domingo, julho 02, 2006

quatro dias

1º dia:"O que aconteceu ao Porto foi que teve demasiados escritores inscritos no quotidiano, e poucos com correspondência na eternidade. Estes são os humilhados, os que são atraídos entre a lisonja e a verdade, entre o riso do bufão e a ciência do mago, entre a simples balada do mensageiro e a via do isolado social." p.182
2º dia: "Mas era, com tudo isto, extremamente delicada; isso resultava do próprio prazer de viver na sua conciliadora imagem do mundo". p.41
3ºdia:"Quando os portugueses produziram frutos na imaginação de outras nações, foram de facto grandes". p.77
4º dia: "Há muitas coisas belas na terra, mas nada iguala a recordação de um dia de verão que declina, e temos onze anos, etc. etc." p.193

Agustina, As pessoas Felizes, Lisboa, Guimarães, 1975.

Como se.

quarta-feira, junho 28, 2006

E no entanto...

"Campo de concentração de Buchenwald. Fotografia tirada no dia da libertação do campo pelas tropas aliadas em Abril de 1945. No segundo beliche, o sétimo a contar da esquerda é Elie Wiesel." In Wikipedia


Jornalistas, intelectuais, Estado Novo e censura. Bailam à frente dos meus olhos nomes, referências e ideias (então Ruy Belo pertenceu à Sedes?). E no entanto não consigo esquecer as palavras ditas de mansinho que escutei há horas a Elie Wiesel. Falava Wiesel, e ouçam-no mesmo a falar, sobre o mal, a destruição e a humilhação com que é possivel uma pessoa subjugar outra de forma a aniquilá-la. E na sua incompreensão relativamente ao significado desses actos, ao sentido dessa experiência. Onde está a resposta que ajude a compreender uma política que ponha em acto fazer primeiro com que se perca a nacionalidade, depois o bairro, o gheto, a rua, o grupo, a família, o nome, o número, e finalmente a vida?

"And yet...", diz ele que é sua expressão preferida.

E no entanto..., cá estamos. Nós que afinal só temos que sobreviver a esta vidinha dividida entre a burocracia estatal e os sobressaltos da inteligência e da emoção que ainda conseguimos sentir.

Oh as casas as casas as casas, de Ruy Belo

Um dos poemas mais amados de um dos poetas mais amados.



Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
respirei - ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas
Ruy Belo, Todos os poemas, Lisboa, Assírio e Alvim, 2000, p.212.

Lei das rendas

As nossas cidades conseguem ser de uma beleza rara e de um horror insustentável, ao mesmo tempo e na mesma rua. Lisboa, vista ao longe, do degradado mas lindo cais do Ginjal, por exemplo, é a cidade mágica do mediterrâneo. O Porto, visto ao longe, do cais de Vila Nova de Gaia, é uma sucessão de fortalezas com pormenores de renda de bilros nas suas moradas. Outras cidades, imersas na luz ou no verde, surgem-nos galantes, mas depois... percorridas as suas ruas, há muitas vezes o sentimento de que se nos cola a alma ao degradado dos edifícios, à miséria que adivinhamos em alguns lares, à pobreza de alguns restauros.
Agora aí está a nova lei das rendas que é esperada há anos. Será que vai pôr fim à ganância de alguns senhorios e de alguns inquilinos? Que vai reequilibrar o mercado, mas sobretudo, reequilibrar o urbanismo nas cidades?
O que eu sei de inquilinos que andam a tentar extorquir dinheiro aos seus senhorios, depois de terem vivido toda uma vida nessas casas e de nelas já não habitarem há tempos porque foram gozar a sua reforma para fora de Lisboa, e o que eu sei sobre senhorios que deixam degradar propositadamente a sua propriedade para obrigar os inquilinos, muitos deles fragilizados economicamente, a sair, já dava um opúsculo. Mas deixo isso para quem sabe melhor.

comunicação política no seu melhor

O presidente da Câmara Municipal de Viseu e presidente da Associação Nacional de Municípios Portugueses, Fernando Ruas, fez, mais uma vez, um discurso do mais fino recorte em retórica política. Desta vez ouvimo-lo dizer durante uma reunião com autarcas que estes deviam "correr à pedrada os fiscais do ambiente", já que estes estariam a ser um empecilho ao desenvolvimento das regiões, garantindo depois que sabia muito bem o que estava a dizer. Ora num país que peca por excesso de reformas na maior parte das áreas dos serviços públicos que depois nunca são fiscalizadas, logo nunca são acompanhadas na sua implementação e desenvolvimento, e num país que desbarata o seu meio ambiente, isto cai que nem mosca na sopa.
O que pensará disto a recém criada comissão da Unesco para a Educação do Desenvolvimento Sustentado? Comissão que tem, aliás, o documento aberto para discussão pública no blogue "Desenvolvimento sustentável".

terça-feira, junho 27, 2006

ONU - 1948

Escrevia Pinheiro Torres no diário "A voz", no dia 1 de Nov. de 1948, p. 1: "(...) um parlamento, cuja instalação custou cerca de 900 milhões de francos, e onde há de tudo, inclusivamente uma enfermaria completa, preparada para os casos de urgência, até de um parto imprevisto.
Para os 58 ministros dos Negócios Estrangeiros, que estão reunidos em Paris, são necessárias mil e quinhentas secretárias, além de muitos milhares de delegados e jornalistas.
A isto chama-se Organização das Nações Unidas, no seio da qual reina a maior desunião, verificando-se dia a dia a existência de dois blocos, que não podem entender-se.
Ninguém acredita na ONU, ninguém espera nada dela. (...)".

Escrevia José Augusto no "Diário Popular" a 11 de Dezembro de 1948, p. 4: "A Sexta Comissão, estabelecendo as bases jurídicas do Genocídio, terá bem merecido da Humanidade inteira. Não era, pois, justo que sobre os seus trabalhos se tivesse tecido um silêncio tão grande - silêncio feito de descrença e cepticismo... (...)
A máquina da ONU é cara, (os Estados Unidos que o digam), mas a guerra que se faz, custa bem mais caro do que a Paz que não se alcança."

Em 1948 estavam em guerra a Palestina, a Grécia, a China, a Indonésia, a Indochina (sudoeste asiático), a Índia com o Paquistão.

Acompanhar o seguinte blogue de José Adelino Maltez, História do Presente:1945

segunda-feira, junho 26, 2006

Austrália/ Portugal

Os esquerdistas portugueses querem a manutenção do caos em Timor? Sem a pressão da Austrália sobre o presidente da Indonésia, Timor, "esse acidente histórico", não se teria tornado uma nação independente? A Austrália, muito solidariamente, até celebrou um acordo petrolífero vantajoso para Timor? O senhor Alkatiri é um marxista à solta num Estado de direito? Ena, ficamos todos mais esclarecidos com este editorial.

Bandeira portuguesa

Tal como o excesso da sua presença não me incomoda, a sua ausência também não me levantava problemas. E lembro-me até de como ainda há uns anos nos Açores (provavelmente devido aos hábitos dos emigrantes do arquipélago provenientes na sua maioria dos EUA e do Canadá), eu sorria sempre que vislumbrava uma bandeira portuguesa hasteada, pela novidade da prática e pelo desafio que representava os açorianos quererem afirmar-se no mundo como portugueses. Nada de admirar para quem lhes conhece a história social e política, de admirar para quem os soube praticamente abandonados à sua pouca sorte, no que a um desenvolvimento económico diz respeito, durante quase todo o século XX.
Leitora casual da imprensa portuguesa do pós-guerra é-me frequente encontrar bandeiras portuguesas nas fotografias que acompanham as acções governativas, sociais e culturais do Estado Novo. O culto pela nacionalidade é evidente. Julgo que terá sido contra esse excesso, e o que ele representava no cerceamento de liberdades que se sabia existirem noutras comunidades, e pelo preenchimento do espaço que se deixara vazio, o espaço do estrangeiro, dos outros Estado distintos do nosso, que a revolução do 25 de Abril trouxe novas bandeiras que vieram ocupar o lugar da bandeira de Portugal. Havia as bandeiras partidárias, as sindicais, as dos clubes de futebol e as das autarquias e guardava-se a bandeira portuguesa para as sessões solenes ou para os jogos olímpicos dos nossos desejos.
Bom, agora, sem preconceitos nem revivalismo político, vejo-a como sinal de consentida identificação de um povo e da sua ligação à terra. Se foi através do futebol que isso aconteceu importa-me pouco, pois mais vale ser o futebol a levar as bandeiras às janelas do que uma reacção xenófoba colectiva, ou como reacção de medo aos outros, ou de arrogância nacionalista. Prefiro mais ouvir as buzinas a tocar do que os tambores a rufar.

sexta-feira, junho 23, 2006

Timor

As palavras do General Alfredo Assunção . Mas também não me consegue convencer totalmente quanto à autoria da criação do "facto" político em Timor, porquê?

Timor

Sim, obrigada, andarilho. Vou seguir o que escreve sobre Timor.
Seguirei também o que escreve Ana Gomes, Tiphon e Paulo Gorjão, entre outros, para poder ter discursos variados que procurarei depois fazer cruzar. Espero que me dêem mais factos do que opiniões, porque essas consigo formar eu. E opiniões sem sólidas informações a sustentarem-nas não são exemplo para nada.
No post anterior também me enganei ao dizer que sobrevalorizei a influência da ordem externa sobre Timor, na realidade subvalorizeia-a desde o início, circunscrevendo-a à manifestação de interesses legítimos por parte da Austrália em querer assegurar estabilidade social e política na região. Terei que estar atenta.

quinta-feira, junho 22, 2006

As desventuras de um senhor inglês em Bruxelas


Que haja muitos carros com bandeiras portuguesas a apitar no Domingo à noite. Oops, sorry David!

Football is not my sport
Posted by David Rennie at 22 Jun 06 20:59

Football is not my sport, to put it politely, so I had expected to spend the World Cup in a state of near-total ignorance, with no idea about day-to-day results. I underestimated the effects of living in a melting pot like Brussels, where nearly half the inhabitants are non-native.International residents in Berlin also show their colours I always knew I was one of many foreigners in my commune – scruffy, lovable Saint-Gilles. But in the last few days of football madness, flags of all nations have sprouted on shop fronts. More flags hang from the art nouveau balconies of the crumbling mansions that line each boulevard. Suddenly, the nationalities of my neighbours have been magically revealed. Looking up at a large apartment block, it is as if someone has waved a wand, or pulled aside a curtain – oh, there’s a Turkish family, next to Brazilians, and Italians on the other side. And look at all those Portuguese. I knew this had once been a Portuguese and Spanish area, but thought they had moved on, replaced by the North Africans and Poles I meet each morning on the streets. I had no idea how many remained. Cycling to the next-door commune of Anderlecht, I began idly counting Portuguese flags, and gave up after I reached 30. And that is how I have been learning the results of matches, too. Whenever I hear cars whizzing up and down the main streets, tooting their horns in triumph, I just check the flags. Tonight, giant Italian flags are flapping from car windows, beneath my office windows. So I assume Italy won a match this afternoon. If you are not following the World Cup closely either, I can post more results tomorrow… if you can wait a few hours for me to check the flags, and you don’t mind not knowing the losing team.
Posted by David Rennie at 22 Jun 06 20:59

Timor

Bom, vejo agora que a minha penúltima interpretação sobre a situação em Timor, assente nas informações que a diplomata timorense tinha exposto, revela um nível de ingenuidade arrepiante quer quanto à minha sobrevalorização dos interesses e das influências externas sobre Timor, quer sobre movimentações políticas internas relacionadas com a conquista do poder. Mas há quem esteja hoje a representar Timor na mais alta esfera política a quem também não faltou ingenuidade, ou visão política, o que é, isso sim, preocupante. Ontem.
E hoje, o voluntarista presidente timorense, estará a agir, "lui-même", com ponderação?
Cabe-nos também perguntar como é que o pessoal da ONU se relaciona com as populações para onde são enviados em missões de paz? Não há regras que lhes ensime a discrição e a contenção no relacionamento em público e no poder?
"Il n’y a pas eu d’affrontements entre le personnel de l’Autorité transitoire des Nations unies pour le Timor-Oriental (Untaet) et le peuple du Timor-Leste parce que nous avons agi de telle sorte que cela ne puisse pas se produire. Mais la tension était permanente. J’ai été obligé d’aller moi-même demander aux autorités onusiennes de partir immédiatement après la déclaration d’indépendance parce que je pressentais, à la fin de la mission, que le pire pouvait arriver d’un moment à l’autre. Il y avait beaucoup de frustrations, de malentendus, le choc culturel était évident. Par exemple, nombreux étaient ceux qui venaient me voir pour se plaindre du fait que le personnel de l’ONU disposait de nombreuses voitures, dépensait beaucoup d’argent dans les restaurants et les bars de Dili, occupait les meilleurs postes administratifs ou techniques. Les Timorais en étaient écartés, ils n’avaient pas d’emplois. Mes compatriotes étaient en fait les spectateurs d’une mise en scène financée par l’argent que les donateurs avaient voulu nous donner."
Xanana Gusmão

triste realidade: crianças desaparecidas

Para pensar e procurar agir: JN
Para apoiar: site do dia no portal Sapo

Onde estão as outras crianças desaparecidas em 2005 e que até agora não foram encontradas?

Realidade

Acompanhar as notícias sobre os acontecimentos, destacá-los de entre todas as realidades que percepcionamos diariamente, é uma tarefa para uma alma como a de Sísifo. No entanto, sem que eu tenha a energia ou a concentração na luta contra a mortalidade que aquele rei revelou, e sem esquecer que já aqui neste blogue comentei as relações entre israelitas e palestinianos, tenho que lamentar, mais uma vez, a displicência com que os Estados lidam com a vida de civis. Desta feita crítico Israel, porque tal como não comprendo os atentados contra a nação israelita, também não compreendo, nem é aceitável à luz do direito internacional, os raides que Israel tem direccionado contra a Palestina. Neste caso, a impotência da intervenção da ONU, por responsabilidade directa dos Estados Unidos, é bem visível nos últimos 50 anos. Um argumento de peso para todos os que defendem que o sistema polítco internacional depende em primeira instância dos interesses económicos, políticos e geo-estratégicos de cada nação em cada momento histórico, assim bem como do poder manifesto por cada potência involvida ao impôr esses interesses.

quarta-feira, junho 21, 2006

Solstício de verão

Ou como se consegue passar um dia inteiro quase sem o sentir, imersa nos acontecimentos políticos do mês de Dezembro do ano de 1948.
Como já então era visível na imprensa o alinhamento teórico dos defensores de uma leitura mais realista da acção política, pela análise das relações de poder das potências em jogo, contra os ideais dos universalistas, aqueles que James E. Dougherty e Robert L. Pfaltzgraff, jr, denominam de neoliberais.
Em Portugal podemos identificar, ainda que eu o vá fazer agora de forma simplista, argumentos de um lado e do outro, na forma como se atacou ou defendeu o papel das Nações Unidas no mundo. Diziam os realistas que se estava a gastar muito dinheiro numa organização excessivamente submetida ao poder soviético e sem autoridade, pois nem sequer conseguia fazer cumprir as suas resoluções para o Médio Oriente, isto em jornais como "A voz". Diziam os mais idealistas que há que continuar a fazer cumprir os princípios internacionais que regem a relação entre os estados de molde a manter a paz e evitar os crimes contra a humanidade, mensagens passíveis de serem lidas no jornal "República".
Devia desenvolver mais sobre este debate entre realistas e neoliberias no que a relações internacionais diz respeito. E no entanto..., o solstício lembra-me Deméter, Deméter lembra-me Mary Renault, Mary Renault lembra-me o cavalo de Alexandre, o cavalo lembra-me uma certa égua, uma égua lembra-me uma salamandra e uma salamandra lembra-me Stonehenge e Stonehenge lembra-me Marion Zimmer Bradley. É o que dá não apanhar sol.

terça-feira, junho 20, 2006

Política: relação meios-fins. Exemplos.

Tomem-se os seguintes exemplos de políticas que estão relacionados com fins: Nova lei das finanças locais. Leia-se, para se perceber qual é a finalidade desta lei e o que ela poderá trazer de novo às relações políticas entre cidadãos e o Estado, o editorial de Martim Avillez Figueiredo no Diário Económico de hoje, à tarde já deverá poder ser lido online, ou o editorial de Helena Garrido no DN Online. A nível internacional, uma decisão política relacionada com fins é a decisão do governo espanhol em permitir o referendo na Catalunha relativo ao novo estatuto para a região. Como se compreenderá, cada uma destas medidas, diferentes nos seus propósitos, têm como finalidade uma alteração radical do modo como as sociedades portuguesas ou espanholas, e mais especificamente os catalãs, entendem a sua relação com o Estado. Para o bem ou para o mal altera a concepção de Estado que temos todos. Cada uma à sua maneira são políticas que visam um fim: maior autonomia e responsabilidade dos cidadãos pelo seu destino político.

Políticas relacionadas com meios, logo problemas a exigir uma intervenção mais técnica do que ideológica: Em Portugal o relatório do Observatório dos Sistemas de Saúde, considera "atabalhoadas" as medidas que o Ministro da saúde adoptou relativamente ao caso do encerramento de maternidades. Meios mal explicados, adaptados e implementados. Eu, que sou contra o encerramento de maternidades, nomeadamente a de Elvas, e compreendendo que devo respeitar as decisões técnicas em geral mas sem me coibir de exigir mais e melhores serviços, nem vou argumentar com os casos de dor que aqueles pais estão a viver, e também porque foram obrigados a sair de Elvas para terem os seus bebés.
O senhor "ministro" diz que não comenta as críticas do relatório porque são juízos de valor. Mas os juízos de valor são muito objectivos, senhor Ministro, não os subestime, porque eles avaliam os meios (mal) aplicados.
Em Espanha enfraquece-se o poder da ETA ao deter-se os elementos do grupo que estariam relacionados com a manutenção do aparelho financeiro da organização separatista Basca. O que o governo espanhol concede em termos de finalidade política, não concede aos meios para-militares que visam obter qualquer fim político pela violência.

conhecimento

Não estarão a confundir a realidade com o preconceito sobre a realidade do pensamento filosófico, amigos meus que acham que não há influência na prática da teoria filosófica? Pois eu digo-vos que não conheço nenhuma teoria filosófica, nenhuma, que não tivesse uma influência determinante sobre a realidade, sobre as nossas formas de vida. É por isso que a distinção pouco realista entre juízos de facto e juízos de valor só interessa para efeitos de sistematização do pensamento, é por isso que me preocupa a pouca atenção dada pelos nossos governantes às ciências humanas e às humanidades em geral, porque não há tecnologia que sustente a força de uma ideologia. E sobre esta força é preciso ponderar.

segunda-feira, junho 19, 2006

Monty Python - International Philosophy

FM enviou-me esta referência. O mais divertido e fantástico de todos os jogos de futebol. É uma delícia.

Pensar a política

Ontem à noite fiquei a ouvir Pepetela no programa "conversa afiada" e por isso não assisti à entrevista de Pulido Valente. Sabia que hoje o podia fazer.
Pese embora o tom e a pose que aos meus ouvidos e aos meus oolhos são percepcionados como atitude de condescendência para com os restantes mortais pouco esclarecidos, o que me provoca alguma exasperação e é obstáculo à admiração plena, não posso negar que Pulido Valente pensa muito bem. E pensa bem mesmo havendo da sua parte uma identificação clara e excessiva para um pensador, demasiado excessiva para a forma como eu entendo dever ser a relação pensador/partidos políticos, aos temas e figuras representativas de um determinado partido.
Há nas análises de Pulido Valente uma ideia de história de Portugal, algo que é sempre aliciante tendo por contraste as “desabitadas” representações intelectuais com que somos confrontados diariamente nas análises políticas.
Parece-me que o historiador compreende algumas regras que regem a sociedade portuguesa de modo curioso, mas tenho pena que não tivesse conseguido responder, ou não tivesse querido responder, à objecção do director do Público quando este lhe perguntou algo deste género, cito de memória: "Sendo que os problemas de Portugal têm duzentos anos, tal como Pulido Valente estava a dizer (Estado gigantesco, deficit interno, etc), e se na realidade só durante o tempo de Salazar o problema das contas de Portugal esteve saldado, será então que a solução para Portugal ao nível financeiro só pode passar pela existência de um governo autoritário, não democrático?"

Pois a democracia em Portugal tem tido este preço. Há que reformá-la, mas a alternativa não é sequer ponderável. A alternativa das contas certas mas de um presente e de um futuro cívico e ético hipotecado.
Sim, e eu sei que ter boas contas é importante para assegurar a democracia. Mas não é de todo suficiente. Nem estou a admitir que Pulido Valente o considere suficiente, mas também não explicou que tipo de regime proporia, limitando-se a falar de como seria fácil cortar na presença gigantesca do Estado em Portugal, o qual está a financiar a classe média, que ele próprio criou, numa sustentação social difícil, quando devia ter sido a própria economia a produzir essa classe. Mas isto é uma questão de arranjos ou de reorganização de meios sociais, quando eu gostaria de ver discutidos era os fins propostos para a sociedade. São coisas diferentes.
A segunda exige pensamento, a primeira qualquer técnico especializado está a habilitado para o fazer.

blogues

Paulo Gorjão, no seu post 880, pergunta por que razão as pessoas não citam mais outros blogues. Eu, por exemplo, tenho duas razões para não o fazer: 1. Por vergonha. É uma razão risível, mas é esta. A mesma razão que me leva a não deixar nenhum comentário onde quer que seja, conheça ou não os autores dos blogues; 2. Por considerar que a minha lista de favoritos indica os blogues que eu leio, e admiro, com mais frequência, logo todos eles passíveis de citação. Não são razões muito pertinentes, mas são as que me justificam.