sexta-feira, outubro 31, 2008

A hipocrisia que move a política internacional, e a nacional

"(...) Não é provável que o extraordinário carisma de Barack Obama seja suficiente para inverter a hipocrisia que habitualmente (se) move a política internacional. Mas é ainda assim razoável esperar que exporte, para fora dos EUA, a sua crença e a sua ambição de mudança. Já será tarde para Asha. Mas pode ser que seja a tempo de salvar milhões de africanos da fome, da tirania, do extremismo e da violência. (...)"
Rafael Barbosa, Asha e Obama, JN.
(...)
"Mas aquilo que invoca Obama é o que invocou Reagan: o optimismo americano de que os problemas se podem resolver e que as divisões podem ser ultrapassadas", diz ainda. Ideologia de Obama, ao contrário do que a esquerda europeia diz, conhece-se, aliás, bem pouca..."
Manuel Queiroz, BARACK OBAMA COMO MESSIAS, DN.

"É como se estas mulheres nunca tivessem existido."


VISTO DO DEUTERONÓMIO
Fernanda Câncio Jornalista - dn

«Aconteceu um destes dias. "Os extremistas islâmicos da Somália executaram uma jovem de 23 anos, por lapidação. A mulher foi acusada por adultério na localidade Kismayu, no Sul do país." A mulher não tem nome, quem a matou também não, a história tem dez linhas. Não há imagens nem entrevistas, nada daquilo que faz "o interesse humano". Não é pois uma grande notícia, morrer à pedrada. Pedra após pedra da mão de gente que ainda ontem talvez nos dissesse olá, que ainda ontem era um vizinho ou um primo ou um irmão, que ainda ontem julgávamos amigo. Mas morremos ali, cercados como por lobos, golpe após golpe. Nenhum profeta para entrar no círculo e suster o massacre com uma parábola, nenhum sinal divino, nenhum raio a fulminar os monstros. E depois nenhum julgamento, nenhum castigo.

É como se estas mulheres nunca tivessem existido. É como se nunca tivessem sido exactamente como nós, a pensar no que vão fazer no dia seguinte, que vai haver um dia seguinte, que não é possível morrer assim, tão injusta e brutalmente, que o destino não pode ser aquele, que algo virá para mudar a sorte, que quem golpeia perceberá que não pode ser, que é demasiada dor, demasiado sangue, demasiado pavor, que não se imaginará a viver com a culpa, que nenhum deus poderá querer aquilo, em nome de quê uma morte assim. Mas a mulher de Kismayu está morta. Ainda hão-de ter-lhe cuspido o cadáver, arrastado os restos para um buraco onde a comerão os bichos. A mulher de Kismayu não existia para quem a matou senão como abominação e exemplo. A mulher de Kismayu é todas as mulheres, homens e crianças que um versículo satânico condenou à fogueira, à lapidação, à tortura mais atroz para glória de uma ideia de universo, de uma ideia de bem. (...)"

quinta-feira, outubro 30, 2008

Como mãe também me pergunto isto mesmo:

"(...)
No princípio do mês de Agosto, o senhor engenheiro apareceu na televisão aanunciar o projecto e-escolinhas e a sua ferramenta: o portátil Magalhães..

No dia 18 de Setembro (quinta-feira) ao fim do dia, o meu filho traz na mochila um papel dirigido aos encarregados de educação, com apenas quatro linhas de texto informando que o 'Magalhães' é um projecto do Governo e que, dependendo do escalão de IRS, o seu custo pode variar entre os zero e os 50euros. Mais nada! Seguia-se um formulário com espaço para dados como nome do aluno, nome do encarregado de educação, escola, concelho, etc. e, por fim, a oportunidade de assinalar, com uma cruzinha, se pretendemos ou não adquirir o 'Magalhães'.

No dia 22 de Setembro (segunda-feira), ao fim do dia, o meu filho traz um novo papel, desta vez uma extensa carta a anunciar a visita, no dia seguinte, do primeiro-ministro para entregar os primeiros 'Magalhães' na EB1 Padre Manuel de Castro. Novamente uma explicação respeitante aos escalões doIRS e ao custo dos portáteis.

No dia 23 de Setembro (terça-feira), o meu filho não traz mais papéis, traz um 'Magalhães' debaixo do braço.

Ora, como é fácil de ver, tudo aconteceu num espaço de três dias úteis em que as famílias não tiveram oportunidade de obter esclarecimentos sobre afutura utilização e utilidade do 'Magalhães'. Às perguntas que colocámos à professora sobre o assunto, ela não soube responder. Reunião de esclarecimento, nunca houve nenhuma.

Portanto, explique-me, senhor engenheiro: o que é que o seu Governo pensou para o 'Magalhães'? Que planos tem para o integrar nas aulas? Como vai articular o seu uso com as matérias leccionadas? Sabe, é que 50 euros talvez seja pouco para se gastar numa ferramenta de trabalho, mas, decididamente, e na minha opinião, é demasiado para se gastar num brinquedo.

Por favor, senhor engenheiro, não me obrigue a concluir que acabei de pagar por uma inutilidade, um capricho seu, uma manobra de campanha eleitoral, um espectáculo de fogo de artifício do qual só sobra fumo e o fedor intoxicante da pólvora.

Seja honesto com os portugueses e admita que não tem plano nenhum. Admita que fez tudo tão à pressa que nem teve tempo de esclarecer as escolas e os professores. E não venha agora dizer-me que cabe aos pais aproveitarem esta maravilhosa oportunidade que o Governo lhes deu e ensinarem os filhos a lidar com as novas tecnologias. O seu projecto chama-se e-escolinha, não se chama e-familiazinha! Faça-lhe jus! Ponha a sua equipa a trabalhar, mexa-se,credibilize as suas iniciativas! (...)"

Movimento mobilização e unidade dos professores

Acerca da biografia de Arendt... 3

A Hannah Arendt que Laure adler nos dá a ler parece-nos uma autora a quem os intelectuais mais conhecidos do seu tempo querem pôr a trela, e com quem ela de certa forma compactua enquanto discípula. Exceptuando o relacionamento com o genial Walter Benjamin, demasiado auto-centrado e com uma existência em todos os sentido no "fio da navalha" para se poder ainda dar ao desbarato de desempenhar papel de macho dominante, os outros homens que passam pela vida de Arendt parecem estar sempre a um passo de a repreender, de a depreciar, de a não distinguir.
Desde aquele confrangedor triângulo amoroso com Heidegger e a mulher deste, que Hannah arrasta atrás de si toda uma vida, ao ponto de nos embaraçar a nós leitores pela sua disponibilidade para ser utilizada como interlocutora, confidente, apoiante e procuradora/editora durante o tempo e nas condições rigorosamente impostas por Heidegger, sendo que nunca parece claro o seu corte emocional com o seu antigo mestre e amante, e ainda que em nome de uma profunda afinidade pela natureza do pensamento filosófico, até àqueles maridos e amantes que proclamam ser seus mentores e se sentem aliás mesmo autores de alguns dos seus pensamentos, achando-se frequentemente superiores a ela em termos intelectuais, Harendt parece querer deixar-se ver como uma senhorita sem querer consciencializar a ideia da sua real influência para a história do pensamento. Deverá ser difícil tendo um marido que se acha um ser muito especial e que lhe diz, meio a sério meio a brincar, que ela devia era estar a secretariar a sua fenomenal obra por escrever (e assim ficou, pois)!
Penso em John Stuart Mill e na sua esposa Harriet Taylor, na confirmação por parte dele da importância da sua mulher na obra, escrita para reflectir precisamente o pensamento comum. Penso nele como poderia pensar noutros autores que fazem relato semelhante, mas Arendt, como muitas outras mulheres de então e...não só, parece-me em luta com a ideia de si própria enquanto mulher, no grupo, no casamento e na sociedade.
Demasiado acabrunhada pelo gigantismo intelectual de Heidegger, que estabelece o paradigma para relacionamentos futuros, ou sinal dos tempos sobre a existência feminina na academia? Mesmo após os prémios, o reconhecimento público, as aulas repletas de estudantes, Arendt é repreendida pelo seu mestre Karl Jaspers, entre outros, ou sente que de alguma forma o seu estatuto não está a par do seu real poder de influência no mundo. Não se concebe nesses termos.

Diz ela: "Os homens têm sempre esta vontade enorme de exercer uma influência, mas, de certa maneira, vejo isso de fora." É que isso era verdade, pois ela tinha sido bem ensinada a senti-lo desde a sua entrada na universidade, e lá em casa haveria quem lho recordasse igualmente, no caso de ter alguma ilusão a esse respeito. Ela foi a amante de Heidegger, escolhida também pela sua inteligência para o interpretar, para seguir, divulgar e proteger a obra do professor, não foi escolhida como criadora de uma futura obra prima.

A questão da influência só era masculina porque não se lhes afigurava a importância, ou a necessidade, de aceitarem a influência das mulheres. À maioria dos académicos, pelo menos. Vamos pensar que hoje as coisas são diferentes nas academias (então não são!).

segunda-feira, outubro 27, 2008

"O poder de nos dominarmos a nós mesmos"

"O que é a coragem? É uma barreira inexpugnável a defender a fraqueza humana; quem dela se rodeia pode resistir em segurança a este violento cerco que é a vida, usando as suas próprias forças, as suas próprias armas. A este propósito gostaria de citar-te uma máxima do nosso Posidónio:"Não imagines nunca que poderás proteger-te com armas dadas pela fortuna; luta, isso sim, com as tuas. A fortuna não fornece a ninguém meios de defesa contra ela própria. Por isso é que os homens estão bem defendidos contra os inimigos, mas se vêm inermes perante a fortuna."
E como se vence a fortuna quando ela está contra nós? "(...)e se, através da meditação, não se tiver posto acima de todas as contingências antes ainda de nelas se ver envolvido." (p.626)
Lúcio Aneu Séneca, Cartas a Lucílio
Pois... mas esta ideia passou de moda e vai daí tantos desgostos individuais e sociais.

domingo, outubro 26, 2008

O príncipe feliz

A nossa vida pública às vezes põe-nos defronte de emanações do príncipe de Maquiavel. São momentos decisivos da existência em que nos vemos melhor do que num espelho.
Vergamos a espinha e passamos a servidores de uma causa e em nome de uma culpa que não temos como nossa mas que nos atiça, ou prosseguimos com uma voz, às vezes incoerente, outras tantas balbuciante, imatura com certeza, tantas das vezes, mas nossa, porém?
Não é que sejamos melhor que o príncipe que se senta à nossa frente. Nem somos de natureza moral ou intelectual superior. Nem é o caso também de esse confronto ser inútil, pois na realidade faz-nos reconhecer as nossas limitações cognitivas ou pessoais melhor do que uma conversa entre amigos com afinidade intelectual, não é isso. É apenas um confronto de pessoas, em que uma, tendo estima institucional e consideração pessoal por outra, que a merece por si e pelo cargo que ocupa, não lhe reconhece no entanto nunca o direito de ter a última palavra sobre si própria, uma qualquer situação ou sobre os outros e a realidade que os cerca. Nem sobre o tempo.

Às vezes aquela parte da vida privada que se mistura com a pública, por uma nossa falta, como por exemplo não cumprirmos uma promessa, mesmo se menor e explicável na nossa conta privada do rosário dos nossos dias, pode levar-nos ao cárcere psicológico, e ao desfalecimento da vontade perante a ousadia de nos chamarem por um nome de terceiros, de nos apontarem as falhas, mas também de nos sujeitarem à mudança desejada por quem com o poder dessa descoberta se julga o último tribuno na sessão de julgamento da nossa acção.

Como nos libertarmos? Não dependermos economicamente de ninguém, é um ponto, não dependermos economicamente de ninguém que controle o nosso presente ou futuro social, acrescente-se outro, mas acima de tudo, saber quando se deve cumprir e quando não se deve, e assumir esse decisão, e por fim não desejar nada que não dependa exclusivamente da nossa força e da nossa capacidade de trabalho, evocando a sorte amiga pelo caminho.
Se eu não tiver medo de ninguém, não preciso de temer a não ser pelo meu discernimento. Se eu tiver a coragem de não alterar um milímetro do meu comportamento, sendo que ele não maltrata ninguém, nem ocupa o lugar no caminho de outrem, nem esconde intenções de no futuro vir a prejudicar alguém, mas se manifesta antes como uma necessidade interior de agir ou de pensar dessa forma, então eu serei livre. E ajo conformemente.
--

Ao "príncipe" de Maquivel eu respondo com o "príncipe feliz" de Wilde.

Ai é um ensaio político contra uma pequena narrativa ficcionada? Dizem. Ficção por ficção eu escolho a segunda. Em paz. Mas também reconheço ameaças, e também sei como anulá-las sem desfalecer.
Lá precisei eu de escrever isto. Será um incitamento ou um testemunho?

sexta-feira, outubro 24, 2008

Quando o emprego sobe em Espanha...

1% no último mês, a mesma Espanha que ainda há pouco tempo era a primeira porta de saída para muitos trabalhadores portugueses, quanto subirá, em consequência do seu despedimento por lá, o desemprego em Portugal?
E penso, onde vai agora aquela gente encontrar um trabalho para se sustentar?

Depois leio o seguinte:

Fome e fartura

Portugal está em risco de ser ultrapassado pela Ucrânia no ranking da UEFA mas, ao menos, continuamos no topo, logo abaixo do México e da Turquia, do ranking dos países com maiores desigualdades sociais. Segundo a OCDE, se houve em Portugal uma melhoria da distribuição de rendimentos entre os anos 70 e 80 (o período "gonçalvista", origem, como se sabe, de todos os nossos males), a partir daí, durante 30 anos de governos de partidos com "socialista" e "social" no nome, nunca mais pararam de crescer as desigualdades, com os ricos sempre mais ricos e os pobres sempre mais pobres.

Hoje até famílias das classes médias pedem, em número cada vez maior, ajuda ao Banco Alimentar contra a Fome. Mas nem tudo são más notícias: se os portugueses (os que têm trabalho) ganham pouco mais de metade (55%) do que se ganha na zona euro, os nossos gestores recebem, em média, mais 32,1% que os americanos, mais 22,5% que os franceses, mais 53,5% que os finlandeses e mais 56,5% que os suecos. Portanto, como Cesariny diria (cito de cor), "se há gente com fome,/ assim como assim ainda há muita gente que come".
no JN on line
E se alguém me disser que este artigo é de esquerda, eu juro que dou um murro na mesa. Se isto não são factos, e se estes factos não nos têm sistematicamente mantido sem capacidade competitiva pelos recursos que são sugados em nome de interesses exclusivamente de interesse privado, então eu não sei o que são.

No outro dia

... estive a falar com uma senhora idosa, esposa de um ministro em dois governos no período imediato ao 25 de Abril. Como se fosse ontem contou-me da morte do senhor por exaustão, por dever cumprido em obediência estrita a ordens dadas pelos seus superiores hierárquicos, como se convites fossem com a hipótese de uma recusa que no entanto não era sequer considerada.
Militar de carreira, aceitou os cargos, e exerceu-os como uma missão, mas viveu sempre perturbado pela sua impotência em gerir a situação descontrolada em termos sociais, judiciais e económicos que alguns assuntos públicos tomaram então.
Nunca saberei o que da memória da senhora corresponde à verdade de uma figura que ambas desejamos que tenha sido heróica. Ela por amor a ele, eu por querer considerar certas figuras da minha pátria. Ela chora-o há trinta anos, eu tenho tentado tudo por tudo para impedir que os políticos do meu país me façam chorar.

quinta-feira, outubro 23, 2008

As vezes falamos do nosso passado político...

... e afagamos um amigo envolto em polémica.
Quando eu falo de polémica os meus alunos do Secundário dão um salto e ficam atentos que nem galgos em dia de caça.
Ouvi uma entusiasmante conferência sobre António Jorge Dias, o famoso antropólogo, por um dos seus discípulos, o prof. João Pereira Neto. Falou-se então em como se desafiava o governo de Salazar e as administrações coloniais para se fazer investigação, e como se tinha que aprender a ter que conviver com regras e pessoas de quem se dependia economicamente. Mais importante, compreendi o quanto na metrópole se ignorava do que se passava realmente nas colónias, e o que as suas administrações não queriam que se soubesse onde quer que fosse e a tudo o custo.
E o que eram os cientistas enviados? Relatores e críticos da situação, ou cientistas? Ou, como se lhes apontou num pós vinte e cinco de Abril causticado, colaboradores do regime?

Como se tivéssemos a veleidade de pensar numa ciência sem contexto político. Como se não houvesse feridas para lamber ou postulas para lancetar.

Ainda bem que eu não tive que compactuar com nada nem ninguém daquele tempo. A vantagem de viver em tempos diferentes é que não me obrigou a formar uma consciência sobre o abismo que era então a vida política, e a ter que assumir uma atitude radical sobre o estado de ignomínia social que então se vivia, até ao ponto em que isso iria confundir-se para sempre com a formação da minha personalidade.

Este meu tempo já me chega bem, e às vezes até sobra de saturação. Apesar de tudo, uma saturação da vida cívica diferente.

quarta-feira, outubro 22, 2008

Sobre a Ossétia do Sul...

eu pouco ou nada sabia.

A casa que me acolheu e ao meu trabalho de investigadora organizou um debate sobre "As implicações do conflito georgiano na conjuntura internacional", e eu achei que era uma bela oportunidade de me informar. Tinha razão. O debate, vivo e bem fundamentado, entre Isabel David e Marcos Ferreira, elucidou quanto baste.
A sessão até nem começou bem, pois ao entrar no auditório, que minutos depois da hora marcada viria a estar repleto, deparei-me com os estofos das cadeiras vandalizados, sendo que todos apresentavam desenhos, assinaturas e outras "artes" de jovens universitários sem pingo de educação.(!!!!)
..
De forma mais académica (mais crítica e ponderada, portanto) Marcos Ferreira explanou sobre a tentativa de recuperação do poder imperialista russo, numa época em que o preço dos combustíveis lhe dá toda uma nova sustentação económica e estratégica que não tinha nos anos noventa, sendo ainda que à frente dos destinos da Rússia temos dois homens com objectivos políticos internacionais bem definidos, sendo conhecidos, sobretudo o Sr. Putin, como um homem que olha para um mapa e sabe interpretá-lo.
Expôs Marcos Ferreira as linhas gerais do problema do "dilema de segurança", mas sugeriu que esse dilema não era irresolúvel e que derivava de sistemática renúncia ao entendimento sobre a real natureza dos movimentos defensivos/ofensivos dos Estados, sendo por isso um pretexto menor aquele que a Rússia terá evocado por considerar ter um carácter ofensivo a colocação do escudo antí-missil na Polónia e na República Checa, países à procura de uma entrada em instituições internacionais que de forma efectiva se comprometam com a sua segurança e defesa de soberania, numa tentativa de solucionarem o erro histórico de não terem tido ninguém a defendê-los aquando de todas as invasões sofridas durante e depois da Segunda Grande guerra.
Não defendeu porém a decisão imprudente do nacionalista e autoritário presidente da Geórgia, com a invasão dos tanques na Ossétia do Sul, ainda que este território fosse na realidade pertença do estado georgiano, sendo este gesto a desculpa perfeita para a intervenção russa no território, e para um presidente russo à procura de uma legitimação interna e externa do seu poder que, na Rússia, é sempre sustentado através de uma guerra. Nenhum presidente russo passou sem fazer uma guerra (Putin, contra a Tchetchénia, até conduziu duas guerras).
Na verdade, evocando direitos iguais para casos iguais, a Rússia vinha defender a independência da Ossétia dos Sul, na linha do que fora feito para o Kosovo. Ora o Kosovo, lembrou o prof. Marcos Ferreira, tinha desde o inicio recebido um tratamento de excepção, pela intervenção da NATO aquando da sua defesa contra os ataques da Sérvia, e ainda que contra a decisão do Conselho de Segurança da ONU, por voto contra da Rússia. Em estado de protectorado desde 1999, a região do Kosovo não foi pensada para vir no futuro a reintegrar o Estado Sérvio, mas foi sempre entendido fazer-se aprovar a sua independência tendo em conta o tipo de reacção agressiva, psicológica e física, manifestado entre os diferentes povos que constituíam o Estado sérvio.
O mais curioso em todo o pensamento de M. Ferreira foi a sua defesa de uma política internacional cuja acção não se tem que reger inevitavelmente à volta do conceito, e da defesa desse conceito, a saber o de "esfera de influência" de certas potências, pelo que isso subalterniza soberanias transformando a maioria dos países em peões dos interesses dos imperialistas de certos Estados.
..
Já a profª Isabel David, de forma frontal, ainda que aqui e ali um pouco excessiva pelo uso de linguagem pouco rigorosa, e fazendo apelo à sua adesão aos valores e cultura russas, defendeu sistematicamente as opções político-militares russas, afirmando que aquela mais não fora que a reacção natural a uma política unilateral e belicista por parte dos EUA.
Chamou ainda a atenção para o facto da Geórgia ser um Estado falhado, composto por território fragmentado por várias minorias étnicas, que tem um interesse acrescido para a comunidade internacional porque pelo seu espaço passam vários "pipelines". Para Isabel David há uma tentativa clara por parte do poder americano de criar um "cordão sanitário" à volta da Rússia, registando-se aquilo que o ministro dos Negócios Estrangeiros francês chamou de "necessidade de controlar os russos", e que o "Burro de Tróia", que foi o sistema anti-míssil, torna legítimo que a Rússia queira impor o seu espaço de influência nos países da região, à semelhança do que os americanos têm procurado fazer, e manter, com a sua intervenção sistemática nos governos da América do sul.
Defende ainda a professora que a "caixa de Pandora" que foi aberta com o reconhecimento internacional do Kosovo, justifica agora a tomada de posição sobre a Ossétia do Sul, sendo ambas as regiões conhecidas por possuírem estruturas económicas semelhantes, baseados no contrabando de armas, droga e combustíveis.
..
Conclusão: Ambos os oradores concordaram que pela linha de intervenção e argumentação adoptada por si própria, a Rússia fica sem razões e modelo de acção, para continuar a reprimir os movimentos independentistas Tchetchenos, mas que também a diabolização da Rússia não contribuirá em nada para a paz internacional. Ambos consideram igualmente que o futuro poder americano terá que estudar com cuidado o pedido de adesão à Nato por parte da Geórgia e da Ucrânia e que há que ter a rússia como parceira do Ocidente. Mas em tudo o mais discordaram.
..
No final decidi que os argumentos dirimidos por Marcos Ferreira eram consistentes com uma interpretação da realidade que avaliei como mais objectiva, e que o imbróglio do Kosovo, muito bem explicado por este último, é uma razão necessária, mas não suficiente, para ajudar a compreender a atitude dúplice da própria Rússia quanto à Geórgia.
..
Claro que no futuro, a unipolaridade, bipolaridade ou multipolaridade nas tomadas de decisões em política internacional, é capaz de depender mais da cotação do crude no mercado internacional, do que do número de tanques, ou de teorias influentes.
Helás, no que diz respeito à defesa de uma ideia de multipolaridades na condução dos assuntos universais. Esta devia ser defendida pela razão humana e não pelas cotações do mercado com preços flutuantes.

terça-feira, outubro 21, 2008

Não me querem lá ver...

que aquilo que estes políticos europeus não conseguiram fazer divulgar e aceitar através da palavra, o vão fazer agora com a imposição, acenando com o medo, do número?

segunda-feira, outubro 20, 2008


Algo que os parlamentares portugueses deixaram de saber fazer:
(...)
"Cuando en el seno de las sociedades que aspiran a concretar el ideal
democrático se instala el juego retórico del verbo como persuasión,
comienza a operarse “el paso de los espacios prepolíticos a aquellos
políticos”, y ello supone “la transmutación de la violencia en palabra,
de la palabra en discurso, del discurso en deliberación, de la deliberación
en consensos, de los consensos en normas justas y eficaces” (Pino,
2004, p. 124). En consecuencia, se abandona paulatinamente toda práctica
de exterminio del otro (lo que puede ir de un simple insulto al uso
de las armas), y en su lugar aparece la práctica dialógica y polifónica
del verbo, la asunción conjunta de desacuerdos en voces acordadas
que, como en el caso de una sinfonía, logran construir desde su particular
distinción el producto final armonizado."
..
Algo que os parlamentares portugueses só parecem saber fazer, da discussão sobre os planos económicos do governo aos votos de outras propostas de leis: obedecer à voz de comando do dono, sendo este dono, no caso dos representantes da maioria parlamentar, o governo.
(...)
"El discurso alcanza su máxima expresión de ardid suasivo cuando construye
la siguiente falacia: “He preguntado. Ustedes me han dado sus
respuestas. Ustedes son parte del pueblo, y sus respuestas son las respuestas
del pueblo alemán” (Goebbels, 2004). Esta falacia se conoce
como falacia ad populum, y es pretender, en este caso, que la decisión
de apenas quince mil alemanes pudiera ser vinculante y extensiva al
resto de la nación. Más adelante presenta un entimema truncado: “Yo
me paro ante ustedes no sólo como el vocero del gobierno, sino como
el vocero del pueblo” (Goebbels, 2004), y como la voz del pueblo es la
voz de Dios, Goebbels es la voz de Dios."
(...)

"Buraco 9"

Os jogadores passavam pelo buraco 9, e muitas pessoas aguardavam na bancada que a equipa final, a que ia na frente até ao momento, passasse por ali para a continuar a seguir até ao buraco 18. Estava vento, mas era um dia luminoso. O Ministro da Economia também lá estava, junto do Presidente da Federação Portuguesa de golfe, e de pé, junto do carrinho utilizado para o transportar, observava os movimentos dos atletas como toda uma multidão, maioritariamente de nacionalidade inglesa. Mas também havia muitos portugueses, felizmente, que acompanhavam a prova "Portugal masters".
Obviamente que é uma ideia errada que o golfe seja para gente rica, o golfe é para quem gosta de desportos praticados ao ar livre, e se há campos de golfe que são estupidamente caros e esses sim são para gente com posses, também os há acessíveis e muito bonitos. Na verdade devia haver em Portugal campos públicos, algo que nos países onde a modalidade é mais praticada existe, claro. Mas adiante.
Ao reparar no Ministro perguntei-me porque razão o senhor, que não é propriamente um homem idoso, nem me pareceu debilitado de saúde, não acompanhava a competição a andar a pé como todos os outros espectadores, num exercício de cidadania? Para mais sendo ele um praticante deste desporto.
Incomoda-me profundamente que os titulares de cargos políticos portugueses façam mau uso do seu poder e da sua visibilidade. Que tipo de exemplo é aquele? Sendo, é verdade, que a maioria das pessoas o ignorava olimpicamente, não passando de uma mancha que ocupava um certo lugar no ângulo da visão periférica dos súbditos de Sua Magestade, a rainha de Inglatera. Mas eu, portuguesa, acompanhada da família, gostava que neste, como noutros casos, os ministros adequassem a suas manifestações públicas aos interesses públicos. Não é inveja do senhor, pois se ele fosse o zé das petingas bem que se podia passear de carrinho se isso o fizesse feliz e não perturbasse os direitos de ninguém, mas ele não é o Zé das petingas, estava ali em exercício de um cargo público, foi eleito com o voto popular, para procurar, entre outras coisas, fazer com que o exercício do seu dever não seja um desfile de vaidade: "Olhem para mim, aqui paradinho junto do buraco 9, ao qual cheguei no meu carrinho...olhem para o ministro!"

A verdade é que é típico de certas pessoas comportarem-se como reizinhos do regime absolutista, pois eu recordo-me como o ministro da justiça Laborinho Lúcio, em funções, e acabado de sair de uma conferência da Gulbenkian, permitiu que o seu motorista praticasse uma manobra ilegal, e perigosa, a meio da AV. da Berna. Só com estupor os podemos ver a ter semelhantes atitudes de imaturidade cívica.
..
E não é que o dia estava lindo, a competição foi renhida, e o campo cheio de gente simpática e feliz que aplaudiu com entusiasmo a vitória do espanhol, como se fora um português a ganhar? Lindo.

O poeta

O poeta veio devagarinho acompanhado pela sua esposa, também ela homenageada, também ela com um belo nome, o de Agripina. Uma homenagem é uma homenagem. Acredito sinceramente que aquilo foi melhor que o nada, mas não é por isso que vou deixar de pensar que a homenagem pareceu-me um pouco para o pífio.
Então uma pessoa tem uma obra excepcional, é um grande poeta, enorme dentro da minha cabeça e coração, e depois atamancam um encontro entre pessoas ansiosas, despachadas e pragmáticas? Raio de coisa.

Aplaudi o poeta, tentei ouvir o poeta, e no fim deixei-o com quem o acompanha no seu dia-a-dia de homem e merece a sua intimidade, porque a mim só me interessa o artista. Eu tomo por companhia as suas palavras, António Ramos Rosa.

terça-feira, outubro 14, 2008

Mil poemas para um querido poeta. Mil poemas.

Para ignorar as mentiras compulsivas deste senhor nas suas actividades públicas, e ainda que em coisas tão prosaicas, nada como esta outra notícia:


"Dia 17, sexta-feira, 16.00, Lançamento do Livro"Um Poema para Ramos Rosa"Antologia de vários Autores, Editora Labirinto". Sei também que o senhor vai receber uma homenagem sob a forma de medalhita. Querido poeta, isso faz-me sorrir... tão vulgar... mas ainda assim uma homenagem, e "vai afagar-lhe a alma", dizem-me. Pronto.

E contra as palavras que remendam a realidade do nosso orçamento baseadas na ausência de efectivas leis do arrendamento justas, empréstimos bancários com critérios, de fiscalizada utilização do dinheiro público , moralização do papel da função pública dos servidores do Estado, boa credibilidade e eficiência da autoridade judicial, entre outras coisas, só estas palavras:


Escrevo-te com o fogo e a água


Escrevo-te com o fogo e a água. Escrevo-te
no sossego feliz das folhas e das sombras.
Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.
Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes.
Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde.O que procuro é um coração pequeno, um animal
perfeito e suave. Um fruto repousado,
uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado,
uma pergunta que não ouvi no inanimado, um arabesco talvez de mágica leveza.
Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma?
Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore.
As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos.
O vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu,
o grande sopro imóvel da primavera efémera.

António Ramos Rosa, Volante Verde - 1986 in Antologia Poética, Selecção de Ana Paula Coutinho Mendes

Poderá ser a isto que Nietszhe chamou de eterno retorno, não só para descrever uma teoria sobre o que aconteceu voltar a acontecer uma vez mais, mas uma que nos explique porque conseguimos tão bem suportar a realidade, pois entre o insustentável e do qual temos aversão, e o sustentável e desejável, há efectivamente um movimento de eterno retorno, numa tensão harmoniosa que nos permite de facto continuar aqui e continuar a acreditar.
..
PS. Engraçado. Escrevo a dezasseis e o relógio do blogue assinala dia catorze. Engraçado.

Isto, aquilo e aqueloutro , com atenção e um "arrepio na espinha"

Isto
"Ainda no seu último número a Visão informava que 14 das 20 maiores empresas portuguesas cotadas em bolsa têm antigos governantes nos lugares mais elevados de decisão. Tal deve-se certamente à leveza do Estado e à sua reconhecida competência na formação de gestores de topo. José Sócrates tem talento para a liderança, mas é um homem perigoso quando se deixa levar pelos encantos do poder. Ele preside a um dos governos mais controladores de que há memória em Portugal, com pouquíssimo respeito pelo papel de vigilância da comunicação social e uma armada de assessores com grande inclinação para a propaganda. Ouvi-lo louvar o papel do Estado e reclamar maior intervenção para si próprio causa suores frios e arrepios na espinha. Muito pior do que a mão invisível do mercado a afundar a bolsa seria a mão bem visível do Estado a sair do bolso. Caro "El Comandante": se é esta a sua cura, mais vale continuar doente."
A CHEGADA DE 'EL COMANDANTE' SÓCRATES de João Miguel Tavares in DN
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Aquilo
"Há duas décadas havia evidência concreta que Portugal não tinha nem a regulação adequada nem o bom senso para aplicar medidas que evitassem investimento jogador e ganancioso com dinheiro público. Não só não havia prudência como não havia vontade política de impor salvaguardas prudenciais. O populismo sempre se sobrepôs ao bom senso. Em Março de 1999 um governante veio a público anunciar aos portugueses endividados que o Governo tinha uma lei para equiparar as falências das famílias às falências das empresas, portanto com as mesmas garantias patrimoniais na administração de massas falidas. Traduzido, o que isso dizia era: comprem o carro, a playstation e as férias em Punta Cana com o cartão, porque quando não puderem pagar o governo dá uma ajudinha. Isto aconteceu há uma década e arauto deste maná era Ministro-adjunto no Governo de António Guterres e chamava-se José Sócrates. É bizarro e preocupante que estes actores do passado e do presente, acolitados por executivos de uma banca em dificuldades, nos venham de hora a hora dizer que está tudo bem. Não está. Deviam dizer-nos para deitar fora o cartão de crédito. Deviam obrigar os anúncios do Credito na Hora a ser exaustivos na explicação do que oferecem. Deviam sugerir que muitos de nós não temos dinheiro para ter nem plasma nem carro. Que, de facto, já não temos casa. Que temos que fazer opções entre aceitar o canto dos prestamistas que, com ou sem fraque, nos virão cobrar, e fazer economias para a educação dos nossos filhos, porque só essa nos pode garantir algo de sólido no futuro. E isso não vem com computadores à borla e "garantias" de segurança de quem nunca as assegurou. "
Mário Crespo, A valsa in JN
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Aqueloutro
"Todavia, não é a ONU que mais precisa de ser convidada a mudar para enfrentar os novos desafios da ameaçadora conjuntura mundial. É a atitude dos Estados membros, sobretudo dos que reservaram os privilégios correspondentes à hierarquia do poder, que tem de reflectir a realidade mundial que lhes reformulou as capacidades efectivas; é a atitude dos restantes Estados, ainda geralmente orientados pelo conceito da soberania absoluta que não poderão sustentar, que precisa de ser esclarecida; são os poderes fátcicos dominantes, especialmente os poderes financeiros em crise e os poderes da comunicação social sem regulação mundial, que necessitam códigos de boa conduta."
A MUDANÇA Adriano Moreira in Dn

domingo, outubro 12, 2008

sexta-feira, outubro 10, 2008

Santos ao pé da porta também fazem milagres

"PODGORICA (AFP) — Depois de Montenegro, a Macedônia reconheceu nesta quinta-feira o Kosovo independente, o que representa uma derrota para a Sérvia no dia seguinte ao seu triunfo nas Nações Unidas; a Assembléia Geral da ONU havia solicitado que a Corte Internacional de Justiça (CIJ) se pronunciasse sobre a legalidade da proclamação da independência de sua antiga província."
O problema, uma vez mais, é onde fica a autoridade da ONU? Ninguém acredita na justiça do tribunal Internacional, querem pressionar essa justiça de forma política, ou não admitem a intrimissão da justiça em assuntos considerados políticos? Nunca mais nos entendemos.

quinta-feira, outubro 09, 2008

Desviamos os olhos um segundo e...

coisas acontecem. Algumas risíveis: a nossa criança ganha cotão debaixo das unhas que se transformaram em garras, o cabelo cai-lhe esfarripado sobre as orelhas e os olhos, as calças que julgávamos limpas descobrimo-las, à luz crua da manhã, à porta da escola, que têm nódoas, que até já cresceu uns centímetros e adquiriu um vocabulário novo do qual não reconhecemos o léxico. A casa acumula livros e jornais, as roupas ficam por arrumar, o ar por arejar. Um segundo e a vida desatina. A vida que controlamos civilizadamente há séculos e nos permitiu sobreviver erectos, a vida segura dos rituais de conforto e de segurança. Outras vezes coisas acontecem de forma trágica. Alguém morre e uma ideia de nós com ela, ou mesmo nós com ela, ou um alívio pela sua morte que há-de um dia confundir-se com um alívio para alguém pela própria hora da nossa, e que começa então a insinuar-se connosco; alguém nos atraiçoa e uma ideia de eternidade vai com ela, ou, muito pior, atraiçoamos alguém, e nem uma ideia de culpa nos amortece a queda, porque não estamos mais por ela, ou não estamos mais por nós com ela.

Na crise económica, ou política, como podemos não desviar os olhos, nós que não sabemos olhar sequer para o que vemos? Sabemos nos entanto que os economistas que temos e os políticos que temos, os que ouvimos pelo menos, não estão a dizer nada que seja confiável, que seja uma linguagem nova, que invente uma solução, ou que exceda uma resolução que não passe pela do tempo que há-de correr. Porquê esperar na resolução que há-de vir com os outros? Deve ser o síndrome da princesa indefesa e aprisionada na torre à espera do seu princípe, alimentado por séculos de governos políticos que premeiam a menorização das gentes.
Não sei explicar o tempo, mas compreendo o que é o tempo, dizia-nos Santo Agostinho. É o sentimento semelhante da população, julgo eu, que não sabe explicar porque não acredita nas explicações e nas soluções dos economistas e dos políticos, mas sabe que não acredita.

Qualquer pessoa reconhece o trabalho infindo, mas eficaz para a estrutura de uma família ou de um indivíduo, que resulta da necessidade de manter uma casa limpa e arrumada, refeições equilibradas, actos sociais de convívio, um sistema qualquer em estado funcional, um ritmo previsível para a existência, pois que entre o caos e a ordem a fronteira é uma linha para o finito, um esforço individual e do grupo para assegurar a coesão, para resistir à indiferença, à frustração, ao desânimo, à impotência.
Al Gore refere os psicólogos que estudam o fenómeno dos vínculos do indivíduo ao grupo, para referenciar como um sistema que não premeia os seus concidadãos com o respeito pela sua perspectiva e/ou participação nas questões fundamentais está a preparar-se para ter como interlocutores indivíduos muito agressivos e violentos que porão em causa o próprio sistema democrático onde os dirigentes procuram encerrar-se.
Desviamos os olhos um segundo e... também nos acontecem coisas boas. O tempo relembramo-nos que não estamos no fim da história, pelo menos da colectiva. E às vezes até sabemos como pairar sobre os acontecimentos: Ai está a acontecer uma crise durante a qual os estupores dos gestores da AIG foram de férias com o dinheiro dos contribuintes americanos? Aí o meu governo continua a insistir num tom e num modo de governo monocórdico e que soa a falso? Ai o meu admirado escritor Baptista-Bastos está a braços com uma situação pouco ética? Ai, sim? É terrível, é, mas eu se calhar vou ali e já volto. Pelo menos uma coisa há-de acontecer entretanto: lá fora o tempo passou, cá dentro, só eu sei. Depois essa coisa de inscrição nos acontecimentos... bom, na prática como é?
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José Gil na semana passada e António Lobo Antunes esta semana escrevem textos memoráveis na revista Visão.

terça-feira, outubro 07, 2008

"Adjectivar a economia com (nova) política"

"No caso pendente /processo eleitoral para a escolha do presidente dos EUA/, é de não esquecer que a decisão do eleitorado americano vai ser um exercício de uma minoria nacional em face da maioria de Estados e povos que serão afectados pela decisão final do pleito, mal informados do que significa a preferência americana, agora, antes, e nos actos finais da disputa, por um dos candidatos. A primeira dúvida traduz-se na questão de saber qual é o critério da escolha que virá a ser feita pelo eleitorado em processo de captação. Talvez nesta altura já tenham perdido a referência que inicialmente centrou as dúvidas sobre a importância da etnia e do género entre os motivos que condicionariam a resposta final. Mas parece subsistir uma atenção, não apenas difusa, sobre as questões referentes à idade e experiência, circunstâncias relacionadas com o binómio passado e modernidade. Todavia, a agressão de autenticidade levada a efeito pelo desastre do sistema financeiro talvez tenha esclarecido que o debate é entre um candidato jovem, não comprometido com a governação que presidiu ao desastre unilateralista, e o próprio Presidente em fim de mandato, este a ser julgado por interposta pessoa, que em muito estará de facto impedido de ser inovador e alheio à herança republicana. Para o eleitorado, as coisas ficarão definitivamente mais claras, antes de chegarem ao voto, se entretanto a intervenção do aparelho judicial americano, com a impetuosidade tradicional, desenvolver a identificação dos juridicamente responsáveis pelo descalabro, para mostrar que o Estado está de volta aos domínios da mão invisível, e não apenas com recursos financeiros. Para assegurar que é necessário adjectivar a economia como política, para que a justiça não seja apenas a testemunha dos desastres. Por enquanto, o empate técnico é o nome da perplexidade dos surpreendidos americanos."
Adriano Moreira, DN online

segunda-feira, outubro 06, 2008

domingo, outubro 05, 2008

Este país não precisa de heróis

e como não precisa, arrasa a memória daqueles que procuraram ser uma espécie de heróis, mesmo se por procuração viciada por outrem.
Uma guerra não é motivo de orgulho para ninguém, não o é para os vencidos, mas não o deve ser também para os vencedores. Sobretudo para estes. É um saber feito de cumprimento de ordens, penso eu, de sacrifício por uma ideia que muitas vezes lhes é tão estranha como a realidade contada por uma língua que não se conhece. É um sentido ultra construído do cumprimento de um dever. Mas um cumprimento de dever, assim mesmo. E isto é um feito.
Mas se uma guerra não deve orgulhar ninguém, e se os combatentes não são na era moderna senão uma espécie de heróis, pela debilidade dos princípios ou das intenções que mascaram esses princípios pelos quais são levados a combater, todos e todas os que nela combatem não devem deixar de ser honrados pelos seus concidadãos.
Os cemitérios por essas pequenas cidades e vilas fora tinham os seus talhões de combatentes resguardados em eira de terreno assinalado com símbolos que os irmanava a todos uma vez mais, formando uma companhia de homens da terra que tinham representado Portugal em conflitos que este achara por bem resolver com armas, e que ao morrerem, em combate, ou mais tarde já civis na vida do dia-a-dia, ali encontravam um espaço de reserva e de excepção, um sinal de memória e de apreço. Um sinal vão, e ainda que fútil, eu sei, se tivermos em conta final os séculos, mas um sinal ainda assim.
Mas agora que se embandeirou o espírito do lucro e da posse como forma suprema de representar e assim se entender a forma legítima do governo da coisa pública, esses espaços vão sendo abolidos em nome da democratização do espaço.
O que se perde socialmente com essa realidade não se ganha em consciência pacifista, ou em valores democráticos por se escolher subalternizar os defensores de práticas bélicas na resolução de conflitos, como forma de destacar outras formas da civilidade responder às agressões. Era bom era.
Não, é tudo feito em nome dos interesses imediatos da desocupação dos terrenos, da contenção dos custos de manutenção, da ligeireza no passar um pano sobre as tradições e os costumes que provaram ser úteis para uma identificação das pessoas com o seu passado, com os seus conterrâneos, e com uma sabedoria acrescida para enfrentarem os seus projectos de futuro. Senão somos só virados para o presente. Sacos de plástico vazios a esvoaçar no vento das circunstâncias familiares, sociais, económicas e políticas do presente.
Enfunamos, esvaziamos, serpenteamos, enrolamo-nos, subimos, pairamos, retesamos, caímos e encolhemos. E quando acabar o vento? Onde ficamos nós? Ao lado de quem? E com quem pelo nosso lado?

sexta-feira, outubro 03, 2008

O que pararece ser a União Europeia? O que é: sem federalismo e sem constituição, cada um salva-se como pode.

"Votre avis:
Face à la crise financière, l'Union européenne vous paraît-elle constituer plutôt…

1. un atout, qui permet d'affronter la crise à plusieurs
2 … ou pas un atout, chaque pays tire de son côté
3 Sans opinion"

Pergunta o Le Monde em inquérito on-line ao qual os franceses que participaram respondem:
2... ou pas un atout, chaque pays tire de son côté . 56.8 %

E a capa do jornal traz na capa a seguinte constatação "Chacun pour soi: les Européens se divisent sur la crise financière". O que me espanta então? Não é que haja 56,8% que percepcionam a Europa dividida (uma vez mais) em assuntos de interesse global, mas sim que haja quem continue a acrditar (39, 4% à hora em que li os resultados) na Europa.

quinta-feira, outubro 02, 2008

Com um abraço

Agardeço profundamente a Paulo Carvalho do blog Arte do Perigo.

Raios de luz a cruzarem o meu céu de solilóquios.

Acerca da biografia de Arendt...talvez 1

Uma vez convivi com uma pessoa especialista em Relações Públicas. Ela dizia-me que não havia ninguém a quem não conseguisse sacar informações, e eu acreditava. Contava-me histórias de muita gente, sobretudo das pessoas do nosso meio de estudo, a academia. Eu passava demasiado tempo a ouvi-la, dividida entre o sentimento de náusea e de fascínio boçal. Mas ficava, e nem o "Ai que nojo que isto me mete!", me afastava liminarmente da sua presença. Eu gostava , apesar dos trejeitos como esboço de resistência.
Um dia, alguém que não gostava de mim resolveu subitamente explicar-me porque não gostava de mim, pois achou intrigante que aquilo que eu parecia ser não coincidir com o que ela julgava de certeza que eu era. E falou de mim como se falasse de uma pessoa que eu nunca tinha visto ou conhecido. Aquela pessoa que dizia ser eu, não o era de facto. Não por minha recusa psicológica na assunção das falhas de carácter apontadas, não, ora!, mas porque realmente aquela descrição de factos acerca da minha pessoa não correspondia à minha pessoa.
Vejamos, não era só uma questão de interpretação dos actos, porque aí ficar-se-ia no terreno pantanoso das múltiplas e possíveis versões dos acontecimentos, e isto é algo normal numa sociedade, são formas de convívio, nem ainda por reacção negativa à minha personalidade, porque isso, enfim, é uma questão decorrente da socialização. Mas não era isso, na realidade eram-me claramente imputadas acções que eu nunca realizara em tempo algum em estado de vigília.
Eu, ali, era outra pessoa, não simbolicamente, mas com um outro papel social de facto.
Indicaram-me a fonte e eu percebi que a mesma pessoa que dizia recolher a informação sobre outrem, afinal a estava a criar para a dar a um público ávido onde quer que ele houvesse, a mim, por exemplo, quando sobre os outros, e a alguns outros sobre mim.
Compreendi o poder que há em construir factos e personalidades no grupo social. E contra isso só há uma panaceia: alguém se dar ao trabalho de nos querer conhecer de facto, ainda que esse conhecimento não seja uma senha de entrada no círculo da amizade ou admiração mútua e eterna, mas de conhecimento o mais próximo da realidade possível, tão só, tanto, de resto...
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Comecei as primeiras páginas da biografia de Arendt fascinada com a história do século XX que aquela mulher conseguiu incorporar no seu circulo existencial, e depois comecei a sentir aquela náusea já minha familiar: o livro desemboca na vontade de contar a vidinha da autora, aquela parte em que se fica no limiar do mexerico e da maledicência. E isso aí é responsabilidade de Laure Adler. Não estou a insinuar que ela tivesse criado os factos, mas que os iluminou excessivamente para a história de uma pensadora. Hei-de tentar explicar melhor isto.

quarta-feira, outubro 01, 2008

A universidade e o forte 5

Vamos então à história dos livros. Nas duas livrarias em que entrei na cidade de Natal os livros não têm o preço marcado. Na primeira, uma assistente leva e traz os livros de cada vez que queremos saber o preço do exemplar seleccionado, na segunda livraria percebi que nós mesmos temos a opção de podermos levar o livro ao sistema informático preparado para assinalar o preço. Questão de hábito. A mim tolhe-me.

No primeiro caso a empregada, simpática e disponível, resolveu pôr-se a uma distância confortável para poder assistir-me imediatamente. Ora para quem não está habituada a ter uma funcionária atrás de si, e para mais a pedir-lhe sistematicamente que leve e traga de volta livros dos quais queremos saber o preço, torna-se constrangedor. A partir de certa altura já tinha vergonha de lhe pedir que me elucidasse mais sobre os preços e dei por terminada a minha busca. Trouxe dois livros. Caros. Os livros no Brasil são mesmo caros. Fiquei a imaginar como é que as pessoas com os ordenados tão baixos conseguem comprar os livros a preços europeus! Sempre imaginei que aquele mercado gigantesco, com uma capacidade de tradução espectacular, conseguisse pôr no mercado livros mais acessíveis economicamente, mas qual o quê!

Bom, nessa altura um dos livros que adquiri foi a biografia de Arendt , escrita pela francesa Laure Adler. Comecei imediatamente a lê-lo, e nos dias brasileiros de sol, vento e água, Arendt na sua vida na Alemanha e nos Estados Unidos acompanhou-me.

Ir-me-ia arrepender de não ter comprado a edição em francês, mas mesmo se em francês penso que a perspectiva de Adler ir-me-ia sempre irritar. Passo a explicar a primeira afirmação.

A tradução aqui e ali dá conta do vocabulário coloquial brasileiro com as suas idiossincrasias, o que me burilou os nervos. O problema não está propriamente na tradução como acto, que na realidade respeitou o vocabulário comunicacional brasileiro, está é no facto de eu não conseguir imaginar Arendt a utilizar certo vocabulário do estilo "novela das nove". Não posso dar exemplos específicos porque não tenho o livro agora comigo, mas imaginamo-la a dizer por exemplo:"O cara quis me paquerar", ou coisa que o valha?


Não é tanto um preconceito contra a tradução brasileira em geral, mas contra o uso de um certo tipo de linguagem que é notoriamente cultural e remete para um registo que, aos ouvidos de um português, dos meus ouvidos pronto, denota um discurso pouco rigoroso e pouco fidedigno.
Na realidade, quando eu fiz a licenciatura éramos alertados para não comprarmos traduções brasileiras, não só porque era suposto lermos as obras na língua original, por questões hermenêuticas, mas também porque fomos ensinados a desconfiar da fiabilidade das traduções.
Hoje que o domínio de traduções em português do Brasil continua a expandir-se a uma grande velocidade, por contraponto à velocidade de caracol das nossas, e que os académicos e as universidades brasileiras ganham visibilidade e qualificação reconhecida globalmente, já não se anuncia da mesma forma esse aviso, mas permanece como um sinal de certo obstáculo cultural.
Há que não esquecer, como fez questão de lembrar o Prof. António Fidalgo da UBI, que só na cidade de São Paulo, por exemplo, há tantos investigadores em Cncias da Comunicação como em Portugal inteiro!! Mais gente, há muito mais tempo a trabalhar nesta área, e muito boa.


E depois também não gostei propriamente da biografia. Mas isso fica para amanhã.