa prática. É o que impede que confundamos os nossos deveres com as nossas dores ou prazeres pessoais. Sei de pessoas que fazem análise da sua vida pessoal com os seus alunos, clientes, utentes ou colegas de trabalho nas horas de trabalho. Também sei de pessoas que de si nada dizem, nem dos livros que preferem nem das escolhas sobre assuntos públicos que propõem, de um acontecimento vivido que ajude ilustrar as suas explicações científicas ou de uma manifestação de gosto. É uma questão de balanço.

Fazer greve ou apoiar uma greve é uma questão profissional. Racionalidade das causas ou racionalidade dos interesses ? Será porque convictos da injustiça da causa para todos e contra o poder, ou do ataque aos nossos interesses particulares?
Ou porque não? Ou porque não pode deixar de ser, para que alguém escute a voz?