sexta-feira, dezembro 14, 2007

E agora, senhores e senhoras, meninos e meninas, o tratado de Lisboa e os seus leões.

Muitas vezes penso que não vou ser sentenciosa, que não vou moralizar, que vou impedir-me de me pôr na posição ridícula de um qualquer alado observador privilegiado da realidade, que tenho perfeita consciência de que não o sou e até de que a existência dessa entidade em termos históricos seja controversa no contexto filosófico. Penso, mas nem sempre escrevo em conformidade. Enveredo pelo ridículo. Mais um contra-senso.

“A Isabel é uma panfletista” criticou-me o professor da cadeira de filosofia política há mais de uma década atrás. Pelo menos não me acusou de desonestidade intelectual. O que seria da maior gravidade. Criticou-me então o que ele entendia ser acentuado no meu trabalho de um carácter revelador de concessão à filosofia POP. Mesmo assim não gostei do remoque. Mas se este não se me tivesse colado de uma certa forma ou de outra, também já o teria esquecido. E eu não o esqueci.

Eu gosto de festas, faço esta declaração de princípio. Partilho daqueles clichés todos sobre os vestidos, os cheiros, a elegância, os risos, a música, a comida e a excitação do grupo. Gosto das luzes e das conversas, gosto de borboletear. Podem ser festas populares, onde o cheiro da sardinha assada nos deixa enjoados durante semanas e o excesso de sal nos ressaca o fígado, a música nos confrange até a espinal medula e somos empurrados de um lado para o outro, gosto das festas de crianças que guincham e se movem em cardume com as mãos cheias de coisas peganhosas de encontro a nós, gosto ainda das festas dadas por amigos discretos cheios de carinho e de bom gosto. Não gosto mesmo nada é de festas misturadas com rituais do poder político. E porquê? Primeiro porque me apetece logo perguntar quem é que paga aquilo tudo, é um vício de pequena burguesa que gosta de saber onde se aplicam os cêntimos, segundo porque quando os políticos em exercício de funções governativas se põem ao serviço do espectáculo cinematográfico ou televisivo, deixam de laborar naquilo que é próprio da política, o discurso, e passam a figurantes no negócio do entretenimento. Na política, e no exercício do poder político, o ritual a consagrar é o da oferta da palavra. É esta que tem ser ouvida, aceite ou recusada, homenageada ou apupada. Não são as cores, a música, as imagens iconográficas, porque este é o discurso de outra arte que não a da política..

Detestei a “festa” no Mosteiro dos Jerónimos sobre a assinatura do tratado de Lisboa. Claro que embasbaquei com o espectáculo de luz e som, mais por incredulidade, pois não gostei mesmo nada do que ali foi montado. Desviou-se a atenção da palavra, pois as populações europeias mal sabem o que ali foi assinado, e centrou-se no frenesim luz/som, à Hollywood.
Depois a emoção do nosso primeiro-ministro, toda epidérmica, porque a parecer não estar focalizada sobre o raciocínio manifesto sobre a importância do conteúdo do tratado na vida dos povos europeus, mas no facto de ter conseguido realizar mais este acto da assinatura (é certo sem as sinecuras do primeiro-ministro inglês, que tem poder na Europa para ser malcriado quanto quiser, o que também é muito benéfico para o famigerado "espírito" europeu).
Este é o homem que quer ser conhecido como o empreendedor , do que age, mesmo se suspende o pensamento ou não quer contemplar as consequências da sua acção ou as interpreta à luz dos seus interesses na prossecução da mesma atitude. É um governo do tipo boneco “action man”, em auto-glorificação de uma ideia de pragmatismo que um dia talvez fique para a história como uma das ideias mais estúpidas em política.


O ritual da assinatura do Tratado de Lisboa não devia, com rigor e circunspecção, ter sido feito durante uma sessão do parlamento europeu à frente dos representantes do povo europeu?

2 comentários:

rendadebilros disse...

Venho até aqui para lhe dizer o que, com certeza já sabe: foi destaque no "Público" no suplemento P2 - blogues em papel a propósito deste seu post: assinatura do tratado de Lisboa.
Bom fim de semana.

ism disse...

Obrigada por mo dizer! Não, não sabia dessa referência, que muito me envaidece.
Muito obrigada pela sua gentileza em informar-me.

isabel